Alhambra – Alcazaba e Palácios Nasridas


Se começarmos a visita à Alhambra pelo Generalife percorreremos, depois, um trajecto agradável que nos levará até à Alcazaba e aos Palácios Nasridas, o topo da cultura islâmica na Europa. Antes, porém, passamos por partes das muralhas ainda de pé e, em especial, pelo Convento de São Francisco (agora transformado em Parador, o equivalente espanhol das Pousadas de Portugal), pela igreja de Santa María de la Alhambra e pelo Palácio de Carlos V. O convento e a igreja estão hoje no espaço que antes da reconquista ocupava a antiga mesquita da Alhambra e não deixarão grande memória para o futuro do visitante.



Já o Palácio Carlos V é impactante. A sua construção teve início em 1527 e este é um poderoso palácio renascentista. Ou seria um poderoso palácio renascentista não se desse o caso de estar lado a lado com os palácios nasridas (existe mesmo uma ligação interior entre eles) e qualquer pessoa esperar visitar outra arquitectura que não esta. Sim. Não há que recear as palavras – este edifício pode ser belo mas está aqui completamente deslocado. Ainda assim, vale a visita se não ao seu Museu Nacional de Arte Hispano-Muçulmana (o qual reúne objectos achados nas imediações) pelo menos ao seu claustro surpreendentemente circular.


Depois de seguirmos pela Puerta del Vino, junto ao Palácio de Carlos V, teremos acesso à Alcazaba e aos Palácios Nasridas.


Alcazaba é a parte mais antiga do complexo da Alhambra, uma estrutura defensiva cuja construção teve início logo com a instalação da dinastia nasrida na região. Esta viria mais tarde a incluir a mesquita e palácios.


A entrada nos Palácios Nasridas é efectuada pelo Palácio Mexuar, depois de passarmos pelo pátio Machuca. O Mexuar é uma espécie de antecâmara do que virá depois. Esta era a sala do conselho dos muçulmanos e cenário de festas. A sala que é hoje a entrada para a antiga residência dos sultões seduz pelas suas quatro colunas em mármore que sustentam a abóbada revestida em estuque e o tecto forrado a madeira. 


Os pormenores murais com mosaicos com decoração geométrica têm desde logo aqui o início da sua presença que se revelará constante ao longo da visita pelos demais espaços dos palácios. Tal como o uso da caligrafia como decoração.




Segue-se o Cuarto Dorado – espaço mínimo, intimista, feito de um pátio com uma fonte, três degraus que preparam a chegada a uma parede imensamente bela, toda coberta por filigranas de estuque dourado, cinco deliciosas janelas que se abrem altaneiras, duas portas cujos caixilhos são envolvidos por azulejos e mosaicos na banda inferior. Não poderia haver lugar mais intenso, pleno de encantamento, para preparar a entrada no complexo dos palácios.




Ainda não refeitas de tanta delicadeza – na Alhambra nunca o estaremos – entramos no Patio de los Arrayanes (parte daquele que é conhecido como Palácio de Comares, residência oficial do sultão). O nome deve-se aos arbustos de murta podados que acompanham as laterais da piscina rectangular. É impossível não nos deliciarmos com os reflexos dos pavilhões que brincam na água da piscina. Aliás, a água aqui desempenha uma outra função para além das já focadas, igualmente elevada, a de reflexo, o qual significa a impermanência das coisas materiais – por isso há quem diga que a Alhambra foi feita por e para intelectuais dados a preocupações místicas.

Neste pátio as fachadas laterais possuem janelas e arcos simples e os pavilhões de cada um dos topos colunas de mármore branco que suportam uns arcos elegantes. Há que estar atenta a todos os pormenores, à decoração mourisca em estuque, ao trabalho em filigrana que contorna as portas e janelas, aos mosaicos e às inscrições em cima dos mosaicos. 

O uso do mosaico é uma arte decorativa com origem na arte islâmica vinda do Próximo Oriente e do norte de África e da corte Nasrida acabou por se espalhar para toda a Península Ibérica. O colorido é evidente, luminoso e radiante, sempre com padrões geométricos.

