Açores – Mal-Amanhados, os Novos Corsários das Ilhas

Começou a meio de Abril uma série de 10 episódios que nos apresenta os Açores de uma forma diferente. Estão lá todas as suas paisagens do outro mundo, que nos fazem querer correr para qualquer uma das ilhas do arquipélago em busca de lagoas, vulcões e curiosidades. E é precisamente neste último aspecto que Mal-Amanhados, os Novos Corsários das Ilhas é mestre.

Luís Filipe Borges e Nuno Costa Santos, dois açorianos, um terceirense e o outro micaelense, um comediante e o outro escritor, ambos a viver há décadas no continente, tinham um sonho que finalmente se transformou numa declaração de amor à sua terra. E nós, que perdemos o papel de alcoviteiros, não perderemos agora a chance de manter esta relação de amor debaixo de olho, seguindo com emoção cada um dos seus episódios.

O primeiro episódio começou pelo Pico, a ilha mais jovem, a ilha de povoação impossível, a ilha da montanha plantada no meio do Atlântico. Pois bem, no negrume ainda vivo de poucos séculos o Homem contornou os impossíveis e estabeleceu-se, criando vinhas na lava enquanto olha melancólico para o Canal e para a maior elevação de Portugal. História, cultura de ontem e de hoje, aventura, tudo nos é contado pelos Mal-Amanhados, sempre com beleza, alegria e imaginação. Pudera. Com todo aquele cenário natural isolado e até desolado não é difícil homenagear as suas gentes, aquelas que insistem em manter a alma açoriana – por necessidade levada às lonjuras deste mundo -, ao mesmo tempo que nos recebem em sua casa.

Cada um dos 10 episódios é dedicado a uma das 9 ilhas do arquipélago e o último a todas elas. Uma viagem a não perder às 5ªs feiras, às 21:45, na RTP Açores ou a qualquer momento na RTP Play.

Andes Mágicos

Este blogue leva como nome “Andes Sem Parar”. Porque pretendíamos não nos cansar de andar por aí e porque foram os Andes quem primeiro começou por nos fascinar.

Em 1998 viajámos pela primeira vez até aos Andes. À Patagónia. Desde aí fomos subindo, tomando o norte até ao último contacto com os Andes em 2016, já aos pés das Caraíbas, na Colômbia. Nunca pensei que essa viagem inicial de há 22 anos viesse a ser até hoje a única até à Patagónia, para mim ainda hoje o lugar mais fantástico e sonhado dos Andes.

É precisamente em Ushuaia, a cidade mais austral do planeta, que tem início a série documental “Andes Mágicos”, disponível em streaming na Netflix. E é aí que começa a Cordilheira dos Andes, o nosso primeiro amor de viagem, a maior cadeia montanhosa do nosso planeta, com a extensão de 7500 kms que rasgam a América do Sul de sul a norte.

Ao assistir, agora, aos 6 episódios desta série, um guia para os Andes que vai desde o sul glaciar da Patagónia argentina ou chilena até aos trópicos das Caraíbas colombianas, percebi o tanto que já tive oportunidade de conhecer, mas também as saudades de rever muito e a vontade de visitar muito mais.

É de uma enorme diversidade de paisagens e culturas de que se trata. Para além dos glaciares e da selva, pelo meio temos vulcões ora adormecidos ora atentos, desertos de sal branco e outros de terra vermelha, montanhas de diversas formas e lagos de diversas cores, rios tranquilos ou revoltos à vez. Até vistas para praias no Pacífico. Um paraíso para aventureiros, sejam eles amantes da canoagem, pesca desportiva, bicicleta, escalada ou simples caminhantes contemplativos. As condições de vida inóspitas, como o frio, o vento, a falta de luz, o calor, a remotidão, não foram nem são suficientes para impedir que a região seja povoada desde há muito e tenha visto florescer povos como os mapuches, os quechua ou os incas, com povos nativos que até hoje preservam as suas tradições ancestrais, com a veneração da montanha à cabeça, elemento de ligação com a madre tierra que dá a vida, a Pachamama.

A natureza por aqui pode ser dura e hostil, mas como diz alguém em dado momento num dos episódios desta série “quando sai o sol tudo se esquece”.

