Medianeras de Buenos Aires

Pelo que entendi, Medianeras são empenas. De prédios. E prédios não faltam em Buenos Aires.
Cidade enorme, cheia de gente, mas onde se pode viver de forma solitária. O filme Medianeras, de 2011, de Gustavo Taretto, não é sobre Buenos Aires, mas apresenta-nos a cidade como uma metrópole, lugar de desencontros e solidão, onde podemos viver no mesmo quarteirão que alguém que sofre e sente precisamente o mesmo que nós, sem que nos cruzemos. Ou melhor, até nos cruzamos umas quantas vezes, mas não damos por isso. Até que, finalmente, achamos o Wally, ou, como cantava o Cerati na sua Zona de Promesas, “al final jay recompensa”.
Filme a não perder, sobre as emoções humanas de dois protagonistas comuns, um rapaz e uma rapariga, com o bónus de nos dar um cheirinho de Buenos Aires.

A Voz

Si se calla el cantor calla la vida
porque la vida, la vida misma es todo un canto
si se calla el cantor, muere de espanto
la esperanza, la luz y la alegría.

Si se calla el cantor se quedan solos
los humildes gorriones de los diarios,
los obreros del puerto se persignan
quién habrá de luchar por su salario.

composto por Horacio Guarany, cantado por Mercedes Sosa

Infelizmente esta semana não trouxe só boas notícias para a América Latina.
A sua maior voz calou-se para sempre hoje em Buenos Aires.
À parte a possibilidade de ouvir a qualquer momento as gravações deixadas por Mercedes, cantando o que os mais inspirados compositores do mundo escreveram, ficará para sempre a recordação da felicidade de ter ouvido a sua voz poderosa a sair do seu corpo pequeno na Aula Magna, no ano 2000.
Gracias a la vida (e a Violeta Parra).

 

