Dois dias de carro pela Serra da Freita – o 1° dia

A Serra da Freita não é o mesmo que a Serra da Arada e a Serra de São Macário. E estas, todas juntas, não correspondem exactamente ao Maciço da Gralheira. No entanto, por uma questão prática e uma vez que não existe qualquer controlo de fronteiras por esta região falaremos adiante sobre um território largo.

Que tal começar o passeio de carro pela Serra da Freita por um almoço no restaurante Mira Freita, na aldeia de Felgueira, concelho de Vale de Cambra? Às portas da Freita, este é um dos mais afamados restaurantes da região e a sua vitela confirma que a fama é merecida a cada segundo da degustação da carne local.

Esta aldeia fica num ponto elevado onde as plantações de milho se sobrepõem às vinhas e videiras. Os espigueiros, aqui chamados de canastras, deixam ver o milho amarelinho. E a lenha vai-se acomodando à porta das casas e à beira da estrada, que o Inverno está aí à porta (a viagem foi feita no início de Outubro).

De barriga cheia iniciei então o passeio de dois dias seguindo até ao pico do Espigão, a pouco mais de 1000 metros de altitude, o primeiro dos largos pontos de vista que temos ao nosso dispor. Aqui está instalado o Radar Meteorológico de Arouca, cuja torre se avista desde longe e nos vai ajudando a situar na paisagem. E este é ainda o lugar de uma daquelas torres de arquitectura familiar nas serras portuguesas. Um senhor estava no seu topo e perguntei-lhe se também poderia subir. “Só se me quiser ajudar a avistar um fogo”. Em época, cada vez mais alargada, de alertas de fogo, todo o cuidado é pouco, e lá segui viagem mais segura, sentindo que mesmo que não houvesse fogo alguém olharia por mim.

O bom de viajar sozinha é poder parar o carro para tirar uma foto ou para ficar só a apreciar o cenário sempre que quiser. Mesmo que isso signifique parar o carro de 200 em 200 metros. Até que o subconsciente lá ordena, “pára com isso senão chegas ao fim do dia sem visitar metade do que te propuseste”. E a verdade é que a Freita e redondezas nos obriga a parar muitas vezes.

A paisagem é variada nas suas formações rochosas, mas há algo que é marcante: a história geológica da região. O Arouca Geopark, coincidente com todo o território do concelho, possui um património riquíssimo em valor geológico.

A primeira paragem foi no Campo de Dobras da Castanheira. Está estudado que estas rochas se formaram há mais de 500 milhões de anos nas profundezas de um mar antigo, cujos sedimentos deram origem às rochas que hoje podemos observar. Xisto, metagrauvacoides e até filões de quartzo. Para quem não é especialista ou interessado em geologia, temos sempre a belíssima paisagem deste vale da Castanheira.

Um pouco mais adiante chegamos a um dos pontos altos deste Geopark, as Pedras Parideiras, já na aldeia da Castanheira. Temos um pequeno museu e casa de apoio que nos explica este fenómeno raro de granitização no mundo. Uns passadiços elevados transportam-nos por uma área de afloramento granítico onde podemos conhecer umas curiosas pedras. O nome “parideiras” vem da situação de estas pedras possuírem uns nódulos pretos brilhantes (quartzo no interior e mica preta no exterior) em forma de covinhas que acabam por se autonomizar da pedra mãe e dar origem a novas pedras. Pedras que parem pedras.

Curioso fenómeno, repito, mas a paisagem vizinha destas Pedras Parideiras está à sua altura. O granito é soberano e a vegetação não abunda e é rasteira, feita sobretudo de tojo, urze e carqueja. O colorido pode parecer monótono, mas não o é. Umas vacas pastam amiúde, para compor o cenário. Aliás, a raça arouquesa, delícia gastronómica da região, é deixada livre para pastar nas encostas da serra e alimenta-se de forma natural, daí que depois de servida à mesa possamos confirmar como é tenra a sua carne. E da aldeia da Castanheira, terra de granito com presença também do xisto, avista-se não muito ao longe a Cascata da Frecha da Mizarela.

Da Castanheira até à Frecha são uns poucos mas intensos quilómetros. Os cabeços verdes dão lugar num ápice aos cabeços cinzentos. As formas das pedras cativam-me e nunca olho para duas iguais. Quanto mais não seja porque para lá de um muro de pedras empilhadas aparece-nos um campo de milho.

E já chegados à praia fluvial de Albergaria da Serra uns cavalos fazem companhia às vacas. O rio deste lugar é bem agradável.

