Around the World in 80 pages – Elvis e a sua bola portuguesa

A Navigator, a empresa portuguesa de papel, abriu em 2017 a sua terceira edição do concurso “Around the World in 80 pages”. E o livro de mesmo título com as histórias dos 8 vencedores e dos 72 finalistas foi publicado durante este ano de 2018.

São 80 histórias sobre experiências de viagem relatadas por participantes de todos os lados do globo que lhes mudaram a vida ou, pelo menos, os surpreenderam de forma a recordarem esses momentos ao longo das suas vidas.

Uma dessas finalistas é a Sofia, co-autora deste blogue, a mana mais nova que acreditou que tinha uma boa história para apresentar a este concurso. Essa história havia já sido contada aqui, mas foi agora adaptada e escrita em inglês para caber neste livrinho bonito cheio de histórias, fotos e ilustrações. Aqui fica a tradução:

Elvis e a sua bola portuguesa

3827 metros acima do nível do mar. Esta é a altitude onde Puno está, uma cidade no sul do Peru, a meio caminho entre La Paz, capital da Bolívia, e Cuzco.

Com vista para o mítico Lago Titicaca, o mais alto corpo de água navegável no mundo, é de Puno donde podemos apanhar um barco até às curiosas e excêntricas ilhas flutuantes de Uros.

Foi de uma cabine telefónica nesta cidade peruana que, num tempo sem gadgets electrónicos e conexões wi-fi, eu e a minha irmã fizemos o clássico telefonema para casa para dar notícias, depois de muitos quilómetros de caminhadas pelas montanhas e poeira acumulada. Enquanto contávamos as nossas últimas aventuras, um rapaz de 12 anos aproximou-se e pediu insistentemente à minha irmã para engraxar as suas botas. Este calçado estava sujo demais e carregava camadas e mais camadas de histórias das nossas viagens pelo solo castanho dos Andes e o sal branco de Uyuni. Diversas vezes tínhamos já sido abordadas pelos rapazes engraxadores, o que é muito comum pela Bolívia e Peru, mas sempre recusáramos os seus serviços. Desta vez a minha irmã aceitou, enquanto ouvia a minha conversa com a nossa mãe. A minha irmã perguntou a Elvis – este o nome do rapaz, apesar de ele nada saber do Rei do Rock and Roll – quanto seria o serviço. Ele respondeu que o preço ficaria ao nosso critério. Momentos depois perguntou-nos se gostávamos de futebol (jackpot!) e contou-nos que a sua bola estava furada, pelo que adoraria se nos lhe pudéssemos comprar uma outra numa “tienda” umas “calles” adiante. Aceitámos. Na loja, vimos várias “pelotas”. Perguntámos-lhe qual queria. Humildemente, deixou a escolha connosco. De repente, houve uma bola que captou a minha atenção: uma vermelha, com o símbolo da nossa federação de futebol e com o nome do nosso país, Portugal.

Obviamente, foi esta a bola que o nosso pequeno “peruanito” recebeu, para que pudesse não esquecer estas raparigas portuguesas. Os craques portugueses do futebol, Figo e Cristiano Ronaldo – este último naquele tempo em início de carreira – eram nada para Elvis. Surpreendentemente, o futebol, já naquela época um dos grandes exemplos da globalização, não tinha toda essa dimensão naquela parte da América do Sul. Apenas jogar à bola nas ruas importava para Elvis e seus amigos. Depois destes anos todos, Elvis será um homem. Espero que ele se tenha divertido a valer na sua juventude e que na sua memória a bola oferecida por estas irmãs portuguesas lhe tenha servido para muitos jogos de futebol a rock’n’rollar.

Conquista do Inútil, de Werner Herzog

A Conquista do Inútil é um livro de Werner Herzog, mais conhecido pela sua obra enquanto cineasta.

