Andes Mágicos

Este blogue leva como nome “Andes Sem Parar”. Porque pretendíamos não nos cansar de andar por aí e porque foram os Andes quem primeiro começou por nos fascinar.

Em 1998 viajámos pela primeira vez até aos Andes. À Patagónia. Desde aí fomos subindo, tomando o norte até ao último contacto com os Andes em 2016, já aos pés das Caraíbas, na Colômbia. Nunca pensei que essa viagem inicial de há 22 anos viesse a ser até hoje a única até à Patagónia, para mim ainda hoje o lugar mais fantástico e sonhado dos Andes.

É precisamente em Ushuaia, a cidade mais austral do planeta, que tem início a série documental “Andes Mágicos”, disponível em streaming na Netflix. E é aí que começa a Cordilheira dos Andes, o nosso primeiro amor de viagem, a maior cadeia montanhosa do nosso planeta, com a extensão de 7500 kms que rasgam a América do Sul de sul a norte.

Ao assistir, agora, aos 6 episódios desta série, um guia para os Andes que vai desde o sul glaciar da Patagónia argentina ou chilena até aos trópicos das Caraíbas colombianas, percebi o tanto que já tive oportunidade de conhecer, mas também as saudades de rever muito e a vontade de visitar muito mais.

É de uma enorme diversidade de paisagens e culturas de que se trata. Para além dos glaciares e da selva, pelo meio temos vulcões ora adormecidos ora atentos, desertos de sal branco e outros de terra vermelha, montanhas de diversas formas e lagos de diversas cores, rios tranquilos ou revoltos à vez. Até vistas para praias no Pacífico. Um paraíso para aventureiros, sejam eles amantes da canoagem, pesca desportiva, bicicleta, escalada ou simples caminhantes contemplativos. As condições de vida inóspitas, como o frio, o vento, a falta de luz, o calor, a remotidão, não foram nem são suficientes para impedir que a região seja povoada desde há muito e tenha visto florescer povos como os mapuches, os quechua ou os incas, com povos nativos que até hoje preservam as suas tradições ancestrais, com a veneração da montanha à cabeça, elemento de ligação com a madre tierra que dá a vida, a Pachamama.

A natureza por aqui pode ser dura e hostil, mas como diz alguém em dado momento num dos episódios desta série “quando sai o sol tudo se esquece”.

Voltando aos incas, é protegido pelas montanhas dos Andes que encontramos um dos maiores sonhos de quase todos os visitantes: a antiga cidade de Machu Picchu, o centro daquela civilização. Mas os símbolos dos Andes não se ficam pelos incas. Aqui é o lugar da mais alta montanha da América e a mais alta fora dos Himalaias, o Aconcágua, com os seus 6960m. O deserto mais árido do mundo, o Atacama, e o maior deserto de sal, o Salar e Uyuni, também ficam nos Andes. Bem como o lago navegável mais alto do planeta, o Titicaca. E onde fica a mais alta capital do mundo? Nos Andes, pois claro, na incrível La Paz, a 3700m de altitude, no entanto, nada comparado com o seu subúrbio El Alto, a 4150m, ou o seu protector Chacaltaya, a 5421m.

As cidades dos Andes, como La Paz e Medellin, por exemplo, são ainda únicas por terem desenvolvido engenhosos e modernos sistemas de transporte através de teleférico para vencer a dificuldade de movimentação pelas suas montanhas. E no Lago Titicaca, por sua vez, as comunidades que se estabeleceram pelas suas águas, fazem-se transportar por barco.

Este é ainda o lugar em que as mulheres preservam a tradição com os seus trajes coloridos e trancinhas como adorno. Mas que, ao mesmo tempo, vestidas com esse mesmo traje tradicional, não deixam de jogar futebol, mostrando que guerreiras também podem divertir-se.

A fauna dos Andes não é menos mítica, com o Condor, a maior ave do mundo, como maior símbolo. As serpentes e os pumas são ainda mais difíceis de ver, felizmente. Mais fácil e amoroso é darmos com uma vicunha, lama ou alpaca ou um flamingo.

E esta é ainda a terra que permite mais de 3000 variedades de batata ou o cultivo de café e a plantação de vinha.

Ao longo desta série, os seus personagens, habitantes e amantes dos Andes, vão tentando traduzir em palavras o que é para eles os Andes. Que são um monumento natural, fascínio, vida e paz, uma benção. Mágicos.

