Bilbao – Gastronomia e Cultura

Em qualquer texto sobre Bilbao não poderá faltar a menção a pelo menos dois aspectos que mais fielmente caracterizam a cidade: a sua gastronomia e a sua oferta cultural.

Quanto ao primeiro, a gastronomia, confesso que não tivemos nem disponibilidade de tempo nem monetária para nos lançarmos a descobrir os novos e modernos restaurantes da cidade. Optámos, assim, por nos imbuirmos no espírito bem espanhol – e também basco – juntando-nos à barra para pintxear, vulgo tapear.
Na Plaza Nueva encontramos alguns dos bares mais populares no que a esta actividade diz respeito (o Victor Montes e o Café Bar Bilbao são duas boas opções). Os pintxos por aqui são imaginativos, sofisticados e com todos os ingredientes que possamos desejar. O difícil é mesmo chegar até ao balcão, furando entre a multidão, para fazer o pedido. À parte a confusão para se aceder a este ritual, a arte dos pintxos é uma verdadeira cultura, com concursos para se eleger os melhores, livros com um sem número de receitas a eles dedicados e, ainda, rotas dos pintxos sugeridas para que não deixemos nada por saborear.

No que à oferta cultural diz respeito, o Museu Guggenheim é incontornável e pacificamente aceite como o grande e decisivo impulsionador desta nova Bilbao, culturalmente pujante. Lá chegaremos, então, que mais haverá a referir.
Existe um leque variado de museus na cidade, desde o Museu Diocesano de Arte Sacra (do qual só conhecemos os claustros do edifício onde está instalado e onde estava patente uma interessante e patusca exposição de presépios de natal), o Museu Basco, o Museu Taurino e o Museu Marítimo da Ria, até ao Museu de Belas Artes. Para além destes há que não esquecer a programação do Teatro Arriaga (teatro, música, dança), os espectáculos de música, dança, ópera e concertos que têm por cenário o Palácio Euskalduna e, também, as importantes exposições na Sala Rekalde (mais as inúmeras galerias que existem pela cidade).
Os dois museus que visitámos foram o de Belas Artes e o Guggenheim.
O primeiro, não tão falado e alardeado como o segundo, é uma grande surpresa.

O Museo de Bellas Artes de Bilbao expõe obras (pintura, escultura, desenho, gravura, artes decorativas) desde o século XII até aos nossos dias. Possui a segunda maior colecção de arte clássica em Espanha, logo a seguir ao Prado. Entre as inúmeras obras pertencentes ao museu encontram-se trabalhos de artistas como El Greco, Goya, Cezanne, Gauguin. Tenho ainda bem presente a recente entrevista do Presidente da Fundação de Serralves ao Público de domingo passado e concordo quando, a propósito da Colecção Berardo, afirma que não vale tudo ($) para se ter um Picasso quando provavelmente esse Picasso nem será um dos melhores. Não sei se efectivamente o Gauguin do Museu de Bilbao era um dos melhores, ou pelo menos um dos bons, de Gauguin. Sei apenas que só de pensar que um museu tem um Gauguin já fico absolutamente entusiasmada. Daí que a grande desilusão deste museu tenha sido não ter encontrado resposta à pergunta “mas onde raio é que se meteu o Gauguin?”. Ele não estava lá, pronto. Mas estava Vieira da Silva, Bacon, Tàpies, Barceló. Muito boa, interessante e divertida a parte do museu dedicada à arte contemporânea.


O Guggenheim de Bilbao é também um museu dedicado à arte contemporânea.
Talvez, as suas colecções e exposições não sejam o mais importante. Talvez percam para a arquitectura do edifício. Ainda que a sua colecção não seja de desprezar, o Guggenheim de Bilbao é, na verdade, muito mais do que um museu. É desde, logo, uma obra de arte no que respeita à arquitectura do edifício que acolhe outras obras de arte.
Frank O. Gehry, o arquitecto responsável pelo projecto, pôde aqui dar largas à sua imaginação, utilizando os materiais que lhe são queridos, em especial o titânio, e combinando as várias placas, sobrepondo-as às outras, retorcendo-as, dando, enfim, aquela característica tão típica e facilmente identificável das suas obras. Diz que queria que a forma do edifício fizesse lembrar um navio, o que bate certo com a sua implantação – na margem da ria Nérvion e numa cidade conhecida por ser (ter sido) portuária.


