Corto Maltese, as aventuras

Na sequência do anterior post, onde se apresenta a personagem Corto Maltese, o herói sonhador criado pelo desenhador e roteirista Hugo Pratt, iremos agora percorrer os seus livros.

As aventuras de Corto Maltese foram situadas pelo seu autor no início do século XX. Porém, os livros de Hugo Pratt não têm uma ordem cronológica. No primeiro livro, “A Balada do Mar Salgado”, editado em 1967, era 1913-1915 e Corto andava feito pirata nas Caraíbas, estava a I Grande Guerra Mundial a começar. Antes disso, no entanto, já tinha andado pela Manchúria por altura da Guerra Russo-Japonesa de 1904-1905, onde conheceu o seu amigo-inimigo Rasputine e o seu amigo-escritor Jack London – assim nos é mostrado em “A Juventude”.

Voltando ao “A Balada do Mar Salgado”, aqui é apresentado Corto aos seus leitores pela primeira vez. A imagem do marinheiro pirata surge amarrado a uma jangada à deriva no mar, como se estivesse na cruz. Resgatado por Rasputine, há de lutar com um polvo, fugir de um tubarão e muito mais. A uma pergunta de Pandora, uma das mulheres de Corto, se acha que a sorte grande lhe vai sorrir a vida toda, responde altaneiro: “Claro, minha cara… quando era pequeno, apercebi-me de que não tinha linha da sorte. Então, peguei na navalha do meu pai e zás! Fiz uma como queria”. Pois é, a sorte é ele quem a faz.

Os dois livros seguintes – “Sob o Signo de Capricórnio” e “Sempre um pouco mais longe” – possuem diversos episódios (em Portugal foram também editados os volumes “Sob a Bandeira dos Piratas”, “Longínquas Ilhas do Vento” e “Lagoa dos Mistérios” que estavam originalmente integrados naqueles outros dois livros). Corto vagueia pelo Suriname, Guiana Francesa, Bahia, Sertão, Caraíbas, Peru.

“Sob o Signo de Capricórnio” é um livro cheio cheio de magia. Magia em todos os sentidos, incluindo aquele que envolve feiticeiros, telepatia, civilizações perdidas e idas até ao Sertão brasileiro com descida pelo rio São Francisco, onde o marinheiro se encontra com cangaceiros. Em “Sempre um pouco mais longe” Corto permanece na América do Sul, iniciando em Maracaibo a sua expedição em busca das ruínas de uma cidade inca ou pré-inca na Amazónia Equatorial, um dos muitos El Dorados, em encontros na selva com tribos e espíritos “que cortam e encolhem cabeças”, numa história sob o efeito de cogumelos mágicos. Morgana, Boca Dourada, Madame Java, Esmeralda, Venexiana Stevenson e Soledad são os nomes das mulheres com quem troca olhares pelo caminho destes dois volumes.

As Célticas” está cheio de mitologia e fábulas celtas, a lembrar as raízes paternas de Corto, mas também referências ao Ira e ao Sinn Fein, não faltando sequer uma imagem de Stonehenge e mais uma citação reveladora da personalidade do nosso herói: “está a sonhar de olhos abertos, e quem sonha de olhos abertos é perigoso porque não sabe quando acaba o sonho”.

As Etiópicas” alargam ainda mais as referências culturais do mundo de Hugo Pratt. O jovem Hugo havia vivido na Abissínia, onde o seu pai militar estivera colocado. E é parte de África que estas páginas mostram. O Mar Vermelho, o deserto, o Corão, homens leopardos, a justiça africana. Corto mascarado de beduíno e a fazer de muezim a chamar para a oração. Um oficial do exército britânico a ler Rimbaud ao invés de Kipling, na irónica observação de Pratt através da boca de Corto. Curiosamente, neste volume não aparecem quase mulheres, apenas duas.

A partir de “Corto Maltese na Sibéria” as obras passam a longas novelas gráficas, ao invés de pequenas histórias agrupadas num mesmo livro. A aventura começa com um sonho em Veneza com Boca Dourada, com Corto a tentar ler (e a adormecer) “Utopia”, de Thomas More. Depois, somos transportados para Hong Kong, Mongólia, Rússia e China. Corto reencontra Rasputine neste tempo de bolcheviques na fronteira mongol e japoneses na Manchúria e aliados na Sibéria. Há sociedades secretas e tríades, uma busca a um comboio russo carregado de ouro que, no final, acaba por cair no fundo de um lago mongol. Mais aventura? O marinheiro Corto num avião abatido nos céus. Que escapa são e salvo para o próximo episódio.

A edição da Meribérica/Liber do “Fábula de Veneza”, também conhecido por “Sirat al Bunduqiyyah”, tem prefácio de Hugo Pratt. Aqui nos dá conta das suas raízes venezianas, designadamente dos passeios até ao Ghetto com a avó, onde mesmo depois fazia questão de voltar sempre. O início deste livro é delicioso, com Corto a cair de um telhado para interromper uma sessão de uma loja maçónica. “Como é que caiu?”, perguntam-lhe; “Caio muitas vezes das nuvens”, ah, ah, ah. Hugo Pratt era parte da maçonaria, mas Corto Maltese “não era pedreiro-livre, antes um marinheiro-livre”. Na sua busca por uma esmeralda cheia de mistério e enigmas, onde vai entrando e saindo das histórias como se fossem sonhos, Corto encontra mais uma mão cheia de mulheres, como Hipazia, Pezinho de Prata e Louise.

Em “A Casa Dourada de Samarcanda” encontramos Corto a fumar narguile e a pensar num monte de mulheres ao mesmo tempo. Quando uma personagem lhe pergunta se alguma vez esteve apaixonado, Rasputine responde que Corto está apaixonado pela ideia de estar apaixonado. Não é difícil perceber que Corto é um homem apaixonado; mais difícil é saber qual a sua maior paixão. Neste “A Casa Dourada de Samarcanda” Corto anda pela Ásia Ocidental e Central, Grécia e Turquia. O nacionalismo turco é aqui um tópico histórico e cultural. Corto busca o tesouro de Ciro e Alexandre, o Grande, ao mesmo tempo que tenta salvar o seu amigo Rasputine da Casa Dourada de Samarcanda, a prisão inexpugnável donde só é possível evadir-se através dos sonhos dourados do haxixe.

Em “A Juventude de Corto Maltese”, obra de que já falámos, o contexto é o da Guerra Russo-Japonesa de 1904. É um retrato de Corto enquanto jovem e suas amizades e suas ligações. É aqui que Corto e Rasputine se encontram pela primeira vez. E é aqui que nos é apresentado o seu amigo escritor Jack London. E aqui se mostra ser o jovem já possuidor de inúmeras ligações nos meios chineses e manchus. E um fantasioso, sempre em busca de algo, neste caso de minas de ouro.

Tango” mostra-nos Corto de volta a Buenos Aires. Ainda não o tínhamos visto na cidade porteña nos quadradinhos de Hugo Pratt, mas sabíamos que o italiano aqui tinha vivido durante uns tempos. É um mundo de bordéis, tango, bilhares, parrillada, mate e até um céu com duas luas.