Já a caligrafia árabe, parte da arquitectura e arte islâmica, manifesta-se em inscrições de três tipos: versículos do Corão, ditos tradicionais religiosos e poemas louvando Deus e os construtores da Alhambra. Juntamente com os arabescos florais e os ornamentos geométricos, a caligrafia é graciosa e dá ao conjunto uma extravagante fantasia. Ao mesmo tempo, porém, o movimento rítmico da caligrafia confere-lhe uma harmonia absoluta. 

O recurso a estes elementos abstratos – motivos florais e geométricos – deve-se ao facto de no mundo islâmico ser proibida a representação figurativa. As flores, folhas e trepadeiras e os quadrados, losangos e estrelas, combinados ou entrelaçados, resultam num rendilhado requintado e encantador capaz de nos transportar para uma outra dimensão e despertar em nós uma imaginação que desconhecíamos ser possuidores. Na descrição do Patio de los Arrayanes, por exemplo, Washington Irving deixou discorrer a pena sobre histórias de sultões, vizires, princesas, todos eles seres apaixonados e contemplativos.

Para lá deste Patio, o chamado Palácio dos Comares possui a Sala de los Embajadores. Os arcos esmagam-nos com tanta decoração e perfeição e há ainda que perscrutar o tecto em madeira com embutidos. Já ao nível dos nossos olhos voltamos a observar os detalhes em cima dos mosaicos com inscrições que nos revelam que “Apenas Alá é vencedor”, para além de inscrições poéticas. Esta Sala de los Embajadores funciona ainda como miradouro, com vistas fantásticas do rio Darro e do bairro Albaicin através de janelinhas rendilhadas.

Se o tema da água jogou no pátio, agora aqui jogam os temas da luz e das sombras. Exterior / interior; pátios / miradouros. A interligação entre eles é total, demostrando um uso flexível dos espaços (e não só nesta sala). A decoração intensa nesta sala de paredes altas faz todo o sentido, uma vez que era aqui que se desenrolavam as recepções de estado, havendo que recordar que era a diplomacia e não a guerra o substracto da dinastia Nasrida.

Já aqui usamos quase todos os adjectivos superlativos possíveis e ainda não chegámos ao Patio de los Leones, cujo cartão de visita anuncia ser o topo do topo da arquitectura Nasrida. Poderá ele surpreender-nos ainda mais? 

Sim, surpreende. O seu brilhantismo é ainda maior. A sua perfeição, graça e beleza conjugam-se para nos oferecer o espaço mais harmonioso de toda a Alhambra. A geometria, simetria e sentido de proporção são absolutas. O pátio de forma rectangular é rodeado de colunas e arcos, com duas espécies de pequenos “tronos” de cada lado que mais parecem casinhas de bonecas rendilhadas, enquanto que ao centro fica a fonte sustentada pelos doze leões, cartão postal primeiro da Alhambra. Os leões simbolizam o sol e a vida. Das suas bocas corre a água em direcção aos quatro pontos cardeais. A água a correr, sempre o elemento água presente. Aqui procura-se representar os quatro rios do paraíso através de quatro finos cursos de água, cada um deles correndo para cada um dos lados do pátio. A intenção é a de que este seja um jardim divino. Mais uma vez, a influência dos jardins persas é evidente, nomeadamente pela característica do chahar bagh (o jardim de quatro partes). Houve quem dissesse que o Patio de los Leones seria a versão moura de uma vila rural no meio da cidade; outros há que preferiram compará-lo ao jardim zen. O certo é que este delicado pátio despertará em nós um estado de bucolismo e contemplação que só pode resultar num sentimento intimista absoluto.

Ao redor do Patio de los Leones ficam salas de um luxo imparável. 
Já dissemos que os jardins e os pátios são extensões exteriores dos edifícios e tanta beleza exterior não pode deixar de ser acompanhada por uma igual beleza interior. Assim é, em especial a Sala de los Abencerrajes com a sua imponente cúpula em forma de estrela com pequenas janelas e muqarnas embutidas. A perfeição não tem fim, seja através da solução para que a luz penetre num quarto interior escuro, seja através da estupenda e original decoração.