Mas o mais fantástico é que esta nova atracção turística é facilmente acessível. Literalmente. Podemos circular em todo o espaço exterior, mirando o edifício de bem próximo, ao nível do solo ou de um plano mais alto (do tabuleiro da Ponte de Salve ou, bem mais distante, do monte de Artxanda ou do Parque de Etxebarria), e tocando-o. Isto em relação à sua fachada. A excelência da sua arquitectura está igualmente presente no interior do edifício, e a entrada no átrio mais não faz do que prolongar o nosso deslumbramento.


A colecção permanente do Guggenheim de Bilbao é, muitas das vezes, acusada de não ser lá essas coisas. Pode ser. Para quem viva em Paris, Nova Iorque, ou numa qualquer cidade alemã. Não é o meu caso. Uma das instalações mais famosas deste Guggenheim é aquela que Richard Serra criou para a inauguração do museu, em 1997, a Serpente, à qual, entretanto, acrescentou outras sete esculturas. A “Matéria do Tempo” ocupa a maior sala do museu e apresenta-se-nos como uma série de esculturas em aço, de tamanho brutal, dispostas em forma de espiral nas quais podemos circular de forma quase infinita até que percamos a noção do tempo – e do espaço. O segundo andar do museu permite-nos uma visão total e abrangente desta instalação / escultura.


Mas onde este museu poderá demonstrar a sua força é na apresentação das exposições temporárias, já que aqui tem a oportunidade de receber mostras que passem por outros Guggenheim no mundo, designadamente na casa mãe de Nova Iorque. Não é o caso, no entanto, da exposição “100% África”, que ao que sei, não esteve até à data em nenhum outro museu desta “marca”.


A exposição “100% África” é apresentada pela Contemporany African Art Collection, conjunto de trabalhos de artistas africanos contemporâneos formada por um empresário suíço de nome Jean Pigozzi. O curioso é que esta exposição se propôs mostrar-nos a arte de cerca de 25 africanos que vivem e trabalham na África subsahariana, abarcando desde fotografia, pintura, escultura até objectos vários recriados através da mistura de despojos que à partida julgaríamos não servir para coisa alguma. Veja-se o exemplo da bicicleta e pássaro gigante de obra de um artista moçambicano.


Em resumo, uma sorte calhar de estar em Bilbao ao mesmo tempo que aí se apresenta uma exposição de arte contemporânea tão rica e, ao mesmo tempo, tão simples na mensagem e nos objectos que utiliza.


No espaço público (passeio) exterior ao museu encontramos ainda dois dos maiores símbolos que, depois do próprio edifício, melhor nos permitem identificar este marco da nossa cultura. Falo do “Puppy”, escultura gigante de um cãozinho coberto de florzinhas, criada pelo americano Jeff Koons, e “Maman”, a aranha em bronze, também gigantesca, criada por Louise Bourgeois.


Tudo em grande, já se vê.

Bilbao – Pontes

Em Bilbao a Ria de Nervion é omnipresente. Nas suas margens têm surgido algumas das maiores transformações que a cidade vem recebendo, nomeadamente a construção do Guggenheim e todo o arranjo do espaço público ribeirinho de Abandoibarra.
Esta Ria vai cortando a cidade de um ponto ao outro, ela que primitivamente se instalou apenas na sua margem direita onde, por exemplo, se encontra o Casco Viejo. Com o passar dos anos, o desenvolvimento do pueblo obrigou a que este se fosse estendendo para o que hoje conhecemos como a área do Abando, a mais recente, cosmopolita e o principal centro de comércio e negócios nos nossos dias.
Neste processo de expansão natural da cidade havia que vencer a barreira da água. Não seria um trabalho difícil, mesmo na época da fundação da cidade, em 1300, uma vez que a ria não tem mais do que 30 a 50 metros de largura.
Percorramos, então, as pontes de Bilbao.