Voltando aos incas, é protegido pelas montanhas dos Andes que encontramos um dos maiores sonhos de quase todos os visitantes: a antiga cidade de Machu Picchu, o centro daquela civilização. Mas os símbolos dos Andes não se ficam pelos incas. Aqui é o lugar da mais alta montanha da América e a mais alta fora dos Himalaias, o Aconcágua, com os seus 6960m. O deserto mais árido do mundo, o Atacama, e o maior deserto de sal, o Salar e Uyuni, também ficam nos Andes. Bem como o lago navegável mais alto do planeta, o Titicaca. E onde fica a mais alta capital do mundo? Nos Andes, pois claro, na incrível La Paz, a 3700m de altitude, no entanto, nada comparado com o seu subúrbio El Alto, a 4150m, ou o seu protector Chacaltaya, a 5421m.

As cidades dos Andes, como La Paz e Medellin, por exemplo, são ainda únicas por terem desenvolvido engenhosos e modernos sistemas de transporte através de teleférico para vencer a dificuldade de movimentação pelas suas montanhas. E no Lago Titicaca, por sua vez, as comunidades que se estabeleceram pelas suas águas, fazem-se transportar por barco.

Este é ainda o lugar em que as mulheres preservam a tradição com os seus trajes coloridos e trancinhas como adorno. Mas que, ao mesmo tempo, vestidas com esse mesmo traje tradicional, não deixam de jogar futebol, mostrando que guerreiras também podem divertir-se.

A fauna dos Andes não é menos mítica, com o Condor, a maior ave do mundo, como maior símbolo. As serpentes e os pumas são ainda mais difíceis de ver, felizmente. Mais fácil e amoroso é darmos com uma vicunha, lama ou alpaca ou um flamingo.

E esta é ainda a terra que permite mais de 3000 variedades de batata ou o cultivo de café e a plantação de vinha.

Ao longo desta série, os seus personagens, habitantes e amantes dos Andes, vão tentando traduzir em palavras o que é para eles os Andes. Que são um monumento natural, fascínio, vida e paz, uma benção. Mágicos.

Séries e Documentários para a Quarentena

Como a muitos outros, também a mim me tocou uma pausa forçada no trabalho, permanecendo em casa para, em conjunto com milhões, combater a Pandemia Covid-19. As viagens limitam-se agora ao sofá, na companhia de muitas leituras e séries. E esta é a melhor era para ter tudo ao alcance da vista e da mão. Já tinha(mos) o RTP Play, mas agora assinei a Netflix por um mês, gratuitamente. Se a situação continuar por muito mais tempo, temos ainda disponíveis a HBO e a Amazon Prime nos mesmos moldes. O difícil será dar vazão a tanta informação. Em seguida, alguns documentários e séries que já valia a pena conhecer, mas que com o isolamento em casa se tornam obrigatórios.

Mar, a Última Fronteira – Disponível no RTP Play, este documentário em 6 episódios dá-nos a conhecer o nosso país de uma forma incrível totalmente nova e acessível in loco apenas a muito poucos. Os mergulhadores e cineastas marinhos saem rumo às águas portuguesas nas suas expedições, filmando Portugal de norte a sul, incluindo os arquipélagos dos Açores e da Madeira e até o Banco Gorringe, a maior montanha submarina da Europa, algures no Atlântico português. Não esquecer que 97% de Portugal é mar. No continente visitamos os cavalos-marinhos da Ria Formosa, os tubarões-azuis de Sesimbra e os tubarões pata-roxa de Cascais, terminando em mais um mergulho no que resta de um submarino alemão da II GGM em Matosinhos. O intenso azul do fundo do oceano nos Açores é, no entanto, a imagem que mais fortemente guardo na minha memória, mais do que a sua belíssima fauna marítima. Aprendemos a reconhecer uma série de espécies marinhas para além das mais “óbvias” baleias e tubarões, como as jamantas de Santa Maria, os meros do Corvo, o “malvado” peixe-porco que bicou a cabeça do cineasta subaquático Nuno Sá, os lírios e tantos mais tão belos em paisagens brutais, todos eles testemunhos da riqueza e biodiversidade das águas portuguesas.

