Viana do Castelo

Viana do Castelo é uma cidade que surpreende.
Senhora de um conjunto de edifícios medievais de qualidade superior.
Não é uma das maiores cidades portuguesas, mas tem um centro histórico de tamanho superior a umas quantas capitais europeias.
Uma ponte obra de Eiffel liga as duas margens do Rio Lima.
Duas obras de dois prémios Pritzker convivem lado a lado junto à foz do Lima.
Dizer isto já não é pouco. 
E se lhe acrescentarmos que Viana foi cantada por umas quantas vozes (com Amália à cabeça), muitas das vezes em palavras escolhidas pelo poeta Pedro Homem de Mello?
Um exemplo, na sua “Canção de Viana”:

“A minha terra é Viana! 
Sou do monte e sou do mar. 
Só dou o nome de terra 
Onde o da minha chegar! 

Ó minha terra vestida 
Da cor da folha da rosa! 
Ó brancos saios de Perre 
Vermelhinhos da Areosa! 

Virei costas à Galiza; 
Voltei-me antes para o mar… 
Santa Marta! Saias negras 
Têm vidrilhos de luar! 

Dancei a Gota em Carreço, 
O Verde Gaio em Afife 
Dancei-o devagarinho 
Como a lei manda bailar! 

Virei costas à Galiza; 
Voltei-me então para o Sul… 
Santa Marta! Saias Verdes… 
Deram-lhe o nome de azul… 

A minha terra é Viana 
São estas ruas estreitas 
São os navios que partem 
São as pedras que ficam. 
É este sol que me abrasa, 
Este amor que não me engana, 
Estas sombras que me assustam… 
A minha terra é Viana.”

Amália cantou “Havemos de Ir a Viana”, com letra do mesmo Pedro Homem de Mello, e assim nos pusemos a caminho.


É do alto do Monte de Santa Luzia que se percebe todas as potencialidades de Viana. Numa localização destas, só pode ser uma cidade bonita.
Santa Luzia, omnipresente em quase cada canto de Viana, foi um antigo castro de povos célticos. Habitado ainda antes destes, o vale fértil, a caça disponível nos seus bosques e o peixe em abundância no seu estuário era atracção bastante para as gentes.
Bem mais tarde, em 1258, o Rei D. Afonso III tomou a decisão de fundar Viana, escolhendo ele próprio o nome da localidade. Ficou Viana da Foz do Lima ou Viana do Minho, hoje Viana do Castelo, mas sempre Viana.
Uma distinção Viana possui: D. Afonso III devia o seu trono ao apoio do povo e a sua vontade era a de fundar no Alto Minho uma vila para ele, povo, tendo de início sido vedada aí a instalação da nobreza. O nascimento e desenvolvimento da pesca, da indústria marítima, com o abastecimento de toda a região, bem como as posteriores expedições à Terra Nova, o comércio com os portos brasileiros e a pujança dos estaleiros da construção naval, levou a que Viana ficasse conhecida como terra de gente trabalhadora, a Viana do Povo, como lhe chamou José Hermano Saraiva. 
Em 1848 D. Maria II elevou Viana a cidade, em louvor à sua participação nas guerras do liberalismo, e tomou a decisão de lhe mudar o nome: Viana do Castelo. Ainda segundo as palavras de José Hermano Saraiva, esta mudança de nome é uma pilhéria face à história de uma cidade não apenas sem castelo (eventualmente confundível com o Forte de Santiago da Barra), mas fundada contra os castelos e os militares.


Começámos o passeio por Viana junto ao Lima, observando a ponte metálica verde projecto da Casa Eiffel de 1878. A construção desta ponte rodo-ferroviária levou a um desenvolvimento da cidade para sul. Permanecemos, no entanto, no lado de cá. A frente ribeirinha está bem cuidada e compete em atracção com as águas do rio pelo exercício físico.



