Castelos em Gauja

Ainda na Letónia, depois da cidade medieval, moderna e soviética, e da praia a meia-hora de distância, chegou a vez de dedicar umas linhas à floresta com montes e rios. A natureza em estado puro, aquela que está sempre por perto dos letões, onde eles vão buscar os ingredientes frescos para as suas refeições, donde vêm as suas tradições pagãs, onde vão passear.

Sigulda, uma das principais localidades no Parque Nacional de Gauja, fica a uma hora e dez minutos de viagem de comboio desde Riga. Há mais localidades certamente interessantes e com muito para visitar neste que é o maior parque da Letónia, mas a nossa escolha recaiu nesta. A paisagem que vamos vendo desfilar pelos nossos olhos das janelas do comboio não cativa. Monótona, arvoredo e vegetação não muito intensos, terreno quase sempre plano. Sigulda e arredores, no entanto, são diferentes. Até aqui vem-se para praticar diversas actividades, como bicicleta, canoagem, até bobsleigh. Nós viemos para caminhar e visitar castelos.


No reino em que o pinheiro é senhor, só ao redor de Sigulda existem muitos trilhos e três castelos.
O de Turaida é apenas o monumento mais visitado de todo o país. Podemos lá chegar a pé ou de autocarro desde a estação de comboios de Sigulda. Optámos por esta última e em menos de 10 minutos estávamos no coração do Gauja. 


Turaida significa “jardim de Deus”. O antigo castelo, datado de 1214, destruído pelo fogo no século XVIII e recuperado no século passado, foi implantado num local estratégico, numa zona elevada donde se observa todo o território de uma forma soberba. A subida à distinta e elegante torre do castelo, ainda que simples e discreta, é pois obrigatória. Lá em baixo, o verde seco da vegetação – cor da época – acompanha o ziguezaguear do rio Gauja. 



No castelo vermelho, que já foi centro do arcebispado de Riga, residência de governantes e fortaleza militar, podemos ainda visitar algumas exposições que nos permitem conhecer mais da história da região e do país através de objectos aqui encontrados ao longo do tempo.



Mas um dos pontos altos de uma visita a Turaida, para além da paisagem, é o ambiente rural e até bucólico que aqui se sente. As duas casas de madeira, uma delas uma igreja de 1759 – uma das mais antigas igrejas de madeira da Letónia -, dão um tom de idílio ao local. 




Ao seu redor fica o Parque de Canções do Monte Daina, um parque de 26 esculturas criadas por Indulis Ranka em homenagem ao folclorista Krisjanis Barons. Estas esculturas são um belíssimo trabalho artístico, talvez inspirado pela magia do lugar, onde se distinguem as canções poéticas antigas pertencentes ao folclore letão – os dainas – que imortalizaram os heróis épicos deste povo. Ou seja, a evocação das tradições, das vivências que as pessoas foram acumulando no domínio espiritual, intelectual e emocional, no fundo um sistema de valores baseados numa sabedoria de vida popular. A cultura pagã é ainda hoje muito forte na Letónia e isso comprova-se pelos diversos símbolos que estão por todo o lado, seja numa peça de vestuário, numa toalha, num objecto de decoração. No caso das tradições expressas pela música que nos são trazidas por esculturas que remetem a heróis do povo letão, esta é uma forma poética de realçar o carácter das pessoas que nos legaram este património.




Para seguir de Turaida a Krimulda voltámos a usar o autocarro de rota circular. Krimulda continua com um ar de campo, mesmo se possui como elemento mais distinto a sua mansão em estilo clássico (aquelas colunas na fachada frontal não enganam) datada de 1822. No século passado este edifico, e um outro entretanto construído à sua frente, foram transformados em clínica de reabilitação para tuberculosos. Hoje funciona aqui um organismo de estado. Junto à mansão encontramos diversos edifícios de apoio rural, entre os quais uma casa de vinho e um confortável café.


Em Krimulda sai um teleférico que se diz ser imperdível pela paisagem aérea que proporciona sobre o vale de Gauja. Época baixa é sinal de deserto e equipamentos encerrados, pelo que tivemos de voltar a Sigulda com os pés sempre assentes na terra. Tanto melhor. 



