Uma viagem pelos caminhos do Eléctrico 28

O carro amarelo a rolar pelos carris e puxado por antenas coladas às linhas instaladas no céu é um postal de Lisboa. Já teve muitas cores, mas o amarelo será definitivo. Mais uma pitada de cor na cidade que não sofre de falta dela(s).

Os carros eram, então, puxados por animais quando em 1887 se tentou pela primeira vez substitui-los pela tracção eléctrica. Logo os lisboetas temeram que os cabos de alta tensão provocassem raios e coriscos e daí surgissem incêndios destruidores. Mas o projecto foi adiante e em 1900 instalaram-se os cabos aéreos eléctricos e no ano seguinte foi inaugurada a primeira carreira electromotorizada, ligando o Cais Sodré a Algés. Os anos 50 foram testemunhas do maior número de quilómetros da rede de eléctricos – totalizavam então 76 kms. Hoje são apenas 31 kms de rede, distribuídos por 6 carreiras activas e alguns deles por eléctricos modernos, longe do mimo típico que faz as delícias de toda a gente. Uma das minhas mais antigas memórias é, precisamente, a de no fim dos anos 70 subir a um eléctrico e ser por ele guiada lá para os lados do Alto de Santo Amaro, de mão dada ou ao colo da avó. Mas esta diminuição da rede de eléctricos a partir dos anos 50 tem uma óbvia explicação. Desde logo, pelo surgimento dos primeiros autocarros da Carris em 1944 e, depois, pela inauguração do Metro de Lisboa em 1959. De qualquer forma, a passagem dos eléctricos transportando passageiros à pendura pelas ruas de Lisboa está na memória de todos nós.

E o Eléctrico 28, em especial, é uma instituição da capital. Dizem que demasiado turístico e antro de carteiristas. Pois então, sigamos ao lado dos seus carris, numa caminhada desde o Martim Moniz aos Prazeres, pois que não há melhor forma de condensar uma visita a Lisboa. Inaugurada em 1914, no início a carreira do 28 era mais curta, ligando somente a Praça do Camões à Estrela. Felizmente que hoje temos mais para ver, pelo que ponhamo-nos a caminho pelas colinas de Lisboa, num sobe e desce constante num percurso que conta a história da cidade, passando por igrejas, conventos, palácios, jardins, largos e praças, tomando avenidas, ruas e calçadas que dão para becos e escadinhas e cruzando uma Lisboa velha com outra mais nova, misturando alfacinhas e turistas.

Do Martim Moniz, paragem inicial, avista-se ao alto o Castelo que já foi dos muçulmanos e hoje vigia os negócios dos chineses cá em baixo. Seguindo pela Rua da Palma, onde tanto podemos ver o eléctrico passar à frente de uma loja de kebabs ou outra com caracteres chineses na montra ou de um edifício preenchido de azulejos, a encosta da Mouraria reduto do fado espreita com os lisboetas mais típicos. Até subirmos à Graça, esta é a Lisboa mais cosmopolita que podemos encontrar, fazendo do alfacinha uma personagem tão abrangente que não há qualificação possível numa sua descrição.

Sapadores, Rua da Graça, Largo da Graça. E aqui fazemos uma paragem e desvio breve para uma panorâmica de Lisboa no miradouro junto ao Convento.

De volta aos carris, descemos a Rua Voz do Operário, passando pelo edifício do arquitecto Norte Júnior da sede da Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário e, quando a rua se torna Calçada de São Vicente, admiramos a mais antiga Igreja e Convento de São Vicente de Fora.

E logo adentramos Alfama. Tradição que é tradição não dispensa um moço à pendura do eléctrico e ele surge aqui, precisamente quando o carro corre as ruas estreitas de Alfama, rasando as janelas das suas casas, deixando ver becos, pátios e escadinhas. Enfim, a Lisboa castiça cuja intimidade entra sem pedir licença pela janela do eléctrico.

As curvas seguem apertadas pela Rua das Escolas Gerais e são as Portas do Sol que nos dão espaço e umas imensas vistas do rio Tejo acompanhado pelo casario antigo de Lisboa e, agora, por uma das mais recentes imagens da cidade dos barcos de cruzeiro.