Por aqui, com o monte de Santa Luzia e o centro de Viana nas costas e a outra margem de vigia, a cidade ganhou recentemente dois equipamentos projectados por dois dos mais reconhecidos arquitectos do mundo. O plano de reabilitação da frente ribeirinha de Viana vem já desde os anos 90, da responsabilidade de Fernando Távora, autor dos dois edifícios da nova Praça da Liberdade que estão no meio da Biblioteca de Álvaro Siza Vieira e do Centro Cultural de Eduardo Souto Moura.



A Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, inaugurada em 2008, é característica de Siza, um edifício branco de linhas rectas, soluções simples mas engenhosas como a criação de um pátio recolhido que aproveita uma nesga da paisagem natural, no caso o rio Lima mesmo ali à beira, tudo isto apoiado por estreitos pilares.



O Centro Cultural de Souto Moura é um pavilhão multiusos e foi inaugurado em 2013. Para que pudesse ser versátil o suficiente para acolher eventos culturais e desportivos, o arquitecto adoptou a solução de enterrar parte do edifício. A estética exterior é de ruptura para com o existente e é surpreendente. Diz-se que que a intenção era a de evocar a arquitectura naval (o navio Gil Eanes é seu vizinho) e, de facto, aquela espécie de tubagens ao longo de todo o edifício pode encontrar aí um arrojo explicável.


Por estes e mais uns quantos exemplos espalhados pela cidade, Viana vem sendo definida como “Meca da Arquitectura”, quase deixando de lado o capítulo “Prédio Coutinho”. Este edifício de 13 andares na primeira linha de rio quase que passa despercebido escondido no meio do arvoredo do bem cuidado Jardim da Marginal. Mas, e voltamos ao Monte de Santa Luzia, este elemento é disruptivo mesmo a quilómetros de distância.



Continuamos a caminhada ao longo do Rio Lima até ao Forte de Santiago da Barra, passando pela zona da doca pesca e avistando os Estaleiros Navais. 


O enorme Campo da Agonia, com a igreja da Senhora da Agonia lá bem ao fundo, fica aqui junto ao Forte. Esta é a padroeira dos pescadores e é em sua honra e pela devoção que as gentes do mar lhe prestam que é celebrada a maior romaria do Minho (em Agosto).

A partir daqui entramos no coração da cidade e admiramos as suas bonitas praças-jardins e os seus edifícios imponentes mas de arquitectura sóbria. 


A Igreja de São Domingos é bonita por fora, com a sua fachada retábulo, e rica por dentro. Desde o seu Largo entramos na Rua Manuel Espargueira, via pedonal de comércio e edifícios históricos.  





A rua é estreita e temos de erguer bem o pescoço para que a nossa vista possa apreciar todos os detalhes desses edifícios: azulejos, varandas em ferro, brasões, figuras no topo e muitas mais surpresas.


Uma das características do centro histórico de Viana é a combinação de ruas estreitas – quase todas elas – com outras mais largas abertas ao rio. A Avenida dos Combatentes da Grande Guerra é uma delas. Vindos da Espargueira, cruzamo-la e de um lado, para baixo, o rio, e do outro, para cima, a Estação de Comboios com Santa Luzia a dar-lhe um olho amigo. 



Poderíamos ter continuado na rua Manuel Espargueira para espreitar a Confeitaria Natário e sua concorrida fila para a compra das famosas bolas de berlim ou sidónios (bolo em homenagem a Sidónio País, natural de Caminha), mas preferimos deixar para mais tarde (e tivemos de esperar a bem esperar pela recompensa deliciosa) e subimos para uma olhada aos preciosos edifícios do Convento de Sant’Ana, de um lado, e do Palácio dos Viscondes de Carreira ou dos Abreu Távora, do outro. Este último é hoje o lugar da Câmara Municipal e é bem distinto, com as suas janelas e portas manuelinas, fazendo dele uma das mais belas casas senhoriais do país. 


Descendo esta rua de nome incrível, “Passeio das Mordomas da Romaria”, estamos finalmente na Praça da República, o centro de Viana, um conjunto monumental de qualidade inquestionável.
Com o chafariz no meio, destacam-se aqui os antigos Paços do Concelho e a Igreja da Misericórdia, todos eles elementos do século XVI.


