Pelo interior da ilha do Pico sem vislumbrar a montanha do Pico

Os meus planos para a ilha do Pico começaram logo com alterações à chegada à ilha. Era suposto chegar de barco vinda do Faial até ao porto de São Roque, mas, ao invés, o barco aportou na Madalena. Teria, então, que seguir de carro da Madalena até São Roque nesse final de tarde. A estrada mais óbvia a tomar é a regional. Mas porque o óbvio nem sempre quer alguma coisa comigo e porque também não tenho muito jeito na escolha das estradas, como primeira impressão da ilha do Pico tive logo o seu interior e uma das suas estradas de montanha. Ao percorrê-la via a montanha do Pico fechada e, do outro lado do Canal, a Ilha do Faial com o seu topo também atravessado por nuvens e ambas me pareceram, aí, estranhamente parecidas. À medida que o dia caia, os coelhos saiam da toca e era vê-los destemidos a atravessarem-se no meu caminho.

Mal sabia que nos dois dias seguintes não veria rigorosamente nada da montanha do Pico. Mas o que acontece com o clima nos Açores é que vai mudando constantemente num mesmo dia. Por isso, nestes dois dias de tempo horrível consegui, ainda assim, algumas paisagens desafogadas, o suficiente para concluir que o interior da ilha do Pico é verde e lindíssimo, com poucos ou nenhuns vestígios do negrume da lava que faz a fama da ilha.

Na esperança de que o céu à volta da montanha do Pico pudesse estar também ele liberto de nuvens, ainda subi até à casa de abrigo onde começa o trilho até aos 2351 metros da maior elevação de Portugal, mas nada a não ser um nevoeiro cerrado me esperava. Por isso, esta viagem pelo interior da ilha do Pico não mencionará mais o Pico.

Para além da estrada regional circular que corre toda a costa da ilha, o Pico tem também a incrível Estrada Longitudinal que corta a direito metade da parte central da ilha e, depois, tem ainda a Estrada Transversal e uma série de estradas rurais de montanha, quase sempre transitáveis por carro.

O Pico é a ilha com o maior número de cavidades vulcânicas conhecidas dos Açores, cerca de 129. Raul Brandão escreveu que a ilha era “cheia de crateras inofensivas e roxas, abrindo as bocas diante mim, com um pouco de azul lá dentro”. Por isso, o que nos espera num passeio pelo interior da ilha é uma série de montes cônicos, os cabeços, cada um de forma distinta mas sempre formosa. A paisagem é magnífica. Tapetes verdes preenchidos aqui e ali por uma fiada de arvoredo onde a única presença animal parece ser a das vacas que pastam nos prados delimitados por uns muros feitos da pedra do costume.

A dado passo, contraste perfeito entre o verde e o azul, o mar do Atlântico passa a acompanhar-nos lá bem em baixo, cheio de carneirinhos, indício de que o barco não sairia mais uma vez nesse dia.

Mas o mais surpreendente neste interior da ilha do Pico são as turfeiras (pequenos charcos) e as incontáveis lagoas que aparecem subitamente no nosso caminho. Serão mais de 30 as lagoas, guardando serenamente a água das chuvas e do nevoeiro e para onde muitas aves migratórias vêm descansar.

A Lagoa do Capitão será a mais famosa por daqui se conseguir, em dias de sorte, uns reflexos incríveis do omnipresente mas naquele dia invisível Pico. Mas para memória futura ficará, ainda, a Lagoa Seca (nome mentiroso) e a vizinha Lagoa do Caiado.

E muitas mais lagoas das quais perdi o nome mas guardo a fotografia e retenho no coração o encanto.

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