Séries e Documentários para a Quarentena

Como a muitos outros, também a mim me tocou uma pausa forçada no trabalho, permanecendo em casa para, em conjunto com milhões, combater a Pandemia Covid-19. As viagens limitam-se agora ao sofá, na companhia de muitas leituras e séries. E esta é a melhor era para ter tudo ao alcance da vista e da mão. Já tinha(mos) o RTP Play, mas agora assinei a Netflix por um mês, gratuitamente. Se a situação continuar por muito mais tempo, temos ainda disponíveis a HBO e a Amazon Prime nos mesmos moldes. O difícil será dar vazão a tanta informação. Em seguida, alguns documentários e séries que já valia a pena conhecer, mas que com o isolamento em casa se tornam obrigatórios.

Mar, a Última Fronteira – Disponível no RTP Play, este documentário em 6 episódios dá-nos a conhecer o nosso país de uma forma incrível totalmente nova e acessível in loco apenas a muito poucos. Os mergulhadores e cineastas marinhos saem rumo às águas portuguesas nas suas expedições, filmando Portugal de norte a sul, incluindo os arquipélagos dos Açores e da Madeira e até o Banco Gorringe, a maior montanha submarina da Europa, algures no Atlântico português. Não esquecer que 97% de Portugal é mar. No continente visitamos os cavalos-marinhos da Ria Formosa, os tubarões-azuis de Sesimbra e os tubarões pata-roxa de Cascais, terminando em mais um mergulho no que resta de um submarino alemão da II GGM em Matosinhos. O intenso azul do fundo do oceano nos Açores é, no entanto, a imagem que mais fortemente guardo na minha memória, mais do que a sua belíssima fauna marítima. Aprendemos a reconhecer uma série de espécies marinhas para além das mais “óbvias” baleias e tubarões, como as jamantas de Santa Maria, os meros do Corvo, o “malvado” peixe-porco que bicou a cabeça do cineasta subaquático Nuno Sá, os lírios e tantos mais tão belos em paisagens brutais, todos eles testemunhos da riqueza e biodiversidade das águas portuguesas.

Tales by Light – Esta série iniciada em 2015 é uma parceria da National Geographic com a Canon e tem todas as 3 temporadas disponíveis na Netflix. Em cada episódio somos guiados por um fotógrafo num périplo por um ou mais cantos do mundo onde nos mostram e contam o seu muito pessoal ponto de vista. Estes artistas vão a todas, desde o fundo do mar ao topo da montanha, fotografando desde animais no seu mundo natural a humanos em celebração das suas tradições. As imagens são fabulosas e as histórias inspiradoras.

O Nosso Planeta – Esta série documental da Netflix foi estreada em 2019 e conta com a narração de Sir David Attenborough, o historiador da natureza britânico. Esta mega-produção é belíssima. Propõe-se a celebrar as maravilhas da natureza que chegaram aos nossos dias e alerta-nos que temos de fazer mais para as preservar. O primeiro episódio mostra-nos o nosso planeta em geral, iniciando com uma “cabala” entre as aves marinhas e os golfinhos para apanhar um cardume de cavalas. Dificilmente esquecerei a graciosa cena do flamingo a correr. Ou da anunciada violência dos mabecos (cães) face aos gnus (bois) na savana africana, mais tarde reproduzida pelos lobos face aos caribus na floresta boreal. Ou da tocante dança dos multicoloridos pássaros como cortejo a uma fêmea. Ou do aviso: os ursos polares estão a deixar de ter focas para comer, uma vez que o gelo marinho onde elas costumavam parar está a desaparecer. A mensagem é clara: a estabilidade da vida do nosso planeta está em causa. Tudo isto apenas no primeiro episódio. Os restantes 7 episódios de “Nosso Planeta” exploram os habitats mais importantes e celebram a vida que eles ainda sustentam.

Sex and Love Around the World – Nas nossas viagens visitamos os locais e voltamos para casa sem realmente conhecermos grande parte da vida do dia-a-dia de quem nos cruzámos, quanto mais a sua intimidade. Neste documentário, Christiane Amanpour, jornalista e apresentadora da CNN, ajuda-nos a perceber um pouco dessa intimidade em cidades como Tóquio, Deli, Beirute, Berlim, Accra e Xangai. E à sua boleia caminhamos pelas ruas e adentramos nas casas de mulheres e homens, jovens ou menos jovens, ficando a perceber mais acerca das culturas e tradições de cada um e da diversidade do nosso mundo sob um ponto de visto raramente abordado e explorado. Por exemplo, sabia que os casais japoneses raramente se abraçam e não têm por hábito beijar-se sequer em privado?

Chef’s Table – Original da Netflix, estreado em 2015, vai já na sua 6ª temporada e é uma das séries de comida mais aclamadas. Comida é o pretexto para se mostrar a beleza. A beleza dos ingredientes que hão de resultar num prato, sim, mas sobretudo a beleza de tudo o que os rodeia, desde a sua origem, o seu processo de transformação nas mãos de verdadeiros artistas até ao produto final – neste caso uma bonita história contada em cada um dos episódios. Histórias de chefs originais – os mais talentosos da cozinha mundial e outros que aspiram a sê-lo – que com imaginação e perseverança têm feito com que a comida seja hoje considerada uma arte. Arte mostrada com arte por este Chef’s Table.

