Teotihuacan, a cidade dos deuses

Teotihuacan, ou mais especificamente Las Pirâmides, fica a pouco mais de 1 hora de autocarro das estações de metro de Autobuses del Norte ou Indios Verdes, na Cidade do México. Se optarmos por seguir até lá de transportes públicos, podemos dizer que esta é uma viagem segura em que a única coisa estranha que nos passou foi um senhor entrar a meio do caminho no autocarro com uma maquineta na mão que dirigiu ao nosso rosto não sei muito bem para quê. Confirmado que nenhum indivíduo suspeito ali viajava, assim como entrou, assim discretamente saiu. Como estas duas estações de metro já são fora do centro da cidade, o trânsito que se apanha não é demasiado. Os arredores da cidade dão nos a ver a sua extensão quase infinita. Os diversos morros que abundam na paisagem estão praticamente todos ocupados com habitações, alguns mesmo até ao cume. O mais curioso é constatar que nesta busca incessante de espaço urbanizável podemos encontrar entre o aglomerado de casas precárias mas coloridas ruas bem definidas que rasgam a direito, quer paralelamente quer perpendicularmente. Ou seja, algum ordenamento no caos.

Teotihuacan, então. Esta é uma antiga cidade, anterior aos aztecas, diz-se que a primeira cidade planeada da Mesoamérica. E que cidade. Como não conhecia nada dela, nem sequer de fotografias, a surpresa e encantamento foram enormes. São pirâmides e mais pirâmides, algumas delas de dimensão desmedida mas sempre elegantes, num enquadramento paisagístico belíssimo, um manto raso verde rodeado de vegetação que cobre os formosos montes-vulcões característicos do México.

Um pouco de história. A civilização que hoje conhecemos como Teotihuacan foi a maior do seu tempo na Mesoamérica e, crê-se, até o maior império que reinou em terras que hoje conhecemos como do México antes da chegada dos espanhóis. Terá surgido no século I, atingindo o apogeu entre os anos 450 e 650, até ao seu colapso no século VIII. Ou seja, Teotihuacan durou cerca de 900 anos. Após ser abandonada (não se sabe com certeza o porquê do seu abandono), continuou como espaço de peregrinação e os toltecas e os aztecas, que a sucederam no tempo largos séculos depois, ficaram impressionados com a sua grandeza e logo a consideraram sagrada, tendo reocupado algumas das suas áreas. O nome verdadeiro da antiga cidade é desconhecido, até porque se desconhece igualmente qual a língua que os seus habitantes originais falavam. O actual nome – Teotihuacan – é náhuatl e deve-se aos aztecas. O seu significado? Um poético “a cidade onde os homens se transformam em deuses”.

E esta cidade que viu durante séculos os homens transformarem-se em deuses, a tal que foi a primeira cidade planeada da América pré-hispânica, chegou a alcançar 23 km2, e a ter 175000 habitantes.

Entrando pela sua Porta 1, a sudoeste do recinto visitável, logo temos diante nós a Ciudadela e o Templo de Quetzalcóatl. Correndo para norte abre-se a Calzada de los Muertos, uma longa avenida hoje com 2 kms, mas que se crê ter tido pelo menos o dobro. No final da Calzada, ergue-se majestosa a Pirâmide da Lua e antes dela, ainda maior, a Pirâmide do Sol. Eis todos os grandes elementos urbanístico-arquitectónicos que Teotihuacan nos legou e que os arqueólogos têm vindo a explorar e estudar desde o início do século XX, data até à qual se pensava que os edifícios cobertos de terra e vegetação que aí estavam não fossem mais do que pequenos montes.

A área das Pirâmides é muito grande, pelo que é bom que se conte com umas 4 horas para caminhar sossegadamente – para isso há que chegar cedo – e alegremente pelo sítio.

Primeiro, então, a Ciudadela, nome dado pelos espanhóis que quando aqui chegaram lhes pareceu estarem diante de uma fortaleza. Impressiona a pacatez matinal deste grande espaço que terá sido o centro administrativo de Teotihuacan. Várias pirâmides pequenas (considerando o que haveríamos de ver depois) envolvem a Cidadela e no seu lado este encontramos o Templo de Quetzalcoatl, também conhecido como Pirâmide da Serpente Emplumada.