Que 10 años no es nada

Faz agora 10 anos – 1 década (!) – que pisei pela primeira vez a Argentina.
Por essa altura tinha inequivocamente um destino favorito, o Brasil, e uma cidade que julgava insubstituível, o Rio de Janeiro. Hoje o Brasil foi sem dúvida substituído pela vizinha Argentina. O Rio de Janeiro, esse, continua rei e senhor do meu destino, a tal ponto que, mesmo não conhecendo a maior parte do mundo, ficarei sempre na dúvida se me propuserem uma visita a uma cidade / país desconhecido ou ao Rio. Essa dúvida aumentará ainda mais se for obrigada a escolher entre o Rio e Buenos Aires.
Há 10 anos, então, aproveitando que a minha cidade – Lisboa – iria ficar semi parada pela visita de Bill Clinton e que os feriados de 1 e 8 de Dezembro calhavam num domingo – o único dia de trabalho, na altura, fora da vida de estudante – decidi comunicar aos meus pais que eu e a minha irmã iríamos viajar até à Argentina. Seria a primeira viagem que faríamos sozinhas, sem os pais ou sem alguém no destino que olhasse por nós.
Porquê a Argentina? Não faço ideia, mas a esta distância penso que Gabriel Batistuta e Gabriela Sabatini tiveram alguma influência sobre a decisão. Afinal de contas, o desporto sempre havia estado presente na minha vida e, assim, não seria estranho que, por exemplo, Borges, Gardel ou Che nada tivessem a ver com o assunto.
A viagem até nem começou nada bem. À chegada a São Paulo, e enquanto esperávamos o avião que nos levaria para Buenos Aires, descobrimos que a nossa bagagem havia ficado em Lisboa e que, com boa vontade, estaria em nosso poder cerca de 2/3 dias depois, uma vez que ficaríamos apenas 1 dia em Buenos Aires (depois regressaríamos) e iríamos imediatamente para Puerto Iguazu. Assim foi. De propósito, para irmos buscar os nossos pertences, tivemos que atravessar a fronteira Argentina / Brasil até ao aeroporto de Foz de Iguaçu, a melhor garantia para termos as malas mais rapidamente.
Antes disso, porém, escolhemos pernoitar em Buenos Aires num hotel de nome “Lisboa”. Está visto o porquê da escolha, não? O hotel era na verdade de 2 estrelas, apesar de vir descrito nos panfletos como sendo de 3 estrelas. Pedimos um quarto para 2 pessoas mas quanto o abrimos descobrimos que daria para 3 pessoas. Estranho. Quando saímos para a rua chegámos à conclusão que para a recepcionista não deveria ser nada estranho, afinal a rua do hotel tinha um cinema tipo “Olímpia” ou “Cine-Bolso” mesmo em frente e talvez a senhorita tenha pensado que as duas chicas solitas iriam em busca ou esperariam por companhia.
O dia da chegada a Buenos Aires foi a um domingo. No caminho do aeroporto para o centro o que mais impressionou – pela positiva – foram os magotes de pessoas que se encontravam à beira da auto-estrada a fazer piqueniques, aproveitando o verde da relva e os raios de sol. Depois, já no centro, nas ruas nas traseiras da Av. 9 de Julho (famosa pelos recordes de mais larga do mundo e por acolher o obelisco) o que mais impressionou – pela negativa – foi a quantidade enorme de lixo armazenado em sacos às portas dos edifícios.
A ausência de malas, a escolha do hotel e as ruas sujas e semi desertas de domingo tinham tudo para produzir um impacto não muito simpático e acolhedor da cidade mas… aquelas primeiras impressões esfumaram-se num ápice.
Para a memória da estadia em Buenos Aires fica a inclemente chuvada que caiu apanhando-nos desprevenidas na rua. Mas fica também a simpática oferta de uma boleia no chapéu-de-chuva que um guapo argentino nos ofereceu enquanto se encontrava parado, tal como nós, à espera de atravessar a rua. Fica ainda a recepção mais do que amigável, diria até paternal, que o poeta argentino Alberto Mosquera Montaña e sua senhora nos conferiram na nossa ida ao Café Tortoni, um dos mais mítico da cidade.
Fica também a ida ao Café La Biella, mais descontraído e moderno, e o estranho que foi ver as pessoas ali acomodadas a ler o jornal ou a conversar, com apenas uma bebida em cima da mesa, sem pressas, quer pela sua parte como pela parte dos funcionários. E os gelados Freddo! Tudo isto na Recoleta, famosa pelo seu cemitério. Também aqui, pela primeira vez, entrámos voluntariamente num cemitério e, desde aí, procuramos incluir uma visita a estes recantos de repouso nas nossas viagens. Ficará, ainda, na memória o preço exorbitante das coisas, bebidas a 400 escudos, refeições no Hard Rock Café (também o primeiro que visitei) a quase 2000 escudos. Uma loucura que teve o seu crash em 2001.
Nunca mais voltei a Buenos Aires, apesar de sempre pensar em fazê-lo. Em 1998, no entanto, voltei à Argentina mas dessa vez fui apenas a Bariloche, em trânsito vinda do Chile.
10 anos se passaram, quem diria?

Tango

Gosto de Tango. De ouvir, de vez em quando, e de ver bailar, sempre.
Talvez este gosto tenha a ver com a minha paixão pela Argentina. No entanto, e curiosamente, as origens do Tango não são argentinas mas antes, diz-se, africanas. Terão sido os escravos que foram para a América Central e, mais tarde, migraram para a zona do Rio da Prata, que o levaram consigo. Daí a popularidade do Tango em Buenos Aires e, mais especificamente, na zona portuária, como La Boca, Caminito, etc.
Os Tangos retratam, assim, não só aqueles amores não correspondidos, mas também as saudades da família, da terra que se deixou para trás. Uma certa melancolia que o aproxima do Fado. O que os afasta de todo é o facto de o Tango ter nascido primeiro como uma forma de baile, depois como música e, por último, como canção.
Ligado ao Tango existe um idioma, o lunfardo, um dialecto que é utilizado para se referir a determinados aspectos em termos mais específicos. Interessante verificar que algumas destas palavras também são compreendidas cá na nossa terra, como morfar, malandra, gagá e, para saber mais, é só procurar aqui .
O maior mito do Tango é Carlos Gardel, que foi como que o pioneiro do Tango / canção. Na altura, cerca dos anos 30, era muito popular, pelas canções, pelos filmes, pelo carisma que tinha. Disputado pelos argentinos, parece que nasceu em França ou no Uruguai.

Imensamente respeitado é Astor Piazzolla, que conseguiu dar ao Tango um conceito de música sofisticada, estendendo, assim, o género a outros que não o apreciavam no seu sentido clássico. Foi o Tango de vanguarda, que gerou influências em muitos outros músicos. E ficou célebre o bandoneon de Astor Piazzolla.

