Na Índia, de Albert Londres

Albert Londres foi um jornalista francês que viajou pelo mundo.
Em 1922 andou pela Ásia e passou pela Índia, tendo-nos legado um pequeno livro cheio de apontamentos deliciosos. No prefácio do seu Na Índia, Ana Cristina Leonardo escreve:
“O repórter, com o seu faro particularmente dotado para o pormenor, o seu gosto pela petite histoire e o seu apurado sentido crítico e de justiça – um virtuoso das letras íntegro de carácter, todos o confirmam -, esboça um retrato que hoje, à distância de quase um século, se continua a provar ser acurado e genuíno.”.
E é-o mesmo. 
Acerca das viagens de comboio, por exemplo, confirmarmos décadas depois que tudo parece igual – e igualmente estranho aos sentidos ocidentais.
Leia-se:
“Circular constitui um dos prazeres preferidos da raça”. “Nos países moderados, chegamos sensatamente à estação no dia da partida, talvez uma hora antes. Mas isso é porque não somos verdadeiros conhecedores dos prazeres da via férrea. Muito antes da data em que participarão no grande mistério da tracção, os indianos invadem com os seus guarda-chuvas, seguidos da esposa, transportando o cachimbo do marido e os potes de cobre, e das crianças nuas, o átrio da South Indian Railway ou de qualquer outra próspera companhia. Aí comem costas com costas, uma questão de castas (não esquecer as castas), e fazem as suas orações, lavam as tíbias. Um odor a jardim zoológico invade a área. Felizes, aí dormem enquanto esperam por um comboio que apanharão… provavelmente.”
Uma outra constatação de que tudo permanece igual: 
“Quando o hindu abre o olho, está pronto, não precisa sequer de sair de casa uma vez que dorme pelos passeios.”.
A ironia domina toda esta obra de Albert Londres e está igualmente presente na descrição da caminhada de Gandhi, num capítulo breve titulado “Como Apareceu… e Desapareceu Gandhi”, e na forma curta mas certeira de descrever os processos de não cooperação e de desobediência civil que nortearam a sua acção. 
Nesta descrição do âmago indiano não precisamos de ter estado na Índia para nos parecer familiar, cortesia de todos os estereótipos que envolvem a vida no subcontinente: 
“Cruzamo-nos com leprosos prateados e com leprosos carcomidos. Estendem-nos a mão. Podemos dar-lhes dois annas, parece que a coisa não se apanha assim. Um elefantíaco, com uma perna normal passeia a outra perna de paquiderme. Metade dos transeuntes tem a cara pintada como ovos da Páscoa. Há quem apresente três traços brancos horizontais, mas não faço ideia porquê. Aqueles que têm um ponto branco entre os dois olhos são os que adoram Shiva, o deus criador, e aqueles que têm um vermelho é porque adoram Brahma, o deus criador, e aqueles que têm um ponto amarelo é porque adoram Vishnu, o deus conservador. E aqueles que adoram Hanuman, o deus macaco, limitam-se a ter uma macaca no coração.”
Obviamente, não poderiam faltar umas palavras sobre a vaca: 
“A vaca é a deusa das ruas. Acompanha-vos pelos passeios e olha convosco para as belas montras. Quando se instala no meio das avenida, mesmo os carros de topo a contornam respeitosamente para não a incomodarem. Se tivéssemos de escolher, mais depressa passaríamos por cima do corpo de um homem do que do rabo de uma vaca.”.
Este é, também, um livro que não foge à crítica político-social de uma época em que o Império Britânico governava a imensa Índia. A ironia segue: 
“Sob uma fotografia de Gandhi, os comerciantes, que são comerciantes antes de serem indianos, vendem o belo algodão inglês a senhoras que são coquetes antes de serem nacionalistas.”
Acerca das relações entre indianos e ingleses, a contundência corre solta: 
“O sorriso é um movimento facial desconhecido na Índia. O indiano não sorri. O inglês não sorri. Neste país onde o calor vos esmaga, toda a gente está congelada! Seja o que for que aconteça, nunca devereis dizer que o contacto entre indianos e ingleses foi cortado. Ele nunca existiu. Pode-se dizer que há tanta afinidade entre um indiano e um inglês como entre um rebanho de ovelhas e um banco de bacalhau, por exemplo. Porque, no que diz respeito ao inglês, pode-se afirmar que ele conseguiu deixar de ver o indiano. Se um deles parasse numa rua de Calcutá para lhe perguntar:

O que pensa o Senhor do indiano?

