Palácio do Beau Séjour

A Estrada de Benfica é nos dias de hoje uma artéria que não hesitamos considerar parte integrante de Lisboa. Mas nem sempre foi assim. Em 1849, quando D. Ermelinda Allen Monteiro de Almeida, a 1ª Baronesa e 1ª Viscondessa da Regaleira adquiriu a Quinta das Loureiras na Estrada de Benfica o lugar estava implantado nos arrabaldes da capital. Não se sabe com certeza o porquê dessa escolha, mas provavelmente ter-se-á ficado a dever ao facto de esta quinta se situar a meio caminho do palacete da família no Largo de São Domingos, em Lisboa, e da quinta da família em Sintra, Palacete da Regaleira e Quinta da Regaleira, respectivamente.

A Estrada de Benfica era, então, uma via que ligava o centro de Lisboa à sua periferia. Com o passar dos anos e o desenvolvimento e crescimento da cidade no século XIX acabou por ser por ela aglutinada.

Benfica foi uma das últimas freguesias rurais de Lisboa e nos dias de hoje a Estrada de Benfica e seus arredores mantêm, ou mantiveram até há poucos anos, algumas das suas quintas e palacetes. Nos arredores, por exemplo, o Palácio Fronteira continua como um dos mais soberbos palacetes e jardins da cidade, só que agora separado do bairro pela via rápida Radial de Benfica, e o Estádio da Luz teve origem na Quinta Montalegre. No que respeita ao que resiste na Estrada de Benfica propriamente dita, esta tem início com parte dos jardins do Conde de Farrobo (onde está instalado o Jardim Zoológico), com o Convento de Santo António da Convalescença logo à espreita, segue com o Palácio Beau-Séjour (antiga Quinta das Loureiras), tem espaço ainda para o Palacete do número 382 (virado para a Avenida Barjona de Freitas), terminando definitivamente com as Portas de Benfica, as quais assinalaram até ao fim do século XIX o limite fiscal da cidade de Lisboa. Pelo meio, muitos outros elementos de interesse como chafarizes monumentais, pastelarias míticas (com a Califa à cabeça) e um bairro operário de fachada neoclássica (o Bairro Grandela).

Continuemos, então, com a história do Palácio Beau-Séjour, personagem principal deste texto. Já sabemos que estava situado no caminho Lisboa – Sintra, entre propriedades da nobreza da Regaleira, que adquiriu a então Quinta das Loureiras em 1849.

As quintas oitocentistas possuíam uma parte rural e outra urbana e a Viscondessa mudou o nome desta para “Beau Séjour”, tradução “boa estadia”, e mandou construir um edifício ao gosto inglês, de fachada simétrica e estreita com dois torreões, rés-do-chão e 1° piso, com um pequeno terraço a toda a volta. No jardim, ao gosto romântico, foram plantadas espécies exóticas como a figueira da Austrália, araucária e jacarandá, algumas destas ainda de pé, logo, centenárias.

Os azulejos que revestem a fachada já não são da época da Viscondessa. Com a morte desta, a sobrinha que herdou vendeu a Quinta em 1859 a António José Leite Guimarães, o Barão da Glória. Este havia emigrado para o Brasil, donde voltou rico com o negócio de tecidos e fazendas. Benemérito da comunidade emigrante, ele e seu irmão, o que ganharam quiseram dar em troca, investindo na Quinta do Beau-Séjour. Tirou o muro que dava para a Estrada de Benfica, de forma a que da rua se visse para o interior da quinta, aumentou o lago, espalhou estátuas pelo jardim, realçou as portas e janelas em arco com cor e, já se disse, forrou o edifício a azulejos. Ficou uma casa ao estilo daquelas que ainda hoje se veem no norte do país, a “Casa dos Brasileiros”. Terá sido por esta altura que a quinta ganhou o outro nome por que é também conhecida, a Quinta das Campainhas, alusão às campainhas de vidro colocadas na cobertura do coreto do lago que teimavam em tilintar ao vento.

Nenhum dos irmãos Barões teve filhos e foram os sobrinhos a herdar a Quinta. E estes, prosseguindo o espírito mecenático dos tios, mandaram proceder a alterações de monta no interior, trazendo os melhores artistas do reino para que, entre 1887-1892, executassem um programa decorativo. Os trabalhos foram coordenados pelo decorador Francisco Vilaça e este é o único lugar onde sob um mesmo tecto podemos observar obras dos três irmãos Bordalo Pinheiro (Columbano, Rafael e Maria Augusta). Admiramos os tectos das várias salas, mas também o chão.

No Salão Dourado, então a divisão mais nobre e hoje transformado em sala de leitura, Columbano pintou “O Carnaval de Veneza” no tecto – é uma tela e não pintura directa e aqui vê-se representada a sua irmã.

Na sala seguinte, a Sala da Música, hoje também sala de leitura, foi Vilaça quem executou a obra “A Pintura e a Escultura”, com estuques nas paredes e pinturas do tecto com motivos alusivos à música.

No vestíbulo à entrada para a Sala de Jantar podemos admirar o painel cerâmico da autoria de Rafael, executado na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, o qual integra um lavatório.

E na Sala de Jantar, hoje sala de conferências e exposições, é onde podemos encontrar a obra conjunta dos três irmãos. Sobressai o candeeiro em cerâmica, obra de Rafael, bem como motivos vegetalistas no tecto – os de cerâmica obra do mesmo Rafael, as pinturas obra de Maria Augusta. A cargo de Columbano ficaram as telas da parede, entretanto dispersas por leilão.

De realçar ainda o facto de todas as divisões do palacete possuírem ligação para o exterior e jardins, uma criação da Viscondessa e mais uma manifestação do gosto inglês.

Até à década de 1970 a quinta mantinha a sua dimensão original, estendendo-se quase até ao Alto dos Moinhos. A urbanização levou esta zona de pomar, vinha e horta, restando hoje o antigo palacete e seu jardim. É este jardim que nos dá a primeira (grande) impressão do lugar, com árvores frondosas, caminhos sob as suas copas, um lago, duas deliciosas coberturas em ferro a lembrar um coreto e elementos decorativos como uma fonte em pedra. Em resumo, um espaço belo e intimista que uma passagem pela Estrada de Benfica não deixa perceber de imediato.

O Palácio do Beau-Séjour é hoje propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, funcionando aqui o Gabinete de Estudos Olisiponenses. Como serviço público que é, no horário de expediente podemos visitar não apenas os jardins e fachada do edifício como também algumas das suas salas interiores.

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