A Cascata da Frecha da Mizarela é logo a seguir.

Um fiozinho de água é o que parece cair desde a alta parede rochosa que cai para o rio Caima, um dos muitos cursos de água que nascem ou se desenvolvem na região. Com 70 metros, esta é a mais alta cascata do país. Não é fácil perceber a verdadeira dimensão desta cascata face ao enorme cenário de montanha que cai sobre um vale que vemos desde o miradouro cá de cima, da estrada. Melhor seria se nos propuséssemos a seguir pelo percurso “Nas Escarpas da Mizarela”, um dos muitos percursos pedestres que existem na área do Geopark. O rei destes percursos é, claro, o multi-premiado “Passadiços do Paiva”, mas antes de visitarmos a Freita e suas cercanias é difícil ter noção da quantidade e qualidade dos caminhos que há para percorrer a pé por aqui. O percurso da Mizarela é apenas mais um deles, mas um daqueles que nos deixará bem mais perto de sentir o real poder desta queda de água. A confirmar numa visita futura.

Não havendo caminhada, há que seguir a viagem de carro.

A paisagem continua a encantar. Pedras, claro, e agora umas cabras guiadas por um pastor que nos obrigam a parar na estrada para as ver a brincar umas com as outras. Pura natureza.

O Miradouro de São Pedro Velho, a 1077 metros de altitude, obriga a uma breve mas agradável caminhada. Granito ou xisto à escolha. E já no miradouro norte e sul, este e oeste, igualmente à escolha. Diz-se que daqui se avista meio Portugal.

O mesmo para o Miradouro do Detrelo da Malhada. A 1100 metros de altitude, este é o ponto mais elevado da Freita, e agora temos Arouca e o seu fértil vale aos pés e nos dias bem limpos a costa atlântica entre Espinho e o Porto ao longe. Este miradouro tem uma forma engenhosa, uma plataforma circular suspensa que nos dá a sensação de flutuar no céu perante uma paisagem imensa.

Miradouros e pedras, uma dupla imbatível na Freita. E estradas praticamente desertas que vão rompendo pelas pequenas elevações granítico-amareladas.

Outra das curiosidades da Freita são as Pedras Boroas do Junqueiro. “Boroa”, que palavra é essa? Ainda se fosse pão de broa, ainda vá, mas boroa? Pois é, a Freita tem até uma pedra que ao engano pode fazer crer que é para ser mordida. Mas cuidado, que esta boroa é de granito. Na verdade são duas boroas, ou melhor, dois blocos de granito com cortes tais que se assemelham mesmo a umas broas. E assim fiquei também a saber que broa pode também ser designada como boroa.

Este é mesmo o reino da pedra. Elas ali aparecem, juntinhas, no meio de um prado onde as vaquinhas pastam sossegadamente.

Daqui seguimos para Manhouce, já no concelho de São Pedro do Sul. Terra da Isabel Silvestre, como alguém fez questão de lembrar, não foi a música, no entanto, que colocou esta aldeia no mapa. Foi antes a sua beleza, quer construída quer natural. Em tempos Manhouce chegou a ganhar o segundo prémio num concurso das aldeias mais portuguesas de Portugal. Vale a pena caminhar pelas ruas do povoado feito de casas de granito e telhados de ardósia.

E em Manhouce e ao seu redor existem ainda umas quantas piscinas naturais para descobrir. Também conhecidos como “poços”, junto à ponte romana ficam o Poço da Gola e o Poço da Silha (infelizmente não consegui dar com este último).

Mais incríveis são o Poço da Barreira, para um lado, e o Poço Negro, para o outro. Para chegar até às suas águas há que ser aventureiro e, pareceu-me, arriscar a saúde. Mas mesmo sem mergulhos a visita a estes Poços vale bem a pena pela paisagem e beleza soberbas. O Poço Negro no rio Teixeira, então, é uma imensa piscina redonda com uma cascata com uma dimensão generosa rodeada por uma densa vegetação.

Este primeiro dia pela Freita já ia longo e com o fim da tarde a chegar, mas pela serenidade da estrada desfilavam as canastras com o milho escondido, enquanto as suas folhas descansavam à sua beira. Uma trabalhadora seguia na labuta.

Tempo ainda para seguir pela estrada da Freita que nos permite o desvio para as aldeias de Cabreiros, Tebilhão e Cando, apenas avistadas de longe.

As paisagens da Freita são ainda mais soberbas ao cair do dia quando as cores se tornam irreais, rosas misturados com violetas e laranjas, antes do negro da noite tudo tomar.

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