Ele responder-lhe-ia:

O indiano? Vejamos. Para já, onde é que vive esse povo?”

Albert Londres utiliza a expressão “a cor do ódio” para designar os sentimentos ingleses face aos nativos e também por isso esta é uma obra indispensável para se compreender a história recente (presente?) da Índia sob todos os domínios.

Breves Apontamentos sobre Literatura Chinesa

Apesar de não ser a civilização mais antiga do mundo, os chineses possuem a mais longa história cultural em termos de continuidade. Na visão tradicional chinesa, a cultura é como um rio contínuo. Nesta ideia de cultura inclui-se a arte, a arquitectura e a literatura. É quanto a esta última que me debruçarei de modo breve.

Foi o sistema de escrita (primeiro em pedra, bronze, seda, bambu e, depois, em papel) e sobretudo a sua continuidade e unidade ao longo de grande parte do continente que permitiu e permite a comunicação entre os indivíduos, mesmo se a linguagem falada é diferente de região para região. Faz, pois, todo o sentido a afirmação de que ao longo dos milénios de história da China a sua permanência se deve mais às suas tradições literárias do que à sua história política. 

O poder da escrita é tal que existe a convicção de que muitos dos problemas existentes podem ser ultrapassados através da literatura e de que esta tem a força para abrir os olhos, mentes e corações das pessoas. Em resumo, moldar valores e influenciar comportamentos.

Encontramos, assim, primeiramente uma função moralista nos princípios da escrita na China.
São conhecidos e possuem influência até hoje os textos ligados ao budismo, confucionismo e taoismo. Nomes como Confúcio (551-479 a.C.), Mêncio (372-289 a.C.) e Laozi (data de vida desconhecida, talvez entre o século VI e IV a.C.) despertam curiosidade com as suas parábolas e os seus ensinamentos ainda definem e guiam o modelo de homem virtuoso. Entre as maiores virtudes do homem culto está, claro, a concordância entre a sua palavra e a sua acção. 

Mesmo tendo em conta estes textos filosóficos, a poesia é o género literário mais reverenciado na China. A classe escolarizada tinha como requisito de virtude a devoção à escrita de poesia. As emoções da escrita da poesia eram-nos passadas através da inspiração por temas como a transcendência, o decoro e a elegância, a melancolia e o arrependimento, a separação e a natureza. 
Como poetas maiores da China temos Du Fu (712-770) e Li Bai (701-762), ambos do tempo da Dinastia Tang, apelidada como a era dourada da cultura chinesa, em que um poema era tanto um acto social como uma obra de arte.

Quanto à ficção, talvez as primeiras narrativas tenham aparecido no século V a.C. As histórias não baseadas na história (género muito apreciado na China, com o nome do historiador Sima Qian, 145-87 a.C., à cabeça) eram contos descrevendo situações estranhas associadas a deuses, fantasmas, espíritos, seres fantásticos, monges budistas.

De 804 data A História de Yingying, provavelmente a mais conhecida história de amor chinesa.
O mais celebrado romance é, quase sem discussão, o Hung Lou Meng (O Sonho da Casa Vermelha), publicado em 1792, durante a dinastia Qing. Narra um triângulo amoroso num clã em decadência que atravessa parte dos anos Qing, caracterizando-os socialmente. Antes, porém, a época da dinastia Ming viu surgirem quatro obras-primas: O Romance dos Três Reinos (publicado em 1522, mas revisto por gerações até ser publicado em 1679, é um romance histórico que narra os anos finais da dinastia Han e dos Três Reinos até à reunificação da China), Borda de Água (publicado em 1550, narra as aventuras de um grupo de foras-da-lei), Viagem para Ocidente (publicado em 1592, inspirado na peregrinação do monge Xuanzang à Índia, contando a lenda de Sun Wukong, o rei macaco) e o Jin Ping Mei (qualquer coisa como A Flor da Ameixeira do Vaso Dourado, publicado em 1610, com conteúdo sexual explícito, pela libertinagem sexual dos seus personagens).