A primeira ponte com que nos deparamos em Bilbao, num sentido leste-oeste, a caminho do Mar Cantábrico, é a Ponte San Antón, a qual se presume ser anterior à própria fundação da cidade. É igualmente conhecida como “Puente Vieja” dado o seu título de mais antiga e, durante muitos anos, única. É um símbolo da cidade e, a prová-lo, a sua imagem faz parte do escudo de Bilbao. Veio, todavia, a ser reedificada em 1937, após a guerra civil.

Segue-se a Ponte de La Ribera e situa-se bem pertinho do Mercado com o mesmo nome. Esta ponte foi construída em 1939 mas neste mesmo lugar existia anteriormente uma ponte colgante (transportadora) desde 1827 (ainda mais antiga do que a famosíssima que vemos hoje em Portugalete).

A próxima que se avista é a Ponte de La Merced, construída em 1886 e reconstruída em 1938. O nome tomou-o de um Convento que no século XVII existia ali bem perto.

Caminhando, ou melhor, navegando rumo ao centro cívico da cidade chegamos à Ponte del Arenal. Esta ponte foi a terceira a ser construída (depois da de San Antón e da ponte colgante que existia onde hoje se situa a de La Ribera), em 1847. Teve como objectivo maior fazer face ao crescimento de que Bilbao vinha tendo e ligou a cidade velha à República de Abando, não sem os protestos dos habitantes desta última que não concordavam com a anexação do seu território por parte dos bilbainos.

Bem junto à Câmara Municipal temos a ponte com o mesmo nome, a del Ayuntamiento. Foi construída em 1934, e reconstruída em 1940, tendo sido, inicialmente, uma ponte levadiça. A partir de finais dos anos 60, com o fim do tráfego mercantil pela Ria, tornou-se apenas fixa e daquelas que se situam no centro é a mais concorrida no que a trânsito automóvel diz respeito.



A ponte seguinte, no sentido que temos vindo a tomar, é um dos ex libris de Bilbao. Da moderna Bilbao. A Ponte Zubizuri, de 1997, projectada por Santiago Calatrava, é exclusivamente pedonal, ligando o Campo de Volantin ao Paseo de Uribitarte, numa área que oferece a todos nós a possibilidade de caminharmos sem preocupações de maior senão a de contemplar a sua fina arquitectura. Cuidado, no entanto, se estiver a chover e quisermos atravessar a ponte. As quedas costumam ser mais que muitas. Enfim… se os materiais usados não previram aquela possibilidade, a originalidade e estética do seu desenho compensam os tombos, mesmo que estes aconteçam à noite, quando a iluminação da ponte nos proporciona um visual quase perfeito.


Segue-se a Ponte Príncipes de Espanha, mais conhecida como La Salve. Foi construída em 1972 para fazer face ao trânsito que inundava esta parte da cidade. Para além do seu colorido verde, tem ainda como marcas características, a torre elevador amarela do seu lado direito (caso o elevador esteja avariado pode-se subir de escadas até à sua plataforma; o que não se pode é perder a possibilidade de se obter uma vista privilegiada do Guggenheim) e a torre que foi posteriormente construída para o lado contrário no sentido de integrar a ponte com o museu. A este propósito, e aproveitando que o museu cumpre em 2007 10 anos de existência, em Dezembro encontravam-se em exposição no Guggenheim as maquetas de três propostas para intervenção artística nesta Ponte, com o objectivo de valorizar ainda mais toda a envolvente. A proposta vencedora propõe-se recriar o arco da Ponte de Salve, passando a sua cor para um vermelho vivo. Para saber mais sobre o assunto é clicar aqui.

Deixados Calatrava e Frank O. Gehry para trás aparece-nos, em seguida, a Ponte Pedro Arrupe. Procura unir o Passeio de Abandoibarra com a Avenida das Universidades. No que a modernidade diz respeito, estão em boa companhia as obras daqueles dois arquitectos, não se pode negar. A última ponte que Bilbao recebeu, em apenas 2003, foi obra do já falecido engenheiro José António Fernandez Ordoñez, que não foi a tempo de constatar o quão fotogénica a sua obra é, principalmente no que ao seu desenho diz respeito se observado por baixo da ponte, bem ao nível da água.

A próxima é a Ponte Deusto. Construída em 1936, começou por ser móvel e veio possibilitar a expansão da zona de Deusto que, assim deixou de ser quase exclusivamente agrária.