A Sala de las Dos Hermanas (após contorno da Sala de los Reyes, fechada para restauro na altura da nossa visita) possui igualmente uma cúpula fantástica, mas o fulgurante trabalho artístico parece atingir aqui o pleno na decoração das paredes e na sucessão de janelas e arcos debruçados para o jardim de Lindaraja.

A continuação do percurso faz-nos passar pelo Miradouro de Daraxa, com mais uma vista privilegiada para o Albaicin. As habitações privadas ficavam por aqui e foi por aqui também que Washington Irving se deixou estar a escrever o seu Tales of Alhambra em 1829. Não admira a sua inspiração tal a exaltação dos sentidos que se vive na Alhambra.

A visita aos Palácios Nasridas terminaria com o Palácio do Partal, o mais antigo, mas não passámos por ele. Este é mais um dos postais da cidadela, com a sua majestosa Torre de las Damas à beira da piscina e as montanhas atrás a completar o cenário.
À saída dos Palácios Nasridas os espaços aprazíveis continuam, jardins, fontes, sempre a água a correr solta. 
E, por fim, não é que haja quem queira deixar a Alhambra, mas podemos tomar a Puerta de la Justicia para retornar ao centro de Granada, numa agradável e curta caminhada pelo Bosque de la Alhambra até chegarmos à Plaza Nueva.
A continuación…

Alhambra – Generalife

O nosso percurso à Alhambra teve início pelo Generalife, o jardim do arquitecto ou jardim dos sublimes (Jinnah al’ Arif). A preocupação de fazer deste um lugar perfeito é evidente e totalmente alcançada. O paraíso na terra é aqui.

O Generalife, construído entre 1302 e 1309 (sendo hoje, porém, praticamente uma recriação dessa época, tantas são as alterações e inovações, embora conservando as ideias do jardim islâmico / persa), era a residência de verão dos sultões e estava para além dos limites da Alhambra dos palácios, sendo por isso vedada a sua entrada senão ao sultão e sua família. 


Logo à entrada vêmo-nos envolvidas pelo jardim dos ciprestes e não é difícil imaginar os sultões e as suas princesas a deambularem por ali, contemplando todo o vale que se nos abre. 



As árvores podem dominar, sim, mas é o conjunto delicado de pátios, piscinas e fontes que nos encanta. 


Os edifícios – pavilhões – estão aqui plenamente integrados com a natureza, quer através das árvores e arbustos, mas também pelas janelas rasgadas a fazer de miradouros e os contrastes entre o calor e o frio. 




Mas é o uso da água a correr a sua marca distintiva – uma constante em todo o espaço imenso da Alhambra (e até nos espaços exteriores à Alhambra). Contemplar a água a correr pelos belos canais apazigua a alma e prestarmo-nos a sentir o som da água é toda uma forma de arte. A tranquilidade e a serenidade parecem fáceis de alcançar por aqui e não é difícil acreditar no paraíso, esteja ou não conforme o descrito no Corão.

Os muçulmanos acreditavam nesta forma de paraíso, feita de árvores de fruto, crisântemos, lilases, magnólias e buganvílias, todas criando uma paisagem luxuriante e uma fragrância especial, que juntamente com a água iria servir de contraposição ao deserto das suas origens. Mesmo nos meses mais quentes do ano, é possível encontrar sombras e a brisa acaba por correr refrescante.
O Generalife é um dos exemplos mais antigos de jardins islâmicos que ainda sobrevivem. Todas as características dos jardins persas estão aqui presentes (como veremos em post futuro acerca dos jardins persas).

Alhambra

A Alhambra é dada a todos os superlativos. 
Descrições enormes, inspiradas e inspiradoras foram-lhe dedicadas. 
Paraíso não é palavra vã em Alhambra. Se o paraíso existe, não deve ser muito diferente do que se sente por lá.