A maior parte destas obras devem muito à oralidade e foram sendo publicadas em capítulos, até serem reunidas numa só publicação.

Quanto à literatura moderna, focarei os autores traduzidos em Portugal.


Desde logo, Lu Xun, o maior escritor chinês do último século. O seu conto “Diário de Um Louco”, de 1918, possui um sentido crítico da sociedade de então. Pleno de metáforas, apresenta-nos uma personagem louca, mas seria esta loucura efectivamente uma doença ou antes uma consciência crítica de uma pessoa bem lúcida? Uma metáfora para dizer algo, numa China que estava a nascer. 


Um dos livros de autores chineses mais lidos no ocidente é provavelmente o “Cisnes Selvagens: 3 Filhas da China”, escrito em 1991 por Jung Chang. Esta autora, que escreveu também biografias de Mao e da Imperatriz Cixi, percorre a história da China do século passado através da descrição da vida afortunada e desafortunada de três gerações. Estas três gerações são da sua família, sendo a última a sua própria vida. Nesta obra encontramos várias ideias e situações que facilmente identificamos com a China, como os pés enfaixados, as concubinas, o grande salto em frente e a revolução cultural. A própria autora chegou a pertencer ao Exército Vermelho enquanto adolescente, em tempos de encantamento por Mao. Mas o desencanto venceu e os tempos difíceis da vida da China comunista estão aqui duramente retratados. Este livro está proibido na China.


Os dois prémios Nobel da Literatura chineses, Gao Xingjian e Mo Yan, estão ambos traduzidos em Portugal. Deste último temos disponível o aclamado “Peito Grande, Ancas Largas”, publicado em 1996. Ao longo de 600 páginas, o prémio Nobel de 2012 conta-nos a história da família Shangguan, em especial da mãe que deu à luz 8 filhas mais 1 filho, todos eles de outro que não do seu marido estéril. A estes 9 há que a acrescentar ainda os netos que foram dando àquela mãe e mais uma série de crianças. E essa história desenrola-se ao longo da própria história da China do último século: a invasão japonesa no século XX, a grande fome dos tempos de Mao – o grande salto em frente e a revolução cultural – e a ascensão de uns quantos oportunistas durante o regime comunista que sobreviveu a Mao. Muito drama, provação e ironia à mistura. É uma espécie de realismo mágico, tão ao jeito dos latino-americanos, com cenas estrambólicas no caminho, como os sonhos do único filho varão, Jintong, obcecado por seios e viciado no seu leite até tarde na sua adolescência. Estas e outras marcas de erotismo que se pensa não esperar encontrar em livros de um chinês ainda assim bem visto pelo governo.


