Pelo Rio Ceira, da foz à nascente na Serra do Açor – 4° desvio à EN2

O Rio Ceira é afluente do Mondego, em cujas águas desagua poucos metros após as povoações de Ceira e Conraria. Antes, porém, percorre à volta de 100 kms por entre vales tranquilos ou abruptos, à vez, desde a sua nascente na Serra do Açor. Sob o Cabeço do Gondufo nasce o Ceira, a cerca de 1250m de altitude. Ou seja, é de um rio de montanha de que se trata. E um dos belos, com água fria para nos despertar todos os sentidos.

Começamos esta viagem pelo Ceira pela sua foz, subindo-o depois em busca de paisagens mais recolhidas e selvagens. A ponte metálica verde que une Conraria e Ceira (ambas concelho de Coimbra) parece menos sólida quando atravessada a pé do que de carro, mas em baixo o Ceira corre sereno, como que regalado com o caminho que o levou até aqui.

Seguimos pela Estrada da Beira com o rio sempre ao seu lado, até que uma curva mais pronunciada – de ambos, rio e estrada – nos deixa em Segade (Miranda do Corvo). Segade de Cá e Segade de Lá. A praia fluvial parece votada ao abandono e não tem grande piada, valendo no entanto pelas hortas que a rodeiam e a implantação da povoação em cova.

Mais adiante surge Foz de Arouce (Lousã) e a sua ponte. Em 1811 travou-se aqui aquele que ficou conhecido como o Combate de Foz de Arouce, tendo tido como consequência a retirada do exército francês comandado pelo General Massena a caminho de Espanha. Um obelisco comemorativo instalado junto à ponte marca o evento. Descemos até à beira do rio e aqui encontramos um pequeno mas agradável parque de merendas. Talvez este não seja o melhor lugar para nadar por ser raso e ter muitas pedrinhas, mas é seguramente suficiente para nos banharmos e permanecermos demoradamente com os pés na água a relaxar.

Com pouca demora atravessamos Casal de Ermio – e notamos que na região muitas povoações levam o nome “casal” – e estacionamos na Praia Fluvial da Bogueira. É bem bonita, florida e com todas as comodidades. Com espaço largo para nadar e até uma piscina para os mais pequeninos, possui ainda um bar e parque de merendas. Como se não fosse pouco, podemos ainda caminhar ao longo do rio por entre o sossego da paisagem fluvial feita de salgueiros, amieiros e fetos-reais.

A Praia Fluvial da Senhora da Graça é a praia fluvial de Serpins, igualmente com todas as comodidades para receber os visitantes e óptima para umas braçadas. Neste caso tem até um parque de campismo como vizinho. E a Igreja Matriz de Serpins como vigia, instalada numa elevação sobre o Ceira.

Continuando caminho, a próxima paragem requer atenção para não se perder a ponte de Maria Mendes, onde atravessamos para a outra margem do nosso rio e depois seguimos por uma estrada de terra batida por uns 2 kms. A estrada serve perfeitamente para qualquer carro e o único problema é ser estreita e obrigar a manobras caso se apanhe um veículo a circular no sentido contrário. Mas tal não pode e não deve demover ninguém de tentar chegar ao mais incrível pedaço do Ceira.

É o Cabril do Ceira, também conhecido como Garganta do Ceira. Até aqui o rio vem correndo normal, mais ou menos fundo, muitas vezes sobre pequenas pedras, com margens de terra. Mas neste exacto lugar duas íngremes paredes verticais se erguem, como uma garganta aberta para deixar o rio passar. E o Ceira aproveita o convite e forma nela uma piscina natural. Este é um fenómeno natural decorrente de um corte na rocha que levou ao afundamento do vale provocado pela erosão do rio. Tudo isto sucedeu no Ordovícico, um período anterior ao aparecimento dos dinossauros. Não creio, porém, que muitos dos nossos antepassados tenham aproveitado esta maravilha quartzítica. Nadar por entre estas paredes com dezenas de metros de altura é uma experiência incrível. Começamos com pé e a visualizar o fundo e à medida que nadamos até à garganta tudo se torna assustadoramente mais escuro. Ganhamos coragem para prosseguir, olhamos para cima para os penedos irmãos separados pelo Ceira e com mais umas boas braçadas percebemos que podemos nadar ainda mais adiante até nos libertarmos destas paredes e chegarmos a um espaço de margens mais habituais. Mas a sensação mais brutal que se pode ter é mesmo permanecer a flutuar na garganta formada pelos dois penedos.

