Da Vila de Sintra ao Castelo dos Mouros

Não há melhor forma de circular por Sintra do que a pé. Em tempos já tínhamos escrito aqui sobre a jornada até ao Palácio da Pena desde o centro da vila através do caminho da Vila Sasseti. Desta vez seguimos caminho com partida desse mesmo centro com passagem pela entrada do Palácio da Pena, visita ao Castelo dos Mouros e volta ao ponto inicial, de forma circular, aproveitando as “Pequenas Rotas” do PR2 (Percurso da Pena) e PR3 (Percurso do Castelo). Coisa para uma manhã em cheio.

Saímos do largo do inigualável Palácio da Vila, o mais antigo palácio português, com origem no primitivo paço dos antigos governadores mouros da Sintra do século X, já com o Castelo dos Mouros sob mirada lá no alto, com alguns dos palacetes que fazem a fama de Sintra sob o seu colo.

E logo tomámos as estreitas ruas da vila, cheias de cotovelos, até chegarmos ao miradouro da Ferraria. Daqui, uma vista diferente mas igualmente próxima do Palácio da Vila, com as suas distintas chaminés. Ultrapassado mais um chalet apalaçado e damos com a Fonte da Sabuga.

São muitas as fontes que se vão vendo pelos caminhos de Sintra, mas esta fonte medieval reconstruída no século XVIII será a mais chamativa e célebre das fontes de Sintra, reconhecida ainda pelos seus poderes milagrosos. Está decorada com um tom azul e o dourado do sol que a encima retém a nossa atenção, bem como a pedra de armas de Sintra logo acima.

Após uma breve subida com vista para a planície das terras de Sintra, chegamos a um recanto mais recolhido da vila, onde ficam a Igreja de Santa Maria (do século XII, em estilo românico-gótico), a Casa do Adro (onde em 1866 viveu Hans Christian Andersen) e o Convento da Santíssima Trindade (hoje residência particular sem visitas ao público). E pelo meio uma casa com uma fachada curiosa.

Mais umas centenas de metros e a São Pedro de Penaferrim vê-mo-la lá em baixo. A estrada continua e segue-se um trilho com algumas árvores caídas, certamente consequência de temporal recente, que nos leva ao topo do Monte Sereno com seu castelo particular. Daqui avista-se já do outro lado o Castelo dos Mouros. E com pouca demora perceberíamos que do Castelo dos Mouros também se observa livremente o castelinho do Monte Sereno, como se mantivessem ambos um diálogo próximo e constante.

Na subida pela Calçada da Pena encontramos, por fim, veículos motorizados, carros particulares, autocarros e tuk-tuks, muitos tuk-tuks. Mas aqui encontramos também a vegetação cerrada da Serra de Sintra. Passamos pela entrada do Palácio da Pena, apreciando o colorido do seu edifício pintado num céu azulíssimo, e um pouco mais adiante eis o Castelo dos Mouros. Ao invés de seguirmos directamente para a sua entrada, vale a pena espreitar a casa do guarda junto à segunda cintura de muralhas (para incremento da área fortificada e protecção da população e bairros que se instalaram na vertente), com bar esplanada, e deambular pelo caminho que descerá até ao centro da vila para mais um miradouro com belas vistas.

De volta em direcção ao Castelo, não nos cansamos de apreciar as formosas rochas que são também elas parte da paisagem de Sintra.

Imediatamente antes da entrada do Castelo dos Mouros recebe-nos a Capela de São Pedro com o seu Centro de Interpretação da História do Castelo dos Mouros, um pequeno museu com achados arqueológicos. Nas imediações da capela percebemos umas estruturas escavadas na rocha que serviram há séculos para armazenamento e conservação de cereais e leguminosas. Por aqui estava o primitivo bairro medieval islâmico, mais tarde lugar de uma necrópole cristã, hoje transformado numa área arqueológica.

