Por Mora

Mora é um concelho do Alentejo Central com apenas 4 freguesias (Cabeção, Mora, Pavia e Brotas), cada uma delas com algo para conhecer que nos deixa de boca aberta de surpresa.

Em post anterior escrevemos sobre o Parque Ecológico do Gameiro, na freguesia de Cabeção, onde num mesmo espaço podemos visitar o Fluviário de Mora (um aquário público dedicado aos ecossistemas de água doce), nadar na praia fluvial do Gameiro, caminhar por passadiços ao longo da ribeira de Raia e por um trilho numa zona de montado, sistema florestal tipicamente alentejano. Pura beleza natural.

Mora, sede de concelho, fica numa planície, ou não estivéssemos no Alentejo. O caminho até lá é sereno, com campos a perder de vista e as cores a variar conforme as estações do ano – as destas fotos são do Outono. Fundada pela Ordem de Avis, o nome da vila derivará de uma antiga herdade conhecida como “cabeço de mora” que ficaria numa parte mais elevada, acreditando-se que a partir daí se terá desenvolvido a povoação. O seu casario é tipicamente alentejano, com os edifícios brancos com listas amarelas. Na praça central da vila encontramos a Torre do Relógio (antigos Paços do Concelho) frente a frente com a Igreja da Misericórdia, ambos os edifícios do séculos XVI, embora tenham sofrido alterações posteriores.

Não deixamos Mora sem apreciar a vista do seu miradouro, junto ao Bairro da Misericórdia. É irrecusável o convite para nos sentarmos numa das suas cadeirinhas com vista privilegiada para a planície que faz ainda parte da bacia hidrográfica do Tejo, sabendo que para ali algures há de estar a nascente do Sorraia.

Almoçámos (muito bem) na Tasca do Gigante, petiscos vários partilhados onde não faltou a macia carne de porco preto e as obrigatórias migas.

Não visitámos o Museu do Megalitismo, mas a caminho de Pavia, num pequeno desvio na estrada, demos de caras com o Cromeleque do Monte das Fontainhas Velhas. Crê-se que este monumento megalítico, um de muitos da região, tenha sido levantado entre o 4° e o 3º milénio a.C. Dispostos de forma circular, restam 6 monólitos de granito de grão grosseiro e forma almendrada, quase se assemelhando a uns dedos das mãos, seguindo o protótipo do Cromeleque dos Almendres, em Évora.

Pavia é mais vila do que Mora. Aliás, um dito antigo dizia que “não se deve estar em Mora nem uma hora, em Cabeção nem um serão e em Pavia nem um dia”. Sede de concelho desde 1287 e 1838, o antigo edifício dos paços do concelho deu entretanto lugar à sede de freguesia. Mais uma vez, a praça central tem as características do nosso imaginário de povoação alentejana, não faltando a igreja e até o coreto.

Mas a grande atracção de Pavia encontramo-la logo à entrada, com a imagem da sua Anta-Capela. Este é mais um exemplo do megalitismo da região – o primeiro monumento megalítico referenciado na bibliografia histórica, já no século XVI – e um dos mais formosos e curiosos. A anta acabou por ser reutilizada como espaço cristão no século XVII e é hoje a Capela de São Dinis, com entrada de um lado, onde foi erguido até um campanário, e a rocha dólmen do outro.

Percorridas as ruazinhas da vila, ao fundo temos outra surpresa arquitectónica. À aproximação da Igreja Matriz de Pavia, também conhecida como Igreja de São Paulo, a sua fachada principal tem um ar bonito como todas as da região, mas comum. Já a sua fachada lateral é diferente do que estamos acostumados a ver e é surpreendente. Construída no século XVI no interior do que era o então paço fortificado dos Condes do Redondo, a sua arquitectura em arcadas toma precisamente a ideia dos antigos templos fortalezas. Parece quase um castelo com as suas torres cónicas. O seu estilo é uma amálgama entre o tardo-gótico, o manuelino, o mudejar e o barroco e está, claro, classificada como Monumento Nacional.

