A Dragon Apparent

Norman Lewis foi um jornalista britânico que, entre outros, escreveu uns quantos livros de viagem acerca de diversas regiões do mundo.
Elogiado pelos seus pares durante a sua longa vida (morreu em 2003 com 95 anos) – Graham Greene considerou-o mesmo um dos escritores do século -, até à presente data dele li “A Dragon Apparent – Travels in Cambodia, Laos and Vietnam”, publicado em 1951, uma das suas primeiras obras.
Não tendo a pretensão de conhecer de lés a lés todos estes três países, o certo é que conheço alguma coisa de todos eles – e todos eles me fascinaram e fascinam – pelo que pensei ser uma boa escolha começar a leitura de Norman Lewis por aqui.
Aquele que preferia pensar em si como um homem semi-invisível com o propósito de revelar poucas descrições deixou-nos um relato muito belo e interessante, escrevendo sobre minorias étnicas e aldeias, cidades modernas e cidades antigas e, com não podia deixar de ser, sobre paisagens, numa época em que a Indochina colonial já se encontrava em guerra com os franceses, mas ainda antes da guerra com os americanos (Guerra do Vietname que se estenderia aos vizinhos Camboja e Laos).
Um bom documento histórico, em especial pela preocupação que demonstra com as tribos autóctones, é igualmente um cativante relato de um observador diligente que se preocupa em testemunhar o que vê e vive para conosco partilhar.
Não obstante as referidas guerras que desde a sua visita assolaram a região, o mais fantástico é constatar que conseguimos encontrar ainda hoje no que foi a designada Indochina elementos e vivências semelhantes àquelas que nos são reveladas por Norman Lewis. Não querendo recorrer aos clichés da Indochina eterna ou pura, a verdade é que, sobretudo no Laos, consegue-se atingir um estado de uma comunhão quase perfeita com uma realidade que no nosso mundo sabemos difícil de existir já. Comunhão plena com gentes e cenários. O Mekong mítico, os monges de açafrão imaginários.
Ao ler A Dragon Apparent parece que aqui e ali o mundo (na Indochina) parou e é hoje igual ao que era há 60 anos. Os textos sobre Angkor lio-os como se quem os tivesse escrito fosse o meu companheiro de viagem de 2008. Do Laos, aos primeiros adjectivos para descrever a montanha de rocha sublime, logo vi que era a Vang Vieng de 2013.
Certo, concedo. Estes são lugares perdidos no tempo e no espaço, não mudarão muito ao longo das décadas que se seguirão. Mas que dizer então de Saigão, a cidade a caminho de se tornar metrópole? Um exemplo:
“Era claro desde o primeiro momento em que me pus a caminho por estas abarrotadas, tórridas ruas que as vidas das pessoas do Extremo Oriente eram vividas em público. A rua é uma extensão da casa e não há uma linha divisória forte entre as duas. Ao amanhecer, no caso de Saigão, à hora em que o toque de recolher é levantado, as pessoas rolam da cama e fazem-se ao pavimento, onde há mais espaço, para efectuarem a maior parte da sua toalete. Depois, elas comem, jogam às cartas, dormitam, lavam-se, têm os seus dentes observados, são massajados por médicos, visitam adivinhos; tudo na rua. Não há nenhum do desejo de privacidade que é tão forte na Europa.”
Ainda de Saigão, o autor refere o seu encantamento pelas elegantes meninas a andar de bicicleta, vestidas com os característicos robes brancos. “Criaturas etéreas”, chama-lhes. Pelo menos em Hué, ainda hoje é possível observar esse postal.
E, para o final, um excerto que me parece igualmente actual como síntese do que era e é ainda a imaginada Indochina:
“Havia um rápido, silenciosamente um turbilhão de tráfego nas ruas de rickshaws misturados com bicicletas; um autocarro, varrendo de uma rua lateral por entre a torrente principal, apanhou um ciclista e atirou-o fora e esmagou a sua máquina. Ambos o condutor do autocarro e o ciclista eram chineses ou vietnamitas, e o condutor do autocarro, saltando para baixo desde o seu lugar, correu a felicitar o ciclista pela sua sorte em ter escapado. Ambos estavam encantados e o ciclista partiu carregando os destroços da sua máquina e ainda sorrindo largamente.”
Conclui Norman Lewis acerca deste episódio: “Nenhum outro incidente nas minhas viagens pela Indo-China mostra mais claramente a diferença fundamental para com a vida e sorte do Oriente e do Ocidente.”