Street Food Ásia – Dos mesmos autores de Chef’s Table, esta é também uma série da Netflix, estreada em 2019, com 9 episódios (Banguecoque, Osaka, Deli, Yogyakarta, Chiayi, Seoul, Ho Chi Minh, Singapura e Cebu). A comida de rua está na moda, todos a queremos provar. O que não sabemos são as histórias por trás da criação das deliciosas iguarias, muitas vezes simples e humildes como a vida dos seus autores. Ou seja, são também histórias de superação que nos são contadas à boleia da imagem das bancas de rua de cidades vividas e coloridas e alguns dos episódios até puxam à lágrima. Mas o que fica é a vontade de saborear aqueles pitéus tão estranhos e diversos.

Turismo Macabro – Esta é uma série cuja existência e pertinência tem sido questionada, com via aberta para as discussões do politicamente correcto e da moral e da ética. Mas podemos sempre decidir não assisti-la. Iniciei o primeiro episódio, dedicado ao turismo macabro na América Latina, e pretendo continuar a assistir aos restantes 7 episódios. Isto mesmo tendo passado por Medellin, a cidade colombiana onde Pablo Escobar nasceu e viveu deixando como legado uma violência sem limites e o narcoturismo – representado neste primeiro episódio -, dizia, mesmo tendo passado por Medellin e não tendo tido a mínima vontade de visitar qualquer local ligado à El Patron. Mais, tendo achado este tipo de turismo um disparate e de profundo mau gosto. A série Turismo Macabro baseia-se, precisamente, numa ideia de muito mau gosto, a de procurar visitar de um ponto de vista turístico locais malditos e permitir aventuras onde tantos sofreram (e sofrem) e morreram (e morrem) na vida real. David Farrier, o jornalista da Nova Zelândia protagonista desta série da Netflix, assume ser um ávido admirador deste género e avisa logo de início que esta série contém mais de 80% de morte na sua busca incondicional pelo louco, macabro e mórbido. É bizarro e estúpido, mas há que assistir para tirar as nossas conclusões acerca de um nicho do mercado de turismo que está aí um pouco por toda a parte.

Joanna Lumley na Índia

Neste tempo de pandemia em que alguns são obrigados a permanecer em casa, não cessa a sugestão de livros e filmes. É nessa boleia que aproveitamos para ver (ou rever) o documentário “Joanna Lumley na Índia”.

Filmado em 2017, a atriz inglesa leva-nos à sua Índia natal ao longo de três episódios. Podemos ver o primeiro episódio na RTP Play e os restantes dois episódios nos próximos domingos, na RTP2, às 19:05.

Neste documentário o aviso vem logo às primeiras imagens e falas: é impossível conhecer a Índia toda. País imenso e diverso, ainda assim Joanna tenta percorrê-lo.

O início deste primeiro episódio de “Joanna Lumley na Índia” acontece em Madurai, a capital do estado Tamil Nadu no sul da Índia. E é também o início do assombro de cor e confusão das ruas que acontece um pouco por todo o sub-continente. O hinduísmo é igualmente uma constante – a maior religião em terra de muitas outras religiões – e por isso impõe-se uma primeira alusão ao Templo Meenakshi. São tantos os templos fabulosos da Índia que não dá para dizer que este é mais do que qualquer outro. Mas de um dos históricos templos indianos nunca se poderá dizer que é apenas mais um.

Do sul há ainda oportunidade para falar do facto da região ser maioritariamente vegetariana e contribuir para que a Índia seja um dos países com o menor consumo de carne. E umas imagens da bela e em muito intocada paisagem dos Ghats Ocidentais, a cordilheira que rasga o sudoeste da Índia, lugar de plantações de chá e de elefantes.

Em Hyderabad é nos dado a ver o brilho das jóias provenientes das minas de Golconda. O brilho dos diamantes para quem pode, sim, mas também o brilho das braceletes que toda a mulher indiana faz questão de usar.

Temos aqui já uma série de imagens que todos nós facilmente imaginamos da Índia: os templos, a confusão, a cor, o chá e os elefantes. Falta o cinema, neste caso o de Tollywood, de língua telugu, uma das muitas indústrias de cinema da Índia. Num dos maiores e mais avançados estúdios do mundo, instalado às portas de Hyderabad, aqui tudo se cria virtualmente, incluindo tigres a lutarem com seres humanos sem que nem uns nem outros sejam reais.