Os antigos Paços do Concelho possuem uma fachada gótica de dois pisos, onde se distingue a Cruz de Cristo e o Escudo português. No piso térreo, rasgado por arcos, era o lugar onde se vendia o pão, enquanto que no piso superior funcionavam os serviços da câmara e do tribunal.


A Igreja da Misericórdia é riquíssima nos detalhes dos elementos escultóricos da sua fachada com varandas, um exemplo superior de arquitectura renascentista e maneirista. É única no nosso país. Infelizmente, por estar encerrada no dia da minha visita, não pude confirmar a riqueza decorativa do seu interior, profusamente preenchida a azulejos e com abundante talha dourada, uma obra-prima do barroco do século XVIII.


Da malha urbana para lá da Praça da República em direcção ao rio a melhor solução é deixarmo-nos vaguear pelas ruas estreitas e perdermo-nos a apreciar os prédios reabilitados e os inúmeros pormenores. 
Alguns exemplos, 

Uns azulejos em art deco.

A Casa de João o Velho (ou dos Arcos) – de influência galega, este é um dos poucos exemplos de casa de habitação urbana, em cantaria, de finais do século XV, que resta no nosso país. Realce para o seu peculiar brasão.

A janela manuelina da Casa dos Costa Barros – casa nobre manuelina, com janela hiper decorada.

A Capela das Malheiras – pertencente à Casa da Praça, ou Casa Reimão Malheiros, uma exuberância em estilo rococó.

A pedonal Rua da Bandeira, comércio com passadeira estendida.

O Palácio dos Cunhas – possui dez janelas e onze sacadas; com a aquisição do edifício pelo Estado as armas da família originalmente proprietária foram substituídas pela caravela vianense, a qual simboliza Viana e sua vocação marítima.


Terminando este périplo por Viana, resta a despedida desde o Monte Santa Luzia. A sua Basílica, da autoria de Ventura Terra, foi construída entre 1903 e 1925. Inspirada na Sacré Cour de Paris, esta basílica altaneira apresenta uma mescla de estilos, como o neoclássico, neo-romântico, neogótico e bizantino. No entanto, é a vista que daqui se alcança que nos faz voltar, repetir e admirar Santa Luzia. Sem mais palavras.

Ponte de Lima

Ponte de Lima é não apenas uma das mais antigas vilas portuguesas como também uma das mais bonitas. Tento imaginar-me sendo estrangeira e, assim do nada, nunca tendo visto qualquer imagem da vila, estar ali no meio daquela paisagem, rio e montes que a envolvem, e daquele património, castelo e casas manuelinas, e pensar que coisa bonita Portugal tem para nos oferecer. Não foi a minha primeira vez em Ponte de Lima e não sou estrangeira, mas penso exactamente o mesmo. 


A ponte sobre o rio Lima é tão importante para esta vila do Alto Minho, distrito de Viana do Castelo, que faz parte da sua designação: Ponte de Lima (ou Ponte do Lima). Mais do que caracterizar a localidade é, pois, parte da sua identidade. Prévia a esta ponte medieval existia uma outra, romano-gótica que se diz ter sido do tempo do imperador Octávio César Augusto, há cerca de 2000 anos, parte do caminho da Via Romana que partia de Braga e ligava a Santiago de Compostela. No século XIV iniciou-se a construção da actual ponte, a qual sofreu, no entanto, diversas alterações ao longo dos séculos, embora conserve ainda todo o porte e beleza.


Ao rio Lima atribuíram os romanos o nome “Lethes”. Era para eles o rio do esquecimento, o rio que uma vez atravessado os faria esquecer a sua pátria.


Iniciei o meu passeio por Ponte de Lima pela margem oposta ao centro da vila, zona conhecida como “Além da Ponte”. A aproximação faz-se por entre muita vegetação, enquanto se vai avistando ao longe as torres das igrejas e o casario branco. 
Caminho obrigatório? A ponte, claro está. 


O panorama da vila é agora mais nítido e é belíssimo. Pena o massivo estacionamento à beira Lima, substituto das inúmeras tendas da feira mais importante do Minho quando não é o seu dia (quinzenalmente, às segundas-feiras).