Este é um dos edifícios com as decorações mais belas, complexas e surpreendentes da época pré-hispânica e pensa-se que tenha estado pintado de cor intensa. É um templo dedicado à criação do tempo e nele foram encontrados cerca de 260 esqueletos humanos, pelo que é possível que o seu significado esteja associado com os dois tipos de calendário pré-hispânico: o solar de 365 dias e o ritual de 260 dias. Mais, pela posição em que os indivíduos foram encontrados crê-se que tenham sido sacrificados como oferenda, e acompanhados de colares e outros ornamentos, alguns de obsidiana, no início da construção do templo por volta dos anos 150-250.

De volta à Calzada de los Muertos, começamos a percorrê-la toda até ao seu limite norte, até à Praça da Lua, na certeza porém de que quer para lá desta praça quer o seu limite sul não foram ainda totalmente explorados, pelo que provavelmente será muito mais longa. Esta Calzada é parte fundamental da construção de Teotihuacan, constituindo o eixo principal da cidade. Toma a direcção sul-norte e está orientada ao ponto donde nasce o sol. Perpendicular a ela corre a Calzada Este-Oeste que divide a cidade em 4 partes, numa perfeita simetria. A Calzada de los Muertos foi assim chamada pelos aztecas que para aqui vieram posteriormente, porque pensavam, ainda que erradamente, que as construções à sua beira eram tumbas. Mas não, correspondem às ruínas de antigos complexos de palácios e templos e áreas político administrativas e cívico-religiosas, com as unidades residenciais das classes altas nos arredores e as da gente comum nas aforas. Ou seja, este traço urbano de ruas e quarteirões e sua ocupação estava mesmo muito bem pensado. De destacar, ainda, a forma arquitectónica das construções, feita de talude (muro inclinado) e placa (muro vertical).

A Pirâmide do Sol é, simplesmente, brutal. Brutal por ser enorme em termos métricos e brutal por ser impressionante em termos estéticos. É o edifício pré-hispânico de maiores dimensões da sua época e um dos mais importantes de toda a Mesoamérica. O seu nome deve-se às crónicas que desde o século XVI mencionam este monumento como sendo dedicado àquela divindade. A sua exploração a grande escala aconteceu a partir de 1905 por ordem de Porfirio Diaz, o general que governou o México por décadas, o qual desejava realçar a grandeza cultural do povo mexicano através das suas obras pré-hispânicas e comemorar em o Centenário da Independência do México em grande estilo.

Esta pirâmide foi construída numa só operação e tem o interior sólido, preenchido de areia e terra. A sua construção foi iniciada entre os anos 1 e 109 e é uma plataforma de 220m sobre a qual assenta uma pirâmide rodeada por um canal e o que deveriam ser 4 níveis de construção sobrepostos – digo deveriam porque os trabalhos de reconstrução que foram levados a cabo no início do século passado acabaram por erro de resultar num total de 5 níveis.

Subir ao topo da Pirâmide do Sol não é tarefa fácil, quer pelo calor, quer pelos degraus – 248 – estreitos e muito inclinados. Para piorar, estamos a uma altitude de 2300m. Mas qualquer esforço para vencer os últimos degraus é recompensado por uma vista fabulosa de todo o vale e cidade antiga, de um lado o Templo de Quetzalcoatl, do outro a Pirâmide da Lua e, pelo meio, a Calzada de los Muertos ali em baixo, inteira, em toda a sua extensão já escavada. Do alto dos 70 metros da Pirâmide do Sol parece que o ar se torna, como que por magia, menos rarefeito e uma espécie de iluminação toma conta de nós. É um ambiente incrível e só é pena que o tenhamos de dividir com magotes de colegas turistas que querem tirar a foto da praxe.

De volta à Calzada, percorrendo-a e percebendo diferentes formas e tonalidades da pedra usada para a construção dos antigos edifícios que a ladeiam, passamos pelo Mural do Puma. Descoberto durante as prospecções arqueológicas em 1963, é parte de um conjunto de plataformas e templos.

