Pelo Centro do Vietname

Amigos ou conhecidos costumam perguntar às manas, curiosos e admirados, como fazem com as viagens – marcam antes o transporte? e o hotel? como escolhem a comida? e dá certo? não têm medo?
Respostas: é fácil. Igual a toda a gente. Principalmente se andarem com um guia Lonely Planet na mão, o livro que hoje entrou por completo no mainstream dos viajantes.
Não tenho problemas em assumir aqui toda a nossa falta de originalidade. Talvez o que tenhamos é facilidade em adaptar-nos às situações que não fogem grandemente do comum. E isso, repito, é igual a toda a gente. Ou, pelo menos, a muita gente.
Vem esta lenga-lenga a propósito da etapa da nossa viagem pelo Vietname que passou por Hué e por Hoi An.
Saímos de Hanói para Hué pela manhã, cerca de 650 km de voo. 2 dias e 1 noite nesta cidade que outrora foi dos imperadores. Depois rodámos num carro privado rumo a Hoi An, cerca de 140 km de estrada. 3 dias e 3 noites nesta cidade que é hoje a mais acolhedora.
De manhã no aeroporto vimos umas caras; à tarde as mesmas caras passeavam pela cidade imperial, à noite no restaurante revimos as mesmas caras. Mera coincidência? Que dizer então ao reencontro na manhã, tarde e noite do dia seguinte e no dia depois do seguinte? Lonely Planet, lá está. Confrangedora e ridícula a nossa entrada num qualquer restaurante onde nos esperavam os nossos amigos de temporada.
Ou antes: a verdade é que o circuito por estas duas cidades situadas no norte do Vietname do Sul, um pouco abaixo do Paralelo 17, não foge muito a uma regra.
Metade do dia (normalmente a tarde) na Cidadela de Hué, mais metade do dia (normalmente manhã) num passeio de barco pelo Rio dos Perfumes visitando o pagode Thien Mu e mais uns túmulos reais. Pela tarde, saída rumo a Hoi An, com passagem pelo Hai Van Pass e paragem nas Marble Mountains. Em Hoi An, visita à cidade velha em metade do dia e compras e muita vida de café pelo resto do dia fora. Na manhã seguinte, ida às ruínas de My Son e compras e muita vida de café pelo resto do dia fora. No último dia ou, e aqui os itinerários sofrem finalmente adaptações conforme o gosto de cada um, nos dias seguintes praia, praia e mais praia.
Tivemos, assim, o nosso único dia dedicado à praia ao 18.º dia de viagem. O mesmo é dizer, ao 18.º dia descansámos.

Ha Long Bay, o Sonho

Ha Long Bay, inscrita na lista da Unesco como património mundial da humanidade, é tudo paisagem natural.
Espectacular, fantasioso, misterioso, bizarro, surreal, irreal, escultural, artístico, e por aí vai. Tudo palavras estimulantes mas, ao mesmo tempo, comuns e fáceis que não conseguem traduzir verdadeiramente o cenário que tomamos a nossa frente, à nossa volta, dentro de nós. Puro deslumbre harmonioso. De cortar a respiração.
E que cenário assim tão grandioso é este?

São milhares de ilhas e montes de calcário, pejados de vegetação, com caves enormes e prainhas acolhedoras, que emergem imperialmente das águas de cor de esmeralda do Golfo de Tonkin, no norte do Vietname, a cerca de 3 horas de camioneta de Hanói.
Esta colecção de pináculos (houve quem contasse cerca de 1969 ilhas, em 1553 Km2, ou “apenas” 775 ilhas nos 434 Km2 da área considerada património mundial), tem-nos com vários tamanhos e formas. Aliás, um dos passatempos mais em alta é o de tentar adivinhar qual o objecto que melhor representará aquelas silhuetas que vemos à nossa frente: “olha, uma tartaruga!”