O fim da ponte deixa-nos na Praça de Camões, o centro de Ponte de Lima, com o seu chafariz com as armas da vila e os edifícios pitorescos. Nas suas costas e para a direita ao longo do rio ergue-se a cidade medieval, feita de ruas e ruelas e muitos palacetes, igrejas e torres de castelo a descobrir. Este é um pequeno e coerente núcleo urbano. 


A esta vila pré-romana concedeu D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, foral em 1125 (com direito a estátua em celebração do feito). Mais tarde, já no século XIV, é que a vila foi cercada por uma muralha com nove torres, das quais restam duas. Com o caminhar dos anos foi observando-se uma mescla de uma população rural com uma aristocracia, com ambas empenhadas na preservação das tradições minhotas. Existem diversos exemplos de casas nobres, para além de que a região é possuidora de alguns dos maiores exemplos de solares minhotos e as chamadas casas de brasileiros. A partir do liberalismo, no século XIX, Ponte de Lima viria a perder protagonismo para Viana do Castelo.



Voltando ao seu centro medieval, uma certeza: Ponte de Lima está muito arranjada e florida. 
A área junto ao edifício da Câmara Municipal é um exemplo de monumentalidade. De um lado o edifício dos Barbosa Aranha com a sua torre com ameias (esta Casa-Torre do século XVII é hoje o lugar do Centro de Interpretação e Promoção do Vinho Verde), do outro o Paço dos Marqueses de Ponte de Lima, antigo edifício da Câmara Municipal. Construído no século XVI, a sua fachada é singular, em curva, com duas torres com ameias de cada um dos lados, encontrando-se aqui também alguns elementos manuelinos nas janelas. Hoje um espaço museológico, do seu pátio alcança-se uma bela vista do centro da vila e sua envolvente.




Já no centro medieval, e depois de caminharmos pelas ruas estreitas e passarmos pela Igreja Matriz do século XV e da Igreja da Misericórdia que lhe está face a face, temos hipótese de obter mais uma vista privilegiada através de uma subida à muralha junto à Torre da Cadeia.




Destaque ainda para dois edifícios fora desde centro medieval, a Casa de Nossa Senhora da Aurora (casa nobre barroca comprida com as suas incontáveis janelas) e a Casa da Garrida (exemplo de casa de brasileiro, construída no final do século XVIII, com a obrigatória capela).

Ponte de Lima é, à semelhança da região onde está implantada, lugar de romarias, feiras e festas. A feira mais famosa é aquela que tem lugar junto à ponte às segundas-feiras, de quinze em quinze dias. Na carta de foral concedida a Pinte de Lima por D. Teresa já se referia a esta feira, o que faz dela a mais antiga feira documentada de Portugal. Outra das feiras mais conhecidas é a Feiras Novas, no segundo fim de semana de Setembro. 


Na véspera do dia de Corpo de Deus acontece uma das festas mais loucas, a Festa da Vaca das Cordas. Como nos explica a placa junto à estátua de um touro com ar rebelde na praça que triângula a Igreja Matriz, a Igreja da Misericórdia e a Biblioteca local, ao touro é dado um banho de tintol e depois este sai a correr estonteado (pudera!) até completar três voltas à Igreja Matriz acabando no areal junto ao rio, sempre rodeado de populares. Esta tradição tem quase quatro séculos e mostra que a afinal a tranquilidade do verde Minho também dá para uns momentos de loucura e desbunda à beira Lima.

A Costa do Minho de Caminha a Viana

Por que razão o mar nos inspira? 
Talvez ninguém melhor do que Ramalho Ortigão, na sua obra “As Praias de Portugal – Guia do Banhista e do Viajante”, de 1876, para nos explicar:
“O mar torna-nos imaginativos, faz-nos propender para a contemplação, para a ociosidade, para a vaga saudade, para a indefinida melancolia. Este estado poético é dos mais perigosos. Prosta, enfraquece, desarma o carácter. É por isso que as mulheres, à beira-mar, nos dias doces e enervantes do Outono, precisam mais do que nunca de se retemperarem na aplicação, no estudo, na actividade intelectual.”