Por fim, a Ponte Euskalduna. Tal como a de Calatrava, foi construída em 1997, e da sua plataforma obtêm-se vistas privilegiadas para o Palácio Euskalduna – centro de congressos – e para a área do porto hoje reconvertida em Museu Marítimo.

Já fora de Bilbao, mas ainda parte da sua área metropolitana, encontramos aquela que é, provavelmente, a mais famosa de todas as pontes que aqui estão presentes. É ela a Ponte Colgante (transportadora) que liga as cidades portuárias de Portugalete e Getxo. Foi construída em 1893, por Alberto Palácio, engenheiro basco discípulo de Gustave Eiffel, o que faz dela a mais antiga ponte transportadora do mundo. Tem ainda o privilégio de constar da lista do Património da Humanidade da Unesco.
Como novidade trouxe a possibilidade dos habitantes das duas cidades poderem atravessar a ria sem que isso perturbasse o tráfego marítimo e sem que fosse necessário construir uma estrutura muito alta. Assim, no que se observa hoje em dia, uma espécie de cabine realiza a travessia, presa por cabos metálicos, com capacidade para transportar cerca de 6 carros e dezenas de passageiros em um minuto e meio, com uma frequência quase ininterrupta. Estimativas recentes de 2002 apontam que em 109 anos de história (até essa data) a dita cabine tenha transportado cerca de 650 milhões de pessoas, numa médio de 6 milhões por ano.
Desde 1999 que existe uma passadeira pedonal a 50 metros de altura que permite a visita de quem queira explorar a engenharia da ponte de mais próximo ou aproveitar a vista aérea das cidades portuárias. Não estivesse o tempo chuvoso e nublado e a conclusão desta história poderia ser outra, mais pormenorizada e entusiástica, certamente.
Não obstante, esta ponte, que tem como nome oficial “Puente Vizcaya”, é sem dúvida um marco de engenharia, bem junto a uma cidade pitoresca como é Portugalete, e não falta nem uma canção que lhe presta homenagem “Puente de Portugalete, tu eres el más elegante, Puente de Portugalete, el mejor Puente Colgante…”

Bilbao – Parques e Miradouros

Como referi em post anterior, Bilbao é conhecida como “El botxo”, “o buraco”, por ficar situada lá em baixo, com as montanhas protegendo as suas margens. Não tem as 7 colinas, como Lisboa. Nem tem um desnível tão característico e carismático como o da nossa cidade. Mas tem, à semelhança de Lisboa, uns quantos funiculares e elevadores que se propõem vencer a batalha da acessibilidade às partes altas da cidade.

Na Praça do Funicular, bem atrás do Campo de Volantin na direcção da Ponte Zubizurri, de Calatrava, apanha-se o funicular Artxanda. São cerca de 700 metros de subida no confortável eléctrico encarnado. E a chegada ao topo deixa-nos num parque bem cuidado, a convidar ao ócio, lazer ou exercício. E a vista! Para um lado temos a cidade de Bilbao lá em baixo, com a ria de Nervion a dividir a terra e o Guggenheim sempre presente. Para o outro lado temos o aeroporto ao fundo, com o inconfundível traço de Calatrava no seu novo terminal. Em resumo, a pacatez no alto da cidade.


De Artxanda é ainda possível observar-se bem vincado na paisagem a grande área que toma o Parque Etxebarria, que parece querer subir aos ombros do Casco Viejo. É destes pontos mais altos das cidades, “as vistas de pássaro”, que nos permitimos compreender melhor a ocupação dos seus espaços. E daqui observa-se como é ainda marcante a presença da memória da indústria na cidade, nomeadamente pela integração das grandes chaminés nos novos bairros ou na reconversão das antigas zonas industriais em áreas de lazer.


Ao Parque Etxebarria pode aceder-se desde o Casco Viejo, seja por um dos ascensores seja a la pata. Estranhamente (lá calhou), optámos por subir a pé a imensa escadaria de Calzadas de Mallona, dirigindo-nos até à Catedral de Begoña, e descer de ascensor depois de uma volta pelo parque. A mãe é que não achou muita piada à estafante ideia mas…, enfim, a vista desde este outro ponto alto da cidade foi uma vez mais compensadora, sendo muito abrangente e esclarecedora dos contornos de Bilbao.