Outras explicações são necessárias.
Este local tem uma idade tectónica de cerca de 250 a 280 milhões de anos e é o resultado de um processo de deriva dos continentes que com a erosão e a acção do vento criou o cenário que chegou aos dias de hoje.
Mas, para além desta explicação oficial e geofísica, existem outras, baseadas nas mais diversas lendas.
Conta-nos uma delas que o fenómeno a que assistimos em Halong teria sido criado por um dragão que vivia nas montanhas e que ao descer para a costa, à medida que a sua cauda ia sacudindo, fendas eram abertas nos vales, e quando o dito dragão mergulhou mar adentro, tudo o que ficou para trás encheu-se de água, ficando apenas visíveis os pináculos.
Outra lenda diz-nos que, na luta contra os invasores, um dragão desatou a cuspir fogo e que desse fogo surgiram cinzas que se transformaram nas ilhas com os pináculos curiosos que vemos hoje.
Uma outra lenda ainda fala-nos de dragões a cuspir pérolas que emergiram do mar para se tornarem ilhas, tendo os invasores contra elas chocado com os seus barcos, daí resultando inúmeros cacos que formam hoje os inúmeros pináculos.
Comum a todas estas lendas, eis-nos o dragão. Certo, certo, temos que Ha Long significa “onde o dragão desce para o mar”.

Para navegar pelas águas de Halong Bay basta chegar a Halong City e escolher um dos milhares barcos à disposição dos turistas – este é, aliás, o local mais visitado em todo o Vietname.
Viagem de 1, 2, 3 dias, para todos os gostos e feitios e, principalmente, para todas as bolsas.
Nós vínhamos já desde Hanói com tudo tratado para 2 dias, com dormida no barco, com capacidade para 18 pessoas, fora a tripulação. Éramos 5 (!). Ou seja, com muita facilidade o barco era todo nosso.
Do deck dava para entender porque estávamos tão poucos – umas quantas dezenas de barcos navegavam lado a lado connosco, alguns deles também à larga.
Pelos vistos, ao contrário do que se faz em muitas ocasiões, aqui as agências não se juntam para minimizar os custos (até porque a maioria dos barcos eram iguaizinhos e da mesma companhia). A estupidez e ignorância maior é que aqui os custos não são apenas monetários, pois o custo ambiental e ecológico dispara com tantos motores a agredirem o ecossistema deste sítio que pretende – e está bem na corrida dos nomeados – a entrada na lista das 7 Maravilhas Naturais do Mundo.
No entanto, sem hipocrisias, não me perturbei com esta ideia enquanto me encharcava e pingava de suor deitadinha a contemplar a paisagem. Vida mansa.
A comida servida a bordo não foi nada má – marisco e peixinho e mais os sempre presentes rolinhos vietnamitas. A este propósito, foi muito interessante registar a inquestionável superioridade lusa no que toca ao desafio de se debater com a alimentação do marisco e peixe – as 2 irmãs dinamarquesas e o solo austríaco ficaram à toa com a empreitada.

Na viagem de 2 dias (muitíssimo mal aproveitada, há que dizê-lo com frontalidade, como dizia o outro, uma vez que se entra no barco às 13:00 de um dia e se deixa o mesmo barco às 11:30 do outro dia), para além de navegarmos pela baia entre as ilhas e montes, visitámos umas caves imensas e inacreditáveis numa das ilhas – Hang Sung Sot.

Numa outra descobrimos uma lagoa enorme, depois de uma entrada esculpida na rocha que parecia ter sido moldada exactamente para este efeito.

Na ilha de Titop parámos um pouco na sua praia para uma banhoca nas águas cor de esmeralda de Ha Long e subir ao seu topo – 7 minutos exactos sem parar de escalar degraus para alcançar o prémio de uma vista fabulosa.

No fim do dia, depois de uns mergulhos desde o último andar do barco (orgulho-me de referir que fui a única que não o fez, por uma questão de princípio, já que sou contra as alforrecas que inundam as águas daqui por serem uma cópia bem disfarçada de sacos de plástico que, como todos sabem, infectam o nosso planeta – nada que ver com alturas, portanto), tivemos direito ao por do sol.