Depois de passarmos as ruínas do antigo castelo medieval de Krimulda, começamos a descer para o nível do rio. Ao invés de virarmos à esquerda no sentido das caves e grutas que há para explorar no Parque, seguimos pela direita em direcção a Sigulda, num trilho serpenteante por entre os pinheiros, bem ao gosto da época romântica em que foi criado (1862).



Atravessado o Gauja, estava visto que quem desce também tem de subir. Assim foi.
Cá em cima ficam mais dois castelos, o castelo medieval de Sigulda e o novo castelo de Sigulda. Do recinto do castelo medieval, mais uma fortaleza do século XIII, alcança-se mais um panorama fantástico para o vale de Gauja. 



Vista privilegiada de uma das suas varandas é também a que se obtém para o vizinho novo castelo, construído em estilo neo-gótico em 1878 por um príncipe russo. 
Daqui para a estação de comboios são mais uns quinze minutos de caminhada por uma povoação sem atrativos de maior, mas sempre carregada de pinheiros. Bem-vindos à capital do pinheiro.

Jurmala, praia no Báltico

Jurmala (lê-se Iurmala) é um estreito de praia que se estende por uma trintena de quilómetros à beira Báltico.
Tudo isto a cerca de trinta minutos de viagem de comboio desde Riga. 
Este foi um dos spa-resorts mais disputados e concorridos de todo o império soviético. Todos para aqui desejavam vir em busca de sol (totalmente ausente neste princípio de Primavera) e tratamentos. Construíram as suas vilas ao estilo prussiano, casas de madeira coloridas encimadas por torres, como se de castelos se tratassem. Muitas resistem até hoje e os russos não deixam de voltar. 






Sente-se alguma (pouca) vida e veem-se algumas casas bem arranjadas. Mas o ar de abandono e desolação é o que fica depois de uma curta visita a Majori e Dzintari, os dois bairros que constituem o centro de Jurmala, num dia de chuviscos em temporada baixa. 



A praia de areia branca lá está, areal extenso e mar sem fim. Infelizmente o frio não convida a um mergulho, falta a coragem dos russos, talvez movidos a vodka.
Um dos sanatórios mais característicos tem placa a anunciar a sua venda, enquanto que ao seu lado um hotel de arquitectura banal nos deixa na dúvida se terá hóspedes por esta época. 
Teremos de voltar no Verão para acreditar que haverá vida por aqui?

Comida Selvagem

Riga fica no Báltico, perto dos países nórdicos. 
E países nórdicos são, neste momento, sinónimo de cozinha da moda. 
Não é, pois, surpresa verificar a influência que a cozinha nórdica tem sobre a cozinha letã. 
Um dos passatempos preferidos dos letões é sair pelo campo em busca de cogumelos e frutos silvestres.


O Restorans 3, por exemplo, tem uma ligação estreita com a natureza e serve comida selvagem com ingredientes vindos directamente da floresta. 


No Domini Canes os pratos parecem ser sempre acompanhados pelos amigos silvestres.

São bonitos estes pratos? Podem ter um ar da terra, mas são saborosos como o céu.

Art Nouveau em Rīga

Alguns exemplos da Art Nouveau por Riga, começando pela Casa do Gato, na cidade velha, símbolo da cidade.


Encontramos desde pequenos e discretos apontamentos nas fachadas com elementos serenos




até fachadas tomadas por rostos de uma expressividade tal que é possível que as suas emoções nos contagiem: serenidade, sim, mas também alegria, espanto, grito, horror até. 











Até robots servem como motivos decorativos.


Esta imaginação não teve limites.

Para saber mais sobre a Art Nouveau é clicar aqui, texto escrito anteriormente neste blogue a propósito deste estilo em Bruxelas.

