Auschwitz


Oswiecim, cidade polaca conhecida mundialmente por Auschwitz, fica a cerca de 1 hora e vinte minutos de autocarro desde Cracóvia.

Quando marquei a viagem para Cracóvia em Setembro passado pensei não visitar de todo Auschwitz. Depois decidi que visitaria o lugar onde foram mortos mais de um milhão de judeus, mas não levaria máquina fotográfica. Acabei por ir a Auschwitz acompanhada da minha máquina fotográfica e tirei algumas fotos. Mais, jurei que nada escreveria sobre o assunto e eis-me aqui a fechar o ano de 2016 com estas memórias.

Não costumo temer nem o desconforto, nem o desafio de me confrontar com o desagradável. 
Não era bem o receio de estar face a face com o horror que percorria o meu pensamento. Simplesmente, comecei por entender que não necessitava desta experiência para aumentar os meus conhecimentos acerca do Holocausto.

A experiência de percorrer os blocos e as ruas cercadas de arame farpado dos campos de concentração foi dura, como esperado, mas também surpreendente pela localização do espaço (no meio da floresta) e sua arquitectura (serena).

Hoje, depois de visitar a Auschwitz e a Birkenau do século XXI, posso afirmar que estou ainda mais descrente na espécie humana. Já sabendo o fim da história, os visitantes atropelam-se no meio do relativo silêncio por ver o pedaço de cabelo, por chegar àquela foto, por apanhar o último assento no autocarro. Mas não há muitos que se detenham em observar as fotografias das pessoas reais em exposição – cujo olhar intenso nos confronta e derruba – que certamente não terão sobrevivido ao campo.

À pergunta se deveremos deixar de visitar Auschwitz, responderei que não: devemos visitá-lo e cada um vivenciar a sua experiência pessoal.

Lembrando o belo dia de sol que fazia quando visitei Auschwitz, que só fez foi confundir ainda mais os sentimentos, opto por recordar as palavras escritas por Primo Levi na sua obra essencial Se Isto É Um Homem:

“Hoje pela primeira vez o sol nasceu vivo e nítido por cima do horizonte lamacento. É um sol polaco, frio, branco e longínquo, e não consegue aquecer para além da epiderme; mas, quando se libertou das últimas neblinas, um murmúrio percorreu a massa decorada que somos, e quando eu também senti a tepidez através da roupa, compreendi como se pode adorar o sol.”

Nowa Huta


Nowa Huta é um subúrbio de Cracóvia a cerca de 6 km do seu centro, percorridos de forma agradável de eléctrico. Esses 6 km, todavia, são curtos demais para a revelação de todo um novo mundo que se nos apresenta depois da elegância e conforto que a cidade velha de Cracóvia nos oferece. Não que Nowa Huta seja um horrível subúrbio, lado negro da bela Cracóvia. Nada disso, e por aqui até existem espaços verdes e um lago. O que acontece é que é todo um plano à parte.

Trata-se disso mesmo, de um plano. 

A cidade planeada pelos comunistas que tomaram a Polónia após a II Guerra Mundial pretendia vir a ser uma área residencial às portas de Cracóvia, um paraíso para acomodar os trabalhadores das indústrias siderúrgicas vizinhas – numa antiga área agrícola onde os comunistas resolveram instalar a indústria pesada. Hoje a indústria foi-se, mas a área residencial cresceu rapidamente e chegou aos 200 mil habitantes, tornando-se o bairro mais populoso de Cracóvia. Os comunistas também já se foram, o movimento Solidariedade teve forte influência por aqui nos anos 80 e hoje sobra-nos a arquitectura do bairro.


E essa arquitectura é uma arquitectura soviética materializada em grandes e largas avenidas e edifícios grandiosos e austeros que aqui estão para não deixar dúvidas a ninguém: o rigor era e segue sendo rei. 


Saídos da Plac Centralny a expectativa de percorrer o bairro todo a pé é logo gorada. As distâncias enganam e ao contrário da cidade antiga de Cracóvia não fica tudo perto nem se encontra uma delícia a cada esquina.




