Taiwan – 3 filmes

Reduzir a cinematografia de Taiwan a três filmes não é tarefa fácil.
Porém, utilizando o critério “relações” como temática comum deixo a indicação destas três obras, de três dos mais consagrados autores de Taiwan, realizadas em três décadas diferentes. 


“Tempo para viver e tempo para morrer”, de Hou Hsiao-Hsien, de 1985, filme autobiográfico, sobre a memória, sem pressa de ser contado. História comum a tantos taiwaneses que partiram da sua China continental e estabeleceram-se numa outra terra, sempre com o retorno no pensamento.


“Comer Beber Homem Mulher”, de Ang Lee, de 1994, sobre as coisas mais importantes da vida: comer, beber, sexo, homens e mulheres. História de um chef viúvo e suas três filhas, relacionamentos entre eles e entre estes e outros. E comida, muita comida.


“Yi Yi”, de Edward Yang, de 2000. Várias histórias na história, este filme sobre a família, o trabalho, o dever e o estatuto, mostra-se por vezes desencantado, por vezes cândido.

Comida em Taiwan

A comida não é um mero detalhe em Taiwan. 
Considerado o melhor destino do mundo no que respeita a comida, a cultura que rola à volta deste item está por todo o lado. 
Não se pense, porém, que para comer bem e muito é necessário ir a um restaurante e gastar um bom dinheiro. Não. Repito, a comida está por todo o lado. Só em Taipé existem cerca de 20 ruas dedicadas à comida, com pequenas bancas com todo o género de alimentos. Os mercados nocturnos são, por isso, imperdíveis. Experimentei o de Shilin (que não recomendo – é melhor para outro tipo de compras) e o de Raohe (que decreto obrigatório).


Um dos ícones alimentares taiwaneses é o tofu mal cheiroso e basta caminhar pelas ruas com os sentidos bem apurados para confirmar a justeza do seu nome. Já a justeza do seu paladar… convenhamos. O odor é de tal forma arrepiante, chegando a ser insuportável, que não houve coragem para provar esta iguaria. 


O prato mais famoso de Taiwan é a sopa de massa de bife. O sabor do caldo é apuradíssimo e impossível não ficar fã. No entanto, a dupla colher / pauzinhos que nos fornecem para degustar esta refeição nem sempre funciona na perfeição em conjunto e a queda de um destes instrumentos na sopa traz como consequência nódoas severas na roupa que tem de durar para as várias semanas de viagem (ainda me pergunto porquê este azar logo no primeiro dia). 


Os dumplings são igualmente omnipresentes e há os para todos os gostos e coloridos. 


A comida taiwanesa possui diversas influências, as mais evidentes vindas do Japão e da China, como será o caso dos pratos anteriores.
Estas “Anna egg tart” antes de aqui chegarem provavelmente andaram por Hong Kong, Macau, Lisboa, Belém. 



Mas a comida de Taiwan tem igualmente raizes locais junto dos povos autóctones. Wulai será dos melhores sítios para se provar a comida aborígene. Este prato, do restaurante Taiya Popo, estava na lista dos mais pedidos, percebi-o pelas estrelinhas que acompanhavam os caracteres da sua identificação. Tem um ar da terra, natural. E sabia bem.


Para beber, muita fruta. Para comer, muito sumo.


O Bubble Tea é quase uma obsessão nacional. É um chá de leite com bolinhas de tapioca. Doce, muito doce. Mas acaba por ter diversas variantes de sabor e por poder ser tomado frio ou quente. O que não varia é o facto de ser um super alimento.

Quanto à comida nos mercados de rua, uma vez que ela está exposta o melhor mesmo é não nos limitarmos a apontar o olhar e experimentarmo-la sem receios.





Parque Nacional Taroko

O Taroko é onde a Formosa é mais formosa.

É possível fazer uma (longa) viagem de um dia – ida e volta – desde Taipé de comboio até Xinsheng, às portas do Parque, ou até Hualien, um pouco mais distante. O comboio segue desde Taipé para norte para depois curvar junto com a ilha e acompanhar a sua costa tomando a direcção do sul. São cerca de três horas de comboio (depende da sua velocidade) até quase ao centro da ilha. A viagem é belíssima, de um lado o mar pacífico, do outro a montanha intrépida.