Música Lao ou Thai, precisa-se

Gosto de música. Não preciso sequer de entender aquilo que se está a cantar. Encantam-me as melodias.
Daí que desde que estive no Camboja tenha ficado com um certo tipo de música na cabeça. Por sorte descobri um grupo que me acompanha até hoje: os Dengue Fever.
No Laos a mesma coisa. Passava por um sítio qualquer e lá estava aquele género de cantar enrolado, num idioma totalmente estranho, mas agradável aos meus ouvidos.
É muito bonito quando se viaja para outros países dizer que se faz amigos, que se estabelece contactos com os seus cidadãos, que se integra na cultura local. Eu até tento, como no Laos, mas por vezes isso é impossível.
Ora vejamos.
Chegada ao Parque Buda, arredores de Vientiane, uma banquinha que vendia sumos tinha um som a tocar. Aquela sonoridade que me persegue nos meus melhores sonhos. Com gestos – não falo laosiano, o rapaz não falava senão laosiano – a apontar para os ouvidos e para o rádio e fazendo o símbolo (ocidental) da pergunta, tentava chegar a uma conclusão do que estava a tocar. Nada.
Até que chegou a minha grande oportunidade, a que não iria deixar de me trazer os frutos que tanto desejava. O condutor do tuc tuc de Pakse falava um bom inglês, era jovem e gostava de música. Reunidas as condições de uma perfeita comunhão com o cidadão e cultura local, passo-lhe para a mão um papel e uma caneta para que me escreva alguns grupos e cantores que deva ouvir. Calmamente, aguardo que o moço pense e me faça uma, senão excelente, pelo menos boa colecção musical de canções do Laos e da Tailândia. Qual não é o meu espanto quando vejo que tudo está escrito no alfabeto deles. Pois é, o rapaz falava inglês, mas não sabia escrever no nosso alfabeto.
Não me resta senão descobrir por mim a música do sueste asiático que toca na minha cabeça.

Jantar Por Uma Causa

Uma das experiências mais enriquecedoras da nossa viagem pelo Vietname e pelo Camboja foi a possibilidade de chegar ao conhecimento da existência de uma realidade de que nunca tínhamos ouvido falar. Estávamos, obviamente, cientes das dificuldades nestes dois países, nomeadamente das suas populações poderem atingir um presente e um futuro melhores.
E existe quem se preocupe verdadeiramente com isso e coloque mãos à obra para tentar dar um novo rumo às vidas dos jovens nestes países.
O que ficámos a conhecer foi uma das formas para atingir esse objectivo: o projecto “jantar por uma causa”.
Em Hanoi com o restaurante KOTO (“know one, teach one”), em Phnom Penh com o restaurante Friends (“a non-profit restaurant run by former street youths in training”).
O programa que está muito para além destes dois restaurantes é o de pegar num grupo de jovens de rua carenciados e dar-lhes um ofício, educando-os e ensinando-os, com isso ajudando também as suas famílias e comunidades onde estão inseridos. A nós apenas nos é pedido que façamos a nossa refeição nos seus restaurantes (ainda por cima com um ambiente e decoração agradáveis e uma comida muito bem confeccionada) e que com isso possamos contribuir para esta causa.
Uma ideia simples que muda muitas vidas.

Os links
http://koto.com.au/
http://www.streetfriends.org/index.html

A Nossa Ingenuidade

Sou fácil de convencer. Muito fácil, mesmo. Daquelas capazes de comprar um tareco horroroso, ao qual não saberá o destino a dar, só porque se deixou enredar na conversa de uma criancinha aparentemente desamparada.
Desta vez, porém, não cheguei a comprar nada.
Mas fiquei uma vez mais tocada com a minha imensa ingenuidade. Ops, a ingenuidade não devia ser das criancinhas cambojanas ou vietnamitas?