Ainda assim, uma caminhada permite-nos conferir as linhas rectas e simétricas dos grandes blocos residenciais e demais edifícios, inspirados num estilo renascentista e classicista, bem como alguns pormenores surpreendentes. Entradas em arcos, detalhes nas fachadas que se poderiam confundir com palácios e, depois, portas que mais parecem dar entrada a um armazém e, sobretudo, constatar que as décadas de 40/50 do século passado não pareciam prever o uso do carro. Simplesmente não há lugares de estacionamento e os automóveis tomam os passeios. 




O planeamento desta nova cidade previu, ao invés, a construção – e utilização – de equipamentos como teatro, cinema, escola e museu. O Teatro Ludowy é mesmo uma bela peça. 



A primeira igreja no bairro foi construída apenas em 1977, após muita relutância dos comunistas. Inspirada na Arca de Noé, Arka Pana tem uma arquitectura diferente; diferente das igrejas católicas a que estamos acostumados, sim, mas também diferente da rigidez e dos monólitos comunistas. A época era já outra, distante das prendas do amigo Estaline e os esforços do então bispo Karol Wojtyła levaram a bom porto a criação da nova paróquia. Em 1992 a igreja foi renomeada Igreja da Virgem Maria, em homenagem a Nossa Senhora de Fátima. O seu interior possuiu uns bonitos vitrais e uma figura de Cristo na cruz curvada bem interessante e original.


(esclarecer que para sermos mais precisas, no limite daquilo que será ainda considerado o perímetro de Nowa Huta, existem duas outras igrejas frente à frente, uma delas datada do século XV, cisterciense, surpreendentemente conservada na sua arquitectura em madeira)

Kazimierz e Podgórze

O bairro de Kazimierz, fundado em 1335 por Kazimierz III, apesar de colado a ela, já foi uma cidade independente de Cracóvia. Havia mesmo muros a separá-los, os quais foram deitados abaixo no século XIX.

Há muitos séculos que os judeus e os cristãos ali convivem lado a lado, cada um com os seus símbolos e cerimónias, embora cada um no seu canto. Caminhando pelo bairro, tanto se veem igrejas como sinagogas.

À época da II Guerra Mundial, o bairro de Kazimierz era habitado maioritariamente por judeus, tendo estes sido então forçados a abandonar o seu lugar para lá do rio, para o bairro vizinho de Podgórze e, pior, para os campos de concentração de Plaszów, também aí perto. Com o fim da Guerra e a ascensão dos comunistas ao poder ambos os bairros ficaram esquecidos. Foi Steven Spielberg que nos anos 90 aqui veio filmar o seu A Lista de Schindler e voltou a colocar estes lugares no mapa. Hoje, tanto Kazimierz como Podgórze estão perfeitamente integrados nos roteiros da maioria dos que visitam Cracóvia.


Kazimierz possui um bem definido quarteirão judaico, com sinagogas, cemitérios e museus judaicos e muitos restaurantes de comida judaica, principalmente na Rua Szeroka, que mais parece uma praça. Aqui fica a Sinagoga Velha, arruinada e saqueada durante a ocupação nazi na II Guerra Mundial, hoje transformada em museu da história e cultura dos judeus na cidade. Esta presença data já do século XV, a mais antiga na Polónia. Nesta sinagoga / museu são-nos mostrados objectos, peças e artefactos pertencentes aos rituais judaicos, mas também documentos, fotografias e pinturas (aqui perto fica o moderno Museu Galicia que, infelizmente, não tive oportunidade de visitar).

Em 1938 eram 64500 os judeus em Cracóvia; em 1945 restavam apenas 500 judeus na cidade; no fim de 1946, com o final da Guerra, esse número subira já para 6600.
Cheguei a Kazimierz vinda da Rynek onde na Basílica de Santa Maria ouvira uma guia espanhola garantir para o seu grupo que na cidade não há mesquitas nem muçulmanos. Minutos depois entrara no Hamsa para almoçar e lia o seu grito de guerra: “make humus, not war”. Reparem: façam humus, a comida comum aos judeus e aos muçulmanos. Será que para a espanhola ainda haverá por aqui judeus?
 


