Lübeck

Lübeck fica a 45 minutos de comboio de Hamburgo e, tal como esta, é uma cidade banhada por um rio e com um fortíssimo passado marítimo e comercial.

A sua posição estratégica, com acesso directo para o Báltico, fez de Lübeck uma cidade central na Liga Hanseática, a aliança de cidades mercantis que em tempos dominou o comércio nesta região e no Mar do Norte.

A sua pertença à Liga Hanseática é incontornável ainda hoje. Marcou a cidade em termos históricos, económicos, arquitectónicos e sociais e é aqui que podemos visitar um dos mais originais, surpreendentes e interessantes museus sobre a vida de outrora sem deixar de fazer uma ligação com o presente e o futuro.

O European Hansemuseum mostra-nos a emergência, vivência e decadência da Liga Hanseática, estabelecida em 1385.

Foi nesse século que Lübeck surgiu como a rainha dessa Liga, tornando-se uma das cidades mais ricas por conta do seu estatuto comercial. Neste museu inaugurado em 2015 é nos dada a conhecer essa poderosa Lübeck, mas também Novgorod, Bruges, Londres e Bergen, outras cidades marcantes da referida Liga. Numa viagem multimédia e interactiva até esse tempo, percorremos espaços arqueológicos como as fundações do primitivo castelo, assistimos ao boom urbano e às mudanças sociais ocorridas no século XIII, vemos como eram as casas e os negócios dos mercadores, aprendemos sobre religião e comércio e até sobre a Peste Negra que matou centenas de milhares no século XIV e a crise económica e social que lhe sucedeu.

A Liga Hanseática viria a ser dissolvida em 1669. Deixou-nos uma série de cidades cujo centro urbano nos faz, quatro séculos depois, viajar no tempo. Lübeck é uma das mais preciosas delas.

No lugar do que é hoje o European Hansemuseum haveria uma primeira fortificação já no século VIII ou IX, durante o período eslávico, sobre a qual em 1143 o Conde Adolf II de Schauenburg e Holstein construiu um castelo e fundou a cidade.

Muitas transformações aconteceram depois disso. O castelo tornou-se convento dominicano, asilo de pobres, hospital, cemitério, tribunal e prisão e, finalmente, museu (a par do Hansemuseum, visitamos outros espaços correspondentes ao antigo convento de Santa Maria Madalena, ou do Castelo).

Após restauro retém hoje a arquitectura característica da cidade, o brick gothic (tijolo gótico) – a falta de pedra na região obrigou ao uso de tijolo de barro vermelho.

Esta arquitectura única faz de Lübeck um sítio especial e a Unesco lembrou-se disso, e muito mais, para a fazer integrar a sua lista de Património da Humanidade em 1987.

Esse muito mais far-nos-á começar esta viagem por Lübeck pelo princípio, pela sua porta de entrada após atravessada a ponte das estátuas: a Porta Holsten.

Construída em 1464, dá nos as boas vindas e apresenta-se-nos orgulhosa no seu revestimento em tijolo vermelho. É um símbolo do poderio mercantil da Lübeck de outros tempos, mas as suas duas torres cilíndricas perduram como a imagem da cidade de hoje. O lema em letras latinas a dourado que encima a nossa passagem dá o mote: “concordia domi foris pax” (harmonia dentro e paz no exterior).

É para lá da Porta Holsten que se estende a cidade que vamos descobrir, sempre de mãos dadas com a sua história.

A Altstad, cidade velha, uma ilha bordejada pelo rio Trave, é um coração medieval que forma um conjunto harmonioso de quarteirões bem preservados (apesar da destruição que sofreu na II Grande Guerra Mundial) – ruas, pátios e becos – , edifícios de comércio, residências de ricos mercadores e de nobres, armazéns de sal, monumentos públicos e igrejas, muitas torres de igrejas que rompem o céu e fazem desta paisagem uma daquelas verdadeiramente especiais.

Mesmo junto à Porta Holsten encontramos um conjunto de edifícios irmanados, as Casas de Sal. Datadas dos séculos XVI – XVIII, estas seis casas de tijolo serviam para guardar sal, o qual acabaria por ser trocado por peles e/ou utilizado para preservar o arenque. São, pois, um testemunho arquitectónico e etnográfico exemplar da Lübeck medieval.