Eis uma breve viagem fotográfica, com algumas palavras pelo meio, pela costa atlântica de Caminha até Viana do Castelo:




Deixando Caminha nas costas, adentramos pela floresta junto ao Posto Náutico da Ínsua.
A praia do Moledo abre-se-nos como a mais a norte de Portugal. A Galiza ergue-se à direita, para lá da foz do Rio Minho, e a Ínsua balança nas águas pouco calmas deste pedaço do Atlântico. Esta ilha a 200 metros da costa foi construída entre 1649 e 1651. Foi convento e fortaleza militar, com o objectivo de proteger a entrada da barra quer dos espanhóis, com quem estávamos em guerra então, quer dos ataques de corsários.
Sobre o Moledo, recorro às palavras de Raul Brandão, na sua obra “Os Pescadores”, “São nove horas. O azul entontece. Perco a linha da paisagem, o verde-escuro do pinheiral que vai até ao mar, e tudo isto se me afigura uma larga concha azul, com uma borda de areal onde alguns velhos moinhos em fila batem as asas para meu encanto. O forte da Senhora da Ínsua fica num extremo da curva, onde a amplidão do azul é infinita, a penedia a desfazer-se em espuma…”


O final da praia do Moledo.


À espera de chegar a Vila Praia de Âncora…




Em tempos, a zona marítima entre Caminha e Vila do Conde era forte na apanha do sargaço. Ainda hoje, Vila Praia de Âncora tem uma muito presente comunidade de pescadores. Junto ao Forte da Lagarteira, construído em 1699, encontramos o porto de abrigo com os barcos e material de pesca e os pontões sinalizando a entrada em terra. 
Vila Praia de Âncora, uma das “praias obscuras” de Ramalho Ortigão, é uma das praias mais procuradas do Alto Minho e a mais importante estância turística da região. 


Praia do Forte do Cão e Vila Praia de Âncora ao fundo.


O Forte do Cão.


E a Gelfa. O Sanatório Marítimo da Gelfa, junto à praia do Forte do Cão, terá sido construído em 1911 / 1912. O seu destino começou por ser o tratamento da tuberculose, mas posteriormente serviu como hospital psiquiátrico. Recentemente conheceu a sua terceira e actual pele como Unidade de Cuidados Continuados do Instituto São João de Deus.




Afife.
O mar revolto e frio, muitas das vezes envolvido por nevoeiro e vento. Do outro lado a encosta com vista privilegiada para o Atlântico.
Afife, terra adoptiva de Pedro Homem de Mello:

“Ai! esta palavra – AFIFE – ! –
(Volto, ao murmurá-la atrás – )
Lento moinho de vento
Feito de espaço e de tempo…
Quanta saudade me faz!
Ó casa das mil janelas,
Minhas noites estreladas
Berço de longas estradas…
Poeta, fiei-me nelas.
Ó abismo da lonjura,
Reflexos de pradaria!
Porque parti à procura
Daquilo que não havia?
Era aqui, aqui somente
Que eu devia ter ficado.
Afife de toda a gente
Que baila e canta a meu lado!”



Fim de dia em Afife.



Já em Viana do Castelo, o Cabedelo visto do alto da Santa Luzia.


Já cá em baixo, mais uma floresta para atravessar para chegar à beira mar.



Cabedelo, centro de alto rendimento do surf.



Última paragem: Castelo do Neiva e a sua praia da Pedra Alta.

Serra d’ Arga


Entre Ponte de Lima e Caminha, recortando montes, vales e planaltos, fica a Serra d’ Arga. 
Há formas mais rápidas de ligar as duas cidades minhotas, mas seguramente não tão bonitas e surpreendentes como esta, a de atravessar a Serra d’ Arga.

As mais famosas serras irmãs da Peneda e do Gerês roubam as atenções, de tal forma que pelo meu breve passeio apenas me cruzei com um casal de bicicleta (haja fôlego!), com um grupo de motocross e não mais do que com uma mão cheia de carros. 


