Kunming


Kunming é a capital da província do Yunnan e encaixa como uma luva na ideia da nova China, uma China em rápida transformação. 
Kunming não foi uma cidade que surgiu do nada, porém. Durante muitos séculos permaneceu como um centro estratégico nas rotas das caravanas que vinham da Birmânia e da Índia e há registos de Marco Polo a ter visitado no século XIII. 
Ainda hoje a sua posição estratégica faz de Kunming um hub na transferência de pessoas (entre as quais turistas) e está ainda nas modernas rotas de comércio. O seu desenvolvimento moderno começou, no entanto, com a invasão japonesa do século XX que trouxe os nacionalistas chineses para aqui em busca de refúgio, tendo estes começado a desenvolver a cidade construindo infraestruturas. Desde as últimas décadas, à semelhança de muitas outras cidades médias para os padrões chineses, Kunming tem vindo a crescer exponencialmente e hoje tem cerca de 6 milhões de habitantes. É uma cidade moderna, de avenidas largas, cheia de viadutos e conjuntos de prédios enormes.
E o clima temperado da cidade, cujo cognome é “a cidade da eterna primavera”, também atraiu alguns dos seus habitantes.

Mas dessa tal primavera, quanto a nós, nem sinal. 

Dois dias em Kunming, dois dias de eterna chuvada. 
E, claro, isso condiciona totalmente a percepção com que se fica de um lugar.
Eis, pois, o relato da visita possível, sempre com água pelo joelho.


Kunming é uma cidade com muitos parques, lagos e flores, isso deu para perceber. 
Cuihu, o Lago Verde, é o coração saudável da cidade e a área mais atraente para o turista se estabelecer. Aqui perto existem restaurantes, bares e lojas, o templo Yuantong e o mercado de flores e pássaros. Não necessariamente tudo na mesma direcção, mas tudo a uma distância facilmente percorrida a pé. 


Começando pelo templo Yuantong, este é um dos maiores templos budistas chineses da época Tang e tem cerca de 1200 anos. Os pavilhões vão se sucedendo à medida que caminhamos pelos halls a céu aberto, desprotegidas da chuva. As pontes conferem uma maior beleza ao lugar, mesmo num dia feio e mesmo se o lago não possui água para além daquela que teima em cair copiosamente das nuvens.


O mercado de flores e pássaros é, mesmo em dia de chuva, uma zona viva da cidade. Nesta zona, que pode ser considerada o centro histórico da capital do Yunnan, sobram ainda algumas, poucas, casas de madeira na fila para serem substituídas pelos edifícios de concreto de número indefinido de andares. Deixar-se-ão uma dúzia delas em mau estado de conservação, só de um lado ali naquela rua velha, por exemplo, para se mostrar como outrora havia lojas físicas onde as pessoas iam comprar carimbos, selos, medalhas, taças, galhardetes, quinquilharia varia, enfim.  


Esta zona pode parecer um ser estranho em relação ao resto da cidade, mas não é tanto assim. Vou misturar assuntos, talvez seja o excesso de água que já tenha chegado à barriga e me tenha parado a digestão ou então chegado ao cérebro e me tenha feito da cabeça um aquário com peixinhos a passearem por aqui sem destino aparente. 

Os esforços de urbanização são evidentes, mas os costumes dos indivíduos nem sempre acompanham o planeamento das cidades. Os chineses daqui não parecem tão sofisticados. Lojas de telemóveis estão em todo o lado, a Oppo é dona e senhora no ramo e os preços não são amigáveis. Olha a New Bunren, podia jurar que tinha andado com a irmã gémea New Balance no ginásio. Ai esta enchurrada que não pára. Temos de avançar por este viaduto, mas como se cai terra lá de cima? Ficamos uma hora e meia paradas no trânsito para fazer um percurso de quinze minutos. Nada circula e as inúmeras vias rápidas mostram que podem ser muitas e rápidas mas que sólidas é que não são. O pior há de ser na vinda. Depois de um dia inteiro de chuva já nenhum taxista vai ser apanhado de surpresa com o caos pelo que se vão recusar na viagem ou pedir um preço exorbitante. Resultado certo: segunda alternativa e mais uma hora e meia de trânsito para fazer um percurso que em condições normais se faria novamente em quinze minutos. O progresso e a tecnologia podem fazer parte desta nova China, mas os transportes colectivos informais continuam a fazer parte do dia a dia e eles por ali vão, juntamente com todos os outros veículos, a galgar passeios, fugindo à confusão, no salve-se quem puder, tentando chegar primeiro do que todos os outros. Cansadas, aborrecidas e ensopadas, acabamos tardiamente a jantar uma pizza, mas antes de fechar os olhos para dormir sonhamos com o que teria sido o sabor dos crossing the bridge noodles. 


