Numa área relativamente pequena ao redor do Templo Romano de Évora está mais de uma mão cheia de monumentos e elementos de interesse histórico, religioso e cultural. Para além do citado, entre o Largo do Marquês de Marialva e o Largo do Conde de Vila Flor estão a Sé Catedral de Santa Maria da Assunção, o Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, a Biblioteca Municipal, o Convento dos Loios, o Palácio dos Duques de Cadaval, o Fórum Eugénio de Almeida, incluindo o Jardim das Casas Pintadas, e o Pátio de São Miguel.

O Templo Romano de Évora / Templo de Diana terá sido construído no século 1 ou 2, como parte do processo de afirmação do poder imperial de Roma e é o maior vestígio da presença romana. Localizado no ponto mais alto da cidade, seria o elemento central do forum e apesar de durante muito tempo ter sido considerado como dedicado a Diana, filha de Júpiter, hoje é consensual que terá sido antes dedicado ao culto do imperador Augusto. Sem certezas, talvez tenha sido destruído ainda no tempo das invasões bárbaras, transformado em mesquita pelos muçulmanos e convertido em templo cristão pelos portugueses. Sabe-se, sim, que no século 13 o Templo foi integrado numa das torres do castelo medieval e no século 14 aí foram instalados os açougues da cidade – um documento camarário datado de 1498 designa o Templo por açougue -, situação que terá permanecido até ao século 19. Só então, por volta de 1845, foram demolidas várias construções que o acompanhavam, tendo aí sido efectuada as primeiras grandes escavações arqueológicas em Portugal. Concluídas as obras em 1863, o Templo acabou isolado ao centro da praça, designada Passeio de Diana. Hoje, permanece em pleno centro histórico da cidade, em lugar destacado e rodeado por elementos monumentais como a Sé, o Paço dos Inquisidores, a Igreja e Convento dos Lóios e o Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo. Figura poderosa e icónica, dele restam o pódio, de cantaria maioritariamente granítica, e parte da colunata, com 12 colunas completas com fustes e capitéis coríntios de mármore branco.

Da presença romana sobrevivem, para além do Templo Romano, as muralhas, o Arco da Porta de D. Isabel, os banhos públicos (encontrados há não muito no edifício da câmara municipal) e um conjunto de frescos descobertos numa habitação na Rua de Burgos.

A Sé de Évora é a maior catedral medieval do nosso país. Levantada no ponto mais alto da cidade, terá sido construída sobre uma rocha sagrada num antigo lugar de culto dedicado à fertilidade. Aí, tem a companhia de um punhado de outros monumentos – incluindo a do Templo Romano de Diana – e a sua construção teve início em 1186, foi consagrada em 1204 e terá terminado apenas em 1250. É uma igreja típica da Idade Média, em forma de fortaleza (veja-se as ameias no terraço), de transição do estilo românico para o gótico, com posteriores acrescentos renascentistas e barrocos.


A entrada principal recebe-nos com duas torres, uma de cada lado, e um incrível pórtico com imagens de vulto dos Apóstolos, considerado o mais monumental da arte medieval portuguesa, obra de Mestre Pêro, então o principal nome da escultura gótica de Portugal.



O interior da igreja não surpreende menos, distribuído por três naves com cerca de 80 metros de comprimento, com diversos altares e capelas decoradas em talha dourada e mármore de Estremoz, alguns deles obras barrocas de Ludovice, também arquitecto do Palácio de Mafra. Não prestámos (infelizmente) atenção ao órgão de tubos em madeira de carvalho, um dos raros exemplares quinhentistas ainda existentes no país, obra de Heitor Lobo.



E não visitámos a capela-mor, obra do neoclássico joanino marcada pela grandiosidade e beleza conferida pelos mármores de variadas cores nas paredes e no pavimento. Ao invés, deambulamos pelo claustro gótico, concluído por volta de 1350. De forma rectangular e com arcos ogivais nas abóbadas e nas janelas e desenhos geométricos, é um belo e sereno conjunto também com influência árabe que acolhe ainda Capela do Fundador, com o seu túmulo gótico e estátua jacente em mármore, bem como outros delicados túmulos.