Primeira história:
A visita às aldeias flutuantes de Chong Khneas, perto do complexo arqueológico de Angkor, cuja visita, não obstante todo o seu interesse, serve também para desenjoar de tantos templos, tem como custo de “entrada” 15 USD por pessoa, quase tanto como os 20 USD que se paga por um dia todinho em Angkor. Depois do pagamento num estabelecimento com algum ar de oficial, somos metidas num barco com um miúdo guia. O que nos tocou era bem simpático, bem novinho também, falava bem inglês, fazia parte dos cambojanos que vivem a flutuar, tinha curiosidade em saber como vivíamos, ou seja, um excelente ponto de partida para tentarmos entender as vidas das pessoas que habitam no sítio que estávamos a visitar. Na volta da ida até ao lago Tonle Sap, para onde os flutuantes vão quando as águas baixam e deixa de ser possível manter as casas, mercados, oficinas, escolas, igrejas, centros de saúde e quantos mais equipamentos necessários a uma comunidade que possamos imaginar, na volta da nossa proveitosa excursão o dito miúdo pergunta-nos se queremos conhecer a escola por dentro e se estávamos dispostas a colaborar com a oferta de cadernos para os carenciados alunos (aqui deixa-se de ir à escola por não se ter dinheiro para comprar cadernos ou para comprar roupa que vestir). Óbvio que aceitamos. Óbvio também que engolimos em seco quando nos pediram 15 USD por um maço de cadernos. Talvez não tão óbvio que tivéssemos delicadamente recusado dar algum dinheiro para ajudar o “professor” que compunha a sala de aulas para a fotografia na visita dos turistas. Mas houve ainda uma recaída quando o bem simpático e competente mini-guia insinuou que lhe déssemos alguma gorjeta para ele e para o seu companheiro mini-marinheiro que nesse dia guiava o barco do pai. Provavelmente dei a maior gorjeta da minha vida: 5 USD. Mais provavelmente ainda, terei tido o maior arrependimento da minha vida no que a gorjetas diz respeito depois de ver o rosto de “só isto que tens para me dar” do puto.

Segunda história:
Umas pequenitas vietnamitas junto a um dos mausoléus de Hué chegaram contentes da vida perto das turistas pedindo umas moedinhas da nossa terra. Achando piada à vertente coleccionadora das miúdas – tão pura que é a tuguita –, logo tirei as moedas mais baixas que tinha, o que calhou ser a de 2 cêntimos, 5 cêntimos e 20 cêntimos. Ui! Que cara de desoladas! Logo pediram um euro – já não era a moeda da nossa terra; logo reconheceram que era o euro que tinham que receber, das moedas brancas e não das escurinhas.
Esta foi só rir.

Terceira história:
Esta, mais típica, é a dos condutores dos cyclos ou dos moto-bike, a versão riquexo vietnamita. A regra é acertar o preço antes de nos sentarmos na cadeirinha. A excepção é que o preço a pagar no final corresponda ao acertado no inicio. Há sempre uma desculpa. Seja porque afinal o preço era por pessoa e não por viagem, ou porque o destino é “quiet far” ou porque – esta é deliciosa – está muito calor e o “driver” precisa de uma bebida. Enfim tudo desculpas muito válidas, porque para além de não se notar nada logo à partida que somos duas, até nem dizemos para onde queremos ir e calor é coisa que não bate no sudeste asiático.
Para compor o ramalhete falta dizer que os artolas dos condutores nunca têm troco, logo… já caíste.

Para Além de Hué e Hoi An

No caminho de Hue para Hoi An fica o Hai Van Pass, com a praia de Lang Co lá bem em baixo. Há quem defenda que esta é uma das estradas mais bonitas de toda a Ásia. A paisagem, por entre as montanhas verdejantes que descem abruptamente para o mar, deixando apenas belíssimos e planíssimos vales entre estes dois elementos, a paisagem, dizia, parece de facto brutal. E se digo “parece” é porque o tempo fechado e as nuvens que ele trouxe não permitiram mais do que vermos a espaços, pelas nesgas das raras abertas, todas as potencialidades da paisagem. Aliás, Hai Van quer dizer precisamente “mar de nuvens”.

Nos últimos anos foi construído um túnel de quase 7 km por entre as montanhas para poupar tempo no caminho, e os autocarros passaram a utilizá-lo. Este foi um dos motivos que nos fez optar por um carro privado – o outro foi o horário do autocarro, incompatível com o nosso escasso tempo e a vontade de conhecer mais e mais nesse escasso tempo.
Assim, conseguimos aproveitar a mesma tarde para visitar as Marble Mountains.
Este fenómeno da natureza fica no extremo norte de China Beach, junto à cidade de Danang, antes de se chegar a Hoi An.