E haverão habitantes em Halong Bay? A resposta é sim. Originalmente havia apenas uma vila de pescadores, mas hoje existem cerca de 10. São 1600 pessoas que moram, como não podia deixar de ser, em casas flutuantes (como no Mekong) e que vivem da pesca, da aquacultura e, surpresa, do comércio.

Instantes no Mekong


Bem vindos a terras do Mekong


Terra onde as mulheres trabalham duro


Enquanto os homens vêem secar o peixe


E as crianças fazem uma pausa da escola


As casas construídas sobre a água nem por isso são menos cuidadas na sua decoração


Se não há casa, estende-se a roupa no barco-habitação


E no barco se preparam as refeições


E de barco se transportam as mercadorias ou os materiais para construção, fazendo da água do Mekong uma avenida


O rosto mais simpático

Mekong, o Rio Humano

A minha mãe dizia-me às vezes que nunca, em toda a minha vida, voltarei a ver rios tão belos como aqueles, tão grandes, tão selvagens, o Mekong e os seus braços que descem para os oceanos, estes territórios de água que vão desaparecer nas cavidades dos oceanos. Na planura a perder de vista, estes rios vão depressa, vertem como se a terra se inclinasse.
“O Amante”, de Marguerite Duras

Não terá sido o mais bonito rio que já vi ou por onde naveguei. Mas que foi certamente o mais humano, vivido, interessante e, enfim, completo rio, disso não tenho dúvidas.
O Mekong é o 11.º maior rio do mundo em termos de comprimento (e o maior do Sudeste Asiático) e nasce nas montanhas do Tibete antes de atravessar 6 países: China, Birmânia, Tailândia, Laos, Cambodja e, por fim, Vietname, onde desagua no Mar do Sul da China.
Em cada um destes países toma um nome diferente e, por vezes, em cada um destes países é reconhecido por vários nomes. Por exemplo, no Vietname é também referido como o “Rio dos Nove Dragões” – isto porque em Phnom Penh, capital do Cambodja, o Mekong divide-se em 2 braços que por sua vez se dividem em mais uns quantos mais abaixo, em Vinh Long, já no Vietname.
Aqui estamos já no Delta do Mekong, outrora pertença dos khmers (antepassados dos cambojanos), hoje território vietnamita. Por aqui abundam as plantações de arroz, entendendo-se bem o porquê desta região ser designada como o “cesto de arroz do Vietname”. Ao contrário do norte do país, que tem apenas duas épocas de colheita anuais, a região sul, onde o Delta do Mekong reina, consegue ter três épocas dessas colheitas. Mas não é só arroz que as suas terras (e águas) oferecem. Coco, frutas, cana-de-açúcar e peixe ajudam os seus cidadãos a sobreviver e, mais do que isso, a exportar estes bens para todo o mundo.
Há que ter em conta que cerca de 50 milhões de pessoas vivem perto das margens do Rio Mekong e dele dependem directa ou indirectamente, sendo a região do Delta uma das zonas mais densamente povoadas. Para além desta sua importância no sul do Vietname, há que registar que cerca de 85% do território do Laos e do Cambodja fazem parte da bacia do Rio Mekong e as suas capitais, Vientiane e Phnom Penh, respectivamente, são por ele atravessadas.
Vista a importância e preponderância do Mekong em cada um destes países do Sudeste Asiático, e não obstante ser um dos maiores rios do mundo, será que Portugal tem alguma coisa que ver com o assunto?
Pelo menos a título de curiosidade histórica terá, sim. O primeiro europeu a chegar perto do Mekong foi um português, António de Faria, em 1540.
Mas, mais curioso ainda, pelo menos no que toca a uma figura do nosso imaginário comum, foi Camões ter andado por aqui. Aliás, não só andou por aqui como se viu aflito por aqui. Diz a história que a caminho de Goa, vindo de Macau, o seu barco naufragou perto do Mekong, na costa cambojana, obrigando o nosso escritor a salvar épica e aventureiramente o manuscrito dos Lusíadas, equilibrando-o na cabeça que esforçadamente tentava (e conseguia) manter à tona da água.