A jornada deste primeiro episódio continua, agora por Calcutá, durante muitas décadas a capital do Império Britânico na Índia. E aqui, para além de nos ser apresentada uma série de “micro-empresários”, os donos das muitas bancas da deliciosa comida de rua que tem uma forma própria de se comer, é-nos repetida outra imagem da Índia, a pobreza.

Este primeiro episódio termina no Siquim, um dos estados mais pequenos e menos habitados da Índia, terra de fronteira com uma localização estratégica nas montanhas dos Himalaias. Apesar de este ser um périplo em muitos pontos pessoal (Joanna nasceu em Srinagar, na Caxemira, e os seus familiares moraram em Gangtok, no Siquim) e de se recorrer a diversos clichés, esta é uma viagem visual com muito para confirmar e muito mais para descobrir.

Treetop Walk Serralves – caminhar nas árvores

Serralves é sempre uma visita obrigatória numa passagem pelo Porto. Mas desde Setembro do ano passado há mais uma desculpa para lá voltar. Centro de Arte Contemporânea e lugar para se apreciar arquitectura de excelência, há que não esquecer que Serralves é também em grande parte o seu parque. E se já nos encantava perdermo-nos nos muitos caminhos do seu parque, temos agora a possibilidade de caminhar ao nível da copa das suas árvores.

O Treetop Walk de Serralves, criado no ano em que a Fundação celebrou os seus 30 anos, tem apenas 250 metros de passadiços de madeira, mas cada passo sobre eles é dado sob um prazer imenso e sem fim. É uma experiência verdadeiramente diferente de usufruto da natureza, levando-nos a percorre-la através de uma perspectiva única.

O projecto foi desenvolvido pelo arquitecto Carlos Castanheira em colaboração com o arquiteto Álvaro Siza Vieira, e em primeira instância pretende sensibilizar os visitantes para a protecção e a preservação da biodiversidade do ambiente natural do Parque de Serralves. Vamos ficando ao nível das copas dos carvalhos, ciprestes e sequoias, caminhando sob o canto dos pássaros, enquanto que lá em baixo, no lago, vemos os patinhos a desfilar. A altura dos passadiços chega a tomar 25 metros. Um pouco mais distante apreciamos os prados de Serralves e uma nuvem de prédios mais ao fundo. Diz-se que até o mar se chega a avistar, mas não nos tocou essa vista.

Estes passadiços foram construídos no respeito e integração com a natureza, com o uso de madeira reciclada, e os seus pilares, por exemplo, foram instalados de forma a permitirem que as raízes das árvores cresçam naturalmente, sem barreiras.

Ao caminhar no alto, junto aos ramos das árvores, apreciamos ainda melhor as suas cores. Cores essas que, graças às estações do ano, ganham novas tonalidades a cada temporada. O preço do bilhete de Serralves, mesmo que apenas para visitas ao seu Parque, é puxadinho, mas sendo a entrada nas manhãs do primeiro domingo de cada mês gratuitas não há desculpas para não vir caminhar sobre as árvores. Repetidamente.

Palácio Nacional de Queluz

O Palácio Nacional de Queluz fica hoje bem perto de Lisboa, com o infame IC19 mesmo à sua porta. No século XVIII estaria igualmente perto da capital, mas o suficientemente afastado para ser considerado um lugar de veraneio, um recanto face ao bulício da corte.

As suas origens estão na antiga Casa de Campo de Queluz, parte da Casa do Infantado de que D. Pedro foi o seu 3° senhor. Em 1747 esta Casa foi transformada num palácio de verão por este D. Pedro, que viria a ser rei consorte por casamento com a futura rainha D. Maria I. Não surpreende, pois, que seja o monumento Rainha D. Maria I, rodeada pelos continentes, a receber-nos à entrada do hoje Palácio Nacional de Queluz. À sua frente, a cénica e azul Torre do Relógio, hoje Pousada D. Maria I.

Este Palácio, que no início foi pensado como residência de verão, acabou por vir a servir de residência permanente da Família Real entre 1794, data do incêndio no Palácio da Ajuda, e 1807, data da partida da corte para o Brasil em fuga das invasões francesas. O Rei D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil), por exemplo, nasceu e morreu aqui. Integrado no património do estado em 1908, é na ala mais recente do Palácio, o Pavilhão D. Maria, que os chefes de estado estrangeiros em visita oficial a Portugal ficam hospedados.

Conhecido como o “Versalles Português”, o Palácio Nacional de Queluz foi sendo construído ao longo de cerca de dois séculos, reflectindo o gosto da corte de cada uma das épocas de que foi testemunha, pelo que vamos vendo apontamentos de estilos como o barroco, o rococó e o neoclássico, com claras influências francesas e italianas. Há quem considere que o conjunto que daqui resultou carece de harmonia. Quanto a mim, se os tons de azul e amarelo das várias fachadas chegam para cativar, reconheço que quer a sua arquitectura exterior quer a decoração das suas salas, na generalidade, não superam o deslumbre de um Palácio Nacional da Ajuda, de um Palácio Nacional de Mafra ou de um Paço Ducal de Vila Viçosa. Mas quanto aos jardins, bem, aí não há concorrência.