E foi precisamente o filme que o alemão se propôs rodar na Amazónia peruana, sobre a empreitada do delirante Fitzcarraldo, que levou a que editasse, em 2004 (editado em Portugal em 2017), este género de diário sobre as peripécias que rodearam a filmagem.

A verdade é que o seu filme Fitzcarraldo acabou mesmo por ser rodado e estreado em 1982 e o seu livro “A Conquista do Inútil” dá-nos uma imagem poderosa da vida na selva entre Junho de 1979 a Novembro de 1981. São, como escreve Herzog, “paisagens interiores nascidas do delírio da selva”.

Antes de continuarmos com o livro, apenas uma breve informação sobre a personagem central do filme, para nos situarmos. Inspirado num real barão da borracha, o peruano Carlos Fermín Fitzcarrald, o ficcional irlandês Brian Sweeney Fitzgerald – Fitzcarraldo na pronúncia dos locais – é também um homem em busca da árvore da borracha que se propõe a transportar um navio a vapor por águas inóspitas rio acima e fazer passá-lo pela montanha, atravessando-a, em busca dum filão inexplorado de borracha.

Mais irreal ainda, a sua saga para romper e atravessar estas águas, onde teve que enfrentar tribos índias que lhe eram hostis, fauna idem e doenças terríveis, toda esta empreitada era motivada por um sonho: construir uma ópera em Iquitos e inaugura-lá com o seu ídolo Enrico Caruso. Aqui a inspiração só pode ser a (real) ópera de Manaus.

Começando o livro pelo seu final, Herzog, o cineasta, teve muitas dificuldades em fazer o seu navio flutuar (quanto mais fazê-lo atravessar a montanha). Quando conseguiu finalmente erguer o barco escreveu “ não houve dor ou alegria, nem arrebatamento ou alívio, nem um sentimento de felicidade, nem um som, nem um suspiro de alívio. Houve apenas o reconhecimento de uma grande inutilidade, ou melhor, de ter penetrado apenas mais profundamente num reino misterioso. (…) Tudo o que há para relatar é o seguinte: estive lá.”.

Esta conquista de algo inútil no espectáculo da selva, a selva que engana os sentido, é cheia de mentiras, ilusões e demónios (palavras do capitão do navio no filme), teve ainda como acréscimo as tensões da guerra com o Equador na fronteira, da insegurança provocada pelos narcotraficantes, das más relações com o actor principal, Klaus Kinski (“estrelas que amuam por figurantes índios terem, por vezes, mais importância”), acusações de maus tratos a populações indígenas, boatos vários, a tal ponto que Herzog escreve, admitindo, não se lembrar de ter trabalhado sob tanta pressão.

A selva é, no entanto, a personagem principal e incontestada deste livro. A selva e seus personagens.

Passado entre as cidades de Iquitos e Camisea (rios Amazonas ou Ucayali e seu afluente Urubamba), a natureza em estado puro e bruto é acompanhada pelos seus habitantes no mesmo estado. Uma mulher que chega com o filho morto no ventre e só tem ajuda muito longe; outra mulher desesperada por ouvir dizer que o marido tinha sido morto e comido pelos índios; uma mulher dá de mamar à vista de todos; outra mulher, avistada pelo autor no mercado de Belém, tão bela, que o assustou.

O medo acompanha a viagem. Não tanto dos bichos vários, que se tornam rotineiros, “tenho de novo uma cobra no telhado”, macacos que roubam garfos, rãs a saírem das calças, mais piranhas e jacarés e apostas de pescaria de peixes de pelo menos um metro.

“A selva é pérfida e letal”, houve até quem tivesse feito um testamento porque ia trabalhar na selva, ou, noutra passagem, “a vileza obscena, explícita, da selva”. “De noite, tive primeiro a sensação e depois a certeza de me encontrar num tempo arcaico e emergente, sem linguagem, sem tempo.”

Os sons, o cheiro e as cores da selva são arrebatadores.