Saindo de Saigão (oficialmente Ho Chi Minh) fomos rumo a Phnom Penh, Cambodja, numa viagem de 3 dias pelo Delta do Mekong.
Primeiro de camioneta até My Tho, onde ficámos a saber pelo nosso guia do momento que o pessoal do Mekong, no qual ele fez questão de frisar que se inclui, tem a sua terra, a qual vai gerindo à sua velocidade, trabalhando quando quer, imperando a pacatez apenas incomodada pelo ritmo frenético das bicicletas (1 por pessoa?). Preguiçosos, em resumo, por que podem. “Têm terra”.
E para além da terra, água é também o que não falta por aqui.
Desde My Tho fomos de barco até Ben Tre, numa curta viagem, onde nos vimos rodeadas da vegetação imensa que vai cercando o Mekong. O ritmo aqui é mesmo lento, apenas quebrado pelas hordas de turistas que invadem estas terras. Enquanto vamos avançando pelos caminhos estreitos de terra batida, utilizados pelas pessoas, bicicletas e motas, somos guiados até supostas cenas turísticas interessantes, como ver as enormes cobras e poder ser fotografadas com elas ao nosso pescoço (socorro!), tomar conhecimento da transformação do coco em “n” outras utilidades, em especial rebuçados (que cheirete!), ouvir um pouco da música das suas gentes (zzz!) ou provar as coloridas frutas da região (enfim, que delícia!).

Mais turístico do que isto só mesmo a navegação pelos estreitos canais, onde por vezes mal se cruzam 2 barquitos. Digo turístico por naquele momento o canal estar ocupado exclusivamente por nós. Mas, na verdade, os canais são de extrema importância para as populações do Mekong pois as insistentes subidas do rio fazem com que as inundações sejam uma constante, pelo que, para além da necessidade de construir as casas em bambu no próprio rio, tenham que utilizar os canais como estradas, deslocando-se neles de barco em muitas situações.
Possibilidade ainda para um passeio (obrigatório) de bicicleta, a mostrar que, sim somos capazes, também podemos andar no meio do trânsito e da confusão. Só nos faltou o chapéu de cone, peça de vestuário obrigatória para 10 entre 10 senhoras.

Pela tardinha seguimos de Vinh Long para a ilha de An Binh, em pleno Delta do Mekong, onde pernoitámos. Um “homestay”, experiência sugerida para se fazer no Vietname, seja no norte nas montanhas de Sapa, seja no sul, como forma de maior proximidade e convívio com os locais. Éramos 2 portuguesas, dois franceses, dois italianos e dois austríacos. Ou seja, os europeus em ameno convívio e a família vietnamita em ameno acolhimento com os seus filhos dedicados à televisão e aos joguinhos da playstation. Tudo muito ocidental. Não quero com isto dizer que a experiência não tenha sido positiva. De todo. A hospitalidade foi enorme, delicadeza no trato, e tivemos direito a uma aula de culinária da qual resultou o nosso jantar.
O pior foi quando chegou a altura de ir dormir. Mas esse pior foi só para mim. Tenho um problema, ainda difícil de ser ultrapassado, com os bichos. Não há repelente, spray, mosquiteiro ou qualquer outro engenho que me afaste do pensamento a possibilidade – para mim bem real – de me entrar um bicharoco qualquer pelos lençóis adentro que se aventure a pousar algures na minha pele. Resultado: a segunda noite da viagem sem dormir foi passada num “homestay” no Delta do Mekong (a primeira havia sido no avião, por motivos diferentes, e a terceira e quarta haveriam de ser num barco e num quarto de hotel, pelos mesmos motivos de bicharada). Que se há-de fazer? Eu tenho toda a boa vontade de ultrapassar esta fobia idiota quando escolho os destinos, mas, depois…

Pela manhã saímos a navegar lenta e placidamente até Cai Be e ao seu mercado flutuante, com a igreja à beira rio dando uma imagem ainda mais pitoresca a toda a cena.
No outro dia, mas já em Chau Doc, onde amanhecemos no barco depois de termos saído de Sa Dec (terra onde a mãe de Margueirte Duras leccionava e onde a família habitava), pudemos também assistir ao mesmo cenário de azáfama das intensas trocas de bens que são feitas de barco para barco, nas águas do Mekong, logo desde o nascer do sol.


