Cascata da Cabreia e Minas do Braçal

No concelho de Sever do Vouga, junto à aldeia de Silva Escura, fica uma das cascatas mais bonitas de Portugal.

A Cascata da Cabreia cai de uma altura de 25 metros e jorra água a bem jorrar. E isto surpreendeu-me porque nos últimos anos estou farta de ver quedas de água consideradas como das mais altas de Portugal sem água. Exemplos? Faia da Água Alta, onde não vi sequer resquícios de água, e Frecha da Mizarela, onde tive dificuldade em encontrar o fio de água.

A Cabreia não. A Cabreia lá estava frondosa e acolhedora e ainda com o bónus de vir acompanhada de uma piscina natural de água fria mas transparente aos seus pés.

Com um acesso fácil de carro e bonito como é, não admira que este lugar não seja um segredo. Um lugar para se tirar fotos da cara-metade em poses várias e de deixar quaisquer casados de fresco com inveja por não ter terem tido a ideia ou a oportunidade de uma recordação como esta.

O Rio Mau, que se torna Bom ao fim de um tempo, e as rochas são os responsáveis por esta beleza que a geografia da natureza nos dá. Vai daí, a água vem caindo em patamares até que no último deles se precipita com estrondo. Uma densa vegetação acompanha e completa este cenário. Já mais calma a água vai depois correndo por um bosque, por entre pedras e sob pontes de madeira, tendo por vizinhas umas pequenas casas em xisto. Uma outra ideia: que tal trazer uma flor de lótus de modelo para mais fotos absurdamente fantásticas? Já farta de tanta inspiração não tive forças para fotografar o casalinho budista que se fazia acompanhar de parafernália vária para as melhores imagens de todo o sempre.

O parque e praia fluvial da Cabreia tem até um parque de merendas formal para que nada falte a um dia bem passado na Cabreia. As suas tranquilidade e frescura fazem lembrar o que podemos igualmente experimentar na Fraga da Pena, na Mata da Margaraça, em Arganil.

O percurso da Cabreia até às Minas do Braçal parece poder ser feito a pé, mas optei por seguir de carro até aqui. Chegados ao final da aldeia de Folharido há que seguir em frente pela estrada local sem asfalto. Não é necessário um 4×4 e com o devido cuidado um veículo normal sobrevive sem mazelas. A vegetação por aqui continua poderosa. 2 quilómetros depois vemos um edifício que pertencia às Minas da Malhada e logo adiante temos então os edifícios abandonados das Minas do Braçal.

Não há ninguém por aqui, com excepção de mim. Nem cara-metade, nem vestido de noiva, nem sequer uma flor de lótus. É nestes momentos que faz falta seguir com alguém, para que a coragem não falhe e não faça hesitar em continuar a busca de mais um lugar desconhecido.

Já disse que a vegetação por aqui é intensa e sabendo-me sozinha qualquer barulho do vento a bater nas folhas das árvores assusta. Penso sempre que tipo de animal me vai sair de um lugar como este. Mas depois começo a ouvir o barulho da água a correr e ganho novo alento, o de descobrir onde pára o rio. Com cautela, claro, e sem nunca me aproximar de qualquer piso donde possa resvalar. Os edifícios das antigas Minas completamente em ruína e tomados pela natureza começam a aparecer e aí sim lamento verdadeiramente não estar acompanhada para explorar o seu interior esventrado. Não que fosse encontrar algum tesouro que o que havia por aqui para levar já foi levado há muito. É o ambiente de mistério que me fascina.

Crê-se que já na época dos romanos o Braçal tenha tido actividade mineira, mas a exploração oficial das Minas do Braçal teve o seu início em 1836 – a mais antiga concessão mineira portuguesa – e apesar de interregnos nos seus trabalhos só foi definitivamente desactivada em 1959. Aqui se explorava sobretudo chumbo, mas também pequenas quantidades de volfrâmio, zinco e prata, e no seu apogeu chegou a empregar quase 1000 trabalhadores. Situada ao longo do Rio Mau, nem sempre é fácil descobrir o seu caminho de água, uma vez que este afluente do Vouga corre canalizado sob a forma de túneis artificiais em muitas partes. Lá está, ouvia-o mas não era só a vegetação densa que me impedia de o ver. Até que depois de passar por diversas infra-estruturas de apoio à antiga mineração, seguindo o barulho da água por um caminho estreito se encontra uns pequenos degraus. Ao descer temos finalmente o rio à nossa vista. É uma paisagem bucólica, uma leve queda de água junto a um moinho que segue até o perdermos de vista para lá de uma ponte em túnel. Este cenário juntamente com as ruínas da Mina só adensa o seu clima e aura especiais.