Depois de apreciarmos a paisagem pacata ao redor de Pavia desde o seu miradouro retornámos a Mora para desta vez seguirmos para Brotas, a freguesia que faltava neste passeio pelo concelho. Havíamos passado por aqui sem pararmos para uma visita aquando da nossa jornada pela EN2. Brotas fica mesmo à beira da nossa mítica estrada, cortada por ela, até – centro histórico de um lado (Aldeia Velha), núcleo urbano mais recente do outro (Monte de Cima), fonte ali mesmo ao esticar de uma mão desde a janela do carro. Esta é a povoação mais bonita de todo o concelho e, sem favor algum, uma das mais bonitas do Alentejo.

A história de Brotas enquanto lugar está intimamente ligada ao culto de Nossa Senhora de Brotas, iniciado no século XV. Até aí não existia o povoado de Brotas, apenas o lugar de Brotas da Barroca, uma cova inabitável cercada de ribanceiras. Foi quando, diz a lenda, um pastor deixou que a sua vaca caísse nessa cova e morresse. Sem a sua única fonte de sustento, rogou à Virgem protecção e esta, aparecendo-lhe, disse-lhe para ir pedir aos moradores da vila das Águias – a povoação até então – para ali na cova construírem uma capela. Assim o fez e da pata da vaca uma imagem da Virgem surgiu, enquanto a vaca ali pastava de novo inteira e viva. Construída a ermida no lugar pedido e a imagem da Nossa Senhora de Brotas passou a ser venerada desde então, com constantes peregrinações àquele que é hoje conhecido como o Santuário de Nossa Senhora de Brotas. Com isso a povoação da vila das Águias foi-se mudando para aqui até ser abandonada, transferindo-se o concelho das Águias para as Brotas em 1834 (hoje também já perdido desta para Mora).

A Barroca de Nossa Senhora de Brotas transformou-se no corredor de casas edificadas no século XVII que nos transporta até à Igreja. Estas casas pitorescas com frisos azuis – é o azul e já não o amarelo que domina Brotas – pertenciam a diversas confrarias e eram utilizadas para albergar os peregrinos em visitava ao Santuário. Na fachada de algumas delas vemos painéis de azulejo com imagens alusivas à lenda de Nossa Senhora de Brotas. A igreja, em estilo popular, manuelino e barroco, aguarda-nos então no final deste corredor.

Para lá do Monte de Cima, a aldeia nova de Brotas, fica a última surpresa do dia, rematando na perfeição a jornada. Não se deixe enganar: os portões da herdade privada estão lá, mas é só empurrá-los e seguir uns 2 quilómetros pela estrada de terra batida que leva até ao fantástico Monumento Nacional que é a Torre das Águias.

Situada na antiga povoação das Águias, terá sido construída no século XVI por um guarda-mor do rei D. Manuel I, sendo utilizada para repouso dos fidalgos entre caçadas. Esta torre senhorial residencial com ar de fortaleza resistiu ao Grande Terramoto de 1755, mas no século XIX entrou num estado de degradação que se tem vindo a agravar. É, pois, de um lugar em ruína que se trata, e um daqueles dignos de constar de qualquer lista dos melhores lugares abandonados. O ambiente proporcionado pela enorme torre – 20 metros, em estilo manuelino, encimada por seis coruchéus cónicos – e das construções que a rodeiam, incluindo a Ermida de São Sebastião e os campos envolventes, é incrível e faz-nos sentir uns Indiana Jones a explorar o lugar.

Não será totalmente seguro, pelo perigo de derrocada, mas podemos entrar e perceber os antigos salões do solar apalaçado de 4 pisos. Diz que dá (ou já deu) para ir até ao terraço, mas nem sequer tentámos. A vista e o ambiente que aqui sentimos já é suficiente para tornar esta uma experiência inesquecível.

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