Mais animais exóticos podem ser vistos no lado contrário da Calzada, já a entrar na Praça da Lua. O Palácio de Quetzalpapálotl serviu como residência da elite da cidade de Teotihuacan. O seu nome é tão inspirador como o lugar e significa “mariposa preciosa”. No pátio central, o pátio dos pilares, vemos pórticos de entrada para as habitações principais com colunas de pedra cravadas com decorações que representam quetzales e corujas, motivos que contaram em tempos com pintura e incrustações de obsidiana.

A Pirâmide da Lua, enfim. Voltamos a não resistir subir os seus degraus a pique, mas agora forçosamente não até ao seu topo, uma vez que não é permitida a subida na sua totalidade. Mais “modesta” em grandeza do que a sua parceira Pirâmide do Sol, a Pirâmide da Lua tem uma planta rectangular, com 150m por 130m, e uma altura 42m. Foi construída em 7 etapas, entre os anos 100 e 650. É mais pequena do que a do Sol, mas à semelhança desta, na sua parte superior deve ter existido um templo.

Novamente cá em baixo, após mais um escada acima escada abaixo, a Praça da Pirâmide da Lua é um dos espaços sagrados mais importantes da cidade. Com a sua posição estratégica, aqui se iniciará a Calzada de los Muertos. Ao contrário da Pirâmide do Sol e da Ciudadela que são espaços rodeados por uma plataforma, a Praça da Lua tem uma perspectiva aberta, sendo por isso de crer que talvez fosse um lugar dedicado a cerimónias públicas, sem restrições de acesso a toda a comunidade. No seu auge, a Pirâmide da Lua estava pintada de vermelho e era dedicada à deusa da água e da fertilidade.

No recinto arqueológico existe ainda um museu onde podemos ver alguns dos objectos retirados do lugar. Mas a grandeza e o poder de Teotihuacan está, sobretudo, nas suas fantásticas e inesquecíveis pirâmides e na possibilidade de viajarmos até ao passado guiados pela história de uma das maiores civilizações pré-hispânicas, ao mesmo tempo que o fazemos num lugar com um ambiente paisagístico tão soberbo.

Tenochtitlán, a Cidade do México pré-hispânica

Não fosse já a Cidade do México suficientemente rica e interessante em história e atracções, há apenas 41 anos, em 1978, foi descoberta de forma fortuita a cidade antiga de Tenochtitlán. E onde, exactamente, se situava essa cidade pré-hispânica? Nada mais nada menos onde é hoje o Zócalo. Ou seja, os espanhóis chegaram, derrubaram os mexicas, destruindo a cidade deles e construindo a sua nova cidade precisamente em cima da antiga. Mais, utilizaram para os seus edifícios a pedra dos edifícios destruídos.

O Templo Mayor da antiga Tenochtitlán fica, então, mesmo ao lado da Catedral. Não temos no local uma grande percepção da antiga Tenochtitlán – ao invés, o Museu de Antropologia é fantástico nesse sentido – e os trabalhos arqueológicos continuam e a cada momento são descobertos novos dados que permitem perceber melhor aquela civilização.

Tenochtitlán constituía para os mexicas, termo mais correcto do que aztecas, o centro ou umbigo do mundo. Antes da chegada ao que é hoje a Cidade do México, porém, o povo mexica era nómada e andaria em migração há mais de 200 anos até ao momento da aparição de uma águia, representante do Deus solar Huitzilopochtli (o seu Deus principal), sobre um nopal (planta do cacto) a devorar uma serpente no meio de uma lagoa que lhes indicou onde deveriam assentar definitivamente. Isto passou-se em 1325 e a lenda da fundação da antiga Tenochtitlán é hoje imagem da bandeira do México, a águia pousada no nopal agarrando a serpente.