À beira do Trave vamos conhecendo os primeiros exemplos de edifícios que fazem desta uma cidade distinta e descobrimos a igreja Sankt Petri à espreita. De fachada de tijolo e interior branco hoje vazio (a igreja já não está em funções, antes se transformou em local de eventos culturais), é para lá que nos dirigimos para subir à sua torre, a mais de 50 metros de altura, e ganharmos um panorama fantástico de toda a Lübeck. A neve não impediu que pudéssemos distinguir com clareza as seis casas irmãs de sal, todas elas diferentes no seu formato, nem que pudéssemos ter o primeiro contacto com as muitas torres de igrejas e com a Praça do Mercado.

Já cá em baixo, a dita praça, onde fica o Rathaus, encontrava-se ocupada com uma pista de gelo em forma de barraca, uma daquelas coisas que me irrita sobremaneira, impedindo, isso sim, de apreciar o lugar como conjunto. Mas foi possível observar alguns dos detalhes do edifício correspondente aos nossos paços do concelho. Dito por alguns como um “conto de fadas em pedra”, vemos aqui uma mescla de estilos que vai desde o século XIII, quando começou a ser construído, até aos dias de hoje. Do lado da Praça do Mercado vemos num lado o tijolo escuro com os escudos da antiga cidade imperial e as torres em esfera, no outro lado um tijolo mais avermelhado que rodeia um “sub-edifício” branco cheio de decorações; do lado da Breite Strasse vemos uma escadaria renascentista que prolonga as arcadas onde nos deparamos com uns elementos mais folclóricos. Não parece harmonioso nem equilibrado, mas no final é um conjunto precioso e alegre.

O Café Niederegger fica por aqui. O marzipan é uma instituição de Lübeck e este café que se tornou numa marca faz por preservá-la e rentabilizá-la. Não sabe o que levar de presente de Lübeck? Que tal uns chocolatinhos de marzipan?

A Breite Strasse é uma rua de comércio pedonal e continua por aí fora. Há que fazer dois desvios à esquerda, no entanto, antes de a percorrer até final.

Um primeiro, para conhecer a Igreja de Santa Maria. São “apenas” sete as suas torres, que levaram a que Lübeck ficasse conhecida também como a “cidade das sete esferas”. Esta que é a terceira maior igreja da Alemanha, construída por volta de 1200 como uma basílica romanesca em tijolo que 50 anos depois foi tornada catedral gótica, é a mãe das igrejas em estilo tijolo gótico e serviu de modelo para muitas outras igrejas que se lhe seguiram na região do Báltico.

A visita ao seu interior é obrigatória e necessária para se testemunhar parte da história da cidade e da Europa. Como memorial, aqui vemos os dois sinos – deixados no chão, partidos – que em 1942 caíram após os bombardeamentos aliados durante a II Grande Guerra Mundial. E vemos outras preciosidades como a Capela da Dança Macabra, como homenagem à pintura de mesmo nome também destruída naqueles ataques, e o Relógio Astronómico. E temos ainda a nave da igreja, enorme e imponente nos seus 38 metros de altura.

Um segundo desvio na Breite Strasse leva-nos à Buddenbrookhaus, a casa de família do escritor Thomas Mann. Nascido em Lübeck, este é um dos três Prémios Nobel da cidade. A casa toma o nome da sua primeira obra, a qual se debruça sobre o declínio de uma família rica de mercadores de Lübeck, e está hoje transformada em museu.

Se tivermos apenas um dia para visitar Lübeck, escolhas do que ver são obrigatórias, claro. Tive de deixar para trás as histórias de vida e obra de Thomas Mann e de Günter Grass, à direita no final da Breite Strasse, e dediquei-me às de Willy Brandt. Estes são os três Prémios Nobel de Lübeck, os dois primeiros da literatura (em 1929 e 1999, respectivamente), o último da paz (em 1971). Mann e Brandt nascidos na cidade e a cidade escolhida por Grass.

A Willy Brandt Haus não é a casa onde nasceu Herbert Frahm, o seu nome de nascença, nascido em Lübeck em 1914 e designado chanceler da Alemanha Federal em 1969, mas é hoje o lugar do museu que nos oferece uma viagem multimédia guiada pela sua vida pessoal e política, bem como um panorama da história da Alemanha e da Europa durante o século XX. Século turbulento, a ênfase é colocada nos assuntos relacionado com a paz e os direitos humanos, tendo o antigo chanceler e antigo presidente da Internacional Socialista acabado por ver nos últimos anos de vida (faleceu em 1992) concretizado o seu sonho: a reunificação das duas Alemanhas após a queda do muro de Berlin.