Como dificilmente se vem ter às Minas do Braçal por acaso, os amantes de aventura e mistério que os lugares abandonados proporcionam façam o favor de marcar este sítio no seu mapa pessoal.

Do Porto a Espinho, de bicicleta

Saindo a pedalar desde o centro do Porto até Espinho são cerca de 30 agradáveis quilómetros. É aconselhável fazer os percursos de bicicleta em Portugal de norte para sul, de forma a aproveitar o vento favorável a empurrar as nossas costas.

Ultrapassada a azáfama turística da Ribeira, atravessamos a Ponte D. Luís I e aguarda-nos a azáfama turística do Cais de Gaia. Os turistas acumulam-se, seja para ver os miúdos a saltar da Ponte para o rio, seja para entrar numa das provas de vinho das várias Caves, seja para parar numa das bancas de feira com produtos locais. Quanto a mim, desmonto da bicicleta e faço aquilo que mais gosto quando por lá: sento-me em frente ao Douro e aprecio o casario tripeiro do outro lado.

Vila Nova de Gaia tem uma extensa área de ciclovia, quase toda ela ora junto ao rio ora junto ao mar. Depois de passarmos sob a Ponte da Arrábida é a popular Afurada que nos recebe. O maior centro piscatório de Gaia é uma povoação cheia de personalidade. Os seus moradores eram já pescadores e vieram sobretudo de terras um pouco mais a sul, como Espinho, Ovar e Murtosa. A pesca da sardinha é rainha, mas nas grelhas à porta das casas e dos restaurantes encontra-se muito mais peixe. Este é, claro está, um bom sítio para uma paragem para almoço à beira rio.

As casas da Afurada são conhecidas pelo seu revestimento a azulejo e em algumas delas podemos ainda ver mosaicos alusivos ao mar. Mas o mais pitoresco do bairro, e ao mesmo tempo uma viagem no tempo, é o seu Lavadouro público. Um tanque municipal, hoje coberto, onde ainda se vai lavar a roupa e estendê-la a céu aberto, a secar livremente ao vento. Uma senhora cumpria a tradição no momento em que lá passámos, enquanto os curiosos como nós se perdiam por entre aquela colecção de roupa.

Após a Afurada segue-se a Reseva Natural do Estuário do Douro, parte da Rede Nacional das Áreas Protegidas. É o habitat de diversas espécies de aves migratórias e na Baía de São Paio dois postos de observação estão ali ao nosso dispor para melhor as apreciarmos.

A Reserva estende-se até ao Cabedelo, curva onde o Douro encontra o Atlântico. O Cabedelo é uma praia com um longo areal com vista para a Foz, na outra margem do Douro, avistando-se até bem ao longe o novo edifício do Terminal de Cruzeiros de Matosinhos.

E o Cabedelo tem como elementos característicos umas rochas, as Pedras Altas, Pedra do Maroiço ou Pedra de Escorregar. Várias lendas estão associadas a este lugar. Uma delas diz-nos que aqui eram praticados rituais de fecundidade e precisamente na Pedra de Escorregar as moças deixavam-se deslizar até ao chão em busca da fertilidade. Outra lenda conta-nos que uma moura que aqui passeava um dia foi enfeitiçada por uma bruxa que a transformou em sereia, tendo determinado que esse feitiço fosse quebrado apenas quando uma virgem lhe servisse pão e leite; acontece que essa aparição do alto da rocha apenas acontecia de 100 e 100 anos. De qualquer forma, não avistámos a sereia. Mas as rochas, essas, continuam a pontuar as pedras das praias que se sucedem à do Cabedelo, como a dos Lavadores.

O clima nortenho não é dos mais propícios para banhos de sol, mas estas rochas servem bem o propósito de defesa do vento fresco, para além de serem bonitas e darem um ar selvagem à costa.

O percurso de bicicleta segue agora junto ao mar, ao invés do rio. Praia de Salgueiros, Canide, Madalena, dos Tesos (!). Existem certamente, e bem, restrições à construção junto ao mar, mas é evidente a geral simplicidade das habitações nesta zona, com uma ou outra excepção, num claro contraste com o edificado mais a norte, nomeadamente pela Foz e Leça da Palmeira.