Os mexicas assentaram então a sua cidade em ilhas lodosas de numa lagoa rodeada de pequenos vulcões. Hoje não se vê qualquer lago mas os vulcões continuam presentes na paisagem. Foi mais fácil aos espanhóis construírem sobre a água do que arrasarem os vulcões. O que acontece é que essa decisão tomada no século XVI de construir uma cidade sobre a água tem ainda hoje, no século XXI, consequências terríveis nas frequentes inundações e os vulcões lá continuam a prover a cidade de terramotos igualmente frequentes.

A zona arqueológica do Templo Mayor e museu adjacente conservam in loco restos do principal edifício mexica, precisamente o Templo Mayor, e outros que formavam parte do centro cívico cerimonial desta cidade.

Este lugar era um espaço sagrado, o tal umbigo do cosmos, do qual partiam as quatro calçadas que planificavam a cidade e que por sua vez representavam simbolicamente os rumos do universo. Aqui se reunia o povo mexica para participar nas cerimónias políticas e religiosas mais importantes. O Templo Mayor mostrava a visão dual sobre o cosmos e era uma imagem do império, o qual foi crescendo à medida que Tenochtitlán ia ganhado poder. A sua época de maior esplendor deu-se no século XV.

A cosmovisão dos mexicas baseava-se na terra, habitada pelo Homem num ambiente natural rodeado de plantas e animais, todos vivendo num lugar central. Sobre este encontrava-se um plano celeste e, por baixo, o inframundo. A dualidade foi o fundamento em que os mexicas se apoiavam para explicar e ordenar o cosmos, entendendo ser este composto de forças opostas e complementares, as quais necessitam umas das outras, pois ao encontrarem-se dariam lugar ao movimento. Exemplificando, o sol destrói a escuridão e a lua traz de novo a noite.

Crê-se que o Templo Mayor fosse sendo ampliado a cada determinado tempo, construindo-se a cada vez uma pirâmide sucessivamente maior do que a anterior como forma de demostrar a grandeza e riqueza dos novos senhores.

Ou seja, apesar de não se perceber com clareza no local, havia aqui um edifício sobre uma grande plataforma, as famosas pirâmides imagem de marca de quase todos os sítios arqueológicos no território do México. Deste grande edifício e da cidade de Tenochtitlán como um todo restam, assim, poucos vestígios. Mas dos que se têm vindo a descobrir, sobreviventes da invasão e destruição espanhola por parte de Hernán Cortés, e com base nos relatos das crónicas da sua armada, crê-se que a pirâmide do Templo Mayor terá medido 84m por 77m e terá tido uma altura de 45m. Por comparação, a Pirâmide do Sol de Teotihuacán possui de altura 66m, a Catedral Metropolitana 60m, a Pirâmide de Chichén Itzá 30m, o Partenón 14m e o Coliseu de 48,5m.

Como curiosidade, diga-se que os mexicas desenvolveram a partir do século XIV um sistema de cultivo em cima da água, através de canais de irrigação e um sistema de chinampas que ainda hoje se vê em Xochimilco. O milho era já na época – foi sempre? – a alma do povo, o alimento mais importante, facto bem expresso no dito mexicano “sin maíz, no hai país”.

E porque é que Tenochtitlán caiu tão facilmente às mãos dos espanhóis em 1521, ela que à sua chegada era maior do que qualquer cidade espanhola dessa época? A historiografia e os mexicanos em geral não se põem de acordo acerca do papel que Moctezuma II teve à chegada do invasor espanhol, Hernán Cortés. Diz-se que Moctezuma acreditava ser Cortés o Deus Quetzalcoatl (a serpente emplumada) e por isso não só o deixou aproximar e recebeu-o bem como deixou-se levar pelas suas exigências. Acabou feito prisioneiro e até hoje se discute se reagiu ou acabou morto sem defender o seu povo.

Por isso, para uns (maioria) Moctezuma II é uma figura não grata e Cuauhtémoc, seu sobrinho e sucessor, um herói por ter lutado contra os espanhóis até à morte.

Mais do que no Templo Mayor – embora aqui se percebam alguns elementos decorativos e no ano passado tenha sido encontrado um muro com fragmentos de crânios – é no Museu de Antropologia que estão reunidos os objectos decorativos mais incríveis desta civilização mexica, bem como maquetes recriando-a.