As árvores gritam connosco, os insectos e os animais produzem sons atormentados e “a natureza voltou a si, só a floresta permanece, terrível, imóvel. Silencioso, o rio revolve-se, o mostro. A noite cai muito rápida, os últimos pássaros insultam, como sempre a esta hora, o fim da tarde. Grasnar rouco, sons agoirentos; sob eles, regular, o canto das primeiras cigarras.”

“Depois da chuva, o cheiro da terra foi tão intenso que tive vertigens. A ocidente, com o sobrevir da escuridão, o céu adquire, num ponto sem nuvens, uma luminosidade irreal, e baloiça como as vagas do mar.”

É, enfim, a natureza indomável mas cândida.

“Começou a chover. O rio flui, castanho esverdeado, prudente e baixo. As bananeiras à esquerda da minha cabana crescem insufladas, indecentemente sexuais. Na tranquilidade da chuva, a paisagem pratica a devoção. Um ofegar profundo atravessa a floresta, tudo permanece imóvel”.

As Praias

Apesar de a costa peruana estar virada para o Oceano Pacifico e de recorrentemente associarmos algumas das mais belas praias do mundo a estas águas do nosso globo, é melhor rapidamente esquecer essa associação no que ao Peru diz respeito. Com excepção de Máncora (que não conhecemos), bem no norte, já na fronteira com o Equador, ninguém se dá ao trabalho de sonhar com praias do Peru.
Ainda assim, e mesmo tendo presente que o objectivo principal da viagem não era, de todo, fazer praia, fizemos questão de dar uma saltada – desviando até uns quantos kms – para conhecer algumas delas de areia e água escura, rodeadas pelas areias duras do deserto que se vai vendo pela Pan Americana que percorre praticamente toda a costa peruana.

Em Pimentel, perto de Chiclayo, vimos algumas das totoras dos pescadores que iríamos também ver mais a sul, fizemos parte da (permanente?) campanha eleitoral que se observa em quase todo o espaço livre dos muros e vimos uma ondaça bravamente surfada no espaço de muro que ficou livre dos políticos.

Ponderámos ir até Puerto Chicama, vilarejo segundo dizem com pouca graça mas com a fama de ser a onda mais longa do mundo. Mas para isso teríamos de desviar muitos kms, perdendo muitas horas só para ver uma onda que não iria existir por aqueles dias.
Optámos, então, por nos manter e dormir em Pacasmayo. Os seus locais reclamam para si o título de onda mais longa do país, em El Faro. Não conseguimos tirar conclusões a respeito. Mas conseguimos, sim, sentir a pacatez do seu malecón, com o pier antiquíssimo e nem sempre com as madeiras todas, facto plenamente compensado com a vista para as poucas mas lindas casas coloniais com vista para o Pacífico. É um bom sítio para se parar e deixar ficar a pensar na vida ou, simplesmente, não se pensar em nada. À noite fomos ao bar / restaurante “Puerto Escondido” – só podia ser nome de bar de surfista ao levar o nome da famosa onda mexicana – do Marcos, efectivamente surfista. Ouvíamos e íamos participando timidamente da conversa entre um brasileiro e um chileno, acompanhado de um gringo que não parecia falar espanhol, sobre as ondas do Peru e do Chile. O brasuca tinha vindo de mota, segundo a sua contabilidade para aí uns 6000km e ia voltar ao Brasil por Iquitos, porque por questões burocráticas só podia estar fora 3 meses. O chileno, esse, era um dos tais que parecia ter assentado arraiais por Pacasmayo, pela tal calmaria de Pacasmayo, assim como parecia passar os anos a assentar arraiais em outros pousos como este, porque os haverá e muitos pela costa peruana e, já agora, chilena. É só procurar e deixarmo-nos ficar, desviando ou integrando estes sítios que acabam por se tornar especiais nas nossas viagens, que não são só Machu Picchus. E ainda bem.

