Essaouira

A incursão por Essaouira foi atribulada, por conta de uma gastroenterite valente. Não sendo coisa rara por estes lados é sempre uma experiência a esquecer. De qualquer das formas, o organismo, no meu caso, demorou a dar sinais e ainda consegui aproveitar um dia, que deu para conhecer a cidade.
A primeira coisa que se nota quando se chega a Essaouira é que o clima é bem diferente. Depois de alguns dias na tórrida Marrakech e de uma passagem escaldante pelo Atlas, chegámos pelo fresco da noite a Essaouira. Apesar de o clima bem mais ameno, não deixa de ser igualmente desconfortável, devido à alta humidade que aqui se sente, ou não estivéssemos à beira do Atlântico.
Outro aspecto bem distinto em relação a Marrakech – cidade vermelha – é que aqui a cor predominante é o branco, já que os edifícios são caiados.

No século XVI os portugueses construíram aqui um forte, ficando a cidade conhecida como Mogador. Pela sua geografia, a cidade, sempre teve potencial portuário, mantendo actualmente essa vertente. Assistir a azáfama do porto é um espectáculo imperdível, pela sua cor, dinâmica, odor. Tal como toda a cidade, o porto é de uma grande fotogenia.

Um espectáculo a não perder é o sobrevoar constante das gaivotas com o skyline da Medina ao fundo. Apetece ficar ali a observar e a sentir aquela liberdade.

A Medina, toda ela fortificada, tal como a conhecemos actualmente, foi apenas construída no século XVIII por um arquitecto francês. Pelas suas características singulares é património mundial da UNESCO.
Explorar as ruazinhas, os becos e os pátios é essencial. Assim como admirar o colorido e as diferentes configurações das portas e janelas. Bem como, sentir o forte odor e colorido das especiarias que estão expostas ao longo das ruas.
A cidade não deixa de ter o frenesim típico das cidades marroquinas. Aqui os mercados são igualmente uma constante, porém, o ambiente é descontraído e os autóctones são bem mais tranquilos que os primos de Marrakech.
Um aspecto bem exótico é a roupa dos locais. Tanto as mulheres como os homens andam com o tradicional djellaba, que é uma veste longa, larga e de mangas compridas. Sendo que elas, maioritariamente, seguindo a tradição islâmica, cobrem o rosto com um véu, e eles cobrem a cabeça com um tarbouch.

A sul do porto estende-se uma praia urbana, que é seguida de uma longa faixa de outras praias. Ficou por conhecer esta componente, ainda que tenhamos percorrido uma parte da costa atlântica entre Agadir e Essaouira. Sabemos, porém, que a costa de Essaouira tem grande potencial para a prática de windsurf, kitesurf e surf , o que faz que ultimamente seja muito procurada pelos praticantes destas modalidades.

Essaouira pelo Atlas

Quinta-feira decidimos alugar um carro para ir de Marraquexe a Essaouira, mas escolhendo um percurso bem longo de forma a poder percorrer parte das montanhas do Atlas até desaguarmos, finalmente, nas águas do também nosso Altântico.
Tirando o abusador calor, viagem linda, as cores das montanhas dão azo à flutuação da imaginação, mais a mais porque vão tendo a ajuda das imagens de uns Casbás. Sobe-se, sobe-se, sobe-se, para depois descer-se, descer-se, descer-se. Uh,uh, estamos no deserto e momentos depois estaremos junto ao oceano.
Essaouira, pois.
Como sexta-feira amanheci com uma má disposição incrível (talvez uma quase gastroenterite), a única coisa que conheci de Essaouira foi os bancos de pedra que iam surgindo pelo caminho e que eu rapidamente ocupava para me deitar um pouco. Como ao fim da manhã as tonturas persistiam, desisti dos meus intentos turísticos e recolhi-me à caminha do meu riad para apenas dela sair para ver o por do sol no mar junto aos canhões da fortaleza.

Esperava que no sábado pudesse recuperar o tempo perdido e conhecer tudo o que havia a conhecer. Mas logo a madrugada e dia seguinte haviam de ser passadas a tratar das outras duas que, essas sim, tiveram direito a gastroenterite a sério.
Por isso, mana Sofia, desta não te escapas, e sobre Essaouira, a antiga Mogador, tens de te debruçar tu.