As Helvéticas” é o penúltimo livro de Corto Maltese (anterior a Mú, a Cidade Perdida, o único que não li), tendo sido editado em 1987 (e Mú no ano seguinte). Hugo Pratt viveu os últimos 11 anos da sua vida na Suíça e com este livro talvez quisesse mostrar que esta também é capaz de inspirar e ser possuidora de um mundo imaginário. Alquimia, magia e astrologia são temas, Parsival, Herman Hesse e Tamara de Lempicka personagens. Este livro tem início em Lutry, na mesma vertente do Lago Léman onde está instalada a vizinha Grandvaux, onde Hugo Pratt passou os seus últimos anos. E aqui está igualmente imortalizado Corto Maltese em estátua, contemplando sonhador a água e a montanha majestosa ao seu redor.

(as aventuras de Corto Maltese foram, entretanto, retomadas em 2015 pela dupla espanhola Rubén Pellejero e Juan Díaz Canales, tendo sido editados desde então três novos títulos: Sob o Sol da Meia-Noite, Equatória e O dia de Tarowean)

Corto Maltese, o herói sonhador

Corto Maltese é o meu herói. Tem 53 anos e nasceu em 1887. Confuso?

O marinheiro mais bonito, estiloso, culto e corajoso de todo o sempre nasceu em 1967 da pena de Hugo Pratt, desenhador e roteirista. Filho de mãe cigana de Gibraltar e de pai marinheiro da Cornualha, Corto nasceu no final do século XIX em La Valletta, Malta, e aí cresceu. Era de Malta, mas andou por todos os cantos do mundo. Um viajante e um aventureiro inveterado.

Pode ser o herói de muitos, como eu, mas Corto é na verdade mais daquela espécie de anti-heróis. Sempre pautado pelos valores de justiça e liberdade, com uma visão romântica do mundo, Corto não é nada cínico, antes frontal, petulante às vezes, mas nunca arrogante. É um sedutor, elegantemente vestido com a sua jaqueta longa e chapéu de marinheiro, brinco na orelha esquerda e cigarro ao canto da boca. Um sonhador que é amiúde representado nas tiras de traço poético de Hugo Pratt estendido, relaxado à beira de uma bela paisagem ou sob a lua. “Não tem pátria e é um homem livre que sabe muitas coisas… mas não quer assumir responsabilidades”, diz a personagem Crânio em “A Balada do Mar Salgado”, o primeiro livro de Corto Maltese, o tal de 1967. E Monge, outra personagem deste mesmo livro inicial, diz-lhe “Ah, Corto, Corto, Corto… o que mais me agrada em ti é essa capacidade de nunca deixares escapar o lado divertido das coisas!”. Nem deixar escapar um momento para lançar a sua ironia. Este “pirata simpático”, sempre rodeado de mulheres, tem muitos amigos, alguns inimigos e imensos admiradores.

Na verdade, quem é merecedor da nossa admiração é Hugo Pratt, o italiano autor quer das tiras quer dos textos, ambos belíssimos, da personagem de Corto Maltese, seu alter ego. Com ela Hugo fez com que a Banda Desenhada passasse a ser coisa séria. Umberto Eco, por exemplo, afirmou que “Quando quero relaxar, leio um ensaio de Engels. Quando quero algo mais sério, leio Corto Maltese” e que “Pratt transforma em matéria de narrativa e de aventura a sua própria nostalgia da literatura, e a nossa”.

Os livros de Corto Maltese são, no fundo, livros de viagens. Dizia Hugo Pratt que as suas viagens eram “a ocasião de ir a um local que já existe na minha imaginação, no meu mundo interior”. E à boleia da enorme bagagem cultural de Hugo e da errância de Corto os leitores viajam pelo mundo todo, sendo parte das aventuras do seu herói.

A Doçaria Portuguesa

Não sei fazer doces. Só entendo de comer doces, e isso muito bem. A maior parte das vezes devoro-os com tal intensidade que não me chego a aperceber dos seus ingredientes. Mas sinto o seu guloso sabor. Mas também não me importo de olhar para eles, nem que seja em fotografias ou ilustrações, e deixar-me ficar com água na boca.

Daí que a trilogia de livros “A Doçaria Portuguesa” tenha vindo mesmo a calhar. A primeira edição, dedicada ao Norte, saiu em 2016 e a segunda, dedicada ao Sul, no ano seguinte. No final de 2019 chegou a edição, a maior, dedicada ao Centro do país (e planeia-se uma próxima dedicada às ilhas). É um inventário da doçaria portuguesa, um trabalho de sapa de Cristina Castro com muitas horas no terreno a procurar e investigar a origem e tradição de doces conventuais, regionais e populares. Mas não apenas dos doces, mas também das pessoas e histórias das práticas doceiras, muitas delas curiosas e herdadas e passadas de geração em geração. Não são precisas receitas para degustarmos estes livros.

No prefácio da segunda edição, a do Sul, Maria de Lourdes Modesto escreve que “Portugal é um país doce”. Já Edgar Pacheco, no prefácio à edição do Centro, questiona-se “como é que um povo pequeno e pobre criou tanto doce a partir de três ou quatro ingredientes-base”.

Há doces para todos os gostos e feitios, uns mais seculares, outros criados há poucos anos. Quase todos eles momentos de inspiração dos seus criadores. E os seus nomes são igualmente inspirados: há o Bolo Podre e o Bolo Rançoso (é explicada a origem do nome deste último); há as Lesmas de Silves, as Mijoninhas Alpalhão e o Tecolameco do vizinho Crato; se há a Enxarcada também pode haver a Enxovalhada; os Casadinhos, os Bons Maridos e os Beija-me Depressa são capazes de conviver bem numa mesma casa; e as Rotundinhas? Um doce para quem adivinhar o lugar da sua origem.

Estas três edições têm ilustrações da minha amiga Ana Gil que, nem de propósito, produziu uns belos desenhos da Aletria – da terra da minha avó materna – e das Cavacas – da terra da minha avó paterna. Rio Tinto e Aldeia das Dez não fazem de igual forma parte das minhas referências geográficas. Em Rio Tinto nunca estive, mas adoro a doçura da aletria legada pela avó Quina; a Aldeia das Dez volto sempre, mas evito a secura da cavaca feita pelas conterrâneas da avó Mariazinha. Antes prefiro o Pão de Ló desta última, de cuja preparação acompanhava atentamente à espera de rapar a gemada que restava na tigela. Ou os Pançudos. Ah, onde estão os Pançudos de Aldeia das Dez neste inventário? Aqui fica mais uma ideia de doce para uma futura edição.

Livros para a Quarentena

Melhor do que viajar, só mesmo ler. E, se se puder aliar os dois, perfeito. Em seguida, algumas sugestões de livros que nos fazem conhecer um pouco mais os lugares desde o nosso sofá (alguns deles tiveram direito a um post aqui no blogue).

