Fim de Semana na Serra da Estrela

image

Perdi a conta às vezes que terei ido até à Serra da Estrela, mas pouco mais guardo na memória do que o ambiente de feira ambulante da Torre.

Em tempos idos as caminhadas não estavam na moda e o passeio até ao ponto mais alto de Portugal continental servia para ir ver a neve e eles – o ponto mais alto e a neve – até estavam ali perto, a uma relativamente curta distância da terra da avó, Aldeia das Dez. Hoje a distância parece ainda menor, será menos de 1 hora de carro desde Aldeia, menos de 3 horas de carro desde Lisboa.

E os atrativos para se visitar o Parque Natural da Serra da Estrela, a maior área protegida de Portugal, não estão só no Inverno, deixando-nos a sonhar com as cores do Outono, a vida a raiar na Primavera, os banhos nos seus rios no Verão.
Ainda assim, foi neste Inverno que lá voltámos.

e73dd-dsc05392

Da Covilhã até às Penhas da Saúde são meros 10 km de subida onde se vai ganhando uma vista cada vez maior. O tempo nublado que se fazia sentir não deixou apreciar a paisagem fantástica que se nos oferece durante todo o caminho e em diversos miradouros.

Passamos pelo antigo sanatório da autoria do arquitecto Cottinelli Telmo, construído nas décadas 20-30 do século passado a 950 de altitude para aproveitar os bons ares da Serra no tratamento dos doentes. Hoje este edifício está finalmente restaurado e desde 2014 é a Pousada da Serra da Estrela, após projecto do arquitecto Souto Moura.

image-2

A Pedra do Urso fica logo a seguir e um pouco antes de se chegar às Penhas da Saúde. Não haverá para aqui ursos de verdade, pelo que não há que temer por ataques, antes largar um imenso sorriso de felicidade por este elemento simbólico que a natureza moldou e nos deixou.

As Penhas da Saúde é uma povoação com alojamento e restaurantes, certamente a mais alta de Portugal, instalada a 1500 metros de altitude. É famoso o seu hotel, assim como famosas são as iguarias que por aqui se podem provar, com o queijo Serra da Estrela à cabeça, sim, mas também enchidos e a carne de javali e o arroz de zimbro – o restaurante Varanda da Estrela é uma boa opção.

image-6

A Torre e a estância de ski ficam aqui perto. Os nevões que de quando em vez caem costumam, porém, deixá-las muito longe. À falta de veículos de tracção total ou de correntes de neve, há que nos entretermos com os caminhos vizinhos.

image-7

E foi isso que fizemos no sábado – dia de vento e nevão – e no domingo de manhã – dia de céu incrivelmente azul e terreno branco -, até que o acesso ao topo de Portugal fosse finalmente aberto.

6def8-dsc05374

ba70c-dsc05397

6dbd7-dsc05401

A estrada das Penhas da Saúde até Manteigas (cerca de 17 kms) é belíssima.
Passamos pelo Lago Viriato, cuja água abastece a Covilhã, por estradas com as árvores tão próximas que podemos sentir os flocos de neve a cair das suas copas, pelo desvio que em dias de clima menos severo nos leva até à Cascata Poço do Inferno e pelo imenso Vale Glaciar do Zêzere.

6847e-dsc05340sábado

b0726-dsc05403domingo

Na Serra da Estrela nascem o Zêzere e o Mondego, dois dos maiores rios que correm por inteiro no nosso país. O Vale Glaciar do Zêzere é magnífico na sua forma em U, cerca de 13 km de comprimento desde a sua nascente até Manteigas. Esta forma característica deve-se à erosão do glaciar que levou à constituição deste vale, crê-se que há 19 000 anos, sendo estas as evidências glaciares mais a sul na Europa.