Quem não é assim tão bem visto pelo governo chinês e tem mesmo os seus livros proibidos na China é Yu Hua. Na sua “Crónica de Um Vendedor de Sangue”, escrito em 1995, encontramos também muita imaginação ao estilo realismo mágico e muita ironia para caracterizar a sociedade chinesa da última metade do século passado, em especial as décadas de cinquenta a oitenta. Xu Sanguan, apelidado de “bandido suicida”, é o protagonista que vende sangue como forma de sobrevivência. Argumentava que “o sangue do corpo é como a água de um poço, não desaparece por se ir tirando”, ao passo que a sua mulher estranhava este comportamento pois “desde pequena que o meu pai me diz que o sangue que temos no corpo foi-nos dado pelos nossos antepassados. Uma pessoa pode vender farturas, pode vender a casa ou a terra… Vender sangue é que não. Mesmo que se venda o corpo, não podemos vender sangue. O corpo é de cada um, mas o sangue pertence aos antepassados. Vendeste os teus antepassados”.
Este livro, cuja escrita de frases curtas deve muito à oralidade, perpassa a vida deste casal com três filhos na China comunista sob as ordens Mao. Para ganhar a mulher Xu Sanguan foi vender sangue, para ultrapassar a fome durante o grande salto em frente idem, para trazer os filhos de volta do trabalho nos campos durante a revolução cultural ibidem e para salvar o filho da morte repetidas vezes idem e ibidem. Pelo meio, ainda viu a mulher, e com isso toda a família, sujeita a humilhações públicas pela acusação (sem sentido) de prostituição durante o movimento de autocrítica. “Já começo a perceber o que é isso da revolução cultural. No fundo, é um momento para vinganças pessoais. Se no passado alguém te ofendeu ou prejudicou, agora podes escrever um dazibao para colar na rua. Podes dizer que essa pessoa é um antigo dono de terras ouvidores e acusá-lo de ser contra-revolucionário, qualquer coisa serve.”.
Com muita ironia à mistura e sem precisar de grandes explicações ou tratados políticos, filosóficos ou morais, Yu Hua e a sua metáfora do sangue mostram-nos a resiliência deste personagem chinês que cai e se levanta, mesmo se para isso tenha de vender a alma num mundo em que a seriedade e honestidade não vencem a corrupção e o amiguismo.

Para esta viagem à China escolhi acompanhar-me da leitura de “A Minha Vida Enquanto Imperador”, de Su Tong (1992).

Deus-Dará, de Alexandra Lucas Coelho


Deus-Dará é nos apresentado como o novo romance de Alexandra Lucas Coelho e não como o seu novo livro de viagens.
Todavia, este romance singular na disposição da sua narrativa – sete personagens principais a viver as suas vidas em sete dias dispersos por alguns dos anos vividos por Alexandra no Rio de Janeiro – mostra-nos o Rio de Janeiro em toda a sua intensidade. 
Quem conhece o Rio, seja por lá ter vivido, passado ou espreitado nas novelas brasileiras, vai-se identificar com este livro. 
Logo na página 58 a autora escreve, dando voz a uma das personagens, “Nunca aqui estive, mas estive. Porque a gente cresce com isto, estas imagens.”.
Se se for leitor das reportagens e crónicas de Alexandra, então, a identificação será ainda maior. Caso não se insira em nenhuma destas categorias, este livro vai ser também entusiasmante e todos acabaremos por aprender com ele.
Aqui cabe história, política, futebol, música, literatura, viagens interiores, vidas iguais a tantas outras, praia. Tudo é o Rio.
A natureza do Rio marca presença assídua ao longo das mais de quinhentas páginas deste livro. São nos informadas curiosidades, como a da sua página 150, acerca do nome da zona Jacarepaguá (nome indígena que significa enseada dos jacarés) e da possibilidade de um jacaré atravessar uma rua no Rio de Janeiro, “Mais que possível, com várias ocorrências, é jacaré em canal de esgoto no Rio de Janeiro. Tanto que quem lhe atirar um pedaço de pão corre o risco de ver aparecer mais dez. E a tendência vai ser para aparecerem cada vez mais, baralhando o possível, o provável e o comum, como é próprio do apocalipse. Quanto mais a cidade entrar pela natureza, mais a natureza vai entrar pela cidade, respondendo ao que os homens fazem em terra, mar, ar, do Rio de Janeiro à China”. 
Escrita comprometida, já se lê. 
E o tom apocalíptico vai dominando ao longo de todo o livro. Eis mais um cheirinho de natureza e apocalipse, “… e arrancam morro acima, aquelas curvas que de noite ficam épicas, chuva furando a terra, trazendo o cheiro do fundo” (página 381).
O clima de festa, bem expresso pela música brasileira, é outra constante. Termina em grande com as palavras cantadas de Chico Buarque, “Diz que deu, diz que dá…”, provando que quando se trata de Brasil tudo termina não em pizza mas em música. Ao longo do seu livro, Alexandra vai citando trechos de letras que não precisava de informar os seus autores para as reconhecermos imediatamente, como o “maluco-beleza” de Raul Seixas ou o meu herói que não morreu de overdose mas “meus inimigos estão no poder” – Viva Cazuza. Que prazer lembrar e cantar estas músicas intemporais.
Aqui são invocados muitos clichês, os tais que nos fazem identificar com o que está escrito, como se tivéssemos vivido algo parecido, como se fossemos também parte destas histórias. Mas clichê no sentido positivo, o qual nas palavras de Alexandra vira frase enorme: “Acontece, no entanto, que o narrador tem aquela costela não-brasileira de ser ateu, sem deixar de ter aquela costela brasileira do milagre” (página 310).
Enorme, igualmente, a forma como a autora cria histórias que à partida nada pareciam ter em comum, como a de Dirk van Hogendorp, ajudante de campo de Napoleão, que partiu para o exílio no Rio, instalando-se no Cosme Velho, onde nos dias de hoje pelas suas ruas passa uma transexual cuja história há-de ir ter a Sócrates, o doutor futebolista. Isto anda tudo ligado.
Tempo ainda para nestas páginas se discorrer uma posição que quem era leitor das crónicas semanais no Público de Alexandra Lucas Coelho já vem tendo conhecimento. A do papel histórico –  muito evitado e calado – de Portugal na escravatura. 
Faz todo o sentido que neste Deus-Dará seja abordada uma panóplia de assuntos, como se tivessem sido ali lançados e deixados fluir ao sabor do tempo que levou a escrever todas estas páginas. As histórias de vida comum e diária dos personagens prendem-nos, no final são deixados para ali, ao certeiro Deus-Dará, talvez para que as possamos compor ao nosso gosto. Mas desta obra muitos temas poderão ganhar vida própria, sujeitos a discussões autónomas, assim esteja a sociedade portuguesa – e brasileira – interessada. O tema da escravatura é um deles.
Livro inquietante, este.