São uma verdadeira surpresa. Não só por vermos um sem número de pagodes a irromper das montanhas de mármore, mas também pelo inesperado de darmos de caras com umas caves enormes, em espaço e altura, por onde o céu aberto vai avançando.
Uma dessas caves, a mais esmagadora, está hoje transformada em catedral, mas nos tempos da Guerra do Vietname foi utilizada como hospital de campanha.
Também por My Son andaram os americanos. Os soldados e as suas bombas. Estas ruínas do antigo reino Champa estão classificadas como património da Unesco e estão localizadas a cerca de 50 km de Hoi An. A sua importância histórico-cultural é evidente, assim como evidente é a beleza da sua envolvente natural – rodeada pelas montanhas e vales verdejantes.
Os Champas, ainda hoje uma importante minoria étnica no Vietname, desenvolveram em My Son um centro religioso entre o século IV e XIII, construindo diversos templos dedicados às divindades que adoravam. Há quem compare o significado que estas ruínas têm para os Champas com aquelas ruínas que vemos ainda hoje em Angkor, no Cambodja, bem como com outras grandes civilizações do sudeste asiático. Salvas as devidas ressalvas no que a proporções e estado de conservação diz respeito, é também muito interessante a visita a My Son, pese embora o calor intenso com que temos de batalhar.

Hoi An – A Acolhedora

Hoi An é umas das cidades com mais charme em todo o Vietname. Extremamente turística, nem este factor afasta os viajantes mais exigentes no que diz respeito a viverem uma experiência diferente e não massificada. Talvez tudo se resuma a carisma – ou se tem ou não tem, e Hoi An tem-no de sobra.
Conhecida nos tempos idos como Faifo, entre os séculos XVII e XIX foi um dos portos no caminho das rotas comerciais internacionais mais importantes de toda a Ásia. Daí para cá foi perdendo influência para a vizinha Danang, hoje a 4.ª maior cidade do Vietname, para isso muito tendo contribuído também a destruição da linha férrea que passava por Hoi An no princípio do século XX – e nunca mais recuperada até hoje.
Ou seja, para se chegar a Hoi An temos de vir de avião ou comboio até Danang e depois fazer de carro os 30 km que separam as duas cidades.
Nós viemos num carro particular desde Hué, com um motorista que não entendia nem a palavra “stop”. Mas chegámos, ainda que depois de termos rodado mais do que uma vez a rua do nosso hotel.
Antes de nós, aqui estiveram muitos outros portugueses, dos primeiros europeus a chegar a estas terras, como é habitual na nossa rica história.
Mas da nossa pátria não se sente actualmente influência, ao contrário da dos japoneses e chineses – ainda hoje esta última cultura é fortíssima por aqui.

O centro histórico de Hoi An está classificado como Património Mundial pela Unesco e, para além de passearmos pelas suas revitalizadoras ruas, podemos encontrar abertos ao público uma série de edifícios – uns mais interessantes do que outros, é certo – mediante o pagamento de um bilhete geral cujas receitas vão para um fundo de conservação da cidade. São museus, templos, pagodes, casas antigas, assembly halls das várias congregações chinesas.

Um dos postais da cidade é a Ponte Coberta Japonesa, construída para ligar o quarteirão japonês ao quarteirão chinês.
Mas à parte todo o interesse histórico-cultural, o que Hoi An tem de mais especial para nos oferecer são momentos relaxantes, seja enquanto caminhamos pelas suas ruas observando os edifícios bem conservados, descansando junto ao rio com as suas águas calmas, entrando numa das inúmeras galerias de arte, sentando num dos muitos acolhedores cafés ou procurando alguma pechincha para comprar. As compras são também o que fazem a fama de Hoi An e muitos perdem-se por aqui – é possível mandar fazer de umas simples sandálias a um fato por medida de um dia para o outro.
Também a comida é um dos pontos altos de qualquer experiência em Hoi An, em especial no restaurante Café des Amis. É só sentarmo-nos e esperar que o Sr. Kim vá trazendo comida, mais comida e mais comida, sem um menu pré-definido. Uma surpresa que enche, literalmente, a barriga.