O esquema é o seguinte: um barco coloca numa espécie de mastro o bem que se propõe vender, seja fruta, legume, qualquer coisa, e outros barcos dele se aproximam no sentido de fazer negócio. Depois, os compradores voltam para a sua terra abastecidos com os bens para o seu consumo próprio ou para os revenderem.

O cativante no Mekong é a sua vida. Ou melhor, a vida das gentes que habitam nas suas margens. Sem exageros, tudo gira à volta do rio. As casas estão construídas sobre (e sob) o rio, os que não têm casa vivem num barco que vai flutuando no rio, as roupas são lavadas no rio, é também no rio que as pessoas se lavam e fazem as suas necessidades fisiológicas, o comércio é, como o acima descrito, realizado no rio, é do rio que as suas gentes tiram o seu sustento, o rio serve de transporte das pessoas e das mercadorias, e, até, imagine-se, as suas inundações têm algo de positivo uma vez que essa água será utilizada nas colheitas.
Ou seja, e em resumo, o Mekong é vivido em toda a sua plenitude e a economia de uns quantos países que por ele são atravessados depende dele. É, pois, um rio humano
E a paisagem, onde fica a paisagem no meio disto tudo? Talvez algures por aqui:

Hanói e Saigão

A história recente do Vietname, já se sabe, tem muitas histórias, com umas quantas a terem passado no cinema para que a nossa e as próximas gerações não se esqueça delas.
Assim, sabíamos já que Saigão havia sido dos franceses, dos americanos e de Graham Greene e Marguerite Duras, e que Hanói havia sido dos chineses e dos Vietcongs.
Hoje, de sul a norte, tudo é Vietname, unidos.

Apesar dos curtos 2 dias e meio dedicados a cada uma das grandes cidades vietnamitas, deu para sentir algumas diferenças. Saigão mais cosmopolita e em voraz construção de novos edifícios rumo aos céus. Hanói mais conservadora e, arrisco, pura e, arrisco novamente, mais próxima da ideia que temos de Ásia.

No Bairro Antigo de Hanói encontramos todo o movimento louco da capital de um dos países do sudeste asiático que mais cresce e mais pujante a nível económico se vem mostrando. São edifícios estreitos, também conhecidos como “casas tubo” (cortesia de uma lei que taxa as construções pelo tamanho da sua fachada principal, daí que esta seja extremamente estreita, deixando as laterais com um comprimento desmesurado), com cerca de 2 ou 3 andares, alguns com ar colonial, com portadas de madeira, quase todos cheios de puxadinhos,


No rés-do-chão de cada um destes edifícios não se encontra outra coisa se não lojas. Nas ruas estreitas à sua porta, mais comércio.

Ou então, banquinhos com os locais lá sentados a conversar, jogar ou comer. Vida de rua. Intensa.


As ruas aqui neste bairro ganham o nome do ofício ou da actividade comercial que aí é explorada. Tudo bem dividido, alguma organização no meio do caos. Aqui fica o mercado Dong Xuan onde caminhamos por entre os vendedores de frutas e legumes variados e coloridos, especiarias, carnes, peixes, rãs e outros “alimentos” que nem suspeitamos o que sejam.
E porquê a caracterização de Hanói como pura? Porque ali tudo é autêntico, vivido, sendo para nós fácil imaginarmo-nos transportados para um outro tempo.


Nas ruas da capital vêem-se as mulheres com os chapéus em cone (desta vez a imagem não é exclusiva dos prospectos turísticos) carregando a sua mercadoria em dois “pratos” de cada lado de um pedaço de madeira. Inesquecível o corrupio delas, inundando as ruas logo às 6:00, provavelmente tentando ganhar posição na corrida pelo negócio.
É inevitável pensarmos no que todos já notaram: no contra-senso que é um regime comunista imposto a cidadãos que são comerciantes natos.