A Plac Nowy – Praça Nova -, na transição entre o quarteirão judaico e o quarteirão cristão, mostra que não só o ambiente supostamente comedido das religiões tem lugar neste bairro. É uma praça bem animada e cheia de restaurantes. Ideal para experimentar uns pierogi, espécie de raviolis pelos quais os polacos são fanáticos. Se quisermos evitar restaurantes é só caminhar um pouco pelas ruas e estarmos atentos a um lote de terreno que de desocupado passou a estar ocupado por bancas e carrinhas de street food. 

Esta zona residencial e de restauração tem alguns edifícios que outrora foram fábricas e que hoje estão abandonados, pelo que a movida que tem vindo a animar o bairro deve nos próximos anos transformá-lo ainda mais.


Atravessando a ponte vamos desembocar no bairro de Podgórze, onde desde logo sobressai junto ao rio a Cricoteka. Este edifício de artes performativas de arquitectura original é dedicado a Tadeusz Kantor, artista vanguardista do século passado que deixou a sua marca no teatro polaco. Anteriormente uma estação eléctrica este é um bom exemplo das muitas transformações pelas quais tem passado o bairro de Podgórze, antigo lugar de fábricas e indústrias.


Outro belo exemplo é a adaptação de uma dessas fábricas a Museu de Arte Contemporânea de Cracóvia (MOCAK). Edifício de arquitectura moderna, com todas as valências que se espera de um museu dedicado a esta arte, fica surpreendentemente nas traseiras da Fábrica de Schindler.


O lugar tornado famoso por Steven Spielberg foi transformado em museu em 2010 (um ano antes da abertura do vizinho MOCAK). 


Não se pense que uma visita a este espaço possa ser ignorada, nem se pense que qualquer horita chega para o percorrer. A exposição aqui patente é dedicada à Cracóvia sob ocupação nazi entre 1939 e 1945. É uma verdadeira viagem no tempo pela história da cidade. Neste que era o edifício administrativo da Fábrica de Oskar Schindler, o alemão que ajudou a salvar centenas de judeus do envio para os campos de concentração ao dar-lhes trabalho na sua empresa germânica designada Enamelled Vessels, passa a história das gentes da cidade, trabalhadoras ou não, judias ou não. 


Schindler chegou a empregar cerca de 1000 indivíduos, grande parte deles judeus que viviam no gueto não muito longe daqui. Uma das salas onde mostramos mais reverência neste museu é precisamente aquela que hoje está transformada em escritório de Oskar Schindler, onde não falta a sua mesa de trabalho com fotografias pessoais. Mas toda a exposição, muito bem organizada, é um discorrer de emoções. É toda uma experiência poder percorrer a Cracóvia de há 70 / 80 anos através dos jogos de luzes e sons. Andamos por ruas de pedra recriadas para o efeito, vemos o eléctrico a passar, um apartamento decorado como o seria na época, um café, uma loja de fotógrafo, até um cabeleireiro. Assistimos a um vídeo onde os antigos habitantes contam as suas histórias e lemos testemunhos escritos como o de Roman Polanski, criança à época que sobreviveu. Somos testemunhas atrasadas da saída para trabalhar dos muitos judeus que então habitavam Cracóvia, perdendo-nos na observação das suas fotografias e sofrendo porque sabemos hoje como foi o princípio, meio e fim da História. 

Nesta exposição parece caber toda essa história, desde o começo da guerra, à instalação do governo-geral alemão na cidade, ao terror nazi, episódios da vida do dia a dia, recriação do gueto judeu, do campo de concentração, mostra da propaganda nazi até à entrada do exército vermelho.
 
Certamente um dos momentos mais interessantes e esclarecedores, porque Cracóvia não é nem pode ser apenas a beleza e candura da sua Rynek.

Wawel

Se a Basílica de Santa Maria, na Rynek, é o postal mais famoso de toda a Polónia, o Castelo de Wawel é o maior símbolo da nação polaca.