Valha a verdade que um pouco de bonança nos tocou no momento do nosso passeio a Shilin, a floresta de pedra a cerca de 1600 metros de altitude e a 2 horas de distância de autocarro de Kunming (o autocarro vai da estação Este da cidade até mesmo à entrada do Parque de Shilin) – a chuva deu uma momentânea trégua.
É perfeitamente possível uma visita de um dia de forma autónoma, sem guia ou visita organizada. Os autocarros saem com frequência e uma vez no Parque é só deixarmo-nos caminhar por cerca de 3-4 horas e ficamos com uma boa ideia do que a natureza tem para nos oferecer. 


Esta é uma zona cársica em a que a erosão pelo vento e pela água foi causando fracturas no calcário, desviando as rochas, deixando-nos um cenário fantástico e intrigante. As rochas tomam aqui formas absolutamente curiosas. Pináculos emergem inesperadamente quer na sua forma quer no seu sentido. 


Temos flores




E temos lagos tranquilos. 


E extensos mantos relvados verdejantes. 

Mais uma vez, a entrada no Parque não é nada barata, mas depois de lá estarmos e vermos como tudo está perfeitamente conservado e como é extenso o lugar compreendemos que tudo tem um custo. 



Existem aqui inúmeras possibilidade de caminhos. Comprova-se novamente o dito que 80% dos turistas se concentram em 20% dos locais, por isso há que sair dos locais mais óbvios, por onde andam os magotes de turistas chineses que aqui chegam em bando em excursões organizadas. 
A Minor Stone Forest é por onde se queda a maior parte dos visitantes. Aqui ficam os jardins naturais de pilares de pedra tão graciosos que é difícil acreditar que não tenham sido moldados propositadamente pelo Homem. Mas isso seria acreditar que a mão da Natureza não lhe é superior. 
As rochas assemelham-se a elefantes, cogumelos, deusas, mãe e filho, o que quisermos, o limite será a imaginação. 




O pagode construído pelo Homem no topo de uma das rochas é um dos lugares mais concorridos do Parque, mas a vista que daqui se alcança é fabulosa e dá-nos uma ideia exacta desta obra-prima natural. Uma autêntica desordem pitoresca.

Diz a lenda que os imortais moldaram a montanha de forma a que esta se tornasse um labirinto para que os amantes melhor pudessem namorar em privacidade. 




E essa privacidade é possível, por exemplo, no Major Stone Forest, no Bushao Shan. Um pouco mais afastado da zona central, é possível encontrar caminhos infinitos cruzando-nos com pouca gente. Caminhos com passagens estreitas por entre as rochas, diz-se que são cinco as portas naturais de pedra por aqui, portas feitas de frestas espaçosas o suficiente para passar um corpo esbelto que as rochas gentilmente nos deixaram. 
Shilin é um lugar excepcional para caminhar também. Partir à descoberta de novas formas. Dar asas à imaginação. Lugar encantado e feliz onde uma placa nos diz: “a relva esta a sorrir, não a perturbes” – e nós respeitamos, caminhamos sobre ela, olhamos uma vez mais um dos pilares de rocha que a rodeiam e sorrimos também. Olhamos o céu e três horas depois volta a chover. Sorrimos novamente. É hora de voltar a Kunming.

Pelo Lago Erhai

O Lago Erhai, o sétimo maior lago de água doce da China, fica junto a Dali.
A 1973 metros de altitude, esta é uma região plácida, feita de vilas bai com arquitectura bem preservada e mercados vivos.
Dar a volta ao lago todo faz da jornada cerca de uma centena de quilómetros. Sem veículo próprio o mais acertado é alugar uma bicicleta e visitar uma ou mais vilas próximas a Dali ou fazê-lo através de autocarro. Foi o que fizemos, até porque foi um dia de chuva este o que nos tocou.
A cerca de trinta minutos de viagem de autocarro fica Xizhou, uma das vilas bai mais autênticas. 