Rīga

Riga é a capital da Letónia, fundada por cruzados alemães em 1201, tomada dois séculos depois pelos suecos e mais tarde pelos russos. Na época do domínio sueco foi tão grande como Estocolmo e na época da sua pertença ao império russo só ficava atrás de Moscovo e São Petersburgo em importância. Em 1918 alcançou a sua independência, mas a II Grande Guerra Mundial trouxe novamente a ocupação soviética. 1991 foi o ano da desagregação da União Soviética e, como consequência, da independência que dura até hoje. Mas talvez quase tão importante como esta data foi o ano de 2004, o da entrada da Letónia para a União Europeia.
Uma caminhada por Riga permite-nos confirmar parte desta história: é uma cidade de contrastes, feita de muitas cidades, como uma matrioska em que à medida que vamos retirando as bonecas vamos vendo as suas diversas faces. As faces desta cidade são pelo menos três, a medieval, a moderna e a soviética.





Começando pela cidade velha, distinguida pela Unesco como Património da Humanidade. 
É um núcleo medieval compacto e pequeno. Ruinhas que se cruzam sem critério uniforme, calçada em pedra, muitas torres de igrejas a rasgar o céu. O rio Daugava corre à beira desta área quase exclusivamente pedestre e pelo acesso que permite ao Mar Báltico foi determinante para que Riga tivesse chegado a ser o maior porto de madeira do império russo. Bem antes, ainda, Riga fez parte da Liga Hanseática. 



Esta história de comércio está ligada a um dos maiores símbolos arquitectónicos de Riga, a Melngalvju Mams (a Blackheads House ou a Casa dos Cabeças Pretas). Este edifício, situado na pequena praça da câmara municipal, é uma completa réplica daquele que ali existiu desde 1344 até ser destruído pelas bombas na II Grande Guerra Mundial. Mas o facto de não ser o original e ter sido reconstruído apenas em 2001 (por ocasião dos 800 anos de Riga) não lhe retira qualquer graça: ele ali está imperioso com a sua fachada cor de tijolo a contrastar na perfeição com a cor lazuli do seu belíssimo relógio astronómico. A fachada esta ricamente ornamentada e não lhe falta uma série de santos. Esta era a casa de antigos mercadores alemães solteiros. Conta-se que nesta guilda estes solteirões celebravam grandes festas e que numa delas, numa noite de Natal, por volta do ano de 1510, resolveram enfeitar um pinheiro com flores. A tradição rompeu fronteiras e dura até hoje. 


Na cidade velha de Riga destaque ainda para a Mencendorfa Nams, casa do século XVII pertença de um alemão rico comerciante de vidro. Da sua visita ficamos com a percepção de como era o dia a dia dos mercadores da época, para além de ser um testemunho da arquitectura da época. 


O conjunto de três casinhas conhecido como “Os Três Irmãos” é um dos exemplos mais antigos da arquitectura de Riga. A este propósito, uma outra história que se conta, a de que as janelas bem pequeninas dos últimos pisos seria uma forma de pagar menos taxas por parte dos proprietários, uma vez que em tempos idos as taxas eram pagas em conformidade com o tamanho das janelas. Este postal das três casinhas juntas, cada uma da sua cor, é mimoso. A (rara) parte turística da coisa foi assistir a um trompetista numa das suas portas que à imediata descoberta da nacionalidade do turista irrompia nos acordes do hino correspondente. Foi assim que depois de saber que éramos de Portugal, soltou as palavras Ben@f!@ e Sporting (momento supremo) e desatou a tocar A Portuguesa.




No rol de edifícios a visitar não faltam, claro, as igrejas. Na cidade medieval as igrejas são hoje evangélicas luteranas. A Catedral de Riga é a maior igreja medieval do Báltico, conhecida pelo belo som que sai do seu órgão e pelos seus claustros. 



A Igreja de São Pedro tem cerca de 800 anos, o que faz dela um dos edifícios medievais mais antigos do Báltico. A sua torre gótica é visível de quase qualquer ponto da cidade e do alto dos seus 72 metros alcançamos um panorama privilegiado. 


Daqui de cima conseguimos perceber os contornos da cidade. Vemos como o rio Daugava é marcante e percebemos finalmente o porquê de termos sido acordadas de manhãzinha pelo esganiçar das gaivotas. Gaivotas em terra, tempestade no mar. Não houve tempestade, nem no mar nem fora dele, mas houve frio e tempo encoberto e chuvoso. Não impediu de passear pela cidade, mas impediu certamente de desfrutar das suas cores e dos seus parques. 



