Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho: 6ª etapa – Castro Verde – Faro (638 km – 738 km)

“Passado o Caldeirão, é como se me tirassem uma carga dos ombros. Sinto-me livre, aliviado e contente, eu que sou a tristeza em pessoa! […] A terra não hostiliza os pés, o mar não cansa os ouvidos, o frio não entorpece os membros, e os frutos são doces e sempre à altura da mão.” – Miguel Torga, in O Algarve

Eis a última etapa da nossa viagem pela EN2, aquela que nos transporta do Alentejo até ao Algarve, atravessando a Serra do Caldeirão.

Em Castro Verde, vila alentejana, já se vêem as chaminés típicas tão omnipresentes no vizinho Algarve. Mas aqui o elemento arquitectónico de destaque é a sua enorme Basílica Real, tão imponente que se avista ao longe. A caminho do Miradouro de São Pedro das Cabeças vemos passar uma biblioteca itinerante e realizamos o quão afastados estamos do bulício das grandes urbes.

Lá de cima do monte essa realidade é ainda mais presente, uma enorme planície pontuada por uma elevação aqui e ali, como aquela onde Castro Verde está instalada. Diz-se que o Cerro de São Pedro das Cabeças foi o lugar da Batalha de Ourique, mas outros municípios reclamam para si o título. A nós não nos interessa muito essas disputas históricas, o poder real da paisagem chega-nos.

De Castro Verde a Almodôvar temos mais umas rectas generosas. Em Almodôvar, a última das vilas alentejanas, começámos por visitar a ponte medieval da Ribeira de Cobres e, depois, o Convento de Nossa Senhora da Conceição e o Mercado Municipal. Mas a surpresa está no Mesa, o Museu da Escrita do Sudoeste.

Escrita do Sudoeste? O que é isso? No Mesa aprendemos que há uma escrita misteriosa, a primeira forma de escrita da Península Ibérica. Criada há cerca de 2500 anos, este sistema assente em signos desenvolveu-se no Algarve, Alentejo e Andaluzia muito por força da continuada presença dos comerciantes fenícios que para aqui vinham. Daí as suas origens no alfabeto fenício, tendo as populações locais desenvolvido uma escrita própria que resultou da adaptação daquele alfabeto à sua língua. As inscrições desta escrita foram descobertas em estelas (a maior parte delas no concelho de Loulé), elementos funerários onde se crê que eram inscritos epitáfios, breves textos de homenagem à vida de certos indivíduos. Não se sabe ainda muito sobre esta escrita, e talvez não se venha a saber nunca, mas a cerca de uma centena de estelas descobertas permite perceber que era efectuada de baixo para cima e da direita para a esquerda.

Felizes por esta descoberta linguística – que desconhecíamos em absoluto -, começámos por nem perceber que à saída de Almodôvar as rectas iam ficando mais curtas e que as primeiras curvas apareciam. Embora estas curvas, para os padrões da Beira, não sejam nada. Digamos que deixámos de as poder fazer em 5ª mas ainda dá para virar ligeiramente o volante em 4ª. Mas à medida que a Ribeira do Vascão se aproxima – a fronteira entre o Alentejo e o Algarve – as curvas tornam-se, então, uma companhia cerrada. Diz que são 365 as curvas da Serra do Caldeirão, mas contámos pelo menos 366, uma por cada ano bissexto.

A Serra do Caldeirão traz uma diferença abissal relativamente à paisagem de planície alentejana que nos vinha acompanhando ao longo das centenas de quilómetros anteriores. Um relevo agora muito acidentado, com cumes que ondulam a toda a vista, apesar de o mais alto atingir apenas 589m de altitude. Este relevo acidentado deve-se à densa rede hidrográfica, constituída por pequenos ribeiros que ao longo dos séculos foram esculpindo a rocha. A paisagem é avermelhada e carregada sobretudo de sobreiros. Desviámos cerca de 2 kms no Ameixial até ao Azinhal dos Mouros só para sentir um pouco o ambiente do Caldeirão fora da EN2. E é mais ou menos isso, parece que estamos dentro de um caldeirão, em pura ebulição serrana.

O Miradouro do Caldeirão é uma paragem oficial, mas não é o ponto mais bonito da Estrada. A Serra do Caldeirão faz a transição entre o Baixo Alentejo e o Barrocal e o Litoral algarvios. A Fonte Benémola, junto a Querença, está precisamente nesta zona de transição. É uma boa hipótese de desvio da EN2 desde Barranco Velho, mas preferimos deixá-la para o dia seguinte para, sem pressas, podermos caminhar pelo seu percurso pedestre de pouco mais de uma hora.

Para chegar a São Brás de Alportel começamos a descer em direcção ao mar. O Miradouro do Alto da Arroteia prova a sua exacta localização, “entre a serra e o mar”.

Já as suas ruas e o seu casario dá-nos a certeza: estas chaminés não enganam, estamos definitivamente no Algarve. E é curioso constatar como esta primeira povoação algarvia onde nos tocou parar é labiríntica e feita de ruas estreitas e já não geométrica e feita de ruas paralelas umas às outras, como as alentejanas.

O nosso último curtíssimo desvio fez-se para relembrar Estoi e o seu Palácio e Jardim, um dos maiores exemplos do romantismo no Algarve, hoje integrado na rede das Pousadas de Portugal. Construído entre 1840 e 1850, o que vemos aqui é uma mistura de estilos, entre o Neoclássico, o Neorococó e a Arte Nova, e uns belos jardins com lagos, fontes e esculturas. O interior do palácio, adaptado a unidade hoteleira, como se referiu, mostra igual nobreza nos seus salões, não faltando sequer a capela no interior da torre sineira. Ainda em Estoi, vale a pena visitar as Ruínas Romanas de Milreu, a Vila Romana antigamente conhecida como Ossonoba, a qual visitámos há uns bons anos aqui.

A chegada a Faro faz-se sem graça. Os últimos quilómetros da Estrada são ladeados por edifícios industriais e de lojas típicas dos arredores das grandes cidades. Pior, o marco do quilómetro 738, o derradeiro, está instalado numa rotunda sem graça. Merecíamos uma melhor recepção e uma forma cómoda de alcançar o tabuleiro central da rotunda, para os devidos festejos de final desta longa jornada. Mas não, não deu sequer para chegar junto ao marco e tirar a foto da praxe, tal era o intenso tráfego que não cessava de rodar a rotunda.

Mas se a chegada a Faro não tem muita graça, o centro histórico da capital do Algarve tem-na de sobra (e disso daremos conta em futuro post exclusivamente dedicado à cidade). Incluindo umas muralhas junto à Ria Formosa que se crê ser anteriores à chegada dos romanos à região, as quais vieram mais tarde a proteger os mouros, tendo no século XIII acabado por ser reconstruídas pelo rei de Portugal vigente. São o nosso castelo do dia.

E para terminar esta epopeia pela EN2, iniciada em Chaves a longínquos 739 kms do mar, nada melhor do que um mergulho nas águas do Atlântico.

A Praia da Ilha de Faro, mar de um lado e ria do outro, foi a escolhida para o momento. Um lamento apenas. Depois de tantos dias sozinhos pela Estrada tão desertificada como o interior que percorre, imaginámos imergir no oceano com poucas testemunhas. Tal não aconteceu. Sabendo o que sabemos hoje, desta novela apenas mudaríamos o seu final: consultaríamos previamente os horários do barco e trocaríamos o mergulho na Ilha de Faro pela vizinha Ilha Deserta (Barreta). Um mero adorno que não altera o encanto da história.

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