Na Capital: São Tomé

Depois de uns dias maravilhosos pelas praias e belezas do Sul, deixamos a linha do Equador para trás e voltamos para norte, designadamente para São Tomé, a capital.
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Parece que nos começamos a habituar às estradas, a tal ponto que sentimos que a viagem se faz de forma absolutamente tranquila.
Repetimos, em grande parte, o trajecto que fizemos quando fomos para sul. Mas não nos importamos. Tudo o que os olhos alcançam é beleza.
Antes de chegarmos à capital paramos no Club Santana para almoçar e para um mergulho.
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De um lado fica o Club, espaço muito arranjado, com piscina e esplanada a debruçarem-se sobre o mar. Do outro, um povoado simples e humilde, como a maioria de São Tomé.
Apodera-se um sentimento ambivalente e, por momentos, lembro-me de uma das minhas músicas preferidas. A Novidade, de Gilberto Gil, que no refrão canta:
“Oh! Mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Oh! De um lado esse carnaval
De outro a fome total
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!…”
Só não se aplica totalmente porque, felizmente, a abundância de frutas e legumes em São Tomé faz com que a fome não seja um problema de maior.
Do lado humilde, uns miúdos brincam na água, enquanto em terra os homens arranjam as redes de pesca. Também em terra uns barcos descansam.
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Do lado do Club é como se estivéssemos em Cascais ou noutro local requintado do mundo. Não fosse uma mesa carregada de políticos e empresários africanos e a envolvente tropical. Achamos mais interessante ver o que se passa do outro lado. Caminhamos pela praia e damos um mergulho.
Aproximamo-nos de um dos miúdos que antes, ao longe, víamos que brincava.
Ali está ele numa grande diversão, com um pedaço de madeira que faz as vezes de uma prancha. Aproveitar o que se tem. É o lema.
Não há ondas. Não tem importância, também se improvisa. Uma corrida, grande agilidade e zás, em pé na prancha, para de seguida deslizar pela água.
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Pura diversão.
Começo à conversa com o miúdo e pergunto-lhe pelo nome e se gosta de apanhar ondas. Jadilson, confirma que sim. Continuo à conversa e com pena de não poder partilhar umas ondas com um dos melhores surfistas que conheci. Sim, porque o melhor surfista é o que mais se diverte.
Antes de prosseguir a caminhada pelo areal, apresenta-me o cão e o irmão. Uma simpatia e doçura genuína. Tão perfeita, como os músculos que torneiam o seu jovem corpo.
Mais à frente uns homens arranjam as redes de pesca e mais uma vez presenteiam-nos com a sua simpatia.
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Depois de sairmos do Club, passamos pela vila de Santana, onde quebra uma das melhores ondas, para surf, de São Tomé. Fora da temporada, o mar encontra-se uma piscina. Talvez um dia apanhe ali umas ondas.
Passamos pela igreja da povoação e encaminhamo-nos para a capital. Vamos serpenteando, sempre junto ao mar.
Passamos por vários povoados e praias. A confusão e densidade tipicamente africana acentua-se.
Os lugares desertos do Sul dão lugar a uma realidade feita de comércio, azáfama e movimento. Na praia, acabado de chegar, vende-se o peixe.
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Aproximamo-nos de uma realidade mais urbana. Sobressaem alguns vestígios da arquitectura colonial, que se faz de degradação. As marcas materiais da história não resistem ao tempo cronológico.
Chegamos à cidade de São Tomé. Deambulamos de carro pela marginal e pelas suas ruas. Vamos para o hotel e deixamos as malas.
Saímos de novo, passamos pela azáfama do mercado. Dirigimo-nos à Baía Ana Chaves, depois à Praia do Lagarto. Lanchamos na chocotataria Diogo Vaz. Mais uma vez o requinte do lugar transporta-nos para outras coordenadas. Deixamo-nos ficar no fresco do ar condicionado a saborear um brownie de chocolate, depois de termos decidido os chocolates que levaríamos no dia seguinte.
Voltamos para o calor húmido e denso do exterior. O entardecer não tarda vai dar lugar à noite.
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Com a noite, vem a escuridão, porque a iluminação urbana é ténue. Jantamos no Paraíso dos Grelhados, lugar simples numa esplanada virada  para a Baía Ana Chaves. O breu não nos permite admirar as vistas e só com a ajuda da pequena vela que ilumina a nossa mesa conseguimos ver, tenuemente, a comida. Naquele momento o sentido mais importante de estar apurado não é a visão, mas antes o paladar. Ah, e este indica que está tudo perfeito.
Deixamos as visitas mais profundas para o dia seguinte.
Acordamos. O sol já nasceu e vai brilhando lá fora. Tomamos o pequeno-almoço, carregado de frutas e produtos locais.
Fazemo-nos às ruas da capital e dirigimo-nos à Associação CACAU, local que promove a cultura São Tomense, através de exposições temporárias, artesanato, actividades culturais e restaurante com a gastronomia local.
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Quando regressamos à rua sentimos os humores meteorológicos dos trópicos. O céu coloca-se cinzento escuro.
Passamos pela Igreja Nossa Senhora do Bom Despacho.
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Nas ruas vendem-se frutas. Numa praia trata-se da faina. Noutra uns miúdos jogam vólei, enquanto por trás localiza-se o Forte São Sebastião e as Estátuas Aos Descobridores de São Tomé.
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Entramos no Forte São Sebastião, onde está o Museu Nacional, o qual conta a história do país.
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Enquanto isso começa a chover. Para não mais parar ao longo do dia. No nosso último dia o céu desaba em nós.
As ruas começam a ficar vazias. Aos poucos as pessoas recolhem-se. Apenas na área do mercado isso não é verdade.
Antes de aí imergirmos deambulamos a pé pelas ruas e admiramos a arquitectura colonial e vários exemplos de arquitectura modernista com um toque tropical.
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Entretanto vamos às compras ao Artesanato Pica Pau, um colectivo de artesãos, e à banca da Isabel, onde nos abastecemos de frutas locais para trazemos para casa.
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À frente, junto ao mar, as peixeiras vendem o peixe que os barcos, que agora repousam na areia, trouxeram do mar. Os miúdos brincam na água, porque a chuva apenas reduz ligeiramente o calor, mesmo ao lado da igreja cor de rosa debruçada na Baía Ana Chaves.
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A chuva cada vez caí com mais intensidade. As ruas viram rios. Abrigamo-nos numa pastelaria e comemos uma interpretação tropical do pastel de nata. As marcas portuguesas na culinária persistem mundo fora.
Imergimos na intensidade do mercado novo e velho. Cores, texturas, barulho, confusão e cheiro forte, misto de odores dos produtos com urina. Tinham-nos desaconselhado compras no mercado por questões de higiene, mas não visitar seria ficarmos orfãs de um dos elementos e vivências mais importantes de qualquer cultura, e em especial da africana.
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Praticamente não há produção industrial no País. A cerveja Rosema é um dos poucos produtos locais. No entanto, sente-se constantemente a presença de produtos portugueses, sejam as cervejas, como os sumos, entre outros, assim como de empresas. Algumas são as legítimas, outras são imitações, como o Pingo Doxi e o Pléçu Cetu.
Praticamente apenas nós caminhamos pelas ruas, cada vez mais vazias, porque a chuva não dá tréguas. Passamos pela Praça da Independência, com o Banco Central de São Tomé e Príncipe numa das pontas. Prosseguimos e atravessamos a ponte do Rio Água Grande, que uns metros à frente desagua na Baía Ana Chaves. Para nascente fica a Catedral da Sé e o Palácio Presidencial.
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Percorremos a Avenida Marginal 12 de Julho. O murete que ladeia a Baía dá ares de outrora ser elegante, contudo, actualmente foi apoderado pela degradação inexorável do tempo.
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Reflectimos sobre como pode ser feita a sobrevivência de um pequeno país como São Tomé e Príncipe. A descolonização foi feita há mais de 40 anos, mas por vezes fica a ideia de que sem o apoio exterior, designadamente do ex-colono, tudo é mais difícil ou mesmo impossível. Não sabemos como será feito o futuro, mas esperemos que a beleza e simpatia desta terra e povo permaneça. Cá nós, trouxemo-la na memória e no coração.
Até breve São Tomé e Príncipe.