A passagem pelo pano de muralha mais imponente do Castelo dos Mouros faz-nos entrar num outro mundo, transportando-nos pela história.

Corria o século VIII quando, numa vertente mais elevada da Serra de Sintra, a cerca de 400 metros de altitude, os muçulmanos decidiram construir aqui uma fortificação de defesa do seu território após a conquista da Península Ibérica aos visigodos. O castelo terá funcionado como atalaia de controle da costa atlântica e dos territórios a norte, desempenhando a função de posto avançado da cidade de Lisboa. Mas, após anos de disputas, quer a fortificação quer o território acabaria por ser perdido para os cristãos no século XII, com a conquista definitiva por D. Afonso Henriques em 1147, tendo nessa época sido edificada a primeira capela cristã de Sintra, dedicada a São Pedro. As muralhas foram objecto de restauro no período romântico, por volta de 1860, sob a direcção Dom Fernado II, que arborizou igualmente os espaços envolventes. É interessante aprender que a vegetação intensa que caracteriza a Serra de Sintra dos nossos dias é um fenómeno recente. E nisso, como em muitos outros aspectos em Sintra, com destaque para o Palácio da Pena, a acção de D. Fernando II, o Rei Artista, foi decisiva. Nessa época a Serra tinha um aspecto nu, sem a vegetação primitiva de carvalhos, provavelmente em consequência da expansão de actividades como a pastorícia e a agricultura e da exploração florestal pela procura de lenha, carvão e madeira. Só no século XIX, com a chegada de D. Fernando II, inspirado pelo Romantismo, foi a Serra de Sintra reflorestada, com a introdução de espécies exóticas, tendo igualmente dado início à moda da criação dos jardins “à inglesa”. A paisagem de Sintra transformou-se no que vemos hoje e, para além dos muitos palacetes e seus jardins, ao lado dos autóctones carvalhos temos acácias, araucárias, plátanos, fetos, pinheiros, eucaliptos e ciprestes.

E porquê esta referência à paisagem de Sintra quando dizíamos ter entrado no Castelo passando pela sua porta muralhada? Porque o Castelo dos Mouros, não desfazendo a sua história, tem tudo a ver com paisagem. São vistas e mais vistas, todas elas fabulosas, fazendo-nos pensar que a vida se resume a isso: a uma paisagem, a paisagem de Sintra.

Ao caminhar pela muralha quase nunca perdemos de vista o Palácio da Pena, mas enquanto que da Alcáçova e Torre de Menagem temos a vila de Sintra aos nossos pés, contornando-a para seguirmos, subindo, até à torre do lado contrário, a Torre Real, ficamos com a Quinta da Regaleira e Seteais à nossa beira e o mar, esse, com todo o Atlântico da costa de Sintra sempre no nosso horizonte próximo.

É, pois, um prazer caminhar pela muralha do Castelo dos Mouros. Prazer maior ainda é deixarmo-nos estar na Torre Real, imitando D. Fernando II na sua época a contemplar a Pena, mas não a pintar a Serra.

Descendo a muralha, ao invés da passagem pelo extenso terreiro da Praça de Armas optamos pelo caminho rodeado de vegetação e grandes e bonitas rochas para chegar até à saída do Castelo.

Já cá fora, a volta ao centro da Vila inicia-se com uma curta passagem pelo interior da Tapada dos Bichos. Há que seguir a caminhar com atenção para não perder as vistas quer para o Palácio da Pena quer para o Castelo dos Mouros, por entre as árvores.

Depois o percurso segue por estrada, pela Rampa da Pena, cheia de curvas e mais curvas. E vários chalets, como o Chalet do Relógio e o Chalet Biester com os seus torreões a lembrar um palacete. No fim da descida da Rampa da Pena aí temos, então, o final da nossa jornada com a chegada ao centro histórico de Sintra. E aí termina o sossego e a sensação de solitude que vivemos antes, quando estivemos embrenhados na Serra.

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