A segunda cidade da Coreia do Sul é uma cidade portuária dona de uma beleza natural e, ao mesmo tempo, de um intenso urbanismo. A montanha vigia cada canto das suas praias e trilhos, mercados e museus, templos e comida. É garantido que aqui comeremos do melhor e mais variado peixe fresco. Mas Busan é também uma cidade histórica, tendo sido nela que os japoneses iniciaram a colonização da península no final do século 19. Acontece que, a um passado complicado, os seus habitantes decidiram juntar um presente vibrante.

O Rio Nakdong, o mais longo da Coreia, passa rente à montanha Geumjeongsan nos seus últimos momentos a sul da península, em Busan, para daí desaguar no Estreito da Coreia, que liga o Mar da China Oriental ao Mar do Japão. Fukuoka, na ilha japonesa de Kyushu, não anda longe. Foi pela estreiteza desta massa de água que os japoneses, que já tinham invadido a península coreana em 1592, iniciaram oficialmente em 1910 a colonização da Coreia então ainda não dividida. E, assim, o desejo antigo de conseguir uma ligação terrestre à China viria a ser cumprido. Em Busan, os japoneses desenvolveram a cidade, tendo construído uma série de fortificações de larga escala e criado portos e zonas urbanas, usando a cidade como porta de saída para explorar o reino de Choson e lançar invasões continentais. Décadas depois, em 1945, o Japão imperial teve o seu fim, a par da II Grande Guerra Mundial, e com isso veio a liberação da Coreia. Acontece que, com a Guerra Fria que sucedeu ao final da Guerra, com a divisão do mundo em dois blocos, também a península coreana ficou dividida, com o norte na esfera de influência dos soviéticos e o sul dos americanos. Em 1950 o norte invadiu o sul e, assim, iniciou-se a Guerra da Coreia, a guerra civil que opôs o norte e o sul e durou até 1953 – embora os dois países permaneçam separados e com pouca esperança numa reunificação. Nessa invasão pelo norte, as tropas americanas e da ONU recuaram de tal forma que o sul ficou restrito a um perímetro de 230 kms ao redor de Busan. E, então, a cidade tornou-se temporariamente capital da república durante a Guerra da Coreia, o seu centro político e administrativo. À medida que os comunistas do norte avançavam para sul, muitos procuraram refúgio em Busan, povoação pequena e sem estrutura para receber tanta gente. A cidade duplicou a sua população em poucos anos e a pobreza era a regra, com escassez de comida, inflação e desemprego. Mas possuía condições favoráveis ao crescimento populacional e nas décadas de 1960 e 1970 desenvolveu-se como cidade de indústria, manufactura e pesca. Sobretudo, o seu porto – o maior da Coreia e um dos maiores do mundo – serviu e serve de porta de saída e de entrada de bens.



Por tudo isto, Busan tornou-se um símbolo de sobrevivência e de esperança. E o bairro de Gamcheon é bem representativo da história de Busan e, ao mesmo tempo, do seu presente. Esta encosta do monte junto ao mar foi ocupada por muitos refugiados durante a Guerra da Coreia, com a construção massiva de casas e estradas que desafiam a topografia, ao estilo das favelas cariocas (e esta não é a única semelhança com o Rio de Janeiro). No entanto, cada casa foi construída nos terraços naturais proporcionados pela encosta de forma a não bloquear a vista da de trás, demonstrativo da consideração entre vizinhos. O emaranhado de casas coloridas é um autêntico labirinto, com pequenas ruas que se inter conectam – chegou a acolher 30.000 habitantes. Em 2009 foi considerada representativa da cultura coreana e um projecto de regeneração urbana com a participação de artistas, residentes e autoridades locais, faz com que a sua arquitectura original esteja preservada. Gamcheon é hoje, pois, um ponto histórico-cultural, um lugar de memória de um passado duro.





O nome Gamcheon significa aldeia “doce, de água saborosa”. Logo abaixo da encosta está o porto e, diz-se, muitos barcos atracavam e lançavam âncora na baía para recolherem dessa água. A sua envolvente natural, à semelhança de tantos outros pontos de Busan, é muito bonita, com várias montanhas e o mar como enquadramento. Tradicionalmente, os seus habitantes trabalhavam na indústria pesqueira, mas agora a sua população é muito variada, incluindo um grande número de artistas. Hoje, Gamcheon é hiper turística. Pelo panorama, pela disposição pitoresca das suas casas, pela cor e pelas intervenções de arte urbana. Porém, não esquecemos o passado e à entrada do bairro é indispensável a visita ao seu pequeno museu, contrapondo as fotos antigas da pobreza ao colorido presente, incluindo a onda coreana do K-pop.