Os Jardins de Marraquexe

Por entre o ocre dos seus edifícios, existem pelo menos dois jardins imperdíveis que rompem esta cor rotineira.
Um mais plácido e discreto, com um edifício à beira de um lago com as montanhas do Atlas a servir de cenário nas suas costas; outro verdadeiramente exuberante nas suas cores e, por isso, inesperado.

Os Jardins de la Menara, apesar da sua imagem ser um postal obrigatório da cidade, estiveram longe de me encher as medidas. À parte uns camelos à entrada para turista montar ou fotografar, parece algo abandonado. Seria bom que pudéssemos ser teletransportados para o local exacto da foto da praxe.

Já o Jardim Majorelle é outra história. Uma história que não se espera encontrar em Marrocos e, talvez, um pouco deslocada, mas uma grata história. Ou talvez não, se pensarmos que Marraquexe – e Marrocos – não estão na moda apenas hoje, mas pelo menos desde a década de 60 e 70 do século passado quando um rol quase infindável de peças da nossa cultura a adoptaram como sua. Daí que criatividade e surpresa não sejam em absoluto de excluir em Marraquexe. Porque é disso que se trata, de um jardim inventado em pleno norte de África. As cores azul e amarelo berrantes ficam, assim, como cores oficiais de Marraquexe no nosso imaginário, a par do omnipresente ocre.

Dormir, Comer e Estar em Marraquexe

E para continuar nos “antros” de bom gosto, umas sugestões de hotel / riad, bar restaurante e sala de estar. Ou tudo misturado, que vai dar no mesmo.
Para passar a noite – e também o dia sem que sintamos isso como um desperdício – a melhor opção é um riad cheio de charme na Medina. Les Jardins de Mouassine (http://www.lesjardinsdemouassine.com/index.html), junto à mesquita de mesmo nome, foi a nossa (acertada) escolha. No primeiro piso fica o lounge e uma pequena banheira para o relaxe do dia turístico pela cidade. No segundo e terceiro piso os quartos, cada um com o seu nome. Neste último, existe um inacreditável terraço, parte exclusiva do nosso quarto, com espreguiçadeiras, bancos e um barzinho (onde é servido o pequeno almoço). Não possui vista para a cidade daí que seja ainda mais difícil imaginar não só o bulício, mas também o emaranhado de edifícios ocre sem interesse de maior que nos rodeiam.

Porque o verdadeiro interesse em Marraquexe está no interior dos seus edifícios, mesmo naqueles perdidos num qualquer beco de uma das suas ruas. Como é o caso do Dar Cherifa (http://darchrifa.blogspot.com), bem pertinho do riad Les Jardins de Mouassine (apesar das inúmeras voltas que demos para lá chegar). Mais um para a lista dos inacreditáveis, mais um edifício que ninguém daria nada por ele. E mais um pleno de carácter, acertadamente transformado em lugar para se estar a ler enquanto se aguarda por uma refeição ligeira. Possui igualmente um terraço onde apetece estar sem ser na hora do calor, e a subida até lá é imperdível para se ter uma real noção do espaço que é característico da arquitectura de Marraquexe.

E para não sairmos dos terraços, eis o Cafe Arabe (http://www.ilove-marrakesh.com/cafearabe/index_en.html), o restaurante e bar da moda. São 3 andares para refeição e copos, com o último a servir de sala de estar perfeita, onde não falta sequer um por do sol, belíssimo como sempre.

A comida e a simpatia marroquina foi omitida neste post. Neste caso, ambiente é tudo.

Os Palácios de Marraquexe

A Madrassa Ben Youssef é talvez o pedaço mais esplendoroso e encantador de Marraquexe. O desalento de não se poder entrar para conhecer as mesquitas da cidade compensa-se com este palácio que a partir do século XIV, e até ao ano de 1962, foi um dos maiores centros de ensino / aprendizagem do Corão. Este espaço grande, mas não tão grande assim que pudesse acolher cerca de 900 alunos, ainda para mais a partilhar apenas uma casa de banho – como chegou a acontecer – é um lugar de sonho. A entrada, depois de voltas e mais voltas deixando os souks para trás, faz-se por um corredor sem graça de maior que não nos prepara de todo para o pátio que nos espera. Uma pequena “piscina” rodeada por umas lindíssimas arcadas rendilhadas na mais pura arte mourisca à qual não faltam uns mosaicos de um bom gosto insuperável. No andar superior, onde ficavam as câmaras dos estudantes, umas janelinhas de encantar, sendo impossível evitar a fotografia da praxe com o visitante à espreita.