É aqui no vale que encontramos o Covão d’ Ametade, logo a seguir a uma curta descida da vista totalmente aberta para o vale glaciar. E é precisamente no Covão d’ Ametade que o Zêzere se vai formando e iniciando o seu rumo de mais de 200 km até desaguar no Tejo, em Constância. O Covão d’ Ametade é uma área deprimida e mal drenada onde se acumularam sedimentos que deram origem à vegetação que o circunda. Típico de áreas de montanha de origem glaciar, nestas figuras geológicas encontramos normalmente pequenos lagos nos vales.

a7bcf-dsc05348

4a4a4-dsc05351

414fd-dsc05355

1bcea-dsc05367

Este é um lugar surpreendente e certamente lindíssimo em qualquer época do ano. Calhou-nos um cenário que poucos imaginariam ser português, um estreito curso de água acompanhado por árvores e montanhas – os Cântaros – nevadas quase por completo, uma imagem invernosa mais habitual no centro da Europa. Em forma de anfiteatro, com uma zona de lazer que inclui mesas para piquenique e até assadores, este é um lugar plácido. À sua volta rompem majestosos o Cântaro Magro, o Cântaro Raso e o Cântaro Gordo.

ae8c4-dsc05457

f3e30-dsc05433

e0b0f-dsc05427

À medida que vamos descendo para Manteigas, sempre com o vale glaciar por companhia, a neve vai ficando menos presente e o verde sobressai no terreno. A floresta está aqui mais presente do que em qualquer outro ponto da Serra.

63e1b-dsc05437

73fc3-dsc05444

Um vislumbre de água e rochas leva-nos a estacionar o carro à beira da estrada e descer para inspeccionar. A água é absolutamente transparente, só não convidando a um mergulho pela temperatura do ar abaixo de zero que se fazia sentir. É certo que temos que cá voltar para umas quantas caminhadas e banhocas quando o clima o permitir.

e4565-dsc05448

Manteigas é uma vila sossegada com o enquadramento natural como o seu encanto maior.

Como a estrada de Manteigas para o Sabugueiro, com passagem pela albufeira de Vale Rossim, estava encerrada devido ao gelo, repetimos com agrado o caminho em direcção à Torre, agora em versão subida.

adadc-dsc05471

A aproximação à Torre traz consigo uma série de miradouros soberbos, ou não estivéssemos nos mais altos poisos de Portugal. O trânsito por vezes tem pontos positivos e neste caso foi deixar-nos parados mesmo junto ao formoso Cântaro Magro, desta vez em versão granito nevado.

0d0cd-dsc05464

2018b-dsc05469

Um pouco antes fica o miradouro Nossa Senhora da Boa Estrela. Pleno de rochas com formas diferentes e até irreais, numa delas encontramos esculpida a padroeira dos pastores.

a99f8-dsc05488

E eis que chegamos à Torre.
Estamos precisamente a 1993 metros de altitude, o ponto mais alto de Portugal continental. Diz-se que daqui se pode observar metade do território português e parte do espanhol.
Foi D. João VI que no século XIX mandou construir uma torre para que pudéssemos dizer que o lugar alcançava os 2000 metros. Entretanto foram ainda construídas duas estruturas – os radares abobadados de cabeça amarela – que são hoje uma das imagens de marca da Serra da Estrela.
Isso e o centro comercial mais alto do país, onde cada espécie de loja vende exactamente os mesmos produtos da sua vizinha. Queijo, presunto, pão regueifa, roupa. Tudo produtos da região.

cfb44-dsc05492

IMG_1894

da856-dsc05474

e0e52-dsc05480

Da Torre saem umas pistas da Estância de Ski da Serra da Estrela (entrada cá em baixo), a única no país. Pequeninas, quer a estância quer as pistas, mas ainda assim razoáveis para matar o bicho em terra lusa aos aficionados.