E agora, algo que talvez choque os puristas do Tango. No novo milénio alguns músicos vem tentando dar outros horizontes ao Tango, recriando-o e revitalizando-o com beats electrónicos, mas mantendo a sua melancolia. Um dos grupos mais conseguidos é o Gotan Project, trio criado em França que integra um argentino. A sua música, principalmente com o sucesso do albúm “La Revancha del Tango” chegou às pistas de dança de todo o mundo. A quem pareça estranha esta fusão do Tango com a electrónica, aparentemente opostos, Eduardo Makaroff (o argentino do trio) lembra que em comum ambos têm a vontade que a música dá de dançar.
Afinal, e como comecei, não esquecer que o Tango começou por ser uma forma de baile.

Matecito

A primeira impressão é que é diferente, engraçado. Surge a curiosidade porque aproxima-se muito de um ritual. Um ritual social.
A primeira vez que provei mate foi no Nordeste do Brasil. Não é uma bebida típica desta região, no entanto, quem estava a beber era um grupo de pessoas naturais de uma das regiões – sul do Brasil – que tem o mate como bebida típica (o famoso chimarrão). Mas foi sobretudo na Argentina que percebi que o mate é uma bebida cultural (embora também o seja no Paraguai e Uruguai). Se aos Irlandeses se associa a cerveja e aos Escoceses o uísque, na Argentina a bebida nacional é o mate.
Na Argentina é comum as pessoas fazerem-se acompanhar pelo seu matecito, o que faz com que seja um fenómeno cultural. Quando se bebe mate em grupo é comum partilhar-se a bombilla, e chega a ser uma ofensa quando oferecem e não se aceita.
O mate é uma erva, uma espécie de chá, que pode ser usado como qualquer tipo de chá. Quente ou frio. Mas a forma mais típica é colocar num copo característico (chamado também de mate pelos argentinos e cuia pelos brasileiros), que normalmente é de madeira e metal, a erva mate e juntar água quente. Depois utiliza-se a bombilla, que é um cachimbo de metal, para filtrar e puxar o mate. E a seguir é saborear. Por vezes é amargo, outras doce. Tudo depende da preparação e do gosto de cada um.
Para saber mais ver http://www.alu.ua.es/a/amfc2/

Tortoni

Buenos Aires é uma cidade de cafés. Daqueles onde dá vontade de ir estando sem ser incomodado. Confesso que não tenho por hábito frequentar cafés, mas quem não fica deslumbrado ao entrar, por exemplo, no Majestic, só para citar um no nosso país, no caso, no Porto?
O Tortoni é o mais antigo da Argentina, fundado em 1858 e situado na Av. de Maio, é um local onde se pode jogar bilhar, assistir a espectáculos (tango, jazz), tomar café, claro, ou simplesmente contemplar a história que por ali passou e foi sendo feita. Teve frequentadores assíduos entre artistas, políticos, intelectuais, escritores, como Borges, Garcia Lorca, Sábato.
É autêntico, apesar de vir nos guias turísticos. Aliás, se não fosse esta referência, provavelmente não saberia da sua existência. Durante o dia passei por lá para tomar qualquer coisa e à noite decidi voltar para assitir a um show de Tango. Como não é daquelas casas tipicamente turísticas, pelo menos no que ao Tango diz respeito, o ambiente era constítuido por porteños e não tão jovem assim. À excepção, então, das duas manas portuguesas, acabadas de entrar na casa dos 20 anos. Se estavamos perdidas, rapidamente nos envolvemos completamente. Um casal de velhotes sentado na mesa ao lado convidou-nos para a sua mesa e serviu-nos de anfitriões para o resto da noite. Ele era poeta e, vim a saber depois, um daqueles conceituados que vivia no Tortoni. Quando soube que eramos portuguesas, logo se lembrou de um jogador de futebol fantástico que havia jogado na nossa terra e casado com uma portuguesa monissíma que levou para a Argentina. A Sra Carmen, ex(?) modelo, é ainda hoje conhecida nos meios sociais argentinos e quanto ao futebolísta o Poeta acertou em cheio. As miúdas portuguesas, nem de propósito, eram ferrenhas do clube em que ele jogou em Portugal e por isso sabiam de quem se estava a falar – Yazalde, o fantástico Chirola.
Este começo serviu de arranque para um agradável serão em que o deslumbramento era total. Anos mais tarde havia de recordar aquela noite quando, num programa de um canal por cabo sobre Buenos Aires, volto a ver A.M.M. servindo de anfitrião no Tortoni, agora para um público mais extenso.
Para quem queira saber mais sobre este café, iniciando uma visita cybernética, aqui fica o link .