Por fim, não podemos perder a subida ao terraço da Sé de Évora. Do topo avista-se um magnífico panorama geral da cidade e, ao mesmo tempo, pormenores próximos, como é exemplo o pátio do Solar dos Condes de Portalegre (do século 16, esta residência de arquitectura gótica e manuelina, mesmo de baixo da Sé, revela um pátio com um pequeno jardim e uma galeria de arcos toscanos e no segundo piso do edifício um detalhe mudéjar). Mas antes da panorâmica, o zimbório da Sé rouba todas as atenções, imagem super fotografada. Esta torre lanterna foi construída no final do século 13, durante o reinado de D. Dinis.


Diante do Templo Romano de Évora está o Convento dos Loios, hoje Pousada. Sobre as ruínas do castelo medieval árabe, este convento foi construído em 1481 por D. Rodrigo de Melo, fidalgo que ao serviço do rei D. Afonso V combateu os mouros. Na ideia terá estado uma espécie de desejo de redenção pela matança. A designação “Loios” será uma derivação de Eloi – o convento fez parte da Ordem de Santo Eloi. A não perder a visita ao claustro e à porta mudejar da Sala do Capítulo.




Anteriormente parte do Convento dos Loios, a Igreja de São João Evangelista pertence hoje ao Palácio dos Duques de Cadaval. Privada, foi restaurada em 1957 e 1958 por Dom Jaime Álvares Pereira de Melo, o 10.° Duque de Cadaval. O primeiro destaque vai para o seu pórtico gótico. Já no interior, na nave da igreja são os painéis de azulejo que sobressaem, da autoria do pintor António de Oliveira, de 1711, representando episódios da vida de São Lourenço Justiniano, um dos fundadores da Ordem. Com tecto polinervado, ao fundo está a dourada capela mor, no lado esquerdo, mais elevado, vê-se a tribuna onde os duques assistiam às missas, e uma porta entre-aberta no chão deixa espreitar para a cripta com as ossadas dos frades loios que aqui viveram. Pela igreja, há vários túmulos dos membros dos duques e seus ascendentes, funcionando esta como panteão da família. Visitamos ainda a Capela de Nossa Senhora do Rosário, com um muito bonito retábulo e mais túmulos, e a Sacristia e a Sala da Cera. Esta última incorpora parte da antiga muralha romana, assim como azulejos árabes muito antigos.

O Palácio de Cadaval é ainda hoje propriedade dos Duques de Cadaval. Está desde 1390 nas mãos da família (na época ainda não lhe tinha sido atribuído o título), após doação de D. João I a Martim Afonso de Melo, então alcaide-mor do reino. A fachada do Palácio mostra bem a sua longa história, acolhendo estilos diversos. À inicial torre defensiva, diz-se que construída sobre parte da antiga muralha romano-visigoda, juntaram-se elementos do estilo mudéjar, gótico e manuelino, resultando numa mescla de arquitecturas que expressam bem o encontro de culturas vivido em Évora.



Para além do bonito pátio interior, típico da arquitectura palaciana da época, do conjunto do Palácio dos Duques de Cadaval podemos ainda visitar uma das suas alas residenciais, agora destinada a exposições – vimos aqui a exposição Insiders/Outsiders, com obras de artistas aborígenes australianos e marroquinos da chamada Escola de Essaouira, parte da colecção de um casal de artistas e colecionadores que vivem em Maiorca. A não perder, no último piso, a janela em estilo mudéjar com arcos ogivais que se abre ao panorama da cidade e planície contígua. O restante palácio corresponde à residência privada da família, cujo fundador foi Martim Afonso de Melo, fidalgo ao serviço do Mestre de Aviz (futuro D. João I) e descendente da família real portuguesa, tendo chegado a servir de residência temporária de vários reis.