Começamos por Portugal:

– As Praias de Portugal – Guia do Banhista e do Viajante, de Ramalho Ortigão

– Viagem a Portugal, de José Saramago

Os Pescadores, de Raul Brandão

As Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão

– Longe do Mar, de Paulo Moura

Urban Sketchers em Lisboa, Desenhando a Cidade

Europa:

– Viagem a Itália, de Johann Wolfgang Goethe

– As Ilhas Gregas, de Lawrence Durrell

– Istanbul, Memórias de uma Cidade, de Orhan Pamuk

Ásia:

Maximum City, de Suketu Mehta

– Deli, de Khushwant Singh

– Grande Bazar Ferroviário, de Paul Theroux

A Estrada para Oxiana, de Robert Byron

– Paisagens da China e do Japão, de Wenceslau de Moraes

– Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto

– Onde os Rios têm Marés: viagem pelo Norte do Paquistão e Estrada do Karakorum, de Ana Isabel Mineiro

América:

– Na Patagónia, de Bruce Chatwin

A Conquista do Inútil, de Werner Herzog

– Rio de Janeiro, de Ruy Castro

– Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac

África:

– Ébano, de Ryszard Kapuscinski

– África, de Paul Theroux

Aya, Life in Yop City

Oceânia:

– O Canto Nómada, de Bruce Chatwin

– Trilhos: No Deserto Australiano com Quatro Camelos e Um Cão, de Robyn Davidson

Pelo Mundo:

– O Livro dos Viajantes, de Eric Newby

– Planisfério Pessoal, de Gonçalo Cadilhe

– Alma de Viajante, de Filipe Morato Gomes (oferta da versão ebook aqui)

Alcatrão, de Luís Brito

High Tide – A Surf Odyssey, de Chris Burkard

 

Briant Barrett – Relato da Minha Viagem aos Açores 1812-14

“As montanhas circundantes estavam arborizadas, até aos cumes. Tudo era silêncio, só se ouviam as canções dos pássaros ao entardecer, o vento a soprar com uma ligeira brisa através das árvores e o murmúrio das águas dos riachos que corriam, deitando pequenas gotas no imenso Atlântico.”

Não se sabe ao certo quem foi este Brian Barrett que andou pelo arquipélago dos Açores no princípio do século XIX. Mas sabe-se que deixou um manuscrito sobre o relato dessa viagem, manuscrito esse que esteve na posse de um coleccionador alemão proprietário de uma loja de antiguidades de Ponta Delgada antes de ser depositado na Biblioteca Pública da cidade. No ano de 2017 acabou por ser publicado em livro pela editora Letras Lavadas.

Brian Barrett seria um oficial britânico que terá procurado as ilhas para convalescer de alguma doença, o que não era raro na época. No manuscrito agora transformado em livro dá-nos uma impressão histórica, cénica, política e económica do arquipélago. Começa com uma elegia ao génio do Infante D. Henrique, O Navegador, pelo planeamento e invenção de meios para concluir a empreitada da descoberta de novas terras e pelo seu “temperamento forte e activo” o terem convencido de que as primeiras ilhas descobertas – Porto Santo e companhia, em 1419 – “não eram as únicas no vasto Oceano Ocidental e que a Atlântida de Platão poderia não ser considerada, apenas, fábula ou que o Oriente pudesse, talvez, ser alcançado por uma rota contrária”.

Ao escrever sobre a descoberta dos Açores – Formigas em 1431 e Santa Maria no ano seguinte, tendo um escravo negro avistado daqui São Miguel uns anos depois -, percebe-se que Barrett havia lido Gaspar Frutuoso, o pioneiro da historiografia dos Açores e ele próprio autor da obra a que dedicámos o post anterior, “Saudades da Terra”.

Barrett escreve sobre episódios curiosos, como aquele em que a natureza teria lançado a montanha para o mar e que os mouros que por ali andavam imploraram para ser retirados daquela boca do inferno. Refere os ataques espanhóis, “invejosos que eram pelas descobertas navais de Portugal”, bem como ingleses e franceses (não esquecer que à data em que Barrett passou pelo arquipélago vivia-se as Guerras Napoleónicas). Percorrendo a história, lembra que por morte de D. Sebastião a sucessão espanhola por parte dos Filipes não foi bem recebida nas ilhas, com lutas em especial na ilha Terceira. Escreve sobre ataques e saques e sobre o cerco de Angra após a proclamação de D. João IV como rei de Portugal em 1640. Também dos ataques dos mouros. No século XIX, aquele em que visitou as ilhas, finalmente a acalmia.

Das 9 ilhas do arquipélago apenas não passou pelas Flores e Corvo, por dificuldades e insegurança no transporte. Adverte que, “para se entender a narrativa descrita por um viajante, que tenha passado por estas ilhas, é extremamente útil ter-se alguns conhecimentos da própria língua portuguesa. Os nomes de quase todos os lugares, destas ilhas, derivam das suas características físicas ou de algum aspecto acidental que sensibilizou, fortemente, os seus primeiros povoadores”.

A ilha Terceira foi a que mais o seduziu, “metade composta por montanhas e a outra parte por boas planícies”, acreditaria que “não existisse uma ilha mais bela do que esta”. Apesar da Terceira ser para o autor “a rainha de todas as ilhas”, o Faial “tem mais beleza do que qualquer das outras ilhas dos Açores”. Parece confuso ou contraditório? Não faz mal, duzentos anos depois também ainda poucos de nós conseguimos produzir uma afirmação definitiva sobre qual a ilha mais bela. O que todos acabamos por concordar é que, sim, a “passagem do canal oferece paisagem mais encantadora que se possa imaginar”. As gentes do Faial eram para ele as mais sociáveis e o Pico “o pomar do Faial”, a ilha depois da Terceira com a melhor fruta. Ocupada pelos do Faial no Verão por o tempo ser aqui mais fresco e para prepararem as vindimas, no Pico Barrett aproveitou para subir à montanha mais alta de Portugal. E a descrição da jornada, curiosamente, possui semelhanças com a que Raul Brandão haveria de fazer à volta de um século depois, com pernoita numa gruta a que chamam Cabeço das Cabras. No Pico gaba ainda, para além da fruta, o gado de “superior qualidade” em relação às outras ilhas, assim como as pastagens. E o vinho, seu principal produto. Foi ver os vinhedos “só por curiosidade porque eu não conheço vista mais triste do que estes vinhedos”, “lava negra como carvão”. Mas, conclui, “com excepção da magnífica montanha, a ilha do Pico tem pouca atração turística.”

Sobre a caldeira do Faial escreve que “no fundo formou-se uma planície, parecendo um mundo em miniatura que é frequentado por lenhadores, pastores e o seu gado. Existe, também, ali, uma lagoa com vários acres, com uma grande planície revestida de camomila silvestre, pastagens, colinas, bosques e vulcões”.

De São Jorge e suas fajãs, “uma pessoa que não viva nestas ilhas acharia impossível que alguém pudesse chegar aos terrenos cultivados de inhames. Qual não seria o seu espanto ao vê-los trepar imensos precipícios perpendiculares, com grandes cestos cheios de inhames à cabeça! Se lhes faltar o pé ou a mão, por qualquer motivo, não tinham salvação possível. É impressionante vê-los trepar e chegar a lugares impossíveis de alcançar que nem mesmo um gato se seguraria com as suas garras. Porém, a necessidade, a coragem e a força de vontade é tanta que, onde quer que haja uma fenda para introduzirem um dedo do pé e um dedo da mão mais acima, não há obstáculo”.

Foi, no entanto, na ilha de São Miguel que passou a maior parte do seu tempo no arquipélago. Encantou-se pelo panorama do vale-cratera das Sete Cidades, “sítio mais romântico e isolado que eu jamais vi”, e pelo “belo e majestoso” Vale das Furnas. Na volta à ilha encontrou matas, laranjais, vinhedos, montanhas, colinas cónicas, crateras cobertas ora de verdura ora de terrenos cultivados, formosas baias, vistas encantadoras e amplas, singulares crateras vulcânicas, ravinas, enfim, tudo aquilo que ainda hoje nos deixa completamente extasiados e a bendizer a natureza deste recanto do nosso país. Mas, ao contrário de nós que vivemos agora, o principal meio de transporte de outrora era o burro (se bem que então como hoje a melhor forma de se conhecer as ilhas continue a ser “a la pata”).