Palácio, fortaleza, jardim – Alhambra é todos eles e muito mais.
Muitas estórias e histórias podem ser contadas e vividas, mas esta última começa antes mesmo da chegada da dinastia Nasrida a Granada. 
No sítio da Alhambra havia já uma fortaleza construída pelos antigos sultões. A fortaleza evoluiu para cidadela com a queda de Córdoba em 1236, mas foi com os nasridas que nesse século e no seguinte a Alhambra se tornou num complexo de fortaleza e palácios e começou a entrar na consciência e tocar fundo as emoções de todos nós que tivemos a oportunidade de lá cair. 
O nome deste que é o maior palácio medieval islâmico que perdurou até aos nossos dias – Qalat al-Hamra – significa castelo vermelho. Construída numa colina por entre as planícies férteis que ficam no sopé da Serra Nevada, de quase qualquer ponto da cidade de Granada se avista a Alhambra e a sua característica forma de navio, dominando na paisagem a Alcazaba, a sua parte mais antiga. A dura forma de fortaleza (era primeiramente uma estrutura militar que procurava garantir a segurança do conjunto, donde se alcançava uma visão estratégica de Granada e de toda a região envolvente), não deixa antever o esplendor e a beleza interiores da cidade palácio. Entre muros encontramos a alcáçova, vários palácios, casas, banhos, jardins, piscinas, fontes, árvores (mais uma igreja, dois hotéis e lojas). Os seus jardins, sobretudo, são uma recriação certeira do paraíso na terra.
Em resumo, delicadeza, harmonia e elegância é do que se trata, tendo a arquitectura Nasrida elevado estes adjectivos a padrões inimagináveis. E serenidade também, apesar da obrigatoriedade de dividirmos o espaço com os magotes de turistas como nós. Parece que tivemos sorte e naquele último dia de 2015 não era assim tão grande a enchente e o tempo de inverno estava primaveril (isto para compensar a chuvada que caia na primeira vez que a visitámos).
Nos dias de hoje a Alhambra é o resultado dos contributos dos vários povos que a ocuparam e a foram alterando durante os tempos (a este propósito, numa visita à Alhambra há sempre qualquer espaço em restauro). Começou a ganhar proeminência a partir de 1238 com emirado Nasrid, que se instalou em Granada na sequência e em agradecimento pela ajuda prestada aos cristãos na tomada de Sevilha aos mouros (sim, os nasridas também eram mouros, mas rivais dos outros mouros). Depois de 1492 os castelhanos, após a reconquista de Granada aos mouros que restavam na Península Ibérica, procederam a uma série de alterações e acrescentos, de que é exemplo o palácio renascentista de Carlos V. 
Mas uma inversão no desenvolvimento da região acabou por votar a Alhambra ao abandono, tendo sido até utilizada como caserna pelas tropas de Napoleão durante as Invasões Francesas, e só no século XIX voltaria a ser “descoberta”, cortesia dos escritores românticos, de que Washington Irving (com o seu Tales of Alhambra) é o nome mais pronunciado.
“Desmoronam-se salões e pátios, deterioram-se quadros e pinturas, mas, apesar do espectáculo desolador, a Alhambra não perdeu a magnificência e o esplendor, fazendo soar as cordas ocultas do visitante”, escreveu Irving acerca da Alhambra, que para ele é sinónimo de poesia e romance.
Graças também a ele, hoje podemos visitar a Alhambra monumental e deliciar-nos com o génio, talento e gosto superior dos nossos antepassados mouros. 
Lugar do poder político, mas também lugar de prazer para os sultões, a Alhambra é um misto de força e graciosidade. 

Uma pergunta, porém, seguindo Lorca: ao ter-se perdido uma civilização dedicada à arquitectura e poética delicadas, será esta uma gloriosa vitória dos espanhóis, como ensina a história?

Frases de Granada

De Granada muito por muitos já foi dito.
Depois de ter terminado com a poesia de Lorca, deixo mais algumas frases que considero das mais bonitas.
– “Granada, água oculta que chora” (Manuel Machado);
– “Granada emociona até quebrar e derreter todos os sentidos” (Henri Matisse);
– “Com Granada despertam-se os sentidos mais doces. A visão, a audição, o tecto e sobretudo o doce gosto por tudo” (Jorge Oteiza);
– “Eu não direi nunca que pisei Granada, mas antes que abracei Granada” (Saddam Hussein ???);
– “As lágrimas vinham-me aos olhos e não eram lágrimas de pesar nem de alegria, eram de plenitude de vida silenciosa e oculta por estar em Granada” (Miguel de Unamuno).