Diz que os miúdos gostam de subir as rochas e desafiar as alturas só para saltarem e caírem nas águas frescas do Ceira. Observando bem, de facto encontramos uma escada de corda pendurada numa das paredes. No entanto, há quem prefira outras aventuras, embora igualmente engenhosas, como aquele casalinho que cortou uns ramos de uma árvore para construir uma cabana que assentou à beira da água. Ficámos a saber que apesar de pouco frequentado, este é um lugar de campismo selvagem.

Na parede esquerda percebemos ainda um túnel inacabado, consequência de uma antiga tentativa de abrir passagem para se instalar a linha férrea que ligaria Góis a Arganil, o que nunca aconteceu.

Isto é o que se passa cá em baixo. Lá em cima, no Miradouro do Santuário da Senhora da Candosa, o cenário não é menos brutal. Aqui estamos mesmo por cima da garganta do Cabril do Ceira, fenómeno geológico também conhecido como canhão fluvial. Cá do alto, por entre as cristas quartzíticas percebemos uma nesga de Ceira a furar para se libertar e encaminhar para o vale que passado o esforço se abre largo. O rio está tão fundo e tão encaixado nestas paredes que quase nem se percebe.

E porque todos os lugares incríveis têm a sua lenda, o Cabril do Ceira e a Senhora da Candosa não é excepção. Conta-se que um mouro convertido à fé cristã vinha para aqui alegremente pescar e que os invejosos dos seus companheiros não convertidos decidiram um dia expulsá-lo. Construíram, para tal, um muro que fechasse o rio e provocasse o seu afogamento. Mas, pese embora as insistências na sua reconstrução, este muro sempre aparecia desfeito ao dia seguinte. Foi então que um dos mouros não convertidos viu uma Nossa Senhora montada num jumento com um capuz e uma candeia na mão que ia destruindo as paredes muralhadas. Resultado: desistiu de muralhar o Ceira e converteu-se também ele e os seus companheiros ao cristianismo.

Ainda cá de cima no miradouro, dirigimos por fim o nosso olhar para a direita e damos com uma vista enorme de um vale verdejante, e já não o selvagem conjunto quartzítico das paredes do Ceira.

É por aí que encontramos a Praia Fluvial das Canaveias, em Vila Nova do Ceira (já concelho de Góis). Espaçosa e bonita, com areia e relva, é só escolher onde estender a toalha depois de mais um mergulho no Ceira.

Daqui seguimos por uns quilómetros pela EN2 junto às paisagens verdejantes que envolvem o rio Ceira até chegar à sua capital.

Góis é a povoação à beira Ceira mais conhecida. A sua Praia Fluvial da Peneda é uma imagem repetida, mas merece ser vista e revista. A Ponte Real adorna o Ceira, acolhendo-o no seu curto braço, da água avistamos o casario branco da vila, donde se distingue a igreja matriz, mas é a intensa vegetação a toda a volta que nos distraí.

Até aqui o Ceira andou sempre a caminhar por altitudes entre os 19m da foz e os 191m de Góis. Mas a partir de agora vai começar a subir. Ou melhor, a descer, uma vez que os rios correm para o mar e nós é que estamos a viajar ao contrário, a caminho da serra.

Continuamos a nossa jornada e entramos pelo Vale do Ceira na Serra do Açor, num sobe e desce constante, por entre povoações em cova ou meia encosta. Apesar de habituada a esta paisagem, surpreendo-me sempre que encontro estas aldeias, às vezes apenas lugares, empoleiradas na serra, tão isoladas.