De Ponta Delgada, uma desilusão (para ele e para mim enquanto o lia): “aquilo que achei mais desagradável à vista, no aspecto de Ponta Delgada, foi a cor negra da pedra lavrada que formava os cantos e alicerces das casas, os lintéis e os batentes das portas e janelas que contrastava com a cal branca que cobria as paredes, dando-lhe uma aparência muito pesada” – pelo contrário, acho belo este contraste. Da Igreja Matriz vem um elogio às suas portadas, mas a opinião de que os bustos estavam pobremente retratados e o interior pintado e dourado com pouco gosto.

Ainda de Ponta Delgada, descreve o ambiente das ruas, lojas que a compunham e indivíduos que a ocupavam “a praça é estreita e está cheia de barqueiros, pescadores, burros e burriqueiros; uma multidão colorida nas suas carapuças, chapéus cobrindo os rostos e ombros, fazendo-os parecer, à distância, gado com chifres. Não calçam sapatos nem meias, mas alguns por vezes usam um par de botas velhas. Outros só usam uma bota por não terem conseguido pedir ou roubar o par.”.

Este texto do inglês Brian Barrett é também muito interessante pela apreciação crítica que faz do povo açoriano, seus modos e maneiras, e do governo português. Enquanto lemos as descrições, a que não custa acreditar e aderir, não podemos esquecer que o viajante tornado escritor era inglês e que hoje, dois séculos depois, todos nós, povo português, muito evoluímos. Escreve sobre a falta de botas ou meias, barbas por fazer, cuspideiras para o chão, colarinho da camisa desabotoado, saguão das casas cheio de gente do campo acompanhada de seus burros, maus cheiros. “As cavalariças ficam situadas por debaixo da sala de estar e servem de aquecimento, no Inverno. Nunca pude encontrar outra explicação, nem mesmo ver a necessidade delas, no Verão. O seu forte cheiro é, na verdade, nauseabundo. Todos estes factores fazem com que a visita ao morgado não seja muito prolongada”. E é muito crítico da situação das mulheres na sociedade açoriana de então: “Se se for apresentado às damas da família, o que é muito raro, por serem rigorosamente vigiadas com todo o ciúme de um mouro, encontrá-las-emos sentadas no chão, em cima de uma esteira”. “Usam um xaile sujo sobre os ombros para ocultar o pescoço e o seio” e “ toda esta cena imunda, mais parece a tenda de um árabe do que um ambiente digno das filhas de Portugal”. Mais crítico ainda, tece considerandos sobre a liberdade muito condicionada das moças das famílias – irmãs ou filhas dos morgados -, que só saíam para ir à igreja, mas até capelas privativas havia nos próprios morgados. Pior ainda, o destino das filhas era o de serem enviadas para os conventos de forma forçada, “uma crueldade”, ou casadas com um homem que nunca conheceram, e às esposas designa-as como “escravas da família”.

Porém, não culpa os morgados por esta situação, antes o governo de Portugal, a “mãe-pátria”, como lhe chama, pela falta de um plano de educação e por os ter votado ao esquecimento, fazendo com que permanecessem com os mesmos costumes e modo de viver, vivendo fechados sobre si próprios. Mais especificamente, “os filhos dos morgados, como não vão estudar para o continente, adquirem uma cultura muito reduzida, nos Açores. Em São Miguel, a instrução não é moda e muitos morgados não sabem escrever. São criados juntamente com os serviçais da família, até mesmo, nas suas próprias diversões. É chocante a forma como os mancebos ocupam o seu tempo, reunidos nos cantos das ruas. São habituados na ociosidade e, também, inadaptados ao serviço militar. Mesmo o pouco trabalho da condição eclesiástica envolveria demasiado trabalho e sacrifício. Não fazem grandes esforços e tornam-se uns ignorantes orgulhosos, sem terem um objectivo na vida.”.

A ignorância das classes era para Barrett a verdadeira causa da sua degradação moral e vícios. No entanto, faz questão de rematar o seu texto afirmando-se grato ao povo açoriano pela sua civilidade e gentileza.

Gaspar Frutuoso, “Saudades da Terra”

“Costumam dizer os ignorantes, ouvindo alguma coisa dos segredos de filosofia e efeitos da poderosa natureza, que lhe não cabe em seu entendimento: – ó grande mentira de filósofos; ao que eu não sei dar outra mais certa resposta, senão dizendo: – ó grande parvoíce de néscios, pois não alcançam que há muitas coisas sobre seu baixo entendimento que lhe ficam tão altas, que nem com altíssimas escadas, de ordenados e compassados degraus de razões e claras demonstrações, podem lá subir, para descobrir do alto, empinados, o que do chão, rasteiros, ver não alcançam. […] Digo isto para refrear as línguas de alguns que em algum tempo ouvirem algumas coisas que agora contar quero, que terão por impossíveis porque as não viram. Aos quais responderei que quem as viu era de tão boa consciência e tão verdadeiro como eles, e se não houvéssemos de crer senão o que se vê com os olhos, muito tempo há que fora já destruída a república humana.”

Gaspar Frutuoso (1522 – 1591), nascido em São Miguel, foi o pioneiro da historiografia açoreana. Fez-se padre, mas foi a sua faceta de historiador e a sua obra “Saudades da Terra” que nos faz hoje lembrá-lo.

Saudades da Terra é um texto dividido em 6 Livros que comporta uma descrição aprofundada da história e geografia dos arquipélagos da Macaronésia: Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde. O Atlântico que nos é mais próximo, pois. O livro I é dedicado à história geral e do Atlântico, com ênfase nos arquipélagos das Canárias e de Cabo Verde e nas ilhas de Castela; o II à Madeira; o III à ilha de Santa Maria; o IV a São Miguel; o V, conhecido como a «História de Dois Amigos da Ilha de São Miguel», é um texto ficcional; e o VI às ilhas dos grupos central e ocidental.

O Livro IV, dedicado a São Miguel, é o mais pormenorizado na caracterização da ilha e suas gentes. E sobre esta ilha neste “tão comprido e largo mar oceano”, tem Frutuoso uma descrição fantástica em todos os sentidos:

“A cabeça deste gigante, que da parte do oriente está encostada, é o morro do Nordeste, e Água Retorta uma orelha que tem para cima, porque, como está como encostado, a outra não aparece; da freguesia de São Pedro, da parte do norte, e do Faial, da do sul, começa o pescoço que se vai estendendo até à Povoação, ficando da outra banda encolhido. A comprida e reverenda barba é Achada Grande estendida até Achada Pequena, que é o cabo dela, que se tornou cã e calva pouco tempo há, quando no segundo terramoto se cobriu de pedra pomes e cinzeiro; os Fenais da Maia, da parte do septentrião, e a Ponta da Garça, da banda do sul, são seus ombros. A Maia e Vila-Franca, os cotovelos de seus braços, e neste esquerdo tem o ilhéu de Vila-Franca, como seu escudo, embaraçado; além dos cotovelos, Porto Formoso e o lugar de S. Lázaro são suas ulnas ou seus braços, cujo fim, encolhido para dentro, são os portos de Santa Iria e de Vale de Cabaços, onde saem para fora suas forçosas mãos, a ponta do pico de Santa Iria com sua Ribeira Grande, da banda do norte, e Água do Pau com sua ponta da Galé, da outra parte do sul. Logo está a delicada cintura cingida com um rico cinto, de Rabo de Peixe até à Alagoa, por onde a ilha é mais estreita. A faldra de sua malha é os Fanais e o lugar de Rosto de Cão, ambos termos da cidade, onde o cinto, com que se cinge, acaba de chegar, dando um nó cego da forca, como artificial, com uma figura de rosto de cão, no cabo assentado, com o focinho para o mar e o rabo para a terra, na ponta de guarnição com que filha, prende, açoita e castiga os malfeitores. Do lugar de Santo António à Bretanha, coxa do pé direito, da banda do norte, e da outra parte do sul, a cidade da Ponta Delgada, Relva e Feteiras, polpa grossa e forte coxa do seu esquerdo. A Ponta da Bretanha e o lugar de Candelária seus giolhos, e a grota de João Bom e o lugar de São Sebastião, suas pernas; o esquerdo, dizem os antigos que era um sítio que agora chamam as Sete-Cidades, que antigamente tinha muito alevantado no ar, mas com o grande peso, dando um grande coice, sacudindo-o, se sumira e estendera pelo mar, tomando posse dele, fazendo a fajã do lugar que se chama Mosteiros, aparecendo-lhe ainda agora as pontas dos dedos daquele pé, feitas ilhéus e penedos, sobre as águas do mar que ali está pisando; o direito é o Pico das Camarinhas, que também tinha mui alevantado e depois abaixou e estendendo-o pelo mar e mostrando-o armado com armas de fortes penedos é duro ferro que ali forjou Vulcano, pelo que o povo, de então para cá, chama àquele lugar Pico das Ferrarias; e no meio destes feros e horrendos pés se estende o comprido rabo da opa roçagante que tem vestida sobre as armas, abotoada em algumas partes, do pescoço até aos pés, com botões de altos e grandes montes. Mas por haver andado longos caminhos d’antes e dado muitos passeios, está o rabo desta vestidura tão safado que não tem lustros, nem verdura, sendo ela toda verde, pelo que esta parte desta opa, que é o cabo ocidental desta ilha, de todos é chamada comummente, por ser safada e calva, os Escalvados.”

O historiador fala das famílias que vieram povoar a ilha, da vegetação original, das colheitas e até preços que atingiram (como a valia do trigo entre 1513 a 1589), do gado e do pescado. “Havia nesta ilha, logo no princípio do seu descobrimento, tão grandes malvas como árvores, nas quais se dependuravam também os bois e vacas que tomavam, e dali repartiam a carne dela pela maneira sobredita, o que queriam e a quem a queria, e assim se proviam de carne sem haver mais açougue, senão o que cada um tinha à sua porta; de modo que não tinha preço a carne de toda a sorte, e de graça a comiam, e pouco era isto, se aproveitaram o que sobejava, mas deixavam apodrecer e perder muita por razão da grande multidão do gado, cuidando que nunca faltaria, e também por haver pouco sal na terra.” “Depois, era o pescado tanto e tão barato, que ninguém o queria comer salgado, do qual mandavam deitar fora as gamelas cheias, quando vinha outro fresco”.

Dá conta da infinidade de aves e da abundância de tudo, até de vinho de fora e da terra. Tão fértil era a ilha que lhe parecia uma mina de ouro. Relata ainda da força, valentia, esforço, manhas e destrezas de algumas pessoas da ilha “porque de todas não pude saber”.

Conta da destruição de Vila Franca do Campo, então a mais populosa, pelo tremor de terra em 1522 (também conhecido por “subversão”), um castigo divino de que houve avisos mas, ainda assim, “em uma só triste noite foram acabadas muitas vidas e ficou tudo tão coberto, que nem nobres casas, nem altos edifícios, nem sumptuosos templos, nem nobres e vulgares pessoas pela manhã apareceram, ficando tudo tão raso e chão, sem sinal nem mostra onde vila estivesse, porque com o tremor caíram os mais dos edifícios primeiro e a casaria, que acolheu a mais da gente debaixo, depois, sobrevindo a terra correndo, arrasou tudo, como raio ligeiro que desbarata quando acha mais forte e duro”.

Não refere apenas este tremor, mas também outros terramotos acontecidos na ilha, falando da origem dos biscoitos, a terra tornada preta e com jeitos pela lava.

Dá, igualmente, conta da explicação de nomes de terras curiosos, como o de Fenais por ali haver muito feno ou como a descida Pé de Porco, junto à lagoa das Furnas, por aí, no início do descobrimento da ilha, terem os homens comido um pé de porco cozido. Ou como o de Rabo de Peixe, “chamado assim por estar situado em uma ponta de terra e penedia, que sai ao mar, parecendo rabo de peixe; ou, como outros, porque se achou ali no princípio, junto ao mar, um peixe muito grande, sem se poder saber que peixe fosse, se era baleia ou de outro nome, e pelos mouros, que naquele tempo ali guardavam gado, foi dependurado o rabo dele em um pau e dali a dias perguntando a um de donde vinha, respondeu que do rabo de peixe”.

E relata pormenores dos amores privados, como o daquele que “se afeiçoou nela um homem com uma mulher casada que lhe matou o marido, pelo que se pôs a monte com a mulher”.

Fala das cracas que ainda hoje existem para os lados de Mosteiros, a fajã que “é uma terra corrida do Pico das Sete Cidades que antigamente rebentou, descendo pela Rocha, fez abaixo dela (tomando posse do mar) esta grande fajã de até dez moios de terra boa, que dá o melhor trigo da ilha, e faz pão sem tufo, como o de Portugal, e bom pastel e melões”.

Nesta obra encontram-se descrições das Furnas, Ribeira Grande, Rabo de Peixe, Ponta Delgada de outrora, bem como da curiosa constituição da paisagem que hoje admiramos na Lagoa Sete Cidades, que não era a mesma que encontraram os primeiros descobridores da ilha.

A própria vegetação da ilha não era a mesma que hoje presenciamos aquando do momento da chegada dos primeiros descobridores, claro.

O primeiro desembarque foi no lugar de Povoação Velha, “antre duas frescas ribeiras de claras, doces e frias águas, antre rochas e terras altas, todas cobertas de alto e espesso arvoredo de cedros, louros, ginjas e faias, e outras diversas árvores”. Andavam mais pelo mar no barco de seu navio e “pouco pela terra, porque muito não podiam, por lho impedir o espesso mato. Uma solitária ilha acompanhada de uns altos montes e baixo os vales, povoados de arvoredo, com cuja verdura vestida estava toda a terra, dando grandes esperanças de ser mui fértil e proveitosa a seus moradores, que nela viessem a fazer sua colónias”.

Um engano, porém: “vendo muitos açores e bons, lhe puseram o nome ilhas dos Açores, mas outros têm por mais verdade que fossem milhafres que são parecidos”.

Revistas de Viagem

Há aquelas revistas tradicionais de viagens, como a Volta ao Mundo, em Portugal, ou a Lonely Planet, Condé Nast Traveller, Wanderlust e muitas mais, lá fora.

E, depois, há aquelas revistas independentes que mais parecem livros, aquelas com capas que ficam sempre bem numa mesa da sala de estar mas, melhor ainda, aquelas cujos textos e fotografias nos fazem sonhar e nos inspiram a viajar. E, sobretudo, nos dão a conhecer destinos remotos, ou não tanto, na sua plenitude.