A área onde hoje se encontra instalado o Parque Etxebarria era, até há 25 anos atrás, ocupada por uma fundição e tornou-se no primeiro exemplo da guinada da cidade de Bilbao rumo à reconversão urbanística. Comparando o que era nos anos 80 e o que é hoje esta parte da cidade, diriamos que esta sofreu um transplante de rosto total e a indústria de ontem deu lugar ao imenso verde de espaço público onde os míudos jogam à bola nos campos informais, correm, andam de skate ou, simplesmente, sentam junto à antiga chaminé contemplando o Casco Viejo lá em baixo.


E já que falamos de parques, passemos então para o Doña Casilda, este já não num ponto elevado da cidade, mas antes ao nível da ria. Bem perto da ria, para ser mais correcta. Este carismático parque, a completar 100 anos, fica situado entre o Palácio Euskalduna (Centro de Congressos) e o Museu de Belas Artes, logo, numa área muito concorrida. No centro do parque encontramos um edifício em estilo romântico, em cujas arcadas se reunem os jovens que animam quem por aí vai pass(e)ando. Não lhe faltam os lagos com os patinhos, realçando a vida campestre. Este parque tem estado em constante renovação e não tem parado de crescer. Hoje, a cafetaria do Museu de Belas Artes está plenamente integrada na área do parque e, por outro lado, este vem ainda estendendo-se para mais próximo da água até tocar e quase se fundir com a área de Abandoibarra colada à ria.


Esta zona circundante à nova Avenida Abandoibarra, que liga o Euskalduna ao Guggenheim, passando pelos recentes hotel Sheraton e centro comercial, oferece-nos um novo parque, conhecido como Paseo de la Memoria. Os seus objectivos são ambiciosos já que se propõe abranger muito para além da área que liga aqueles dois novos símbolos da cidade, estendendo-se por quase toda a orla direita de Bilbao, até às portas do Casco Viejo. No meio deste intenso verde encontramos um sem número de obras de arte pública, incluindo a “Bailarina” de Dali, e um jardim infantil bem em frente do Guggenheim, em cujos cavalinhos passei, aliás, a meia noite de 2006 para 2007. Aqui, à semelhança do que acontece com o nosso Parque das Nações, igualmente um bem sucedido projecto de reconversão urbanística, devemos estar atentos aos detalhes, não só das esculturas que nos vão aparecendo amíude, como também dos candeeiros, dos bancos, dos caixotes de lixo e de todas as outras infra-estruturas que lá estão para nos servir em todos os sentidos.

A Bailarina de Salvador Dali

Os candeeiros do Euskalduna

A mega chávena em frente ao Sheraton

Estamos, então, conversados no que a parques diz respeito? Parece que não. E digo parece porque estes foram apenas aqueles que conseguimos visitar nesta curta jornada, mas muito haverá ainda para descobrir nesta nova cidade com o novo propósito de ser vivida pelos seus habitantes.

Bilbao – Cidade Velha / Cidade Nova

Na generalidade, quando se visita uma cidade, ainda que a mesma esteja conotada com a modernidade e as obras recentes que a revolucionaram, é praticamente impossível não se dedicar parte do nosso tempo ao seu “centro”.
E no caso de Bilbao merece bem a pena que assim seja.
Como o referido em post anterior, a cidade foi fundada no ano de 1300, junto à ria. Até hoje permanece o traçado do que se denominou de “Siete Calles”, também conhecido como o “Casco Viejo”. Estas 7 ruas, estreitas, às quais hoje em dia desembocam mais um sem número de ruas ainda mais estreitas, estão pejadas de tabernas e restaurantes para todas as bolsas, bem como lojas de comércio mais tradicional ou da moda. Muito pitoresco, com as casas bem conservadas e com o seu colorido a dar mais encanto a quem por lá passa.