Ilhéu das Rolas

O dia fez-se no Ilhéu das Rolas. Partimos de manhã da praia do Inhame, com o Carlitos a manobrar o barco. Connosco seguiram três casais mais velhos, dois portugueses e um americano. Jay, o elemento masculino do casal americano, é um apaixonado por pássaros e estava em busca de quatro espécies que ainda não conhece. Ela, a Blair, estava a apostar em fazer mergulho. Ambos, ao que parece, estavam em romance e vieram de longe, seguindo o conselho de um amigo, que lhes indicou São Tomé como um dos lugares mais românticos.

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Chegados ao Ilhéu, iniciámos a trilha a caminho do marco do equador. É por aqui que passa a linha imaginária que divide o Norte e o Sul da Terra. Ali encontramo-nos a zero graus de latitude, com a possibilidade de ter um pé no hemisfério norte e outro no sul.

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Depois de estarmos com um pé em cada hemisfério, descemos para o hemisfério norte, rumo à praia Café. Pelo meio cruzamo-nos com mangueiras, goiabeiras fêmeas e machas, jaqueiras, a árvore da fruta pão e com muita outra diversidade de árvores.

À chegada à praia extasia-nos o azul turquesa da água.

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Momento de snorkeling. Momento de pura alegria. Fascina-me o mundo subaquático e a sua diversidade. É uma imersão total. Com uma visibilidade impecável, tudo se torna mais mágico e diáfano.

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Não nos deixamos ficar apenas por esta praia, e com um miúdo-guia, chamado Valter, vamos pelo trilho envolvido em coqueiros até à praia da Bateria. A acompanhar-nos vem também um rapaz, o Mestre, de Ribeira Peixe, que está ali a lazer de visita aos amigos. Seguimos ao som do kuduro de Angola que sai do seu telemóvel.

Ao chegarmos, o azul turquesa vivo da água, de forma adorável, invade-nos. Arrebata-nos. Que cor. A qual se acentua mais com o contraste com o preto da pedra vulcânica, o branco da areia e o verde dos coqueiros.