O enquadramento natural da montanha é belíssimo e os reflexos no rio exacerbam ainda mais o cenário dramático. 








A vila é pequena mas cheia de pormenores para se descobrir, seja a entrada num templo escondido, num outro escancarado, uma rua de comércio local, comida típica feita artesanalmente no momento, um café amoroso e até um centro cultural, o Linden Centre (também hotel), com um bonito pátio.  










A uma longa mas agradável caminhada fica o Lago Erhai. Até lá vamos vendo às montanhas ficando cada vez mais distantes. Os campos de arroz vão trazendo novas tonalidades de verde à paisagem. Vão-se avistando mulheres bai a trabalhar nos campos. Alegres e simpáticas. Cavalos soltos. Trigo para variar do arroz. Um templo.
Até que chegamos finalmente ao Lago. E ao idílio.








Dali

De Dali, a velha Dali (não confundir com Xiaguan, a nova Dali, também referida como Dali), fica a sul de Lijiang e foi em tempos um ponto igualmente incontornável na Rota do Chá e do Cavalo, a auto-estrada comercial que ligava a China, o Tibete e a Índia. A cidade velha de Dali não possui, no entanto, o encanto fácil de Lijiang, pelo que as comparações param aqui.



A sua localização é fantástica, encravada entre a montanha de Jade Verde (Cang Shan) – e se ela é verde! – e o Lago Erhai. 




A vida na cidade é relaxada, embora cheia de lojas de souvenirs que se repetem até à exaustão. Tem até uma rua hipster com cafés que poderiam fazer parte da colecção de uma capital europeia. Aliás, existe até uma rua por aqui conhecida pelo nome de “rua dos estrangeiros”. Disso, porém, não guardarei grandes recordações. 



Lembrarei, sim, os pormenores da arquitectura Bai nos edifícios da velha Dali e nas vilas junto ao Lago Erhai. Mais uma vez, as portas fechadas dos seus edifícios tornam-os mais bonitos, possibilitando-nos apreciar na plenitude todos os seus motivos decorativos. 






Mas são as pinturas que marcam presença em quase todos os edifícios, novos ou antigos, de habitação ou templos ou até simples muros, essas pinturas que encontramos um pouco por todo o lado, mais ou menos elaboradas, são elas a marca mais distinta da arte bai. Os Bai são a minoria étnica da região de Dali, antigo centro do reino Nanzhao entre os séculos VIII e XIII, os quais chegaram a expandir-se para o Sichuan, Birmânia e Tailândia. Ao contrário dos Naxi de Lijiang, os Bai de Dali são taoistas e possuem templos. 

Curiosamente, no entanto, são um símbolo do cristianismo – uma igreja – e outro do budismo – pagodes – duas das grandes atracções de Dali.






A igreja da Trindade Católica de Dali, obra de um padre francês que por aqui andou na década de 20 do século passado, é surpreendente. Embora não estejamos acostumados a esta explosão de cor numa igreja católica, o resultado desta mescla de estilos han, bai e europeus é harmonioso e encantatório. A forma da igreja é a de um pagode, só que encimada por uma cruz. Telhados hiper trabalhados com decorações com motivos bai do leão, elefante e dragão a que se junta a fénix. E o interior é simples e despojado, próprio de um missionário.


A San Ta Si, os Três Pagodes, não é menos surpreendente. A uma breve caminhada da velha Dali, deixando a porta norte para trás (uma das quatro portas monumentais da cidade), e entrando pela ruralidade, este é o seu símbolo incontestado e uma das imagens mais conhecidas de toda a província do Yunnan. 