Granada


Granada é um sonho. 
Nunca um provérbio foi tão certeiro, neste caso o provérbio espanhol que dita que “se não viste Granada, não viste nada”.

Que dizer de uma cidade que fica a poucas dezenas de quilómetros do mar e a outras poucas dezenas de quilómetros da montanha? A dúvida parece estar colocada entre fazer ski pela manhã e estender a toalha ao sol junto ao mar pela tarde. Acontece que pelo meio temos Granada e, em especial, a Alhambra e aí talvez a dúvida fique desfeita: porque não passar um dia inteiro nesta fortaleza / palácio / jardim (é favor não riscar o que não interessa; aqui tudo interessa)?

Apesar de ser a Alhambra que me fez querer voltar e me faz continuar a querer voltar mais e mais vezes, Granada tem por si só encantos suficientes para patrocinar uma visita.

Granada fica perto do Mar de Alborão, braço do Mediterrâneo por onde no ano 711 os mouros vindos do Norte de África entraram e daí seguiram para conquistar a Península Ibérica. Foi em Granada que permaneceram mais tempo, até 1492, quando a reconquista cristã terminou com os Reis Católicos, Fernando e Isabel, a alcançarem a união territorial e política de Espanha. De último bastião muçulmano na Península Ibérica, Granada ganhou ainda o título de cidade símbolo da reconquista. 

É, porém, o testemunho da presença árabe durante oito séculos que faz de Granada ainda hoje lugar encantado e desejado e ao contrário de outras cidades da Andaluzia os ibéricos, os romanos e os visigodos não tiveram aqui tanta influência.

Quando os mouros aqui chegaram encontraram uma comunidade judaica chamada Garnatha Alyehud. Diz-se que o nome Granada terá evoluído daqui. Ou então, hipótese mais deliciosa, o nome Granada terá surgido do facto de as casas que aqui havia estarem tão juntas umas das outras que mais pareciam caroços de romãs – romã em espanhol é, precisamente, granada. 

No princípio do século XI uma povoação mais desenvolvida começou a crescer com a fundação de um taifa independente na região. A primeira residência estabeleceu-se na coluna mais elevada da cidade, com o Rio Darro lá em baixo, a dividir as colinas do Sacromonte e Albaicín. 

Séculos depois seria o Emirado Nasrida, que havia estabelecido o seu poiso em Granada em troca da ajuda dada à reconquista de Sevilha, a elevar o esplendor e magnificência da arte islâmica a padrões nunca antes vistos. A escolha de Granada deveu-se à sua fantástica localização geográfica e sobretudo pela água em abundância que vinha quer das então neves perpétuas da Serra Nevada quer dos vários rios que por aqui existiam – a água era uma paixão da dinastia Nasrida. Hoje resta o rio Darro donde, juntamente com o bairro de Albaicín, se obtém vistas inigualáveis da Alhambra.

Com a reconquista viria também um programa de construção de uma nova arquitectura que se pretendia mais apropriada para a nova era. A catedral enorme que começou a ser construída no princípio de 1500, bem no coração da antiga medina muçulmana, é disso exemplo. Primeiro em estilo gótico, depois renascentista, só pela sua Capela Maior vale a visita. Junto à Catedral fica a Capela Real, onde antes era a Mesquita, escolhida pelos Reis Católicos para lugar do seu túmulo. A arquitectura é sóbria. O mesmo não se diga da Madrasa que apesar das muitas alterações conserva uma fachada que convida o olhar. Aqui foi fundada a universidade ainda nos tempos dos reis nasridas, daí o seu nome (madrasa vem do árabe medersa, que significa universidade corânica). Depois veio a ser o edifício do Cabildo, sede do Ayuntamiento e hoje é a sede da Real Academia de Bellas Artes.