O pátio da Willy Brandt Haus dá para o pátio da Günter Grass Haus e por esta zona da cidade todo um novo mundo se nos apresenta. Com a igreja Sankt Katharinen a reinar quase soberana, e colada a ela mais uns exemplos de edifícios de tijolo, como se de uma composição se tratasse, nesta rua, a Glockengiesser Strasse, encontramos uma série de surpreendentes pátios e passagens (Höfe e Gänge). Para lá das ricas e trabalhadas fachadas de edifícios de ricos mercadores ficam pátios ocupados com uma espécie de casas sociais por eles construídas. Era a Lübeck do século XVII para os mais desfavorecidos.

A Füchtings Hof tinha a porta aberta, mas demorei-me a tirar fotos (como sempre) e, entretanto, esta fechou-se, assim como se fechou a minha oportunidade de visitar este pátio. Já o Glandorps Hof, um pouco mais adiante, estava escancarado e, respeitando os avisos que pediam comedimento, por ser este um espaço privado, mas que faz questão de dar a conhecer a sua história, percorri-o serenamente.

Caminhando em direcção à porta Norte de Lübeck, onde visitámos já o European Hansemuseum no Castelo, lugar de fundação da cidade, passamos pela fantástica fachada em tijolo do Hospital Heiligen Geist (bem como mais uma enorme igreja e sua obrigatória torre). Uma das obras sociais mais antigas do mundo, está aqui desde 1286.

Do lado contrário da cidade, a sul, a catedral (Dom) domina. Este é o mais antigo edifício da cidade (datado de 1173) e, claro, respeita a arquitectura de tijolo gótico. Foi quase totalmente destruído durante a II Grande Guerra Mundial, mas hoje resiste como postal perfeito da cidade. É por aqui, atravessando a ponte sobre o Rio Trave e retornando em direcção à Porta Holstein, que encontramos o melhor miradouro de Lübeck. O Malerwinkel é um pedaço de verde, nesta época pintalgado de neve, à beira do Trave, ideal para a conquista da foto da jornada.

Kontorviertel e Speicherstadt

Desde 2015 a Speicherstadt e o Kontorhaus Viertel, com a Chilehaus, fazem parte da lista de Património da Humanidade da Unesco. É de urbanismo e arquitectura que se trata quando se pretende reconhecer e distinguir estes dois conjuntos da cidade portuária de Hamburgo.

Começando pelo Kontorhaus Viertel, neste “quarteirão” encontramos a distinta Chilehaus, mas também muitos outros edifícios exemplares nas ruas adjacentes.

Este é o território por excelência do “Brick Expressionism”. Desenvolvido durante os anos 1920 e 1940 de forma a acomodar aquele que é conhecido como o primeiro distrito comercial da Europa, vários edifícios, enormes, foram então construídos para explorar e suportar os negócios relacionados com as actividades portuárias que se desenrolavam ali mesmo em frente no porto. À pujança comercial do comércio internacional desse tempo havia que corresponder uma arquitectura moderna e igualmente pujante em termos estéticos. Uma afirmação económico-urbanística.

São vários estes complexos de edifícios, já se disse, mas o destaque absoluto vai para a Chilehaus. Projectado pelo arquitecto alemão Fritz Höger, este edifício de tijolo escuro que parece um navio foi concluído em 1924. Se num dos seus lados fica a proa, do outro uma curva elegante. Apesar das dimensões desmesuradas deste edifício, é possível respirar-se aqui para além de elegância um equilíbrio total.

Podemos ainda observar diversos elementos escultóricos na sua fachada, sobretudo figuras de animais, em especial o Condor. A construção deste edifício foi promovida por Henry B. Sloman, um magnata que fez fortuna com o comércio de salitre do Chile, daí o nome do edifício e o condor, a ave nacional desse país sul americano.

Mas muitos mais animais vemos a adornar outros destes edifícios modernistas.

Ao lado da Chilehaus fica o Sprinkenhof, o outro edifício que mais me seduziu. Ficou concluído nos anos 40 e na sua brutal área dá gosto descobrir os diversos ornamentos na sua fachada. A uma primeira vista as fachadas destes edifícios podem parecer algo monótonas, mas existe sempre alguma decoração que rompe essa monotonia. Para além da geometria rectangular das suas janelas brancas, precioso contraste com os tijolos escuros.