Pasaperros

Uma profissão que só conheço de Buenos Aires é a dos Pasaperros.
Para quem não sabe, ela existe sim e consiste em profissionais que levam os cãezinhos de outras pessoas a passear. O detalhe é que, concerteza para a jornada diária render mais, eles passeiam dúzias de cães de uma só vez, enquanto as madames se entregam a outros afazeres. É no mínimo pitoresco.


pasaperros

A Sorte

Sobre Buenos Aires escreveu Miguel Sousa Tavares uma lindíssima crónica aqui há uns tempos. Assino por baixo.

Uma Cidade
Por MIGUEL SOUSA TAVARES
Sexta-feira, 04 de Julho de 2003

“Deixem que hoje vos fale de uma cidade – afinal o berço onde todas as políticas começaram e devem ser avaliadas no concreto. De uma cidade que é capital de um país que vive uma tremenda crise económica, acumulando a maior dívida externa do mundo e só agora começando a sair de um período de tamanha turbulência social e política que chegou a ter cinco Presidentes num mês – e todos eles constitucionais. É uma cidade que eu há muito sonhava conhecer e que só agora tive a sorte de o fazer. Porque é uma sorte e uma lição exemplar conhecer Buenos Aires, a capital argentina.
Buenos Aires é uma cidade que nos reconcilia com a condição urbana, que nos lembra que as cidades podem ser construídas para o serviço dos homens e que nos ensina que a dimensão e a beleza são conciliáveis, a monumentalidade e a escala humana podem conviver juntas, os serviços e o comércio podem-se conjugar de forma perfeita com o prazer e a arte de viver uma cidade. Ao contrário, por exemplo, do Rio de Janeiro, cujo enquadramento paisagístico natural não tem paralelo no mundo, Buenos Aires não dispõe de trunfos naturais: não tem costa marítima, nem um rio digno desse nome, não tem lagoas, nem enseadas nem montanhas, enquadrando-a. Não há um Cristo Redentor a quem dar graças por tanta fortuna. Aqui, tudo é obra dos homens e nada é acrescento divino. É uma cidade feita por homens e para os homens viverem. Por homens visionários e arrojados que ousaram pensar grande, que construíram a mais antiga e ainda hoje a maior e mais bonita ópera de todas as Américas – o Teatro Cólon, decorado com mármores de Carrara e de Estremoz -, que secaram pântanos para plantarem os mais fantásticos jardins públicos, que os semearam de uma profusão de estátuas de pedra e de bronze (tantas que, quando já não havia mais heróis nacionais para representar, foram dedicadas a Mozart ou a Verdi), que deitaram abaixo quarteirões inteiros para rasgarem algumas das mais largas avenidas do mundo (a 9 de Julho é mesmo a mais larga do planeta), que, de um canal vindo do Rio de La Plata – que outrora servia a cabotagem e de que a respectiva administração portuária, ao contrário do que sucede entre nós, abriu mão por completo a favor da cidade -, transformaram numas maravilhosas docas de pequenos edifícios de tijolo vermelho, ao serviço do comércio, dos bares e restaurantes e da marinha de recreio, em pleno coração da cidade.
Dizem os brasileiros, com a sua tradicional rivalidade com os argentinos, que eles são uma espécie de italianos que falam espanhol e gostariam de ser ingleses. Não perceberam como esta ironia presunçosa revela afinal um tributo: Buenos Aires e a Argentina foram construídas com o melhor de Itália, da Espanha, da França e da Inglaterra. Para Buenos Aires, os espanhóis trouxeram a história e a monumentalidade, os italianos o bom gosto e a arte de viver, os franceses a decoração e os ingleses os jardins e a paixão pelos cavalos. Por isso, na cidade convivem harmoniosamente os pequenos bairros populares antigos, território do tango e de uma certa rufiagem cativante, com os quarteirões de arranha-céus, sobrepostos por décadas sucessivas de arquitectura futurista, desde os anos 20 até à actualidade (foi a primeira cidade da América Latina a erguer um arranha-céus, a primeira a escavar um metropolitano, em…1910!). Convivem a zona tradicional de