Quando chegamos ao Taroko as expectativas são elevadas e os níveis de ansiedade quase tão altos como as suas montanhas. Não houve desilusões, as expectativas cumpriram-se. Mas vejo agora que as fotos não revelam um ínfima parte da beleza do lugar.

O que é então este Taroko?

Uma criação da natureza, é um acidente geológico ocorrido desde tempos que a memória já perdeu e que levou a que a erosão cortasse este pedaço de terra e fosse deixando sedimentos. Como resultado temos montanhas cortadas por vales e desfiladeiros. Penhascos e ravinas aparecem logo ali. Os ditos sedimentos são as incontáveis pedras e pedregulhos que se atravessam no caminho do rio, forçando-o até a mudar o seu curso em algumas partes. Ganhamos nós com estas curvas. Fossem todos os acidentes assim.

Lugar habitado há milénios, apenas há cerca de 150 anos foi construída uma estrada para o local, rompendo o isolamento das populações aborígenes, os habitantes originais da ilha. Hoje o Parque é um lugar hiper-popular para caminhadas, de tal forma que apesar de os comboios para aqui serem frequentes andarem sempre cheios. É conveniente marcar com antecedência, mas existem inúmeras alternativas para além do comboio directo de Taipé até Xinsheng ou Hualien, como o comboio local – incluindo lugares em pé (??? 3 horas em pé???) e o bilhete combinado autocarro-comboio. 

No sistema montanhoso de Taroko existem 27 picos com mais de 3000 metros de altitude. O rio Liwu é uma das estrelas da companhia e vem descendo da sua nascente para lá dos 3000 metros até desaguar no Pacífico. A outra estrela é o Taroko Gorge, o tal desfiladeiro que a natureza criou. São 18 quilómetros de um vale estreito de paredes de mármore. 


A Swallow Grotto, uma caminhada de cerca de vinte minutos por entre uma espécie de túnel, é talvez o melhor lugar para se perceber os contornos – literalmente – do cenário do Taroko. Aqui observamos em detalhe as paredes de mármore de linhas rugosas deste desfiladeiro. É tão estreito que quase que podemos chegar com os nossos braços de um lado ao outro. Fossemos albatrozes e certamente o conseguiríamos, mas ali é território de andorinhas que, infelizmente, não vi. O rio corre estreito lá em baixo enquanto as enormes pedras se tentam acomodar no seu leito.


Mas não é só de paredes de mármore de que é feito o Taroko. O Taroko é sobretudo celebrado pela sua vegetação luxuriante. A paisagem é fabulosa. 


Uma boa ideia é seguir no autocarro do Parque até à Ponte Cimu (a maior ambição que um visitante de um dia pode ter) e desde aí voltar para trás até à entrada do Parque ou à estação de comboios.


A Ponte Cimu é um dos lugares mais fotografados do Parque, o lugar da ponte vermelha com o leão branco e o Pavilhão Orquídea a coroar a paisagem. Aqui começamos por dar largas à nossa imaginação quando nos sugerem que as rochas parecem uma rã agachada. Seja. A verdade é que aquela água do rio, tão azul, tão rebelde, procurando evitar as rochas, já seria suficiente para dar largas à nossa imaginação. 


Alguns trilhos que partem daqui perto estavam encerrados, como o “Túnel das Nove Voltas”, e outros necessitam de uma permissão prévia especial, como o trilho de Zhuilu, o qual percorre parte da antiga estrada de montanha construída pelos japoneses durante o período colonial com o propósito de controlar os povos aborígenes que por ali habitavam – e habitam. Este vai ter à pitoresca ponte suspensa de Zhuilu, instalada junto à Swallow Grotto.


Até aqui fiz o caminho de autocarro. 
A parvoíce veio depois. Como faltava uma hora e meia para passar o próximo autocarro decidi ir caminhando até à entrada do Parque, onde tem início o trilho Shakadang. Nada a apontar à paisagem, o cenário continuava dramático, a montanha continuava a deslumbrar, o verde continua a minha cor favorita, o rio continuava a dar vontade de mergulhar. O problema estava precisamente aqui, continuava tudo na mesma e eu cheia de calor. Senão maior, a parte final do trajecto tinha mais trânsito – caminhava pela estrada – e estava em obras, quer de barragem quer de novas vias. Quase a bater as duas horas de caminhada e a uns três quilómetros do fim da jornada passou um carro familiar que me ofereceu uma boleia – aceitei sem pestanejar e cheguei praticamente ao mesmo tempo do que chegaria se tivesse vindo de autocarro. Senti que compensou. 