Assim como é indispensável a visita ao Museu da História Moderna e Contemporânea de Busan, no centro da cidade. Instalado num edifício construído pelos japoneses durante a ocupação da Coreia, mais tarde centro cultural americano, e no edifício do antigo Banco da Coreia, em estilo modernista e que preserva os seus cofres, a sua visita é uma viagem pela história da cidade. Tivemos a sorte de nos tocar uma muito boa exposição temporária que aliava, precisamente, a arte contemporânea com a história da cidade. E a dado momento, depois de termos passado por um caminho às escuras ao som dos movimentos do porto, dos barcos e da natureza, e outras instalações inspiradas na ocupação japonesa e na Guerra da Coreia, lembrei-me que também esta faz parte da história da minha família. Há poucos anos, ao ler as cartas do meu avô, que não cheguei a conhecer, fiquei a saber que um primo, filho do seu tio emigrado na América, havia morrido na Coreia, um entre dezenas de milhar de americanos mortos nessa Guerra – em Busan está o Cemitério Americano, o único cemitério da ONU no mundo. No restante espaço do Museu, é-nos apresentada a história da cidade, desde a criação do porto, passando pelo crescimento industrial até à democracia.





Neste centro de Busan, sentimo-nos na Ásia do nosso imaginário, com um constante movimento de pessoas e um comércio variado (mas é em Seomyeon, outro centro da cidade, distante deste, que vemos os apelativos neons, em mais um distrito das compras, óptimo para percorrer à noite). Numa vasta zona pedestre, há o Gukje Market, um dos maiores da Coreia, onde se vende tudo, mesmo tudo, incluindo aquela quinquilharia que amiúde percebemos que dá muito jeito. Há um comércio mais moderno, com todas as lojas da moda, e a Rua BIFF, uma avenida das estrelas do cinema asiático, uma alusão ao facto de Busan acolher um dos mais famosos festivais de cinema da Ásia. E há o Bosudong, um enorme mercado de livros usados que, infelizmente, tinha a esmagadora maioria das suas bancas fechadas (pelos vistos encerra às terças-feiras). Perto está ainda a Torre Busan, um observatório de 120 metros com o Parque Yongdosan a envolvê-lo.





Mas é o Mercado Jagalshi a maior atracção do centro histórico de Busan. O maior mercado de peixe da Coreia é um festival para os nossos sentidos, com uma variedade infinita de pescado. Mais, depois de perscrutarmos as bancas de peixe exteriores e espreitarmos as montras dos restaurantes ao redor do edifício do mercado, entramos, escolhemos o peixe nas bancas no interior do primeiro andar do mercado – quase todo vivo e algum a teimar saltar dos “aquários” – e subimos ao segundo andar para sentar em mesas simples com toalhas de plástico e aí almoçar o peixe fresquinho previamente escolhido.




As distâncias em Busan são infinitas, um verdadeiro desafio para o viajante, sendo obrigatório planear bem o que visitar, na certeza de que muito tempo será gasto em transportes, seja metro ou autocarro. É, pois, impossível visitar em poucos dias grande parte da sua longa costa, cheia de ilhas, praias e baías carregadas de vegetação. Songdo foi a primeira praia pública da Coreia, em 1913, e hoje, século 21, é um excelente exemplo do arrojo coreano rumo à modernidade urbanística. À beira mar, uma passarela elevada faz-nos caminhar sobre a água. Pelo céu, um teleférico faz-nos viajar sobre o mar, admirando de forma altaneira toda a bonita paisagem circundante, desde logo, uma vista privilegiada sobre Songdo e, depois, as montanhas verdejantes junto à costa e os omnipresentes cargueiros nas águas de Busan.



O teleférico de Songdo percorre cerca de 1,62 kms, numa altura de 86 metros sobre o mar, até ao Parque Amnam, anteriormente um lugar militar, entretanto reconvertido em trilhos florestais, área de lazer e decks de observação. Em 2011 foi construída a “Ponte da Nuvem”, (mais) uma futurista ponte suspensa que liga o Parque à pequena ilha de Geobukseom (tartaruga) e onde as grandes vistas são garantidas.







Mas a praia mais famosas de Busan é Haeundae, considerada a Waikiki ou Copacabana coreana. A língua de areia está rodeada de arranha-céus, num skyline perfeito junto ao mar. No canto ocidental de Haeundae está a “ilha” Dongbeak, hoje ligada ao continente pela acumulação de sedimentos ao longo dos tempos. É um espaço florestal, cheio de caminhos para percorrer junto ao mar, onde descobrimos pela primeira vez o curioso nevoeiro que costuma acometer Busan. Para um lado, vistas da Marine City, para o outro, vistas da Praia de Haeundae. Passado o farol, na Dongbeak está a escultura de uma sereia que repousa serenamente com a praia de Haeundae como cenário de fundo. O nome da praia virá do estudioso e oficial do período Silla Tardio, Goun Choe Chiwon de seu nome, que a caminho da montanha terá parado por aqui e, maravilhado com as vistas de mar, nuvens, lua e montanhas, cravou o seu pseudónimo, “Haeun” (de significado “nuvem do mar”), numa rocha. Estão explicadas as nuvens que nos impediram de confirmar esta vista maravilhosa.