Dizendo adeus à Torre, ainda antes que a luz dos diminutos dias de Inverno se fosse, houve tempo para descer a Serra pelo lado de outra das suas mais importantes povoações: Seia. Tudo ao redor estava nevado, cortesia do forte nevão da véspera, e as cores do fim do dia não eram perturbadas nem pelas nuvens quase à nossa altura.

beb33-dsc05498

967a1-dsc05506

6a58b-dsc05507

É neste caminho que encontramos a Lagoa Comprida, umas das 25 lagoas do Parque e, provavelmente, a mais famosa. A 1580 metros de altitude, este é um glaciar tornado barragem. A sua estrutura em granito é poderosa. Podemos, e devemos, subi-la para apreciar o espelho de água onde se avista ao longe no cimo de uma elevação uma casinha branca. Este pequeno monte faz lembrar as cavacas, doce típico de algumas regiões, em particular de Aldeia das Dez, não muito distante daqui.

daed1-dsc05511

338e3-dsc05518

Mais lagoas se seguem até entrarmos no Sabugueiro, conhecida como a aldeia mais alta de Portugal, instalada a 1050 metros de altitude (este título não será, porém, correcto, uma vez que em Montalegre existem aldeias a maior altitude). Esta aldeia já no concelho de Seia é uma das portas de entrada no coração da Serra da Estrela, mas confesso que não lhe acho grande piada pelo ar de feira das suas lojas e mais lojas. Mas esta é também a vertente da Serra mais agrícola e virada para a pastorícia, lugar por excelência da feitura do Queijo da Serra.
Muito ficou a faltar conhecer, não fosse este o maior Parque Natural do país.
Mais planos para o futuro, portanto: percorrer a estrada que segue pelas Penhas Douradas, dita por um local como o pedaço mais bonito da Serra, e aquela que nos leva a Loriga, zona de vales rodeados de montanhas.

A montanha, sempre ela.

2cdce-file2b24-01-18252c2b102b332b30

 

Poço da Broca

Banhava-me junto à nora do rio em São Sebastião da Feira num daqueles fins de tarde incrivelmente quentes de Julho quanto um parceiro de relax me dá a dica para visitar a Barriosa, um lugar fantástico não muito distante dali. Como podia um tripeiro de passagem pela Beira saber de um lugar fantástico a 15 minutos da terra da minha avó e eu nunca ter ouvido falar dele? 
O certo é que esta alfacinha tinha de voltar no dia seguinte para a capital, mas ficou os próximos meses a matutar na ideia. Até que em Setembro cheguei finalmente ao Poço da Broca – assim se chama o lugar fantástico na Barriosa, Vide, já concelho da Guarda. 
 
É uma parede extensa de cascatas que caem de uma falha (ou talvez de um terreno manipulado pelo Homem para melhor servir os seus propósitos agrícolas) para a Ribeira de Alvôco. 
 

O lugar é lindíssimo e mesmo numa época prolongada sem chuva a água que jorra lá de cima é suficiente para nos encantar. Não consigo imaginar o quão poderoso será o cenário após uma forte chuvada.   
Este espaço é também uma praia fluvial. Podemos mergulhar, estender a toalha, sentar na esplanada ou comer uma refeição completa no elogiado restaurante Guarda Rios ali mesmo à beira. 



Ou podemos sair para uma curta caminhada circundando o rio e cascata. 

Vistas privilegiadas é o que ganharemos.

Vemos a pitoresca nora de um antigo moinho, a brutal sucessão de cascatas, as águas ainda assim plácidas, a paisagem serrana. 


 

Subindo chegaremos a um outro patamar onde o rio corre calmo e um barco estacionado parece ter sido ali colocado para conferir maior dramatismo ao postal. 

Tudo belíssimo. 
No fim, por curiosidade descubro que em linha recta estamos apenas a 15 km da Torre, o ponto mais alto de Portugal continental. 

Tudo tão perto.

Piodão – Chãs d’ Égua – Foz de Égua – Piodão

Este é o maior e mais completo percurso pedestre que se pode fazer ao redor do Piodão. 