Instalado no alto de um pequeno cerro banhado pelo rio Vistula, testemunha de um milénio da história polaca e pouso de reis e centro de poder por 500 anos, este é um lugar mítico e especial.
Os primeiros reis polacos escolheram Wawel no século X e logo no século seguinte também o bispado de Cracóvia fez desta a sua casa. Em 1596 um grande incêndio foi o pretexto para a mudança da corte para Varsóvia, mas embora tenha havido uma real perda de importância Wawel e Cracóvia nunca foram esquecidos. Posteriormente chegou a ser hospital do exército austríaco, cidadela, residência do presidente quando a Polónia recuperou a sua independência e o lugar escolhido pelo governador geral alemão Hans Frank durante a II Guerra Mundial. 



Desde então Wawel tem sido objecto de diversas obras de reconstrução e restauro – que continuam – e as obras primas que foram escondidas dos nazis têm vindo paulatinamente a voltar ao seu espaço.
Hoje o complexo de edifícios que chegou até nós inclui uma estrutura muralhada, uma catedral e um palácio. A que se tem obrigatoriamente de juntar uma vista para toda a Cracóvia e um ambiente encantado.



Subindo o cerro para entrar em Wawel vamos tendo a Catedral ao nosso lado para lá do muro ocre e, apesar de suspeitarmos da sua beleza, só quando nos vimos no pátio interior de Wawel é que temos certeza de todo o esplendor da sua Catedral. Igualmente em tom ocre e topo verde característicos da cidade, é porém o dourado de uma das suas pequenas cúpulas que deslumbra. Ou, mais acertadamente, o dourado absorve a nossa atenção, mas é o conjunto de todos os elementos e pormenores, todos eles diferentes, que faz deste edifício um espanto.




O interior da Catedral é rico. Palco de diversas coroações e celebrações, vamos passando por inúmeras capelas em vários estilos, todas elas deslumbrantes. Um ponto alto do interior da Catedral é a visita aos túmulos reais, de um luxo sem medidas.


Podemos e devemos ainda subir à Torre da Catedral e para além de ficarmos a conhecer o sino Sigismund, o maior da Polónia, com 11 toneladas, ganhamos uma nova vista. O rio ficou para trás e diante de nós temos agora a cidade velha de Cracóvia e um imenso pulmão verde. 



A par da Catedral há que visitar o Castelo, ou melhor, o Palácio de Wawel. 
Após diversas intervenções, o que vemos hoje data do século XVI e aqui se combinam vários estilos arquitectónicos, como o gótico, o barroco e o renascentista. Este último é o mais evidente e salta à vista desarmada nas marcantes galerias do paço e suas arcadas.


Entre o muito à nossa escolha, e porque o tempo torna difícil abarcar tudo e a entrada em cada espaço é paga de forma autónoma, optámos por conhecer as Salas de Estado e os Apartamentos Reais Privados. A visita aos Apartamentos é guiada, pelo que assim se apreende mais e melhor. No entanto, apreciei mais a visita às Salas. Em ambas podemos ver o luxo real materializado em mobiliário, louça, tapeçaria e pintura (de momento a obra “Dama com Arminho”, de Leonardo da Vinci, está em exposição no Wawel). Salões grandes, tectos trabalhados, chão com mosaicos com figuras geométricas, paredes revestidas a couro e uma janela aqui e outra janela ali escancarada para a cidade velha de Cracóvia que se deixa, assim, ser espreitada pelo Wawel numa relação directa e íntima. 

Rynek Główny


A Praça do Mercado de Cracóvia, a Rynek Główny, é a principal praça da cidade e a maior praça medieval da Europa. 

Entra-se nela por uma das diversas ruas que lá vão desembocar e não se acredita. São 200 metros por 200 metros de pura elegância e deleite. Considerada património da humanidade pela Unesco, esta praça mantém a integridade e o carácter de tempos antigos, mesmo se foi objecto de várias alterações, tendo sobrevivido até à ocupação nazi que fez com que a praça mudasse temporariamente de nome para Praça Adolf Hitler. A esconjura não venceu e depois de tempos tenebrosos hoje a Rynek recuperou e é invadida por uma outra gente bem mais benigna. Os magotes de turistas. 