High Tide A Surf Odyssey, de Chris Burkard

 

Para ajudar a atravessar os dias curtos dos meses de Inverno, eis a companhia do livro de fotografias High Tide A Surf Odyssey, de Chris Burkard. O americano dispara logo ao que vem na sua última obra, de 2015:

“Num mundo que se tem vindo a tornar mais e mais barulhento, nunca foi tão importante procurar os últimos lugares sossegados”. 

Assim, sentada bem confortável no sofá junto à lareira, no intervalo de um emprego convencional com muita berraria à mistura, folheio o seu belo livro. Lugares como as Ilhas Aleutian, no Alaska (lugar da foto da capa, onde o vento nasceu), a Barbuda, nas Caraíbas, Ilhas Lofoten, na Noruega, Kamchatka, na Rússia, Ilhas Faroe, algures por aí, mais as “banais” Nova Zelândia, Índia e zona rural da Califórnia, vão desfilando sob os meus olhos e despertando uma série de sensações – o conformismo, porém, segue inalterado e daqui a pouco volto para o trabalho.

Sair da zona de conforto, exorta o fotógrafo contador de histórias.

Estes são lugares verdadeiramente off the beaten path, fora das rotas mais batidas. Lugares únicos, remotos, inspiradores, nos quais podemos viver uma experiência interior completamente diferente daquela que viveremos em outros lugares únicos, que os há muitos, é certo.

Chris Burkard diz que aprendeu a gostar do “mau tempo” e dos dias de tempestade, mais ideais para a fotografia do que os dias de céu azul e limpo, pela luz e emoção mais dramáticas que transportam consigo. Ou seja, aprendeu a abraçar todas as condições que a natureza lhe dá e chegou à conclusão de que não há essa coisa do “mau tempo”, apenas roupas inapropriadas. 

Vai daí, e como o surf sempre foi um dos motes para as suas viagens e fotografias, é só deixar os olhos à mostra e atirar-se às ondas, como vemos este grupo de amigos fazer nas Ilhas Lofoten, com a neve, os fiordes e as montanhas de granito como únicas testemunhas.



