Fim de tarde no Pinhão



A viagem de comboio da Régua ao Pinhão oferece-nos uma trintena de minutos de deleite, delicadeza e placidez. Esta última apenas foi quebrada pelas águas tormentosas do Douro até à Barragem de Bagaúste e pelo rapaz que pedalava lá fora numa forte cadência, ainda assim insuficiente para deixar o comboio para trás.


Depois de relembrar a estação do Pinhão – seus belíssimos azulejos e sua localização superior – seguimos para junto do rio e caminhámos languidamente rio Pinhão adentro, entrecruzando conversas de banalidades com temas mais profundos. 



Deixámo-nos conquistar pela simpatia das gentes deste Douro. Diz-se que quando se viaja sozinho é mais fácil entabular conversa com o(s) outro(s), por se estar mais disponível. Mas os cinco estivemos disponíveis e aceitámos que se metessem connosco e quisemos meter-nos com os outros, à vez. O peixe era mesmo um peixe e estava pronto para nos ser oferecido, caso assim o quiséssemos; o nome do barco de cruzeiro amavida prestava-se a dúvidas, mas os simpáticos durienses não se deixaram enganar pelo trocadilho “a má vida”.





Para o fim da viagem, no apeadeiro à saída do Pinhão, a dúvida instalou-se entre nós: como será para um jovem viver ali, terra remota? Um local partilhou connosco uma convicção pungente, a de que a destruição da linha do Tua foi propositada, pois se tal não fosse, como explicar que uma linha centenária tivesse tido dois acidentes seguidos depois de décadas e décadas de viagens pacatas, um deles com vítimas mortais até?
Depois de ouvirmos atenta e silenciosamente este senhor enquanto aguardávamos a chegada do comboio que nos levaria de volta à Régua, incrédulos com o sentido que a história fazia, comentávamos entre nós como era simpática e disponível esta gente, lembrando que apenas o revisor do comboio não o tinha sido, nem sequer tendo respondido aos nossos “boa tarde”. Eis senão quando entra o revisor da viagem de retorno e… era ele mesmo, mas agora em versão brincalhona e efusiva, a distribuir boa disposição para todos os viajantes. 
Ah! Estes homens são uns homens do norte!

A mais bela corrida do mundo


Na senda de correr em lugares diferentes dos da nossa cidade, desta vez seguimos para a Régua para a disputa da entitulada “A mais bela corrida do mundo”. A propaganda não é pouca coisa, mas como a corrida segue junto às margens do Douro não há que duvidar da sua verdade e justeza.

A Régua é provavelmente das cidades mais feias de Portugal. Tendo acabado de referir a justeza de outro título, não corro porém o risco de proferir injusta afirmação agora. Repito, a Régua é provavelmente das cidades mais feias de Portugal. O que é um feito absurdo, tendo em conta que a cidade se abre para a paisagem deslumbrante do Douro. O que a natureza dá, o homem (quase) consegue estragar. Mas cerrando os olhos a alguns dos monstruosos edifícios que alberga e virando as costas ao edificado, é fácil cair de simpatia pela cidade.


Peso da Régua é fulcral como entrada na Região Demarcada do Douro. À sua volta encontramos uma série de quintas que trazem a fama aos vinhos do Douro. Assim, não espanta que possamos visitar na cidade o Museu do Douro, instalado de frente para o rio na Casa da Companhia. A história desta arte feita de sacrifício na região é nos aqui apresentada. Destaque para um painel onde frases vêm sob a forma de ondas, como os socalcos dos montes que ladeiam o Douro, e para a disposição das garrafas – um Museu a visitar.


Noutro domínio, a arte azulejar é presença constante. Mas para me ater às palavras, relevo para outro painel, desta vez em azulejo, nas traseiras da rua principal, com a representação da figura e citações do omnipresente Miguel Torga

“montes que não deixam crescer, videiras que ninguém pode contar, rio que não pára de correr, pedaço de viril beleza”

“O comboio num vaivém sem descanso, leva e traz anseios, aproxima e afasta esperanças, carrega e descarrega ilusões”

e de Eugénio de Andrade

“Poucas vezes o outono se demorou tanto nestas águas sem as cobrir de névoa”


Curiosa, ainda, a capela da Misericórdia de Peso da Régua, da qual escreveu Paulo Varela Gomes ser uma das mais bonitas do nosso país. Surpreendente encontrar por aqui um monumento religioso que dá ares de um orientalismo, bem vincado na forma e nos tons verdes e vermelhos das suas telhas.

Se da Régua preferimos reter a paisagem do Douro, não escapámos ainda a saborear a sua comida. Por aqui comemos sempre muito bem, sem medo de seleccionar previamente os restaurantes, com confiança em entrar nos que o acaso nos ofereceu.