As charretes puxadas pelos cavalos aguardam à beira da Basílica de Santa Maria, mas agrada-me mais aproveitar a ideia e imaginar-me transportada para uma outra época. A medieval, por exemplo. E nem custa muito imaginar tal cenário, uma vez que temos à nossa disposição o Rynek Underground. Aqui há uns anos umas obras na placa central da praça deixaram a descoberto as fundações antigas do lugar – o testemunho de uma autêntica cidade até então desconhecida. A decisão foi criar este museu original e fantástico, o Market Undergrounds Podziemia Rynku, instalado 4 metros abaixo da praça. Aqui se assiste à recriação da cidade medieval num percurso multimedia que é uma autêntica viagem no tempo. Vêem-se objectos que os nossos antepassados usavam no seu dia a dia e ouvem-se as suas vozes. Não é difícil deixarmo-nos ir e vaguearmos por ali como espectadores privilegiados de uma história que não vivemos.


O que era então Cracóvia para o mundo na época medieval?
A cidade datará do século VII, mas foi entre os séculos XI e XVI, quando foi capital da Polónia, que alcançou o seu apogeu. De tal forma estava no caminho das rotas que interessavam na época que no século XIII foi assolada pelos raids dos mongóis. A partir da criação da Universidade em 1364 foi crescendo e expandindo-se ainda mais, era parte da Liga Hanseatica e ponto central nas rotas de comércio da Europa. 

A designação “Praça do Mercado”, isto é, Rynek, vem do facto histórico de este ser o local onde se vendiam os bens – peixe, galinhas, carvão, mas também metais preciosos como ouro e jóias. Os edifícios ao redor da praça eram então propriedade dos mercadores mais ricos e símbolo do seu estatuto e riqueza. Nos dias de hoje não são essas casas que deslumbram, praticamente todas elas ocupadas por restaurantes nos pisos térreos e sem a graça das casinhas da Rynek de Wroclaw.




O que nos faz render a tamanha beleza e carácter é o ambiente que aqui se vive e três edifícios em particular: a deslumbrante formosura da Torre da antiga câmara municipal, o Salão dos Tecidos (reconstruído várias vezes ao longo dos tempos, mas absolutamente íntegro nos seus elementos góticos e renascentistas de cujas arcadas nos recordaremos sempre) e a Basílica de Santa Maria.
De cor de tijolo, este é talvez o postal mais famoso de toda a Polónia. Surpreendentemente, as duas torres da Basílica não são iguais, uma possui 81 metros de altura e a outra “apenas” 69 metros, e ainda assim a simetria e equilíbrio não são quebrados.


Esta igreja começou a ser construída no século XIII no lugar de vestígios de uma antiga igreja romanesca que acabou destruída pelos Tártaros. Reconstruída no século seguinte, obteve desde aí o seu carácter gótico. O que a nossa vista e todos os demais sentidos têm o prazer de receber hoje é consequência do restauro do final do século XIX. E digo demais sentidos porque não só a vista é requerida aqui para uma experiência total. Também a audição é essencial para se entender um pouco mais desta praça e da cidade que a acolhe. Cumprindo uma tradição que remonta ao século XIV e recuperada em 1996, depois de interrompida pela ocupação alemã na II Guerra Mundial, a toda a hora certa há que especarmo-nos em qualquer ponto da praça, de preferência bem perto da Basílica, para escutar o Hejnal, a canção que nos é dada pelo clarim que sai do topo da sua torre mais alta. Tradicionalmente o Hejnal era tocado como aviso quando o perigo se sentia pelo avistar da aproximação dos inimigos, surgindo como indicação para o fecho das portas da cidade. Hoje os turistas não são inimigos, não há mais perigo e ninguém precisa de ser afugentado. Pelo contrário, deliciamo-nos com esta melodia harmoniosa e só queremos permanecer pela praça a ouvi-la e senti-la, o que não é difícil uma vez que a cerimónia vai-se repetindo durante o dia, com o rapaz do clarim a aparecer em cada uma das janelas da torre mais alta da Basílica para acenar à multidão agradecida cá embaixo.