Revistas lindíssimas cujas edições, as mais das vezes, têm um tema que lhes servirá de guião para explorar paisagens, comunidades, modos de ser e fazer. Vidas que desconhecíamos que alguma vez tivessem existido ou que ainda possam existir, como aquela do “Último Fazedor de Sapatos de Neve”, no norte da América do Norte, ou da adolescente que, apesar dos modernos veículos de neve, ainda insiste ser transportada nas suas deslocações de centenas de quilómetros por um trenó puxado pelos cães da Groenlândia. Estas são apenas algumas das histórias que se podem conhecer no último número da revista Another Escape, “The Frozen Volume” (o seu décimo primeiro número), que diz ao que vem: “O volume congelado sai à rua e abraça o frio. Descobre como as condições extremas podem promover a comunidade, unidade e união, e como a nossa paixão pelas actividades ao ar livre podem nos empoderar a enfrentar os elementos.”

Expressões e ideias como nostalgia, resiliência, ingenuidade, comunidade, remoto, isolamento, ambiente e alterações climáticas estão muito presentes. Mas sem proselitismos. Um artigo sobre a Groenlândia na edição acima citada, em especial no que respeita à questão das alterações climáticas, por exemplo, faz nos pensar que o que é mau para o resto do mundo pode não ser, ironicamente, um mal absoluto para esta região, pela maior proximidade e novas oportunidades que, eventualmente, o degelo pode trazer.

A Another Escape diz-se inspirada pela natureza de forma a ser criativa e levar a um estilo de vida considerado. Fá-lo, desde logo procurando ser uma publicação sustentável, com preocupações ao nível do uso e impressão do seu papel.

O mesmo com a Rucksack Magazine. Também uma revista bianual que se debruça sobre um estilo de vida ao ar livre, tem vindo a apresentar-se-nos sob um tema: The Winter Issue, The Journey Issue e The Island Issue, ou seja, edições dedicadas ao Inverno, à jornada e às ilhas. A sua paixão é a aventura e o contar histórias. Com ela descobri que as fotografias de dias sem sol, aqueles onde do céu só se vê uma enorme massa branca ou cinzenta, também podem ser deslumbrantes. E que lugares inóspitos e desolados, seja pelo clima que sobre eles se abate o ano quase inteiro ou pelo seu isolamento, podem produzir em nós um desejo imenso de viajar até eles. Com esta revista passei a desejar visitar a Islândia, as Ilhas Faroe ou a Ilha de Skye mesmo em meses de Inverno. Porque apesar de os seus artigos nos contarem o desconforto que pode ser pisar estas lonjuras, ainda assim as suas fotografias e textos têm o poder imenso de nos atrair até lá e aventurarmo-nos.

Mais luminosa, seguindo por caminhos mais batidos mas ainda longe das massas e sempre com artigos sobre territórios e ambientes e actividades surpreendentes, a Lodestars Anthology é provavelmente a revista mais bonita. Pega num país por edição e vai esmiuçando-o de lés a lés, com textos, fotografias e ilustrações. A curiosidade é o que a move e que no caminho a leva a conhecer personagens que resultam em textos intimistas sobre as paisagens e a cultura de cada um desses países.

A sua última edição, a décima primeira, por exemplo, é dedicada a Portugal (antes viajou pela Índia, França, Canadá, Nova Zelândia, Japão, Escócia e Inglaterra) e nela podemos viajar pelo granito da Peneda-Gerês, descer pelo Centro do país, saborear doces conventuais, explorar Peniche e a Comporta, deixarmo-nos seduzir pela arte dos azulejos, procurar a felicidade em São Lourenço do Barrocal, percorrer a Costa Algarvia e descobrir o verde dos Açores e o charme da Madeira.

A Fare Magazine tem um conceito um pouco diferente, mas o seu sentido passa igualmente por nos dar a conhecer a cultura de um local. Partindo de um foco na comida, cada edição bianual guiada por locais parte de uma cidade para explorar as suas particularidades culturais. A sua quarta e última edição é dedicada a Seoul (depois de edições sobre Istambul, Helsínquia e Charleston) e à boleia da comida desenvolvem-se artigos pela história da Coreia, pelo milagre do super desenvolvimento tecnológico da sua capital, a tradição de partilha à mesa, a cidade com mais mulheres solteiras no mundo desenvolvido. A comida (e cultura) coreana está na moda e depois de percorrer esta revista dedicada a Seoul fico ainda com mais dificuldade em perceber porque não existem restaurantes coreanos em Lisboa (excepção de um banca no Mercado Oriental e um restaurante achinesado em Odivelas).

A Suitcase Magazine autodenomina-se como “a cultura da viagem” e propõe-se, nada mais nada menos, a mudar a forma como viajamos – “esqueça os clichês turísticos e aproveite o apetite aventureiro da próxima geração”. Com 4 edições por ano, a Suitcase é mestre no escapismo moderno e as suas edições são inundadas por artigos de inúmeros lugares bonitos, com dicas de locais a visitar, dormir e comer, sem deixar de piscar o olho à moda e às novas tendências de viagem.

De todas as aqui referidas, a Suitcase é provavelmente a revista mais popular e mais lida e, consequentemente, aquela que mais vai ao encontro de um viajante independente mas que não prescinde de paragens acolhedoras e confortáveis.

Uma última menção para a extinta Boat Magazine. Nada a ver com barcos, atenção. Criada em 2014, esta muito elogiada revista independente propunha-se a não ser apenas uma revista de viagens, daquelas com dicas de restaurantes e hotéis. Pelo contrário, pretendia ir mais a fundo e, através da escolha de uma cidade, a sua edição deslocalizava o seu estúdio para lá e deixava-se imergir pelas suas dinâmicas, colaborando com fotógrafos, escritores e criativos locais para daí extrair histórias únicas, sob diversas perspectivas, dessas cidades e seus habitantes. Há cinco anos, numa entrevista, perguntava-se ao seu editor onde se veria daí a cinco anos, precisamente agora, em 2019. Ele respondia que talvez Islamabad. Não sei dele. A Boat parou no número 12, sem chegar ao Paquistão, mas passando por, entre outras, Sarajevo, Detroit, Lima, Banguecoque, Havana e Telavive. Entre quase todas as edições esgotadas fui ainda a tempo de ter direito a esta última e confirmar que a Boat mereceu mesmo todos os elogios que lhe foram feitos e que deixa saudades.

Em resumo de jornada, estas revistas de viagem são elas próprias lugares de escape. Revistas para se deixar soltas e à vista nas diversas divisões da casa e às quais é sempre um prazer voltar.

Para folhear algumas destas revistas, bem como muitas outras que em comum têm a sua estética belíssima, é possível fazê-lo sem a intermediação de um écran na livraria Under the Cover, em Lisboa.

Around the World in 80 pages – Elvis e a sua bola portuguesa

A Navigator, a empresa portuguesa de papel, abriu em 2017 a sua terceira edição do concurso “Around the World in 80 pages”. E o livro de mesmo título com as histórias dos 8 vencedores e dos 72 finalistas foi publicado durante este ano de 2018.

São 80 histórias sobre experiências de viagem relatadas por participantes de todos os lados do globo que lhes mudaram a vida ou, pelo menos, os surpreenderam de forma a recordarem esses momentos ao longo das suas vidas.

Uma dessas finalistas é a Sofia, co-autora deste blogue, a mana mais nova que acreditou que tinha uma boa história para apresentar a este concurso. Essa história havia já sido contada aqui, mas foi agora adaptada e escrita em inglês para caber neste livrinho bonito cheio de histórias, fotos e ilustrações. Aqui fica a tradução:

Elvis e a sua bola portuguesa

3827 metros acima do nível do mar. Esta é a altitude onde Puno está, uma cidade no sul do Peru, a meio caminho entre La Paz, capital da Bolívia, e Cuzco.