Do lado contrário da praia e baía de Haeundae, na vertente leste, está um dos maiores símbolos da Busan contemporânea, o Sky Capsule, inaugurado em 2020. A reconversão da antiga linha de comboio Donghae Nambu, junto à costa, deu origem ao Parque Blueline, composto da tal cápsula aérea (Sky Capsule) e de um comboiozinho (Beach Train). Entre a estação de Mipo e de Cheongsapo, as cabines coloridas (sky capsule) rolam entre 7 a 10 metros sobre o solo e são já um icónico transporte-miradouro que percorrem cerca de 2 kms pela cénica costa de Busan. É uma forma muito bonita e divertida de conhecer as belezas naturais de Busan, antecipando a paisagem escondida pela floresta costeira que virá nos próximos metros e, até, tentando acertar na cor da próxima cápsula que se cruzara com a nossa.




No caminho das cápsulas vemos o Haewol Skywalk, um observatório suspenso sobre o mar de arquitectura disruptiva. Depois, seguem-se outros quase 3 kms no Beach Train (comboio de praia) até à praia de Songjeong, mas optámos por percorrer parte deles a pé até ao Daritdol Skywalk, mais um observatório que é em si mesmo uma atracção, permitindo-nos a experiência de caminhar sobre o mar numa plataforma em vidro transparente.




Songjeong é mais uma bonita praia e baía, mais relaxada e menos movimentada do que Haeundae, com muitos surfistas de primeira onda a boiar no mar. Aqui, estamos mais de uma vintena de quilómetros para leste afastados do centro da cidade – é esta a ordem de distâncias da extensa Busan de que falávamos no início do post -, onde ela vai ficando menos carregada de arranha-céus e mais deixada à natureza. Será ainda possível encontrar praias desertas, mas certamente que em breve também essas serão tomadas pela pulsão urbanística coreana e mesmo Songjeong será outra, mais central e concorrida não apenas pelos surfistas.



Em Busan, para além das longas distâncias, tudo é em grande. Parece que nela está o maior centro comercial e de entretenimento do mundo, o que não confirmámos, por não ser bem esta a nossa praia. Optaríamos antes por visitar mais uns túmulos (desta vez Gaya) ou uns templos na montanha, que também os há. Mas acabámos por escolher uma ida ao Templo Haedong Yonggungsa, um dos únicos dois da península junto ao mar, num país onde a maioria dos templos estão localizados na montanha. A beleza natural é, uma vez mais, evidente, assim como o é a enorme confusão criada por este ser um lugar hiper-turístico. O templo original neste sítio havia sido construído no século 14, mas foi totalmente arrasado durante a invasão japonesa do século 16. Só mais tarde, já no século 20, é que foi construído este templo moderno, num estilo arquitectónico de acordo com a época. No mais, e à semelhança de outros templos, há neste muita cor e os elementos essenciais, como o salão principal, pagodas e representações do Buda.



À entrada do Templo, depois de passarmos as dezenas de bancas de vendas, os 12 animais do zodíaco chinês, dispostos em duas filas, servem de guardiões. Esta é uma recepção bem popular, sem grande elegância ou recato que se esperaria de um local religioso, e é precisamente isso que se confirma adentrando-o – já se disse, este é um lugar muito turístico. Juntando-nos às massas, entretivemo-nos a lançar moedas desde a ponte, mostrando desprendimento enquanto testávamos a pontaria para acertar no local que, acreditámos por momentos, nos traria a iluminação. De qualquer forma, as diversas estruturas do templo estão dispostas no sentido descendente, proporcionando vistas diversas, mas sempre cénicas: quando visto da beira mar, o conjunto surge aninhado no verde da encosta, quando visto de um ponto altaneiro, ei-lo a espraiar-se costa fora.






Por fim, e porque a cidade de Busan também se presta – e muito – a caminhadas pela natureza, percorremos o Igidae Park Coastal Trail, um trilho pedestre de 4,8 kms, sempre junto ao mar e com vista para as falésias. É mais um grande momento de beleza natural, onde as vistas fabulosas são garantidas. Ou não, cortesia do costumeiro nevoeiro. O início deste trilho acontece no Oryukdo Skywalk, mais uma plataforma-observatório, desta vez para os ilhéus Oryukdo. Diz que são 6 picos, ou 5 picos, depende se os vemos de este ou de oeste. Certo é que com o nevoeiro que nos tocou, apenas vislumbrámos o maior deles e imaginámos os demais. Contingências de viajantes. Algum momento de abertas no céu nos haveria de calhar e o certo é que, sim, acabámos por perceber o recorte bem bonito da costa.



O final deste trilho é num ponto com vista para a Marine City e Haeundae, à distância de uma longa ponte (uma de muitas de Busan), onde tínhamos tido oportunidade de ser recebidas pelo primeiro nevoeiro da viagem. A verdade é que, afinal, este frustrante fenómeno climático acabou por nos proporcionar uma paisagem diferente, igualmente cheia de ambiente, mas um daqueles bem cénicos e até dramáticos que, de outra forma, nem julgaríamos possível.