O trilho Shakadang começa com vista para o rio Liwu. Shakadang é o nome do rio que desagua no Liwu e o nome de um dos trilhos mais fáceis e agradáveis no Taroko. Sempre plano, com excepção da elegante escadaria do início, o caminho é feito junto do rio de água de cristal que vai serpenteando pela montanha alta. As pedras no caminho da água a correr parecem um jardim zen, mas apesar de aqui não haver sugestão tudo é tão perfeito que facilmente cremos encontrar aqui a iluminação. Até o coaxar das rãs ajuda e nunca o dito “fecha os olhos e escuta” fez tanto sentido. As paredes de mármore características do Taroko continuam a marcar presença neste trilho, mas encanta igualmente ver como a natureza e o tempo foram moldando a montanha fazendo dela abrigos naturais.


Um dia no Taroko é um dia cansativo e intenso, com muito caminho para palmilhar, mas inteiramente recompensador.

Wulai e Tamsui, breves visitas

De seguida, duas propostas de passeio de meio dia desde Taipé.
Um para sul, rumo à selva montanhosa de Wulai, outro para norte rumo à vila piscatória colonial de Tamsui.

A manhã é boa para se passar em Wulai, a cerca de 40 minutos de autocarro desde a estação do MTR de Xindian. 
Sobe-se a bom subir e curva-se a bom curvar, mas nem por isso se deixa de ver uma série de ciclistas no caminho. 
Pensei, então, que o clima de montanha devia ser mais fresco aqui, apesar da pouca distância de Taipé. Qual quê. A humidade continua brutal e nem a muita sombra oferecida pela intensa vegetação nos salva. 
Salva a paisagem, no entanto. 
O relevo é extremamente acidentado e as montanhas carregadas de verde erguem-se abruptamente mesmo ali ao nosso lado. 


A vila de Wulai, em si, não tem nada de especial. Terra de águas termais, possui alguns hotéis dedicados ao ramo, uma rua carregada de comércio e comida de rua. Não devemos perder a comida aborígene. A tribo Atayal, a terceira maior da ilha, tem aqui o seu território.



Mas as pessoas vêm a Wulai sobretudo pela natureza. É uma zona ideal para pedalar, caminhar e até nadar. Tem inúmeros trilhos, embora aquele que costuma ligar a zona do rio Jia Jiu Liao Xi ao centro de Wulai estivesse na altura da minha visita encerrado, pelo que tive de fazer este percurso de autocarro. Este rio é estreito e cheio de obstáculos para vencer. Aqui costumam fazer uma modalidade chamada river tracing em que os artistas, devidamente artilhados de fatos e capacetes – protecção essencial -, lá vão galgando o território. 




Já junto ao centro de Wulai, a uma caminhada de cerca de 30 minutos enquanto o mini-comboio não retoma as suas viagens, fica uma das grandes atracções da zona: uma cascata altíssima. Não é uma enchurrada de água que corre desde lá do cimo, não nos podemos banhar nas águas do rio de água verde lá no fundo (e que falta fazia um mergulho naquela hora), mas o cenário é fantástico com aquela parede montanhosa impressionante, um pedaço de selva na qual nos vemos imersos.

De volta a Taipé depois do almoço aborígene em Wulai, percorre-se toda a linha vermelha do MTR até chegarmos ao final da sua ala norte. A viagem é agradável até porque grande parte é efectuada à superfície. Aliás, até a espera entre as estações é agradável, uma vez que à chegada dos comboios começa a tocar uma espécie de música celestial, talvez para nos distrair da necessidade de ganhar posição para a entrada na carruagem. 
E rapidamente damos por nós em Tamsui, um dos pontos mais a norte de toda a ilha de Taiwan. 
Tamsui, literalmente “água fresca”, possui uma posição estratégica a norte da ilha no exacto local onde o rio Danshui desagua no Pacífico. Historicamente foi um porto defensivo, onde os espanhóis construíram em 1629 o Forte San Domingo (mais tarde controlado, à vez, por holandeses, chineses, ingleses e japoneses), e uma cidade de comércio, com o rio Danshui a permitir a navegabilidade ilha adentro. Acabou por perder relevância para Taipé, mas a chegada da ligação directa do MTR nos anos 90 faz com que hoje as duas quase se confundam. No fundo, Tamsui acaba por funcionar como uma extensão, um contínuo da capital.  