À distância de umas pedaladas de 4 km fica a praia de Cu Dai, parte do extenso areal de 30 km que vai de Hoi An a Danang a que se chama China Beach. A jornada sempre plana não é cansativa, está a salvo das loucuras do trânsito das outras cidades vietnamitas e faz-se lado a lado com um cenário lindíssimo que torna a viagem bem agradável.
China Beach é a praia tornada famosa por uma série de tv americana dos anos 80 com o mesmo nome, a qual retratava a vida dos soldados americanos durante a Guerra do Vietname. Com mais ou menos veracidade nas suas aventuras, era para aqui que os soldados vinham relaxar do pesadelo da guerra.
A praia de Cu Dai, a mais perto de Hoi An – e não reservada em exclusivo para resorts – é bonita, com areia e água limpa. No ano de 2008 ainda há por aqui muitas zonas acessíveis a qualquer pessoa, mas, atendendo à construção desenfreada de resorts mesmo em cima da areia ou não muito longe dela a que se assiste na actualidade, presume-se que estender livremente a toalha por estas bandas irá passar a ser uma missão dificílima.

E, para a posteridade, Hoi An ficará para sempre também na minha memória por um facto que demonstra toda a descontracção que se vive nesta cidade de quem todos gostam. No hotel que escolhemos para passar as nossas 3 noites na cidade, um 3 estrelas normalíssimo, os funcionários eram simpáticos e prestáveis, como todos os que conhecemos no Vietname. Que por volta das 9:00 da noite estivessem como qualquer cliente a navegar na internet num dos computadores do hall do hotel, nada de mais. Que por volta das 10:00 da noite a menina da recepção andasse a desfilar pelo mesmo hall de pijaminha e escova de dentes na mão, já é mais estranho. Mas às 5:30 da manhã ver o rapaz da recepção a dormir num divã montado no hall desta história, com mosquiteiro e tudo, é hilariante e roça o absurdo. Para nós, ocidentais. Ou talvez não o seja. Talvez seja mesmo a diferença na forma de encarar a privacidade entre este lado do mundo e o outro e a diferença, já se sabe, faz-nos aprender e compreender melhor a realidade global.

Hué – A Imperial

Voltando ao itinerário descrito no post anterior, à chegada a Hué a mana armou-se de coragem e pediu um prato de rãs para o almoço num restaurante à beira de uma rua na margem norte do Rio dos Perfumes, junto à Cidadela, onde, tirando nesta, quase não se encontram turistas. Recomenda-se o petisco.
A cidade de Hué não terá especial interesse – umas quantas ruas na margem sul do rio para turista ficar, com lojas e bares sem grande piada.

Anterior capital da dinastia Nguyen, e também capital do Vietname entre 1802 e 1945, a visita a Hué é, todavia, obrigatória por pelo menos dois motivos muito simples: pela sua Cidadela e pelo Rio dos Perfumes (só o nome já nos faz sonhar).
É na Cidadela que o trabalho arquitectónico e artístico do império Nguyen alcança todo o seu esplendor.
Apesar de ter sido voltada ao abandono e destruição ao longo das últimas décadas – e ter sofrido, tal como a própria cidade de Hué e seus arredores, com os violentos combates da Guerra do Vietname – hoje assiste-se ao esforço do restauro dos seus edifícios, com os técnicos a trabalharem em permanência no local.
Classificada como Património Mundial da Unesco desde 1993, este não deixa de ser um justo prémio e um empurrãozinho para que esses esforços de restauro permaneçam e sejam consequentes.

A Cidadela, cuja construção teve inicio por volta de 1804, é um espaço imenso, com os seus 2 km por 2 km de muralhas circundados por um fosso com água. No seu interior encontramos diversos exemplos de arquitectura serena mas ricamente decorada, como sejam a residência do imperador, palácios, templos, portas, pátios. Muitos destes encontram-se em ruínas. E o que não está em ruínas não é totalmente evidente ao visitante. Na verdade, após a entrada pela Porta Ngo Mon, a entrada principal, damos de caras com o Palácio Thai Hoa, palco das cerimónias oficiais do império, e o seu pátio que dá para os Salões dos Mandarins, onde se preparavam as ditas cerimónias oficiais, com o Teatro Real e a Sala de Leitura do Imperador, edifício este que é um miminho. Pelo meio fica a hoje praticamente toda arrasada Cidade Proibida. Depois disto pensamos que é tudo. Que quanto a Cidadela estamos conversados e, assim, muitos voltam para trás e tomam o caminho da saída. Outros, felizardos, ou mais curiosos, acham que não pode ser só isto e continuam a meter o nariz em cada canto e têm a recompensa merecida.