Entre as diversas soberbas esculturas e recipientes cerimoniais, a Pedra do Sol é a peça mais emblemática. À semelhança dos outros povos pré-hispânicos, os mexica prestavam culto ao sol, considerando que a luminosidade e o calor do sol significava vida. Assim, a Pedra do Sol servia como altar que sustentava a luta dos guerreiros nas cerimónias de sacrifício. A figura do desenho deste disco é a de Xiuhtecuhtli, o senhor do fogo que presidiu ao nascimento do sol.

Cidade do México, o paraíso dos muralistas

O muralismo mexicano teve origem por iniciativa de José Vasconcelos, enquanto reitor da Universidade Nacional e Secretário da Educação Pública. José Vasconcelos (cuja Biblioteca do México, no complexo da Ciudadela, instalada numa antiga fábrica de tabaco do século XVIII, leva o seu nome e possuiu belíssimas salas com espólio de grandes autores mexicanos), defendia que as artes visuais eram parte substancial da revolução cultural e educativa de que a população necessitava para ampliar a sua percepção do mundo. Daí o motivo pelo qual os murais deveriam estar à vista de todos nos edifícios públicos. E, já agora, expressar uma visão comprometida com a cultura e identidade do povo mexicano. Diego Rivera, um dos três grandes muralistas mexicanos, ao lado de David Alfaro Siqueiros e José Clemente Orozco, levou este comprometimento quase aos limites, e a sua ideologia marxista é visível em muitos murais. De tal forma que uma encomenda para o Rockefeller Center, em Nova York, acabou por ficar inacabada por ter sido recusada pela sua crítica directa ao capitalismo e endeusamento do socialismo. Parte deste mural foi mais tarde recriado e está hoje no Palácio das Belas Artes da Cidade do México.

Não é apenas na Cidade do México que se pode observar esta arte mural. Pelas outras cidades onde andámos, nomeadamente Guanajuato e Oaxaca, também encontrámos exemplares desta expressão artística. Mas a Cidade do México é o seu lugar por excelência e onde estão as grandes obras e artistas.

No Palácio Nacional:

Na escadaria principal do Palácio Nacional, Diego Rivera produziu um conjunto magistral de murais entre 1929 e 1935. É um tríptico dividido por três grandes áreas cronológicas sob o signo da “Epopeia do Povo Mexicano”, no qual manifesta a sua interpretação da história do México.

No muro norte, à direita, em “O México Antigo”, de 1929, Quetzalcóatl é representado como tlatoani, adornado com plumas de quetzal. Em cima a serpente emplumada emerge do vulcão para se converter numa estrela e Quetzalcóatl, após ser derrotado pelo Deus, retira-se num barco-serpente até ao Oriente, donde se crê, segundo a mitologia, que regressará um dia.

No muro central fica o mural “Da Conquista a 1931”, onde é explícita a crueldade da conquista espanhola e da cristianização dos indígenas.

No muro sul, à esquerda, “México de hoje e amanhã”, é um trabalho executado entre 1934 e 1935. Neste mural Rivera mostra a ideologia marxista com uma crítica à pós-revolução. Os poderes civis, militares e eclesiásticos, aliados com os grandes capitalistas, sugam o trabalho e o dinheiro do povo. As forças fascistas reprimem os trabalhadores e os camponeses. Na parte superior, a luta de classes e a destruição da igreja dá lugar a um novo amanhecer liderado por Marx que aponta um futuro ideal iluminado por um sol promissor. Neste emaranhado de personagens consegue-se vislumbrar até Frida Khalo.

No piso superior deste Palácio encontramos ainda mais uma série de belos murais também de Rivera, pintados entre 1941 e 1951, com o título de “O México Colonial e Pré-Colonial”. Aqui é representado o dia-a-dia das culturas pré-hispânicas e a Conquista do México por Hernán Cortés. Interessante apreciar a técnica aqui usada, com o mural colorido acima e um friso decorado com materiais mais tradicionais na parte mais baixa. O milho é figura quase constante nos murais de Rivera, como alimento primordial desde sempre. No México há, aliás, um dito eloquente: “Sin maíz, no hay país”.

