Parque da Bela Vista e Vale da Montanha

Do Parque da Bela Vista quase todos terão ouvido falar, por aqui se realizar o Rock in Rio. Mas conhecê-lo-ão para lá de todo o folclore? Saberão que esta é a maior mancha verde de Lisboa depois de Monsanto? E que desde 2018 tem a companhia do Parque Urbano Vale da Montanha?

Situados em Marvila, zona oriental da cidade, estes dois parques estão longe de ser centrais, mas à boleia da ideia do Corredor Verde de Lisboa possuem uma ligação não apenas entre eles mas também com o centro da cidade.

Comecemos este passeio pelo Parque da Bela Vista pela sua entrada norte, depois de percebermos as vinhas com vista para o aeroporto que preenchem uma das colinas vizinhas. A partir dos anos 1960 a zona foi sendo ocupada por vários conjuntos habitacionais que vieram urbanizar Chelas. Até aí este era um território de quintas e hortas, pura ruralidade, ambiente que retém até hoje apesar dos prédios que agora o rodeiam. A origem do Parque é, precisamente, essa, antigas quintas que se tornaram um enorme espaço verde. São 85 hectares e logo à entrada podemos apreciar o fantástico vale que se debruça abaixo de nós e o largo espaço que ocupa. São sobretudo zonas de prado e de relvado, com muito arvoredo – oliveiras, pinheiros e sobreiros – e caminhos à mistura.

Instalada numa colina que se levanta algo abrupta sobre a Avenida Gago Coutinho, as suas partes mais elevadas servem de miradouro para uma grande parte da cidade de Lisboa. De forma mais imediata, praticamente ao esticar de uma mão, temos o bairro de Alvalade e do Areeiro, constantemente alvos de razias dos aviões que em breve aterrarão na pista ali perto. Mais ao fundo, o rio Tejo. A vista da larga clareira central é fantástica e o desenho ondulante do jardim encaixa na perfeição no vale.

Vale abaixo não caímos logo no Tejo, antes atravessamos a Avenida Marechal António de Spínola (que liga Braço de Prata à Gago Coutinho) por cima do seu viaduto. O Parque da Bela Vista continua com os seus caminhos, mas agora estamos na sua vertente sul, cada vez mais perto do vale das Olaias.

É aqui que se lhe junta o novo Parque do Vale da Montanha, mais 11 hectares de caminhos pedonais e cicláveis que com a Bela Vista se confundem. O nome “Montanha” toma o de uma antiga quinta que aqui existia e que até há pouco tempo partilhou o terreno com hortas e com construções de habitação ilegal. Já não estamos numa colina, antes na encosta do vale que foi aproveitada de forma brilhante para a implementação deste parque. Como acima referido, o Parque Vale da Montanha foi construído no âmbito do desenvolvimento do Corredor Verde Oriental de Lisboa, constituindo uma linha de continuidade em relação ao Parque da Bela Vista, sendo não apenas um espaço verde, mas também de ligação a outros espaços verdes envolventes. Esta ideia de Corredor Verde está intimamente ligada à necessidade das zonas urbanas das cidades face à existência de espaços verdes que lhe sirvam numa dupla função de paisagem e recreação.

O desenho do Vale da Montanha e as ideias expressas acima podem ser apreciadas na perfeição desde a ponte pedonal e ciclável que nos leva até à colina do Casal Vistoso (Areeiro) ao atravessar o vale das Olaias. A linha de comboio corre no seu sopé e não é ofensa nenhuma afirmar que linhas férreas não costumam ser áreas muito valorizadas em termos paisagísticos. Mas esta obra de requalificação veio mudar todo esse cenário e num risco um espaço marginal à cidade tornou-se uma beleza que merece ser vista e desfrutada.

E com ela ficámos com as Avenidas Novas ligadas a Marvila de uma forma engenhosa, mas natural e pura.

Convento da Arrábida

Em pleno Parque Natural da Arrábida fica o Convento de Santa Maria da Arrábida, aquele conjunto de construções brancas que nos habituámos a ver ao longe em harmónico contraste entre o verde da serra e o azul do oceano. Totalmente envolvido pela vegetação da serra, espécie de protecção natural que ao mesmo tempo atrai e afasta os curiosos, este Convento hoje propriedade da Fundação Oriente pode – e deve – ser visitado (apenas visitas guiadas mediante agendamento prévio).

As origens deste Convento têm de ser buscadas muito antes da sua fundação em 1542 e, como toda a estória que se preze, tem uma lenda associada. Conta-se que por volta de 1250 o mercador inglês Hildebrant navegava por ali noite cerrada quando uma tempestade fez com que o seu barco se perdesse no mar e ficasse exposto a todos os perigos. Devoto de Nossa Senhora, com cuja imagem sempre viajava, o mercador reza-lhe e pede-lhe ajuda para guiar a tripulação. Atendido, uma luz alumia-os e a tempestade esmorece, conseguindo navegar até terra firme. Vão então serra acima em busca do lugar de onde tinham visto a salvadora luz surgir e aí descobrem a imagem de Nossa Senhora que sempre acompanhava Hildebrant. Em agradecimento pelo milagre, o inglês constrói uma ermida nesse lugar e torna-se o primeiro dos monges ermitas da Arrábida.

A Ermida da Memória é, pois, a antecedente do Convento da Arrábida. Três séculos mais tarde, em 1539, numa peregrinação encontraram-se D. João de Lencastre (1° Duque de Aveiro, proprietário das terras da Serra da Arrábida) e Frei Martinho de Santa Maria e daí surgiu a ocupação do que hoje conhecemos como Convento Velho. Frei Martinho de Santa Maria, um franciscano espanhol de ascendência nobre, pretendia uma experiência de vida religiosa mais radical materializada numa vida ermita mística. A convite do Duque veio, assim, para a Serra da Arrábida em busca de despojamento para uma vida de contemplação. A sua primeira impressão é elucidativa do cenário que encontrou (e que ainda encontramos todos nós), tendo soltado a expressão “se não estou no Céu, estou nos seus arrabaldes”. Este primeiro Convento Velho, no lugar da tal Ermida da Memória, mais não era do que as capelas, de que restam hoje as guaritas de veneração que vemos espreitar no alto da Serra, e as celas escavadas nas rochas onde os ermitas sobreviviam. O mote era muita penitência e muita austeridade, uma abnegação total que resultava numa vida duríssima.

Como essa vivência de isolamento era muito radical, em 1542 o Duque de Aveiro manda construir o Convento Novo, na encosta da Serra no lugar que hoje visitamos, e convida Frei Pedro de Alcântara, igualmente espanhol, para criar as bases desta comunidade e atrair outros frades a ela. Não se julgue, porém, que aqui os frades vivessem em luxo. Nada disso, a austeridade continuava a palavra de ordem e o único luxo era mesmo a paisagem que se propunham contemplar.

Apesar da construção do Convento Novo, Frei Martinho de Santa Maria é o fundador indisputado deste movimento de capuchos arrábidos no seio dos franciscanos que aqui marcaram presença entre os séculos XVI e XIX, até à extinção das ordens religiosas em 1834. É a imagem dele que constitui o primeiro grande momento da nossa visita. Passamos os muros do Convento pelo portão de entrada, descendo uma longa estrada que nos deixa no edifício hoje transformado em recepção, uma série de casinhas brancas com apontamentos decorativos simples como a natureza que as envolve. E, para lá do que parece uma fonte rosa decorada com pedrinhas e encimada por uma cruz, entramos no adro da igreja.

Na sua fachada, uma estátua do Frei Martinho de Santa Maria. A sua representação é incrível. Numa postura de crucificado, tem na mão direita uma vela, sinal da fé, e na mão esquerda um cilício, sinal da disciplina; a boca cosida e os olhos vendados, sinal de que os sentidos de quem entra para aqui estão encerrados para o mundo, restando apenas o silêncio; o seu coração possui um cadeado, igualmente sinal de que está fechado para o mundo e o seu caminho é apenas interior; está descalço e veste o hábito dos capuchos, incluindo o característico capucho piramidal típico dos capuchinhos da Arrábida; ergue-se em cima de uma serpente, esmagando o demónio, e de um globo.

O interior da igreja é simples. As missas eram abertas a elementos fora da comunidade e os frades participavam apartados dos demais no coro alto, onde se dedicavam a leituras.

Saindo da igreja percebemos a bela decoração das paredes com recurso a azulejos e revestimento de pedrinhas que no seu conjunto formam diversos elementos geométricos e símbolos. Tudo muito singelo. A extinção das ordens religiosas em 1834 e o consequente abandono da comunidade levou a que o lugar fosse pilhado. A Casa de Palmela adquiriu o Convento em 1863 e fez grandes alterações no conjunto, mas a dado momento pouco pode fazer para evitar que o tempo continuasse a produzir estragos. Em 1990 a família decidiu vender o Convento à Fundação Oriente e ainda que de forma lenta têm vindo a ser levadas a efeito diversas acções de salvaguarda deste património conventual. Daí que vejamos algumas decorações restauradas e outras que tardam a sê-lo.

De qualquer forma, o que visitamos já é excessivamente inspirador. Pequenos edifícios brancos com telha ocre, fontes, capelas, pátios, a serra, o mar. Ai, aquele mar. Tão luzidio que às vezes parece que estamos numa ilha grega, uma daquelas que a tantos serviu igualmente de inspiração.

De um dos pátios com vista para as hortas e pomares vemos ainda algumas das sete ermidas que se alinham serra acima, aquelas que constituíam o Convento Velho.

Já na meia encosta em que estamos, no Convento Novo, é altura de visitar algumas das celas dos frades. O despojamento é completo. Cada espaço é exíguo, limitado aos metros suficientes para acomodar um indivíduo, não há cama – apenas um pedaço de cortiça onde deitar -, talvez um minúsculo assento e um crucifixo. Mas para os nossos tempos há um luxo, uma pequena janela que deixa ver o imenso mar. Talvez não saibamos é fazer o mesmo grandioso uso deste cenário, avessos que somos hoje à contemplação.

Seguimos pelas escadarias e pátios apertados e visitamos então o refeitório, deslumbrando-nos antes com o seu terraço com uma esplanada soberba sobre o mar. À entrada um pequeno martelo em cortiça (marca distintiva da pobreza como escolha), usado silenciosamente para a chamada para a refeição. O silêncio, sempre o silêncio. Havia apenas uma refeição diária, usavam-se conchas como pratos, a carne estava ausente e os períodos de jejum e abstinência eram longos. No mais, os frades andavam sempre descalços, independentemente das condições climatéricas e do piso, mais um exemplo da austeridade e penitência em que vivia a comunidade. No final da nossa visita, um lamento, porém: que pena é não podermos estar neste belíssimo lugar mais tempo para além da hora que dura a visita guiada.

Baburnama

O livro de Babur, escrito por este que foi o primeiro imperador mogol, é uma das primeiras autobiografias do mundo muçulmano, algo nada habitual no século XVI. O império Mogol começou por se constituir claramente como um estado guerreiro, de conquista e pilhagem, e Babur não podia deixar de nos relatar as suas vitórias e a vida em acampamento, sempre de um lado para o outro.

O livro tem três capítulos: O primeiro, dedicado a Fergana e Transoxiana, hoje Uzebequistão, onde Babur nasceu e lugar, em especial Samarcanda, com que havia de sonhar toda a vida. Aí, aos 12 anos, tornou-se rei; O segundo, dedicado a Cabul, terra que conquistou para si e lugar de onde haveria de lançar diversos raids ao território indiano antes de o tomar; O terceiro, dedicado ao Hindustão. A conquista do Hindustão deu-se após várias incursões pelo noroeste da Índia e no seu livro Babur descreve as batalhas que travou contra os afegãos e os rajputs. Fala da diferença de meios (os afegãos possuíam 1000 elefantes e muitos mais homens) e deixa claro o seu talento de grande estratega.

Todavia, longe de ser um livro de guerra e de descrição de preparativos para batalhas, este é um livro emocional e cândido. Babur fala na viragem que a sua vida levou após a batalha contra os rajputs, os infiéis, em que passou a colocar mais ênfase no islão e optou pela temperança, ao mesmo tempo que nos dá conta do difícil que foi deixar a bebida. Isto no final da sua vida. Antes, porém, descreve a falta de interesse no seu primeiro casamento ao mesmo tempo que nos conta do seu primeiro amor – um rapaz do mercado cujo encantamento o leva a escrever uns versos. Tudo, ou quase tudo, servia de pretexto para a poesia. Em verso escreve também que “para além da minha alma eu nunca encontrei um amigo, para além do meu coração eu nunca encontrei um confidente”, o que evidencia a solidão que sentia. Aponta a diferença de pronúncia dos indianos, dizendo que estes deixam cair algumas vogais. Conta das suas caçadas e das suas festas, regadas a álcool e acompanhadas do consumo de narcóticos, que também usava para combater as suas insistentes dores. À medida que se vai aproximando do Hindustão vai registando as “diferentes maneiras, diferentes costumes”. Descreve os seus animais, plantas e frutos, bem como o “excelente” sistema de numeração e pesos.

Mas constantemente refere ser o Hindustão um lugar de pouco encanto, sem beleza nas suas gentes, sem harmonia ou simetria no seu artesanato, com cidades desagradáveis. Sonha com a sua terra natal, em especial com os seus melões. Apenas uma boa coisa considera existir na Índia: muito ouro e dinheiro, ou seja, muita riqueza para pilhar.

Pese embora o saudosismo que marca o final do livro, escrito cronologicamente, a cada passo surge uma poesia, um momento de reflexão ou tão somente o relato de uma actividade do imperador conquistador: “Eu atravessei o Ganges a nadar. Contei as braçadas que me levou a atravessá-lo: 33. Então, sem descansar para respirar, atravessei de volta para o outro lado. Eu nadei todos os rios – só o Ganges restava.”.

Senhora do Salto

A Senhora do Salto é um daqueles lugares que traz uma surpresa e uma felicidade inesperadas diante da força ao mesmo tempo bruta e serena da natureza. Parte do Parque das Serras do Porto, em território partilhado pelos concelhos de Gondomar, Paredes e Valongo, o Parque da Senhora do Salto, em especial, está localizado em Aguiar de Sousa, Paredes.

O rio que ajudou a criar o cenário e o continua a manter é o Sousa, afluente do Douro, que aqui corre largo e, subitamente, estreito encravado nas serras altas. Este é um lugar onde se podem viver muitas aventuras, ideal para a prática de rappel e escalada ou caminhadas mais afoitas. Desta vez mantivemo-nos quietos e passeámos apenas por margens mais acessíveis, ainda assim o suficiente para considerar o sítio como brutal.

Debaixo do enorme viaduto da A41 existe uma estrada onde um desvio nos indica o Parque. Descemos e o que primeiro percebemos é um lugar absolutamente tranquilo, ainda que estranhamente sob o tal viaduto.

Para o lado esquerdo, o rio é largo e de águas calmas. Para o lado direito, a maior densidade de vegetação não nos deixa perceber de imediato o que anda para ali. Atravessamos a ponte e subimos um pouco. É então que começamos a ver bem desenhadas umas escarpas imensas, apertadas, um género de garganta por onde o rio Sousa terá de passar.

É a “Boca do Inferno”. O rio que vinha navegando sereno torna-se aqui selvagem. É, ao mesmo tempo, belo e possuidor de interesse geológico. As paredes rochosas, de xisto e quartzíticas, tomam formas curiosas. Apesar de no patamar acima haver um parque de merendas com todas as comodidades, é muito boa ideia deixarmo-nos ficar a piquenicar em baixo, à beira da água, a assistir à saga do Sousa em romper este ponto do seu curso, tentado ultrapassar as muitas pedras que se metem no seu caminho antes de ter de passar por entre as tais estreitas escarpas.

Se nos cansarmos de tanto esforço alheio, basta dirigir o olhar na direcção contrária, onde o Sousa cai levemente por um pequeno desnível, formando uma cascatinha. Não falta sequer uma casinha de pedra do outro lado do rio para compor esta paisagem perfeita.

Subimos, enfim, e descobrimos a Capela da Senhora do Salto numa pequena elevação. Este não é apenas um lugar de natureza, onde a flora e a fauna são diversas e até luxuriantes. Tem de haver uma lenda para o tornar ainda mais poderoso e místico. Pode ler-se numa placa: “Um cavaleiro andante do alto dos penhascos saltou e Nossa Senhora o amparou e o cavalo as patas marcou”. Conta-se que o cavaleiro estava a ser perseguido pelo diabo (ou talvez apenas por um veado) quando se abeirou e caiu da rocha-abismo, livrando-se de morrer ao invocar no salto a protecção de Nossa Senhora. Em agradecimento o cavaleiro terá mandado construir a Capela. Diz que há até marcas – 5 covas – no terreno, correspondentes às 4 patas e ao focinho do cavalo. Não interessa se já ouvimos esta lenda em diversos outros locais e se foi um emigrante quem na verdade mandou construir esta capela. O que interessa é que este é um daqueles lugares que temos mesmo de conhecer.

Passadiços de Fiães

O Parque das Ribeiras do Rio Uíma fica em Santa Maria da Feira, a 20 minutos do Porto e longe de Lisboa, mas não o suficiente para que deixássemos de lá ir conferir este maravilhoso pedaço de natureza.

O rio Uíma é um afluente do Douro, com nascente em Romariz e foz em Crestuma, não tendo muito mais do que uma vintena de quilómetros. Fiães fica mais ou menos a meio do curso do rio e por aqui temos dois pontos onde podemos estacionar o carro junto à Estrada Nacional 326 e iniciar o percurso pedestre linear de cerca de 1,5 kms (para cada lado), grande parte dele em passadiços. No entanto, muitos outros caminhos irradiam do trilho, pelo que os quilómetros de caminhada à nossa disposição podem facilmente duplicar ou triplicar.

Caminhamos sempre junto ao rio, umas vezes sem o perceber mas logo depois abrindo-se à nossa companhia. E caminhamos quase sempre à sombra, sendo esta uma caminhada apropriada mesmo em dias de calor. Vamos debaixo de salgueiros e sabugueiros, o sol nem rompe em diversos pontos, mas ainda assim dá vontade de meter os pés na água sem receio das salamandras (de pintas amarelas) ou lontras – que não vimos. Podemos caminhar, correr ou até pedalar na bicicleta. Não é um lugar deserto, pois que o bom não dura guardado em segredo. Mas, de qualquer forma, há espaço suficiente para nos deliciarmos a apreciar a biodiversidade do Parque. Este é um sistema integrado de zonas húmidas, terrestres e de ocupação humana, esta última felizmente a menos visível. A diversidade de habitats é muito rica, quer ao nível de espécies vegetais quer animais, e nós somos testemunhas privilegiadas, podendo observá-la de muito perto ao percorrer este corredor ecológico. O bosque que nos envolve é dominado por árvores e arbustos de grande porte, criando um ambiente denso e sombrio (no bom sentido), sempre à margem do rio.

Mas também um ambiente encantador e romântico, até, como aquele produzido pelas árvores com o tronco praticamente todo coberto de hera. Não falta sequer um banquinho para descansar, sem deixarmos de admirar o cenário. Pouco depois aparece um pequeno açude, onde o som da água que até aí era uma presença discreta se torna forte.

Ao longo deste percurso a paisagem vai variando. Os passadiços cobertos de vegetação, o caminho de terra aberto, a várzea estendida à nossa passagem, os charcos de tamanhos diferentes (mas todos com elevada biodiversidade) e a discreta torre de madeira transformada em posto de observação. E, claro, o rio que vai serpenteando por todos estes elementos, sempre sossegado, fazendo desta uma muito agradável caminhada.

A Praça da República de São João da Pesqueira

Depois de termos arriscado escolher as praças e largos mais bonitos de Lisboa, arriscamos ainda mais em eleger a praça mais bonita fora da capital. E a eleita é a Praça da República, em São João da Pesqueira.

Situada na margem esquerda do rio Douro, com miradouros de eleição à sua volta, São João da Pesqueira (topónimo buscado na alfubeira vizinha abundante em peixes) tem também elementos históricos suficientes para nos cativar. Desde logo, é a mais antiga vila (e concelho) de Portugal, com foral concedido pelo rei de Leão entre os anos de 1055 e 1065, antes mesmo da nacionalidade portuguesa. Considerada o coração do Douro Vinhateiro, o vinho era já então um dos tributos a pagar ao rei e hoje o concelho é mesmo o maior produtor nacional de Vinho do Porto. E é aquele que possui a maior área do Alto Douro Vinhateiro, classificada como Património Mundial pela Unesco, cerca de 20% do total. Como curiosidade, diz-se que o Marquês de Pombal, o responsável pela criação da Região Demarcada do Douro em 1756, terá aqui vivido em menino.

Mas desta vez não é o vinho nem a sua paisagem fabulosa que nos traz a este texto. É apenas a Praça da República, o coração do pequeno centro histórico de São João da Pesqueira. Há uns bons anos havia passado pela vila numa tarde de chuva intensa que deu, ainda assim, para nunca mais esquecer a sua praça. É dos lugares mais bonitos que tive o prazer de conhecer. Ponto.

À Praça acede-se por diversas ruinhas, mas em qualquer entrada se percebe logo a monumentalidade harmoniosa do lugar. No século XVI seriam o solar da família Távora, condes de São João da Pesqueira, e o antigo hospital da Misericórdia os elementos arquitectónicos que dominariam o centro da urbe medieval. Já haveria o Arco e a Torre. O Pelourinho, esse, já não existe. Mas o que vemos hoje é a reedificação levada a efeito no século XVIII, época de grande desenvolvimento económico da vila, à boleia do crescimento acelerado da produção do Vinho do Porto. Tudo está conservado com uma vivacidade feliz.

Começámos por apreciar a Capela da Misericórdia com a sua fachada barroca revestida quase por inteiro a azulejos. Destacam-se dois painéis, um de cada lado: “Cristo e a Samaritana” e “Cristo curando um enfermo”.

Ao seu lado, o Arco com Torre do Relógio. E logo de seguida a Arcada ou Arcaria, construção do século XVIII que serviu de mercado. Espaço ainda para a torre da igreja que lhe está adossada.

Isto de um dos flancos. À sua frente encontramos ainda o edifício dos antigos Paços do Concelho e Cadeia, hoje Museu Eduardo Tavares. Igualmente com fachada barroca, como a Capela com quem dialoga face a face, foi mandado edificar por D. Maria I, com data de 1794 na frontaria, e tem o portal decorado com brasão real.

Destaque ainda para dois deliciosos edifícios contíguos, cada uma de sua cor, ambos com janelas de guilhotina. Janelas essas que não são, no entanto, um exclusivo destes.

Desta Praça da República, o antigo centro da vila antiga, podemos percebe-la com clareza como centro cívico, religioso, económico e nobre. O poder cívico local representado pelos Paços do Concelho, o religioso pela Capela da Misericórdia, o económico pelo espaço comercial da Arcada e o nobre pelo antigo solar dos Távoras. Uma bela unidade histórica e arquitectónica, testemunho de uma época que chegou intacta até nós.

As 10 Praças e Largos mais Bonitos de Lisboa

Eleger as praças e largos mais bonitos de Lisboa não é tarefa fácil, tal a profusão de beldades neste quesito. A ideia é fugir ao mais óbvio e conhecido, e se aqui não encontramos o Terreiro do Paço (Praça do Comércio), o Rossio, a Praça do Município e a Praça Luís de Camões não é por esquecimento, é antes por estas estarem já na Liga dos Campeões deste reconhecimento.

Praça das Flores – Entre o Príncipe Real e São Bento, esta é uma das zonas mais agradáveis e carismáticas da cidade, onde a faceta residencial surge aliada à faceta mais boémia. Um pedaço de tranquilidade sob o arvoredo durante o dia, pela noite são muitas as opções de qualidade para jantar ao longo da praça.

Largo São Carlos – No final do século XVIII construiu-se aqui o neoclássico Teatro São Carlos e quase cem anos depois aqui haveria de nascer e viver, no número 4 que lhe está mesmo em frente, Fernando Pessoa, poeta maior da cidade e da língua portuguesa. Espaço cultural de excelência, em dias de récitas é ver (ainda) os visons a saírem à rua, no mesmo espaço onde já é também tradição celebrar-se o mais popular Festival ao Largo.

Largo do Carmo – Situado num dos cantos do Chiado, este é um dos lugares mais históricos da cidade. Entre vários edifícios que foram palacetes, aqui fica o antigo Convento do Carmo (uma ruína cheia de atmosfera com o seu portal gótico intacto) – com o exuberante oitocentista tardo-barroco Chafariz do Carmo diante si – e o Quartel do Carmo. Ambos testemunhos de dois dos episódios que marcaram e marcam o urbanismo e a liberdade da cidade e do país, o Terramoto de 1755 e a Revolução dos Cravos de 1974.

Praça de São Paulo – Numa das mais animadas zonas de Lisboa, perto do Cais do Sodré, fica esta praça encimada pela igreja que lhe dá nome. A Igreja de São Paulo já não é a original do século XIV, destruída pelo Terramoto, antes outra construída na sequência desta tragédia. Na placa central da Praça com calçada típica portuguesa encontramos um chafariz-obelisco e quiosques em ferro forjado, tudo elementos que conferem uma beleza harmoniosa ao conjunto.

Largo Dr. José de Figueiredo – Com o nome do primeiro director do Museu Nacional de Arte Antiga, na Rua das Janelas Verdes, este largo monumental é um dos mais cénicos de Lisboa. O Chafariz barroco com bicas com carrancas e uma escultura de Vénus a encimá-la e uma escadaria de ambos os lados dão o enquadramento perfeito para os edifícios todos diferentes mas cheios de coerência que ladeiam esta praça em forma de U.

Praça do edifício Sede da Edp – Junto à Avenida 24 de Julho, o novo edifício dos arquitectos Aires Mateus deu à cidade uma das suas mais recentes praças e talvez a mais não convencional. Para além dos blocos de escritórios da empresa eléctrica, o propósito foi também o de criar um espaço público que pudesse ser usufruído por todos e não apenas pelos funcionários que ali trabalham. Esta praça é uma pequena obra de arte, com uma cobertura futurista que joga magistralmente com a luz natural e que nos dá ao mesmo tempo uma sensação de recolhimento e de passagem.

Largo da Achada – Situado na Mouraria, o seu nome derivará do facto de este ser um lugar relativamente plano, ideal para recolhimento na encosta, provindo “Achada” de “terra chã”. Num dos cantos do Largo fica a Casa da Achada, Centro Mário Dionisio, que no Verão se encarrega de aqui passar cinema ao ar livre, e no outro uma fachada de arte urbana pintada por Andrea Tarli, ironicamente retratando uma velha moradora e um turista intrusivo. São dois apontamentos modernos em lugar muito antigo, onde se destaca um edifício com porta e janela ogival, diz-se que um sobrevivente do Terramoto.

Beco do Jasmim – Ziguezagueando pelas labirínticas ruas do bairro da Mouraria, esta praça com declive acentuado bem aproveitado por umas escadarias é rodeada de edifícios mas tem uma árvore no meio. Pode levar “beco” no nome mas é um espaço relativamente amplo para os padrões do bairro e aqui o privado e o público confundem-se, fazendo deste um lugar óptimo para se estar. Escusado será dizer que, à semelhança do Largo da Achada, é um dos lugares mais procurados por altura dos Santos Populares.

Praça da Viscondessa dos Olivais – Nos Olivais Velho, outrora arrabalde de Lisboa onde no século XVII a nobreza da capital começou a construir as suas quintas de recreio, esta praça ainda dá ares de tempos que já lá vão. Tanto, mas tanto, que foi possível ver um senhor sentado num dos bancos da praça com um rechonchudo porco quando lá passei para tirar esta foto. À volta da praça com o seu coreto, cruzeiro e chafariz encontramos diversos edifícios que compunham o conjunto urbano então conhecido como Rossio (e a Igreja Matriz de Santa Maria dos Olivais nas suas traseiras). Um deles é a Casa Viscondessa dos Olivais, mais tarde transformada em asilo para crianças pobres e hoje um jardim de infância.

Praça Afrânio Peixoto – Esta deve ser a praça mais desconhecida desta lista. Situada no Areeiro, é uma praça-jardim junto à linha do comboio, mas acaba por ser um lugar escondido. Os prédios à sua volta estão dispostos em forma de U invertido e todos têm vista para um lago protegido por árvores. Por um deles ser a casa da tia, conheço o lugar desde pequena e se em tempos idos era mal frequentado e perigoso depois do entardecer, hoje é um luxo podermos sentar numa das cadeiras que acompanham as mesas e aí fazer um piquenique à beira da água.

Tratado das Coisas da China, de Frei Gaspar da Cruz

Frei Gaspar da Cruz foi um missionário dominicano pioneiro nas viagens pela Ásia do Sueste. Em 1556 viajou para Cantão, sul da China, com a missão de evangelizar a “multidão de almas perdidas com a ignorância da verdade”. E como “estas gentes têm muitas coisas muito dignas de memória” moveu-se “a dar notícia geral”, tendo então escrito uma narrativa de viagem, o Tratado das Coisas da China, que veio a revelar-se uma das melhores fontes europeias do século XVI e desempenharia um papel importante na construção da visão da China na Europa da época.

O frade dominicano andou por Goa, Ceilão, Malaca e Camboja. Desapontado por ter aqui encontrado algumas dificuldades na conversão das suas gentes, decidiu partir para o sul da China, mais especificamente Cantão. Pode não ter tido muito sucesso na sua missionação, mas acabou por entrar e permanecer na história como o primeiro a fazer editar na Europa uma narrativa dedicada exclusivamente à China. Este Tratado das Coisas da China, impresso em 1569-1570, foi mesmo editado antes da (mais famosa) obra de Fernão Mendes Pinto e só não teve distribuição mais alargada na Europa por ter sido editado apenas em português.

A ideia de publicar esta narrativa tem muito a ver com uma ideologia da expansão, profundamente ligada ao projecto de missionação, o qual possuía não só o apoio real, como era parte integrante dos descobrimentos e da expansão portuguesa. Não estranha, assim, que no prólogo da obra de Frei Gaspar da Cruz sejam louvados os descobrimentos “por meio dos quais Deus por seus servos tem convertidas novamente muitas gentes à fé, e vai convertendo e converterá”, desde “os brasis e os de toda a costa de Guiné”, Sofala e Moçambique, Ormuz, Índia, Ceilão, Japão, Maluco, Timor e Java. Pese embora todo este sucesso, devidamente exaltado, faltaria a China: “os chinas a todos excedem em multidão de gente, em grandeza de reino, em excelência de polícia e governo, e em abundância de possessões e riquezas, e porque estas gentes têm muitas coisas muito dignas de memória me movi a dar notícia geral”. Mas apesar de tanta grandeza, o frei acrescenta o compadecimento que deve merecer “tanta multidão de almas perdidas com a ignorância da verdade, pedindo a Deus que dilate a sua santa fé católica nesta gente como na demais, tirando-a de sua ignorância e cegueira em que vivem idolatrando”.

A invenção da imprensa levava pouco mais de um século e nos finais do século XVI as obras relativas às aventuras portuguesas além-mar começavam a despertar o interesse num conjunto de leitores. Por outro lado, desde a Antiguidade que o Oriente alimentava as fantasias dos europeus como lugar exótico e, ainda que a China não fosse muito conhecida, era mítica, misteriosa e fascinante. Lugar de lendas. Nesta época não eram muitos os contactos com a China e embora os portugueses estivessem instalados em Macau, no mesmo delta do Rio das Pérolas onde se situa também a Cantão para onde o frade foi pregar, faziam-no sem autorização legal por parte dos chineses. Ou seja, a visão da China estava condicionada pela que havia sido dada por Marco Polo. A tal visão que suscitava encantamento e admiração aos europeus. E, por isso, no prólogo Frei Gaspar da Cruz refere saber que “os curiosos acharão muitas coisas que folgarão de ler”.

Esta obra aborda, assim, primeiro a China em geral, da gente e da terra, depois em particular, do reino e das províncias. Mais, seus edifícios e embarcações, aproveitamento das terras e ocupações dos homens, trajos dos homens e das mulheres, usos e costumes, dos que regem a terra e do governo dela e, por fim, cultos e adorações.

A China Ming da época vem tratada pelo Frei como um império modelo, talvez porque tivesse presente que a vida no Portugal de então era inferior à realidade chinesa. Os tempos Ming foram tempos de uma cultura literata e de alguma prosperidade, muito derivada ao comércio marítimo internacional, uma vez que os Ming foram contemporâneos da expansão europeia na Ásia. Mas os Ming seguiam uma política de auto-isolamento. A este propósito escreve o Frei que “mas vendo el-rei da China que o seu reino se ia desbaratando e arriscando por se quererem estender a senhorear outras muitas terras de fora, se tornou a recolher com suas gentes só em seu reino, com fazer édito público que sob pena de morte nenhum seu natural navegasse para fora da China”.

Já se sabe, o objectivo de Frei Gaspar da Cruz na China era o de fazer a cristandade. Encontrou, todavia, dificuldades, tal como as havia encontrado no Sueste Asiático. Tal se devia ao facto não só de os portugueses não poderem aí permanecer por tempo indeterminado, como por os mandarins, ou loutiás, como a eles se refere o Frei, subjugarem o povo e não permitirem nenhuma novidade. Por outro lado, os sacerdotes eram vistos de alguma forma como gente ociosa, aborrecida e desestimada pelos chineses, uma vez que não desenvolviam actividades produtivas. Mas Frei Gaspar da Cruz bastas vezes mostra a sua admiração pelo modelo de valores que era a China que visitava, designadamente, a sua riqueza, abundância, igualdade, justiça e tolerância, e destaca igualmente o seu apreço por esta ideologia do trabalho. Os chineses dão relevância à obra do homem, considerando o trabalho um valor essencial, sendo “a gente ociosa nesta terra muito aborrecida e mui odiosa aos demais”.

Na sua exposição descreve a geografia e a história dos reinos que compunham a China, a grandeza da terra, a maravilha das suas construções, como pontes, estradas, ruas e casas, o aproveitamento geral da terra, usos e costumes, a religião e a justiça. Descreve, até, as gentes com quem confina a China. Os “mogores”, “gente esta mui belicosa, pelejam com frechas e arcos a cavalo, usam de couraças e capacetes e terçados”, os “tártaros”, as tribos semi-nómadas da Ásia Central que ameaçavam a China, “gente vermelha commumente e não alva, andam nus da cinta para cima, comem carne crua e untam os corpos com o sangue dela. Pelo que commumente são fedorentos e têm mau cheiro”, e que “chamam os chinas a estes tatos, porque não podem pronunciar esta letra r”.

Já os chineses foram pelo Frei considerados feios. “Ainda que os chinas commumente sejam feios, tendo olhos pequenos e rostos e narizes esmagados, e sejam desbravados, com uns camelinos nas maçãs da barba, todavia se acham alguns que têm os rostos mui bem feitos e proporcionados, com olhos grandes, barbas bem postas, narizes bem feitos. Mas destes são muito poucos, e pode ser que sejam de outras nações nos tempos antigos entremetidas nos chinas, em tempos que eles comunicava diversas gentes”.

Quanto à geografia da própria China, diz ser a mesma constituída por treze províncias e cada uma delas ter “uma cidade mui grande e populosa e mui nobre em edifícios por cabeça”, ou seja, por capital. “Cantão é uma entre muitas menos nobres da China, e muito somemos em edifícios que outras muitas, ainda que mais populosa que muitas. Isto dito por todos soque a viram e andaram pela terra dentro, onde viram outras muitas”. O Frei baseia-se aqui nas suas fontes, nomeadamente Galiote Pereira e outros informadores. Apesar de não ter estado em Pequim, a grande capital está sempre presente no seu relato enquanto projecção aumentada das informações sobre Cantão. Se esta cidade menor é tão cheia de grandeza, riqueza e maravilhas, como serão as outras e sobretudo a imensa Pequim? Da grandeza da cidade de Pequim diz “que um cavalo de andadura apenas a atravessa dos muros adentro de sol a sol”.

Compara Cantão com Lisboa, capital do seu reino, ao afirmar que “as ruas da cidade todas são lançadas à linha mui direitas, sem nenhuma qualidade fazerem lombo nem tortura. As ruas principais são algumas mais largas que a Rua Nova dos Mercadores de Lisboa aos Ferros”. Mais, “têm as ruas principais arcos triunfais que as atravessam, altos e mui bem feitos, os quais fazem as ruas muito formosas e enobrecem a cidade”. Quanto aos materiais usados nas casas, “confesso em verdade que nunca vi madeira tão linda como aquela”, as telhas “melhores e de mais duração que as nossas”.

O deslumbre continua. “Estas pontes são a principal praça das cidades, onde se vendem todas as coisas de comer. O que é de maravilhar da China, é haver muitas pontes por toda a China em lugares despovoados, e não serem de menos custo e obra que as que estão ao longo das cidades, antes são todas custosas e mui bem obradas”.

A circulação fluvial na China de quinhentos era intensa. As grandes cidades estavam situadas nas margens dos férteis rios, os quais permitiam ainda uma fácil mobilidade. “Quase todas as cidades estão fundadas ao longo de rios”; “há imensidade de navios e embarcações”; “tem muita multidão de ilhas ao longo da costa, mas muito grande costa pela qual se navega”; “toda a China por dentro se navega e toda se corre por rios que a talham toda e regam, que são muitos e muito grandes. De maneira que até aos fins do reino se pode navegar e ir em embarcações”; “é tão grande a multidão de navios que é coisa maravilhosa vê-los”. Frei Gaspar da Cruz regista ainda o facto de as embarcações servirem de casas para muita gente pobre. Descreve as sampanas e diz que “ali criam o seu porquinho, sua galinha, e ali têm também sua pobrezinha horta, e ali têm toda sua pobreza e agasalhado”.

Acerca do aproveitamento da terra e ocupações dos homens, refere ser a “China terra quase toda mui bem aproveitada” e que “faz ajuda muito a isto ser a gente ociosa nesta terra muito aborrecida e mui odiosa aos demais, e quem o não trabalhar não no comerá, porque commumente não há quem dê esmola a pobre”. “Daqui vem que toda a terra que na China pode dar qualquer género de fruta recebendo semente é aproveitada […] semeiam arroz, e dão algumas destas várzeas duas e três novidades no ano”. Para além de que, diz acerca dos ofícios e mercadores, “há nesta terra de todos os ofícios muita quantidade de oficiais, e muita abundância de todas as coisas para o uso comum necessárias”. Caso diferente do que aconteceria em Portugal, o que o leva a registar que “de maneira que os ricos e os muito pobres podem todos andar calçados”.

É neste ponto que, após constatar a abundância de ourives de ouro e de prata, latoeiros, ferreiros e muitos mais ofícios donde são geradas abundantes e prefeitas coisas, bem como uma multidão de mercadores de peças e panos de seda, Frei Gaspar da Cruz fala da porcelana. A mitologia acerca do seu fabrico e da sua produção perdurou até muito tarde. Marco Polo havia já referido a porcelana e ajudado a criar o mito. Apenas com Frei Gaspar da Cruz a situação mudou de figura e a ideia de serem as porcelanas feitas de cascas de ovo, conchas de molusco e terra foi desmistificada. Este descreve, assim, quer o seu material, quer o seu modo de produção.

O Frei foi também o primeiro na Europa a pormenorizar as excelências do chá e as suas qualidades. Diz-nos ser a oferta desta bebida um ritual de hospitalidade. Esta infusão começou a ser mencionada em escritos portugueses a partir de 1548, no entanto Frei Gaspar da Cruz foi um dos primeiros a reproduzir o seu nome, chá, exactamente.

Diz ainda gostarem os chineses de conviver à mesa e que esta é farta, tendo a terra muita fartura e muita abundância de todas as coisas necessárias para comer e remediar a vida, destacando o arroz e o trigo, a carne e o peixe, e as frutas e as hortaliças, mas também as rãs e a carne de cão “feitos em quartos, assados e cozidos e crus, e com as cabacinhas peladas e com suas orelhas, porque os pelam todos como leitões. É manjar que come a gente baixa, e vendem-se vivos pela cidade em gaiolas”.

Refere ser o cumprimento comum dizer-se um ao outro “chifã mesão”, qualquer coisa como “comeste ou não, que todo seu bem nesta vida se resolve em comer”, acrescenta.

Frei Gaspar da Cruz descreve ainda as festas chinesas, nomeadamente a festa da primavera e do ano novo chinês e a comemoração dos dias de seus nascimentos. A descrição desta última faz crer que no Portugal de então não seria habitual a comemoração com festas dos aniversários.

No que respeita às mulheres, em particular aos seus pés pequenos, o Frei foi o primeiro na Europa a referir-se a esta característica: “desde meninas lhes apertam muito os pés com panos, para que fiquem os pés muito pequenos, e fazem-no porque têm os chinas por mais gentis mulheres as que têm os narizes e os pés pequenos. Isto todavia se usa na gente lustrosa, e não na muito baixa”.

O sistema de ensino e o método da escrita chinesa causaram, igualmente, admiração. O Tratado do Frei contém, inclusivamente, algumas expressões e palavras, como a palavra cha ou os títulos de vários oficiais. Diz haver na China “muita diferença de linguagens, pelas quais uns a outros na fala não se entendem, entendendo-se por escritura”. “Não têm os chinas letras certas no escrever, porque tudo o que escrevem é por figuras, e fazem letras por parte, pelo que têm muito grande multidão de letras, significando cada uma coisa por uma letra. De maneira que uma só letra lhes significa “céu”, e outra “terra”, e outra “homem”. Esta é a causa porque em toda a China há muitas línguas, de maneira que uma se não entende à outra por fala, nem os cauchins-chinas se entendem com os chinas, nem os japões com os mesmos chinas se entendem por palavra, e todos se entendem por escritura”. “Disse-lhe que me fizesse as letras todas do a.b.c., e respondeu-me que não podia logo assim fazê-las, que eram mais de cinco mil”.

Em relação aos mandarins, isto é, aos altos funcionários chineses, surpreendentemente Frei Gaspar da Cruz nunca usa esta palavra. Opta antes pelo termo “louthia” para os designar ou usa “os que regem a terra”. O Frei foi o primeiro europeu a descrever o dragão imperial, tradicionalmente usado como insígnia imperial. Assim como nos referiu o sombreiro amarelo usado pelas mais altas dignidades.

Por fim, é nos dada uma breve relação das principais crenças chinesas, ainda que sem grandes novidades, uma vez que os padres da Companhia de Jesus já o haviam feito uns anos antes. Refere divindades como o céu, o culto aos antepassados, o budismo e o taoismo.

Apesar da esmagadora maioria de notas laudatórias acerca da China, no que respeita às suas práticas religiosas a censura é evidente: “pelo que, não terem os chinas conhecimento de um Deus, é bastante argumento para mostrar que os chinas não têm estudos de filosofia natural, nem se dão à contemplação das coisas naturais”; mais, “adoram também estas gentes o diabo”; e ainda, “quão polida é esta gente no regimento e governo da terra e no comum trato, tão bestial é em suas gentilidades, no tratamento de seus deuses e idolatrias”.

Tudo isto para chegar à conclusão do quão difícil seria ter sucesso nos seus intentos de converter os chineses à cristandade. Todavia, sucesso completo em mostrar em primeira mão aos europeus do século XVI e até hoje a todo o mundo do século XXI, a China quinhentista sob o ponto de vista geográfico, político-governamental, cultural e religioso, seu território e suas gentes. Uma China que era então imaginada mas não conhecida.

Lisboa em Pinturas

Lisboa é linda. Sempre o foi.

Muitos pintores a retrataram ao longo dos séculos, mas aqui fica uma viagem pela cidade e seus motivos durante o século XX, com dois bónus fora desse tempo.

Alfredo Keil, Vista de Lisboa desde o Ginjal, finais do século XIX
Francis Smith Lisboa, Alfama, 1920
Sarah Afonso, Varina, 1924
Mário Eloy, Bailarico no Bairro, 1936
João Hogan, Casario de Lisboa, 1952
Abel Manta, Praça de Camões, 1954
Nikias Skapinakis, Pátios de Lisboa, 1956
Mário Cesariny, Vista sobre Lisboa, 1958
Carlos Botelho, Colinas de Lisboa, 1969
Maria Helena Vieira da Silva, A Poesia está na Rua, 1974
Maluda, Lisboa, 1988
Rui Carruço, Bairro Alto, 2018

Jardim Amália Rodrigues

Acima do miradouro do Alto do Parque, desde 1996 temos mais um jardim na cidade, o Jardim do Alto do Parque, renomeado Jardim Amália Rodrigues após a morte da fadista.

Criação do arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Teles, a ideia é que este jardim seja parte da ligação entre o Parque Eduardo VII e Monsanto, o célebre Corredor Verde de Lisboa. Tudo aqui é tão bem pensado e melhor executado, de uma delicadeza tal (como a que, aliás, se observa no seu vizinho Jardim Gulbenkian, igualmente projecto de Ribeiro Teles), que custa a crer que tenhamos passado tanto tempo sem ele.

À entrada do enorme anfiteatro aberto ao vale do Parque Eduardo VII e Avenida da Liberdade, recebe-nos “Maternidade”, a escultura de Fernado Botero. A maior bandeira de Portugal por vezes também está por aqui hasteada, mas devo confessar que não fez grande falta que esvoaçasse ao vento interrompendo a vista desafogada.

Para lá desta encosta chegamos a um lago circular com a esplanada Linha de Água numa das suas margens. Enquanto uns, bem postos, se limitam a um café ou um gelado numa das cadeiras, os mais atrevidos não resistem a uma banhoca nos dias mais quentes. Ao redor do lago temos uma ampla zona relvada, quer totalmente exposta ao sol quer com zonas de sombra. Os mais conhecedores perceberão a diversidade das espécies arbóreas.

Mais acima, no ponto mais alto do Jardim, no designado miradouro, encontramos a escultura “O Segredo”, de Lagoa Henriques, duas meninas segredando ao ouvido uma da outra enquanto o mega edifício do Corte Inglês as observa. Do lado contrário, o restaurante Eleven, com estrela Michelin. E nas traseiras, o longo edifício do Palácio da Justiça, por onde segue o Corredor Verde de Lisboa. Tudo elementos de uma modernidade que continua o seu rumo nesta zona da cidade maioritariamente de bom gosto (riscar o que não interessa, por exemplo, caixote do Corte Inglês).