O interior da Basílica é outro lugar para se viver uma experiência incomum. Para além de ser belíssima, com paredes e tectos que parecem aveludados com uma cor azul penetrante, guarda uma obra-prima. É o Retábulo de Santa Maria no Altar-Mor monumental gótico esculpido por Veit Stoss, criado entre 1477-1489. Há duas formas de o ver, fechado ou aberto, e de uma para a outra há todo um cerimonial a ser cumprido. Às 11:50 em ponto uma freira dirige-se ao altar e, com uma série de curiosos na sua frente, procede à abertura das duas laterais do Retábulo. Então aí, das doze cenas representando as dores de Maria passa-se a uma revelação: é mesmo uma maravilha o que temos diante nós. Em talha dourada, este é o maior retábulo gótico da Europa, medindo 11 metros por 13, um exemplo grandioso e exuberante de arte medieval. Aberto o Retábulo, os painéis apresentam cenas da vida de Jesus Cristo e da Virgem Maria, com imagens do seu Adormecimento, Assunção e Coroação. Tudo elaborado com uma precisão e detalhes tais que é fácil perdermo-nos nos pormenores e na riqueza materializada nos dourados que inundam a Basílica.



E, para algo mais terreno, indispensável ainda uma subida à Torre de Santa Maria, a tal onde um rapaz toca o clarim de hora a hora. Como não podia deixar de ser, a vista do alto da sala do clarim é absolutamente de tirar o fôlego e aqui obtemos uma percepção imbatível dos exactos contornos da Rynek, bem como da malha urbana de Cracóvia.

Com tudo isto dito, é fácil passar um dia inteiro apenas na Rynek de Cracóvia e não sentir vontade de lá sair.

Cracóvia


Cracóvia não é a maior cidade da Polónia, não é a sua capital, mas provavelmente é a mais amada e carismática.

Sim, carismática.

Para medir o quanto esta cidade é especial escrevo apenas que ainda a percorria num dos três dias que por lá passei e já pensava voltar. No mês seguinte. Não foi. Será seguramente algum dia destes.
A antiga capital real polaca desde 1038 até 1596, quando a corte se mudou para Varsóvia sem deixar de visitar constantemente Cracóvia como lugar de celebrações várias, é personagem de muitas lendas e o passado está presente em cada canto. 

O Castelo de Wawel e a Rynek – Praça do Mercado – são dois símbolos históricos não apenas da cidade mas de todo o país. É inevitável amá-los. Lugares surpreendentes e deliciosos, só por eles vale a pena apanhar um avião e deixarmo-nos cair bem no meio da Europa.

Mas muito mais há a descobrir em Cracóvia. Há que fazê-lo sem sofreguidão, chegar com calma à sua estação de comboios e saber esperar para entrar na cidade velha. Percorrer primeiro o Planty, por exemplo. 


O Planty é o jardim que circunda o centro de Cracóvia – a cidade velha – como se de um cinto se tratasse, mas um cinto onde apetece sentar num dos seus bancos por baixo da sombra de uma árvore ou, quem sabe, estender uma toalha e receber o sol que nos calhou em sorte. 


A cidade era toda muralhada até que no princípio do século XIX um enorme projecto urbanístico foi levado a cabo e a estrutura defensiva – muralhas e fosso – foi substituída por este cordão verde. 
Dessa estrutura sobrevivem até hoje alguns elementos como o elegante Barbican, do século XV, e a Porta Florianska, uma das entradas que a cidade de outrora conhecia. Esta Porta, datada do século XIII mas com remodelações posteriores, era a entrada principal da cidade e segue como passagem obrigatória. Daqui, e pela rua de mesmo nome, vamos ter direitinhos à Rinek, sendo este percurso conhecido como Via Real desde esse mesmo século XIII.