Em tempos havia percorrido o trilho de ida e volta até Foz de Égua, aqui descrito).

Agora, do Piodão até Chãs d’ Égua, passando pela praia fluvial de Foz de Égua e retornando ao Piodão são cerca de 10 intensos quilómetros, mais de quatro horas de uma soberba caminhada, pelo que é aconselhável sair bem cedo de manhã.




Logo pela manhã o Piodão recebe-nos vazio, sem as enchentes de turistas, ideal para deambularmos pelas suas sinuosas e declivosas ruazinhas conquistadas ao terreno em sossego. Os materiais usados nas suas típicas e pitorescas casas, já se sabe, são o xisto e a madeira, aqueles de que a região é pródiga. A tinta azul para pincelar as portas e os detalhes das frestas das janelas diz-se que era a única cor à disposição na povoação depois de lá ter sido deixada um lata de tinta dessa mesma cor. Lendas não faltam. 



Percorremos, então, o Piodão em direcção ao cemitério onde iniciamos o trilho até Chãs d’ Égua. 






A paisagem entusiasma desde o primeiro minuto. A Serra do Açor abre-se-nos em todo o seu esplendor e inunda-nos de felicidade. Enquanto que no topo vamos vendo os seus picos elevados recortando a paisagem e desenhando vales no horizonte, em baixo vemos desfilar os socalcos e as casinhas em xisto, forma artística do Homem adaptar esta natureza magnífica mas adversa às suas necessidades. 




Esta primeira parte do percurso é fácil. Quando descemos para a estrada e começamos a seguir no asfalto até à povoação com o curioso nome de Pés Escaldados e daí até Chãs d’ Égua é que tudo se torna mais cansativo por causa da subida e do calor. 


Pés Escaldados é um pequeno ponto na paisagem com as típicas casas de xisto da região e uma fonte branca a marcar a diferença. Já Chãs d’ Égua é um povoado maior de casas brancas encravado num vale  onde não faltam também as ditas casas de xisto com as telhas de lousa. 




Por esta zona foram encontradas algumas rochas com gravuras de arte rupestre, daí que há poucos anos tenha sido criado o Centro Interpretativo de Arte Rupestre de Chãs d’ Égua no edifício da antiga escola primária.



Deixando esta povoação para trás e todo este imenso e soberbo vale, iniciamos então a descida em direcção a Foz de Égua. Os ribeiros começam a acompanhar-nos e agora já não são apenas as casas e degraus em xisto a compor a paisagem: também as pontes de xisto a marcam para deixar as águas correr leve sob os seus arcos.





O caminho de Chãs d’ Égua até Foz de Égua não é especialmente difícil ou técnico, mas requer atenção e cuidados e bom calçado. Algo acidentado, tanto sobe como logo de seguida volta a descer, sendo estreito e escorregadio em alguns momentos. Sempre bem marcado, porém.





A chegada a Foz de Égua não engana. Avista-se ao longe o seu casario e, em especial, a sua ponte suspensa de estacas. Lá em baixo a praia fluvial boa para lavar os joelhos. Mas, também, sem chuva não se pode pedir muito mais.

Após uma breve banhoca e um curto descanso há que voltar ao Piodão, percurso fácil e belíssimo de uns meros 40 minutos.



Acontece que o acumulado e, sobretudo, o dia escolhido para esta caminhada tornaram a volta num quase tormento. Dia 17 de Junho de 2017, viríamos todos a saber nos dias seguintes, um dos dias mais trágicos no nosso país, dia de clima atípico, dia de calor extremo, dia sem humidade, dia irrespirável nas Beiras. 

Ainda a manhã não tinha chegado ao fim e já tinha bebido quase três litros de água e guardava ainda mais meio litro para o que desse e viesse (ia preparada). A uma meia-hora do Piodão vejo no caminho uma rapariga estendida no chão e o seu namorado pede-me algo com açúcar como ajuda. Dou e sigo o meu caminho pensando que tenho de chegar o mais rápido possível ao Piodão pois estou sozinha, algo que não apenas o cansaço começa a apoderar-se de mim e desato a imaginar coisas. Já não consigo aproveitar a paisagem do vale que cai para a minha direita e que sei que é belíssimo, já só penso em chegar.