Com vista para o mítico Lago Titicaca, o mais alto corpo de água navegável no mundo, é de Puno donde podemos apanhar um barco até às curiosas e excêntricas ilhas flutuantes de Uros.

Foi de uma cabine telefónica nesta cidade peruana que, num tempo sem gadgets electrónicos e conexões wi-fi, eu e a minha irmã fizemos o clássico telefonema para casa para dar notícias, depois de muitos quilómetros de caminhadas pelas montanhas e poeira acumulada. Enquanto contávamos as nossas últimas aventuras, um rapaz de 12 anos aproximou-se e pediu insistentemente à minha irmã para engraxar as suas botas. Este calçado estava sujo demais e carregava camadas e mais camadas de histórias das nossas viagens pelo solo castanho dos Andes e o sal branco de Uyuni. Diversas vezes tínhamos já sido abordadas pelos rapazes engraxadores, o que é muito comum pela Bolívia e Peru, mas sempre recusáramos os seus serviços. Desta vez a minha irmã aceitou, enquanto ouvia a minha conversa com a nossa mãe. A minha irmã perguntou a Elvis – este o nome do rapaz, apesar de ele nada saber do Rei do Rock and Roll – quanto seria o serviço. Ele respondeu que o preço ficaria ao nosso critério. Momentos depois perguntou-nos se gostávamos de futebol (jackpot!) e contou-nos que a sua bola estava furada, pelo que adoraria se nos lhe pudéssemos comprar uma outra numa “tienda” umas “calles” adiante. Aceitámos. Na loja, vimos várias “pelotas”. Perguntámos-lhe qual queria. Humildemente, deixou a escolha connosco. De repente, houve uma bola que captou a minha atenção: uma vermelha, com o símbolo da nossa federação de futebol e com o nome do nosso país, Portugal.

Obviamente, foi esta a bola que o nosso pequeno “peruanito” recebeu, para que pudesse não esquecer estas raparigas portuguesas. Os craques portugueses do futebol, Figo e Cristiano Ronaldo – este último naquele tempo em início de carreira – eram nada para Elvis. Surpreendentemente, o futebol, já naquela época um dos grandes exemplos da globalização, não tinha toda essa dimensão naquela parte da América do Sul. Apenas jogar à bola nas ruas importava para Elvis e seus amigos. Depois destes anos todos, Elvis será um homem. Espero que ele se tenha divertido a valer na sua juventude e que na sua memória a bola oferecida por estas irmãs portuguesas lhe tenha servido para muitos jogos de futebol a rock’n’rollar.

Conquista do Inútil, de Werner Herzog

A Conquista do Inútil é um livro de Werner Herzog, mais conhecido pela sua obra enquanto cineasta.

E foi precisamente o filme que o alemão se propôs rodar na Amazónia peruana, sobre a empreitada do delirante Fitzcarraldo, que levou a que editasse, em 2004 (editado em Portugal em 2017), este género de diário sobre as peripécias que rodearam a filmagem.

A verdade é que o seu filme Fitzcarraldo acabou mesmo por ser rodado e estreado em 1982 e o seu livro “A Conquista do Inútil” dá-nos uma imagem poderosa da vida na selva entre Junho de 1979 a Novembro de 1981. São, como escreve Herzog, “paisagens interiores nascidas do delírio da selva”.

Antes de continuarmos com o livro, apenas uma breve informação sobre a personagem central do filme, para nos situarmos. Inspirado num real barão da borracha, o peruano Carlos Fermín Fitzcarrald, o ficcional irlandês Brian Sweeney Fitzgerald – Fitzcarraldo na pronúncia dos locais – é também um homem em busca da árvore da borracha que se propõe a transportar um navio a vapor por águas inóspitas rio acima e fazer passá-lo pela montanha, atravessando-a, em busca dum filão inexplorado de borracha.

Mais irreal ainda, a sua saga para romper e atravessar estas águas, onde teve que enfrentar tribos índias que lhe eram hostis, fauna idem e doenças terríveis, toda esta empreitada era motivada por um sonho: construir uma ópera em Iquitos e inaugura-lá com o seu ídolo Enrico Caruso. Aqui a inspiração só pode ser a (real) ópera de Manaus.

Começando o livro pelo seu final, Herzog, o cineasta, teve muitas dificuldades em fazer o seu navio flutuar (quanto mais fazê-lo atravessar a montanha). Quando conseguiu finalmente erguer o barco escreveu “ não houve dor ou alegria, nem arrebatamento ou alívio, nem um sentimento de felicidade, nem um som, nem um suspiro de alívio. Houve apenas o reconhecimento de uma grande inutilidade, ou melhor, de ter penetrado apenas mais profundamente num reino misterioso. (…) Tudo o que há para relatar é o seguinte: estive lá.”.

Esta conquista de algo inútil no espectáculo da selva, a selva que engana os sentido, é cheia de mentiras, ilusões e demónios (palavras do capitão do navio no filme), teve ainda como acréscimo as tensões da guerra com o Equador na fronteira, da insegurança provocada pelos narcotraficantes, das más relações com o actor principal, Klaus Kinski (“estrelas que amuam por figurantes índios terem, por vezes, mais importância”), acusações de maus tratos a populações indígenas, boatos vários, a tal ponto que Herzog escreve, admitindo, não se lembrar de ter trabalhado sob tanta pressão.

A selva é, no entanto, a personagem principal e incontestada deste livro. A selva e seus personagens.

Passado entre as cidades de Iquitos e Camisea (rios Amazonas ou Ucayali e seu afluente Urubamba), a natureza em estado puro e bruto é acompanhada pelos seus habitantes no mesmo estado. Uma mulher que chega com o filho morto no ventre e só tem ajuda muito longe; outra mulher desesperada por ouvir dizer que o marido tinha sido morto e comido pelos índios; uma mulher dá de mamar à vista de todos; outra mulher, avistada pelo autor no mercado de Belém, tão bela, que o assustou.

O medo acompanha a viagem. Não tanto dos bichos vários, que se tornam rotineiros, “tenho de novo uma cobra no telhado”, macacos que roubam garfos, rãs a saírem das calças, mais piranhas e jacarés e apostas de pescaria de peixes de pelo menos um metro.

“A selva é pérfida e letal”, houve até quem tivesse feito um testamento porque ia trabalhar na selva, ou, noutra passagem, “a vileza obscena, explícita, da selva”. “De noite, tive primeiro a sensação e depois a certeza de me encontrar num tempo arcaico e emergente, sem linguagem, sem tempo.”

Os sons, o cheiro e as cores da selva são arrebatadores.

As árvores gritam connosco, os insectos e os animais produzem sons atormentados e “a natureza voltou a si, só a floresta permanece, terrível, imóvel. Silencioso, o rio revolve-se, o mostro. A noite cai muito rápida, os últimos pássaros insultam, como sempre a esta hora, o fim da tarde. Grasnar rouco, sons agoirentos; sob eles, regular, o canto das primeiras cigarras.”

“Depois da chuva, o cheiro da terra foi tão intenso que tive vertigens. A ocidente, com o sobrevir da escuridão, o céu adquire, num ponto sem nuvens, uma luminosidade irreal, e baloiça como as vagas do mar.”

É, enfim, a natureza indomável mas cândida.

“Começou a chover. O rio flui, castanho esverdeado, prudente e baixo. As bananeiras à esquerda da minha cabana crescem insufladas, indecentemente sexuais. Na tranquilidade da chuva, a paisagem pratica a devoção. Um ofegar profundo atravessa a floresta, tudo permanece imóvel”.