Apesar da promessa aos muçulmanos de que seriam mantidos os seus usos e costumes, língua e liberdade religiosa, tal não foi cumprida. Estes foram forçados a baptizar-se ou a sair da cidade. Até que em 1609 foi determinada a sua expulsão definitiva. Com isso veio o declínio da agricultura e do comércio e uma evidente regressão no desenvolvimento da cidade.

Apenas com a vinda dos escritores e pintores românticos no século XIX voltou a cidade a despertar.

Hoje, a Granada de outrora, ponto de encontro do ocidente com o oriente, permanece viva. Caminhando no centro, correspondente à antiga medina, ou no bairro de Albaicín, as ruas estreitas e labirínticas estão inundadas de marroquinos, com o seu artesanato e especiarias, sendo tão fácil encontrar aqui uma casa de chá ou lugar para fumar narguilé como no outro lado do Mediterrâneo. Até as tapas tomam por aqui uma clara influência magrebina, sendo o húmus delicioso. As ofertas para escrever o nosso nome em árabe estão por todo o lado, a lembrar que a caligrafia árabe ainda permanece por aqui uma arte, ou melhor, uma dádiva divina como a entendem os muçulmanos, uma vez que o árabe é a língua sagrada porque foi nela que Deus falou a Maomé.

As perseguições dos cristãos aos muçulmanos estão hoje para trás e volvidos mais de cinco séculos voltou a ser construída uma mesquita em Granada.
Fica no bairro de Albaicín, que junta à característica de possuidor de ruas estreitas também a de dono de ruas inclinadas. Este era o antigo bairro dos mouros e bastião e refúgio das perseguições cristãs. De Baeza fugiram para aqui e daí talvez o nome que evoluiu de Albayyasin.



Este bairro, que fica diante da Alhambra e por isso daqui percebemos melhor o emaranhado de casinhas brancas, é extremamente pitoresco. A atenção tem de ser total para apreciarmos os detalhes das suas casas e as suas fontes. Os mosaicos de cores vivas abundam. 



Mas são os carmen os reis por aqui. Apesar de não termos tido a oportunidade de entrar em nenhum deles, do exterior somos capazes de imaginar a sua  essência: carmen significa parreira, mas aqui serve para designar um pátio com três árvores que têm de ser a figueira, a videira e a palmeira. Um verdadeiro jardim travestido de horta urbana. São pátios de casas particulares e acredito que os seus proprietários não achem muita piada à devassa. Mas como passar em frente dos pormenores dos puxadores das portas, das janelas enfeitadas ou dos mosaicos? Não nos deixam ver o pátio, então têm de nos aguentar à porta.


Podemos – e devemos – explorar a pé o bairro de Albaicín desde cá debaixo, começando pela Praça Nova e seguindo pelo Paseo de los Tristes junto ao Rio Darro, com a Alhambra do outro lado, e o Bañuelo mesmo aqui (os banhos árabes mais antigos da Andaluzia).




Não é dos passeios citadinos mais fáceis pelo que implica de subir. Mas é agradável e encantador ir caminhando pelas ruas, subindo-as, descobrindo becos, voltando atrás, subindo mais um pouco, entrevendo a Alhambra ao fim de uma estreita rua, deparando com um pormenor delicioso aqui e outro ali, até que chegamos ao destino, fazendo de conta que havia um só objectivo para andarmos de um lado para o outro no Albaicín: a chegada ao miradouro de San Nicolás, donde se tem uma vista soberba para a Alhambra, de tal forma que tira o pouco fôlego que nos restava da subida. 


O Albaicín, apesar de renovado (embora se veja ainda muitos edifícios em muito mau estado), conserva o ambiente mourisco de há muito. Aqui era o coração de Granada e hoje continua a pulsar forte. Antes da construção da Alhambra, era aqui que estavam os alcázares reais. Uma certa população virada para as artes, anónimos ou famosos, como escritores, músicos e pintores, deixou-se seduzir por este pedaço de terra na encosta, feito de casas brancas populares e alguns palácios em estilo mudejar.