A sua localização não só é estratégica como é bonita. De um lado vê-se o Oceano sem fim, do outro os contornos do centro de Taipé ao longe. À frente de Tamsui, mais uma montanha para não nos esquecermos que Taiwan é isto, mar e montanha, amigos inseparáveis.
Tamsui é uma cidade moderna, cheia de movimento, e os fáceis acessos levam magotes para lá. Nas margens do rio, naquele fim de tarde de um sábado soalheiro parecia que tinha sido montado um arraial, tal era o clima de festa. 





Mas Tamsui consegue manter preservados alguns elementos de uma outra era. Do século XIX um nome surge destacado: George Mackay, um missionário canadiano pioneiro na introdução do ensino e da medicina ocidentais na ilha e que aquela que viria a dar origem à primeira universidade de Taiwan, o “Oxford College”. Ao redor desta universidade encontramos algumas mansões desse século é um bungallow com uma atmosfera especial e uma vista fantástica.
Hoje Tamsui é sobretudo uma vila piscatória.


Templos de Taipé


Diz-se que Taiwan possui cerca de 15000 templos registados. 
Esses templos podem surgir onde menos se espera, no alto de uma montanha ou no topo de uma grande avenida, mas o mais provável é que surja num edifício discreto de uma rua escondida. 


Nas residências particulares abundam os altares – e isso vê-se ao caminhar pelas suas portas abertas à rua – pelo que não é necessário ir ao templo queimar o incenso em honra dos seus deuses favoritos. E nem é preciso perder a novela favorita.


A religião representa um senso comum de cultura e de identidade para muitos povos. O que é curioso verificar é que à medida que a economia taiwanesa cresceu a religião seguiu os seus passos. 31% são seguidores da religião popular, 24% budistas, 15% taoistas e 25% não possuem religião. Assiste-se, no entanto, a uma combinação de elementos das várias religiões e a fé é vivida de uma forma individual e directa para com a divindade ou espírito morto do agrado de cada um. Daí a vivência próxima da religião popular, embora muitos se declarem ainda assim budistas ou taoistas. As principais divindades são Buda e Matsu, mas existem outros deuses, quase sempre coloridos. Deuses com poderes supranaturais que guardam as entradas dos templos ou das residências para afastar os maus espíritos. 




Uma visita a um templo de Taipé não é necessariamente sinónimo de um momento de recolhimento. 


O templo de Longshan, por exemplo, dedicado ao deus Guanyin, da Misericórdia, e a outros deuses, é um dos mais concorridos da capital de Taiwan. As pessoas são aos magotes. Para lá carregam os pauzinhos de incenso e doses industriais de comida para agradar os deuses. 


Muito movimento, cor, vibração. Energia. Bom para observar a reacção destes crentes tão diferentes do comedimento a que estamos habituados na igreja católica que nos é próxima. E bom para observar a mancha de fumo do incenso que se esvai rumo às figuras que caracterizam os pormenores arquitectónicos dos telhados destes templos.



O templo de Bao’an é, tal como o de Longshan, uma criação dos chineses vindos do Fujian no século XVIII. O único templo de Taiwan classificado pela Unesco, no Bao’an, dedicado ao deus Baosheng Dadi, consegue-se rezar com mais pacatez. 





Mas, sobretudo, consegue-se apreciar com mais sossego os detalhes dos elementos decorativos dos seus telhados. Normalmente estes possuem vários níveis, curvas, relevos, suportes e figuras. Podem ser pessoas, dragões, pagodes, quase sempre hiper coloridos, como se de mosaicos se tratassem. Os dragões simbolizam a protecção contra o fogo em estruturas de madeira (estes templos aqui referidos, tanto o de Longshan como o de Bao’an, foram já restaurados por diversas ocasiões ao longo dos tempos).


Ao lado do templo Bao’an fica o ainda mais pacato e harmonioso templo de Confúcio.



Taipé

A primeira impressão de Taipé (“Taipei”, literalmente, “Taiwan do norte”) é a de que estamos num pedaço urbano rodeado de montes. Seja numa viagem de autocarro ou de metro à superfície, as montanhas são omnipresentes e poderosas com a sua carapinha verde.
As elevações à volta de Taipé são conhecidas como “As Quatro Bestas”: a montanha do Tigre, a montanha do Leopardo, a montanha do Leão e a montanha do Elefante.
Começaremos o nosso périplo por Taipé precisamente por esta última. 