Após a praia de Valadares o percurso abandona por momentos a companhia do mar e adentra terra. E aí, junto à estrada, espreitamos aquele que é seguramente um dos quintais de vivendas mais curiosos e divertidos do país. E um orgulho para qualquer sportinguista. Em bonecos de gesso lá estão os jogadores do Sporting, devidamente equipados com as listas verde e brancas, e então dedicamo-nos ao passatempo de tentar descobrir quem é quem.

De volta para junto do Atlântico, a praia de Miramar oferece-nos a Capela do Senhor da Pedra, uma das mais emblemáticas imagens da nossa costa. Erguida num rochedo junto ao mar, talvez em 1886 ou em 1763, ficamos também na dúvida se esta capela está na realidade em terra ou no mar. Lugar de culto e romarias, a maior delas acontece no domingo da Santíssima Trindade e prolonga-se até 3ª feira, em três dias de festa. Na passagem de ano, à meia-noite, também é costume muitos juntarem-se aqui para o primeiro mergulho gélido do ano. E o Senhor da Pedra está também associado a lendas e mitos. Desde aqueles que vinham para aqui agarrados à crença de que os seus amores partidos para o Brasil voltariam um dia para os seus braços, até aquelas mulheres que desejosas de casar iam colocar os seus pés na marca semelhante à pegada de boi que está atrás da capela para que os seus desejos viessem a ser concretizados.

Este é um lugar popular. Junto à praia e seu longo areal temos restaurantes, parque recreativo, bancas de feira e um espaço público generoso para que muitos possam vir para aqui passear. Vê- se de tudo, bicicletas, skates, citadinos, aldeões e até um andino a tocar a sua característica flauta. Parece que esta praia foi eleita há pouco tempo uma das mais bonitas do mundo e, se assim é, então todos merecem vir conhecê-la e aproveitá-la.

A Aguda é a praia e povoação que se segue antes de começarmos a avistar Espinho. Já num controlo estrito da hora de partida do comboio para Lisboa, não espreitámos o mar da Aguda, praia de pescadores com tradição. Mas apreciámos e aprovámos com encanto o conjunto de cinco moradias em banda bem junto à ciclovia.

Poucos minutos mais a pedalar por ruas afastadas da praia e chegamos enfim a Espinho. Todos sabemos que esta cidade é uma conhecida zona balnear do norte e que o Casino a coloca no mapa não apenas do turismo mas também do entretenimento e jogo a nível nacional. Mas menos a conhecerão pela Nova Iorque portuguesa, pelo mero facto de as suas ruas serem também designadas por números.

A Rua 19, por exemplo, é a rua pedonal que liga a praça onde está instalada a câmara municipal local ao mar. A cidade parece agradável e muito movimentada. Apesar de não ter achado grande piada à sua frente de mar (aquela grua junto ao molhe norte não ajudou), deixámo-nos ficar por aqui a saborear um gelado no fim desta jornada fácil e prazerosa.

(É possível viajar em Portugal de comboio no Intercidades sem necessidade de desmontar a bicicleta. Em cada carruagem existem dois lugares específicos para a deixar)

De bicicleta de Santa Catarina à Boa Nova, passando pela Foz

Já que estávamos com a bicicleta no Porto, com o objectivo de na volta pedalar daí até Espinho, aproveitámos para no dia anterior nos deslocarmos na cidade também através desse modo suave. E a verdade é que da Rua de Santa Catarina é possível seguir até à Praia da Boa Nova, em Leça da Palmeira, sempre em terreno plano junto ao rio / mar e daí voltar igualmente sem esforço e atravessar o Parque da Cidade, visitar Serralves e a Casa da Música e chegar sãs e salvas à casa partida.

Descendo pela Avenida dos Aliados e seus edifícios de decoração elegante, deixamos a Estação de São Bento e seus deliciosos azulejos para trás e num ápice estamos cá em baixo junto ao Palácio da Bolsa e à Igreja de São Francisco. A partir daqui é sempre a pedalar com a água por companhia. A água do Douro que nos transporta pela Alfândega, Miragaia, Massarelos, Ponte da Arrábida e Cantareira até chegarmos à Foz e passarmos a ter a água do Atlântico como companheira.

E a partir do Jardim do Calém, onde fica o Observatório de Aves do Rio Douro, temos já uma ciclovia ao nosso dispor até à entrada do concelho de Matosinhos.