Nesta serra subimos a bom subir até aos 825 metros de altitude. Não segui para a Nossa Senhora do Minho, o ponto mais alto da serra donde se diz avistar uma vista fabulosa de toda a cercania, mas donde se diz também ser uma estrada estreita não recomendada em dias de chuva e a quem tem vertigens. Destas últimas não sofro, mas trombas de água foi coisa que me tocou.




Segui, então, pela trilogia de Argas: Arga de Cima, Arga de Baixo (com cerca de 70 habitantes cada) e São João de Arga.

E paisagens não faltaram, ainda assim. 




Com os contornos dos montes ao longe, junto a nós vamos vendo desfilar uma terra preenchida de vegetação rasteira de cor viva e rochas de granito que parecem ter sido estrategicamente moldadas e lá colocadas. Isto por contraposição à imagem tradicional que nos habituámos a ter do verde Minho.
Mas também por aqui existe uma densa floresta verde de pinheiros.






O Santuário de São João de Arga tem uma implantação de tirar o fôlego. Desde cá de cima vamos vendo um conjunto de edifícios encravado no meio de um vale. Depois de descermos um bom bocado até este lugar quase escondido encontramos uma construção românica que foi um antigo albergue de peregrinos. Alguns visitantes mais velhotes também no local no mesmo momento que eu comentavam como estava bonito este santuário, pelo que presumo que tenha sido (bem) restaurado há pouco. Este lugar é, ainda hoje, alvo da popular romaria minhota de São João de Arga, em Agosto. Em Julho acontece a romaria da Senhora do Minho, o tal ponto elevado de acesso assustador que não visitei, na vertente oposta a este.





De São João de Arga até Caminha é mais uma alegre rota por curvas e novas paisagens que se sucedem. Até que na aproximação a Caminha obtemos esta vista irreal e somos obrigados a parar o carro na estrada e deixarmo-nos ficar ali de boca aberta a ver brilhar a foz do Minho, com a Galiza ao fundo.


Nesta passagem pela Serra d’ Arga apenas foi possível apreciar a paisagem. Mas esta Serra é muito mais do que isso. Falámos de romarias mas outras tradições, costumes e lendas têm aqui lugar. A natureza é rainha e está acompanhada pelos autóctones garranos que, infelizmente, não tive oportunidade de encontrar. Na memória fica, então, esta paisagem natural apaziguadora.

Bertiandos – Lagoas e Solar

A um pequeno desvio da estrada nacional que liga Viana do Castelo a Ponte de Lima, já a chegar a esta última, encontramos um dos segredos mais bem guardados do Minho. Claro que explorar o Minho é, a cada passo, confirmar o óbvio, que esta é a região mais bonita e diversa do nosso país, deixando-nos surpreender por cada detalhe e envergonhar por não nos termos apercebido desse detalhe antes.

A Paisagem Protegida das Lagoas de Bertiandos e São Pedro de Arcos é um desses casos. Este pequeno parque inaugurado em 2005 ocupa um espaço partilhado entre as freguesias de Bertiandos, São Pedro de Arcos, Estorãos, Moreira do Lima, Sá e Fontão. Bertiandos e São Pedro de Arcos vão no nome da Paisagem, Estorãos é o nome do afluente do Rio Lima que por aqui corre. 


Após uma curta passagem pelo edifício do seu Centro de Interpretação Ambiental, encerrado naquele domingo, confirmamos o que vínhamos suspeitando desde o desvio da Estrada Nacional: este é um recanto apartado do mundo. 





A densa vegetação rodeia-nos, um manto intenso de verde por todos os lados, incluindo as nossas cabeças – a ramagem das árvores fecha a toda a volta formando túneis irreais. Pôde chover à vontade que nada se sentiu. Disse cabeças? Corrijo: cabeça. Não havia mais ninguém pelo parque para além de mim e vozes apenas se ouviam as das aves e, aqui e ali, o rio a correr. 



A sensação de isolamento é real e é bonita e o sossego absoluto. O cheiro misturado dos pinheiros, eucaliptos e carvalhos preenche-nos. Pura natureza.