Foi nas Lofoten que um dos autores dos textos que apresentam cada um destes lugares desolados (Chris Burkard não se considera um bom escritor e a fotografia é o meio por que dá a conhecer as histórias que nos quer contar) nos diz que um habitante local, que nunca tinha visto nenhum surfista por ali, logo os considerou doentes da tola. Pode ser, mas muitos pensarão o mesmo dos que procuram estes lugares distantes e inóspitos: doentes da tola. Mas a doença é outra. É a de querer conhecer sempre mais e mais, é a de tanto se encantar com um pássaro como com uma nuvem escura, é a de entrar por uma rua que não vai dar a lado nenhum e ser surpreendido por uma casinha perdida no mundo. É a doença de ter, enfim, o horizonte todo para contemplar só para si.

Chris Burkard pode não ser um bom escritor e ser um brilhante fotógrafo, mas sabe também escolher e usar as palavras para nos inspirar e guiar. Diz-nos que “na vida não há atalhos para a alegria e, para verdadeiramente abraçarmos algo que mereça a pena, temos de nos prestar a penar um pouco”.
A ver pelas fotos, a penitência valeu a pena.

As Caraíbas da Barbuda, surf apartado do mundo


Kamchatka, península russa perto da Sibéria, mas ainda mais remota e com pior tempo, terra de vulcões e ursos, mas também por do sol esmagador.

Ilhas Faroe, cascatas caídas de encostas e penhascos cobertos por tapetes verdes.

Costa da Califórnia rural – terra natal de Chris Burkard -, o Big Sur imortalizado por Jackson Kerouac.

A Índia do Kerala, choque cultural para todos, visitante e visitado.

Colômbia em livros, filmes e canções

A preparação de uma viagem já é em si uma verdadeira viagem. 
E uma daquelas viagens bem diversas, instrutivas e prazerosas.
A maior parte das vezes o caminho inicia-se com um guia da Lonely Planet.
Com o planeamento da visita à Colômbia não foi diferente.
Início e fim na sua capital, Bogota, e eis que o Andes Sem Parar voltará, enfim, aos Andes que lhe dá nome.
Depois é só traçar um itinerário, a descobrir em futuros posts aqui neste blogue.
Parte essencial da viagem são as leituras dos escritores do país que se pretende visitar. No caso da Colômbia a coisa está facilitada: alguém há nesse mundo que nunca tenha lido um só livro que seja de Gabriel Garcia Marquez? O meu eleito é O Amor em Tempos de Cólera. 
Mas muito mais há para descobrir nos seus autores, ainda que a recente história de luta de cartéis da droga e guerrilha urbana seja um tema quase comum e transversal nas obras dos últimos anos. Algumas sugestões são Hector Abad Faciolince (Somos o Esquecimento do que Seremos), Juan Gabriel Vasquez (O Barulho das Coisas Ao Cair) e o essencial Delírio, de Laura Restrepo.



Quanto a cinema, a ideia que fica é a de que o realismo mágico não está presente apenas na literatura. O filme a Estratégia do Caracol (1993) é um bom exemplo da imaginação sem limites dos colombianos. Depois temos uma vez mais a presença do negócio da droga no filme Maria Cheia de Graça (2004). E para algo totalmente diferente O Abraço da Serpente (2015), retrato das relações do homem branco cientista com um xaman de uma tribo da Amazônia profunda.
E fica a faltar a música para embalar a viagem. Eis uma playlist com os incontornáveis Shakira e Juanes, sim, mas com notas bem para além deles.