Uma outra praia que visitámos foi a de Huanchaco, bem perto de Trujillo. Inexplicavelmente, é muito popular entre os turistas que por lá vão passar uns dias num dos seus muitos hotéis (há quem opte por ficar aqui alojado em detrimento de Trujillo) e aproveitam para ter umas aulas de surf. As ondas por aqueles dias não apareceram e, talvez o tempo feio e nublado tenha ajudado, não lhe vimos encantos de maior. Apenas a “exposição” de totoras nos fará lembrar este “museu”.

Afinal, parece que mesmo desprovida de encantos Huanchaco é boa para relaxar.

Trujillo

Trujillo, terceira cidade do Peru, depois de Lima e Arequipa, é uma cidade bastante agradável. Historicamente conhecida como sendo terra de poetas e de tertúlias, ainda hoje se vê um grupo de senhores entradotes bebendo e conversando numa mesa de café e, numa outra mesa, um grupo de senhoras entradotas bebendo e conversando numa mesa de café, que pode até ser o mesmo café.
Fundada em 1534 por Pizarro, o invasor, leva o mesmo nome da sua terra natal em Espanha. Conserva ainda alguns edifícios belamente restaurados e, principalmente, as fachadas são cuidadas e coloridas. Caminhar pelas suas ruas é seguro e é um bom entretenimento tentar perceber quantas cores podem ser usadas para nos encantar o olhar. A Plaza de Armas é grande e faz lembrar a sua homónima de Lima.
Eis mais algumas fotos que demonstram toda a fotogenia de Trujillo.

Rumo ao Norte

Seguindo os nossos planos de viagem, deixámos Cusco e fomos para o norte, com Chiclayo a ser o nosso novo poiso, mas com a arqueologia a continuar a ser senhora.
Chiclayo, só por si, tirando o mercado – um dos maiores da região – não merecerá uma viagem de propósito. Mas tem por perto aquele que é um dos mais surpreendentes museus arqueológicos: o Museo Tumbas Reales de Sipán.

Foi apenas em 1987 que um arqueólogo local deu por uns artefactos a serem vendidos num mercado que lhe chamaram a atenção e o levou até muitos mil anos atrás e às fabulosas pirâmides de tijolos de adobe que existem precisamente na zona de Chiclayo. Esteticamente o lugar está longe de ser bonito. Mas a historia e o conhecimento dos hábitos da cultura Lambayeque (= Sicán), que existiu entre os séculos VIII e XIV são para lá de interessantes. Assim, para além de Sipán encontramos também em Túcume (esta com 26 pirâmides já descobertas) as referidas pirâmides que seriam centros cerimoniais onde, brevemente contado, quando o chefe de família falecia era enterrado com os seus pertences, animais, criados e alguns membros da família. Por cima desta tumba, os familiares que sobreviviam ao senhor iriam construir a sua casa e por ai adiante. No lugar de Sipán foram encontradas diversas tumbas, incluindo a mais majestática do Senhor de Sipán que se encontra exposta no Museo Tumbas Reales de Sipán, ao lado de objectos finíssimos e lindíssimos (embora os da antecedente cultura Moche sejam os mais bonitos).

Deixando Chiclayo fomos para Trujillo em busca de mais arqueologia, quais Indiana Jones ou, já que somos meninas, quais Lara Croft´s.
Perto de Trujillo encontramos também algo semelhante às pirâmides nas Huaca del Sol e Huaca de la Luna. As imagens aqui, ainda bem conservadas após os trabalhos de restauro, são muito bonitas. Uma vez que a cultura Moche (do século I A.C. a IX D.C.) não conhecia a escrita, havia que recorrer às imagens para expressar a iconografia da sua cultura. Esta cultura era bastante forte na cerâmica, incluindo objectos cerâmicos onde se revelam práticas sexuais explícitas, hoje visíveis no Museu Rafael Larco em Lima. Como somos muito pudicas não fomos lá.