A Cantareira é um excelente aperitivo da Foz. Terra do Chico Fininho, o freak da Cantareira, é uma antiga zona portuária onde não é preciso entrar no rio para se pescar. Mas, claro, são os barcos que dominam a bela paisagem aberta ao Douro e ao Atlântico, porque a pesca tradicional ainda tem aqui raízes, bem como a reparação de barcos e redes. Do outro lado fica a Afurada, sua parceira piscatória.

O Jardim do Passeio Alegre é muito bonito, com as suas frondosas palmeiras a chamarem a atenção, mas vale a pena passar dentro do jardim e ver as suas esculturas e chafariz.

E já com o muito fotografado Farolim das Felgueiras ali à mão de semear começam então a suceder-se as famosas e concorridas praias da rica Foz (Ourigo, Ingleses e Luz). Ramalho Ortigão, autor de “As Praias de Portugal”, não é esquecido e uma placa lembra-nos que a Foz é a “residência querida da minha (sua) infância”.

Seguimos no caminho sempre plano, ideal para nos concentramos ora na paisagem natural do mar ora nos elementos criados pelo Homem e bem cuidados, como a octogenária Pérgola da Foz e os jardins do Homem do Leme e Montevideo. Não faltam sequer uns assentos artísticos para melhor contemplarmos o cenário.

Mas eis que chegamos ao Castelo do Queijo e num repente se instala uma furiosa neblina. Mal se viam os muitos surfistas ali na Praia de Matosinhos, a gigante Anémona só demos por ela por que a rasámos e o novo edifício do Terminal de Cruzeiros perdeu-se na totalidade naquele nevoeiro cerrado. Pudemos, no entanto, pisar as areias desta praia, típica pela sua paisagem industrial das infra-estruturas do Porto de Leixões. E observar compungidas a Escultura Tragédia no Mar. Esta é uma homenagem aos 152 pescadores, e suas viúvas e órfãos, que perderam a vida no maior naufrágio da costa portuguesa, que aconteceu nesta região em 1947.

E já que estávamos em Matosinhos pela hora do almoço, nada melhor do que uma paragem num dos seus muitos restaurantes na rua junto à Docapesca. Peixe fresco e doses generosas é o que nos espera.

Atravessado o Rio Leça chegamos a Leça da Palmeira.

A Avenida Marginal de Leça tem o traço de Álvaro Siza Vieira, um projecto de 2005. Zona pedonal por excelência, onde as pessoas e bicicletas se confundem numa área larga, por ela afora temos o prazer de visitar ou rever dois dos primeiros projectos de Siza, a Piscina das Marés (1966) e a Casa de Chá da Boa Nova (1963), ambos classificados como Monumento Nacional.

O complexo da Piscina das Marés funciona de acordo com a época balnear. Fora desta época a entrada não é paga, o bar mantém-se aberto, mas não há vigilância dos banhos das duas piscinas e de mar. As piscinas são de água salgada e confundem-se com as rochas à beira mar, numa integração preciosa com a paisagem natural. O próprio acesso ao espaço desde a Avenida não forma nenhuma ruptura com a vista do horizonte, já que é feito por uma rampa que nos deixa junto ao nível dos vestiários, das piscinas e do mar.

A conexão plena entre arquitectura e natureza é igualmente soberba no projecto da Casa de Chá da Boa Nova e o desígnio de Siza de “construir na paisagem” terá tido aqui o seu maior alcance. Tendo crescido na zona e sendo esta bastante familiar ao arquitecto, Siza integrou de forma majestosa o edifício na vegetação e nas formações rochosas aí existentes, tendo igualmente analisado o clima e as marés locais. Chá e neblina condizem, mas o restaurante Boa Nova que o chef Rui Paula dirige desde 2014 e que o levou a alcançar uma Estrela Michelin também não destoa nada do ambiente. O edifício foi recuperado e o mobiliário interior reproduzido conforme os originais desenhados pelo próprio Siza. Desta vez não entrámos, mas não é necessário fazê-lo para perceber que as salas de refeições estão envolvidas nas rochas e apenas o suficientemente enterradas nelas para que deixe as vistas de janelas livres para contemplar o mar. Podemos percorrer as rochas no exterior para melhor apreciar os planos da implantação deste edifício, mesmo se isso implique alguma intromissão nas refeições e trabalho de quem está no interior. Os preciosos detalhes deste projecto, à semelhança do da Piscina das Marés, estão igualmente no acesso ao edifício. A ele chegamos discretamente depois de atravessado um pequeno parque de estacionamento e ao subir dois patamares de escadas e só aí nos apercebemos da obra-prima: uma casa branca com telhado de madeira que quase beija as rochas. Um momento de delicadeza junto a uma paisagem bravia.