Já tinha visto fotos do pagode mor, mas não esperava o arrebatamento do lugar. No sopé da montanha Cang Shan, e avistando-se o Lago Erhai na direcção contrária, erguem-se no meio de um vale verde bem cuidado três enormes e bem distintos pagodes. O mais antigo, o Qianxun, é também o mais alto, com 69 metros. Incrível saber que foi construído no ano de 850, logo, continua ali, belíssimo e imponente, do alto da sua já mais do que milenar idade. Os outros dois pagodes, um século mais novos, fazem-lhe a guarda, simétricos. Não é possível a visita ao interior de nenhum destes pagodes.
A entrada do parque onde fica o complexo San Ta Si não é nada barata, cerca de 15 euros. Como só se vêem os pagodes por fora e o templo que supostamente ali há para ver é uma construção recente, sem história, válido apenas como um outro ponto de observação para os 3 Pagodes, há quem descreva este sítio como uma armadilha para turistas. É um ponto de vista. Há outro: se pensarmos que provavelmente não voltaremos a Dali, 15 euros para nos deixarmos estar numa sombrinha com vista directa para um pagode milenar num ambiente atmosférico parece um preço justo.

Baisha, arredores de Lijiang

Quem vem até Lijiang segue muitas das vezes até ao Tiger Leaping Gorge e depois até Shangri- La. Esta última, anteriormente conhecida como Zhongdian até James Hilton a ter colocado no mapa com o seu livro Horizonte Perdido, fica às portas do Tibete e ficou grandemente destruída após um violento incêndio em 2014 de que vem lentamente recuperando. Não colocamos em hipótese visitá-la nesta nossa viagem, pois era coisa para ocupar uns quantos dias. Quanto ao Tiger Leaping Gorge, pelo contrário, era nossa intenção fazer pelo menos parte do seu trilho, reconhecido como um dos mais fantásticos de toda a Ásia. No entanto, tivemos notícia, já em Lijiang, de que condições atmosféricas recentes levaram a que a estrada que leva até lá estava em reparação pelo que fomos forçadas a mudar de planos.
Assim, junto a Lijiang limitamo-nos a visitar Baisha e Suzhe, duas vilas próximas o suficiente para nos ocuparem um dia inteiro num agradável passeio de bicicleta. 


Saindo de manhã rumo à (mais uma vez) encoberta montanha do Dragão de Jade Nevado, ainda distante no horizonte, deixamos Lijiang para trás, cidade ainda pouco confusa no que ao trânsito diz respeito, mas já preparada para o futuro, quer nos muitos prédios que já se avistam na sua periferia quer nas muitas faixas rodagem. As vias rápidas têm sempre uma faixa exclusiva para motociclos e para bicicletas, pelo que andar de bicicleta é seguro.
Baisha fica a cerca de 10 km de Lijiang e é sempre seguir em frente, sem nada que enganar, num caminho plano onde as montanhas têm lugar apenas do nosso lado. O ar rural vai-se fazendo sentir cada vez com mais preponderância.


A pequena vila de Baisha é famosa pelos seus murais de frescos dos séculos XV e XVI pintados por artistas tibetanos, han, naxi e bai, com cenas da vida do budismo e taoismo. 


Estes frescos, que podem ser visitados no complexo de tempos de Dabaoji Gong, estão em más condições, a maioria deles de fraca percepção, foram sendo destruídos não só pela acção do tempo mas sobretudo pela acção ideológica do exército vermelho durante a revolução cultural. O sítio vale, no entanto, pela graciosidade dos pavilhões e seus jardins. 


E Baisha entrou no mapa do (pouco) turismo ocidental graças ainda a Bruce Chatwin que a tornou famosa ao falar num dos seus artigos do Doutor He, um herbalista local falecido há poucos anos.
O mais interessante em Baisha, porém, é o seu ambiente relaxado e autêntico. Longe da confusão e do frenesim de Lijiang, nesta que já foi a capital do império Naxi. Os naxi são descendentes de tribos nómadas tibetanas. A sua religião é xâmanica e animista. Veneram a natureza e não têm templos (os poucos que vimos são tibetanos). Outra curiosidade da sua cultura é que a sua sociedade é matriarcal. Aliás, quando vieram para esta zona do Yunnan os han tiveram algumas dificuldades em lidar com este aspecto no que respeita à sua tradição de casamentos arranjados. As mulheres naxi, pelo contrário, tinham por costume casar livremente e serem elas a escolher os seus maridos.
Em Baisha é possível visitarmos um instituto onde as meninas aprendem os costumes e tradições locais, um dos quais os bordados, provavelmente a forma mais típica de artesanato.  


Outra das características distintivas dos Naxi é o seu sistema de escrita singular. A única linguagem hieroglífica ainda em uso no mundo, com mais de 1000 anos e composta por mais de 1400 hieróglifos, ainda hoje os Naxi se comunicam através desta forma.