Este Kontorhaus Viertel é como que complementar à Speicherstadt, parte da Hafen City, a qual alcançamos após atravessarmos uma das inúmeras pontes de Hamburgo, como a Wandrahmsteg, bem defronte da Chilehaus.

E assim entramos numa área do antigo porto onde tudo está (e vai continuar a estar) a acontecer. A Hafen City é um pedaço de território cortado por diversos canais – ou seja, é uma série de ilhas – e inclui a Speicherstadt. Ambas se confundem, mas para esclarecer dir-se-á que Hafen City é o novo distrito criado em 2008 no sentido de desenvolver um projecto de regeneração urbanística desta zona que antes pertencia ao porto de Hamburgo. Muita construção em andamento se vê ainda e muita outra está já concluída, sendo este o maior projecto de desenvolvimento e requalificação urbanística da Europa. Uma espécie de nova cidade está em marcha, com novas zonas habitacionais, comerciais, escritórios e equipamentos. Uma nova centralidade, em resumo.

O Speicherstad, parte desta Hafen City, é o seu rosto mais histórico e aquele que a Unesco pretendeu distinguir. Literalmente “cidade dos armazéns”, a coerência deste que é o maior conjunto de armazéns portuários do mundo é evidente.

Construídos maioritariamente entre 1885 e 1927 em diversas pequenas ilhas no rio Elba, hoje ligadas por um sem fim de pontes, estes armazém estendem-se por mais de um quilómetro, uns à beira das estradas outros dos canais, ou ambas as situações. Ou seja, armazéns, pontes e canais fazem deste lugar um sítio encantado. A imagem destes armazéns elegantes reflectida na água dos canais, vista sobre uma das pontes, é uma daquelas que perdurará na memória.

Esta zona portuária foi construída como uma zona de comércio internacional livre de impostos. Os armazéns serviam de suporte ao porto e acomodavam café, chá, especiarias e muitos outros bens. Hoje são escritórios, galerias, lojas. Sob fundações de madeira, a sua arquitectura feita de tijolo vermelho vai de meros blocos quadrados monocromáticos a edifícios com alguns ornamentos e/ou torres, uma arquitectura de tijolo cujos edifícios podem ver o seu estilo transformar-se em neo-gótico.

Estes armazéns foram restaurados, renomeados – como Vespucius Haus ou Colombus Haus -, reconvertidos. O Kaispeicher B, um dos mais antigos armazéns, é hoje o Museu Marítimo Internacional.

E o Kaispeicher A transformou-se no mais novo ícone de Hamburgo, a Elbphilarmonie.

Aproveitando a pré-existência daquele antigo armazém, a dupla de arquitectos Herzog & de Meuron criou um edifício engenhoso e brilhante. Um verdadeiro monumento.

Inagurado em 2017, 10 anos de expectativa após ter sido lançada a sua primeira pedra, visualmente a Elbphilarmonie são dois edifícios em um. Na base o dito armazém em tijolo e por cima dele uma construção em vidro cuja imagem se dá a especulações. Será a vela de um navio? Ondas num mar agitado?

Esteticamente a parceria dos dois edifícios, antigo restaurado e novo inventado, é belíssima.

O edifício da Elbphilarmonie é agora o mais alto de Hamburgo (sem contar com a torre da TV), com 108 metros. Distingue-se claramente na paisagem a partir de diversos pontos da cidade.

A Elbphilarmonie é não apenas uma sala de concertos, na verdade três salas de concertos das mais avançadas acusticamente, como também um complexo residencial, um hotel, salas de conferências, restaurantes, cafés e lojas.

É possível – e obrigatória – a visita ao seu interior. Começamos por deslizar numa enorme e longa passadeira rolante que rompe os primeiros 8 andares, correspondentes ao antigo armazém, até nos deixar no terraço designado por Plaza e que é agora um ponto privilegiado de observação da cidade e do rio.

As salas de concerto descobrem-se com bilhete. Ou seja, cenas dos próximos capítulos ficam para nova temporada…

Voltando à sua fachada, as milhares de placas de vidro usadas para o seu revestimento devem ser observadas a várias horas do dia. Como um cristal, ela reflecte tudo à sua volta, o céu, a água, a cidade.