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Os rapazes mergulham e os seus corpos pretos e perfeitamente delineados sobressaem ainda mais.

Voltamos para a praia Café. Pelo meio uns rapazes apanham e carregam bambu, que servirão para fazer os ninhos das tartarugas. Ou tárrrtarrrugas, à moda São Tomense, em que se carrega bem nos R.

Não resisti a novo mergulho e snorkeling. Empresto uma das máscaras ao Mestre, que pouco antes confessou que gosta de fazer mergulho, mas que só faz quando os amigos lhe emprestam uma máscara. Quer também o tubo. Mergulhamos juntos. Mais tarde ofereço-lhe o conjunto.

O céu torna-se cinza e pesado, como só nos trópicos consegue ser. Hesita-se se o almoço é na praia, conforme programado, ou noutro local mais abrigado.

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Confiamos e deixamo-nos ficar pela praia. Enquanto almoçamos, numa mesa no areal debaixo dos coqueiros, um fabuloso peixe grelhado com fruta pão e banana pão frita e arroz, acompanhado de água de coco, observamos o Mestre a mergulhar e, seguramente, a divertir-se tanto como me divirto na água. Assim seja.

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A conversa rola solta tanto com os portugueses como com os americanos. Com os americanos trocamos pontos de vista sobre a política mundial actual e sobre o percurso político e histórico de Portugal. Com os portugueses a conversa centra-se nas ex-colónias e como era a vida naquelas. Todos viveram em Moçambique e uma delas nasceu em São Tomé.

Horas de regressarmos ao Inhame. Antes observamos alguns momentos da faina. Tudo é sereno.

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Já de regresso à ilha principal, voltamos a Porto Alegre, a comunidade vizinha da Praia Inhame. À tarde o ritmo é outro. O peixe já não se encontra a secar e tudo está mais calmo.

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Voltamos para a praia Inhame, para um final de dia quente e suave junto ao mar.

É dia dos namorados. O hotel não esquece e prepara um jantar especial. Com as mesas instaladas no areal, música ao vivo e comida excelente, tudo está perfeito e a preceito.

Será que o Jay e a Blair concordam que São Tomé é um lugar romântico?

Tem tudo para ser.

Naquele noite penso e sinto que a vida pode ser boa. Lembro-me da música tão bem interpretada pela diva Mercedes Sosa e faço minhas as suas palavras. Agradeço à vida.

São Tomé: O Caminho Para Sul

O dia amanheceu, mais uma vez, na Roça de São João dos Angolares. A localização é soberba. A simpatia está no lado oposto. O filho do dono é muito inconveniente. Porém, não vale a pena determo-nos com o que não interessa.

Avançamos para sul. Se São Tomé é remoto e simples, o sul ainda mais. Por isso mesmo, ainda em São João dos Angolares, abastecemos o jipe como nunca o fizemos na vida, numa casa de um local que nos coloca no depósito alguns litros de gasolina vinda directamente de uma garrafa de vidro. Os postos de gasolina ficaram todos para norte.

Para sul tudo rareia, menos a beleza e a surpresa.

O pavimento das estradas é, em alguns troços, péssimo. Mas quem se chateia quando se tem uma paisagem de uma grande beleza?

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Povoações deixam de existir. Cruzamo-nos com, talvez, três.

Pelo meio rodeia-nos a natureza e o verde. O qual passa dos coqueiros para o palmeiral, que está na base do imponente Pico do Cão Grande, para voltar aos coqueiros e a outras árvores.

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Pela estrada vamo-nos cruzando com algumas pessoas, a meio das suas actividades profissionais, todas ligadas à natureza. À extracção do que a natureza dá. Algumas dessas pessoas parecem-nos apresentar um ar duro. O sorriso sempre presente na cara quando passamos e acenamos, em alguns momentos, dá lugar a um semblante carregado. Antecipamos trabalhos e vidas difíceis.

Continuamos. Com o sul como destino. A estrada faz-se de curvas, sempre rodeadas pela vegetação. Poucas vezes se consegue perscrutar o mar.

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Chegamos a uma, das poucas, povoações, que pelo mapa, porque quase nunca há sinalização, intuímos que se designa Novo Brazil, onde, enfim, avistamos o mar.

Paramos o carro, junto a uma ponte que atravessa um rio, o qual a poucos metros há-de desaguar no mar. A nossa perspectiva é sair e tirar umas fotografias. Ainda estamos no momento de executar esse desígnio e, pelo retrovisor, acompanhamos a corrida dos miúdos em direcção ao nosso carro. “Doce-doce!!!”, gritam em uníssono. Rodeiam o jipe e perguntam o que temos para lhes dar. Mais uma vez, só acenos, palavras e sorrisos. Assim o fazemos. Para de seguida seguirmos viagem.

Chegamos a Manzala. Um dos poucos povoados no nosso percurso. Sentimos que é ainda mais pobre que o que vimos anteriormente. Fazemos a rua principal, que corresponde à EN2 e divide a povoação, ao ritmo local. Devagar, bem devagar. Respeitando o atravessamento dos porcos e das galinhas, as brincadeiras dos miúdos, ao som da música que vai saindo dos rádios dos locais.