Na Secretaria de Educação Pública:

Mais uma grandíssima colecção de murais se Rivera, quer em quantidade como em qualidade. São 235 murais que ocupam quase por inteiro as paredes dos dois andares dos dois pátios deste edifício público.

“Visão Política do Povo Mexicano”, executado entre 1923 e 1928, expressa pela primeira vez uma iconografia revolucionária para o México. Está lá uma homenagem à herança índia, representando festas tradicionais, cenas do trabalho no campo, trabalho artesanal e industrial, luta por melhores condições de vida.

Frida, claro, também pode ser encontrada num dos murais, de estrela vermelha ao peito distribuindo armas aos trabalhadores, por baixo da bandeira do Partido Comunista, para que lutem. Num outro mural uma homenagem a grande nomes da cultura internacional, como Tagore.

No Palácio de Belas Artes:

No interior art-deco deste mega palácio das artes estão expostos murais de diversos artistas mexicanos. E é sobretudo para os vermos que aqui vimos, não tanto pelas suas exposições. São 17 murais pintados por 7 artistas mexicanos. Este é o único local onde podemos admirar num só espaço obras dos três grandes muralistas mexicanos: Rivera, Orozco e Siqueiros.

De Diego Rivera, o tal mural reconstruído que havia sido encomenda para os Rockefeller, “O Homem Controla o Universo”, de 1934. Aqui projecta um futuro onde a tecnologia e as máquinas dominarão, sob o olhar de Lenine. E ainda de sua autoria estão aqui os murais de “Carnaval da Vida Mexicana”, de 1936.

“A eterna luta da Humanidade por um mundo melhor”, ou simplesmente “Katharsis”, de Orozco, de 1934-1935, é uma crítica à sociedade de massas e aos perigos do desenvolvimento tecnológico. Vêem-se cenas de caos e violência.

Mas as imagens mais brutais e expressivas vêm da arte de Siqueiros. São cinco os seus murais aqui presentes, mas recordo mais vivamente a mulher ruiva que se liberta das correntes como representação da vitória da democracia sobre o jugo alemão no final da II Grande Guerra Mundial. Este mural tem o título “Nova Democracia” e a seu lado estão os também poderosos “Vítimas da Guerra” e “Vítimas do Fascismo”, todos realizados em 1945.

De Jorge González Camarena é o mural “Libertação da Humanidade que se liberta da miséria”, de 1963. Representa a opressão aos camponeses e a violência e a sua luta para derrubar os símbolos dessa opressão.

No Palácio das Belas Artes estão ainda presentes murais de Rufino Tamayo, Manuel Rodríguez Lozano e Roberto Montenegro.

No Museu Mural Diego Rivera:

Realizado originalmente para o átrio de entrada do Hotel del Prado, “Sonho de uma tarde de domingo na Alameda Central”, de 1947, é uma representação da história do México a desfilar pelo cenário da Alameda Central, zona de passeio e lazer do centro histórico da capital mexicana. Em 15 metros parecem caber todas as personagens que construíram a história do México. O próprio Rivera representa-se a si mesmo por duas vezes, em miúdo, de mão dada com a Caveira Catrina, e em mais velho. Frida está uma vez mais presente, precisamente entre o miúdo e a caveira, com o símbolo yin-yang numa das suas mãos.

Na Suprema Corte de Justiça (sem fotos) está o mural mais impressionante que pudemos conhecer em toda a nossa viagem pelo México: “História da Justiça no México”, de Rafael Cauduro, realizado entre 2006 e 2009.

Tudo nele surpreende, começando logo pelo local onde está exposto. A sede de um poder do Estado acolher uma denúncia a esse mesmo poder só nos pode fazer gostar mais do México e dos mexicanos. O mural de Cauduro está disposto em três níveis da escadaria de uma ala desta Corte e na sua crítica ao sistema judicial mostra-nos a luta pela dignidade humana no que respeita à força ilegítima do Estado. Não é fácil confrontarmo-nos com algumas destas imagens extremamente violentas e realistas com as quais o autor pretendeu retratar os “Sete Crimes Maiores”, a tortura, o homicídio, a repressão, o sequestro, a violação, os processos viciados e a prisão. Ao vê-las, é como se estivéssemos presentes no momento e lugar dessas arbitrariedades e, dito isto, cumpre-se na perfeição certamente o objectivo da arte: sermos seus cúmplices e suas testemunhas.