Há, pois, que retornar, retornar sempre à Elbphilarmonie.

Hamburgo

Em Hamburgo a água é presença constante.

Situada à beira do rio Elba, com ligação ao Mar do Norte, o comércio marítimo dominou a sua história desde sempre. Ainda hoje a cidade é um dos maiores portos da Europa. Daí que não seja de estranhar a presença de inúmeros armazéns.

O que faz de Hamburgo especial é precisamente a conjugação da sua situação geográfica, topografia e arquitectura.

Junto ao rio, já se disse, e atravessada por um sem fim de canais, Hamburgo é ainda polvilhada de edifícios em tijolo, resultando num muito característico estilo arquitectónico designado por brick expressionism (qualquer coisa como expressionismo de tijolo). Encontramos os maiores exemplos desse estilo no Speicherstadt e no Distrito Kontorhaus, ambos distinguidos como Património da Humanidade pela Unesco em 2015.

Um pouco de história.

O acesso directo de Hamburgo ao Mar do Norte sempre foi um atrativo, o que a fez estar na rota do comércio marítimo desde há muito. No século XII Hamburgo era já uma cidade com alguns privilégios, como direitos especiais de comércio e isenção de impostos, trazendo-lhe muitos mercadores.

Em 1321 a cidade juntou-se à Liga Hanseática, uma aliança de cidades mercantis que dominou o comércio no Mar do Norte e no Báltico durante séculos, até à descoberta do Novo Mundo. Mas mesmo com o final da aliança, Hamburgo não deixou de prosperar. Mais, soube sempre preservar as suas rotas comerciais e acabou por ganhar e manter novas rotas de comércio com a Ásia, a África e as Américas.

No século XIX Hamburgo tornou-se parte do Império Germânico. O final da I Grande Guerra Mundial trouxe uma queda no comércio internacional e, para agravar a situação, na sequência da derrota na guerra grande parte da frota comercial da cidade foi dada como reparação aos aliados. A II Grande Guerra também trouxe destruição a Hamburgo e, a juntar às dezenas de milhar de mortos, os ataques aéreos arrasaram grande parte das habitações, do porto e da indústria.

Esse tempo já lá vai e numa visita ao centro de Hamburgo, com excepção da igreja de St. Nikolai, onde a sua torre escura teima em manter-se erguida junto às ruínas do resto da igreja, não nos deparamos com mais destruição. Vemos, sim, uma cidade onde a reconversão urbanística de parte da imensa área do seu porto não tem cessado, o que é um sinal inequívoco de pujança económica. A Hafen City parece um projecto urbano megalómano, mas já ofereceu à cidade um novo ícone, a Elbphilharmonie, tornando-o de imediato o seu mais reconhecido edifício.

Foi por ele que decidi visitar Hamburgo e não me desiludi com esta que é a segunda cidade alemã em termos de população e importância, e que para além do seu movimentado porto e eixo de meios de comunicação social (como Die Zeit, Stern e Der Spiegel) muito tem a descobrir.

O aeroporto de Hamburgo fica a pouco mais de 20 minutos de comboio da estação central, a Hauptbanhof, que nos deixa a outra vintena de minutos a pé do Rathaus ou, caso queiramos poupar as pernas, a uma estação de metro deste que é o coração da cidade, a Altstadt.

A elegante torre do Rathaus ergue-se delicada e este enorme edifício domina toda a praça. Existem visitas guiadas ao interior do Rathaus, o correspondente às nossas câmaras municipais, mas infelizmente não consegui visitá-lo nos horários definidos.

Ao redor do Rathaus vários canais se estendem, ligando o rio Elba ao lago Alster. Este é um imenso lago que se divide em Binnenalster e Aussenalster (lago interior e lago exterior), com duas pontes a separá-lo. Nesta época do ano parte dele encontrava-se gelado e não consigo deixar de imaginar o fantástico que seria poder aqui nadar. Mas parece que não, não se deve nadar aqui por causa das correntes, antes passear de barco ou velejar. Fiquei-me por um pequeno passeio em parte da sua margem, com as árvores a transportarem-me para uma imagem de bosque e com um céu limpo azul a colorir a paisagem. O único senão? Máxima concentração para não escorregar no gelo e cair neste idílio citadino.