A envolvente da Casa de Chá são as rochas e o mar, já se disse. Mas próximos temos ainda a Capela da Boa Nova e o Farol da Boa Nova, uma estrutura de 46 metros que faz deste o segundo maior farol da nossa costa.

Chegadas a este ponto, a Praia da Boa Nova, Matosinhos continua por aí adiante, mas estava na hora de regressar ao Porto. Desta vez já não pela Foz e natureza marítima e fluvial, mas antes por aquela criada pelo Homem. O Parque da Cidade e os Jardins de Serralves são momentos de recato no Porto. A Casa da Arquitectura, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves e a Casa da Música são ícones de um novo Porto moderno.

Anish Kapoor no Parque de Serralves

A desculpa para voltarmos a Serralves foi a ocupação dos seus jardins por Anish Kapoor. À boleia aproveitámos ainda para ver a exposição “A Colecção Sonnabend: meio século de arte europeia e americana. Parte II” e as Fotografias de Robert Mapplethorpe. Sobre a polémica destas últimas direi apenas que a fotografia de Jeff Koons com a sua (ex) Cicciolina, parte da exposição da Colecção Sonnabend, é tão forte e explícita como as de Mapplethorpe.

Prosseguindo com Kapoor, a exposição do artista indo-britânico é um excelente pretexto para um passeio pelo Parque de Serralves. Certo que uma das salas do Museu está também ocupada com maquetas das suas obras, daí que a designação da exposição seja “Anish Kapoor: Obras, Pensamentos, Experiências”. Mas é pelos 18 hectares dos jardins do parque que estão espalhadas quatro das suas obras escultóricas.

Logo à entrada de Serralves apresenta-se-nos a obra “Corpo seccional preparando-se para uma singularidade monádica”. Seja lá o que isso for. E observando o enorme cubo vermelho e preto com um buraco no meio não se fica a perceber muito mais (será uma vagina? De assexuada é que a Fundação não pode ser acusada). Mas a estética e o contraste das sua cores vivas com o verde da relva do jardim e o branco do museu está muito bem conseguida. Aliás, Kapoor assume mesmo que a localização desta obra foi propositada para haver um diálogo com o edifício projectado por Álvaro Siza Vieira.

Seguimos pela Alameda dos Liquidâmbares, passando pela Colher de Jardineiro que se tornou uma das imagem de marca de Serralves, obra de nome “Plantoir” de Claes Oldenburg e Coosje van Bruggen. Mas esta é apenas uma das várias esculturas com casa no Parque.

E em breve chegamos à Casa de Serralves, um dos melhores exemplos de arquitectura art déco no nosso país. Obra do arquitecto José Marques da Silva, foi concluída em 1940 a mando do 2º Conde de Vizela que mais tarde alienou a propriedade ao Conde de Riba de Ave. Daí que os vizinhos de Serralves ainda a conheçam como a Casa do Conde. Esta era, pois, uma propriedade privada e burguesa. O 2º Conde de Vizela havia herdado a Quinta do Lordelo e ficado com a Quinta do Mata Sete por permuta, as quais juntamente com os jardins da Casa de Serralves e o Museu de Arte Contemporânea (1996) formam hoje a totalidade do Parque. A história da Fundação de Serralves entra por aqui adentro quando após 1974 a cidade do Porto começa a sentir imprescindível a criação de um espaço onde se expusesse a arte da época e desse voz à cena artística local. O Estado português adquiriu assim em 1986 a Casa de Serralves e jardins – elementos inequivocamente modernistas no Porto de então – e quintas envolventes e em 1989 é criada a Fundação. Era no edifício rosa da Casa de Serralves que tinham lugar as exposições da Fundação até à construção do edifício branco de Siza, hoje Museu de Arte Contemporânea, inaugurado em 1999.

Ou seja, o que temos hoje em Serralves, parque e museu, é no fundo um compromisso do Estado com a sociedade e da paisagem com o património.

Voltando ao passeio pelo Parque, o belíssimo jardim formal que se estende pela Casa abaixo é um projecto do arquitecto Jacques Gréber. Em patamares, rematado por uma fonte, tudo aqui é perfeito e bem cuidado. Mais um exemplo da harmonia do Parque.