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A seguir chega Porto Alegre, povoado mais importante, por ser um pólo piscatório. Impressiona pela simplicidade. As construções são muito humildes e as estradas fazem-se de lama. Chega a ser difícil perceber qual o caminho a seguir. Tudo parece pouco.

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Perguntamos aos locais, todos nas ruas, provavelmente porque as casas não se fazem de conforto, qual o caminho a tomar.

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A economia local gira à volta da pesca e dos passeios ao Ilhéu das Rolas. Interpelam-nos diversas vezes a perguntar se queremos ir ao Ilhéu.

O pouco vira muito. Surpreende ver quantidades enormes de peixe a secar. Uma das matérias primas de preparação do calulu, prato típico São Tomense.

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De Porto Alegre para sul a estrada vira caminho. O jipe é essencial.

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Chegamos à praia Inhame, nosso poiso nas próximas duas noites. Não resistimos e, a correr, entramos nas águas cálidas da praia, a qual fica mesmo à frente do nosso bungalow. Deixamo-nos estar a banhar e a fazer snorkeling. O tempo pára. Tudo o que interessa passa-se debaixo de água. Naquelas águas azuis transparentes.

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Explorada por dentro, fazemos o reconhecimento de todos os cantos da praia, numa passeata a pé areal fora.  Toda a atmosfera deslumbra. Muito. Coqueiros, areia branca, mar azul, são elementos que marcam a paisagem.

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À frente fica o Ilhéu das Rolas.

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Em modo de praia, pelo sul, conhecemos também a Jalé e a Piscina. Mais mergulhos sem fim. A Jalé é uma praia mais remota e agreste. Já virada a oeste, o mar é mais agitado. A observá-lo apenas os coqueiros que marginam o seu areal.

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A Piscina é especial. Surge-nos a questão praia ou piscina? Para a resposta sair pronta, Praia Piscina.

Por aqui não há ninguém. Só nós e a natureza. Uma paz. Uma beleza fantástica.

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À noite voltamos à Jalé para ver a desova das tartarugas. Agora, para além de nós, e de uma portuguesa que nos acompanha, temos a companhia de dois fiscais das tartarugas. Ah, e da gata Jalé e de uma lua quase cheia. Esse luar, demasiado brilhante, em conjugação com uma maré muito cheia, não correspondem às condições ideais para as tartarugas virem a terra desovar. Luar demasiado brilhante para as tartarugas, porque para nós constitui apenas uma pequena luz no meio da imensa escuridão que envolve toda aquela natureza, bem distante da civilização.

Apenas vimos as tartarugas bebés a fazerem o, difícil, percurso para a água. A sobrevivência é difícil. Em média, em seis, apenas uma sobrevive. São presas fáceis.

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Foram lançadas doze, já com dois meses. Torcemos para que a sua caminhada seja feita com sucesso.

Regressamos ao Inhame. Num primeiro momento, lentamente, com a orientação da lua e dos mínimos do jipe, para não perturbar a trajectória das tartarugas. De seguida com os máximos, que iluminam a picada rodeada de coqueiros. Respiramos felicidade. Tudo ali é lindo e exótico.

Costa Cacau: São João dos Angolares e Envolvente

Acordamos, na Roça São João dos Angolares, ainda com alguns resquícios da tempestade nocturna. O céu encontra-se cinzento e pesado. Fica a dúvida se vai desabar de novo. Torcemos para que não. Queremos explorar as praias das redondezas.
A vista, com céu cinza ou menos cinza, é linda. Arrebatadora, na verdade. Numa só imagem compila e resume o que é ser tropical e exótico.

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Movemo-nos pela casa principal. O tempo já não é colonial, mas toda a atmosfera criada pela arquitectura exterior e interior leva-nos até essa época.

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Tomamos um pequeno-almoço carregado de produtos locais e, enquanto o céu não abre, vamos até ao centro da povoação de São João dos Angolares. Historicamente, Angolares é considerada uma terra misteriosa povoada por descendentes de escravos angolanos que se julga terão naufragado na região no século XVI. Esses escravos foram liderados por Amador, o qual se tornou o rei dos Angolares e foi imortalizado através de um busto que marca a praça principal da cidade.
Caminhamos. À saída da roça cruzamo-nos com as plantações de café, para logo entrarmos num contexto mais urbano. Ainda que o conceito urbano seja diferente dos nossos referenciais.
Deparamo-nos com várias pequenas vendas. Umas mais monofuncionais, como a banca que só tem bananas.

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Mais à frente fica a escola. Os miúdos estão a ser preparados para ir dar um passeio. À frente da escola encontra-se um ponto de venda de combustível.

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Para uns metros adiante darmos com uma praça.
As cores vivas, ainda que já um pouco gastas, das paredes contrastam com o cinza que marca o tempo. Na latitude a que residimos, maioritariamente, céu cinzento corresponde a frio. Porém, ali, a atmosfera é de calor. Calor húmido.