Quanto a Saigão, o seu centro não tem esta vida que a nós ocidentais tanto nos cativa. Tem, ao invés, a elegância da Rua Dong Khoi, a antiga Rua Catinat, com as suas lojas de marcas e hotéis de luxo.


A vista do 23.º andar do Hotel Sheraton é esmagadora, com a nossa vista a alcançar uma imensidão de espaço todo ocupado por construção e mais construção, sendo mais fácil aí entender o porquê de Saigão ter cerca de 6,5 milhões de habitantes.
Já o bar / esplanada do Hotel Rex, ao nível de um 5º andar, com a praça verdejante e as ruas largas ali em baixo bem pertinho ocupadas com o movimento das motas, faz-nos nos viajar e imaginar-nos parte de um filme dos anos 40-60, provavelmente conspirando sobre algum tema.


Em Saigão, o mais parecido com o Bairro Antigo de Hanói é Cholon. O bairro do Amante de Marguerite Duras, que dele disse ser “a capital chinesa da Indochina francesa”. É isso mesmo, o bairro dos chineses no Vietname. Mais uma vez, muita agitação nas ruas, comércio levado ao extremo e, facto não despiciendo, poucos turistas. Ou seja, autenticidade para (poucos) turistas verem. No mercado local, o Binh Tay, uma bem intencionada vendedora de fruta ofereceu-nos uma barata com manga. Isso mesmo, estendeu-nos uma delicada faquinha com um pedaço de manga com uma baratinha acoplada. Num caso destes, como negar a simpática oferta sem passar por estrangeiras mal-agradecidas? Eis algumas das dificuldades da vida de turista.
Outra delas é querer ver o canal de Cholon e penar para o encontrar. Primeiro, porque o canal afinal é estreitíssimo e está praticamente ocupado pelas casas construídas em cima das suas escassas (nesta altura, enquanto não cai chuvada) águas. Depois, porque quando damos de caras com ele é impossível não lhe virar as costas, tal é o cheiro nauseabundo.

Mesmo com toda esta diferença (entre elas e entre as nossas), ou talvez por sua causa, cada uma das duas maiores cidades vietnamitas encanta à sua maneira.
A semelhança entre as duas é a incontornável (e até hoje obsessivamente marcante) barulheira por demais caótica do trânsito nas ruas.

À pergunta da praxe, gostaste mais de Hanói ou de Saigão, a resposta da ordem seria das duas.
Mas talvez não. Neste caso, talvez consiga dizer que gostei mais da primeira, Hanói, a actual capital.
A presença dos lagos em Hanói faz toda a diferença, já que o rio Saigão, em Saigão, não está muito presente na vida da cidade (só para se ter uma ideia, é necessário um ferry boat para se atravessar as suas não tão largas margens). Dito isto, gosto de água numa cidade. É essencial para o seu enquadramento estético e para que a vida popular se desenvolva ao seu redor.


Em Hanói tivemos a sorte de ver parte do pôr do sol no Lago Ho Tay, com o fotogénico pagode Tran Quoc numa das suas margens.


Mais encantador é o Lago Hoan Kiem. Aqui o dia começa sempre cedo, logo ao raiar do sol, por volta das 5:30, com uma multidão a exercitar-se à beira da sua água, caminhando, fazendo tai-chi, meditando, fazendo musculação, jogando badminton ou foot-badminton ou tão somente conversando sentada num banquinho.


A adornar o lago Hoan Kien temos a Torre da Tartaruga e a ponte vermelha que liga ao templo Ngoc Son. Para uma bela e calma vista deste cenário, o café Pho Co é uma boa aposta com a sua esplanada no último andar. Para se lá chegar temos que entrar por uma galeria e seguir casa e pátio adentro, como se estivéssemos a invadir a privacidade de alguém que não nos é conhecido. Tudo normal por estas bandas.
Para além de se caminhar pelas ruas procurando sentir todo este ambiente oriental, em Hanói não se pode deixar de visitar outros locais bem interessantes.