A montanha do Elefante é a mais acessível de todas estas montanhas e é aquela que nos permite viver e perceber a cidade nas suas múltiplas facetas. 
Primeiro contraste: o trilho para a subida rumo a este recanto da natureza tem início perto do Taipei 101, o maior ícone da cidade e símbolo da sua pujança urbana e económica. 




É um jogo divertido ir subindo por entre a mata que nos envolve totalmente para aqui e ali nos deixar ver entre o arvoredo a elegante silhueta do Taipei 101, elemento único na paisagem mas nem por isso dissonante. A vista que se alcança da montanha é o que buscamos em primeiro lugar, mas logo percebemos que muito mais há a receber daqui. Entendêssemos um pouco de flora e muito haveria para descobrir por aqui, tal é também a diversidade de árvores. As sombras não salvam do calor húmido intenso que nos cola a roupa ao corpo, mas isso não chega para nos distrair da chinfrineira dos pássaros e aves diversas. As possibilidades de trilhos são tantas que, tirando o ponto mais concorrido das famosas pedras com vista para o omnipresente Taipei 101, quase não nos cruzamos com ninguém. Natureza pura, melodia cacarejante que nos faz cair na contradição de viver um ruído silencioso e eis que me deparo com um grupo de estudantes que insistem em trocar umas palavras em inglês comigo e em cantar-me uma música. Aceito e lamento que o meu mandarim seja insuficiente para compreender a sua mensagem.

De volta ao sopé da montanha, não perco de vista o Taipei 101 e caminho em sua direcção observando-o de diversos prismas. De um cruzamento, por entre edifícios, desde a Vila 44. 


A Vila 44 foi o bairro onde as tropas nacionalistas se instalaram em 1949 quando os comunistas fundaram a República Popular da China após vencerem a guerra civil aos nacionalistas. As habitações tinham condições precárias e pretendiam-se temporárias, enquanto se acreditava poder re-ganhar a China continental. Hoje este quarteirão está preservado como reconhecimento de parte da história de Taiwan. E se já por si representaria um símbolo do contraste entre velho e novo na cidade, o facto da Vila 44 estar hoje situada no regaço do Taipei 101, vendo-se das traseiras das suas casinhas baixinhas coloridas emergir a enorme torre azul rumo aos céus, esse contraste torna-se então absolutamente poderoso.


O Taipei 101 tem 508 metros e à data da sua construção, no ano de 2004, ganhou o título do edifício mais alto do mundo, até ser destronado em 2009 pelo Burj Khalifa do Dubai. Não é, porém, apenas mais um arranha-céus. Na paisagem de Taipé reina imperial e praticamente sozinho, mas este é em edifício singular na sua estética. Visto da montanha do Elefante até se pode assemelhar a um foguetão preparado para ser lançado para o espaço, mas de qualquer lado donde o vamos avistando nos apercebemos das suas semelhanças com um pagode ou um ramo de bambu. Muito cá da casa, portanto. 


Gostei muito da arquitectura deste Taipei 101, mas não sei até hoje se gostei de subir no seu elevador até ao posto de observação no 89.° andar. É uma experiência e tanto, daquelas que não se devem perder, mas que podem não ser, ainda assim, totalmente positivas. Explicando melhor, esta viagem dura exactos 37 segundos a uma velocidade de 1010 milhas por minuto numa caixa partilhada por mais de uma dezena de pessoas cujos ouvidos irão, na sua maioria, bloquear. Soa desconfortável? É mesmo. 




Do 89.° e do 90.° andares do Taipei 101 consegue-se alcançar perfeitamente a situação geográfica de Taipé. Localizada num planalto, a capital da província de Taiwan desde 1886 parece não cessar a sua ânsia de se estender.



Voltando a assentar os pés na terra, tirando este seu ícone não existem muitos mais edifícios que possamos identificar facilmente com Taipé. Os memoriais em homenagem a Chiang Kai-shek e Sun Yat-Sen serão duas excepções. A enormidade de ambos os edifícios é certamente proporcional à admiração pelas duas figuras históricas, embora a do generalíssimo já tivesse visto melhores dias. Também pelo simbolismo que representa, uma palavra para um dos primeiros edifícios modernos da cidade, o Zhongshan Hall, lugar onde os japoneses fizeram a cerimónia de rendição da II Grande Guerra Mundial.