Comecemos, no entanto, esta visita pelo interior do Palácio.

O que primeiro começa por impressionar são os lustres esplendorosos. Eles vão-se sucedendo, sala a sala, e roubam sempre a atenção. Dominam, igualmente, os espelhos. Algumas salas estão forradas a papier maché e com tectos que merecem um olhar demorado.

A primeira sala a deslumbrar é a Sala do Trono. Tem os tais lustres, espelhos e tectos decorados que traduzem a elegância e majestade que esperamos de um palácio real.

A Capela não poderia faltar, com uma estrutura barroca e decoração rococó.

Após algumas salas mais intimistas, onde a nossa imaginação nos transporta para a vida do dia a dia da realeza, atravessamos o Corredor das Mangas, a única sala revestida a azulejos, com a representação das quatro estações e dos quatro continentes e cenas da mitologia clássica e de caça, bem como chinoiseries.

Subindo ao piso de cima, onde fica a Biblioteca de Arte Equestre, podemos apreciar uma bela vista dos jardins e de um dos pátios interiores do Palácio.

É então que, de volta ao piso inferior, chega o momento mais fantástico da visita ao interior do Palácio Nacional de Queluz: a Sala dos Embaixadores. Na verdade mais parece uma sala do trono. Ou de dois tronos, um em cada ponta desta sala com pavimento de mármore com quadrados pretos e brancos. Aqui D. Pedro e D. Maria organizavam concertos e no tecto pode observar-se uma fantástica pintura representando a família real a participar num serenim.

Depois desta bela Sala dos Embaixadores segue-se uma das mais emblemáticas divisões do Palácio, o Quarto de D. Quixote. Decorado com pinturas que remetem para aquela obra literária, não é, no entanto, esse facto que torna esta sala um ponto alto da visita, antes ter sido este o lugar de nascimento e morte de D. Pedro IV.

Saímos, finalmente, para o exterior pelo Pavilhão Robillion – a ala do Palácio onde nos encontrávamos, obra do arquitecto francês de mesmo nome que sucedeu nos trabalhos arquitectónicos ao português Mateus Vicente de Oliveira, entretanto requisitado pelo Marquês de Pombal para a reconstrução de Lisboa após o Terramoto de 1755. A imagem da Escadaria dos Leões deste pavilhão é uma das mais famosas do Palácio, apreciando-se na sua fachada de inspiração romana colunatas que sustém a varanda balaustrada.

Daqui temos uma vista privilegiada para o Canal dos Azulejos, mais um momento portentoso deste conjunto formado pelo Palácio e Jardins que fica aos nossos pés assim que descemos a referida escadaria Robillion. Este canal esta revestido de belos painéis de azulejos com representação de cenas de galanteio, paisagens bucólicas e de caça. No canal, uma espécie de lago artificial, os membros da Família Real passeavam de gôndola enquanto ouviam música tocada no Pavilhão da Música mesmo à sua beira.

Estamos já nos jardins – um dos muitos – que tornam a visita ao Palácio Nacional de Queluz uma delícia. É deambulando por eles que percebemos na perfeição a harmonia entre a arquitectura e a paisagem neste palácio. De influência francesa, com longas alas que vão formando corredores, cortadas aqui e ali por jogos de água como lagos, fontes e cascatas (a água era conduzida para o Palácio e Jardins por dois aquedutos), era neles que a Família Real promovia as suas festas.

Nesta ala que vai desde o Pavilhão Robillion até às antigas Cavalariças da Rainha D. Amélia (hoje Escola Portuguesa de Arte Equestre), vemos uma série de estátuas inspiradas na mitologia clássica, como aquelas de Abel e Caim no Lago dos Dragões e a do Rapto de Prosérpina um pouco mais adiante.

Uma longa avenida com vários caminhos que se interceptam transportam-nos pelo Lago das Medalhas, passando pela Fonte de Neptuno até ao Tanque do Curro. À volta, num terreno quase a perder de vista, temos o pomar e a mata.

Não chegámos até ao Jardim Botânico e atalhámos pelo jardim de buxo mesmo de frente para uma das fachadas do Palácio, o Jardim do Labirinto, passando ainda pela Horta dos Príncipes. No final da longa (mais uma) avenida que segue em direcção ao IC19 encontramos a Cascata. Diz-se que esta foi a primeira cascata artificial construída em Lisboa, e é uma cascata monumental esculpida em pedra mármore e ornamentada no cimo por uma carranca e duas fénix laterais donde jorrava a água.