E, por fim, a representante da cultura Chimu (séculos XI a XIV), também perto de Trujillo, eis Chan Chan – em português “Sol Sol” –, a maior cidade pré-columbina da América e uma das maiores cidades de adobe no mundo. Estima-se que tenham vivido aqui 60000 habitantes ao mesmo tempo. Os edifícios são decorados, bem como os muros, e é visível pelo grande lago que os chimus já utilizavam a técnica dos canais para abastecimento de água à sua cidade. Em 1986 foi declarada património da humanidade e logo colocada também na lista do património em perigo. O que se visita hoje é apenas uma pequena parte da grande cidade que outrora existiu e que em 1471 foi conquistada pelos incas, depois saqueada pelos espanhóis e depois ainda arrasada pelas chuvadas de “el niño”.

Curioso foi ver que, se os peruanos e os descendentes dos incas em especial (muitos dos peruanos, certamente) têm alguns ressentimentos para com os espanhóis, também alguns chimus, de que é exemplo o guia que nos acompanhou, descendente desta civilização, mostram ressentimento para com os incas. Porque será que cada civilização que vem tem de deitar abaixo o que foi feito por quem já lá esteve? Talvez faça parte da cultura do Homem, comum a todas as civilizações. Nada a fazer, portanto, se não colocar mãos à obra e procurar mostrar o que cada uma das civilizações representou no mundo em tempos e que hoje, vemos, têm lugar umas ao lado das outras e, principalmente, cada uma à sua maneira, tem fortes argumentos de encantamento.

À Espera em Aguas Calientes

Saimos de Machu Picchu pelas 15:30 para almoçarmos e apanharmos o comboio em Aguas Calientes. Terriola tipicamente à espera do turista, com hotéis, restaurantes e lojas. E um mercado com mais lojas. Tudo contabilizado, meia hora chega para se ficar a par da coisa.
Ainda por cima, o comboio, avisaram, sairia atrasado rumo a Ollantaytambo. Fazendo as contas, estavamos há 4 dias a caminhar e a dormir em tendas e tinhamo-nos levantado nesse dia às 3:30 da madrugada, e iriamos chegar a Cusco lá para a 1:00 também da madrugada. Glupp. Pior, que seca.
Mas, quando viajamos nunca se sabe, tudo pode mudar de um momento para o outro. O que seria uma seca até se tornou divertido. Primeiro, reencontramos a nossa amiga argentina que supostamente iria apanhar um comboio bem mais cedo, mas afinal seguiria no nosso. Depois, encontramos também o nosso amigo dinamarquês, já junto da sua companheira peruana, que também iria seguir viagem connosco. Mas o momento decisivo foi quando um jovem suiço, ao ouvir a nossa conversa com o dinamarquês sobre as longas ondas de Puerto Chicama resolveu também participar. Entre aquela conversa típica entre viajantes curiosos, querendo saber por onde já estivemos e para onde ainda havemos de ir, ficámos a saber que o moço tinha 21 anos, andava já há 2 meses pela América do Sul e tinha ainda mais 3 meses de viagem pela frente. Não conseguimos conter o sorriso quando, na maior das ingenuidades, nos contou haver feito o inca trail – como dizem os gringos – caminhando pelos carris do comboio desde o km não sei quantos. Haverá “trail” mais autêntico?
Melhor do que isto só mesmo o inglês que no topo de Machu Picchu, com vista clássica para Wayna Picchu, falava ao telemóvel com a sua mamã, provavelmente no outro lado do Altântico em Inglaterra, e passou-o à lama que aí roia pacatamente a relva para que a senhora pudesse também sentir parte da emoção da aventura de se estar numa das 7 maravilhas do mundo.
Se me contassem, não acreditaria. Mas viajar é isto. É também delirar.