E chego. Ainda com força para tirar a última foto. 
O silêncio impera. Como se antecipasse o que estaria para vir nas próximas horas.

Fraga da Pena

Da Fraga da Pena já havia falado em tempos aqui.
Mas é lugar tão bonito, tranquilo e luxuriante que vale sempre a pena nova visita.





Localizado na Mata da Margaraça, na Área Protegida da Serra do Açor, a cerca de meia-hora do Piodão e cinco minutos da Benfeita, outra aldeia de xisto que merece uma visita, aqui vemo-nos envolvidos pela natureza em estado puro.






No meio de uma vegetação profunda descobre-se  escondida num desvio da estrada uma sucessão de quedas de água irreal, cortesia de um acidente geológico.
A maior cascata cai de cerca de 20 metros de altura para uma piscina de água transparente e fria. É difícil o sol penetrar por entre o intenso arvoredo, feito na maioria de carvalhos, castanheiros e medronheiros, pelo que este é o lugar perfeito para fugir do calor.






E avançando pelo terreno acima vários patamares se nos abrem e vamos encontramos recantos e mais recantos, lugares perfeitos para o que sonharmos, onde o silêncio apenas é interrompido pelo som da água a correr ou o ruído dos bichos que por ali habitam. 




Para enfeitar ainda mais o lugar não faltam sequer umas casinhas em xisto.
De volta à base, cá em baixo existe um parque de merendas, pelo que para além do fato de banho é obrigatório não esquecer a lancheira.

Subida ao Monte do Colcurinho

O Monte do Colcurinho é o ponto mais elevado do concelho de Oliveira do Hospital, erguendo-se a 1242 metros de altitude. 

Parte integrante da freguesia de Aldeia das Dez, por aqui habituamo-nos a referir-se-lhe apenas por “o Cabeço”.

O Cabeço funciona quase como um guardião. De quase qualquer canto do concelho de Oliveira do Hospital ou de Arganil o vimos ou, pelo menos, sentimos.

Subi-lo é uma experiência arrebatadora.

Podemos fazê-lo de carro ou a pé. 

De carro, a viagem é assustadora, numa estrada absolutamente inclinada e estreitíssima cheia de curvas. Não a faço há décadas, mas tenho o medo marcado até hoje.

A pé, a viagem assemelha-se mais à Via Sacra em sentido literal, que não no sentido figurado que nos é apresentada no Vale de Maceira, onde começa o percurso que agora proponho de caminhada até ao Monte do Colcurinho.

Vale de Maceira é o lugar do Santuário de Nossa Senhora das Preces, um conjunto de 13 capelas. A 13ª capela, a de Santa Eufémia, fica um pouco mais afastada das demais e é depois dela, junto à antiga casa do guarda florestal, que se inicia o percurso pedestre de subida para o Colcurinho. 

Daqui até ao Cabeço são cerca 4 ou 5 quilómetros numa penitência de uma hora e meia sempre a subir. Soa terrível mas a paisagem é redentora. 


O início deste caminho aberto no pinhal é um bom exemplo do que nos espera durante todo o percurso, subidas muito inclinadas. Mas aqui temos sombra, o que deixará de acontecer em breve.


Quando ficamos acima dos pinheiros começamos a perceber, enfim, o cenário que nos espera mais acima no Cabeço: uma paisagem ampla e totalmente aberta em todas as frentes. 


Num só olhar conseguimos abarcar Aldeia das Dez, Cimo da Ribeira, Goulinho e Vale de Maceira; 


num outro olhar Chão Sobral e Alvôco; 


num outro olhar ainda Gramaça, Porto Silvado e Vale do Torno.