Mas os jardins mais cénicos são aqueles que adentramos pelo Pórtico da Fama, o Jardim Pênsil e o Jardim de Malta, os dois jardins parceiros das fachadas interiores do Palácio Nacional de Queluz.

A simetria dos canteiros de buxo no Jardim Pênsil, mais elevado em relação ao de Malta, é perfeita, perfeição essa ainda mais alcançada pela estatutária e lagos ornamentais que o preenchem. O Jardim de Malta, por seu lado, tem vindo a ser restaurado no sentido a ganhar a sua forma mais próxima do original, mas mesmo assim é um deleite observá-lo em contraste com os tons macios das fachadas do Palácio.

Não há melhor forma de nos despedirmos de Queluz do que esta de percorrermos estes seus espaços decorativos de excelência.

Da Vila de Sintra ao Castelo dos Mouros

Não há melhor forma de circular por Sintra do que a pé. Em tempos já tínhamos escrito aqui sobre a jornada até ao Palácio da Pena desde o centro da vila através do caminho da Vila Sasseti. Desta vez seguimos caminho com partida desse mesmo centro com passagem pela entrada do Palácio da Pena, visita ao Castelo dos Mouros e volta ao ponto inicial, de forma circular, aproveitando as “Pequenas Rotas” do PR2 (Percurso da Pena) e PR3 (Percurso do Castelo). Coisa para uma manhã em cheio.

Saímos do largo do inigualável Palácio da Vila, o mais antigo palácio português, com origem no primitivo paço dos antigos governadores mouros da Sintra do século X, já com o Castelo dos Mouros sob mirada lá no alto, com alguns dos palacetes que fazem a fama de Sintra sob o seu colo.

E logo tomámos as estreitas ruas da vila, cheias de cotovelos, até chegarmos ao miradouro da Ferraria. Daqui, uma vista diferente mas igualmente próxima do Palácio da Vila, com as suas distintas chaminés. Ultrapassado mais um chalet apalaçado e damos com a Fonte da Sabuga.

São muitas as fontes que se vão vendo pelos caminhos de Sintra, mas esta fonte medieval reconstruída no século XVIII será a mais chamativa e célebre das fontes de Sintra, reconhecida ainda pelos seus poderes milagrosos. Está decorada com um tom azul e o dourado do sol que a encima retém a nossa atenção, bem como a pedra de armas de Sintra logo acima.

Após uma breve subida com vista para a planície das terras de Sintra, chegamos a um recanto mais recolhido da vila, onde ficam a Igreja de Santa Maria (do século XII, em estilo românico-gótico), a Casa do Adro (onde em 1866 viveu Hans Christian Andersen) e o Convento da Santíssima Trindade (hoje residência particular sem visitas ao público). E pelo meio uma casa com uma fachada curiosa.

Mais umas centenas de metros e a São Pedro de Penaferrim vê-mo-la lá em baixo. A estrada continua e segue-se um trilho com algumas árvores caídas, certamente consequência de temporal recente, que nos leva ao topo do Monte Sereno com seu castelo particular. Daqui avista-se já do outro lado o Castelo dos Mouros. E com pouca demora perceberíamos que do Castelo dos Mouros também se observa livremente o castelinho do Monte Sereno, como se mantivessem ambos um diálogo próximo e constante.

Na subida pela Calçada da Pena encontramos, por fim, veículos motorizados, carros particulares, autocarros e tuk-tuks, muitos tuk-tuks. Mas aqui encontramos também a vegetação cerrada da Serra de Sintra. Passamos pela entrada do Palácio da Pena, apreciando o colorido do seu edifício pintado num céu azulíssimo, e um pouco mais adiante eis o Castelo dos Mouros. Ao invés de seguirmos directamente para a sua entrada, vale a pena espreitar a casa do guarda junto à segunda cintura de muralhas (para incremento da área fortificada e protecção da população e bairros que se instalaram na vertente), com bar esplanada, e deambular pelo caminho que descerá até ao centro da vila para mais um miradouro com belas vistas.

De volta em direcção ao Castelo, não nos cansamos de apreciar as formosas rochas que são também elas parte da paisagem de Sintra.

Imediatamente antes da entrada do Castelo dos Mouros recebe-nos a Capela de São Pedro com o seu Centro de Interpretação da História do Castelo dos Mouros, um pequeno museu com achados arqueológicos. Nas imediações da capela percebemos umas estruturas escavadas na rocha que serviram há séculos para armazenamento e conservação de cereais e leguminosas. Por aqui estava o primitivo bairro medieval islâmico, mais tarde lugar de uma necrópole cristã, hoje transformado numa área arqueológica.

