Pelo Rio Coura

O rio Coura nasce na Serra do Corno de Bico, a quase 900 metros de altitude, e segue por cerca de 50 kms até desaguar no rio Minho, em Caminha. A Estrada Nacional 301 acompanha-o em grande parte nesse percurso e foi por ela que seguimos.

Antes de sair de Caminha, subimos ao miradouro de Santo Antão para poder observar a foz do Coura como só os pássaros o fazem. O nevoeiro cerrado, porém, não o permitiu.

A primeira paragem deu-se em Vilar de Mouros. Esta povoação é pouco mais do que um ponto no mapa com muitas igrejas e capelas, uma ponte românica de granito em estilo gótico e uma praia fluvial idílica.

Só que este ponto saiu definitivamente do mapa em 1971 com a realização do 1° Festival de Vilar de Mouros. Custa a crer que um sítio tão pacato possa ser invadido numa determinada época do ano por milhares de festivaleiros. Mas o extenso manto verde à beira Coura e com a silhueta dos montes a emoldurá-lo que se transforma no recinto do festival no Verão parece ter lugar para toda a gente. No resto do ano, a aldeia não é invadida por mais do que pescadores recreativos de truta ou raros curiosos, como eu.

Meio quilómetro para além da ponte de Vilar de Mouros encontramos a praia fluvial das Azenhas, um pouso lindo com uma pequena língua de areia de frente para uma azenha e com um açude que quebra a monotonia.

O topónimo “Vilar de Mouros” dever-se-á ao facto de por volta do século VIII aqui se ter instalado um núcleo de mouros, sendo que a palavra “vilar” é a palavra árabe para aldeia. Mas antes disso ter-se-ão aqui instalado também os romanos, os celtas e os suevos, todos eles encontrando refúgio nesta terra recolhida.

De Vilar de Mouros até Covas a estrada acompanha sempre o Coura de perto. Nem sempre o vemos mas vamos sentindo a sua presença e o seu odor. Algumas abertas por entre o arvoredo denso deixam ver pedaços do rio com tons de azul cobalto.

Antes da chegada à aldeia de Covas aparece-nos uma barragem de águas calmas, com o Coura a tornar-se mais largo. A estrada que corta para a direita sobe até às antigas minas de volfrâmio e tungsténio de Vilares, hoje desactivadas, e é uma das portas de entrada da Serra de Arga. Cortando para a esquerda atravessamos a moderna ponte sobre o Coura e com pouca demora entramos em Covas. Subindo pela serra abre-se o miradouro do Canal do Coura e ganhamos uma outra visão da paisagem.

Junto a Covas existem uns lugares para se tomar banho no Coura. A Zona de Lazer de Covas representa dois mundos opostos. A água vem tranquila para, ao cair sobre o açude e as pedras, logo se tornar rebelde. O barulho é ensurdecedor. A Azenha de Pagade, logo adiante, é mais um recanto do Coura e mais um testemunho dos moinhos de água implantados à beira deste rio.

Até Paredes de Coura não seguimos sempre junto ao rio. Uma placa aponta o desvio para Romarigães, a Casa Grande de Aquilino, mas seguimos o objectivo de acompanhar o Coura até quase à sua nascente.

Paredes de Coura é a outra povoação do Coura mundialmente famosa por receber mais um festival de verão. A Praia Fluvial do Taboão possui, à semelhança da de Vilar de Mouros, um extenso relvado. Mas nesta é mais fácil aceder ao rio em muitas das suas zonas e está mais preparada para receber os candidatos a mergulhadores ou nadadores.

O rio é aqui um pouco mais largo, as suas águas calmas e a vegetação intensa. Mesmo Paredes de Coura, sede de concelho, é já uma povoação mais crescida, mas o montão de igrejas continua. Destas, vale a pena conhecer (por fora, porque por dentro já se sabe que as igrejas do nosso país estão sempre fechadas) a Capela Ecce Homo e a sua formosa fachada rococó.

Até porque o rio passa aqui perto e a Praia Fluvial de Casaldate é um dos últimos pontos para se experimentar da água do Coura antes de chegarmos à sua nascente. Neste vale vacas pastam, insensíveis ao rio e ao cenário de montanha que as rodeiam. Aliás, vacas são com quem mais nos cruzamos nas estradas neste final de viagem pelo Coura. Os espigueiros são um dos poucos testemunhos da vida humana por aqui. Bem como as medeiras, forma típica da região de empilhar a palha.

A Paisagem Protegida Regional de Corno de Bico, com aldeias como Cristelo, Bico, Vascões e Lamas, é todo um mundo à parte daquele em que nos habituámos a viver. Um mundo natural e rural profundo e distante. Reduto de uma fauna e flora bem conservadas, nesta zona montanhosa, com o Corno de Bico a 833 metros de altitude, abundam os grandes blocos de granito. Chega a ser um lugar inóspito, até porque não nos cruzamos com ninguém. Só nós e a natureza. E, algures, o Coura a tornar-se rio e a preparar o seu caminho.

Um pensamento sobre “Pelo Rio Coura

  1. Pingback: Pelo Rio Coura — Andes Sem Parar – #ITWtravelBlog

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s