Como não podia deixar de ser, cidade espanhola sem a sua “Plaza” não é cidade espanhola. Em Bilbao este lugar toma o nome de “Plaza Nueva”, ampla e com arcadas, como se pede, e com uma animação quase constante em todos os minutos dos dias. Às horas das refeições, os locais ficam em pé à porta dos bares / restaurantes (porque não cabe mais ninguém lá dentro) ou sentados na esplanada aí perto. Para nós, pouco habituadas a este tipo de confusões para jantar, foi uma autêntica aventura, primeiro, conseguir pedir ao empregado uma dúzia de pintxos, depois, sair com os pratos empurrando a multidão aglomerada no bar sem os deixar cair.
Enquanto os pais, avós, tios, o que seja, convivem animadamente e bebem qualquer coisa, as crianças brincam, jogam à bola, andam de patins ou de skate no centro da praça. Ao domingo o local transforma-se com as bancas que lá são instaladas por aqueles que querem vender tudo e mais alguma coisa. Antiguidades e não só. Uma mini feira da ladra, onde ao lado dos vendedores mais ou menos profissionais se juntam aqueles que se querem desfazer dos seus tarecos.


Aqui perto do Casco Viejo fica o Mercado de la Ribera, com direito a site na Internet e tudo.
Segundo o site oficial do turismo de Bilbao, em 1990 este mercado de alimentos foi mesmo reconhecido pelo Guiness como o mais completo e é o maior no que diz respeito a número de comerciantes e postos de venda, bem como o maior mercado coberto da Europa, com 10 mil m2. Ufa! Com tantos dados estatísticos, resta acrescentar que o seu edifício, em art-deco, foi construído em 1929 e o seu amplo interior se divide em 3 andares. No rés-do-chão ficam as bancas do peixe, marisco e congelados; no 1.º andar as de carne e charcutarias; e no 2.º andar as de frutas e verduras. Ao tempo que o visitamos, o último andar servia ainda de espaço de exposições.
À frente do mercado encontram-se as arcadas dos edifícios da Rua de la Ribera. É obrigatório olhar para os seus tectos, de outra forma é muito fácil perdermos irremediavelmente um pouco da arte presente nas ruas da cidade. Os tectos estão pintados com motivos diversos – um parece remeter-nos para um imaginário indígena, outro para um ambiente bucólico, logo seguido de outro que relembra a violência da guerra e outro ainda que nos oferece o colorido da cidade moderna, acompanhada pela musicalidade das pautas.


A merecer uma olhada mais atenta, ainda, no centro antigo da cidade destacam-se as várias igrejas (San Antón, San Nicolás, Santiago) e o Teatro Arriaga.


Para além do núcleo mais antigo da cidade, vale igualmente a pena deambular pelas suas zonas mais recentes, não aquela que nos nossos dias anda nas mãos dos arquitectos mais famosos e nas bocas do mundo, mas sim aquelas para a qual Bilbao, tentando combater a falta de espaço, cresceu e se expandiu nos finais do século XIX, cujos projectos foram designados por “El Ensanche”. Daí a criação dos actuais bairros de Begoña, Deustu e Abando. Neste último, na margem esquerda da ria, fica o que hoje se considera o centro da cidade. Centro financeiro e centro de comércio, não abdicando, porém, de conservar áreas residenciais. A Plaza Moyua desempenha um papel de eixo central sendo atravessada pela Gran Via. Pelos quarteirões afora encontram-se alguns edifícios imponentes e elegantes, bem como ricos nos seus pormenores. É aqui nesta zona que estão situados 2 dos 3 mais afamados e populares cafés de Bilbao – o La Granja e o Iruña (o Boulevard fica no Arenal e encontrava-se encerrado aquando da nossa passagem pela cidade). O La Granja parece conservar uma atmosfera algo senhorial, enquanto que o Iruña possui uma decoração mourisca bem vincada quer nos seus azulejos quer em algum do seu mobiliário.