A passagem pelo pano de muralha mais imponente do Castelo dos Mouros faz-nos entrar num outro mundo, transportando-nos pela história.

Corria o século VIII quando, numa vertente mais elevada da Serra de Sintra, a cerca de 400 metros de altitude, os muçulmanos decidiram construir aqui uma fortificação de defesa do seu território após a conquista da Península Ibérica aos visigodos. O castelo terá funcionado como atalaia de controle da costa atlântica e dos territórios a norte, desempenhando a função de posto avançado da cidade de Lisboa. Mas, após anos de disputas, quer a fortificação quer o território acabaria por ser perdido para os cristãos no século XII, com a conquista definitiva por D. Afonso Henriques em 1147, tendo nessa época sido edificada a primeira capela cristã de Sintra, dedicada a São Pedro. As muralhas foram objecto de restauro no período romântico, por volta de 1860, sob a direcção Dom Fernado II, que arborizou igualmente os espaços envolventes. É interessante aprender que a vegetação intensa que caracteriza a Serra de Sintra dos nossos dias é um fenómeno recente. E nisso, como em muitos outros aspectos em Sintra, com destaque para o Palácio da Pena, a acção de D. Fernando II, o Rei Artista, foi decisiva. Nessa época a Serra tinha um aspecto nu, sem a vegetação primitiva de carvalhos, provavelmente em consequência da expansão de actividades como a pastorícia e a agricultura e da exploração florestal pela procura de lenha, carvão e madeira. Só no século XIX, com a chegada de D. Fernando II, inspirado pelo Romantismo, foi a Serra de Sintra reflorestada, com a introdução de espécies exóticas, tendo igualmente dado início à moda da criação dos jardins “à inglesa”. A paisagem de Sintra transformou-se no que vemos hoje e, para além dos muitos palacetes e seus jardins, ao lado dos autóctones carvalhos temos acácias, araucárias, plátanos, fetos, pinheiros, eucaliptos e ciprestes.

E porquê esta referência à paisagem de Sintra quando dizíamos ter entrado no Castelo passando pela sua porta muralhada? Porque o Castelo dos Mouros, não desfazendo a sua história, tem tudo a ver com paisagem. São vistas e mais vistas, todas elas fabulosas, fazendo-nos pensar que a vida se resume a isso: a uma paisagem, a paisagem de Sintra.

Ao caminhar pela muralha quase nunca perdemos de vista o Palácio da Pena, mas enquanto que da Alcáçova e Torre de Menagem temos a vila de Sintra aos nossos pés, contornando-a para seguirmos, subindo, até à torre do lado contrário, a Torre Real, ficamos com a Quinta da Regaleira e Seteais à nossa beira e o mar, esse, com todo o Atlântico da costa de Sintra sempre no nosso horizonte próximo.

É, pois, um prazer caminhar pela muralha do Castelo dos Mouros. Prazer maior ainda é deixarmo-nos estar na Torre Real, imitando D. Fernando II na sua época a contemplar a Pena, mas não a pintar a Serra.

Descendo a muralha, ao invés da passagem pelo extenso terreiro da Praça de Armas optamos pelo caminho rodeado de vegetação e grandes e bonitas rochas para chegar até à saída do Castelo.

Já cá fora, a volta ao centro da Vila inicia-se com uma curta passagem pelo interior da Tapada dos Bichos. Há que seguir a caminhar com atenção para não perder as vistas quer para o Palácio da Pena quer para o Castelo dos Mouros, por entre as árvores.

Depois o percurso segue por estrada, pela Rampa da Pena, cheia de curvas e mais curvas. E vários chalets, como o Chalet do Relógio e o Chalet Biester com os seus torreões a lembrar um palacete. No fim da descida da Rampa da Pena aí temos, então, o final da nossa jornada com a chegada ao centro histórico de Sintra. E aí termina o sossego e a sensação de solitude que vivemos antes, quando estivemos embrenhados na Serra.

Uma caminhada pela Peninha

São incontáveis os percursos pedestres que se podem inventar pela Serra de Sintra, mas alguns deles estão oficialmente demarcados. Assim, embora da Peninha possamos sair a caminhar em direcção a cada um dos pontos cardeais, o PR10 está montado para nos por a caminho da natureza e do património de forma circular por cerca de 4,5 kms. São menos de duas horas a gastar a sola, incluindo paragens demoradas para gastar os vários sentidos.

Até chegarmos ao estacionamento do Santuário da Peninha, onde tem início esta caminhada, seguimos de carro pela estrada totalmente protegidos pela vegetação carregada. Umas abertas, logo transformadas em miradouros, permitem-nos ir acostumando à paisagem que teremos lá de cima. Primeiro uma vista para as águas da albufeira do Rio da Mula e Palácio da Pena, depois uma vista para o Guincho e Cascais.