Mais abaixo, ligado por uma escadaria, surgem os jardins românticos, um lago, bosques e uma extensa quinta com um prado que acolhe uma horta pedagógica. A diversidade arbórea e arbustiva é enorme, com cerca de 8000 espécies presentes, entre autóctones e exóticas.

É nesta zona mais baixa do Parque, por entre o lago, a vegetação cerrada e o prado, que descobrimos outra obra de Kapoor. “Linguagem das Aves”, feita este ano especialmente para Serralves, quase que passava despercebida. Tirando partido da também variedade de espécies de aves, esta escultura é como que um pedestal que serve de posto para chamar e falar com os pássaros. Esta forma escultórica foi inspirada no minarete da Grande Mesquita de Samarra, no Iraque – Anish Kapoor é filho de mãe judia iraquiana e de pai hindu – e a ideia de chamamento de pássaros nas memórias de um chamador de corvos na sua Índia natal.

Percorrendo mais uma parte de densa vegetação vamos ter ao edifício do Museu. Mais uma brilhante integração de património edificado com a paisagem natural da autoria de Siza. Nestes mantos verdes ajardinados espreitamos para as salas de exposição, abertas deliberadamente ao exterior pelos largos cortes das janelas.

E aqui perto fica o belo Roseiral e a sua elegante Pérgola. Pela sua colunata somos transportados até ao Jardim do Relógio Sol.

É aqui que encontramos a nossa terceira obra de Kapoor, “Espelho do Céu”. É um espelho côncavo em aço inoxidável que reflecte tudo à sua volta. O tudo à sua volta é maioritariamente a natureza, as árvores e o céu, um passarinho que por ali voe. Ou um avião. Ou as pessoas que por aqui deambulem ou se sentem num dos bancos deste jardim.

Kapoor quis expor esta obra num espaço mais intimista e agradou-lhe que este espaço estivesse rodeado de árvores e, assim, o espelho como que pudesse ser visto como uma pintura. Ou até como se funcionasse como o lago no centro de um jardim que tudo reflecte.

Depois deste momento de simplicidade de ideias, gestos e recursos, faltava-nos descobrir a quarta e última obra de Kapoor. Seria aquela que mais deu que falar nas notícias, por um visitante nela ter caído. “Descida para o Limbo”, de 1992, é um pequeno pavilhão instalado na Clareira das Azinheiras, paredes meias com parque de estacionamento interior do edifício do Museu. Temos de mostrar a nossa identificação à entrada e assinar um termo de responsabilidade para entrar no dito pavilhão. Kapoor propõe-se aqui a falar sobre o nada. E nada, a não ser um buraco, é o que nos espera no interior deste pavilhão. Um buraco assustador que não dá vontade de espreitar de perto. Dá vontade, sim, de tentar perceber a uma certa distância se este buraco é mesmo um buraco ou apenas um círculo pintado no chão. O tal visitante das notícias provou que é mesmo um buraco. E então outro desafio se coloca: este buraco está pintado de preto? Ou é um azul tão intenso que parece preto? A ideia aqui é discutir-se as várias percepções e o vazio e a possibilidade de um vazio ser ao mesmo tempo um não-espaço e um espaço infinito.

Ai, a arte contemporânea. Fosse tudo tão simples como as flores, os cabedais e as pilas do Mapplethorpe. Ainda bem que as suas fotografias também estavam mesmo ali ao lado em exposição.

Plaka e a Vénus de Milos

Plaka é a capital de Milos, uma charmosa vila interior donde não se chega a perder o mar de vista.

Chegámos a correr a Plaka mesmo a tempo de ver o pôr-do-sol. Este é um local privilegiado para assistir a este momento, uma vez que a vila está construída na subida de um monte. Ainda assim, nesse fim de tarde e noite pudemos comprovar que o seu casario é típico das Cíclades, casas brancas com portas, janelas e varandas coloridas e ruas estreitas e labirínticas ocupadas por belas lojas e saborosos restaurantes. Tudo está decorado de forma simples mas certeira, com flores um pouco por todo o lado, fazendo desta a vila mais mimosa de Milos.

Plaka, cujo significado é “pedra lisa”, foi-se desenvolvendo desde o princípio do século XIX em substituição de um outro povoado que se situava logo acima, entretanto destruído por falta de espaço para abrigar todos os habitantes. Ainda se vêem as ruínas do antigo castelo, o Kastro. Ver o pôr-do-sol desde esta zona é lindíssimo, seja na igreja que o antecede, seja nos muros da antiga fortificação ou no adro de uma outra igreja bem no topo do monte. Já não se esperam piratas no horizonte, antes um mar sereníssimo apenas rompido pelo intenso laranja do sol, mais um daqueles momentos para recordar deste Egeu grandioso.