Pernoitámos numa daquelas aberrações que faz da Régua uma cidade incaracterística. Mas como era uma torre pudemos começar logo de manhã por sentir o ambiente dos corredores lá em baixo. 
A corrida da Meia Maratona do Douro Vinhateiro teve início na estação de comboios da Régua, primeiro sentados à janela do comboio a ver o plácido Douro correr forte, cortesia das chuvadas recentes e da abertura das barragens por parte dos vizinhos espanhóis. O apeadeiro foi a estação da Barragem de Bagaúste, a cerca de 6 kms da meta da Régua. Atravessámos o rio para a outra margem e para cima água calma, para baixo água revoltosa certamente a impedir, ou pelo menos a complicar, a passagem dos barcos (neste ano, nesta época, os barcos não têm ido além do Pinhão). 
Partida.

Esperavam-nos 21 kms e mais uns pózinhos a dar às pernas e a tentar manter o coração no ritmo certo. Seguimos Douro adentro, em direcção à Folgosa, onde pouco depois invertemos a marcha e voltámos para a Régua. Antes de passarmos pelo DOC do chef Rui Paula, lamentando não o termos incluído gastronómicamente na escapada, esses primeiros cerca de 7,5 kms foram fáceis, com percurso sempre plano. Melhor: céu azul, temperatura amena, paisagem absolutamente sossegada, passarinhos a chilrear para quebrar a monotonia da respiração dos corredores a arfar. Como não corria vento, os reflexos da paisagem – montes, casas brancas, comboio a passar – estavam colados na água do Douro, como se de um selo de garantia se tratasse. Antes de voltarmos neste percurso já não tínhamos dúvidas do título: esta é mesmo a mais bela corrida do mundo.

Infelizmente, porém, a abundância de verde por aqui não foi suficiente para que a tarde dissipasse as dúvidas no sentido mais correcto e o título de primeiro em outro campeonato recaísse nos leões verdes. Não chegou haver aqui uma equipa de “lion runners”, o primeiro lugar desta Meia Maratona ter ido parar a um atleta do Sporting e muitos mais a fazer força; a águia que vimos sobrevoar o Douro lá para os lados do Pinhão na tarde anterior foi mais forte e a premonição da maioria dos amigos do nosso grupo trouxe felicidade para eles e (mais um) desgosto para as manas.

Voltando à corrida, a do Douro é mesmo especial. E nem estou a pensar na garrafinha de vinho que ofereceram com a inscrição. Penso antes nas freiras e padres (mesmo que mascarados) que se mantinham à beira da estrada com vista para o rio a apoiar os atletas e a dar-lhes música – nada de rockalhadas vinda de gente urbana, como noutras corridas. O bom ambiente e a boa disposição também marcaram presença.

De volta em direcção à Régua, a boa companhia da paisagem manteve-se e certamente foi um alento para continuarmos em movimento. Já a correr para a meta, tempo e disposição ainda para pensar e apreciar o quanto o rio se encontrava liso e as quintas vinhateiras e os socalcos se sucediam. Na parte final, porém, o rio parecia traduzir o cansaço e misto de emoções dos corredores, euforia e tormenta, desejo de que a enorme ponte da Régua venha para perto da nossa vista, sinal de que nos preparamos para atravessar a outra ponte mais pequena, de deixar a estação de comboios para trás, o Museu do Douto à direita, postal da figura do homem da capa – Sandeman – à esquerda, meta mesmo ali à frente.

Feito. Sucesso. Embora lá comer um javali e repor os líquidos.

Casa ou Palácio Mateus

Classificado como Monumento Nacional, este é provavelmente dos edifícios em Portugal que mais merece ser visitado aquele que menos visitas recebe.
A Casa Mateus encontrava-se nomeada para as 7 maravilhas de Portugal (estava nos 21 finalistas, apesar de isso valer o que vale) e muitos terão olhado para esta nomeação com espanto ignorante. Foi o meu caso.
A desculpa de que se encontra a mais de 400 km de Lisboa não cola. E para os outros nossos concidadãos também não cola o seu alegado isolamento – a 2 km de Vila Real, em Trás os Montes – pois o Porto está a menos de uma hora e a sua área metropolitana acolhe uma percentagem nada despicienda de cidadãos portugueses.
O certo é que mais vale tarde do que nunca.

Visitámo-lo agora, numa manhã de chuva intensa, nada convidativa para passeios demorados pelos belíssimos jardins da Casa Mateus (deve ser sina das nossas visitas a monumentos com jardins – o mesmo sucedeu na visita ao Mosteiro de Tibães)
Mas o que mais chama a atenção em terras do antigo morgadio de Mateus é, para além do enquadramento e conjugação Palácio + Capela + Lago + Jardins, precisamente, o edifício da casa mãe. O barroco em todo o seu esplendor.

Obra do século XVIII, suspeita-se que o arquitecto Nicolau Nasoni (o mesmo da Torre dos Clérigos) tenha tido influência na sua concepção. Os pormenores decorativos são luxuriantes.
Alguma decepção, porém, confesso, no que ao interior do edifício diz respeito. As expectativas eram elevadas, mas a imagem fabulosa da sua fachada chegou para as encomendas e nem a chuva estragou a foto da praxe com o reflexo do edifício na água do lago que lhe dá as boas vindas.