O trilho inicia-se com uma breve subida com o Santuário à nossa direita a confundir-se com as rochas e ramagem de ambos os lados. E, de repente, deixamos de ter a protecção dessa ramagem e tudo se revela. O cenário imenso da costa do Guincho aos nossos pés.

Estamos a uns 466 metros de altitude, a literatura científica não revelou ainda qualquer efeito desta altitude na falta de oxigénio, mas, de qualquer das formas, a nossa respiração é facilmente cortada com esta paisagem do recorte da costa em conjugação com o azul do mar.

Subimos a escadaria do Santuário da Peninha, instalado num penedo a 486 metros de altitude, e daqui de cima as vistas conseguem ser ainda maiores, porque agora se abrem para todos os lados, do Cabo Espichel às Berlengas, passando pelo Cabo da Roca, numa imensidão total. Podemos não identificar quer o Espichel quer as Berlengas, mas em dias de céu azul as vistas desde Lisboa à Ericeira são garantidas.

A Capela de Nossa Senhora da Penha confunde-se, no seu exterior, com o cinzento das rochas, já se disse, mas alguns acrescentos posteriores de edifícios anexos, nomeadamente um palacete, têm um tom amarelo vivo que ganha um relevo muito grande na paisagem. As origens do lugar, onde foi instalada uma primitiva ermida, remontam ao século XII, mas a capela tal como a conhecemos hoje começou a ser edificada no século XVII. Se a sua arquitectura exterior vale mais pelo seu lugar de implantação, diz que o seu interior é, esse sim, um deslumbre só por si. O Santuário está votado ao abandono e a capela fechada, impedindo-nos assim de conhecer os mármores e azulejos azuis e brancos que revestem o interior da Capela de Nossa Senhora da Penha.

Deixado o Santuário para trás, após passarmos pela Ermida de São Saturnino escondemo-nos da paisagem e envolvemo-nos numa mata cerradíssima, num pequeno trilho conhecido como trilho da Viúva. São apenas cerca de 500 metros sempre a descer e pensamos que ainda bem que o trilho é circular e não o teremos de subir. Isso para bem das nossas pernas, porque de resto não nos importaríamos de aí voltar vezes sem conta.

O lugar é belíssimo, todo ocupado com árvores sem deixar ver o céu, um daqueles pedaços onde se sente todo o poder e magia da natureza. Lugar fresco e escuro com raios de sol a tentarem penetrar, a humidade faz-se sentir e pingos da água soltam-se das árvores e plantas e caem sobre nós. Esta é uma zona de cupressal, com cedros do Buçaco plantados na tentativa de reflorestação da Serra de Sintra, muito sujeita a incêndios, e encontramos ainda fetos e folhas de hera.

Quando acaba a descida mágica viramos à direita na estrada florestal. O denso arvoredo mantém-se, passamos por um pequeno lago com algas verdes e logo chegamos a uma mata com mesas para piqueniques. Um pouco mais para lá dela e encontramos o desvio para Adrenunes.

A vegetação não nos larga, mas é incrível constatar como ela vai variando na sua forma. Agora é como se o arvoredo nos fechasse, formando um túnel natural onde em alguns pontos nos temos até de agachar. E, passado um tempo, a vegetação deixa de nos cobrir, sentimos o sol forte sobre nós e ganhamos a vista de mar ao fundo.

A Anta de Adrenunes está classificada como Monumento Nacional. No entanto, ainda não é claro se este conjunto de rochas é uma formação natural ou obra do Homem, o que leva alguns a considerar que é errado designá-la por anta. Terá, todavia, sido utilizada como necrópole, facto que induz a que o considerem um monumento megalítico. O que é claro é que este amontoado de rochas perdido no meio da vegetação da Serra de Sintra é esbelto. Não é fácil circundá-lo, precisamente pela vegetação que tomou o lugar, e é impossível adentrá-lo – não há espaço na rocha. Mas com perseverança subimos as suas rochas empilhadas e percebemos o marco geodésico que foi instalado no seu topo. Daqui a nossa vista alcança o Palácio da Pena, o Santuário da Peninha e o Cabo da Roca e a Adraga.

A Anta de Adrenunes é ainda um lugar de nidificação de aves.

No caminho de volta apreciamos mais uma vez a vegetação rica em plantas medicinais e aromáticas e voltamos a entrar na zona de mata de volta ao ponto de partida, com os carvalhos e as acácias a dominarem. Antes da chegada, porém, uma passagem e paragem pelas Pedras Irmãs.

É mais um lugar com uma aura misteriosa, com as imensas e formosas rochas preenchidas de musgo verde e rodeadas de ciprestes e carvalhos a darem mais um contributo para o encanto que costumeiramente é reconhecido à Serra de Sintra.