Os Pescadores, de Raul Brandão

Os Pescadores, publicado em 1923, é uma obra superior, uma ode à costa portuguesa, de Caminha a Olhão, “esta nossa terra portuguesa vai pela costa fora sempre de braços abertos para o mar, estreitando-o amorosamente contra si”.

Pura beleza, já se vê, este conjunto de crónicas escritas por Raul Brandão (1867-1930), descendente de pescadores, nado e criado na Foz do Douro.

Uma constante percorre todo este livro, a das mulheres que perdem os seus homens, maridos e filhos, para o mar, mas que continuam vivas e a viver desse mesmo mar que lhe roubou os seus. Como a própria avó do autor, viúva aos 20 anos.

À semelhança de “As Ilhas Desconhecidas” (outro monumento sobre o qual havia escrito aqui), o mar é uma presença forte e descrito de forma sublimar. Mas também o céu. Uma explosão de cores do mar e do céu é-nos apresentada. “Primeiro a costa, ao longe violeta e vermelha, mais longe roxa e diáfana, mais longe ainda perdida na bruma.”

A luz como grande pintora e o autor com a “alma a escorrer tintas estranhas”. Como se este Os Pescadores, livro de memórias e livro de viagens, fosse também uma verdadeira pintura.

Começamos com a Foz do Douro e com as suas lembranças de menino, revivendo episódios e factos com saudade e ternura.

Pela Ria de Aveiro descobrimos que “o homem nestes sítios é quase anfíbio: a água é-lhe essencial à vida e a população filha da ria é condenada a desaparecer com ela. Se a ria adoece, a população adoece. A alma desta terra é na realidade a sua água. A ria, como o Nilo, é quase uma divindade. Só ela gera e produz.”.

“Pesca-se. Sonha-se. Toma-se banho. E esquece-se a vida prática e mesquinha.”

A vida, a vida que segue como uma pintura, como esta imagem de “um rapaz, no alto da duna, sopra o búzio com as bochechas cheias, chamando a companha para a pesca.”

Pintura eloquente, e pintura contundente, como esta descrição das gentes da Ria: “tudo aqui é pobre e humilde mas não grosseiro. Os homens trigueiros, secos e fortes e as mulheres bem lançadas. Mesmo as feias teem um ar de distinção. A família é sagrada. O contacto com a terra obriga o homem a olhar para o chão, o convívio com o mar obriga-o a levantar a cabeça. Quando saem do barco e o encalham os pescadores não fazem mais nada – deitam-se na areia. O resto compete à mulher: é ela que lava as rêdes e o peixe, que o salga e carrega é que faz a lavoura da Barrinha.”

Os Palheiros de Mira foram igualmente alvos da atenção delicada e inspirada de Raul Brandão: “Como vive esta gente? Vive com simplicidade nos palheiros, casa ideal para pescadores ou para um velho filósofo como eu. É construída sôbre espeques na areia, com táboas de pinho é um fôrro por dentro aplainado. Duram tanto ou mais que a vida; cheiram que consolam, quando novas, a resina, a árvore descascada e a monte; ressoam como um velho búzio e são leves, agasalhadas, transparentes. Por fora escurecem logo, e envelhecendo caem para o lado ou para a frente; por dentro conservam uma frescura extraordinária, e quando se abre uma janela, abre-se para o infinito.”.

Com o autor seguimos para sul. Para as Berlengas, que “parecem duas nuvens pousadas no mar”, “o mais belo sítio da costa portuguesa”. E para a Nazaré, Lisboa, Setúbal, Sesimbra e Caparica.

Passamos breve pelo Alentejo, que tem de ser atravessado para chegar ao Algarve, e cuja aparência mete medo a Raul Brandão. “É a terra do ódio. Tudo em que a gente põe a vista é duro e hostil”, sublinhando a monotonia, o pesadelo e a solidão do monte.

Chegando, enfim, ao Algarve, as frutas exaltam ainda mais os seus sentidos. Olhão, “um delírio de branco”, e Tavira despertam no autor a ilusão mourisca. “Tavira é uma terra de montanheiros, Olhão é uma terra de pescadores. O pescador é comunista e alegre, o montanheiro desconfiado e triste”. E fá-lo ter saudades de Olhão e sentir que “até o mau cheiro (de Olhão) me cheira agora bem”.

Em Sagres, uma comparação: “A névoa desfez-se e a ponta de Sagres é um colosso duro e negro. A este panorama falta-lhe talvez encanto. Está ali – está ali para sempre a duas ou três tintas cruas, azul, vermelho e negro. É decorativo – mas decorativo como um cenário. As meias tintas é escusado procurá-las. Nunca lhe chega a hora melancólica em que a paisagem do norte empalidece e desmaia como quem vai morrer.”.

Não deixa, todavia, de gabar a luz do Algarve, afirmando que “basta esta luz para se ser feliz”.

Outro pescado é versado, mas é a pesca da sardinha aquela que é transversal a este livro, “um manjar para pobres e para ricos, entra em todas as casas”, e exaltada: “cheira a algas e a mar vivo. Impregna-me e trespassa-me. Deixa-me sal nos beiços.”. Aprendemos sobre técnicas de pesca e como é transportada esta “febre”, estas “montanhas de prata que o mar produz”: a sardinha é “levada a dorso de cavalgadura e, diz-se, a sardinha que sabe a lombo de burro dizem que é a melhor”.

Mas as passagens mais pungentes são aquelas dedicadas às mulheres. Uma contradição percorre-as. Marcadas pela desgraça, o mar leva todos os seus. Mas “quando o inverno chega e a fome aperta, é ela que o injuria: Má raios partam o mar! Então quereis morrer à fome e os mininos?”.

Na verdade, o mar traz a morte, mas só o mar dá o sustento. Palavras como lágrimas, soluços, coração em farrapos, luto, enchem as páginas que falam das vidas destas mulheres, elas que choram “tantas lágrimas como aquele mar salgado”.

Elas, também, que trabalham tanto e mais que os pescadores. Vendem peixe, fazem carretos, carregam a canastra à cabeça, andam de pés descalços, criam e cuidam dos muitos filhos (“têm filhos às ninhadas”), lavam a roupa nos tanques. Mas também gritam umas com as outras e perdem a compostura, arrancam cabelos e dizem palavrões.

Ainda, uma curiosa caracterização das mulheres da Murtosa, Ilhavo, Ovar e Póvoa, todas diferentes fisicamente mas iguais em devoção e sacrifício. “A mocidade dura-lhes o que duram as rosas”. São mulheres sofridas. Não é preciso recordar, o mar leva-lhes todos.

Contundente, Raul Brandão tem ainda espaço e lucidez para uma nota de crítica ao estado da pesca no país de então. Escreve, “nós só temos um sistema bem organizado – o da destruição”. “Os pescadores sabem mais com os olhos fechados do que os técnicos com eles abertos.” E uma crítica directa aos métodos de pesca como as traineiras, aos excessos que presenciava e o temor de que faltasse o peixe em breve. E uma crítica ainda ao preço do peixe, caro, porque estava nas mãos de companhias poderosas. Soa actual?

À semelhança do que Raul Brandão escreve sobre os pescadores – “a respiração do mar é-lhes indispensável à vida” -, também este “Os Pescadores” é um livro imprescindível pelas palavras que se tornam paisagem da mais bela que podemos imaginar.