Tales by Light – Esta série iniciada em 2015 é uma parceria da National Geographic com a Canon e tem todas as 3 temporadas disponíveis na Netflix. Em cada episódio somos guiados por um fotógrafo num périplo por um ou mais cantos do mundo onde nos mostram e contam o seu muito pessoal ponto de vista. Estes artistas vão a todas, desde o fundo do mar ao topo da montanha, fotografando desde animais no seu mundo natural a humanos em celebração das suas tradições. As imagens são fabulosas e as histórias inspiradoras.

O Nosso Planeta – Esta série documental da Netflix foi estreada em 2019 e conta com a narração de Sir David Attenborough, o historiador da natureza britânico. Esta mega-produção é belíssima. Propõe-se a celebrar as maravilhas da natureza que chegaram aos nossos dias e alerta-nos que temos de fazer mais para as preservar. O primeiro episódio mostra-nos o nosso planeta em geral, iniciando com uma “cabala” entre as aves marinhas e os golfinhos para apanhar um cardume de cavalas. Dificilmente esquecerei a graciosa cena do flamingo a correr. Ou da anunciada violência dos mabecos (cães) face aos gnus (bois) na savana africana, mais tarde reproduzida pelos lobos face aos caribus na floresta boreal. Ou da tocante dança dos multicoloridos pássaros como cortejo a uma fêmea. Ou do aviso: os ursos polares estão a deixar de ter focas para comer, uma vez que o gelo marinho onde elas costumavam parar está a desaparecer. A mensagem é clara: a estabilidade da vida do nosso planeta está em causa. Tudo isto apenas no primeiro episódio. Os restantes 7 episódios de “Nosso Planeta” exploram os habitats mais importantes e celebram a vida que eles ainda sustentam.

Sex and Love Around the World – Nas nossas viagens visitamos os locais e voltamos para casa sem realmente conhecermos grande parte da vida do dia-a-dia de quem nos cruzámos, quanto mais a sua intimidade. Neste documentário, Christiane Amanpour, jornalista e apresentadora da CNN, ajuda-nos a perceber um pouco dessa intimidade em cidades como Tóquio, Deli, Beirute, Berlim, Accra e Xangai. E à sua boleia caminhamos pelas ruas e adentramos nas casas de mulheres e homens, jovens ou menos jovens, ficando a perceber mais acerca das culturas e tradições de cada um e da diversidade do nosso mundo sob um ponto de visto raramente abordado e explorado. Por exemplo, sabia que os casais japoneses raramente se abraçam e não têm por hábito beijar-se sequer em privado?

Chef’s Table – Original da Netflix, estreado em 2015, vai já na sua 6ª temporada e é uma das séries de comida mais aclamadas. Comida é o pretexto para se mostrar a beleza. A beleza dos ingredientes que hão de resultar num prato, sim, mas sobretudo a beleza de tudo o que os rodeia, desde a sua origem, o seu processo de transformação nas mãos de verdadeiros artistas até ao produto final – neste caso uma bonita história contada em cada um dos episódios. Histórias de chefs originais – os mais talentosos da cozinha mundial e outros que aspiram a sê-lo – que com imaginação e perseverança têm feito com que a comida seja hoje considerada uma arte. Arte mostrada com arte por este Chef’s Table.

Street Food Ásia – Dos mesmos autores de Chef’s Table, esta é também uma série da Netflix, estreada em 2019, com 9 episódios (Banguecoque, Osaka, Deli, Yogyakarta, Chiayi, Seoul, Ho Chi Minh, Singapura e Cebu). A comida de rua está na moda, todos a queremos provar. O que não sabemos são as histórias por trás da criação das deliciosas iguarias, muitas vezes simples e humildes como a vida dos seus autores. Ou seja, são também histórias de superação que nos são contadas à boleia da imagem das bancas de rua de cidades vividas e coloridas e alguns dos episódios até puxam à lágrima. Mas o que fica é a vontade de saborear aqueles pitéus tão estranhos e diversos.