Mas não é apenas o Golfo de Milos que se alcança do topo do Kastro de Plaka. É antes toda a ilha que está à disposição do abraço do nosso olhar.

Tripiti é uma aldeia a meio caminho de Klima e Plaka. Igualmente pitoresca, foi uma pena temo-la visto de fugida. Toda esta área é rica em história e é a ela que se deve o facto de Milos constar na história da arte. Existem aqui umas importantes catacumbas e um antigo anfiteatro com vista para o mar que chegou a acomodar 7000 pessoas. Mas foi uma descoberta em 1820 por parte de um arqueólogo amador que viria a trazer projecção à ilha: a Vénus de Milo. A escultura de mármore de torso nu da mulher sem braços que hoje faz sucesso no Museu do Louvre, em Paris, é um testemunho da arte clássica helénica e um símbolo desta surpreendente Milos.

Milos, a ilha das vilas piscatórias

Para além das suas belas praias, Milos é senhora de umas encantadoras vilas e aldeias piscatórias.

Pollonia, na costa nordeste da ilha, foi a nossa escolha para pernoita. Pequena baía com areia onde podemos passar um fim de tarde sossegado de praia, a vila tem alojamentos de muito bom gosto e excelentes restaurantes. Não faltam os barquinhos e as igrejas. Ou seja, tem infra-estruturas e cenário, tudo o que o visitante precisa para se sentir recompensado.

O centro desta vila piscatória é praticamente uma rua e já está. Mas se estendermos a nossa curiosidade para além desse centro encontraremos recantos onde impera a serenidade.

Adamas é a vila onde está instalado o principal porto de Milos. A baía é muito bonita e os barcos dão-lhe um ar vivido mas ao mesmo tempo tranquilo. Possui uma pequena praia resguardada, mas é o casario branco com breves apontamentos coloridos que lhe dá o encanto. E Adamas é, à semelhança de Pollonia, uma boa opção, e mais central, para servir de base.

Mas as mais inspiradoras localizações de Milos são as suas pequenas aldeias piscatórias que vivem, literalmente, dentro de água.

É forçado considerar Agios Konstantinos, perto de Pollonia, como uma aldeia. É antes um lugar com menos de uma dezena de casas com porta para a água numa enseada quase fechada. Tão fechada e tão recatada que as senhoras ali ficam à conversa, uma na água a fazer os seus exercícios de caminhada, a outra a descascar batatas à porta de casa quase que com os pés na água.

Também na costa norte fica Firopotamos. Esta aldeia é maior, tem praia, igreja, mais casas, mas o cenário de tranquilidade permanece. Aqui podemos continuar em casa com os pés na água.

Podíamos ter ainda visitado outras destas aldeiazinhas piscatórias, como Mandrakia, Areti e Fourkovouni, mas o tempo acaba por não chegar para tudo.

Indispensável, no entanto, uma visita mais demorada a Klima, o maior exemplo e a mais pitoresca e charmosa de todas estas aldeias piscatórias. Localizada no Golfo de Milos, com a vila altaneira de Tripiti como vigia, as casas coloridas à beira mar estendem-se por uma faixa longa, quase que se confundindo com as rochas onde parecem ter sido escavadas. É nesta aldeia que a concentração de syrmatas é maior.

Syrmata é a casa tradicional dos pescadores, construída praticamente em cima da água, com garagem no piso térreo para barco e casa de família no segundo piso. Em Klima estas casas têm vindo a ser transformadas em lojas e alojamento para turistas, mas nada disso lhe retirou o charme. É uma delícia apreciar os vários coloridos das portas e varandas das casas. Mais delicioso ainda foi assistirmos à velhinha de touca de natação a varrer o curto espaço entre a sua casa e o mar enquanto esperava pela sua companheira para entrar na água. Há vida neste postal.

Milos, a ilha das praias

Milos é uma das muitas ilhas das Cíclades.

Detentora do título de ilha grega com mais (e melhores) praias, cerca de 70, não é no entanto uma das primeiras opções para a generalidade daqueles que se propõem visitar as Cíclades. A verdade é que há quase uma ilha grega por habitante e para cada gosto e a escolha é quase infinita.