Machu Picchu

E agora algumas notas sobre Machu Picchu, a Montanha Velha.
Há quem aqui pretenda chegar para viver uma experiência mística ou algo do género. É já para avisar que misticismos não são comigo. Desafios para se ir conhecer algo mítico, isso sim. E Machu Picchu é, com toda a certeza, um dos lugares que preenchem o imaginário de muitos milhões de pessoas. Pelo que representa de uma civilização, pelo estado de conservação que chegou até nós e, principalmente, pela localização maravilhosa que ocupa. Mas não adianta vir com a pretensão de que vamos encontrar o lugar mais inspirador e sentarmo-nos sobre uma pedra a deixar a imaginação fluir. Isso não existe por aqui pelo simples motivo de que é quase impossível estarmos sozinhos, sem as carradas de grupos que aqui vão chegando. Uma dica, porém, é tentar ir subindo as demasiado altas escadas ou terraças, deixando a maioria dos estoirados turistas para trás e para baixo. É que, de facto, não é assim tão fácil visitar Machu Picchu. Será uma canseira para a maioria das pessoas.

É talvez também por isso que é tão interessante pensar nesta obra que os incas construíram por volta de 1450, num local de acesso tão difícil que nunca foi encontrada pelos invasores espanhóis e que apenas em 1911 foi descoberta pelo historiador americano Hiram Bingham, com a ajuda de alguns indígenas. Encravada em entre duas montanhas – Machu Picchu, a montanha velha, e Wayna Picchu, a montanha jovem –, diria que quase que pendurada numa delas, custa a crer como foi possível que há quase 600 anos se carregasse material para construir algo assim e num lugar assim.
Quando Bingham lá chegou as construções estavam quase que por completo cobertas pela vegetação, tal como, aliás, os vários complexos arqueológicos que vamos encontrando pelo caminho inca. Nos dias de hoje a limpeza da vegetação que persiste em cobrir as construções ainda continua e, dizem, as ruínas de Machu Picchu podem chegar quase até lá baixo ao pé do rio Urubamba, mas há que ter cuidado com as perigosas cobras que por aqui reinam.
Ainda hoje não se sabe muito bem qual o uso da “cidade perdida de Machu Picchu”. Alguns defendem que seria a “cidade das mulheres escolhidas” por a maioria dos restos mortais encontrados nos túmulos pertencerem a mulheres; outros pensam que foi construída já no período de declínio do império inca com o objectivo de re-ganhar forças; outros ainda julgam que aquando da chegada dos espanhóis já não seria habitada. A teoria que hoje parece prevalecer é a de que Machu Picchu era um sítio real e cerimonial que os incas tiveram de abandonar à pressa com a invasão dos espanhóis.

À parte todas estas histórias e lendas, o melhor que temos a fazer é inventar a nossa própria teoria e deixarmo-nos ir caminhando, subindo e descendo, entrando nas ruínas, descobrindo os telhados de palhota, as janelas de pedra, as pequenas praças e as praças enormes onde hoje alguém trouxe as lamas para compor ainda mais o cenário.

Uma nota final para dar conta das características arquitectónicas e urbanísticas das cidades incas. Como consideravam a natureza sagrada, os incas não alteravam a paisagem, dai talvez o recurso à construção dos socalcos, donde resultam as lindíssimas terraças. É quase omnipresente o uso destes degraus circulares imensos. Com isso, nós, habitantes do século XXI sentimo-nos agradecidos por hoje ainda podermos caminhar pacatamente por uma cidade bem planeada onde o respeito pela paisagem é total.