O Museu Frei Manuel do Cenáculo é parte integrante da rede de museus nacionais, o único museu nacional a sul do Tejo. Está instalado no antigo Palácio Arquiepiscopal, construído no final do século XVI e princípio do século XVII. A sua colecção tem origem no conjunto reunido por Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, tendo sido depois acrescentado por elementos artísticos vindos de casas religiosas da região e de doações particulares. Abrange arqueologia, pintura (com a obra prima do retábulo da capela mor da Sé de Évora, composta por 13 pinturas da escola flamenga) e escultura, entre outras. Escavações efectuadas entre 1996 e 1998 deram conta que o edifício terá sido construído sobre uma necrópole medieval que parece ter origem islâmica, do período imediatamente anterior à conquista cristã de Évora.



O Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida é uma instituição incontornável na cidade, um símbolo da Évora contemporânea. Instalado no antigo Palácio da Inquisição, para além de exposições acolhe um dos maiores segredos de Évora: as Casas Pintadas. O Jardim das Casas Pintadas tem a sua origem no século XVI e é único no panorama nacional, não apenas pelo seu espaço aberto, mas sobretudo pela sua relação com os frescos da galeria alpendrada e no interior da pequena capela. Esta galeria apresenta frescos quinhentistas, compostos por 5 painéis com a representação de diversos animais e figuras míticas que através de metáforas e fábulas procuram expressar uma moralidade crítica. O Renascimento dava os seus primeiros passos no país e a aristocracia palaciana experimentava um tipo de arte mais mundana, por contraposição à mais usual arte religiosa. É, aliás, um dos raros exemplos no nosso país de pinturas profanas do século 16.


Este jardim possui um desenho simples, com uma estrutura octogonal com um espaço de água rodeado de laranjeiras, representando uma aproximação da terra ao céu. Preserva ainda um pequeno espaço de horto, o qual era originalmente muito maior, entretanto absorvido pela ampliação do Palácio da Inquisição. E podemos aceder ao piso superior, uma espécie de terraço por cima da galeria, donde temos um novo ponto de vista sobre o jardim, vendo-se ao fundo a torre da Sé.



Pátio de São Miguel – situado na zona da antiga alcáçova / castelo, de que só resta parte das muralhas e das torres, este era o ponto mais elevado de Évora, onde tanto romanos como visigodos haviam erigido e mantido a estrutura fundamental de defesa da sua cidade. Paço régio durante a Idade Média, o edifício serviu de pousada aos Reis de Portugal da primeira dinastia e de base militar ao Condestável D. Nuno Álvares. O castelo medieval foi destruído por volta de 1381 – 1383, numa revolta dos partidários da Ordem de Avis. Com a expansão da cidade e a construção da nova muralha, o “Castelo Velho” acabou por perder as suas funções de cariz militar e veio ao de cima a sua faceta de zona nobre e palaciana. Em sequência, os seus espaços foram doados a Afonso de Melo e Diogo de Castro e o que era o castelo ficou então dividido em dois importantes palácios: o dos Duques de Cadaval e o dos Condes de Basto. É, pois, um lugar simbólico, que ao longo dos séculos foi cenário de acontecimentos marcantes da história da cidade e do país. Hoje, o Pátio de São Miguel está junto ao Palácio dos Condes de Bastos (também conhecido como Paço de São Miguel, que não visitámos) e à ermida de São Miguel, a primitiva igreja do castelo. O conjunto arquitetónico, restaurado em 1957 por Vasco Maria Eugénio de Almeida, filantropo e mecenas da cidade, inclui ainda a Coleção de Carruagens e o Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida.


Abaixo do Pátio de São Miguel está o conjunto composto pela Igreja do Espírito Santo pela Universidade de Évora. Corria o ano de 1551 quando o Cardeal D. Henrique, primeiro arcebispo de Évora, fundou o Colégio do Espírito Santo, da Companhia de Jesus. Em 1559, o colégio foi transformado em universidade, e assim foi criada a segunda universidade de Portugal, depois de Coimbra. Antes de visitarmos este verdadeiro monumento clássico-barroco e os seus magníficos Claustros e Sala dos Actos, impõe-se um breve enquadramento histórico. Em 1759, a Universidade foi encerrada por determinação do Marquês de Pombal, tendo-se seguido a expulsão dos jesuítas do país. Apenas em 1973 o espaço voltou a acolher a universidade pública, embora durante os 200 e poucos anos que mediaram as duas datas tenham estado aqui instaladas outras instituições ligadas ao ensino. Hoje é um lugar vivido pelos jovens alunos, que têm a oportunidade de estudar num ambiente rodeado de beleza e arte.