Um pouco mais afastado de Abando, já no que será considerado o bairro Basurto, fica o estádio de San Mamés. O nosso interesse pelo desporto em geral, e o futebol em particular, leva a que não nos esqueçamos de dar uma passada pelos estádios das cidades que visitamos. E aqui, mais uma vez, confirmamos que não é inevitável que estes grandes equipamentos sejam atracções de circo absolutamente disformes, monstruosos e desintegrados do local onde se encontram (logicamente que tenho sempre presente os maus exemplos dos estádios do Sporting e Benfica na minha cidade, Lisboa, e nos bons exemplos dos estádios do Boavista, no Porto, e do Vitória, em Guimarães). O estádio de San Mamés, onde joga o Athletic (a par do Real Madrid e do Barcelona é um dos 3 únicos clubes espanhóis a ter o privilégio de nunca haver sido relegado para a II divisão), ocupa discretamente um quarteirão (à semelhança, aliás, do que acontece com o estádio do Real, em Madrid) desde 1913, o que faz com que seja o mais antigo de Espanha, ainda que tenha sofrido uma profunda reabilitação por ocasião do Mundial FIFA de 1982. Para breve prevê-se a construção de um novo estádio numa área adjacente ao actual.


Por explorar, na zona mais central de Bilbao, ficou o bairro de Deustu, a provar que 3 dias inteiros gastos apenas na cidade não são demais.

Bilbao – Apresentando

Bilbao é carinhosamente conhecida pelos seus habitantes por “El botxo”, ou seja, “o buraco”, dado que a sua situação geográfica a mantém rodeada de montanhas.


Quando disser que vai até Bilbao, a passeio, não será muito provável que oiça vozes a dizer “o que vais fazer para aquele buraco?”. Mas é certamente muito provável que oiça vozes a estranhar a escolha do destino argumentando que nada há que fazer / ver nessa cidade industrial. Aí, desconfie: ou o seu interlocutor não está a par da actualidade ou não aprecia a evolução urbanística.
Porque é disso que se trata – a reconversão de uma cidade no sentido de a guiar à modernidade e às exigências que se pedem a uma cidade do século XXI.

Efectivamente, Bilbao, situada no País Basco, norte de Espanha, virada para o Golfo da Biscaia, ganhou fama por ser uma cidade altamente industrial. Antes disso, porém, em 1300 foi-lhe concedido o título de cidade por Don Diego Lopez de Haro, que hoje dá o nome à Gran Via, a avenida das compras por excelência. Foi só no século XIX que Bilbao se desenvolveu e transformou de uma forma intensa, baseada na exploração das zonas mineiras ali perto que levaram a que o comércio marítimo e a actividade portuária crescessem de uma forma exponencial. A acompanhar essa situação, também a indústria siderúrgica e a construção de barcos contribuíram para o seu crescimento económico. Com a chegada dos caminhos-de-ferro no fim daquele século, estava montado o cenário ideal para que Bilbao ganhasse a tal fama de cidade industrial, com maquinaria e edifícios pesados, bem como bairros residenciais de operários.

Acontece que chegou a década de 70 do século XX e com ela o fim da industrialização. Chegou ao fim, igualmente, o Franquismo e com isso veio a democracia e o estatuto de autonomia do País Basco. Mas tal não obstou à inevitabilidade da decadência da cidade, em termos económicos, a qual era mais do que iminente – já tinha chegado. Para agravar ainda mais a situação, em 1983 a cidade sofreu grandes inundações. No entanto, como diz o ditado “há males que vêm por bem” e, face a dois caminhos para se seguir, o de deixar o tempo correr pela cidade ou, pelo contrário, criar a cidade o seu próprio tempo, os poderes públicos que governam Bilbao optaram por este último. Ou seja, realizaram que a necessidade de dar uma nova cara à cidade, criando novas infra-estruturas e serviços, era imperiosa.
Vai daí, pararam para pensar a cidade e em 1992 foi criada a Bilbao Ria 2000, constituída por capitais públicos, com o objectivo de actuar no âmbito do urbanismo, transportes e meio ambiente – o tridente da moda –, recuperando zonas degradadas ou áreas industriais em declínio na área metropolitana de Bilbao.
De notar que esta área metropolitana é composta por quase 1 milhão de habitantes, ainda que a cidade de Bilbao tenha apenas cerca de 300 mil.

O que se observa hoje é uma cidade pujante, cheia de vida nas ruas (o que é comum a muitas cidades espanholas), as quais estão ocupadas com as lojas das melhores marcas mundiais, com restaurantes e uma gastronomia altamente elogiada, oferta cultural ao nível de uma capital, uma rede de transportes eficiente e variada e, talvez o mais visível, um atelier a céu aberto no qual os grandes nomes da arquitectura mundial fazem questão de marcar presença.
Concluo esta introdução à cidade realçando brevemente estes dois últimos aspectos: os transportes e os arquitectos.