Assuntos de Família, de Rohinton Mistry

Assuntos de Família, de Rohinton Mistry, é um livro que gira à volta das relações entre os elementos de uma família da classe média de Mumbai. Não faltam situações cuja acção se desenrola na cidade, nem alusões a alguns dos seus marcos. O mar, a brisa, o calor, os elementos naturais estão igualmente presentes. Imagino que as histórias se passem no centro da cidade e esta é percorrida a maior parte das vezes de autocarro, de comboio ou a pé; raramente de táxi, quase nunca em veículo próprio – pois é, a classe média de Mumbai é frequentadora dos transportes públicos, mais uma idiossincrasia desta cidade.
Antes de citar frases de amor à cidade constantes neste livro, segue a transcrição de um parágrafo que traduz o uso caótico dos comboios, pelas palavras de Mr. Kapur, que não deixa de concluir ele próprio por uma das grandezas da cidade: o espírito de entreajuda.
“Um dia, na semana passada, arrumei o carro perto da estação de Grant Road e comprei um bilhete de cais, para ver passar os comboios e os passageiros. Apeteceu-me. Nunca ando de comboio, bem vejo como vão apinhados, quando passo de automóvel ao lado das linhas de caminho-de-ferro. Mas, da plataforma, nesse dia vi qualquer coisa de novo. Ia um comboio a partir, completamente cheio, e os homens que corriam ao seu lado desistiram de o apanhar. Todos, excepto um. Conservei os olhos nele porque o cais estava a chegar ao fim. De repente, o homem ergueu os braços e houve pessoas no comboio que estenderam os seus e o agarraram. “Mas que estão eles a fazer? Será que o desgraçando vai ser arrastado e morto?”, pensei eu. No momento seguinte levantaram-no do cais. As pernas dele balouçavam fora do compartimento e eu quase gritei para fazer parar o comboio. Os pés pedalavam no ar. Encontraram um ponto de apoio, escorregaram, encontraram-no de novo. Ali estava ele pendurado, com a vida literalmente pendente na mão de estranhos. E entregara-se a eles. Confiara nesses estranhos.”
Mr. Kapur é o chefe de um dos elementos da família, uma personagem bem optimista a quem o autor não se cansa de colocar na boca frases que expressam todo o seu amor por Bombaim (e insiste que a cidade é Bombaim e não Mumbai), feito delicadezas, mas também de excessos.
Alguns exemplos:
“O meu amor por Bombaim é demasiado grande, mas pouco sensato.”
“Não consigo fazê-lo perceber o que sinto por Bombaim. É como o amor puro por uma bela mulher, que envolve gratidão pela existência dela e devoção pela sua presença viva. Se Bombaim fosse uma criatura de carne e sangue, com o meu tipo sanguíneo, Rh negativo, e muitas vezes penso que o é, seria capaz de dar-lhe todo o meu sangue em transfusão, até à última gota, para lhe salvar a vida.”
“Shakespear é como Bombaim: em qualquer eles podemos encontrar tudo aquilo de que precisamos porque ambos contêm o universo.”
“De agora em diante aceito o que Bombaim me oferece: calor, humidade, brisa do mar, tufões…”
“Quero aproveitar tudo o que a minha cidade tem para me oferecer. Quero misturar-me com o seu povo, ser parte desses corpos esmagados nas ruas, nos comboios e nos autocarros. Amalgamar-me no todo orgânico que constitui Bombaim. É aí que reside a minha redenção.”

Maximum City, de Suketu Mehta


Mumbai, para muitos ainda Bombaim, é uma cidade carismática, digna de todos os adjectivos superlativos.
Não admira, pois, que seja palco de muitos livros (idem para filmes). Alguns exemplos entre os que tive oportunidade de ler são Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie, de 1981, A Morte de Vishnu, de Manil Suri, de 2001, Assuntos de Família, de Rohinton Mistry, de 2002, ou Maximum City, de Suketu Mehta, de 2004.
Este último, que possuiu como sub-titulo “Bombaim, a cidade dos contrastes e excessos”, escrito por um jornalista-escritor é um documento poderoso pelo retrato implacável que traça da cidade para onde todos parecem querer ir viver, enriquecer, sonhar.

