Estrada Transfagarasan

A vontade de conduzir a Estrada Transfagarasan foi o motivo que me fez ir adiando a visita à Roménia. Devido ao clima, esta estrada de montanha apenas está aberta no verão, daí que para nela rolar se tenha de estar atento não apenas ao calendário mas também ao boletim meteorológico.

E qual a piada de conduzir nesta estrada? Serve dizer que a Transfagarasan foi considerada pelo programa de TV Top Gear como a melhor estrada do mundo?

Esta estrada atravessa as montanhas Fagaras, as mais altas da Roménia, as quais constituem a fronteira tradicional entre a região da Wallachia e da Transilvânia. Havia e há outras estradas que atravessam de forma menos abrupta os Cárpatos e ligam estas duas regiões, mas nos anos 70 Ceausescu decidiu levar adiante o projecto desta estrada. Foram quase cinco anos de construção, toneladas de dinamite para rebentar as rochas da montanha, muitos trabalhadores mortos por acidente, tudo isto porque o ditador temia uma invasão inimiga e com esta estrada – a mais alta asfaltada da Roménia – teria uma ligação militar mais directa entre o norte e o sul no país.

A Transfagarasan é fabulosa.

São 92 épicos quilómetros que atravessam um castelo, florestas, montanhas, lagos e cascatas, desde a povoação de Arefu, no condado de Arges, até Cartisoara, no condado de Sibiu.

Do aeroporto de Bucareste até Curtea de Arges, a antiga capital da Wallachia no século XIV, são pouco mais de duas horas, grande parte delas em auto-estrada. A partir daqui com pouca demora passamos pelo Castelo de Poienari, o verdadeiro castelo de Drácula, o príncipe Vlad Tepes, ou Vlad, o Empalador, que dele fez fortaleza e prisão neste já então lugar estratégico como Passo entre as duas regiões. E digo “passamos” e não “visitamos” porque uma colónia de ursos deambula por aqui, tornando o caminho de subida até ao castelo perigoso – para os ursos, que se assustam com as pessoas – e, por isso, encerrado temporariamente. Diz-se que Ceausescu adorava ursos e proibiu a sua caça. Em resultado, eles tornaram-se tantos que na Roménia vivem 80% dos ursos de toda a Europa.

Após o Castelo de Poienari começamos a perceber o porquê da viagem. A paisagem é maravilhosa, com a montanha cortada a meio pelo rio que corre ao fundo. Subimos bem, sempre a baixa velocidade, não só pela pendente mas também pelas curvas fechadas que se sucedem. E eis que surge o primeiro lago, o Vidraru, uma barragem onde uns barcos navegam nas tranquilas águas sob o recorte das montanhas.

A velocidade mantém-se baixa, sempre atentos à beleza da estrada, aproveitando para fazer de Fittipaldi nas breves rectas. Ao redor do lago Vidraru a floresta é densa, interrompida aqui e ali pela agua a escorrer à beira da estrada, vinda não se sabe muito bem de onde.

Continuamos a subir e a temperatura vai descendo – cerca de 13° entre o início da subida e o ponto mais alto da estrada – até chegar a uns 15° e não se conseguir imaginar a quanto baixará no Inverno.

Parece perto mas ainda demora até se chegar ao Lago Balea, o tal ponto mais alto da estrada, a 2034 metros de altitude. Antes passamos uma cascata, uma pequena capela, um refúgio de montanha e vemos os picos a aproximarem-se e a ficarem mais afiados a querer rasgar o céu. Curva contra curva, a estrada de asfalto encaixada num vale estreito de verde raso a preencher as paredes montanhosas. Já estamos bem no alto, ainda que não no ponto mais alto, e já completamente rendidos a este cenário.

Há-de vir o mais longo túnel da Roménia, quase um quilómetro, e então sim, eis o Lago Balea com os tais 2034 metros de altitude. O lugar mais famoso da Estrada Transfagarasan é também o mais concorrido. O lago é bonito, fácil e agradável de se contornar, mas o que querermos agora é procurar assento na montanha para contemplarmos a imagem com que havíamos sonhado. É uma incrível descida vale abaixo onde a estrada de asfalto se vai contorcendo. Parece o traçado de um circuito de Fórmula 1 ou até, gosto de lembrar, uma daquelas pistas de carros que montava no hall de casa quando era criança.

Chega, então, o momento de descer esta pista, igualmente a baixa velocidade pelos cotovelos apertados e pela vontade de fazer com que o tempo não passe. A cabine do teleférico vermelho voa sobre nós, rasgando o azul do céu rumo ao verde da montanha. A Cascata Balea está mais abaixo, perto da entrada da estação do teleférico, mais um lugar muito concorrido, e logo voltamos a ficar rodeados de floresta e em breve a Transfagarasan terminará.

E o bom desta aventura é que não é preciso nem um carro como os da Fórmula 1 ou do Top Gear ou as suas loucas velocidades para nos divertirmos a valer na condução desta enormíssima estrada. Aqui, a velocidade cruzeiro é a mais prazerosa.

Um pensamento sobre “Estrada Transfagarasan

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