Rumo ao Centro da Ilha – As Roças

Acordamos onde adormecemos, no paraíso. No Mucumbli. O espaço das refeições, alcandorado, debruça-se sobre o mar calmo.

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Lá em baixo, o mar espraia-se pelos seixos que compõem as margens. Poucos metros a seguir, quase a invadir o mar, uma vegetação, densa, que não deixa o sol dos trópicos, já alto numa manhã pouco adiantada para os padrões europeus, transpor.

Fazemo-nos ao caminho.
Pela frente temos um dia exigente, que há-de acabar em São João dos Angolares. Contudo, pelo meio há muito para ver.
O plano é rumarmos para o centro da ilha, no entanto, teremos que fazer grande parte da estrada da véspera, em direcção à capital. Contingências físicas e de infraestruturas da ilha.
O lado positivo é que vamos repetir alguns troços lindos que fizemos na véspera.
Logo à saída de Neves deparamo-nos, pela estrada, com a dinâmica da faina piscícola, ou não fosse ali a terra da Santola.
A manhã está linda e serena e a imagem dos barcos ao largo conquista-nos. Paramos, tal como um miúdo sob uma pedra faz, para observar toda aquela placidez.

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Avançamos, para nos cruzarmos com uma imagem que veremos repetidamente, a lavagem da roupa  junto aos rios, que neste caso está prestes a desaguar no mar.

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De seguida, rumamos directamente para a Roça Monte Café, que como o nome indica produz café. O café, ao contrário do cacau, dá-se em altitude. Começamos a nossa subida, o tempo torna-se cinza e mais húmido.

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Visitamos o museu do café existente na Roça Monte Café e conhecemos um pouco da história daquela roça, da vida dos que ali trabalharam e das condições de outrora.

Percebemos que o termo “contratados”, aplicado aos que ali trabalhavam, não passava de um eufemismo. O trabalho forçado, vulgo escravatura, supostamente, já tinha acabado, mas, tal como ainda hoje em muitos sítios do mundo, persistia de forma encapotada.
A vida por ali não era fácil, ainda mais considerando que parte da população que trabalhou nas roças foi, involuntariamente, levada de outras colónias, designadamente de Cabo Verde e Angola.
Realidade forte e amarga, como o café.
A vida apesar de leve-leve, como os São Tomenses avançam, provavelmente continua a não ser fácil para muitos. Começando pelos deslocados das outras ex-colónias, os quais findo os grandes processos produtivos e a descolonização, para sempre ficaram ali desenraizados e discriminados. A este respeito vale a pena ver este documentário.
Saímos do museu e percorremos alguns dos espaços da roça. Ao lado encontra-se o secador, onde se fazia o processo de seca do café, à frente a bomba de gasolina, próximo a Casa Grande, um pouco mais abaixo as senzalas, ao lado o sino, elemento que chamava todos os trabalhadores para a formatura e contagem…

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Mais acima fica a escola primária e temos a certeza que, tal como inscrito na sua parede, a educação é o caminho. Sem ela o percurso será sempre mais árduo.

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Ao longo dos dias vamos perceber que muitas crianças não vão à escola. A educação é o desafio e o contributo que quem é de fora pode dar. Não é com a pequena caridade, levada por muitos dos que visitam o país, revelada pelo “doce-doce” que nos é pedido a quase cada metro que nos deslocamos, que se deverá fazer o caminho da ajuda necessária.
Prosseguimos viagem. Imergimos ainda mais no interior da ilha, onde a vegetação se torna mais densa e de maior porte. A humidade é também maior. Começamos a subir, subir, por estradas que abandonam o alcatrão.

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Enfim, chegamos a Bom Sucesso. Ao jardim botânico. Inicialmente pensámos ir até à Lagoa Amélia, uma antiga cratera de um vulcão entretanto ocupada por vegetação, no meio do parque natural Ôbo. O caminho começa no jardim botânico, mas percebemos que a caminhada é mais longa do que pensávamos e realizamos que não temos tempo.
Na impossibilidade de nos cruzarmos com a flora e fauna do trajecto, debruçamo-nos nas espécies presentes no jardim botânico.

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Uma delícia. Conhecemos dezenas de espécies novas, algumas já familiares ao ouvido, por serem a origem de alguns dos ingredientes usados na culinária local, outras completamente novas, como a planta “não me toques” que se encolhe ao toque. Ali cruzamo-nos também com os, belíssimos, bicos de papagaio fêmea e macho.
Com a natureza a entrar por nós, prosseguimos para a Cascata de São Nicolau, uma das maiores da ilha. Imponente.

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A hora de almoço chega e vamos até à Roça da Saudade, outrora onde nasceu Almada Negreiros e hoje a sua casa museu. O espaço é pequeno e faz-se sobretudo de inscrições da obra deste Modernista.
“A alegria é a coisa mais séria da vida”. Assim escreveu Almada Negreiros e ali se encontra escrito. Subscrevo.
Encarando a vida de forma séria, almoçamos no restaurante da casa museu. Os ingredientes locais desfilam na nossa mesa, para a festa se fazer nas nossas bocas.
De alma e barriga cheia rumamos a sul. Voltamos a ter o mar como companhia. O verde, esse, está por todo o lugar.
Água Izé. Outra roça outrora importante. Alguns espaços cristalizaram. Não mais operaram, mas a maquinaria está intacta como se apenas tivesse havido uma pausa. Embrenhamo-nos pela malha da roça. Está lá a Fábrica de Óleo de Palma, as oficinas de fundição e serralharia.

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Estão também as antigas senzalas e outros espaços hoje ocupados como local de residência de inúmeras famílias. É assim a actual ocupação em todas as roças.
Mais à frente está à praia Izê, com os barcos a repousarem em terra.

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Logo a seguir encontramos a Boca do Inferno, com as colunas de basalto a serem polidas pela força do mar. O preto da rocha contrasta com o azul forte do mar e o verde da vegetação. Os coqueiros agitam-se pelo vento e pousam para a fotografia. Resulta um ambiente absolutamente tropical. Estamos mesmo nos Trópicos”

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Entramos no serpentear de curva contra curva, sempre a perscrutar o mar, que ali vem dar a uma costa de seixos negros ou areia escura. No dia seguinte dedicar-nos-emos a esta parte da costa. Agora, é momento de chegarmos à Roça de São João dos Angolares, entretanto reconvertida em hotel, restaurante e centro de artes. Ali ficaremos as próximas duas noites.

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No final do dia sentimos o ambiente do local.
Entramos na casa principal, actualmente o local que alberga o hotel. De portas e janelas abertas, o vento do final da tarde entra, sem pedir autorização, casa adentro e torna mais fácil suportar a densidade do calor tropical.

Passeamos pela envolvente e visitamos a RAM – Residência Artística do Mundo.

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A arte está enquadrada com o ambiente local. Respira-se África ou não estivéssemos em África.

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A noite entra e embarcamos noutra viagem. Uma viagem gastronómica, feita pelos sabores de São Tomé, a partir do menu de degustação na Roça de São João dos Angolares, o espaço do cozinheiro João Carlos.

Depois do jantar, com a noite instalada, no nosso quarto, todo ele a remetermo-nos para o tempo colonial, entram ecos da tempestade que se faz lá fora. Excessiva e intensa, como são os Trópicos.

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