Corto Maltese, o herói sonhador

Corto Maltese é o meu herói. Tem 53 anos e nasceu em 1887. Confuso?

O marinheiro mais bonito, estiloso, culto e corajoso de todo o sempre nasceu em 1967 da pena de Hugo Pratt, desenhador e roteirista. Filho de mãe cigana de Gibraltar e de pai marinheiro da Cornualha, Corto nasceu no final do século XIX em La Valletta, Malta, e aí cresceu. Era de Malta, mas andou por todos os cantos do mundo. Um viajante e um aventureiro inveterado.

Pode ser o herói de muitos, como eu, mas Corto é na verdade mais daquela espécie de anti-heróis. Sempre pautado pelos valores de justiça e liberdade, com uma visão romântica do mundo, Corto não é nada cínico, antes frontal, petulante às vezes, mas nunca arrogante. É um sedutor, elegantemente vestido com a sua jaqueta longa e chapéu de marinheiro, brinco na orelha esquerda e cigarro ao canto da boca. Um sonhador que é amiúde representado nas tiras de traço poético de Hugo Pratt estendido, relaxado à beira de uma bela paisagem ou sob a lua. “Não tem pátria e é um homem livre que sabe muitas coisas… mas não quer assumir responsabilidades”, diz a personagem Crânio em “A Balada do Mar Salgado”, o primeiro livro de Corto Maltese, o tal de 1967. E Monge, outra personagem deste mesmo livro inicial, diz-lhe “Ah, Corto, Corto, Corto… o que mais me agrada em ti é essa capacidade de nunca deixares escapar o lado divertido das coisas!”. Nem deixar escapar um momento para lançar a sua ironia. Este “pirata simpático”, sempre rodeado de mulheres, tem muitos amigos, alguns inimigos e imensos admiradores.

Na verdade, quem é merecedor da nossa admiração é Hugo Pratt, o italiano autor quer das tiras quer dos textos, ambos belíssimos, da personagem de Corto Maltese, seu alter ego. Com ela Hugo fez com que a Banda Desenhada passasse a ser coisa séria. Umberto Eco, por exemplo, afirmou que “Quando quero relaxar, leio um ensaio de Engels. Quando quero algo mais sério, leio Corto Maltese” e que “Pratt transforma em matéria de narrativa e de aventura a sua própria nostalgia da literatura, e a nossa”.

Os livros de Corto Maltese são, no fundo, livros de viagens. Dizia Hugo Pratt que as suas viagens eram “a ocasião de ir a um local que já existe na minha imaginação, no meu mundo interior”. E à boleia da enorme bagagem cultural de Hugo e da errância de Corto os leitores viajam pelo mundo todo, sendo parte das aventuras do seu herói.

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