Kazimierz e Podgórze

O bairro de Kazimierz, fundado em 1335 por Kazimierz III, apesar de colado a ela, já foi uma cidade independente de Cracóvia. Havia mesmo muros a separá-los, os quais foram deitados abaixo no século XIX.

Há muitos séculos que os judeus e os cristãos ali convivem lado a lado, cada um com os seus símbolos e cerimónias, embora cada um no seu canto. Caminhando pelo bairro, tanto se veem igrejas como sinagogas.

À época da II Guerra Mundial, o bairro de Kazimierz era habitado maioritariamente por judeus, tendo estes sido então forçados a abandonar o seu lugar para lá do rio, para o bairro vizinho de Podgórze e, pior, para os campos de concentração de Plaszów, também aí perto. Com o fim da Guerra e a ascensão dos comunistas ao poder ambos os bairros ficaram esquecidos. Foi Steven Spielberg que nos anos 90 aqui veio filmar o seu A Lista de Schindler e voltou a colocar estes lugares no mapa. Hoje, tanto Kazimierz como Podgórze estão perfeitamente integrados nos roteiros da maioria dos que visitam Cracóvia.


Kazimierz possui um bem definido quarteirão judaico, com sinagogas, cemitérios e museus judaicos e muitos restaurantes de comida judaica, principalmente na Rua Szeroka, que mais parece uma praça. Aqui fica a Sinagoga Velha, arruinada e saqueada durante a ocupação nazi na II Guerra Mundial, hoje transformada em museu da história e cultura dos judeus na cidade. Esta presença data já do século XV, a mais antiga na Polónia. Nesta sinagoga / museu são-nos mostrados objectos, peças e artefactos pertencentes aos rituais judaicos, mas também documentos, fotografias e pinturas (aqui perto fica o moderno Museu Galicia que, infelizmente, não tive oportunidade de visitar).

Em 1938 eram 64500 os judeus em Cracóvia; em 1945 restavam apenas 500 judeus na cidade; no fim de 1946, com o final da Guerra, esse número subira já para 6600.
Cheguei a Kazimierz vinda da Rynek onde na Basílica de Santa Maria ouvira uma guia espanhola garantir para o seu grupo que na cidade não há mesquitas nem muçulmanos. Minutos depois entrara no Hamsa para almoçar e lia o seu grito de guerra: “make humus, not war”. Reparem: façam humus, a comida comum aos judeus e aos muçulmanos. Será que para a espanhola ainda haverá por aqui judeus?
 


A Plac Nowy – Praça Nova -, na transição entre o quarteirão judaico e o quarteirão cristão, mostra que não só o ambiente supostamente comedido das religiões tem lugar neste bairro. É uma praça bem animada e cheia de restaurantes. Ideal para experimentar uns pierogi, espécie de raviolis pelos quais os polacos são fanáticos. Se quisermos evitar restaurantes é só caminhar um pouco pelas ruas e estarmos atentos a um lote de terreno que de desocupado passou a estar ocupado por bancas e carrinhas de street food. 

Esta zona residencial e de restauração tem alguns edifícios que outrora foram fábricas e que hoje estão abandonados, pelo que a movida que tem vindo a animar o bairro deve nos próximos anos transformá-lo ainda mais.


Atravessando a ponte vamos desembocar no bairro de Podgórze, onde desde logo sobressai junto ao rio a Cricoteka. Este edifício de artes performativas de arquitectura original é dedicado a Tadeusz Kantor, artista vanguardista do século passado que deixou a sua marca no teatro polaco. Anteriormente uma estação eléctrica este é um bom exemplo das muitas transformações pelas quais tem passado o bairro de Podgórze, antigo lugar de fábricas e indústrias.


Outro belo exemplo é a adaptação de uma dessas fábricas a Museu de Arte Contemporânea de Cracóvia (MOCAK). Edifício de arquitectura moderna, com todas as valências que se espera de um museu dedicado a esta arte, fica surpreendentemente nas traseiras da Fábrica de Schindler.


O lugar tornado famoso por Steven Spielberg foi transformado em museu em 2010 (um ano antes da abertura do vizinho MOCAK). 


Não se pense que uma visita a este espaço possa ser ignorada, nem se pense que qualquer horita chega para o percorrer. A exposição aqui patente é dedicada à Cracóvia sob ocupação nazi entre 1939 e 1945. É uma verdadeira viagem no tempo pela história da cidade. Neste que era o edifício administrativo da Fábrica de Oskar Schindler, o alemão que ajudou a salvar centenas de judeus do envio para os campos de concentração ao dar-lhes trabalho na sua empresa germânica designada Enamelled Vessels, passa a história das gentes da cidade, trabalhadoras ou não, judias ou não. 


Schindler chegou a empregar cerca de 1000 indivíduos, grande parte deles judeus que viviam no gueto não muito longe daqui. Uma das salas onde mostramos mais reverência neste museu é precisamente aquela que hoje está transformada em escritório de Oskar Schindler, onde não falta a sua mesa de trabalho com fotografias pessoais. Mas toda a exposição, muito bem organizada, é um discorrer de emoções. É toda uma experiência poder percorrer a Cracóvia de há 70 / 80 anos através dos jogos de luzes e sons. Andamos por ruas de pedra recriadas para o efeito, vemos o eléctrico a passar, um apartamento decorado como o seria na época, um café, uma loja de fotógrafo, até um cabeleireiro. Assistimos a um vídeo onde os antigos habitantes contam as suas histórias e lemos testemunhos escritos como o de Roman Polanski, criança à época que sobreviveu. Somos testemunhas atrasadas da saída para trabalhar dos muitos judeus que então habitavam Cracóvia, perdendo-nos na observação das suas fotografias e sofrendo porque sabemos hoje como foi o princípio, meio e fim da História. 

Nesta exposição parece caber toda essa história, desde o começo da guerra, à instalação do governo-geral alemão na cidade, ao terror nazi, episódios da vida do dia a dia, recriação do gueto judeu, do campo de concentração, mostra da propaganda nazi até à entrada do exército vermelho.
 
Certamente um dos momentos mais interessantes e esclarecedores, porque Cracóvia não é nem pode ser apenas a beleza e candura da sua Rynek.

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