Ainda mal refeitas do banho de beleza da Madrassa entramos no edifício vizinho do Museu de Marraquexe certas de que nada mais nos deslumbrará tão intensamente. Pois, mas estes mouros são terríveis e o que nos espera em seguida não faz mais do que despertar em mim uma imensa vontade de voltar ao nosso tão próximo Alhambra. Já nem me lembro bem qual a arte representada no museu, não porque seja despicienda, mas antes por ter no pátio um “adversário” imbatível por memorável. Aqueles sofás obrigam-nos a contemplar mais uma dose de bom gosto de forma relaxada. O mármore do chão, cravado aqui e ali de mosaicos coloridos, de onde vai brotando umas fontes que irradiam tranquilidade, as portas e janelas lindamente trabalhadas que se encontram para lá das colunas quase que nos distraem do enorme candelabro que está sobre nós. Este palácio foi objecto de restauro há não muitos anos, ele que chegou a acolher a primeira escola para meninas da cidade. Temos, pois, que a Madrassa Ben Youssef era para rapazes e o que é hoje o Museu de Marraquexe era para raparigas. Um luxo só, este Marrocos.

Antes, porém, da visita a estes dois edifícios já tínhamos visitado – e admirado – o Palácio Bahia. Os edifícios sucedem-se uns aos outros, separados por uns pátios, até que chegamos a um grande jardim. Ou seja, há que entrar e ir andando para descobrir o que está para lá das portas. E, já agora, não nos limitarmos a olhar os azulejos nas paredes e chão, mas levantar bem a cabeça para observar os tectos em madeira. No fundo, sentidos bem despertos para não perder nada do muito que Marraquexe nos tem para mostrar para além das suas ruas.

Marraquexe

Marraquexe identifica-se imediatamente.

Sem ter elementos naturais na cidade ou à sua volta, como uma montanha, o mar ou um rio, ou elementos arquitectónicos tão singulares como um edifício ou uma ponte que nos digam claramente, sim, estou a reconhecê-la, é Marraquexe, qualquer um chegará à mesma conclusão se se ater a um simples detalhe: a cor.

Concretizando melhor, a cor ocre de todo e qualquer edifício. Seja na Medina ou fora dela, na parte nova da cidade, o tijolo domina nesta cidade surgida no meio do deserto.

Aquela parte de dizer que não havia elementos arquitectónicos que a distinguissem era um bocadinho exagerada. Afinal de contas, a imagem da praça Djemaa El-Fna, simplesmente “a praça”, é mais do que conhecida por todo o mundo. No entanto, a este caso não se aplica o dito “uma imagem vale mais do que mil palavras” por absoluta falta de consonância com a realidade. Aqui acontece de tudo. Mas tudo mesmo. A chamada logo de manhãzinha para a oração desde a vizinha mesquita Koutoubia não nos prepara para a vida que vai aparecendo e acontecendo lá mais para o final do dia. Entre os inúmeros vendedores de laranjas, frutos secos e água a animação é interminável e eclética, mas nunca sem sair do kitsch. Aos muitos encantadores de serpentes (ui… que medo) juntam-se os macacos educadamente sentados ao lado dos seus donos que zelosamente os têm em coleiras, mas os libertam logo que vêem um turista disposto a uma foto. Ao lado estão as senhoras dispostas a desenharem-nos uns riscos árabes no corpo ou a lerem-nos umas cartas. Mais adiante as cantorias, onde há lugar para um senhor cantar e tocar com uma galinha na cabeça. Segue-se o ponto onde se desenrolam tantos jogos quantos os que a nossa imaginação permite, como tentar pescar uma garrafa, chutar uma bola por entre uns pinos, transportar um maço de tabaco de um copo para o outro utilizando uns duvidosamente apropriados longos palitos.







E será todo este circo que rapidamente toma ares de confusão seguro?

Sim senhores, tão seguro como sentar e comer quaisquer petiscos no meio da praça, sejam uns caracóis ou um peixinho, espetadas de carne, beringelas, sopa, o que houver, como o provam a variedade da clientela, desde famílias marroquinas, outros africanos em viagem, jovens surfistas, hippies, casalinhos em lua de mel, casalinhos com filhos, ou uma portuguesa mais entradota com duas filhas trintonas.