Em termos urbanísticos, na Taipé de hoje identificamos três períodos distintos: o da era da dinastia chinesa Qing, o do tempo colonial japonês e o tempo moderno.







Uma caminhada pela rua Dihua transporta-nos para tempos que pareciam esquecidos. Antiga rua central de comércio por excelência, aqui abundavam – e abundam – as lojas de medicina chinesa. Com muita confusão e muito movimento, esta rua e as suas vizinhas que a acompanham de forma irregular são estreitas e possuem alguns edifícios singulares.


A uma boa caminhada dali encontramos a actual centralidade da cidade. Zhongzheng possui também alguns resquícios da era Qing, mas os japoneses acrescentaram-lhe edifícios governamentais, espaços públicos e grandes avenidas planeadas ao estilo francês dos boulevards. Ruas estreitas lado a lado com ruas largas, edifícios clássicos, neoclássicos e modernistas, todos num alegre convívio. 



Não falta sequer a meca local da cultura jovem consumista: o bairro de Ximending. Aqui é onde Taipé é mais Tóquio. Há uma rua inteira só com cinemas, comércio de tudo e mais alguma coisa, incluindo uma loja exclusivamente dedicada à série de manga One Piece, bares e restaurantes, lojas de tatoos, diversas obras de arte urbana, o que imaginarmos deve haver por aqui.



A versatilidade e modernidade de Taipé é nos ainda revelada pela sua capacidade em regenerar e reconverter espaços. Três exemplos: a Red House (primeiro mercado público da cidade, hoje centro cultural), o Songshan Culture e Creative Park (antiga fábrica de tabaco, hoje centro cultural) e o Huashan 1914 Creative Park (antiga fábrica de vinho, hoje… adivinhem?). 


Pegando na ideia deste último, o de maior sucesso, os diversos edifícios da antiga fábrica que fechou nos anos oitenta foram reconvertidos na década de noventa em lojas, cafés, restaurantes, galerias, espaços musicais e expositivos. É hoje um espaço totalmente aberto à criatividade onde os visitantes têm de fazer fila à porta de cada uma das divisões a visitar.



Taipé vem referida como uma das cidades asiáticas mais vibrantes. Moderna e com laivos de tradição, pejada de templos e com o seu Museu Nacional de classe mundial, é hoje um dos lugares para se ir no que se refere a comida, seja num restaurante ou numa banca de um dos seus inúmeros mercados de rua. 

Taiwan


Navegadores portugueses foram os primeiros europeus a avistar a ilha de Taiwan e de tal forma ficaram seduzidos que logo lhe deram o nome de Formosa. A ilha (mais o arquipélago dos Pescadores) é coberta de montanhas, rios e planícies, natureza em estado bruto onde cabe ainda uma das cidades mais vibrantes da Ásia: Taipé.


Mas a vida em Taiwan começou bem antes dos portugueses lhe porém a vista. Vestígios encontrados indicam que existirá vida humana na ilha desde há 50 000 anos e apesar dos ancestrais dos autóctones taiwaneses terem vindo do sul da China por mar há cerca de 6000 anos, a ilha permaneceu aborígene até ao século XVII. Foi o comércio, promovido por portugueses, espanhóis e holandeses, ao redor desta estratégica geografia então no caminho das mais apetecidas rota do oriente, entre China, Japão, Filipinas e Macau, que trouxe novos indivíduos à ilha. De duas formas: como consequência da colonização, primeiro por parte dos espanhóis (com marcas da sua presença ainda hoje, como é exemplo o Forte de San Domingo, em Tamsui, Taipei), depois pelos holandeses (com presença praticamente de norte a sul da ilha); e como consequência da emigração, em especial de chineses vindos da província do Fujian. A costa chinesa está a meros 165 km de Taiwan. 
A mudança de dinastias na China, dos Ming para os Qing, em 1644, levou a uma vaga de migração para a ilha, com muitos temendo a instabilidade. 