comércio da “Baixa” com a zona de serviços e escritórios, a zona de edifícios públicos em volta da Praça de Mayo e da Casa Rosada com as magníficas zonas residenciais, como Recolletos (sic, o Autor queia, certamente, escrever Recoleta), com a sua profusão de antiquários, galerias de arte, livrarias (abertas até à meia-noite!) e, em cada esquina, o seu café, que é um verdadeiro café, local de estar, de ver e de conversar, sem fórmicas, nem alumínios nem plásticos, mas sim móveis de madeira antiga, tampos e balcões de mármore, fotografias gastas pelo tempo, homenageando os antigos frequentadores, de Borges a Fangio, de Gardel a Péron (e, de cada vez que pedir uma simples “bica”, saiba que ela vem sempre acompanhada por um copo de água com gelo, dois biscoitos e um guardanapo de papel espesso). Por isso também, em homenagem à influência inglesa, Buenos Aires tem ainda, não na periferia, mas em pleno centro, milhares de hectares de relvados e jardins públicos a perder de vista, com três hipódromos, dois estádios de pólo, “country clubs”, campos de futebol, de básquete, de ténis, picadeiros e escolas de equitação, percursos pedonais, para cavalos e para ciclistas, jardins infantis e jardins japoneses, jardim zoológico e jardins para passear cães, marinas e até um aeroporto para voos internos em pleno centro. E todas estas zonas – a comercial, a de serviços, as residenciais e as de lazer – não funcionam por territórios estanques, mas sim interligados, integrados uns com os outros, de modo que não há zonas desertas ou abandonadas conforme os horários, antes uma cidade que é habitada, vivida e desfrutada na sua totalidade.
Coitados dos brasileiros e da sua dor de cotovelo: a verdade é que os argentinos estão décadas, se não séculos, à frente dos brasileiros, em termos de civilização, de cultura e de qualidade de vida, mesmo se em plena recessão económica. E coitados de nós, que ainda planeamos as cidades de acordo com os interesses dos construtores civis e as necessidade de receitas das câmaras e que temos uma capital onde o grande problema actual é a localização de um casino que se destina a financiar a recuperação de uns teatros de revista que ninguém irá frequentar, porque há cadáveres irrecuperáveis e ainda bem. Em Buenos Aires, pelo contrário, é quase impossível conseguir um bilhete para a ópera, os teatros estão cheios, as casas de tango estão cheias, os jardins estão cheios e milhares de pessoas acotovelam-se a um domingo à tarde para ver uma mostra de pintura contemporânea.
Porque a irrecusável verdade é esta: cada povo tem as cidades que merece. Os políticos argentinos não são melhores do que os nossos, pelo contrário, são bastante piores. Mas o povo é infinitamente mais culto, mais exigente e mais civilizado. Não esperaram pelo Estado para se educarem, para aprenderem e para saberem fazer e exigir. E, se não podem exigir bons governos e bons políticos, podem e exigem bons cafés, bons serviços, boas lojas, boas livrarias, bons teatros. Em Buenos Aires um motorista de táxi pode-se comportar como um verdadeiro “John, ‘chauffeur’ russo”, saindo para abrir a porta de trás às senhoras, pode esperar uma hora sem se lamentar e de taxímetro desligado (!), pode-nos ir apontando a dedo todas as influências arquitectónicas europeias nos edifícios da cidade, pode dissertar sobre a história, a política ou a economia do país e até falar-nos dos livros de Saramago. Em Buenos Aires, um “barman” pode decidir espontaneamente oferecer-nos uma bebida, só porque simpatizou com o nosso “sentido de humor”, um livreiro pode ficar sinceramente abalado, se não encontramos o livro que procurávamos e dispor-se a telefonar para outra livraria para saber se o têm, um empregado de mesa pode-se confundir com um cantor de tango e um cantor de tango com um grande de Espanha arruinado. Povos assim constroem cidades assim. Vastas, largas, onde tudo é humano e, todavia, o horizonte desmedido.”