A atmosfera e sensação de paragem no tempo será o que mais reteremos desta visita a Baisha.
Recordaremos o saboroso e bem confeccionado peixe que comemos sentadas numas mesas improvisadas à beira da rua, depois de escolhermos o dito peixe e restante refeição numa montra, por entre gestos. 
Nesta pequena rua de terra empedrada uns aguardam que o tempo passe, enquanto outros fazem pela vida neste mercado informal.





De volta a Lijiang, um desvio para uma visita a Suzhe. Esta pequena vila, que vem sendo apontada como uma alternativa mais calma à enchente de Lijiang, parece isso mesmo: uma alternativa a Lijiang. Acontece que cópia por cópia, ficamo-nos com o original, certo? Suzhe pareceu-nos algo artificial, boa para cenário de fotografias de casamento, boa para ouvir covers de músicas, boa para reproduzir todas as lojas que já viramos na Dayan de Lijiang. Veredicto: Suzhe não teve, para nós, grande piada e conseguiu ser tão turística quanto a original Lijiang.


O Mercado de Lijiang

E às portas da Dayan, cidade velha de Lijiang, fica o mercado Zhongyi. 



Uma excelente experiência para se perceber como é o dia a dia das pessoas e contactar com as gentes locais e com os produtos locais. 



Aqui podemos ver como as pessoas carregam as suas compras em cestos às costas ou em carrinhos. 


Testemunhar o colorido das roupas das mulheres naxi. 



Observar as carnes e os peixes deixados à vista. 


Ou os sapos. 


Ovos, muitos ovos.


Espreitar a jovem que pretende vender melancia enquanto tenta resolver o quebra cabeças do cubo mágico. 


Ver uma vez mais os omnipresentes chás puer. 


Confirmar a simpatia dos chineses que teimam em oferecer-nos fruta.


Diz-se que o Yunnan é dos sítios onde há mais variedade de frutas exóticas. 
Líchias, pomelo, rambutan, fruta do dragão, um sem fim de sabores. 
Tentando meter conversa com uns simpáticos senhores que já me haviam oferecido umas líchias, pergunto a um deles – que não falava se não chinês – qual o nome chinês da líchia. 
Depois de repetir por diversas vezes o nome sem que eu o entendesse, pega então na minha mão e, abrindo-a, com o seu dedo começa a “desenhar” os caracteres correspondentes. 
Pensei: ok, entendi-te, os chineses são mesmo fantasticamente simpáticos. Quem diz que são fugidios e pouco dados tem talvez de vir até ao Yunnan ou pelo menos ao mercado de Lijiang provar umas frutinhas.

Lijiang


Lijiang é uma cidade histórica, com mais de 800 anos, e está situada na antiga Rota do Chá e do Cavalo que ligava a China e o Tibete e a Índia em rotas comerciais, mas por onde acabavam também por circular ideias e religiões, culturas diversas no geral. 
Classificada pela Unesco, a cidade velha de Lijiang é um exemplar de natureza, de arquitectura, de cultura, de engenho do Homem e até de resiliência e de superação. 
Começando por este último, esta região tem sido palco de diversas adversidades da natureza, a última das quais um devastador sismo em 1996. A cidade re-ergueu-se e reconstruiu o seu património edificado e no ano seguinte a Unesco, como reconhecimento dos esforços e da autenticidade da memória histórica do lugar, distinguiu Lijiang como Património da Humanidade.
A sua posição estratégica, a 2400 metros de altitude por entre montanhas nas nuvens do sul do Yunnan, fez com que Lijiang se desenvolvesse como uma cidade de comércio durante os Ming, por volta do século XIII. 



800 anos depois muitos continuam a demandá-la, mas agora quase todos turistas em busca da sua fama. E encanto. 
O seu centro antigo (Dayan) é compacto e feito de um emaranhado de ruas estreitas de pedra ocupadas por edifícios de madeira de dois andares com telhados cinzentos com pormenores esculpidos. 
Já temos aqui muito elemento a que dedicar o olhar contemplativo. 
A ver: ruas estreitas, ruas estreitas de pedra, edifícios de madeira, telhados cinzentos, telhados com pormenores esculpidos. 