O Mausoléu de Ho Chi Minh e o seu museu mesmo ao lado vêm logo à cabeça – a brutalidade dos edifícios estalinistas em todo o seu esplendor.


Mesmo ao lado do Museu, o encantador Pagode de Um Só Pilar.


Para algo mais delicado, fugindo à barulheira e à confusão, a escolha é o Templo da Literatura, criado em cerca de 1070 e dedicado a Confúcio, logo transformado na primeira universidade do Vietname
Para se entender um pouco da cultura vietnamita, o Museu Etnográfico é uma boa aposta, com uma mostra e caracterização das 54 diferentes etnias que habitam o país, sendo os Viets a maior delas (Aqui tivemos “azar”: manhã de domingo quente, nada melhor do que visitar um museu, certo? Errado, se for o dia da criança e todas elas correrem para o museu e seu jardim para num estado de quase histeria aderirem às várias actividades para elas programadas; Ou, aqui tivemos “sorte”: nada melhor do que nos integrarmos plenamente numa cidade do que viver o seu dia a dia e, neste caso, as suas festas).

No que diz respeito ao património de “influência europeia”, dois bons exemplos são o edifício da estação de comboios (influência russa) e, principalmente, o edifício dos correios (influência francesa) – interessante por fora e por dentro, com um mapa mundo imenso numa das paredes onde nos apercebemos que a Europa pode não ser o centro do mundo quando vemos antes a Ásia colocada nesse lugar.


Também em Saigão o edifício dos correios não pode deixar de ser visto, com as peças delicadas do seu mobiliário a brilharem – bancos e cabines telefónicas. O local onde está implantada, em frente à Catedral de Notre Dame, reflecte uma boa imagem da Saigão antiga e actual – perto da sempre elegante e mítica Rua Dong Khoi e agora junto ao recente e moderno centro comercial Diamond Plaza.

Não muito longe daqui encontramos o Palácio da Reunificação. Edifício muitíssimo interessante de arquitectura moderna da autoria de um arquitecto vietnamita, e com mobiliário cativante, já foi o símbolo do Vietname do Sul, tendo sido por aqui que os tanques dos comunistas do norte começaram por invadir Saigão. Provavelmente foi o que mais me surpreendeu e que gostei de conhecer em Saigão.

Outro ponto imperdível da cidade é o War Remnants Museum. Tem fotografias que chocam pela brutalidade das atrocidades da guerra do Vietname (aqui conhecida como a guerra da América) e suas consequências, tem bombas, armas, tanques. Dizem que é o mais popular entre os turistas. Dificilmente os vietnamitas suportarão recordar estes negros anos, ainda que, diz-nos a história, quase sempre tenham estado em guerra – com os chineses, com os franceses, com os americanos, com os cambojanos do Khmer Rouge.

O mais curioso é que a afabilidade das pessoas não o faz lembrar. O mais normal seria os vietnamitas serem pessoas desconfiadas e relutantes a darem-se perante estranhos. Mas não é isso que acontece. Pelo contrário. Toda a gente nos sorri e os pais incentivam os filhos a dizerem adeus aos fulanos de “olhos esquisitos”. Neste relacionamento, ainda que superficial, não encontramos aqui qualquer ressentimento perante toda a imoralidade por que passaram.

Outro aspecto digno de registo é o facto de a população jovem destas cidades ser bastante ocidentalizada. Talvez seja presunção escrevê-lo assim, pelo que passo a explicar melhor: todos adoram o karaoke, modalidade muito mais oriental, é certo, mas ouvem as mesmas músicas do que nós; não perdem um jogo do campeonato de futebol inglês, seja a que hora for e as mais das vezes é a desoras. Apenas dois exemplos de uma proximidade citadina. Sim, porque quando se sai para o Delta do Mekong tudo é diferente. Uma outra realidade que nos encanta de uma outra maneira e que será relata em post seguinte.