O Colcurinho faz parte da Serra do Açor e embora não seja o seu ponto mais elevado é talvez o seu cerro mais mítico e celebrado. No seu alto se construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora das Necessidades. Conta-se que aqui apareceu a Virgem no ano de 1371 e até hoje este é local de peregrinação. 



Na região qualquer comemoração ou festa serve de pretexto para se subir ao Cabeço e lembro que há décadas até para cá viemos em romaria de madrugada à anunciação de uma passagem de um cometa ou chuva de estrelas. Não recordo o evento, mas recordo a noite gelada de verão que passámos enroladas em cobertores. E provavelmente também ventosa. Não é à toa que a paisagem é polvilhada por antenas eólicas. Por isso que à medida que vamos subindo a vegetação torna-se mais rasteira e vai escasseando e a aridez toma conta do lugar. 







Região de xisto, a urze e o medronheiro fazem-lhe companhia.



A aproximação ao Cabeço é um momento de alegria e a chegada ao topo uma verdadeira conquista. Feito com esforço, distinguido com um panorama superior. 


Para além das vistas que já vínhamos alcançando ganhamos agora a vista para a encosta onde está localizado o Piodão e o círculo fica completo.

Aqui já não interessa o que é o quê. Tudo se mistura num abraço infinito. Serra do Açor, Serra da Estrela, Serra de Montemuro, Serra do Caramulo. Ainda para mais, desta vez estou sozinha a 1242 metros de altitude e não vejo ninguém a quilómetros de distância. O mundo é o que eu quiser que seja. 

Contemplo a paisagem imensa e descanso no topo do meu mundo.

A descida é fácil. Se na subida vim pela frente debruçada para o Chão Sobral, na descida aproveito para me debruçar sobre a Gramaça, ambas também povoações distantes da freguesia de Aldeia das Dez.


Aldeia das Dez – Avelar – Alvôco – Aldeia das Dez

Avelar é aquela povoação que fica para lá do campo da bola, mas que em tantos verões passados em Aldeia das Dez nunca tinha tido curiosidade de espreitar.

Desta vez cheguei a Aldeia, calor tórrido a pedir um mergulho no rio, mas decidi adiar o refresco. O plano era caminhar até ao Avelar a pé, pela estrada, e depois daí até Alvôco, cair no rio e voltar por caminhos para cima até Aldeia das Dez.
Assim o fiz. 

Passei a fonte do Cabo Lugar e, como é da praxe, dei as boas tardes ao casal que aí se abastecia de água. Passei o que era a Casa do Povo e o Cemitério, já não vi o campo da bola onde há décadas ia fazer claque para o pinhal para que os coxos da nossa aldeia metessem golos, e reparei então que por esta estrada podemos não só sair para Alvôco como até chegar ao Chão Sobral. 



Afinal parece que o Avelar não é o fim do mundo. Durante anos pensei que a estrada para lá era de terra batida e que não havia saída. Nada mais errado. A estrada é de asfalto e como todas por aqui: a uma curva segue-se outra ainda mais apertada; se a ida é sempre a descer a vinda é sempre a subir; a vegetação é carregada de pinhal; a paisagem é fabulosa. 

Eis mais um pedaço da Serra do Açor.

O Avelar é um conjunto de pouco mais de uma dezena de casas, terá igualmente pouco mais de uma dezena de habitantes e faz parte de Aldeia das Dez. 


A sua localização encravada num vale é surpreendente. A serenidade é tanta que deixando o povoado para trás, já a uma certa distância do Avelar e a caminho de Alvôco, podemos ver e ouvir o chocalhar dos rebanhos que pastam lá em baixo.
Voltemos, porém, um pouco atrás na história, mas não no caminho. De Aldeia das Dez ao Avelar são cerca de 3 ou 4 kms por estrada (não sei se haverá caminhos melhores). A natureza envolve-nos de uma forma esmagadora e é difícil não nos deliciarmos com a paisagem, mas o calor já tornava a caminhada estafante quando a cerca de um quilómetro do destino o dito casal da fonte passou de carro e me ofereceu boleia, pelo que a aceitei.