Quanto aos transportes, para além do comum autocarro (Bilbobus), existe ainda a possibilidade de nos movermos através do agradável, moderno e rápido Euskotran (um eléctrico verde, em todos os sentidos, do século XXI) e do Metro .


O Metro foi desenhado por Norman Foster (escolhido para recuperar o bairro da Boavista, em Lisboa, cujo projecto se viu envolvido em polémica por contemplar um torre de 100 metros de altura, contrariando o PDM local). Graças à originalidade das suas entradas em Bilbao, logo designadas pelos locais por “fosteritos”, a sua imagem é hoje reconhecida em qualquer canto do mundo. Em 1998 o Metro de Bilbao ganhou o Premio Brunel de Arquitectura ferroviária. Dispõe de duas linhas que não se limitam à área da cidade, antes nos levam até Portugalete, uma, e Plentzia, junto às praias, a outra.
A cidade está ainda provida de comboios e aviões. O seu aeroporto é também um dos focos de atenção do mundo – o novo terminal, concluído em 2000, é obra de Santiago Calatrava, o espanhol nosso conhecido por ser autor da Gare do Oriente em Lisboa. Encontram-se algumas semelhanças em vários detalhes das duas obras, graças ao estilo inconfundível das criações de Calatrava.

Aproveitando a deixa da referência a Calatrava, entremos então no tema arquitectura e comecemos por referir que este arquitecto espanhol deixou também a sua marca no traço da ponte Zubizuri, a mais original e facilmente confundível com a nova imagem da cidade. Este símbolo é apenas superado pelo edifício do Museu Guggenheim, desenhado pelo arquitecto americano Frank O. Gehry, o mesmo que o nosso ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa escolheu para recuperar os terrenos do Parque Mayer (aí vão três as comparações com arquitectos que também projectaram para Lisboa; a diferença é que em Bilbao foram em frente sem medo da mudança e do “abalo” urbanístico e em Lisboa se hesita e se esbarra nas burocracias instaladas). Voltando ao Guggenheim, esta obra confunde-se com a cidade e foi, definitivamente, o foco catalizador para toda esta força e vitalidade que Bilbao demonstra. Mas há mais: o novo Palácio Euskalduna de Congressos e de Música, de 1999, a ampliação do Parque de Doña Casilda, junto ao Euskaduna, Guggenheim e Nervión; toda a frente ribeirinha do Abando e Campo de Volantin, consagrada exclusivamente ao ócio, lazer ou prática de desportos ao ar livre – corrida, patins e bicicleta.


E as transformações não param. Para breve prevê-se o andamento da reconversão de uma outra zona da cidade, uma península no meio da ria junto ao bairro de Deusto, cujo projecto foi designado “Zorrotzaurre Skyline” e é de autoria de outro nome consagrado da arquitectura: desta vez uma senhora, a iraquiana Zaha Hadid.

Como se vê, Bilbao tem tudo o que se quer / espera de uma cidade, incluindo uma vila mártir a poucos quilómetros – Guernica – e praias a igual distância, com direito ao bónus de uma das melhores ondas para o surf da Europa (se não a melhor) – Mundaka.
Como diriam os brasileiros, “Bilbao está podendo”.

23:59 – 00:00 (2006-2007)


Poucos locais mais insipiradores para se passar o ano haverá do que fazê-lo face a face com uma das maiores obras de arquitectura moderna. E se o fizermos com menos de uma dezena de pessoas à volta então…
Junto ao Guggenheim de Bilbao, numa noite convidativa, sem muito frio, e com os locais espanhóis retidos em suas casas, com a família e amigos, e entretidos a mandar foguetes das suas janelas para os céus (incluindo para as placas de titânio que fazem a fama do edifício projectado por Frank O. Gehry), coube-me, assim, o privilégio de virar o ano na melhor companhia e no melhor local.
Depois, enquanto os bilbainos saiam finalmente para as ruas para comemorar, passeei junto ao estreito rio Nervion e atravessei a ponte Zubizuri, desenhada por Calatrava, retornando serenamente até ao quarto de hotel.
Um 2007 de muitos passeios, é o que se espera.