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Ladeamos a praça central. A maioria das pessoas está em jeito leve-leve, a ver a vida a passar. A vida por aqui tem outro ritmo.
Decidimos, ainda, não entrar no miolo da povoação. Prosseguimos, a pé, pela estrada principal, como quem vai sair da povoação em direcção a sul. Mais à frente, uns miúdos perfilam-se à frente de uma televisão, modelo início dos anos 80 do século passado. O desafio é sintonizá-la. No meio da falta de sintonia, não se vê cor, antes cinza. Parece que há conformidade com o tempo do dia.
As crianças aguardam pacientemente e com uma alegria expectante. Do nosso lugar, olhamo-las e não temos como não questionar as nossas vidas de excessos tecnológicos.
Seguimos. Cruzamo-nos com mais um ponto informal de venda de combustível.

Pela estrada, passam por nós trabalhadores agrícolas, com o seu instrumento de trabalho mais essencial, a catana. Brinco e assinalo que esta, nestas paragens, é equivalente ao computador portátil nas sociedades mais desenvolvidas.

Enquanto isso encaminhamo-nos para o Mionga, pequeno restaurante, onde almoçaremos mais tarde, junto ao rio prestes a desaguar na Praia de Santa Cruz.

Ficamos na parte de trás da praia. À nossa frente cinco camadas: vegetação, rio, areal, mar e céu. A conjugação de todas resulta em perfeição.

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Temos que voltar de novo em direcção à povoação para acedermos ao areal. Pelo meio passamos por árvores da fruta pão. Só depois acedemos à praia.

Aquela hora ninguém se encontra a brincar nas suas águas. Por sua vez, os barcos descansam em terra. Mais à frente os pescadores reparam as redes e organizam os aprestos.

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Debaixo de um telheiro uns homens calmamente conversam. Há todo um outro modo da vida acontecer.

Voltamos a subir para a povoação pelo percurso de uma linha de água. O piso está escorregadio e dividimos a atenção entre o caminho, para mantermos os passos firmes, e a envolvente. Todas as habitações são muito humildes. A simpatia dos locais é inversamente proporcional à riqueza material. No campo material a palavra que mais se adequa é ausência.

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Chegamos ao centro da povoação. À área do mercado. A vida corre viva. Há vendas. Há movimento. Ouvimos piropos. Vimos crianças a brincar.

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Enquanto o peixe seca. À espera de entrar num calulu.

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Mais além, os miúdos mais velhos estão a sair da escola. Nós voltamos à roça de São João dos Angolares. Pegamos no jipe e voltamos a encaminhar-nos para norte. Vamos rumo às praias. Faz calor e queremos um mergulho.
Vamos até à praia das Sete Ondas. A areia é escura, a água também, o tempo também. Por essa razão, o verde da envolvente, naquele dia, também se apresenta escuro.

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Não há ninguém. Deixamos as nossas pegadas, numa caminhada, pelo areal virgem.
A vontade de nos fazermos ao mar aumenta.
Preparamos as barbatanas e a handplane e vamos surfar. Estreia absoluta de uma sessão de bodysurf por África. O mar não está perfeito, ainda assim apresenta-se razoável para uma sessão divertida. Enquanto deslizamos pelas paredes das ondas, castanhas, qual cacau, ao longe, junto à estrada os locais deslocam-se nos seus trabalhos a carregar coisas de um lado para o outro.

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A água está quente e temos que, momentaneamente, emergir os nossos corpos para arrefecerem.
De barriga cheia de ondas, ainda tentamos esticar a toalha e deitarmo-nos na areia. Porém, o calor emanado pela areia escura é tal, que rapidamente desistimos.

Entretanto começa a pingar. Chuva que não atrapalha em nada. Deixamo-nos ficar, em pé, a absorver aquela praia só para nós.
Voltamos para sul e paramos em Ribeira Afonso. Os locais estão na rua e sente-se a vibração. A vida corre. Soa música, o peixe e o milho estão a assar nos grelhadores, as crianças brincam, os porcos e as galinhas circulam pelas ruas.
Junto à praia fica uma banda de habitações. Também ali está a igreja, um conjunto de barcos na areia e miúdos a brincar na água, também ali mais escura.

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Apontamos de novo para sul e passamos por Colónia Açoriana, outrora uma roça com produção, e pelo seu secador, hoje em ruína.
A estrada, como muitas vezes, está rodeada de vegetação. E faz-se de curvas. A seguir a cada curva vislumbramos verde. Muito verde.

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Sempre que passamos por um rio, lá estão as mulheres a lavar a roupa e a loiça.

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A paragem seguinte é em Micondó. Outra praia. Ao longe parece-nos deserta.

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Quando chegamos percebemos que é quase só para nós. Apenas três rapazes pescam. Paramos o jipe debaixo das frondosas árvores e mais uma vez entramos e nadamos nas águas quentes do Golfo da Guiné.

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São todas as memórias do dia que nos embalam à noite, na Roça São João dos Angolares.

Rumo ao Centro da Ilha – As Roças

Acordamos onde adormecemos, no paraíso. No Mucumbli. O espaço das refeições, alcandorado, debruça-se sobre o mar calmo.

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Lá em baixo, o mar espraia-se pelos seixos que compõem as margens. Poucos metros a seguir, quase a invadir o mar, uma vegetação, densa, que não deixa o sol dos trópicos, já alto numa manhã pouco adiantada para os padrões europeus, transpor.