Voltando à praça do Rathaus, um canal separa a Altstadt da Neustadt (velha e nova cidade) e deixa a Alsterarkaden debruçada sobre a sua água. Em estilo renascentista, estas arcadas brancas são o lugar de várias lojas, cafés e galerias que servem de passagem de umas ruas para as outras, algo muito conveniente quando o frio aperta. Uma destas passagens, a Mellin, a arcada mais antiga da cidade, tem uma decoração no tecto distinta.

Esta área é a zona comercial da cidade por excelência, com as lojas mais luxuosas e sofisticadas, incluindo aquelas que ocupam a rua Jungfernstieg, a qual tem o privilégio de acompanhar o lago.

Seguindo o percurso dos canais, e de volta à Altstadt, a torre da antiga igreja St Nikolai mantém-se para contar parte da história da cidade. Reconstruída em 1874, após a destruição pelo grande fogo de Hamburgo, na altura era o edifício mais alto da Europa. Mais tarde, a igreja foi destruída quase por completo pelos bombardeamentos aéreos dos Aliados em 1943, durante a II Grande Guerra Mundial, e as suas ruínas impressionam, cumprindo o papel de recordar esse tempo negro da história mundial. O lugar está, assim, transformado em memorial, relembrando as vítimas da tirania, subsistindo a torre da igreja, ainda hoje um dos edifícios mais altos de Hamburgo.

Aqui perto fica a Deichstrasse, a rua onde teve início o grande fogo de 1842 que destruiu grande parte de Hamburgo. Hoje o encanto desta rua ocupada por restaurantes e edifícios que não iludem é o de espreitar pelas ruas estreitas que dividem as paredes desses edifícios e descobrir o canal que está para além deles.

Os canais sucedem-se e atravessada mais uma ponte chegamos a Speicherstadt, literalmente a “cidade dos armazéns”. Em pleno porto, foi construída entre 1883 e 1927, na sequência do grande fogo e, ainda que utilize a madeira para as fundações dos seus edifícios, veio trazer como novidade a criação de um novo estilo arquitectónico pelo uso do tijolo como material dominante.

Os armazéns são reis por aqui, mas os canais são os seus príncipes. Deixando a Speicherstadt e repetindo-me, Hamburgo é a cidade da água. Dos canais e das pontes.

Uma das pontes mais bonitas é a Ellerntorsbrücke, na transição da Altstadt para a Neustadt.

São muitas as igrejas de Hamburgo, com torres imponentes de altura desbragada. Mas a Igreja St Michaelis é uma das mais adoradas pelos seus habitantes. A maior da cidade, o seu interior é bonito e equilibrado, e a vista do alto da sua torre, com 132 metros, soberba.

Junto a esta igreja fica o Krameramtsstuben, uma pequena passagem – que facilmente passa despercebida – para um beco onde encontramos uma colecção de casas de madeira do século XVII. São as mais antigas e dos poucos exemplares que restam na cidade e, neste caso, foram construídas para as viúvas dos membros da guilda (associação) dos pequenos lojistas. Esta passagem é estreitíssima, de tal forma que é difícil chamar pátio ao espaço entre estas pequenas casas, hoje transformadas em lojas, galerias e restaurantes.

Caminhando daqui em direcção ao rio Elba e à zona do porto, o Portugiesenviertel traz-nos familiaridade, pelo menos nos nomes dos seus muitos restaurantes, cafés e pastelarias. Deu-me ideia de que o quarteirão português é frequentado sobretudo por não portugueses e os seus restaurantes, ainda que possam oferecer comida típica, a ver pela decoração serão tudo menos popularuchos. Um exemplo que nos dará uma ideia da sua frequência: domingo à tarde, hora de jogo do FC Porto, e nem uma televisão sintonizada no jogo português, antes no do vizinho Werder Bremen.

Aqui perto fica Landungsbrücken, onde se podem apanhar os ferries que navegam pelo Elba. A bem articulada rede de transportes em Hamburgo é o que se espera dos alemães: eficiência e comodidade. Comboios, metros, autocarros e barcos. Algumas linhas do metro, como a S3 e a U3, fazem o seu caminho sem ser enterradas, proporcionado-nos bonitas vistas quer para o lago Alster quer para o Elba. Mas o ferry substitui por inteiro (e fica bem mais barato) um dos muitos passeios de cruzeiro à venda na cidade, em especial o n.º 62.

St Pauli é o bairro que se segue. Um dos mais carismáticos da cidade, é aqui que ficam duas das maiores atracções de Hamburgo, o Fischmarkt e Reeperbahn.