Algumas citações retiradas da edição portuguesa (Dom Quixote, 1.ª edição, 2011) acerca das questões sociais e urbanísticas, deixando de lado a longa temática do poder, corrupção e religião a que o autor se dedica:

“Porque continuam as pessoas a viver em Bombaim? Cada dia é uma agressão aos sentidos a partir do momento em que se acorda, começando pelo transporte que se apanha para chegar ao trabalho, os escritórios onde se trabalha e as formas de entretenimento a que se é submetido. Os gases dos tubos de escape são tão densos que o ar ferve como se fosse sopa. Está-se em constante contacto físico com as pessoas: nos comboios, nos elevadores, quando se volta para casa para dormir. Vive-se numa cidade costeira, mas a maioria das pessoas vive de costas para o mar e só se aproxima dele uma hora aos domingos à tarde, numa praia nojenta. Também não se acaba quando se adormece, porque com a noite chegam os mosquitos dos pântanos da malária, os bandidos do submundo e os altifalantes estrondosos das festas dos ricos e dos festivais dos pobres. Porque se há-de querer deixar a casa de tijolo na aldeia com as suas duas mangas e a sua vista de pequenas colinas a leste para ir viver para lá?” (página 483)

Sobre as casas de Mumbai: “Para a grande maioria das famílias de Bombaim – setenta e três por cento, de acordo com o censo de 1990 -, a casa consiste numa única assoalhada: ali dorme-se, cozinha-se, come-se. A média é de 4,7 pessoas por assoalhada. A função do mobiliário muda continuamente ao longo do dia; a cama converte-se em sofá de manhã; a mesa da sala é uma secretária entre as refeições. Os seus ocupantes também são rápidos, trocam de roupa embrulhados numa toalha atrás de uma cortina, tão depressa que achamos que são invisíveis. Mas a invisibilidade está, efectivamente, a ser concedida pelos outros ocupantes da sala ao desviarem o olhar durante a transformação, como conseguiram os seus pais conceber cinco crianças naquela sala? Deve ter havido muita coisa vista e não observada, ouvida e não escutada.” (página 464)

Sobre o seu apartamento em Mumbai: ” Está rodeado por edifícios altos, de modo que as pessoas que passam por baixo ou saem para as varandas dos prédios em frente podem ver todos os cantos do meu apartamento e observar-nos enquanto deambulamos pela cozinha, comemos, trabalhamos ou dormimos. Há vinte andares no prédio e dez apartamentos por andar. Cada apartamento terá uma média de seis pessoas e três criados; o seu contingente de pessoal de apoio adicional (guardas, pedreiros, varredores) será um por andar. Isso dá duas mil pessoas neste prédio. No prédio contíguo vivem duas mil pessoas e outras duas mil no que fica atrás. A escola no centro do recinto tem dois mil alunos, bem como professores e funcionários. Isso soma oito mil seres humanos a viverem em alguns hectares. É a população de uma cidade pequena.” (página 32)

E porquê tantos criados? “Todos os dias lavam-se e esfregam-se os apartamentos. Aprendemos o sistema de castas dos criados: a criada interna recusa-se a esfregar o chão; isso é para a criada de fora; nenhuma das duas está disposta a limpar as casas de banho, o domínio exclusivo de um bhangi, que não faz outra coisa. O motorista recusa-se a lavar o carro; isso é monopólio do vigilante do prédio. O andar acaba cheio de criados. Acordamos todos os dias às seis da manhã, quando a mulher do lixo vem buscar os sacos do dia anterior. A partir desse momento, a campainha não pára de tocar: o leiteiro, o jornaleiro, o amolador de facas, um comprador de papel e garrafas usados, o massagista, o homem da televisão por cabo. Todos os serviços do mundo, trazidos à minha casa”. (página 33)

O tema cocós não pode faltar: “Todas as manhãs, pela janela do meu escritório, vejo homens a fazerem as necessidade nas rochas junto ao mar. Duas vezes por dia, quando a maré baixa, eleva-se um cheiro horrível das rochas e estende-se aos andares de meio milhão de dólares a leste. […] Metade da população não tem uma retrete onde cagar, de modo que o faz ao ar livre. Estamos a falar de cinco milhões de pessoas. Se cada um caga meio quilo por dia, são dois milhões e meio de quilos de merca a cada dia”. Pior ainda para as mulheres, “têm de fazê-lo entre as duas e as cinco da manhã, porque é a única altura em que gozam de privacidade”. (página 140)

Na cidade de Mumbai, enfim, “o maior luxo de todos é a solidão”. (página 138)