Fazemo-nos ao caminho.
Pela frente temos um dia exigente, que há-de acabar em São João dos Angolares. Contudo, pelo meio há muito para ver.
O plano é rumarmos para o centro da ilha, no entanto, teremos que fazer grande parte da estrada da véspera, em direcção à capital. Contingências físicas e de infraestruturas da ilha.
O lado positivo é que vamos repetir alguns troços lindos que fizemos na véspera.
Logo à saída de Neves deparamo-nos, pela estrada, com a dinâmica da faina piscícola, ou não fosse ali a terra da Santola.
A manhã está linda e serena e a imagem dos barcos ao largo conquista-nos. Paramos, tal como um miúdo sob uma pedra faz, para observar toda aquela placidez.

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Avançamos, para nos cruzarmos com uma imagem que veremos repetidamente, a lavagem da roupa  junto aos rios, que neste caso está prestes a desaguar no mar.

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De seguida, rumamos directamente para a Roça Monte Café, que como o nome indica produz café. O café, ao contrário do cacau, dá-se em altitude. Começamos a nossa subida, o tempo torna-se cinza e mais húmido.

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Visitamos o museu do café existente na Roça Monte Café e conhecemos um pouco da história daquela roça, da vida dos que ali trabalharam e das condições de outrora.

Percebemos que o termo “contratados”, aplicado aos que ali trabalhavam, não passava de um eufemismo. O trabalho forçado, vulgo escravatura, supostamente, já tinha acabado, mas, tal como ainda hoje em muitos sítios do mundo, persistia de forma encapotada.
A vida por ali não era fácil, ainda mais considerando que parte da população que trabalhou nas roças foi, involuntariamente, levada de outras colónias, designadamente de Cabo Verde e Angola.
Realidade forte e amarga, como o café.
A vida apesar de leve-leve, como os São Tomenses avançam, provavelmente continua a não ser fácil para muitos. Começando pelos deslocados das outras ex-colónias, os quais findo os grandes processos produtivos e a descolonização, para sempre ficaram ali desenraizados e discriminados. A este respeito vale a pena ver este documentário.
Saímos do museu e percorremos alguns dos espaços da roça. Ao lado encontra-se o secador, onde se fazia o processo de seca do café, à frente a bomba de gasolina, próximo a Casa Grande, um pouco mais abaixo as senzalas, ao lado o sino, elemento que chamava todos os trabalhadores para a formatura e contagem…

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Mais acima fica a escola primária e temos a certeza que, tal como inscrito na sua parede, a educação é o caminho. Sem ela o percurso será sempre mais árduo.

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Ao longo dos dias vamos perceber que muitas crianças não vão à escola. A educação é o desafio e o contributo que quem é de fora pode dar. Não é com a pequena caridade, levada por muitos dos que visitam o país, revelada pelo “doce-doce” que nos é pedido a quase cada metro que nos deslocamos, que se deverá fazer o caminho da ajuda necessária.
Prosseguimos viagem. Imergimos ainda mais no interior da ilha, onde a vegetação se torna mais densa e de maior porte. A humidade é também maior. Começamos a subir, subir, por estradas que abandonam o alcatrão.

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Enfim, chegamos a Bom Sucesso. Ao jardim botânico. Inicialmente pensámos ir até à Lagoa Amélia, uma antiga cratera de um vulcão entretanto ocupada por vegetação, no meio do parque natural Ôbo. O caminho começa no jardim botânico, mas percebemos que a caminhada é mais longa do que pensávamos e realizamos que não temos tempo.
Na impossibilidade de nos cruzarmos com a flora e fauna do trajecto, debruçamo-nos nas espécies presentes no jardim botânico.

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Uma delícia. Conhecemos dezenas de espécies novas, algumas já familiares ao ouvido, por serem a origem de alguns dos ingredientes usados na culinária local, outras completamente novas, como a planta “não me toques” que se encolhe ao toque. Ali cruzamo-nos também com os, belíssimos, bicos de papagaio fêmea e macho.
Com a natureza a entrar por nós, prosseguimos para a Cascata de São Nicolau, uma das maiores da ilha. Imponente.

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A hora de almoço chega e vamos até à Roça da Saudade, outrora onde nasceu Almada Negreiros e hoje a sua casa museu. O espaço é pequeno e faz-se sobretudo de inscrições da obra deste Modernista.
“A alegria é a coisa mais séria da vida”. Assim escreveu Almada Negreiros e ali se encontra escrito. Subscrevo.
Encarando a vida de forma séria, almoçamos no restaurante da casa museu. Os ingredientes locais desfilam na nossa mesa, para a festa se fazer nas nossas bocas.
De alma e barriga cheia rumamos a sul. Voltamos a ter o mar como companhia. O verde, esse, está por todo o lugar.
Água Izé. Outra roça outrora importante. Alguns espaços cristalizaram. Não mais operaram, mas a maquinaria está intacta como se apenas tivesse havido uma pausa. Embrenhamo-nos pela malha da roça. Está lá a Fábrica de Óleo de Palma, as oficinas de fundição e serralharia.