Vilas e Cidades de Trás-os-Montes e Alto Douro

Nesta calcorreada pelas margens e arredores do Douro, vilas e cidades houve que valeu bem a pena conhecer e, muitas das vezes, bem mereciam mais do que uma curta paragem ou estadia.
Eis algumas delas, todas na antiga província de Trás-os-Montes e Alto Douro:

Lamego
De Lamego, cidade do distrito de Viseu, a primeira impressão, quando se chega à cidade atravessando a ponte sobre o Rio Balsemão, é a de uma urbe que cresceu desordenadamente e onde a fealdade abunda. Mas, depois, damos de caras com uns edifícios elegantes e bem conservados (casos da Sé, do antigo Paço Episcopal e do antigo Hospital da Misericórdia, hoje Cine-Teatro) e a surpresa é deveras agradável. A longa avenida pejada de árvores que nos conduz até ao Santuário de Nossa Senhora dos Remédios só reforça esse sentimento.

São João da Pesqueira
Também pertencente ao distrito de Viseu, foi a que mais surpreendeu.
Chovia a potes. Normalmente, a imagem da chuva num qualquer lugar costuma produzir em nós um lamento. No entanto, no caso da Praça da República, no minúsculo centro histórico da vila, tanta harmonia não parece capaz de ser perturbada por nenhum factor externo, muito menos da natureza. Lindo e encantador, verificar tamanha preocupação em manter um núcleo tão pitoresco, numa terreola tão para lá de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Perto de São João da Pesqueira fica o miradouro de São Salvador do Mundo, com uma vista fabulosa para as águas do Douro que vão correndo serenas lá bem abaixo.


Torre de Moncorvo
Já no distrito de Bragança, é uma vila que também surpreende. Mais uma vez, o seu centro histórico encontra-se bem conservado, vendo-se aqui e ali umas quantas casas brasonadas. Um dos seus ex-libris é a Igreja Matriz, monumento nacional.
Como curiosidade, diga-se que as maiores amplitudes térmicas do nosso país costumam ser registadas aqui. Quer isto dizer: Invernos rigorosos e Verões abrasadores.

Mogadouro
Em Mogadouro, outra vila no distrito de Bragança, o que marca a paisagem é a Torre de Menagem do Castelo, donde se obtém uma vista tranquila do que parece uma planície trasmontana (apesar de os montes dominarem por aqui, onde a altitude é de cerca de 700m).


Miranda do Douro
Também no distrito de Bragança, é a cidade ponto de partida para o deslumbrante tour pelas águas do Douro Internacional, e a última localidade portuguesa que deixamos para trás quando queremos passar a fronteira até Espanha. Mas, para além da língua portuguesa, deixaremos também para trás a língua mirandesa, que esta é terra de fortes tradições. As placas com os nomes das ruas fazem questão de aparecer escritas nos dois idiomas.
O centro histórico é interessante e bem cuidado, com uma série de ruas pedonais. Lá no alto, depois de passarmos a Praça onde estão instalados os Paços do Concelho, num edifício solarengo, dominam a Sé e o Paço Episcopal com os seus jardins.

Mirandela
É uma cidade do distrito de Bragança que tem vindo a crescer e desenvolver-se, ajudada também pelos estudantes que frequentam os seus pólos universitários.
Alheiras à parte, Mirandela já valeria só pelo cenário da sua ponte sobre o Tua, com a arcaria sucessiva reflectida na água do rio. O edifício mais interessante é o antigo Palácio dos Távoras, hoje Paços do Concelho.Uma pergunta, todavia. Onde estava o metro de superfície, segundo dizem, ex-libris da cidade?

Pinhão

Esta é, provavelmente, uma das estações de comboio mais pitorescas do nosso país.
Não só está implantada num local privilegiado, com uma paisagem soberba, como se encontra bem cuidada e nos permite uma aproximação visual à história do árduo trabalho das gentes que em outros tempos, que hoje parecem tão distantes, fizeram do Vinho do Porto uma das marcas de Portugal.
Assim nos conta a série de painéis de azulejos que retratam as vindimas.

Apesar de apenas termos percorrido Régua – Pinhão, a linha do Douro tem início no Porto e final no Pocinho. O recorrido da sua totalidade será certamente uma daquelas experiências a viver por qualquer viajante que se preze. Há que se apressar, todavia. Esta linha, que em tempos chegou até Barca d´Alva, hoje termina no Pocinho e não cessam noticias de que possa vir a ser novamente amputada. Até lá, não cessam igualmente os lamentos do estado de abandono a que chegou a estação da mítica Barca d´Alva.

São Leonardo da Galafura

Na estrada da Régua para Vila Real, subindo pelos vales de socalcos do Douro Vinhateiro, alcançamos a Galafura e, um pouco mais adiante e ainda mais acima, a 566m de altitude, o MiraDouro de São Leonardo da Galafura, que Miguel Torga imortalizou.

A vista é esmagadora e, apesar das nuvens que teimavam em passar, não foi difícil descobrir porque é que o nosso escritor se deixou inspirar.
“Excesso de natureza”, chamou-lhe Torga.