É aqui que entra na história um personagem curioso, Koxinga para a posteridade. Almirante leal aos Ming, invadiu Taiwan com o objetivo de terminar com a colonização holandesa na ilha (o que conseguiu) e reconquistar a China continental (o que não conseguiu). Após a morte de Coxinga a ilha acabou por cair para o domínio dos Qing e passou a ser parte da província de Fujian, com capital, em Tainan. Desenvolveu-se rapidamente sob os Qing, ao lado da cana de açúcar dos holandeses, plantações de arroz surgiram, e as emigrações intensificaram-se ainda mais e a população Han foi crescendo e tornou-se maioria. Estes Han estavam subdivididos em duas origens, os Hoklo do Fujian e os Hakka do Guangdong, de quem descende a maioria dos taiwanese de hoje. 

O final da dinastia Qing foi turbulento com a rebelião Taiping e, sobretudo, as Guerras do Ópio. A II Guerra do Ópio, em 1860, foi decisiva com a forcada abertura de Taiwan ao comércio com o ocidente, levando muita gente à ilha, desde mercadores, soldados, missionários, diplomatas e estudantes, todos eles na rota do comércio global.

Em 1895, às humilhações impostas pelos ocidentais à China junta-se aquela que o Japão impôs à China na sequência da vitória na guerra que travaram entre si. O Tratado de Shimonoseki obriga a China a ceder Taiwan e a Ilha dos Pescadores aos japoneses (mais Okinawa). Apesar da resistência dos locais, a situação manteve-se até 1945, momento da capitulação do Japão na II Grande Guerra Mundial. 

No entanto, o Japão enquanto colonizador tentou tornar Taiwan num modelo de modernidade. Os japoneses construíram estradas e trilhos de comboio, abriram escolas e colégios, implementaram novas técnicas de agricultura e, em consequência, a população aumentou de 2,6 milhões para 6,6 milhões de 1896 a 1944. A ilha passou de rural para urbana e moderna e auto-suficiente em termos financeiros, bem como economicamente e industrialmente robusta. 

Com os japoneses começou a falar-se de uma identidade taiwanesa, por contraposição à identidade chinesa (hoje são cada vez mais aqueles que se afirmam como sendo em primeiro lugar taiwaneses – e os taiwaneses são 98% Han, que inclui os Hoklo e os Hakka, e 2% aborígenes, com 14 tribos aborígenes reconhecidas oficialmente). Com a capitulação japonesa, Taiwan retornou para as mãos chinesas e voltou a integrar o seu território. 

Acontece que a guerra civil entre os nacionalistas do KMT e os comunistas do PCC resultou na vitória destes últimos e na fundação da República Popular da China em 1949. Os nacionalistas, com o seu líder Chiang Kai-shek na dianteira, recuaram para Taiwan, com o objectivo de conquistar a China continental, e aqui fundaram a República da China – entidade que havia sido criada na China em 1911, após a queda da dinastia Qing, tendo Sun Yat Sen sido um dos seus mentores e, por isso, ainda hoje é admirado em Taiwan. 

A princípio reconhecida pelos EUA e diversos outros países como a verdadeira China, na década de 70 as coisas começaram a mudar com a visita de Nixon à República Popular da China e o reatar de relações entre os EUA e a RPC, acabando Carter em 1979 por reconhecer a RPC como a verdadeira China.

Apesar da pujança económica – que levou ao reconhecimento internacional do “made in taiwan” e à pertença do clube dos “tigres asiáticos” – o governo do KMT em Taiwan foi sinónimo de uma era de autoritarismo e o fim da lei marcial apenas foi declarado em 1987. A partir daí o caminho para a democracia foi trilhando os seus passos, até 1996 trazer as primeiras eleições presidenciais directas, podendo hoje considerar-se Taiwan como um sucesso democrático, na verdade, o único território de língua chinesa onde a democracia marca presença. Nas eleições de 2000 o KMT perdeu, finalmente, para o DPP.

Actualmente o panorama em Taiwan segue marcado pelas relações com a China e o seu estatuto político é dúbio, sendo o cenário mais ou menos o de um “tu não chateias e eu não chateio”. Ou seja, tu não nos anexas e nós não declaramos a independência.


Mesmo numa breve visita a Taiwan podemos concluir a influência chinesa um pouco por todo o lado. Os migrantes do Fujian e do Guangdong trouxeram a sua cultura e ela está presente – na comida e nos templos, por exemplo. Nas ruas de Taipé, no entanto, Ximending e a sua cultura jovem está mais próxima de Tóquio do que de Pequim. Na sua globalidade, talvez possamos concluir que a Taiwan de hoje mescla a China e o Japão para dai fazer emergir um país com uma identidade própria, a taiwanesa.