Acrescento outros elementos característicos de Lijiang: portadas de telas (logo, edifícios mais bonitos fechados do que com as portadas abertas), janelas, candeeiros, balões, pátios, motivos decorativos com elementos florais, pássaros e instrumentos musicais.





A cidade é um verdadeiro labirinto. Já levávamos o aviso de que com grande probabilidade nos haveríamos de perder, pelo que limitámos-nos a tentar perceber onde ficava o nosso hotel e deixamo-nos caminhar pelas ruas. Se a planta da cidade não é recta, não ajuda o facto de a arquitectura ser uma só e as lojas praticamente todas iguais – até a canção que sai dos tambores é sempre a mesma, como se na escola de música ensinassem apenas uma nota. Por sorte, o nosso hotel ficava num dos cantos da cidade e, assim, pudemos confirmar em toda a sua plenitude aquela célebre máxima que diz que 80% dos turistas concentram-se em 20% do espaço. Obviamente que não evitamos os espaços mais carregados, de outra forma não teríamos percebido como esta pequena cidade pode receber 8 milhões de visitantes todos os anos, mas conseguimos caminhar por grande parte de Lijiang à larga.




A Praça Central de Lijiang é a Si Fang, o pedaço mais largo da cidade. Um grupo de meninas Naxi, a minoria étnica local, fazia na altura uma apresentação musical. Ouvimo-las um pouco e seguimos pelas ruas traseiras da praça em direcção ao Monte do Leão. 



A subida não foi fácil pelo calor que se fez sentir, mas a vista que se vai ganhando a cada passo é um privilégio mais nesta nossa rota particular. Não só porque os chineses viajam em grupo e sem fadiga, parece, e por aqui não marcam presença, mas porque a vista do conjunto dos telhados de Lijiang é fantástica. O emaranhado das telhas cinzentas é tal que se torna impossível distinguir as ruas estreitas da cidade. Visto daqui de cima tudo é uno e a coerência da velha Lijiang parece ainda maior. 






O parque Wanggu Lou, qualquer coisa como “Olhando o Edifício Antigo”, com a Torre Wangu, um elegante pagode de madeira de 33 metros, como se fosse uma torre sentinela da cidade, é um refúgio rodeado de ciprestes. E montanhas, claro. A vista é fantástica também por isso, porque entendemos na perfeição a implantação estratégica de Lijiang. Este parque e sua torre são aquisições novas na cidade, construções posteriores ao sismo de 1996 e à reconstrução do muito que ficou destruído. A visita à torre – pagode dá-nos a vista para as montanhas do Yunnan, sabendo que para lá delas há de estar o Tibete, mas dá-nos também as marcas de um budismo mais próximo do tibetano, com aquela paleta de cor que parece infinita. Ficamos sem dúvidas de onde estamos.

Lá em baixo avista-se o Palácio Mu


E com esta nano “cidade proibida” voltamos à confusão e a partilhar o espaço com um número demasiado elevado de turistas. Tomando o nome de uma influente família dos tempos da dinastia Qing, este palácio foi praticamente reconstruído na sua totalidade após o sismo de 1996. Com sucesso, diga-se. É um prazer caminhar pelos seus sucessivos pátios e edifícios coloridos. Os jardins conseguem transmitir-nos uma sensação de tranquilidade e neste complexo um elemento há que pela cidade fora possui uma importância desmesurada, de tal forma que a Unesco a ele se referiu aquando da distinção de Lijiang: os canais de água.




O sistema de abastecimento de água da cidade reveste-se desde há séculos de alguma complexidade e é o tal exemplo de engenho do Homem. Por toda a Dayan se veem canais e pontes mimosas, com flores devidamente a adornar o cenário. Das neves da mítica Yuelong Xue Shan, a montanha do Dragão de Jade Nevado, é donde corre a água que abastece a região e, em especial, o Lago do Dragão Preto que, por sua vez, abastece os canais da cidade formando um poderoso sistema de abastecimento e gestão de água urbana.



O Parque do Lago do Dragão Preto é provavelmente o maior postal de todo o Yunnan. É famosa a imagem de Lijiang com a Montanha do Dragão de Jade Nevado a enquadrar o elegante pavilhão que flutua no Lago do Dragão Preto. Só designações sugestivas. Pena que a montanha a norte não tenha comparecido neste que é o maior postal da terra “a sul das nuvens”.