Se estivermos na cidade a um domingo, é imperdível levantar bem cedo, ou nem sequer chegar a deitar, para dar um pulo até ao Fischmarkt. O início da manhã não estava nada convidativo, temperatura negativa e muita neve, mas lá sai, acompanhada de muitos mais, para conhecer o mais famoso mercado do peixe alemão. Surpresa número um, o edifício do mercado está, nas manhãs de domingo, transformado em palco de concertos, uma espécie de after party para a qual todos estão convidados, ou seja, aqueles que ainda não terminaram a noite e aqueles que estão a começar o dia. E para isso, para além da música, temos diversas bancas de comida e bebida para repor ou pôr energias. A salsicha é forte em toda a Alemanha, mas é a sanduíche de peixe a obrigatória neste canto à beira mar. Isto é o que se passa no interior. Lá fora, vemos as bancas de fruta, legumes e peixe, tudo alimentos frescos. Ou, talvez seja melhor dizer, nevados e congelados pela temperatura natural. A neve não parava de cair, mas nem por isso as ruas à volta do mercado às 8:00 da manhã deste domingo deixavam de estar vazias.

No entanto, no irónico Park Fiction, com vista para o Elba, àquela hora da manhã não estava ninguém debaixo de umas palmeiras, nem sequer um dos skaters ou activistas que o costumam frequentar 🙂

Mais estranho ainda 🙂 , os bares de praia estavam desertos e com ar de que não viam clientes há uma temporada. Não deve ser nada fácil ser noctívago com um frio destes.

Também vazia estava já a Reeperbahn, mais acima do porto. Mas esta rua, estou certa, havia tido muita animação e sobretudo calor na noite anterior, como em todas as noites. Esta rua, também conhecida como a milha do pecado, está inundada de restaurantes, bares, discotecas, clubes nocturnos, cabarés e tudo o que se possa imaginar relacionado com a indústria do sexo e da diversão. O red light district fica aqui, e há até ruas vedadas às mulheres, a não ser as profissionais. O facto de Hamburgo ser uma cidade portuária ajudou à construção deste proveito.

Reeperbahn não é só pecado. Este é o lugar para se ouvir música na cidade, sobretudo música independente, e foi onde os Beatles passaram parte da sua carreira, estando até imortalizados na sua praça principal.

St Pauli é ainda o nome de um dos clubes da cidade, aquele de bandeira preta com uma caveira e ossos. Parece assustador, mas este é um dos clubes alemães mais amados, boa onda e pacíficos.

Mais para lá de St Pauli fica Altona, o bairro mais ocidental de Hamburgo e aquele que até 1938 foi uma cidade autónoma. Cidade de pescadores, cidade portuária, hoje fica aqui um dos maiores símbolos arquitectónicos da Hamburgo moderna e em reconversão urbanística: o edifício da Dockland.

Em forma de barco, esta figura geométrica rombóide em aço e vidro é única e marca a entrada no porto de Hamburgo (junto a ele encontramos ainda o terminal de cruzeiros). É mais um daqueles edifícios que marcam definitivamente a imagem de uma cidade e, com muita pena, lamento não o ter podido explorar durante o dia. As suas longas escadas dão acesso a uma plataforma miradouro pública no seu telhado. Outro miradouro por aqui é o Altonaer Balkon, uma elevação com vista privilegiada para o porto que a noite e a neve impediram a visita.

Apenas um pretexto para um regresso, juntamente, quem sabe, com a ida a um concerto na Elbphilarmonie – sim, impossível rematar um texto sobre a Hamburgo pós-2017 sem voltar a falar no seu mais fantástico edifício, cortesia da dupla Herzog & de Meuron.

Outros locais a visitar em Hamburgo:

– Parque Planten un Blomen, um bonito parque urbano, com muitos caminhos, lagos e até um jardim japonês.

– Deichtorhallen, dois edifícios-hangares representativos da arquitectura industrial da cidade acolhem hoje exposições de arte contemporânea e fotografia.

– Hamburger Kunsthalle, percorre 700 anos de arte, pintura alemã e holandesa forte, incluindo uma sala dedicada a Caspar David Friedrich, o maior pintor do romantismo alemão, diversas obras do expressionista Ernst Ludwig Kirchner e um edifício mais recente para a arte contemporânea.