Aldeia das Dez, das Flores, dos Miradouros

A viagem de Lisboa a Aldeia das Dez nos anos 80 era ainda um tormento. A partir de Coimbra, curvas e mais curvas. A melhor companhia não eram os pais, era antes um saquinho para as consequências do enjoo. Nos anos 90 o Ip3 atenuou parte do sofrimento e hoje cada vez mais lanços de estradas novas se vão vendo na paisagem para tornar a viagem mais rápida e confortável. Todavia, das Vendas de Galizes até Aldeia das Dez as curvas continuam. E ainda bem que continuam, são património histórico elas próprias. 

Queixas de quem já não é do tempo do quase isolamento da Aldeia, do tempo em que não havia estradas e tudo era percorrido a pé.
Começando por aqui. 
Histórias de quem ligava a pé Aldeia das Dez a Santa Ovaia, a Avó, ao Chão Sobral e a tantas outras, sempre as ouvi e até vivi algumas. Nas nossas saudosas e saudáveis intermináveis férias de Verão, a avô e as netas tinham de ir na carreira até ao Vale de Maceira e, depois, desde aí até ao Chão Sobral a pé; para um mergulho no rio íamos a pé até à Ponte das Três Entradas, lancheiras e geleiras a tira colo (a mãe até hoje se lamenta sem saudade da pouca saúde que era o programa de férias de ir lavar os lençóis ao rio – de carro, valha ao menos).

Hoje, décadas volvidas e após 10 anos sem estar / ficar em Aldeia, as distâncias parecem coisa pouca. Afinal, as coisas têm a dimensão que lhe queremos ou sabemos dar.
Aldeia das Dez é sede de freguesia, no concelho de Olivera do Hospital, e tem pouco mais de 500 habitantes.
A sua história remonta com certeza ao período da ocupação romana na Península Ibérica. Talvez antes mesmo dos romanos aqui houvesse um povoado, ainda que escassamente habitado. Mas com os romanos, a estrada militar imperial Salamanca – Conimbriga obrigava à sua guarda e conservação, exigindo a presença de alguns indivíduos em permanência nestas terras. Ainda hoje, ligando a pé Avô a Aldeia das Dez podemos encontrar vestígios da calçada romana. E no princípio do século passado foram achadas algumas moedas romanas por aqui, o que torna inequívoca a ocupação romana, tendo estes destronado os lusitanos no século II a.C. Seguiram-se os bárbaros do norte, os muçulmanos e, por fim, os cristãos.

No início a aldeia não teria o nome de Aldeia das Dez. 
Mas há registo de que já em 1527 D. João III teria mandado proceder ao numeramento da população das Beiras e aí se mencionava o lugar de Aldeia das Dez (Aldeia das Dez tinha então 49 habitantes, Avô 59, Piodão 2, Soveral – hoje Chão Sobral – 8 e Vale de Maceira 5).
O nome será, talvez, a curiosidade maior desta aldeia, sendo rara a pessoa que não indague um forte “das Dez?” como reacção à sua designação.
Várias hipóteses existem; nenhuma certeza porém.
Uma hipótese de partida é que a palavra “aldeia” é um termo árabe composto do artigo al e do substantivo diâr – há muitos séculos que se chama Aldeia a toda a parte leste de Avô. 
Depois, podemos recorrer à lenda que nos diz que durante a Reconquista cristã dez mulheres terão encontrado um tesouro numa caverna situada na encosta do Monte do Colcurinho e terão repartido esse tesouro entre si e, num pacto entre elas, passaram as suas peças de geração em geração, até hoje (o segredo deve ter sido muito bem guardado e nenhuma das minhas ascendentes me legou nada ou então a minha geração não descende de nenhuma dessas dez senhoras).
Outro dos palpites é que a aldeia antiga se terá repartido pelos povoadores em dez courelas, conforme nos dizia Diamantino Antunes do Amaral, na Voz do Santuário, em 1969.
Certo é que para além de Aldeia das Dez encontramos tradicionalmente ao seu redor mais seis casais, como Avelar, Vale de Maceira, Goulinho, Chão Sobral, Colcorinho (o ponto mais alto da freguesia, a 1240 metros de altitude e com a capela de Nossa Senhora das Necessidades no seu topo) e Gramaça. Hoje também o Cimo da Ribeira ganhou individualidade.
Fora estes, em Aldeia há diversos lugares com nome próprio como o Secolinho, Cabo Lugar, Outeiro da Cruz, Soito Meirinho e muitos mais. 
Nomes é o que não falta por aqui e fico com uma imensa pena por já não saber chegar à Regada, à Retorta, ao Samaldo, à Moenda e ao Vale Pascoal, fora todas as Tapadas que ainda são nossas.

Nos dias de hoje Aldeia das Dez está com uma forte dinâmica, sobretudo à boleia de dois factores: a construção do boutique hotel Quinta da Geia, a qual começou em 1998, e a integração da aldeia no roteiro das Aldeias do Xisto, em 2011, apesar de aqui ser o granito o rei.

Estará ainda muito bem gerida, de que são exemplos as abundantes decorações florais – esta é também conhecida como “Aldeia das Flores” – e a reutilização do edifício desde sempre conhecido como Casa da Obra, antigo Solar Pina Ferraz, para eventos cénicos, musicais e outros.

As casas da Aldeia estão bem cuidadas no geral e vemos algumas bem antigas ainda de pé e recuperadas.

As fontes são várias e bem bonitas.