Há também a opção – igualmente imperdível – de se jantar num dos terraços com vista para a praça. Aqui entende-se a azáfama da alegria de uma forma mais global, acompanhada pela iluminação das várias tendas lá em baixo.




Então e Marraquexe é só isto, a cor de tijolo e a praça?

Óbvio que não. Mas fica desde já o aviso que não é fácil chegar até aos seus encantos sem algum desconforto.

Comecemos pela escolha do local onde pernoitar. Num hotel / resort na parte nova da cidade ou num riad na Medina?








Claramente, arriscamos mandar o sossego e o conforto para trás e o riad leva a palma. As ruas na Medina são todas intrincadas, estreitas, escuras, podem vir a redundar em becos, mas não especialmente sujas ou mal cheirosas, e durante o dia (pior, noite) em cada canto ouve-se a chamada para a oração. Mas depois – surpresa – de um edifício qualquer, que pode até ser um bocado feioso no seu exterior, surge-nos pela frente uma mansãozinha com um pátio lindíssimo, cheia de pormenores mouriscos e recuperada com um bom gosto superior. Podemos ficar instalados no 3.º andar e não há elevador. Podemos ficar todas pegajosas de suor e não há piscina. Podemos querer jantar e não há se não a solução de procurar um restaurante ou ir à praça. Mas e então? Ambiente é tudo.









Quem vem de fora da Medina vem, talvez, procurar antes de mais os souqs, os mercados. São ruas e mais ruas com lojas e/ou tendas que vendem de tudo um pouco e onde, dizem, o regateio é uma arte. Vou directa ao assunto: se para a maior parte das pessoas é uma chatice dormir na Medina, para mim permanecer mais do que 2 minutos parada num souq é um desconforto e aborrecimento superlativo. Sim, gosto de andar de um lado para o outro a ver e sentir o bulício das negociações, perder-me como qualquer não nativo, olhar de vez em quando para uma montra. Não, não suporto ver mais do que 2 vezes as mesmas tralhas, os preços iniciais das quinquilharias mais caros do que na Feira de Artesanato de Lisboa, a pressão dos vendedores para que entremos apenas na sua simpática loja. (E aqui vem uma comparação inevitável: na Turquia consegui visitar o grande bazar e não trazer de lá nada, por isso não há grande espanto que em Marraquexe tenha logrado a mesma proeza. Mas na Turquia a simpatia dos vendedores era autêntica. Em Marraquexe, e como dizia o outro, há que dizê-lo com frontalidade, os vendedores raiam o ordinário. Começam com a técnica do entre só para ver o meu espaço, entre só para ver como executo a minha arte, não precisa de comprar nada. Mas depois, quando damos meia volta sem nada nas mãos, vem o filha da p…, vai-te f… Não aconteceu apenas uma vez, logo, permito-me concluir que não é um procedimento raro. Houve ainda outras situações aborrecidas de miúdos que insistiam em levar-nos até um determinado ponto achando que estávamos perdidas e nos queríamos encontrar. Não obstante a nossa insistência para prescindir da companhia, mais uma vez, a principio só bondade e bem receber, chegadas ao destino dá cá isto e mais isto e, quando não demos, vai para ali e mais acolá. Infelizmente não fiquei com a melhor das impressões de todos os marraquexinos.)









Eis por que referia não ser fácil chegar até aos encantos de Marraquexe sem algum desconforto – o de muitos que não apreciam ficar num riad na Medina e o meu que não aprecio ir de compras para os souqs.

Mas, tirando as compras nos mercados, Marraquexe valerá a pena para todos pela Mesquita Madrassa Ben Youssef, pelo Palácio Bahia, pelo Museu de Marraquexe, pelos Túmulos Saadianos e, fora da Medina, pelos Jardins Majorelle e pelos Jardins de la Menara. Todos os edifícios acima referidos na Medina são absolutamente discretos e sem graça no seu exterior, havendo que dar umas quantas voltinhas para a frente e para trás até os encontrarmos pelo meio das ruelas. Todavia, o seu interior de pormenores e motivos ornamentais e decorativos arabescos valem qualquer viagem mesmo que fosse necessário dar a volta ao mundo para se lá chegar. Como somos portugueses e falamos de Marrocos… sem desculpa.