Continuamos a descer, mais um miradouro, desta vez o de Santa Luzia e seus azulejos, passamos o Aljube e o Limoeiro e chegamos à Sé. A Sé é um dos ícones mais reconhecíveis da cidade e um exemplo do palimpsesto que é Lisboa: construída em 1147, logo após a tomada da cidade aos mouros, foi edificada sobre uma mesquita muçulmana que, por sua vez, havia sido erguida sobre um templo visigótico.

A partir da Sé temos uma sucessão de igrejas: a própria Sé, a Igreja de Santo António de Lisboa e a Igreja da Madalena, fora as muitas outras que desfilam nas ruas para lá dos carris.

O Eléctrico 28 atravessa, então, a Baixa Pombalina de um lado ao outro pela Rua da Conceição. E se na viagem por estas paragens admiramos a obra dos engenheiros comandados pelo Marquês de Pombal na reconstrução da Lisboa pós-terramoto de 1755, por outro lado nem imaginamos que sob nós está toda uma outra cidade, a das galerias romanas construídas no tempo da antiga Olisipo – duas vezes por ano podemos “furar” os carris da Rua da Conceição para conferirmos este pedaço da história de Lisboa.

Apesar de falharmos o enquadramento do eléctrico com o Arco da Rua Augusta – neste caso não porta aberta à cidade, mas antes porta aberta ao Terreiro do Paço e ao Tejo – não deixamos de gabar a sua formosura ao longe.

Chega a altura de subirmos ao Chiado. À direita fica o Largo da Academia das Belas Artes, mas o eléctrico não segue por aí, antes desce para logo subir a Rua Vítor Cordon antes de continuar a subida pela Rua dos Duques de Bragança e se ver espremido entre o Teatro Nacional de São Carlos e o Teatro São Luiz.

E estamos no coração do Chiado, o coração de Lisboa. O bairro leva o nome do poeta António Ribeiro Chiado, mas é a estátua de Fernado Pessoa à frente do Café A Brasileira que chama a atenção dos turistas e são as personagens de Eça de Queiroz que recordamos enquanto passeamos pelo Chiado. Uma mão cheia de igrejas depois, espreitamos o Tejo Rua do Alecrim abaixo e fazemos uma vénia a Camões no largo que leva o seu nome.

Contornamos meio Camões e, mesmo sabendo que para dentro fica o Bairro Alto, seguimos adiante pela Rua do Loreto, prometendo que numa próxima vez pararemos mais demoradamente para assistir a um filme no Cinema Ideal, mas não prescindindo de imediato de nos lambuzar de pastéis de nata da Manteigaria.

Espreitamos a Bica e o primo mais famoso do Eléctrico 28 e começamos a descer a Calçada do Combro. Mais palácios, com destaque para o de Olhão, igrejas, como a dos Paulistas, e travessas depois entramos pela Rua Poiais de São Bento (o sentido inverso faz-se pela Rua Poço dos Negros). Aqui, à semelhança do que acontece em Alfama, o eléctrico rasa o casario fazendo do seu percurso uma viagem alucinante e do mais típica que há na proximidade com os seus habitantes.

E, se antes descemos, agora temos que subir. O topo do bairro de São Bento traz-nos o Palácio de mesmo nome, um antigo mosteiro beneditino transformado no século XIX na casa da democracia portuguesa. É a Assembleia da República com a sua inconfundível fachada neoclássica com colunas ao cimo de uma longa escadaria. Dica imperdível: saborear um gelado da Nanarella nos jardins do largo da Assembleia.

Só então podemos aventurar subir a inclinada Calçada da Estrela, com o bairro da Lapa na encosta à esquerda. A Basílica da Estrela é outra que merece uma visita antes de continuarmos a subir para Campo de Ourique, o bairro do nosso destino. Na Rua Domingos Sequeira passamos pelo antigo Cinema Paris e tomamos a esquerda na Rua Saraiva de Carvalho sem deixar de observar a sua esquina com edifícios de azulejos e arte nova. A Igreja de Santo Condestável e as inúmeras lojas de tecidos não nos distraem do nosso fim: os Prazeres, nome do cemitério mais bonito de Lisboa.

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