Chegada a Machu Picchu – 4.º Dia do Caminho Inca

E porquê o “disparate” de levantar às 3:30 para ir para a fila do posto de controlo da guarda de entrada no sítio arqueológico de Machu Picchu se este posto só abre lá para as 5:30 / 6:00? Simples. A ansiedade de chegar a Intipunku (a Porta do Sol) e ter a imagem de postal da citadela de Machu Picchu ao nascer do sol desde cá bem de cima era insuportável. De tal forma que ninguém colocava a hipótese de ai chegar com o tempo completamente coberto. Mas, pese embora a quase correria de uma hora sempre de noite – e já não apenas caminhada – dos trekkers (nós) para serem os primeiros a chegar, foi isso mesmo que aconteceu. Não me perguntem como é a paisagem desde a Intipunku, pois nem sequer consigo explicar como é este sítio que estava ali bem defronte do meu nariz. Para de uma vez por todas se entender o sentimento e as emoções que se vivem naquela altura, depois de 3 dias inteiros de caminhada, em que o objectivo final está mesmo ali à porta, literalmente, direi apenas que não era só uma pessoa que derramava lágrimas com o cenário desolador. Vai daí, silêncio total na descida até à entrada da recepção da mítica Machu Picchu (por onde entram obrigatoriamente aqueles que não fazem o caminho inca). Chegámos por volta das 7:30 e às 8:00 iniciámos o nosso tour guiado pelos nossos guias Herbert e Williams, que nos acompanharam todos estes dias. Com o tempo completamente limpo. A alegria e o optimismo voltavam, mas a vista de Intipunku, essa, ninguém nos devolveria, a não ser que fizéssemos questão de subir cerca de 1h e meia para descer novamente e correr o risco de nada ver, quer lá em cima, quer cá em baixo – mas aqui por falta de tempo.

Assim, ao invés, e depois do reconhecimento de Machu Picchu, insatisfeitas com os poucos km percorridos, resolvemos subir à montanha de Wayna Picchu – a montanha mais famosa que fica atrás das ruínas nas fotos mais comuns de Machu Picchu. É um pouco difícil a subida de cerca de uma hora, por vezes com degraus estreitos e muito altos. Do topo a nossa vista alcança tudo: as montanhas à volta, o rio Urubamba, o caminho serpenteado de Aguas Calientes para Machu Picchu e, claro, a própria cidade perdida dos incas. A vontade de subir sempre mais um pouco para tirar “a” foto não cessa. Descobrir cada vez mais, ir mais além, sem deixar que o cansaço nos vença.

Rumo a Machu Picchu – 3.º Dia do Caminho Inca

Este dia, em que começamos a caminhar novamente às 7:30, seria um dia de paisagens luxuriantes e vários sítios arqueológicos. Bom, os sítios estavam lá, cobertos pelas intensas nuvens, mas estavam. Já a luxúria da vegetação da floresta, essa, só foi verdadeiramente perceptível bem de perto. Não percebemos, também, os lagos, a não ser este, pelo qual passámos bem juntinho.

Primeiro subimos durante cerca de uma hora, mas depois o caminho foi sempre fácil. O primeiro sítio arqueológico por onde passámos foi o de Runkurakay, mas foi em Sayaqmarka, lá no alto, que conseguimos imaginar o poder e visão dos incas. Desta fortaleza eles poderiam dominar todo o espaço que circunda a cordilheira e emitir sinais para os outros complexos sempre que fosse necessário. Depois daqui descemos e o tempo começou a levantar um pouquinho e entrámos pela floresta profunda. Linda.

A caminho de Wiñayhuayna, onde a nossa tenda foi montada, e com mais um sítio arqueológico de mesmo nome sentíamos que cada vez estávamos mais perto da montanha de Machu Picchu e tentávamos – em vão – identificar imagens conhecidas. Apesar do tempo algo fechado conseguimos observar paisagens fantásticas das montanhas e do vale com o rio Urubamba lá bem ao fundo.

É aqui, no local onde passamos a última noite, que podemos tomar o primeiro banho do trek. Prometeram-nos um banho quente, mas a verdade é que estava apenas tépido e apenas corria um fiozinho. Talvez por isso, ou não, quase ninguém opta por tomar banho, daí que não tivesse que esperar nadinha na fila que não existia. Apesar de dormirmos em tenda, existe um salão de apoio onde foi colocada a mesa de jantar e onde se pode comprar qualquer coisa para comer e beber. Houve música (dispensável) até às tantas.