São vários os percursos que se podem fazer por aqui. O mais fácil e curto é o Percurso da Lagoa, menos de 2 km à volta da Lagoa de São Pedro de Arcos. Não se pode dizer que a lagoa seja lindíssima. É na verdade um pedaço de água de tonalidade escura, mas a sua implantação é fantástica. Para além da bela vegetação que a envolve vemos não muito ao longe os contornos dos montes das Serras de Arga e da Cabração, formando um passe-partout perfeito neste quadro. Os passadiços de madeira sobrelevados na lagoa ou no lodo estão muito bem conservados e fazem da caminhada um momento feliz. 


Pelo caminho vamos encontrando alguns postos de observação que nos explicam a flora e a fauna existente por aqui, com destaque para a avifauna aquática. Um destes postos de observação é uma torre de madeira escondida no meio da vegetação. Escalamos os apertados degraus desta torre e do alto tudo se avista.



Esta é uma zona húmida não muito comum mas propícia à diversidade. À vista desarmada não foi possível confirmar esta biodiversidade, mas tal não retirou um pingo de alegria à jornada. 
Para além deste percurso juntinho à Lagoa, outros percursos maiores se podem fazer, quer pelas pastagens de gado quer pelas tapadas. Nesta reserva existem casas de abrigo e de hóspedes. 



Na aldeia de Bertiandos é imperdível uma espreitada ao Solar de Bertiandos.


Este é um exemplo superior dos solares minhotos, quer em termos históricos quer arquitectónicos, e uma das primeiras casas eruditas da região. De tal forma é a sua importância histórica que o Pelourinho de Bertiandos encontra-se dentro da propriedade, demonstrativo da estreita evolução da terra junto com o solar. 




Construção datada do século XV, em 1566 foi erigida a torre medieval ameada que ainda hoje admiramos e nos faz confundir o edifício com um castelo. Mas não. Esta torre distinta é antes um símbolo desta residência de famílias nobres. Encontramos aqui três elementos (torre e dois edifícios) que tinham tudo para causar uma ruptura no equilíbrio do conjunto edificado. Mas tal não acontece. A história conta-se de uma penada. Ainda no século XVI o solar foi doado em duas partes aos filhos do então proprietário. Os seus descendentes tornaram-se desavindos durante décadas e décadas e só em 1792 se voltaram a unir por casamento de dois primos. Ao longo desse tempo foram efectuando alterações e acrescentos ao edifício em cada uma das alas da torre, as quais funcionavam como unidades independentes. Assim, ainda hoje podemos observar de forma clara os dois corpos principais, o do lado esquerdo de dois pisos com o térreo em arcadas, o do lado direito de três pisos com uma torre de cada lado. Ambos com varandas e com a torre a separá-los. Ao centro uma escadaria nobre que junta os dois edifícios. O ar monumental é evidente e as influências do barroco e do maneirismo, de diferentes fases, bem como o facto de um dos corpos ser mais baixo e recuado, não quebram a unidade e a harmonia desta casa-torre. 



O ambiente de graciosidade é ainda composto pela paisagem, nomeadamente o relevo e as videiras imediatamente do lado oposto da Estrada Nacional. Sim, este Solar de Bertiandos é impossível de perder até porque está mesmo à beira da dita estrada. Atravessando o seu portão principal (fechado, uma vez que este Solar é propriedade privada ) e a estrada fica a Ecovia que liga Viana do Castelo a Arcos de Valdevez, de um lado, e Viana do Castelo e Ponte da Barca por outro, mais um sinal demonstrativo das muitas opções de caminhadas pela região.

Termino, reforçando, ajudada pelas palavras de Ramalho Ortigão:
“Quem não foi e não veio pela direita e pela esquerda da ribeira, de Viana a Ponte de Lima e de Ponte de Lima a Viana; quem durante alguns dias não viveu e não passeou nesta ridente e amorável região privilegiada das éclogas e das pastorais, não conhece de Portugal a porção de céu e solo mais vibrantemente alegre, mais luminosa e mais cantante.”