Depois de ultrapassadas umas quantas cuestas formosamente inclinadas, no miradouro de San Nicólas encontramos, para além da paisagem soberba, um ambiente de festa protagonizado pelos jovens que o ocupam. Todas as comunidades urbanas se parecem juntar aqui, como rastas, hippies (ainda os há), vendedores de raybants e ardidas, músicos e pintores informais, dando ao ar um odor bem característico que vai para lá do mero cheiro às flores e plantas que nos rodeiam, todos eles lado a lado com os turistas. 



Aqui neste miradouro, também lado a lado mas desta vez com igrejas, fica a mais nova mesquita de Granada, a Mesquita Mayor. Inaugurada em 2003, foi a primeira mesquita a ser construída desde que o governo mouro deu lugar aos cristãos no final do século XV. O seu jardim, a que não falta uma preciosa fonte, é um lugar para nos deixarmos estar a contemplar a paisagem imensa que nos envolve: Alhambra, sim, mas também Serra Nevada, Albaicín, vale e Sacromonte.

Falamos de fonte e há que lembrar que água e Granada não vivem uma sem a outra. Dissemos anteriormente que a água era uma paixão da dinastia Nasrida e que foi a abundância de água a determinante na escolha do lugar para os mouros se estabelecerem aqui. No bairro de Albaicín, em especial, chegou a haver mais de cinquenta cisternas, das quais se conservam ainda algumas. 



Estando lá no alto de Albaicín há, então, que empreender a descida. Mais agradável, por não implicar esforço físico, o deleite continua. Mais igrejas, conventos, praças, edifícios bem apresentados. A chegada às ruas da Calderería Vieja e Calderería Nueva fazem-nos entrar num outro mundo e confundem-nos: onde estamos? Nos últimos tempos estas ruas têm-se transformado, à semelhança do centro correspondente à antiga medina, em mais um zouk, um mercado árabe. Aqui é o lugar ideal para se tomar um chá ou fumar narguilé, provar um kebab, comprar uma peça de artesanato como lâmpadas coloridas ou tão somente caminhar e sentir os odores típicos das mil e uma noites.



E, por fim, falar de Granada implica lembrar Federico Garcia Lorca. O poeta nasceu perto de Granada e perto de Granada morreu, fuzilado pelas tropas nacionalistas, a que se seguiria a Guerra Civil Espanhola. Em sua homenagem existe em Granada um parque público e uma casa museu. 

Deixo Granada com a sua poesia,

“por el agua de Granada 
sólo reman los suspiros”
(Baladilla de los tres ríos)

As Tapas no Mercado La Lonja

O Mercado La Lonja é a resposta sevilhana ao fenómeno que se vê desde há uns anos em Madrid e Barcelona (e Lisboa) de reconversão de antigos mercados em espaços dinâmicos para se experimentar ou comprar iguarias gourmet. 
Situada à beira do rio Guadalquivir, junto à Ponte de Triana (a primeira em Sevilha, construída em 1852 no dealbar da época industrial), La Lonja del Barranco foi desenhada em 1876 por Gustave Eiffel e abriu as suas portas em 1883 para que os pescadores aí pudessem comerciar o seu peixe. 
A sua arquitectura em ferro conservou-se até aos nossos dias e o espaço que re-abriu com novas funções no fim de 2014 está belamente adaptado de forma a que se possa considerar o novo point da arte de bem tapear. As propostas são suficientes – cerca de 20 bancas onde se pode degustar vinhos, queijos e presuntos, marisco, croquetes, entre muitas opções a que não faltam experiências inovadoras entre as mais clássicas. Experimentámos uma tapa de bacalao com morcela, outra de um saborosíssimo magret de pato com bacon estaladiço num waffle e um mini cachorro quente com salchicha de porco, rematado por um dulcíssimo pionono.
Para além do espaço interior, temos ainda à disposição uma esplanada com vista para o terno Guadalquivir onde podemos deixar-nos estar a contemplar as águas que em tempos idos eram facilmente navegáveis até ao Oceano Atlântico.