Mais uma série de portas, residências e templos, estes bem conservados e/ou restaurados. É o belíssimo complexo To Mieu Temple. As portas e os telhados contêm mosaicos coloridos com pormenores decorativos muito cativantes.
Por aqui, outras surpresas – uns jardins que não fazem mais do que acompanhar e confirmar toda a serenidade e beleza do local e, mais charmoso ainda, um lindíssimo pavilhão rodeado por uma lagoa, este parte da residência Dien Tho.

Agora sim, estamos satisfeitas, e nem interessa se os cyclos nos vão massacrar o juízo para que aceitemos o seu serviço e percorramos com eles os curtos kms que nos levarão ao outro lado do Rio dos Perfumes.

Pela manhã do outro dia saímos num barco típico de Hué, daqueles com o rosto do dragão desenhado de forma colorida e muito pitoresca, pelo Rio dos Perfumes afora. Deixando para trás um rio algo movimentado e usado como estrada para transporte dos seus locais e respectivos haveres, com uma paisagem bucólica com as montanhas não muito elevadas como cenário, a primeira paragem foi no Pagode Thien Mu.

Localizada numa parte mais elevada de uma das margens do Rio dos Perfumes, a cerca de 4km da Cidadela de Hué, este é um ícone de todo o Vietname. Foi construído em 1601, tendo sofrido algumas alterações desde então, de que é exemplo o acrescento de uma torre octogonal de 21 metros em 1844. Este local é precisamente aquilo que imaginamos que um templo deve ser: situado num local calmo, que inspira serenidade, com espaço suficiente para jardins para deixarmos a nossa mente perder-se enquanto avistamos a água do Rio desde cá de cima. E nem precisei de falar do interior do templo, porque estes, para falar com toda a sinceridade, estão longe de me seduzir.

Continuando o passeio pelo Rio, os Túmulos Reais vão-se sucedendo.
Estes espaços pensados para servirem como a última morada dos imperadores da Dinastia Nguyen são simplesmente imponentes e esmagadores e demonstram todo o poder (em vida e na morte) e megalomania daqueles que reinaram no Vietname nos séculos XIX e XX.
Os rapazes e/ou seus sucessores não se pouparam a esforços e não estiveram com modéstias.
O primeiro “mausoléu” que visitámos foi o de Tu Duc, distante cerca de 2 km de mota desde o Rio dos Perfumes. É uma imensa área muralhada, com muita árvore e lago a adornar toda a serenidade que se vive ao entrar para o local escolhido pelo imperador para ser utilizado não apenas após a sua morte mas também durante a sua vida. O imperador Tu Duc acabou por nunca permanecer aqui depois de morto, mas em vida certamente que aproveitou bem os momentos que aqui passou, principalmente no belíssimo pavilhão assente em pilares sobre a água do lago, não nos sendo difícil hoje imaginá-lo aqui sentado com as suas concubinas lendo e escrevendo.

Este complexo, porque é disso que se trata, foi construído entre 1864 e 1867 e para além das referidas árvores, lagos e pavilhão tem ainda um palácio e diversas tumbas, algumas delas com dimensões irreais.

Se no Túmulo de Tu Duc havia um lago, no Túmulo de Minh Mang tudo à nossa volta é uma imensa lagoa. Aqui os templos sucedem-se numa espécie de ilha perfeitamente alinhados levando-nos até uma ponte que os liga ao local onde os restos mortais do imperador se encontram, dentro de um muro circular de um tamanho tal que provavelmente serviria de cemitério para todos os habitantes de uma vila média portuguesa. O imperador não foi nada tonto a escolher o local e a arquitectar o espaço onde desejava permanecer para a eternidade, tal é a sua beleza natural e magnificência. Mas, há que acrescentar, contou com a prestimosa dedicação do seu sucessor que mandou erigir tudo entre 1841 e 1843.

E com este último túmulo findou-se o nosso encontro com Hué.
Ficou confirmado: se queremos ver arquitectura no Vietname, a aposta é Hué.