Existem duas capelas e uma igreja. A igreja matriz, devotada a São Bartolomeu, é um exemplo muito interessante quer no seu exterior quer no seu interior, com destaque para o belo trabalho artístico em madeira da tribuna lateral, realizado por artesãos e técnicas locais, e para o retábulo em talha dourada.

Aqui, em Aldeia, até o cemitério velho está arranjado e é bonito, já sem as campas que nos faziam inventar cenários.
Aldeia das Dez tem ainda outro epíteto, o de “Aldeia Miradouro”. Eis porquê:

A minha Aldeia das Dez

Aldeia das Dez é e será sempre a terra da minha avó. 
Desde sempre me habituei a ouvir falar do Rato, dos Caganeiras, do Galo, dos Catitas, do Zarolho. Tudo apodos, uns levados com ofensa, outros já parte assumida da personalidade das famílias. 
O Tóino Marques subia a rua para ir tocar o sino, a Maria do Bento descia a Tapada para regressar a casa e a avó Quitas lá vinha velhinha com o seu marido Augusto Belo. A peixeira parava em frente à nossa casa e apregoava “Mariazinha, ó menina Mariazinha, quer cá peixe?”.
Ir lá baixo à Lurdes fazer recados significava ir comprar qualquer coisa ao mini-mercado; ir “lá lém” significava ir a casa das tias.
Aos domingos de manhã não podíamos sair de casa para brincar porque era a altura em que todos se dirigiam ao adro para a missa na igreja da Aldeia e nós morávamos no adro. Pior, sem contemplações a avó obrigava-nos a vestir os vestidos brancos de renda e folhos, mesmo que não saíssemos de casa, no estrito cumprimento das ordens da mãe. De tarde, mesmo com o calor no topo, lá a convencíamos a ir andar de bicicleta em consecutivas voltas à igreja, pedalando o mais rápido possível quando passávamos a porta do cemitério velho.
Daqui do adro deixávamos-nos estar a ver os foguetes disparados rumo ao céu durante as festas, não só em Aldeia mas em todas as terras vizinhas. E daqui do adro víamos aterrorizadas o fogo que demasiadas vezes consumia as terras da serra.
Muitos domingos à tarde íamos ainda ao campo de futebol e sentadas nas pedras da floresta, bancadas improvisadas, puxávamos e aplaudíamos os nossos “coxos” que tentavam jogar à bola no pelado lá em baixo.
Nas tapadas íamos buscar o material que nos permitia fazer os arcos e as flechas e as penas dos índios. Todos queríamos ser índios, nenhum cowboy.
Mas uma das maiores lembranças que trago de Aldeia das Dez está lá ainda para ser apreciada e sentida por qualquer um de nós, local ou forasteiro, visitante de sempre ou de primeira viagem: as badaladas saídas do sino a chamar para a missa, as badaladas saídas do sino a dar conta de que alguém morreu. Pura melodia.
Voltando ao início, se a minha família tem apodo, não o sei. A mim ainda hoje basta dizer que sou da Mariazinhha e antes que acrescente … do adro, já todos sabem de quem estou a falar. Pode uma senhora de 97 anos ainda carregar o cognome de Mariazinha? Pode. Bem vindo a Aldeia das Dez.

Aldeia das Dez

Alcandorada na encosta Norte do Monte do Colcurinho, Serra do Açor, e sobranceira ao Rio Alvôco. É aí que se situa esta aldeia.
É uma aldeia que, como muitas outras, tem uma igreja, cujo sino toca de hora a hora, e um adro.

Tem uma banda filarmónica que toca nos dias de festa que, quando são religiosas, têm sempre uma procissão, a maior das quais no dia do padroeiro S. Bartolomeu (24 de Agosto).

É uma aldeia em que, como todas as outras por este país, nas festas as mulheres dançam com as mulheres porque os homens preferem o tintol.
É uma aldeia onde é possível ter uma aula de astronomia a céu aberto porque o ar é impoluto.
Uma aldeia rodeada por pinhal e com vistas desafogadas, serenas e bonitas. Uma aldeia que funciona como miradouro, pois é possível avistar o topo do Colcurinho, a Serra da Estrela e outras aldeias serranas.

Uma aldeia onde se fazem e se come cavacas e tijelada.
Esta aldeia podia ser como muitas outras espalhadas por aí. Mas não. Esta é especial. É aqui que estão as minhas origens familiares paternas. Onde passava, quando era miúda, Verões intermináveis e despreocupados. Dias que começavam com o despertar ao som único do sino da igreja. Que eram passados a andar de bicicleta à volta do adro da igreja. A tentar jogar à bola também no adro da igreja. Embora esta missão fosse quase impossível porque havia, para algumas mentes, um conflito entre o sagrado e o profano (!!??). A brincar aos índios e cowboys nos pinhais, onde todos queriamos ser índios para podermos usar os arcos e flechas feitos por nós. A atazanar as galinhas, coelhos e gatos. Dias a tentar convencer, sem efeito, a avó que brincar a seguir ao almoço com 40º dá saúde e faz crescer.
Por todas estas memórias também eu canto a marcha da Aldeia das Dez (1945):

Nossa aldeia terra airosa
Linda alegre e singular
Cada pedra é uma rosa
Enfeitando o lindo altar

(…)
Cantemos à nossa terra
Nosso abençoado lar
Os encantos que ela encerra
São tais que não têm par

Terra que é nosso amor
Outra não vemos melhor
Nem por certo deve haver
De tanta gente lhe querer
Não cansemos de a louvar