Para mais tarde recordar ficou a cerimónia de despedida dos nossos carregadores, com direito a discurso por parte de cada um de nós e tudo. Só agora foi feita a apresentação, o que mostra bem a clivagem entre turistas e locais. Nem me venham com o argumento de que eles são pessoas muito simples (e são-no; alguns apenas falam quechua). A verdade é que nós, os gringos, somos encarados por eles como se de outro planeta viéssemos (e o contrário também será correcto). Talvez se as apresentações fossem feitas logo no início as coisas pudessem mudar um pouco, mas, bem sei, o convívio com os carregadores é bastante difícil pelo simples facto de que eles, estoirados, ainda se deitam mais cedo do que nós e durante o dia andam num ritmo infinitamente superior ao nosso. Unanimidade, porém, para a simpatia de todo o pessoal, sua destreza e qualidade dos serviços, com a cozinha à cabeça.

Uma outra clivagem aconteceu aqui. Como já foi dito, este trek de 4 dias / 3 noites é algo carote – 335 dólares por cabeça sem serviço de carregadores. A utilização dos serviços dos carregadores para levarem os nossos pertences fica em cerca de 30 Euros por pessoa e por dia. O casal canadiano e o dinamarquês pretendiam que o grupo desse uma média de 30 Euros por cada um de nós de gorjeta para a equipa de cerca 8 carregadores e mais 2 guias. As pelintras das manas portuguesas e da nena argentina não estavam muito nessa onda. Resultado: cada um deu o que entendeu, mas ficou visível a diferença de nível de vida (e de mentalidade?) entre os representantes dos vários países.
Bom, mas o melhor é ir deitar cedo que amanhã levantar-nos-emos às 3:30.

Rumo a Machu Picchu – 2.º Dia do Caminho Inca

Para este 2.º dia mudámos de estratégia e enchemos uma mochila o mais que pudemos para deixar a outra bem levezinha e irmos trocando entre nós o pouco peso que restou. Não que o peso do 1.º dia tivesse sido insuportável, mas o panorama que nos anteciparam para este 2.º dia roçava o assustador. Indo directamente ao final, a carregar as nossas coisinhas todas acho que não nos safávamos desta jornada.
Foi, efectivamente penoso a espaços. A muitos espaços, para dizer a verdade. Iniciámos a caminhada às 7:30 e foram cerca de 5 horas e meia sempre a subir até chegarmos aos exactos 4215m de altitude (o ponto mais alto do caminho) até ao passo de Warmiwañusca, também conhecido como o “passo da mulher morta”, vá-se lá saber porquê. Literalmente, é ir até lá e receber os incentivos e os aplausos dos companheiros que vão chegando primeiro.

A paisagem é brutal, já sem o rio por perto, tão alto íamos, mas com o vale esmagador ao nosso redor. É até um contra-senso, ter-se esta paisagem toda a nossos pés e não se conseguir aproveitá-la convenientemente, tal era o cansaço. As minhas habituais dores de cabeça aproximaram-se do insuportável (o mal de altitude também não deve ser alheio à coisa).

E depois de chegarmos até mesmo lá em cima, toca a descer por quase 2 horas. Se a subida não era tecnicamente difícil, já a descida sempre de pedras irregulares e com degraus muito altos obrigava ao máximo de atenção. Aqui começa o caminho inca original, com muitas mexidas para restauro ao longo dos tempos, é claro.
Mais uma vez, a subida e a descida dos carregadores é impressionante.

Neste 2.º dia são cerca de 11 km em 7 horas de percurso, daí que a opção tenha sido almoçar no final, já no acampamento, em Pacaymayo. Depois, sesta, jantar e dormir. Enfim, vida quase boa e a certeza de que o pior havia ficado para trás.