[De Rafael Cauduro podem ser vistos outros murais na cidade: a obra “O Condomínio”, de 2014, na fachada do prédio no número 62 da Calle Veracruz, em Condesa, igualmente realista mas menos violenta e até divertida na forma certeira como retrata alguns detalhes da vizinhança num condomínio; e as obras nas estações de metro Insurgentes e Auditorio]

Ainda na Suprema Corte de Justiça, na sala dos Passos Perdidos encontramos os quatro painéis murais de Orozco. Embora não realisticamente violento, o seu trabalho é também um crítica à justiça e na época da sua criação, 1941, ainda se pensou vetá-los. Mas não, seguem aqui para serem vistos por todos nós.

Mais apologético da justiça é o trabalho de Luis Nishizawa, de 2008, com a representação de uma justiça determinada e sem venda e uns cavalos focados em vencer em nome do povo mexicano.

(para esta nossa colecção, ficou a faltar a visita a um cromo importante, o Antigo Colégio de Santo Ildefonso)

Um passeio pela Cidade do México

O Zócalo é o centro do centro histórico da Cidade do México, para onde tudo e todos convergem, deste os visitantes, aos locais e aos activistas que aqui escolhem protestar. A entrada na Plaza de la Constitución, seu nome oficial, é esmagadora. A enorme bandeira do México que flutua firme ao (pouco) vento é só um detalhe. É tudo tão desmesuradamente grande aqui, 220m por 240m de praça, que fica difícil escolher para onde dirigir primeiro o olhar, se para a Catedral Metropolitana, para o Palácio Nacional, para as arcadas sucessivas dos edifícios que a rodeiam ou, tão somente, para a multidão que ocupa a praça central. Apesar da beleza arquitectónica do lugar, é o movimento e o entusiasmo das suas gentes que começam por roubar a atenção. Todos parecem querer pousar para a foto da praxe e depois deixam-se estar por ali a vaguear, no meio dos vendedores ambulantes.

O Zócalo foi onde os espanhóis teimaram em construir a sua cidade no século XVI, bem sobre a cidade conquistada aos Mexicas (Aztecas) e utilizando a pedra dos edifícios destruídos. Embora os arqueólogos já soubessem da existência desta cidade pelas crónicas dos conquistadores, apenas em 1978 foram descobertos por acaso vestígios da antiga Tenochtitlan e, numa decisão não isenta de polémica, logo foi decidida a destruição de cerca de 13 edifícios (alguns deles do século XVI) para se estudar e deixar à mostra parte do que foi o Templo Maior dos Mexicas. Ou seja, a cidade dos Aztecas lado a lado com a cidade colonial. Ambas convivendo hoje solidariamente e resultando no que é o México dos nossos dias, um povo sobretudo mestiço, mais herdeiro dos espanhóis do que dos indígenas quase na totalidade dizimados por aqueles ou pelas doenças.

A Catedral Metropolitana é, como não podia deixar de ser, grandiosa quer no seu exterior quer interior. Iniciada a sua construção em 1573, vários estilos estão representados na sua fachada. Possui dois altares que reluzem, mas o Altar dos Reis, ao fundo da Catedral, é uma maravilha. Pelo meio, diversas capelas não menos ricas.

À sua porta diversos grupos com indivíduos trajados de aztecas dançam e cantam e lançam copal, purificando as pessoas que se propõe a ser purificadas, deixando um fumo e um odor tão intenso no ar que depois de apreciarmos por breves momentos este folclore local decidimos seguir para o Palácio Nacional.