Cumpre aqui referir porque apenas neste ano de 2017 se terá feito um clique na minha vontade de visitar o Avelar. Meses antes tinha lido várias cartas entre o meu avô – que não cheguei a conhecer – e um seu tio emigrado na América em que tema recorrente era as perguntas sobre a Aldeia e o Avelar. A família paterna do meu avô era do Avelar. E, mundo pequeno, claro que fiquei a saber que o condutor da minha boleia (que afinal não era um casal) era casado com uma das primas do Avelar do meu avô. O mergulho no rio ficou adiado por mais uma hora e o passeio transformou-se em conversa e troca de (escassas) memórias.


O Avelar é apenas um ponto de passagem. Embora possua uma igreja, à semelhança do Chão Sobral são as badaladas do sino de Aldeia das Dez que se fazem sentir. As poucas pessoas que aqui vivem fazem-no num completo isolamento. Passei por aqui no dia 15 de Junho, dois dias antes do fatídico dia 17 do fogo de Pedrogão Grande, mas já pensava como seria possível viver aqui com o terror de imaginar o fogo a avançar sobre nós, tão carregada é a vegetação. Aliás, curiosa e inequívoca foi a expressão de um primo (aqui todos devem ser ainda primos) quando após se ter espantado por eu andar sozinha lhe perguntei se havia algum perigo nisso. Respondeu-me que o único perigo por aqueles lados era o “homem negro”. O fogo, pois claro. E deve ser mesmo o único perigo, porque até a chave de casa ainda fica na porta, pelo menos durante o dia.




O caminho de Avelar até Alvôco são também uns 3 ou 4 kms, mas agora numa descida mais pronunciada. A paisagem continua agradável, pura floresta.

Alvôco das Várzeas fica à beira do rio Alvôco, afluente do Alva, num vale com vista para a Serra da Estrela. Vale a pena conferir a vista da estrada nacional que segue da Ponte das Três Entradas para a Vide, do lado contrário à que entrámos agora, só para compreender a sua localização absolutamente soberba. 


A estrada que vem do Avelar vai ter precisamente à ponte medieval de Alvôco, destaque total desta aldeia. Datada do século XVI, é pura elegância do alto dos seus dois arcos. Bastante inclinada, do seu topo obtém-se mais uma vista privilegiada. 






Lá em baixo fica a praia fluvial de Alvôco, diz-se que aquela que possui das águas mais limpas do país. A notar pela transparência das suas águas, não duvido. E fica então cumprido objectivo do tão desejado mergulho, ainda para mais sob uma ponte medieval. Cenário mais inspirador era difícil de encontrar. 



A subida de volta para Aldeia das Dez começa plana, nas margens do rio num vale junto à Moenda. A designação Moenda vem dos vários moinhos que por aqui existiam, alguns ainda em laboração pela região. Passamos por um rebanho e por uma tímida ribeira  devidamente acompanhada pelo tranquilo som da sua água a correr e o descanso termina. 





A partir daqui é sempre a subir. Menos de meia hora e eis que se avista formosa a igreja da nossa Aldeia miradouro.

(antes d)O Fogo

Os próximos 4 posts dedicam-se a passeios pelos concelhos de Oliveira do Hospital e de Arganil efectuados durante os meses de Junho e Setembro e foram escritos antes dos arrasadores fogos de 15 de Outubro. A paisagem de todos estes locais encontrava-se luxuriante, uma vegetação que desde 2005, data dos últimos grandes fogos na região, crescia livre e sem amarras. Não obstante, o tom das gentes que por aqui habitam era premonitório: não havia quem não temesse e não suspeitasse que o fogo estava para vir.