Passado o pórtico monumental em mármore e colunas toscanas, com a pomba divina do Espírito Santo, logo damos de caras com o belo claustro, sereno na visita de sábado antes da abertura do ano lectivo. Ao largo do tapete verde do terreiro do claustro, sucedem-se os arcos de volta perfeita assentes em colunas dóricas de mármore branco de Estremoz. As paredes estão decoradas com azulejos azuis e brancos, com a representação de jarrões de flores, temas chineses que terão inspirado os jesuítas nas suas missões no Oriente.


Percorrendo as alas do claustro, são inúmeras as portas que dão acesso às salas de aulas – no piso térreo originalmente ocupadas com oficinas (e capela ao centro) e no piso superior por celas. As portas parecem fechadas, mas não; há que empurrá-las e descobrir que todas as salas estão igualmente decoradas por mais azulejos, agora com temas variados, alusivos às aulas que ali eram ministradas. É curioso que estes temas não têm nada a ver com a paisagem alentejana, são antes inspirados pela paisagem do norte da Europa, com cenas bucólicas do campo ou de caça, pesca e marítimas. E estas salas têm ainda cátedras magistrais de madeira brasileira do tempo de D. João V e colunas dóricas de mármore no meio a sustentar os tectos.


Ainda no piso térreo, a Sala dos Actos é outro dos momentos altos da visita à Universidade. No meio do Pátio das Escolas (como são conhecidos os claustros), era a primitiva capela da Universidade, até à construção da Igreja do Espírito Santo. Tem uma imponente fachada de mármore com estátuas simbólicas do sol e da lua e com letras da Companhia – IHS -, para além do brasão do Cardeal D. Henrique com as 5 quinas, igual às 5 chagas de Cristo. À entrada da Sala estão dois painéis de azulejo com figuras trajadas à moda da corte de D. João V.




No segundo piso há mais para visitar. Numa das alas, a capela barroca de Nossa Senhora da Conceição estava fechada, pelo que nos limitámos a apreciar o seu pórtico de entrada. Construída em 1641, logo a seguir à Restauração e à proclamação de Nossa Senhora da Conceição como padroeira de Portugal, a sua localização aponta para Vila Viçosa, a sede da casa do Duque de Bragança, que então ascendeu ao poder.

A Sala das Belas Artes é onde está instalada a acolhedora biblioteca, onde se destacam os seus tectos pintados.

E este segundo piso tem ainda, no cruzamento dos longos corredores, o designado Centro do Mundo Octógono, encimado por uma cúpula-lanterna octogonal. Procura representar o centro do mundo e azulejos e pinturas nas paredes figuram os quatro elementos: ar (Juno), fogo (Júpiter), terra (Cibele) e água (Neptuno).



A Igreja do Espírito Santo, ao lado da Universidade, é outra maravilha. À semelhança da sua congénere São Roque, em Lisboa, também não é o altar mor que rouba as atenções. Tem uma nave central ladeada por capelas, cada uma mais carregada com talha dourada do que a outra. Outro dos elementos artísticos muito presentes são os embrechados em mármore. Construída entre 1566-74, é uma das primeiras igrejas jesuítas do mundo, tendo sido reabilitada pela última vez entre 2020-2023. Nestas obras, foi revelada a pintura mural quinhentista por baixo da actual decoração, uma técnica bastante comum na região. Bem antes, porém, após a expulsão da Companhia de Jesus de Portugal, a igreja passou para a Ordem Terceira de São Francisco e serviu de Panteão dos Arcebispos de Évora, estando aqui Frei Manuel do Cenáculo.

A visita à Igreja do Espírito Santo abarca ainda a sacristia velha e a sacristia nova. A grande curiosidade da sacristia nova é perceber que está possui painéis de azulejo com a representação de episódios da vida de Inácio Loyola antes de ser santo.