E assim se passa para a cidade nova, a Riga Central. A solução encontrada para unir a cidade medieval à cidade moderna foi a da criação de uma longa avenida, o Brivibas Bulvaris, Boulevard da Liberdade, e de um longo corredor verde atravessado por um canal que antes correspondia ao fosso junto à agora desaparecida muralha. Esta zona verde funciona como um tampão de transição. Fosse Riga uma cidade intensa, movimentada e caótica e esta seria uma zona de escape. Assim, é apenas um contínuo do ambiente que se vive em ambas as cidades, velha e nova, um espaço bonito e sereno. Este Boulevard da Liberdade, onde fica o relógio da Torre Lama, é o lugar onde os habitantes da cidade confluem nos grandes momentos. 



Se na Riga medieval dominam as torres góticas, na Riga Central o destaque vai, em absoluto, para a Art Nouveau (que também marca presença, a espaços, na cidade velha). A Art Nouveau foi um estilo com uma vivência curta em todo o mundo e Riga não foi diferente. A Jugendstil (“estilo jovem”) durou cerca de 15 anos, entre 1895 e 1910, mas essa foi uma época de pujança económica na cidade. Resultado? Hoje sobrevivem ainda à volta de 700 exemplos um pouco por toda a cidade, com uma predominância imensa ao redor da Alberta Iela. De tal forma que é chamado o “Distrito da Art Nouveau”, com um museu em sua homenagem e tudo. Mas a grande exposição está nas ruas e basta ir olhando, para cima, sobretudo, para se nos revelar um mundo pleno de criatividade e imaginação, feito de detalhes e pormenores deliciosos. Mikhail Eisenstein, o pai do cineasta Sergei, foi um dos grandes arquitectos desta Riga maravilhosa e expressiva.



Para além da Art Nouveau, uma caminhada por esta Riga Central dá-nos a conhecer uma cidade moderna e culta, com cafés e lojas de design, a lembrar que este é também um país nórdico. Bem perto do elegante Cinema Splendid, na verdade várias salas de espectáculo, fica a reluzente igreja ortodoxa russa. 


No parque contrário à Esplanade encontramos um mercado das flores. Aqui tanto se ouve falar letão como russo. Esclareça-se: cerca de metade dos habitantes de Riga são de origem russa, daí que a sua influência se faça sentir um pouco por toda a cidade.
Mas é nos subúrbios que o ambiente soviético é mais marcante.



Chegámos, finalmente, à terceira cidade, a soviética. Para lá da linha de comboio o destaque na paisagem vai inteiro para o edifício da Academia das Ciências da Letónia. Podemos não ter estado nunca em Riga, mas já vimos este bolo de aniversário em algum lugar. É a prenda que Staline costumava oferecer às suas cidades, uma daquelas torres imensas, desgarradas de qualquer local onde fosse implantada. Vale a subida ao seu 17.° andar para a melhor vista sobre toda a cidade. E se para um lado olhamos e descobrimos a Riga medieval e moderna, para o outro, bem ali em baixo, vemos claramente uma Riga feita de mais igrejas ortodoxas na paisagem, blocos de prédios, de barracões, com um ar algo desolado até.



Nesta zona da cidade fica o imperdível Mercado Central. É um conjunto de quatro hangares (mais um colocado numa outra disposição) datados de 1920. Aqui tudo se vende, até mesmo aqueles produtos que encontramos nas feiras das nossas aldeias. Mas o mais apelativo são as áreas dos lacticínios e, sobretudo, da peixaria. São tantos os peixes e conservados das mais diversas formas que nos transportam para todo um outro mundo. 



Ao lado do Mercado Central encontra-se em renovação uns armazéns. Spikeri, ocupada com cafés e várias empresas start-ups, é o maior exemplo da gentrificação de Riga. Na outra margem do rio Daugava vamos vendo erguer-se aqui e ali mais uma torre, quase sempre de alguma grande empresa. Riga pode ter dos mais pequenos centros históricos de uma capital europeia, mas alguém está a olhar para ela.