No entanto, podemos e devemos desviar desse trajecto directo e percorrer as laterais da cidade velha. Assim depararemos com mais uma dose de elegância materializada no Teatro Slowacki, de 1893, por exemplo. 


Cracóvia possui um ambiente distinto, num misto de conhecimento e religião que se sente pulsar por cada rua. São muitas as igrejas na cidade e, curiosamente, vê-se sempre crentes a rezar em cada uma delas. Ela é a igreja de São Francisco (franciscana) a da Sagrada Trindade (dominicana), a de São Pedro e Paulo (jesuíta) e, claro, a igreja da universidade (Santa Ana), a par de muitas outras. 


A Universidade de Cracóvia, conhecida como Universidade Jagieollian, foi fundada em 1364 e é a mais antiga da Polónia e uma das mais antigas do mundo. É composta por diversos edifícios junto a um dos lados do Planty que merecem ser visitados, desde o insinuante Collegium Novum, edifício neo-gótico do século XIX que testemunhou a prisão de quase duas centenas de professores e posterior deportação para campos de concentração durante a ocupação alemã na II Guerra Mundial, até ao discreto pátio / jardim com esculturas dos bustos de várias figuras destacadas que passaram pela Universidade, como o Papa João Paulo II.





O ponto alto da Universidade é, porém, o Collegium Maius. Fiquei-me apenas pelo seu pátio e chegou para deslumbrar totalmente. Às suas belas arcadas com portais góticos, bem como ao seu discreto relógio que encima um portal cheio de dourados que contrasta com as paredes preenchidas de blocos pequenos da cor de tijolo há que acrescentar o pormenor dos elementos que fazem a função de escoamento das águas nas caleiras, como o dragão, por exemplo. 






Pormenores e mais pormenores é do que se trata não só o Collegium Maius mas toda a cidade velha de Cracóvia. Dai que, não se perde em reforçá-lo, caminhar pelas suas ruas seja tanto uma necessidade como um passatempo. Ambos redundam na descoberta que é constatar como somos felizes em Cracóvia.

Wroclaw em Esculturas

A Polónia parece ser um país que preza a expressão de homenagens aos seus heróis e outros dignos de nota através de esculturas monumentais e artísticas. 



Em Wroclaw, para além dos edifícios, praças, ilhas e beleza natural do seu enquadramento geográfico, há que não perder a obra Passage, de Jerzy Kalina, instalada no cruzamento das ruas Piłsudski e Świdnicka. Esta obra já foi considerada uma das esculturas mais criativas do mundo, um dos lugares mais bonitos da Polónia e até um dos lugares mais únicos do mundo. São catorze figuras em bronze no total, sete que descem de um lado da rua e sete que vão emergindo do outro lado da rua. Uma mulher idosa lidera o grupo e os pormenores da sua bolsa – uma garrafa, por exemplo – são incríveis. Vê-se gente comum, trabalhadores certamente, um homem com um pneu ao braço, uma jovem a empurrar um carrinho de bebé.



Também conhecido como Monumento ao Pedestre Anónimo, esta escultura foi criada em 1977 e esteve temporariamente em Varsóvia. Em 2005 foi instalada em Wroclaw e há quem veja nesta obra um memorial dedicado às pessoas que desapareceram por ocasião da introdução da Lei Marcial em 1981, apesar do seu autor a ter criado antes dessa data, havendo mesmo assim quem defenda que já antecipava a situação dos desaparecidos.





Caminhando pelas ruas de Wroclaw vale a pena mantermo-nos ainda atentos aos pequenos duendes espalhados um pouco por todo o lado. Se for um lugar histórico, então, é quase certo que encontraremos uma destas figuras que procuram representar situações do dia a dia. Estes krasnales começaram a surgir a partir de 2005 por intermédio de um artista plástico apoiante do Movimento Alternativa Laranja, cujos líderes há décadas apareceram com um barrete laranja por oposição ao vermelho dos comunistas então no poder. Estes simpáticos duendes parecem ter ganhado vida e dão uma alegria diferente à cidade. Mais alguns exemplos: