7 Lagoas do Xertelo (Poços Verdes do Sobroso)

Na estrondosa freguesia do Cabril, em Montalegre, fica a povoação do Xertelo, a mais de 700 metros de altitude. Esta é uma região montanhosa, com penedos e fragas de granito de um cinzento cintilante. O caminho até à aldeia é, pois, fantástico.

Xertelo tem um topónimo esquisito, mas facilmente explicável. Deriva de “desertelo”, diminutivo de deserto. E, bom, não abundando a população por aqui e dado o clima adverso de montanha é mais ou menos disso que se trata, de um deserto de pedra. Um daqueles que vale a pena visitar pelo cenário grandioso. Especialmente em dias de calor, vale ainda mais a pena ir em busca de umas lagoas e se elas forem surpreendentes, tanto melhor. As 7 Lagoas do Xertelo, também conhecidas como Poços Verdes do Sobroso, são-no e a caminhada até lá é-o igualmente.

Saindo da aldeia do Xertelo são cerca de 10 quilómetros de caminhada, cerca de 1h e 10m para cada lado. Há um (mau) caminho de terra batida que os jipes da Protecção Civil ou da GNR podem percorrer, estando a estrada vedada aos veículos civis. E há um trilho praticamente plano, seguindo a meia encosta, que nos transporta até ao topo das lagoas. Mas graças à dica do blogue Vagamundos – uma excelente fonte de informação que nos tem dado grandes momentos – não seguimos sempre pela esquerda à saída do cruzeiro do Xertelo e tomámos antes a direita para fazer deste um trilho circular. Ou seja, na ida subimos para pouco depois apanharmos o tal estradão de terra batida e na volta, então, optámos pelo trilho. Com isto tivemos direito a uma paisagem mais diversa e abrangente.

Apesar de o caminho pelo estradão ser mais maçudo e cansativo, com subidas e descidas, a paisagem é brutal. Dominam ao fundo os montes pedregosos da Serra do Gerês, dos mais altos do nosso território, e mesmo ao nosso lado uma série de rochas empilhadas de forma artística provoca a nossa admiração. Adoro cenários rochosos, pelo que este encheu-me as medidas. Para a nossa direita vemos até a Barragem da Paradela e imagino com um imenso sorriso de felicidade que a minha adorada Pitões das Júnias anda para aqueles lados, não muito longe, portanto.

Toda caminhada até às 7 Lagoas é feita a céu aberto, sem qualquer sombra. Tirando o calor não há, porém, dificuldade de maior no percurso.

Ao fim de quase 1 hora percebemos uma lagoa junto a uma ponte e embora esta já seja bem bonita é apenas um aperitivo para o que está para vir. Começamos uma descida e passada uma dezena de minutos vemos, enfim, uma sucessão de lagoas a escorregar pelo vale do rio Cabril abaixo.

A imagem é irreal, uma surpresa absoluta. Vista de cima a cor da água destas piscinas naturais é extremamente apelativa e de uma transparência incrível. Não as contei, para confirmar se seriam mesmo 7, mas já cá em baixo tínhamos praticamente uma em exclusivo para cada grupo de visitantes. Nem o avistar de uma cobrinha de água nos fez demover de um saboroso e refrescante mergulho. Apenas uma dificuldade a apontar: o chão de pedra escorregadio à entrada e saída destas lagoas.

No topo destas lagoas existe um complexo hídrico que abastece várias freguesias de Montalegre e distribui a água para a Barragem da Paradela, para um lado, e para a Barragem de Salamonde, para o outro. Esta estrutura é constituída por mais de 12 quilómetros de túneis que atravessam os maciços graníticos da Serra do Gerês, mas felizmente não estão visíveis, numa boa integração da obra humana com a natureza. Apenas a estrutura imediatamente acima das lagoas desfeia um pouco o ambiente. Mas nada que um novo mergulho na transparência não faça esquecer. Dá para saltar de alguma altura e nadar umas quantas braçadas, uma vez que algumas das lagoas são não apenas fundas como largas.

Na volta, como já se disse, seguimos pelo trilho à quota da meia encosta. O caminho aproveita as pedras para ser bem perceptível e é agora mais divertido. A vista desta vez cai para o vale, mas ainda assim segue também junto a algumas rochas formosas. O cenário continua imenso. E a conclusão definitiva: este é um dos percursos pedestres mais incríveis do Gerês.

Cascata de Pincães

No povoado de Pincães, entre Fafião e Cabril, já concelho de Montalegre, a Cascata de Pincães é das cascatas relativamente menos conhecidas do Gerês a que tem o acesso mais fácil.

Estacionado o carro são 1,2 quilómetros para lá e outros tantos para cá, cerca de 20 minutos de caminhada fácil quase sempre ao lado de uma levada. O trilho está protegido pela sombra da vegetação e quando a paisagem se abre o cenário é (mais) uma maravilha. Apenas os últimos (poucos) metros é que subimos por um caminho de pedras.

Já tinha percebido uma enorme fraga à aproximação da povoação de Pincães e vinha percebendo que ela andava por aqui adiante na paisagem, mas só após esta subida vi que era de uma frecha nesta fraga que escorria a água da cascata. Melhor, só diante da belíssima cascata de Pincães é que percebi que naquela manhã da primeira segunda-feira de Julho estava sozinha num recanto que já era soberbo mas que de repente calou as palavras que o pudessem descrever. Sem hesitar, aproveitei a sorte e tirei a roupa sem a trocar por qualquer outra e mergulhei nas frescas águas da lagoa para onde cai a Cascata de Pincães. Só para mim e sem ninguém como testemunha desta fortuna. Só por isso esta será para sempre a mais fantástica e inesquecível das cascatas do Gerês.

Da Cascata do Arado ao Poço Azul

O Poço Azul fica para lá da Cascata do Arado, um dos pontos altos de uma visita ao Gerês. Antes, porém, impõe-se uma paragem no Miradouro das Rocas, por onde se sobre por entre rochas até ao topo de um monte de granito em que chegamos a suspeitar que lá possamos encontrar uma fortaleza. O sítio seria ideal para isso, mas não, é apenas um lugar privilegiado para se perceber a vista larga do vale do rio Arado e da ondulação da Serra do Gerês.

Uma estrada de terra batida leva-nos até à Ponte do Rio Arado, onde à nossa esquerda podemos encontrar a cascata de mesmo nome. Toda esta zona envolvente ao rio, seja para cima da ponte ou para baixo, esconde segredos como lagoas cristalinas que apenas os mais aventureiros descobrem, ainda que por vezes com custos para a sua integridade física.

O trilho que aqui propomos, da Cascata do Arado ao Poço Azul, apesar de não estar oficialmente marcado não é difícil nem perigoso, são cerca de 8 quilómetros (ida e volta) agradavelmente percorridos em 1h 30m para cada lado, com início no parque de estacionamento para lá da Cascata do Arado (mais 2 quilómetros se optarmos por deixar o carro no Miradouro das Rocas). Desde logo a vista é fantástica e antecipa o que iremos viver nas próximas horas.

O cheiro a borrego é intenso e de imediato percebemos o porquê. Por sorte, um rebanho de cabras-monteses vagueava por aqui. Eram mais de 200 exemplares desta raça típica do Gerês, pertencentes a vários proprietários, mais um indício do espírito de comunidade que é ainda uma marca da região.

O caminho segue aberto, custoso em dias de mais calor, mas depois fica mais protegido pela vegetação. A primeira paragem obrigatória é no Curral da Malhadoura. É um lugar recatado, com uma fonte (repare-se a folhinha estrategicamente colocada para a água cair de forma ainda mais idílica) e uma enorme pedra com uma abertura, ideal para um piquenique à sombra. E tem uma casinha, de pedra – pois claro -, abrigo de pastores. Estas casas aninhadas nos penedos, com eles se confundindo, são um mimo e mais uma imagem pitoresca do Gerês.

Seguimos adiante e agora com a companhia de lindas borboletas de diversas cores. A primeira parte do percurso é muito fácil, por um estradão recto com um ou outro cruzamento que pouco engana. Passamos por uma edificação com um prado de cultivo murado, depois por uma moradia escondida na floresta e pouco depois iremos começar a descer até uma ponte sobre o rio do Conho. Aqui já há espaço para uma banhoca, mas não paramos. Nem a descida nem a posterior subida que nos faz atravessar o rio são especialmente difíceis ou cansativas. E mesmo que as pernas tremam um pouco após a subida, é bom guardar uma boa porção de ar para suspirar pela enorme paisagem do alto do vale. São belíssimas vistas para os penedos e fragas da Serra do Gerês, umas infinitas e outras mais próximas.

Tomamos a esquerda no trilho ao aviso de umas mariolas e agora seguiremos sempre a direito num caminho ora de terra ora de pedras, que continua sem ser difícil quer técnica quer fisicamente, bastando atenção para não tropeçar. Continuamos protegidos pelo arvoredo e vamos em direcção a um penhasco imenso. Começam a aparecer umas rochas enormes, deixando-nos curiosos pelo que poderão esconder. E começam a aparecer umas poças pequenas.

O Poço Azul está um pouco mais adiante.

Lindo. Bem encaixado na paisagem, a sua água é transparente e cristalina. Talvez mais para o verde, mas sem dúvida colorido.

Neste momento já só apetece mergulhar, e nem precisa de ser do alto da pedra onde por vezes (com mais água no rio) escorre uma pequena cascata. Mergulhamos, enfim. Mesmo sem estar à sombra, a água do Poço é gelada. Cai mesmo bem e é retemperadora. Deixamo-nos ficar, espraiados na natureza bruta. Só não se pense que o faremos sozinhos, afinal de contas é difícil guardar os bons segredos. Ainda assim, demoramo-nos e só depois empreendemos o mesmo delicioso caminho de volta.

Mata da Albergaria – Portela do Homem

Este é um percurso pedestre circular com início e fim no parque de estacionamento da Portela do Homem, junto à fronteira com Espanha. Para entrar de carro na Mata da Albergaria, um dos bosques mais fantásticos do Gerês, repositório da fauna e flora do Parque, há que pagar 1,5 euros, mas vale bem a pena. Melhor do que isso só mesmo embrenharmo-nos pela Mata a pé.

São cerca de 4,3 quilómetros desde o estacionamento, passando por frondosa vegetação ao longo do rio Homem, lagoas e cascatas, incluindo a célebre Portela do Homem, pontes e até uma antiga estrada romana, menos de duas horas de passeio, incluindo paragem e mergulho nas lagoas.

Apesar de não estar marcado, é fácil perceber o trilho. Um aviso, porém. Este é um dos lugares mais pressionados pelo excesso de visitantes, por isso há que respeitar as regras do Parque e em especial da Mata se queremos preservar o seu ecossistema e voltar a visitá-lo repetidas vezes.

Começámos por nos deixar envolver no bosque de carvalhal secular. Mesmo nos dias de sol e calor intenso não damos por eles, tal é a protecção das exuberantes copas das árvores. Este caminho coincide em parte com o que era a Geira, a antiga estrada romana que ligava Braga a Astorga. Diversos marcos miliários bem preservados testemunham-no. Imaginar que os exércitos romanos passaram por aqui há mais de 2 milénios e puderam ter esta beleza montanhosa cheia de piscinas naturais só para eles.

A verdade é que com sorte também nos pode tocar essa felicidade. Por exemplo, passei por um ribeiro com uma lagoa e perguntei-me porque estaria vazia. Mais adiante, após uma ponte robusta, um género de fenda com outra lagoa encostada a uma parede rochosa tinha apenas um par de indivíduos. E aqui com o bónus de um enquadramento paisagístico fabuloso feito dos penedos da montanhosa Gerês como pano de fundo.

Mais adiante ainda, após um breve desvio para outra ponte, o cenário aquático é ainda mais fantástico e uma concorrência à altura da protagonista Portela do Homem. É uma sucessão de lagoas cristalinas, conhecidas como Lagoas da Mata da Albergaria, cada uma mais bonita do que a outra. Aqui já tinha mais gente mas, imagine-se, dias depois, quando a mana aqui passou, apanhou-as completamente vazias durante largas dezenas de minutos, tal como imaginei que apenas os soldados romanos o pudessem ter feito.

Logo a seguir invertemos caminho e passamos a seguir pela estrada de asfalto. Não há que lamentar, porém, não apenas porque o trânsito não é muito, mas também porque a estrada é lindíssima e igualmente protegida pela mesmíssima vegetação frondosa.

A Cascata da Portela do Homem, avistada desde a ponte, está cheia de gente. O acesso à lagoa e base da cascata, exclusivamente pelo lado esquerdo (pelo direito estava vedado), não é fácil e ainda estou para saber como é que pessoas mais velhas e outras com filhos de colo chegam lá abaixo. Talvez sejam essas que vêm nas notícias do dia seguinte, relatando os costumeiros acidentes nas cascatas do Gerês. Também não é fácil, já com os pés na água, percorrer as pedras escorregadias que nos fazem mergulhar na lagoa para onde jorra aquela que é das cascatas mais cénicas do Parque. Está compreendido o porquê do risco.

Parque Nacional Peneda-Gerês

O Parque Nacional Peneda-Gerês, criado em 1971 – a fazer 50 anos neste ano -, foi a primeira área protegida de Portugal e ainda hoje é o nosso único Parque Nacional. É enorme, quer em área quer em diversidade. Em territórios das antigas províncias do Minho e de Trás-os-Montes, abrange as serras da Peneda e do Gerês, sim, mas também as serras Amarela e do Soajo. Por aqui fica o segundo ponto mais alto do nosso território continental, o Pico da Nevosa, instalado a 1546m de altitude.

O Gerês, como carinhosamente nos referimos a toda esta realidade, possui uma riqueza única ao nível do património natural e cultural. Dominam serras, mas também rios, vales e cascatas. Campos de cultivo e pastagens. Vacas barrosãs, cavalos garranos e cabras-monteses. Homens que há muitos milénios para aqui vieram, desafiando o isolamento e as condições hostis da montanha deixaram-nos vestígios de antas, de castros, da geira (estrada romana) e de castelos. Ainda hoje perduram aldeias comunitárias e ideias como a branda e a inverneira, resquícios da transumância. A terra foi moldada em socalcos e os espigueiros são apenas mais um elemento que testemunha a ruralidade do Gerês.

Podemos demorarmo-nos indefinidamente a percorrer toda esta realidade e a tentar descobrir os seus segredos. Para isso, carro próprio é essencial. No entanto, embora não tivéssemos resistido a espreitar o miradouro da Pedra Bela (por mais voltas que se dê continua rei do Gerês e a estrada que nos transporta até lá rainha), desta vez optámos por nos dedicar às caminhadas, modo de chegar a lugares que de outra forma não podem ser conhecidos. Não se pense, porém, que assim se evitam as pessoas. Afinal de contas, o Gerês já não é segredo para quase ninguém.

Em posts seguintes andaremos, assim, pela Mata da Albergaria, Poço Azul, Cascata de Pincães, Cascata de Cela Cavalos e 7 Lagoas do Xertelo. Todos estes lugares possuem em comum piscinas naturais, pelo que num dia mais quente a sua natureza luxuriante será melhor aproveitada. Uma dica: em pleno Verão o calor poderá ser demasiado e a quantidade de água menor, pelo que os meses de Maio e Junho, após a época das chuvas, serão os melhores para se visitar este Gerês.

Parque Ribeirinho Oriente

O Parque Ribeirinho Oriente, na Doca do Poço Bispo, é o mais recente espaço verde de Lisboa, inaugurado em Fevereiro de 2020. Amante de jardins e de rios, este seria sempre um lugar a visitar, mas dá-se o caso de ser sua vizinha e de ter testemunhado a evolução da sua gestação, nascimento e crescimento em pleno confinamento pandémico. Resultado? Entrou imediatamente para a lista dos meus preferidos. Merecidamente, diga-se.

A Matinha (Matinha, Poço Bispo, Braço de Prata: tudo nomes para designar praticamente um mesmo lugar em Marvila em que apenas os locais parecem saber a diferença) é uma antiga zona industrial, decadente nas últimas décadas mas que hoje vem emergindo com a revitalização dos seus armazéns e espaço público. Nos últimos anos tem vindo a ser finalmente construída a nova urbanização de Braço de Prata, parece que agora definitivamente denominada Prata Riverside Village, um projecto do arquitecto Renzo Piano. E é diante si, apenas separada por uma ciclovia de mão dupla, que se espraia este novo Parque, por enquanto apenas 600 metros desde a Doca do Poço Bispo até à direcção dos gasómetros da Matinha, mas espera-se que dentro de poucos anos seja estendido até à Marina do Parque das Nações, num total de 1,5 quilómetros de frente de rio devolvida aos lisboetas.

O enquadramento paisagístico do lugar, totalmente aberto ao Tejo, é fantástico, sobretudo num daqueles dias luminosos em que a água do rio faz de espelho. E, depois, o projecto executado tem uma qualidade à altura, precioso nos seus detalhes que o integram na perfeição com a zona.

Por enquanto, permanecem armazéns em ruína e o pontão abandonado e ferrugento (e perigoso), e até vestígios de embarcações a boiar, para nos lembrarmos do passado recente. Escasseia já a imagem dos pescadores no pontão, mas a pesca desportiva é permitida ao longo de toda a restante frente ribeirinha. E, entretanto, para além da ciclovia que atravessa o Parque juntamente com caminhos para se correr ou passear por entre as recém plantadas árvores como pinheiros mansos, freixos, oliveiras e sobreiros, foi construído um parque infantil, diversos apoios e mobiliário urbano.

Projecto das arquitectas paisagistas Filipa Cardoso de Menezes e Catarina Assis Pacheco, do atelier F | C, os seus detalhes são perfeitos, já se disse. O parque para os miúdos está instalado na areia e é uma estrutura para trepar feita de troncos e redes de cabos de aço que se levantam e entrecruzam, aludindo à imagem dos mastros dos barcos e das redes de pesca que eram presença no rio.

Os apoios do parque, como wc, cafetarias, aluguer de bicicletas e biblioteca, estão todos instalados em contentores marítimos reconvertidos para o efeito, mais uma alusão à memória do lugar.

A escolha do mobiliário urbano não poderia seguir caminho diferente, e olhando para os candeeiros em aço do Parque facilmente somos transportados para o seu passado industrial.

Já os bancos de madeira à beira rio, em especial as espreguiçadeiras, foram desenhados para que pudéssemos ter um momento em que não pensássemos em nada, nem passado, presente ou futuro, só o agora, debaixo do sol com a companhia da brisa do rio.

Caminhando pela nova frente ribeirinha, vemos ao fundo o paquete Funchal, há anos ali ancorado, e uma pequena língua de areia junto ao pontão. Uma praia, portanto. A zona convida a um mergulho e posso garantir que é bem salgado.

O rio é um personagem magnético, custa tirar os olhos dele, mas por uma vez há que fazer um esforço e olhar para o chão. O pavimento do Parque tem aqui e ali umas gravuras de aves como a garça-real, a cegonha e o pato-real, remetendo para a ideia (deliciosa) da sombra destas espécies da avifauna local. Natureza, história, cultura e arte, que mais poderíamos pedir a um jardim?

10 Lugares Abandonados em Portugal

Na Aldeia da avó, onde passámos verões intermináveis, havia um edifício por concluir e abandonado mesmo no adro da igreja, lugar central para todas as brincadeiras. Betão à vista, rectângulos a preparar as janelas que nunca o vieram a ser, chão do primeiro andar apenas com algumas tábuas de madeira, este era um lugar não apenas perigoso como assustador para qualquer criança. Esconderijo perfeito e vencedor no jogo das escondidas, porque se alguém ali se arriscasse esconder ninguém o ousaria buscar. Dito isto, raras vezes lá entrámos, mas muitas o espreitámos e até hoje juramos a pé juntos ter visto fantasmas a vaguear pelos cómodos não construídos da casa. Perigo e susto, de mãos dadas, dá mistério e imaginação.

Este era um lugar sem graça, mas foi provavelmente a semente que germinou o meu interesse por lugares abandonados. Podem ser aldeias inteiras, ruas, complexos ou edifícios (deixamos de fora deste texto os inúmeros castelos e vilas muralhadas espalhadas por Portugal, por mais óbvios). Deixados à sua sorte e ao correr dos tempos, exemplos da impermanência das coisas e da vida, são muitas das vezes espaços mágicos onde a curiosidade nos move para descobrir a história e as histórias de quem por eles passou. São memórias do que ficou para trás, outros tempos, outras vidas, outras necessidades. Lugares ideais para deixar a imaginação fluir e, quem sabe, sermos nós próprios parte das histórias. Mas muitas das vezes, também, é com lamento que nos indignamos e não chegamos a compreender como foi possível chegar-se a um determinado estado de degradação. São, pois, sentimentos diversos e até contraditórios os que se experimentam ao descobrir e visitar os espaços abandonados: curiosidade e espanto, encanto e horror.

Em alguns dos lugares abandonados, a Natureza encarregou-se de os devorar, apropriando-se deles e cobrindo-os com as suas ramagens feitas garras. Noutros, é o próprio Homem que os volta a tomar para si de uma forma criativa e transformadora, dando-lhes uma nova e inesperada vida.

Eis alguns exemplos de lugares abandonados, de norte a sul de Portugal, incluindo ilhas.

– este solar em Vila Boa de Quires, Marco de Canaveses, mais conhecido por “Obras do Fidalgo”, nunca foi terminado mas está, ainda assim, classificado como Imóvel de Interesse Público. Apreciado apenas o corpo principal da sua longa fachada percebe-se o porquê: a monumentalidade e até requinte são evidentes mesmo em forma de ruína. Por entre o esqueleto da pedra envelhecida vemos claramente a brilhante decoração em estilo rocaille e barroco. A construção deste palácio terá começado entre 1740 e 1760 e terá sido interrompida por morte do autor do projecto. Aqui pode dizer-se à vontade que a Casa Inacabada de Vila Boa de Quires é só fachada.

– a aldeia mágica de Drave, concelho de Arouca, é uma aldeia escondida nos montes graníticos e xistosos da Serra da Freita. Com referências já desde o século XIV, no ano de 2000 perdeu o seu último habitante, sem que nunca lá tivesse chegado a electricidade. Fica a 4 quilómetros de distância a pé da povoação mais próxima, Regoufe. As casas de xisto construídas em patamares nas encostas entrecortadas pela Ribeira de Palhais foram deixadas aos elementos e em ruína constituem hoje um lugar absurdamente pleno de ambiente cénico.

– as Minas de Rio de Frades são um dos vários complexos industriais, neste caso mineiro, espalhados pelo país que testemunham um tempo que já lá vai. Igualmente situadas no concelho de Arouca e em plena Serra da Freita, a exploração de volfrâmio e de estanho teve aqui o seu início em 1915. Nos anos 20 foi fundada a Companhia Mineira do Norte de Portugal, com capitais alemães, e durante a II Grande Guerra Mundial a actividade na Mina foi intensa, correspondendo ao esforço de guerra com a exportação do material para a Alemanha (como curiosidade diga-se que as Minas de Regoufe, não muito longe daqui, eram exploradas pelos ingleses). As antigas instalações mineiras estão hoje abandonadas e em ruínas, espalhadas ao longo do vale do rio de Frades. O que resta das paredes deste núcleo – que não sei a que corresponderia -, completamente imerso na vegetação, permite-nos perceber alguma da dimensão e ambiente do lugar. Algures por aqui há até uma galeria que pode ser atravessada e onde à saída nos espera uma queda de água.

– o Palácio Conde de Farrobo, na ruralidade com ares de serra de Vila Franca de Xira, é um edifício residencial em estilo neoclássico construído no século XIX. O 1° Conde de Farrobo, que tinha também palacetes em Lisboa (Palácio Quintela e Palácio e Jardins do Conde de Farrobo, onde se encontra instalado o Jardim Zoológico), construiu aqui o seu refúgio fora da grande cidade. Tinha uma enorme quinta onde produzia vinho, organizava caçadas e grandes festas para a alta sociedade lisboeta – havia até um pequeno teatro que, crê-se, seria uma réplica do São Carlos. A partir de 1874 seria vendido em hasta pública sucessivas vezes, a primeira delas para pagar as dívidas dos Condes, e em 1957 acabaria por ser doado à Caritas Diocesana de Lisboa. Pilhado e vandalizado, hoje é uma ruína propriedade da Misericórdia de Vila Franca de Xira.

– a Igreja e Convento do Carmo, em Lisboa, é um dos lugares com mais atmosfera da cidade. E é uma ruína. Construído em 1389, a mando do Condestável D. Nuno Álvares Pereira, fica na colina fronteira à colina onde reina o Castelo de São Jorge. Era grandioso e monumental e ainda hoje, quando observarmos Lisboa desde o Castelo, lá surge a sua inconfundível igreja em destaque. O Terramoto de 1755 e posterior incêndio foram arrasadores e embora se tenha tentado a sua reconstrução, a extinção das ordens religiosas em 1834 e o gosto romântico da época pela ruínas e antigos monumentos medievais levou à decisão da sua manutenção no estado em que estava. Assim, hoje entramos na Igreja do Carmo, com a forma de cruz latina, e logo ficamos debaixo de céu aberto onde os arcos sustentados pelas enormes colunas nos transportam para séculos atrás e nos fazem imaginar como faz sentido o passar dos tempos. O Museu Arqueológico do Carmo está aqui instalado desde 1864.

– o Panorâmico de Monsanto, em Lisboa, foi construído em 1968. Por ocasião dos seus 50 anos o jornal Expresso apodou-o de ovni e a verdade é que a sua estrutura, projectada pelo arquitecto Carlos Oldemiro Franco Chaves Costa, não anda muito longe da forma com que imaginamos os veículos daqueles seres de outros planetas. Construído para ser um restaurante numa colina do Parque Florestal de Monsanto, lugar absolutamente rodeado de vegetação, acabou por funcionar poucos anos como tal, embora sempre se tivessem pensado em projectos grandiosos para este edifício circular com 5 pisos e uma vista de quase 360° sobre Lisboa. Foi discoteca, bingo, lugar de eventos. Depois de anos abandonado e esventrado o seu interior, mal frequentado até, o Panorâmico reabriu em 2017 como miradouro oficial de Lisboa. A vista é fabulosa. E deambular pelo Panorâmico, vendo lado a lado os painéis decorativos originais juntamente com os graffitis contemporâneos, ao mesmo tempo que nos perdemos pelas divisões escuras até darmos com a escadaria luminosa que hoje já não é suportada por paredes, é igualmente mágico.

– a Ponte de Nossa Senhora da Ajuda, foi construída sobre o rio Guadiana em 1520 como ligação entre Elvas e Olivença e era uma ponte fortificada da qual restam vestígios da sua torre e alguns arcos. As 8 arcadas na margem direita e as 5 da margem esquerda já não estão ligadas, a não ser com um imenso pulo na nossa imaginação. Imaginação esta que nos permite até ver um cavalo na ruína da antiga torre da ponte. Destruída pela artilharia espanhola em 1709, nunca mais foi recuperada e é hoje uma das ruínas com mais ambiente no nosso país.

– o Convento de Nossa Senhora do Desterro, em Monchique, está também rodeado de vegetação. A versão oficial é que foi mandado construir em 1631 por Pero Silva, um vice-rei da Índia, para lugar de uma ordem franciscana. A lenda conta-nos que foi mandado construir por dois marinheiros que perdidos e em perigo no mar prometeram construir um templo dedicado a Nossa Senhora na primeira terra que avistassem. Mas nem Nossa Senhora acabou por valer ao seu próprio Convento e o Terramoto de 1755 e a extinção das ordens religiosas atirou-o para o abandono e ruína. O claustro está ocupado com galinhas e a igreja com um altar que parece ter sido decorado por uma turma do pré-escolar. Abstraindo-nos destes dois factores, e se não pensarmos que o que resta do tecto e da fachada pode cair-nos em cima a qualquer momento, esta ruína possui ainda um certo ambiente espiritual.

– a Vivenda Vitória, em Olhão, é um palacete construído em 1918 num estilo revivalista neo-gótico. Mesmo à beira da estrada, chama a atenção a sua torre em forma cónica e os inúmeros graffitis que enchem toda a sua fachada. Deve ser o palacete mais colorido do nosso país. Diz que a Câmara Municipal de Olhão prometeu para aqui um centro de artes, mas até agora o que fez foi entregar o espaço ao artista Sen e seus amigos que em 2014 limparam o entulho do palacete abandonado e lhe deram uma nova imagem.

– o Hotel Monte Palace, em São Miguel, tinha uma das vistas mais desejadas de todo o arquipélago dos Açores. O lugar ainda a tem, mas já não é hotel. Construído na Vista do Rei, sobre a Lagoa das Sete Cidades, foi inaugurado em 1989 mas pouco tempo esteve aberto, por falta de clientes. Abandonado, manteve um segurança no local até 2010 mas desde aí todos os micaelenses e visitantes da ilha parecem fazer questão de aqui vir – e alguns deles foram pilhando e graffitando os 5 pisos do antigo hotel. O que se mantém são as formas e as vistas magníficas desde os quartos, ainda que permaneçam apenas as suas paredes. Talvez esta seja a única oportunidade para muitos de nós de ficar numa suite de hotel 5 estrelas com uma das vistas mais incríveis de todo o mundo.

Por Mora

Mora é um concelho do Alentejo Central com apenas 4 freguesias (Cabeção, Mora, Pavia e Brotas), cada uma delas com algo para conhecer que nos deixa de boca aberta de surpresa.

Em post anterior escrevemos sobre o Parque Ecológico do Gameiro, na freguesia de Cabeção, onde num mesmo espaço podemos visitar o Fluviário de Mora (um aquário público dedicado aos ecossistemas de água doce), nadar na praia fluvial do Gameiro, caminhar por passadiços ao longo da ribeira de Raia e por um trilho numa zona de montado, sistema florestal tipicamente alentejano. Pura beleza natural.

Mora, sede de concelho, fica numa planície, ou não estivéssemos no Alentejo. O caminho até lá é sereno, com campos a perder de vista e as cores a variar conforme as estações do ano – as destas fotos são do Outono. Fundada pela Ordem de Avis, o nome da vila derivará de uma antiga herdade conhecida como “cabeço de mora” que ficaria numa parte mais elevada, acreditando-se que a partir daí se terá desenvolvido a povoação. O seu casario é tipicamente alentejano, com os edifícios brancos com listas amarelas. Na praça central da vila encontramos a Torre do Relógio (antigos Paços do Concelho) frente a frente com a Igreja da Misericórdia, ambos os edifícios do séculos XVI, embora tenham sofrido alterações posteriores.

Não deixamos Mora sem apreciar a vista do seu miradouro, junto ao Bairro da Misericórdia. É irrecusável o convite para nos sentarmos numa das suas cadeirinhas com vista privilegiada para a planície que faz ainda parte da bacia hidrográfica do Tejo, sabendo que para ali algures há de estar a nascente do Sorraia.

Almoçámos (muito bem) na Tasca do Gigante, petiscos vários partilhados onde não faltou a macia carne de porco preto e as obrigatórias migas.

Não visitámos o Museu do Megalitismo, mas a caminho de Pavia, num pequeno desvio na estrada, demos de caras com o Cromeleque do Monte das Fontainhas Velhas. Crê-se que este monumento megalítico, um de muitos da região, tenha sido levantado entre o 4° e o 3º milénio a.C. Dispostos de forma circular, restam 6 monólitos de granito de grão grosseiro e forma almendrada, quase se assemelhando a uns dedos das mãos, seguindo o protótipo do Cromeleque dos Almendres, em Évora.

Pavia é mais vila do que Mora. Aliás, um dito antigo dizia que “não se deve estar em Mora nem uma hora, em Cabeção nem um serão e em Pavia nem um dia”. Sede de concelho desde 1287 e 1838, o antigo edifício dos paços do concelho deu entretanto lugar à sede de freguesia. Mais uma vez, a praça central tem as características do nosso imaginário de povoação alentejana, não faltando a igreja e até o coreto.

Mas a grande atracção de Pavia encontramo-la logo à entrada, com a imagem da sua Anta-Capela. Este é mais um exemplo do megalitismo da região – o primeiro monumento megalítico referenciado na bibliografia histórica, já no século XVI – e um dos mais formosos e curiosos. A anta acabou por ser reutilizada como espaço cristão no século XVII e é hoje a Capela de São Dinis, com entrada de um lado, onde foi erguido até um campanário, e a rocha dólmen do outro.

Percorridas as ruazinhas da vila, ao fundo temos outra surpresa arquitectónica. À aproximação da Igreja Matriz de Pavia, também conhecida como Igreja de São Paulo, a sua fachada principal tem um ar bonito como todas as da região, mas comum. Já a sua fachada lateral é diferente do que estamos acostumados a ver e é surpreendente. Construída no século XVI no interior do que era o então paço fortificado dos Condes do Redondo, a sua arquitectura em arcadas toma precisamente a ideia dos antigos templos fortalezas. Parece quase um castelo com as suas torres cónicas. O seu estilo é uma amálgama entre o tardo-gótico, o manuelino, o mudejar e o barroco e está, claro, classificada como Monumento Nacional.

Depois de apreciarmos a paisagem pacata ao redor de Pavia desde o seu miradouro retornámos a Mora para desta vez seguirmos para Brotas, a freguesia que faltava neste passeio pelo concelho. Havíamos passado por aqui sem pararmos para uma visita aquando da nossa jornada pela EN2. Brotas fica mesmo à beira da nossa mítica estrada, cortada por ela, até – centro histórico de um lado (Aldeia Velha), núcleo urbano mais recente do outro (Monte de Cima), fonte ali mesmo ao esticar de uma mão desde a janela do carro. Esta é a povoação mais bonita de todo o concelho e, sem favor algum, uma das mais bonitas do Alentejo.

A história de Brotas enquanto lugar está intimamente ligada ao culto de Nossa Senhora de Brotas, iniciado no século XV. Até aí não existia o povoado de Brotas, apenas o lugar de Brotas da Barroca, uma cova inabitável cercada de ribanceiras. Foi quando, diz a lenda, um pastor deixou que a sua vaca caísse nessa cova e morresse. Sem a sua única fonte de sustento, rogou à Virgem protecção e esta, aparecendo-lhe, disse-lhe para ir pedir aos moradores da vila das Águias – a povoação até então – para ali na cova construírem uma capela. Assim o fez e da pata da vaca uma imagem da Virgem surgiu, enquanto a vaca ali pastava de novo inteira e viva. Construída a ermida no lugar pedido e a imagem da Nossa Senhora de Brotas passou a ser venerada desde então, com constantes peregrinações àquele que é hoje conhecido como o Santuário de Nossa Senhora de Brotas. Com isso a povoação da vila das Águias foi-se mudando para aqui até ser abandonada, transferindo-se o concelho das Águias para as Brotas em 1834 (hoje também já perdido desta para Mora).

A Barroca de Nossa Senhora de Brotas transformou-se no corredor de casas edificadas no século XVII que nos transporta até à Igreja. Estas casas pitorescas com frisos azuis – é o azul e já não o amarelo que domina Brotas – pertenciam a diversas confrarias e eram utilizadas para albergar os peregrinos em visitava ao Santuário. Na fachada de algumas delas vemos painéis de azulejo com imagens alusivas à lenda de Nossa Senhora de Brotas. A igreja, em estilo popular, manuelino e barroco, aguarda-nos então no final deste corredor.

Para lá do Monte de Cima, a aldeia nova de Brotas, fica a última surpresa do dia, rematando na perfeição a jornada. Não se deixe enganar: os portões da herdade privada estão lá, mas é só empurrá-los e seguir uns 2 quilómetros pela estrada de terra batida que leva até ao fantástico Monumento Nacional que é a Torre das Águias.

Situada na antiga povoação das Águias, terá sido construída no século XVI por um guarda-mor do rei D. Manuel I, sendo utilizada para repouso dos fidalgos entre caçadas. Esta torre senhorial residencial com ar de fortaleza resistiu ao Grande Terramoto de 1755, mas no século XIX entrou num estado de degradação que se tem vindo a agravar. É, pois, de um lugar em ruína que se trata, e um daqueles dignos de constar de qualquer lista dos melhores lugares abandonados. O ambiente proporcionado pela enorme torre – 20 metros, em estilo manuelino, encimada por seis coruchéus cónicos – e das construções que a rodeiam, incluindo a Ermida de São Sebastião e os campos envolventes, é incrível e faz-nos sentir uns Indiana Jones a explorar o lugar.

Não será totalmente seguro, pelo perigo de derrocada, mas podemos entrar e perceber os antigos salões do solar apalaçado de 4 pisos. Diz que dá (ou já deu) para ir até ao terraço, mas nem sequer tentámos. A vista e o ambiente que aqui sentimos já é suficiente para tornar esta uma experiência inesquecível.

Parque Ecológico do Gameiro

Na freguesia de Cabeção, em Mora, junto ao seu Fluviário, fica um dos lugares mais recolhidos e tranquilos para se fazer uma caminhada fácil e acessível para toda a família. E caso nem todos os membros da família queiram ou possam caminhar por cerca de 2 horas podem sempre aguardar os demais descansando no areal da praia fluvial do Gameiro, mergulhando nas águas da ribeira de Raia ou desfrutando de uma das várias infra-estruturas do Parque Ecológico do Gameiro.

No verão passado experimentámos a relaxante água da ribeira e escondemos-nos do sol debaixo de uma das idílicas sombrinhas mesmo à sua beira. O sol forte do Alentejo não era então propício a esta caminhada de cerca de 5,5 quilómetros (mais 1 quilómetro com desvio até à torre de observação) pela zona ribeirinha e pela zona do montado do Gameiro. Voltámos agora e, mesmo sem novo mergulho, o passeio encheu-nos as medidas.

O Parque Ecológico do Gameiro foi inaugurado em 2012 e, Fluviário de Mora à parte, a sua grande atracção são os 1,5 quilómetros de passadiços de madeira ao longo da ribeira de Raia. No entanto, podemos continuar por mais um bom bocado junto ao rio, ora envolvidos pelo bosque ripícola ora a céu aberto, antes de empreendermos o caminho de volta mas dessa vez pela zona do montado. Chamam-lhe “Percurso da Natureza” e é disso mesmo que se trata, de um ambiente absolutamente natural onde a acção do Homem é discreta e consegue acrescentar ainda mais beleza ao lugar.

Começámos, então, este nosso passeio por uma jogatana de pingue-pongue com os pés descalços na areia, imaginado que melhor só mesmo tê-los de molho na ribeira. As águas estavam barrentas, mas os reflexos da vegetação na Raia estavam, ainda assim, absurdamente incríveis.

O percurso pelos passadiços é um prazer delicioso, um daqueles em que o mínimo de esforço nos oferece um retorno máximo. A paisagem é serena, com a água e a vegetação numa parceria de sucesso. Pelo caminho vamos encontrando painéis informativos com indicação dos peixes (barbo-comum, perca sol, boga, bordalo) e das aves (garça-branca, garça-real, corvo-marinho, corvo-real, guarda-rios) autóctones, mas também da flora (sobretudo salgueiros e choupos, mas também pinheiros).

O açude do Gameiro vai ficando para trás, mas as cores e os reflexos mantém-se grandes.

A dado momento podemos desviar até à torre de observação, cerca de 400 metros para cada lado, numa das duas únicas subidas dignas desse nome de todo o percurso. Mas vale a pena pelo panorama diferente, altaneiro e por isso mais abrangente, da paisagem alentejana quase a perder de vista.

Há quem não aprecie passadiços, por os considerar intrusivos do meio ambiente natural, mas estes parecem muitíssimo bem integrados, corredores longos que não perturbam a natureza nem nos distraem do essencial.

No final dos passadiços continuamos o caminho por um trilho junto ao rio, desta vez por um curto bosque que nos vai dando umas abertas para as águas castanhas da Raia onde até uns cactos de tamanho generoso têm lugar.

A paisagem abre-se por altura do que é considerada a Pista de Pesca, vêem-se efectivamente uma série de pescadores, e uns metros adiante abandonamos as margens da ribeira para subir (a segunda e última do percurso) em direcção à zona do montado.

A paisagem não é menos bonita. E é sobretudo típica. Estamos verdadeiramente no Alentejo e aqui sentimo-lo bem. O montado é um ecossistema florestal que permite a coexistência de áreas de cultivo e pastoreio juntamente com a preservação dos habitats. Este é um montado de sobro e de azinho, sendo o sobreiro e a azinheira espécies de carvalhos. A cortiça do sobreiro é um símbolo de Portugal e a madeira rija e resistente da azinheira é muito procurada para diversas construções, desde vigas a embarcações ou até barris para envelhecimento de vinhos. Ambas dão como fruto a bolota, servindo esta de alimento para o porco de montanheira, também conhecido como porco preto alentejano – não encontramos porcos mas vimos muito gado bovino. Para além disso, estes montados são dos habitats mais ricos em biodiversidade, acolhendo centenas de espécies de aves que aqui vêm para nidificar.

E, claro, não nos livramos dos clichés pelo que temos de rematar dizendo que descansar à sombra de um chaparro é uma actividade a não perder. Alentejo puro.

Trilho no wikiloc

Seixal

O reclame “Seixal, uma baía no coração do Tejo” não é propaganda. Por mais voltas que se dê, a grande atracção da região é a baía e é ela que sempre levaremos na memória numa visita ao Seixal.

A sua marginal ribeirinha é enorme, cerca de 14 kms de pura paisagem. Este conjunto de braços de mar fica em pleno Estuário do Tejo, um lugar que abriga diversos ecossistemas e rico em biodiversidade e, para nós leigos, sobretudo precioso pela sua beleza natural paisagística.

As comunidades que ao longo dos tempos se foram estabelecendo no Seixal tiveram desde sempre uma forte ligação com o rio e, se em tempos idos dependiam dele para a sua sobrevivência, hoje parecem depender dele para o seu lazer. Desde os passeios de barco pelo rio (em embarcações típicas que outrora faziam o transporte de mercadorias entre as margens do Tejo) a actividades náuticas de recreio várias, a azáfama junto ao rio continua.

O topónimo “seixal” derivará da grande quantidade de seixos que aqui existia, os quais terão servido na construção das embarcações. A ocupação humana do lugar data pelo menos da época romana, como o atestam os sítios arqueológicos da Olaria Romana da Quinta do Rouxinol, em Corroios, e da Quinta de São João, na Arrentela. Sempre ligada ao mar, era então uma terra de pescadores e rural, produtora de cereais, vinho e fruta, para além do peixe. Com os Descobrimentos a sua bela localização geográfica tornou-se ainda mais estratégica, um lugar favorável ao transporte fluvial donde se escoavam os produtos para a capital e daí para qualquer outro lado. A indústria naval proliferou, o aproveitamento das marés passou a ser utilizado com a construção de moinhos de maré (entre muitos que chegaram aos nossos dias, destaque para o de Corroios) e quintas senhoriais e fábricas instalaram-se aqui. Mais tarde, já no século XX, a Siderurgia Nacional e a construção da ponte sobre o Tejo viriam a transformar definitivamente o Seixal num lugar industrial, deixando a sua faceta rural e passando a ser um pólo urbano, periferia de Lisboa, até.

Cingindo-nos apenas à povoação do Seixal, hoje cidade, iniciamos este passeio por uma visita a uma das tais quintas senhorias, a Quinta da Fidalga.

A chegar ao centro do Seixal, na avenida ribeirinha, encontramos esta quinta que terá origem no século XV. Crê-se que Paulo da Gama, irmão de Vasco da Gama, tenha sido seu proprietário numa altura em que para aqui veio para acompanhar a construção de caravelas num estaleiro local. Depois disso o lugar passou para a propriedade da família Gama Lobo, servidores régios, e o Terramoto de 1755 terá destruído parte da quinta que acabou por ser restaurada. Um salto grande no tempo diz-nos que no século XX Salazar vinha aqui amiúde como visita dos seus proprietários e que em meados da década de 50 o arquitecto Raul Lino foi o responsável por um novo projecto para a casa, capela e jardim.

Hoje a Quinta da Fidalga é propriedade da Câmara Municipal do Seixal e está aberta a todos aqueles que desejem um passeio pela história, sentindo o ambiente das antigas quintas agrícolas e de recreio. O edifício principal, correspondente ao palacete, está muito bonito na sua fachada cuidada, mas não conhecemos o seu interior. Seguimos, sim, pelos jardins de buxo, com fonte no meio, um miradouro num patamar superior com vista para o Tejo e um corredor em latada que nos leva até ao lago de maré – este último talvez seja o elemento mais surpreendente da propriedade, com a sua água alimentada pela subida da maré e com duas casas de fresco, uma de cada lado, a embelezar ainda mais o cenário que serviu de momentos de sociabilização pada os proprietários da quinta e seus convidados.

Pelo meio, diversos apontamentos azulejares bem conservados, uma zona de pomar e mais uma fonte, esta com embrechados. E, cereja no topo do bolo para os amantes da arquitectura contemporânea, o Centro de Artes Manuel Cargaleiro, um projecto de Álvaro Siza Vieira. As linhas rectas deste edifício branco que parece desmultiplicar-se não enganam, é mesmo uma obra do nosso grande arquitecto. E Cargaleiro, artista multifacetado mais conhecido pelas suas obras em cerâmica, é um filho da terra e tem aqui o devido reconhecimento neste espaço municipal.

Outra das quintas históricas do Seixal é a Quinta da Trindade, igualmente junto ao Tejo mas do lado contrário da cidade. Aqui estão instalados diversos serviços da câmara municipal, sendo o acesso condicionado, pelo que acabei por não visitar esta quinta. Com pena, no entanto, uma vez que esta é reconhecida pela sua riqueza azulejar, contando-se no seu espólio cerca de 8000 azulejos com datas entre o século XV e o XX.

Mas o Seixal é também, como já se referiu, rico pelo seu património industrial. Durante quase todo o século XX a Mundet foi central em diversos domínios da vida seixalense, como o urbanístico, económico e social (a este respeito, por exemplo, a Mundet proporcionava creche e serviços de saúde para os seus funcionários e família). A maior empresa corticeira de Portugal encerrou em 1988 mas deixou marcas e hoje a enorme fatia do terreno que ocupava, junto à antiga Quinta dos Franceses onde Cargaleiro passou a sua juventude, tem vindo a ser reinventada de forma a que todos a possamos fruir. Desde logo, dois dos edifícios da antiga fábrica são hoje espaços culturais, um acolhendo a Escola de Música e outro um dos núcleos do Eco-Museu Municipal – preservando e divulgando a memória da antiga fábrica, mantendo-a viva; outro dos edifícios foi adaptado a restaurante; construiu-se um pavilhão desportivo; e o facto da Mundet se desenvolver encosta acima permitiu que parte dos seus antigos terrenos tenham sido reconvertidos no novo Parque Urbano do Seixal.

O Alto Dona Ana é uma pequena elevação que se ergue nas costas do centro histórico do Seixal. Pequena, com não mais de tinta metros acima do mar, mas o suficiente para nos garantir uma vista fabulosa para o largo Estuário do Tejo. Seguindo por entre um pequeno bosque com algumas árvores, por entre caminhos vários e zonas para se estar, este miradouro natural dá-nos uma vista privilegiada para o Barreiro e Amora – povoações imediatamente à direita e à esquerda -, casario do Seixal mesmo debaixo do nosso olhar, Ponta dos Corvos logo à frente, Almada mais adiante e, parecendo coladinhos a ela, o Cristo e Rei e as duas torres vermelhas da Ponte 25 de Abril. Segue-se toda a Lisboa espraiada ao longo Tejo. E é precisamente o Tejo, seus contornos e suas manhas, que ficamos a perceber melhor com esta enormíssima perspectiva.

Depois de um bom tempo a apreciar esta beleza, descemos ao centro histórico para passear pelas suas ruas. Edifícios baixos, maioritariamente com dois pisos, este é um aglomerado urbano coeso e coerente que se desenvolveu por duas ou três ruas rectas ao redor da Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

Alguns edifícios são históricos pelas memórias que guardam, como é o caso dos das duas sociedades filarmónicas e do da Associação Náutica do Seixal. Mas é o rio que volta a estar no horizonte. Aliás, em vários prédios encontramos nas suas fachadas modestas painéis de azulejo alusivos a barcos e à pesca.

Como nunca se está distante do Tejo, é para ele que voltamos, caminhando pela frente ribeirinha. Restaurada e cuidada, cheia de esplanadas de cafés e restaurantes, ao longo dela voltamos a apreciar a paisagem, agora acompanhando mais de perto os barcos que por ali passam ou estão ancorados. É uma beleza pitoresca, permitindo que a natureza seja aqui fruída de forma plena.