O vale tem grandes quedas de nível e as linhas de água correm encaixadas. A maior parte das vezes é difícil de perceber o rio, sobretudo quando andamos lá bem em cima.

A Praia Fluvial da Ponte de Velha, logo a seguir à Cabreira, é linda, linda, linda. Com uma meia dúzia de casas de xisto como recepção, esta é a mais cénica de todas as praias fluviais do Ceira. Não é vigiada, não tem bar, mas é boa para nadar e ficar a contemplar a paisagem, incluindo a possibilidade de fazer estas duas actividades ao mesmo tempo.

Vamos continuar a subir pela estrada, rolando a uns 400m, enquanto o rio navega a uns 300m, e cerca de 10 kms depois da Cabreira aparece-nos ao virar da curva (uma de muitas) a praia Fluvial da Ponte, no Colmeal. Aqui vemos só uma a casinha de xisto (ou lousa?), suficiente para dar ainda mais graça ao lugar já de si bonito e sereno.

Daqui seguimos em direcção a Fajão e afastamo-nos um pouco do Ceira que contorna a Mata pelas suas traseiras. Esta vertente da Serra do Açor pertence já ao concelho da Pampilhosa da Serra e eram caminhos para mim totalmente desconhecidos. Até Fajão começamos por subir a bom subir. É uma paisagem impressionante e poderosa, com vales encravados nos montes que sobem a pique. Totalmente assustador para quem sofre de vertigens. E também para quem não sofre. Até que, lá em cima, encaramos finalmente os pedregosos Penedos de Fajão (ou Cabeço da Mata, a 902m) bem de frente. É uma bela e alongada crista quartzítica e por detrás dela esconde-se a aldeia da Mata e a Mata de Fajão.

Descemos aos 720m de Fajão, aldeia instalada a meia encosta que é parte integrante da rede das Aldeias de Xisto, e descemos ainda mais até aos 500m de Ponte de Fajão, o nome do lugar onde até este ponto da jornada apanhamos o Ceira a maior altitude.

Ponte de Fajão está belamente instalado no sopé das montanhas, no vale banhado pelo Ceira. A povoação tem poucas casas, onde se distingue uma ou outra de xisto no meio da maioria branca.

Aqui o Ceira faz uma espécie de curva, talvez procurando aninhar-se às encostas da sua preferência, e começa a subir cada vez mais e mais (ou, na verdade, a descer se nos lembrarmos uma vez mais do sentido para onde os rios correm). Chegado ao Porto da Balsa já passou dos 600m, na Alfubeira do Alto Ceira – onde o rio é mais largo – chega aos 650m, em Covanca passa dos 760m e em Malhada Chã dos 820m. Mas neste momento quase que nos esquecemos do rio Ceira, o nosso objectivo. A paisagem majestosa do Açor consome todas as atenções.

Sabemos que rolamos – nós a conduzir e o Ceira a nadar – junto aos picos mais altos da Serra do Açor. O Picoto da Cebola, o mais alto de todos, a 1418m, fica mesmo do lado direito acima de Covanca. E por cima de Malhada Chã fica o Pico de São Pedro do Açor, a 1342m, exactamente os mesmos a que está o Pico do Gondufo, a uns 5 kms em linha recta mais para lá de Malhada. Ou seja, Malhada Chã está rodeada dos mais altos picos do Açor.

A estrada de asfalto fica-se por aqui. O Ceira corre meia centena de metros abaixo da povoação e a sua nascente no Gondufo já vai perto, num território de fronteira entre três distritos: Coimbra, Guarda e Castelo Branco. Mas não a fomos espreitar. De carro não deve ser possível e a pé talvez seja mais acessível desde a vertente oposta, aquela onde o Piodão ocupa lugar mágico. Estes são já territórios de Arganil, a piscar o olho ao modesto Monte do Colcurinho, a meros 1244m (apenas o quarto mais alto do Açor), o pico da nossa infância e o mais mítico de Oliveira do Hospital. Um mundo, este Açor. Havemos de lá voltar. Voltamos sempre.

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