Tendo conhecido apenas Santorini e Milos, o balanço é o melhor possível, uma complementando a outra. Desde logo no que ao buzz e à quantidade de pessoas que as visita diz respeito. É uma felicidade constatar que mesmo em Agosto numa ilha como Milos podemos encontrar praias só para nós e em nenhum lugar se sente a pressão turística. É até possível alugar um carro de um dia para o outro em plena temporada alta (e o aluguer de carro é essencial para se percorrer Milos, uma vez que à semelhança de Santorini os táxis são caríssimos e os autocarros ainda menos convenientes).

Uma das razões para que Milos tenha estado até hoje relativamente afastada do radar do turismo de massas é o facto de ter sido considerado por muitas décadas um local industrial. Várias são as minas na ilha, de obsidiana, de perlite e de outros minerais. A obsidiana já era mesmo comercializada no tempo da civilização Minóica, que a transformava depois em armas e lâminas. Ainda hoje se vêem no meio da paisagem algumas dessas minas e parafernália industrial que lhe está associada, mas de forma discreta e sem a prejudicar.

Todavia, é essa riqueza mineral de Milos que faz da ilha um paraíso geológico com formas ricas, surpreendentes e curiosas.

A praia mais famosa de Milos é a de Saraniko. E é, precisamente, aquela que melhor se encaixa nos epítetos de surpreendente e curiosa. Um pequeno corte na terra forma um vale que nos transportará até ao mar. Mas esse mar parece ser aqui banhado por uma paisagem lunar branca. De formação calcária erodida pelo vento e pela água salgada, as rochas de Saraniko têm suaves relevos que, a juntar à sua cor alva, chegam a fazer lembrar lençóis brancos. A praia de areia é mínima e até chegar ao mar algo agitado forma uma espécie de lago muito concorrido.

Saraniko fica a norte, tal como Papafragas, também no top das mais fotografadas de Milos. As formações rochosas em vários estilos continuam a dominar a paisagem e aqui são formadas várias caves por onde a água corre mais ou menos rente. Numa delas duas paredes rochosas altas deixam ver uma piscina natural em baixo, com direito a um minúsculo areal. A descida é desaconselhada, daí que seja avisado contemplar o cenário desde cima. Havíamos visto fotos incríveis do sítio, onde a água de um azul intenso contrastava na perfeição com a paisagem rochosa com vegetação escura rasteira. Mas não tivemos a sorte de apanhar essas cores.

Pudemos, no entanto, confirmar o azul cristalino das águas de Milos na sua costa a sul.

Tirando a norte, nem toda a costa de Milos é facilmente acessível. Parte dela alcança-se com um veículo 4×4 ou então exclusivamente por barco. Aliás, nenhuma visita a Milos ficará completa sem que a sua costa muito particular seja avistada desde o mar.

E Kleftiko, acessível apenas por barco na costa sul, é um lugar imperdível. Seguimos, então, num passeio de barco de meio dia desde Kipos. Calmamente fomos apreciando esta costa feita de rochas brancas com relevos pintalgadas aqui e ali por alguma vegetação verde. Várias covinhas se formam nestas densas e altas rochas. E a piada deste passeio está não apenas na belíssima e rara paisagem, como também na possibilidade de nadarmos neste mar azul quente por entre as muitas caves naturais.

Algumas destas caves são verdadeiros túneis longos, outras apenas arcos breves. No arco que fica na base da rocha mais famosa de Kleftiko descobrimos ainda, como bónus, um fundo marinho lindíssimo e de um azul tão intenso que não vai ser fácil apagar da memória. Fica o aviso: não esquecer os óculos de natação (coisa que esquecemos e tivemos de ganhar coragem para interromper por momentos a diversão de outros para pedir emprestado o material essencial a este passeio). Aqui podemos passar horas na água, a nadar, a boiar, a explorar. Diz-se que piratas que por aqui passaram há séculos esconderam numa das caves o seu tesouro e esse é apenas mais um motivo para adoçar este passeio único.

A sul, e acessível de carro, ficam algumas praias onde vale a pena estender a toalha nos seus relativamente extensos areais e onde existem apoios de praia para uma refeição à beira-mar.

Provatas

Fyriplaka

Paliochori

Mas a praia mais bonita, mas com uma descida difícil e perigosa, é a de Tsigkrado. A vista desde o topo para aquelas águas transparentes é fabulosa e faz qualquer um apaixonar-se irremediavelmente pela costa de Milos.

Para terminar em beleza, não faltou sequer a despedida do sol na simpática vila de Pollonia.