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Estão também as antigas senzalas e outros espaços hoje ocupados como local de residência de inúmeras famílias. É assim a actual ocupação em todas as roças.
Mais à frente está à praia Izê, com os barcos a repousarem em terra.

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Logo a seguir encontramos a Boca do Inferno, com as colunas de basalto a serem polidas pela força do mar. O preto da rocha contrasta com o azul forte do mar e o verde da vegetação. Os coqueiros agitam-se pelo vento e pousam para a fotografia. Resulta um ambiente absolutamente tropical. Estamos mesmo nos Trópicos”

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Entramos no serpentear de curva contra curva, sempre a perscrutar o mar, que ali vem dar a uma costa de seixos negros ou areia escura. No dia seguinte dedicar-nos-emos a esta parte da costa. Agora, é momento de chegarmos à Roça de São João dos Angolares, entretanto reconvertida em hotel, restaurante e centro de artes. Ali ficaremos as próximas duas noites.

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No final do dia sentimos o ambiente do local.
Entramos na casa principal, actualmente o local que alberga o hotel. De portas e janelas abertas, o vento do final da tarde entra, sem pedir autorização, casa adentro e torna mais fácil suportar a densidade do calor tropical.

Passeamos pela envolvente e visitamos a RAM – Residência Artística do Mundo.

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A arte está enquadrada com o ambiente local. Respira-se África ou não estivéssemos em África.

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A noite entra e embarcamos noutra viagem. Uma viagem gastronómica, feita pelos sabores de São Tomé, a partir do menu de degustação na Roça de São João dos Angolares, o espaço do cozinheiro João Carlos.

Depois do jantar, com a noite instalada, no nosso quarto, todo ele a remetermo-nos para o tempo colonial, entram ecos da tempestade que se faz lá fora. Excessiva e intensa, como são os Trópicos.

A Norte e a Ocidente de São Tomé

Quanto tempo leva de São Tomé, a capital, a Neves, perguntei na véspera ao rapaz que nos foi buscar ao aeroporto.

“Três horas de relógio”, veio a resposta.

Como? Perguntei três vezes. As mesmas vezes que as tais horas de relógio. Ficámos sem saber o que significava e tentámos perceber, perguntando a outras pessoas e a pensar no sentido da coisa.

Será que três voltas de relógio são três horas? Não podia ser.

Acabámos, depois de grande reflexão, por concluir que três horas de relógio são três quartos de hora.

Não foi esse o tempo que demorámos até Neves, pois fomos parando em diversos pontos da área Norte e ocidental de São Tomé, que compreendem os distrito de Lobata e Lembá.

Micolo foi a nossa primeira paragem. Pequena povoação virada a Norte, tem vista para o ilhéu das Cabras e para alguns barcos encalhados. Percorremos a sua praia, onde a breve trecho vão chegando canoas da faina. Na areia, enquanto os adultos ajudam a chegada a terra, as crianças distraem-se com brincadeiras e pedem-nos, pela primeira vez, por “doce-doce”. A única doçura que deixamos é acenos e sorrisos.

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De regresso, admiramos a roupa a secar estendida no chão.

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Balançamo-nos para a pequena rua principal, enquanto três amiguinhos, o Samuel, o Nataniel e outro que não percebemos o nome, repetem o dito doce-doce, o qual nos irá acompanhar durante toda a viagem. Vamos percebendo que talvez mais do que um desejo é já uma frase chavão dita automaticamente sempre que surge uma pessoa com a pele mais clara.

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Continuamos. A observar as pequenas vendas e a vivência do lugar.

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De seguida vamos para Fernão Dias. A vegetação é frondosa. Verde, verde. Bananeiras, coqueiros e mais um montão de árvores, ainda sem conseguirmos identificar. Chegamos ao memorial da liberdade, o qual sinaliza o massacre de Batepá, em 1953, perpetrado pelas tropas coloniais portuguesas.

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O terror do passado, partilha o espaço com a beleza do local. A costa faz-se de praias de areia branca e fina e de um mar calmo, que ainda assim, a espaços acolhe navios naufragados.

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Praia dos Governadores e dos Tamarindos são duas que se destacam. Como é domingo, alguns locais dirigiram-se à praia para passarem o dia. Contudo, na praia dos Governadores, a mais bonita da zona norte, reina a paz. Apenas três pares de turistas ocupam o areal, enquanto um local termina a pesca do dia. Percebemos que estamos perto do paraíso.

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Morro do Peixe fica também na costa. É um pequeno povoado costeiro, onde àquela hora as canoas, feitas de ôca, descansam na areia.

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Para o interior, a partir de Guadalupe, onde a vida corre, com pequenas vendas, barbeiro, bancas informais a grelharem peixe, dirigimo-nos à Roça Agostinho Neto.

Na verdade o nome original é Rio de Ouro. Outrora a mais importante roça de São Tomé, onde o conde Vale Flor imperava no mercado de cacau. Imaginar toda a dinâmica passada é um exercício que o Willy, o nosso guia, nos ajuda, ao contar a história daquele espaço, outrora, próspero. Estão lá o que foi a casa principal, as senzalas, as fábricas, o hospital, os carris da linha férrea que ligava a roça, no interior, a Fernão Dias, na costa.

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Contudo, tudo, actualmente, tem funções bem distintas, pois com a descolonização e a, posterior, nacionalização das roças, o processo produtivo de grande escala findou e estes espaços foram ocupados pelas famílias como local de residência.

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Esta roça, ainda com o nome Rio de Ouro, é um dos palcos do livro Equador, de Miguel Sousa Tavares. Esse nome deve-se ao facto de no local desaguarem dois rios e o cacau, noutros tempos, ser considerado tão valioso como o ouro. Já o nome actual, Agostinho Neto, é uma homenagem ao primeiro presidente de Angola.

De regresso à costa, no cotovelo em que o Norte vira para oeste, mergulhamos nas águas quentes e transparentes da Lagoa Azul. Que delícia. Que bálsamo para quem vem do frio Europeu. Perco-me no mundo subaquático feito de peixes diversos, ouriços, rochas e cores.

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Seguimos para Neves, a segunda maior cidade da ilha principal. A tal que se demorava três horas de relógio a chegar a partir da capital. Passamos apenas e sentimos o quotidiano dos locais, que se faz nas bermas da estrada principal. Ainda assim, realizamos que, nestas coordenadas, o conceito de cidade é muito distante do nosso.

A partir dali a estrada torna-se particularmente linda. Por vezes mesmo a ladear, sem protecção, o mar. Volta a ir ligeiramente para o interior e a ser rodeada pela vegetação frondosa. Entramos no território do cacau, com a roça Diogo Vaz a assumir um importante papel. Mas existem outras, de cariz mais biológico.

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O dia encaminha-se para o fim e voltamos a serpentear junto ao mar, em direcção ao túnel de Santa Catarina. A estrada é linda, linda, linda. Mesmo linda. Um sonho.

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Chegamos ao túnel de Santa Catarina, um ex-libris daquela parte da ilha. Um local com grande potencial Instagram, fosse São Tomé um destino turístico maior.

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Paramos para as nossas fotografias. Um grupo de amigos diz que quer tirar uma foto connosco, porque “domingo foto manda bem”. Seja. Esse é o espírito e pele branca, rapidamente percebemos, faz sucesso na terra do cacau.

A partir daquele ponto a estrada piora ainda mais – sim, porque as estradas são muito más pela ilha fora –, para mais à frente terminar mesmo, por isso voltamos para trás.

Antes de chegarmos ao local que havemos de pernoitar, paramos em Anabom, onde os portugueses chegaram no século XV. Tal como nessa época, não encontramos ninguém. Só nós, a natureza e o marco que assinala o momento histórico.

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A tarde quase se faz noite, porque nos trópicos essa chega cedo e rápido. Encontramos um miúdo a vender água de coco. Precisamos deste bálsamo para imergirmos mais neste mundo tropical.

Terminamos o dia no Mucumbli, um eco lodge em Ponta Figo, a pensar que o mundo tem lugares maravilhosos e, intuímos, que alguns deles estão em São Tomé.

A noite entra e com ela todos os, muitos, barulhos da floresta tropical. Eu, pessoa da cidade, que vivo no meio de constante ruído, demoro a habituar-me àquele barulho. Ao barulhinho bom. Mas, enfim, embalo e sonho com as paisagens maravilhosas que o dia ofereceu.

Como Bate o Coração em São Tomé

Estamos há poucas horas em São Tomé.

Apanhamos um táxi para ir jantar. Dério é o nosso motorista.

Dobramos a esquina e vemos um rapaz com a camisola do Sporting. Enquanto, distraída, assinalava isso, Dério, veementemente, a propósito do discurso que soava no rádio do carro, inicia um discurso todo ele político: que em São Tomé e Príncipe só passa fome quem é preguiçoso, porque a natureza ali é generosa em produtos alimentares E assim vamos, até ao restaurante, a discutir a situação do país e de África. Concordamos que, em termos gerais, no mundo, o problema é a distribuição. Ou, melhor, a falta dela.

Combinamos o regresso após o jantar.

Concluído o repasto e já passada a hora combinada, nada do Dério.

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Pedimos um outro táxi ao restaurante e enquanto esperávamos aparece o Dério. Pede desculpa pelo atraso e à nossa pergunta, circunstancial, se está tudo bem, responde “agora sim!”. Ao que perguntamos “e antes?”. “Antes também”. Pelo meio é que não, informa-nos. Explica-nos que o serviço anterior tinha sido com a ex-namorada. Não a via há um ano. Conta que não lhe queria cobrar a corrida de táxi. Contudo, a rapariga, que enquanto namorava com ele virou modelo e Miss Simpatia, insiste em pagar, pois vai ter com o atual namorado e é ele que se vai encarregar da conta. Sossegamos o Dério, que todos temos as nossas ex-histórias e que o importante é ficar bem e tranquilo. Ele diz-se tranquilo.

Estamos prestes a acabar a nossa corrida. Reparo que não ligou o taxímetro. Ele, de seguida, repara no mesmo. Claramente a cabeça dele está noutro lugar. Desejamos-lhe sorte. Com um grande sorriso agradece.

Esta foi a nossa introdução ao lado simples e genuíno do povo são-tomense, que tem como lema o leve-leve, que é como quem diz a vida é para correr com muita calma, sem pressa.