Turismo Macabro – Esta é uma série cuja existência e pertinência tem sido questionada, com via aberta para as discussões do politicamente correcto e da moral e da ética. Mas podemos sempre decidir não assisti-la. Iniciei o primeiro episódio, dedicado ao turismo macabro na América Latina, e pretendo continuar a assistir aos restantes 7 episódios. Isto mesmo tendo passado por Medellin, a cidade colombiana onde Pablo Escobar nasceu e viveu deixando como legado uma violência sem limites e o narcoturismo – representado neste primeiro episódio -, dizia, mesmo tendo passado por Medellin e não tendo tido a mínima vontade de visitar qualquer local ligado à El Patron. Mais, tendo achado este tipo de turismo um disparate e de profundo mau gosto. A série Turismo Macabro baseia-se, precisamente, numa ideia de muito mau gosto, a de procurar visitar de um ponto de vista turístico locais malditos e permitir aventuras onde tantos sofreram (e sofrem) e morreram (e morrem) na vida real. David Farrier, o jornalista da Nova Zelândia protagonista desta série da Netflix, assume ser um ávido admirador deste género e avisa logo de início que esta série contém mais de 80% de morte na sua busca incondicional pelo louco, macabro e mórbido. É bizarro e estúpido, mas há que assistir para tirar as nossas conclusões acerca de um nicho do mercado de turismo que está aí um pouco por toda a parte.

Joanna Lumley na Índia

Neste tempo de pandemia em que alguns são obrigados a permanecer em casa, não cessa a sugestão de livros e filmes. É nessa boleia que aproveitamos para ver (ou rever) o documentário “Joanna Lumley na Índia”.

Filmado em 2017, a atriz inglesa leva-nos à sua Índia natal ao longo de três episódios. Podemos ver o primeiro episódio na RTP Play e os restantes dois episódios nos próximos domingos, na RTP2, às 19:05.

Neste documentário o aviso vem logo às primeiras imagens e falas: é impossível conhecer a Índia toda. País imenso e diverso, ainda assim Joanna tenta percorrê-lo.

O início deste primeiro episódio de “Joanna Lumley na Índia” acontece em Madurai, a capital do estado Tamil Nadu no sul da Índia. E é também o início do assombro de cor e confusão das ruas que acontece um pouco por todo o sub-continente. O hinduísmo é igualmente uma constante – a maior religião em terra de muitas outras religiões – e por isso impõe-se uma primeira alusão ao Templo Meenakshi. São tantos os templos fabulosos da Índia que não dá para dizer que este é mais do que qualquer outro. Mas de um dos históricos templos indianos nunca se poderá dizer que é apenas mais um.

Do sul há ainda oportunidade para falar do facto da região ser maioritariamente vegetariana e contribuir para que a Índia seja um dos países com o menor consumo de carne. E umas imagens da bela e em muito intocada paisagem dos Ghats Ocidentais, a cordilheira que rasga o sudoeste da Índia, lugar de plantações de chá e de elefantes.

Em Hyderabad é nos dado a ver o brilho das jóias provenientes das minas de Golconda. O brilho dos diamantes para quem pode, sim, mas também o brilho das braceletes que toda a mulher indiana faz questão de usar.

Temos aqui já uma série de imagens que todos nós facilmente imaginamos da Índia: os templos, a confusão, a cor, o chá e os elefantes. Falta o cinema, neste caso o de Tollywood, de língua telugu, uma das muitas indústrias de cinema da Índia. Num dos maiores e mais avançados estúdios do mundo, instalado às portas de Hyderabad, aqui tudo se cria virtualmente, incluindo tigres a lutarem com seres humanos sem que nem uns nem outros sejam reais.

A jornada deste primeiro episódio continua, agora por Calcutá, durante muitas décadas a capital do Império Britânico na Índia. E aqui, para além de nos ser apresentada uma série de “micro-empresários”, os donos das muitas bancas da deliciosa comida de rua que tem uma forma própria de se comer, é-nos repetida outra imagem da Índia, a pobreza.

Este primeiro episódio termina no Siquim, um dos estados mais pequenos e menos habitados da Índia, terra de fronteira com uma localização estratégica nas montanhas dos Himalaias. Apesar de este ser um périplo em muitos pontos pessoal (Joanna nasceu em Srinagar, na Caxemira, e os seus familiares moraram em Gangtok, no Siquim) e de se recorrer a diversos clichés, esta é uma viagem visual com muito para confirmar e muito mais para descobrir.