O Palácio Nacional, que domina todo o flanco direito do Zocalo, é desde a sua origem um palácio. Após a conquista da cidade em 1521, Hernán Cortés decidiu construir um palácio com três pátios e uma horta bem sobre o teclan – o palácio nobre – de Moctezuma II. O seu herdeiro acabou por vender este palácio à Coroa espanhola para que servisse de sede do governo do vice-rei e habitação da sua família. Assim, no século XVII este Palácio Real (constituído por salas da Real Audiência, Casa da Moeda, tribunais, prisão e capela) juntamente com a Catedral e o Ayuntamiento formavam os edifícios dos poderes civis e religiosos do reino da Nova Espanha. A sua importância histórica para os mexicanos releva ainda do facto de ter sido aqui, na sua belíssima Assembleia, que se aprovou a Constituição de 1857. E sobretudo para nós, comum dos mortais viandantes interessados em história e em arte, é aqui que podemos apreciar um dos conjuntos de murais mais soberbos da autoria de Diego Rivera, quer na escadaria principal do Palácio, quer no seu segundo piso.

O muralismo é fortíssimo no México e este foi apenas o nosso primeiro contacto com esta arte espalhada por muitos edifícios públicos e, até, privados. Pode dizer-se, o muralismo é omnipresente na cidade e uma atracção com muita qualidade só por si e, por isso, dedicar-lhe-emos um post autónomo. Adiantaremos, no entanto, que no Palácio Nacional pintou Diego Rivera, entre 1929 e 1951, a representação da civilização mexicana desde a chegada de Quetzalcóatl até ao período pós revolucionário, materializada nas suas obras “El México Antiguo“, “Epopeya del pueblo mexicano” e “De la conquista a 1931” (todas na dita escadaria), para além de diversos outros murais de temática mexicana.

A Suprema Corte de Justiça, também no Zócalo, é outro ponto obrigatório de visita. Com visitas mais apertadas dado o edifício ser lugar de expediente, tivemos de fazer um choradinho para nos deixarem entrar ao sabermos que havia fechado há poucos minutos e que encerraria durante uma temporada para férias judiciais. O choro valeu a pena. Proibidas as fotos, guardaremos para sempre na memória e na alma a pungente obra de Rafael Cauduro, “A História da Justiça no México”, nomeadamente, “Os sete crimes capitais”. É uma denúncia e crítica aos desmandos do Estado sobre a sua própria população, e surpreende a abertura com que os poderes judiciais acolheram a representação desta visão desassombrada na sua casa. Numa pintura absolutamente realista vemos corrupção judicial, prisão bruta, tortura, condições de encarceramento desumanas e muitas outras imagens todas elas aterradoras ao longo da escadaria de uma das alas desta Corte. Também estão presentes murais de Orozco e de outros artistas não mexicanos neste edifício.

A Secretaria de Educação Pública, nas traseiras do Zócalo, possui mais uma enorme série de trabalhos fantásticos de Diego Rivera. Mas a visita vale igualmente a pena pela tranquilidade e beleza dos seus pátios.

Aqui chegadas, junto à Plaza de Santo Domingo já tínhamos percebido muito do ambiente de feira nas praças e ruas do centro histórico. Muita banca de comida de rua a rivalizar com espaços mais formais de restauração. Tacos, churros, nieves, jugos, a escolha é variada.

Do Zócalo devemos seguir pela Calle Madero até à Alameda Central. Nesta rua o movimento não decresce, pelo contrário, são magotes a disputar o piso desta rua pedonal nem muito estreita nem muito larga e cheia de lojas. Este movimento quase nos distrai dos edifícios que vão aparecendo, uns em estilo neoclássico, outros barrocos, uma igreja aqui, outra ali.

Impõe-se uma paragem no Palácio de Iturbide, o qual foi residência do primeiro imperador do México independente. Hoje Palácio de Cultura Banamex, é um centro de actividades artísticas e educativas que acolhe exposições (tocou-nos a excelente mostra retrospectiva de 45 anos de trabalho – 1972-2017 – de Graciela Iturbide, fotógrafa premiada e exposta internacionalmente, e pudemos até descobrir umas fotos da nossa Lisboa).

Quase à frente deste palácio fica a Casa dos Azulejos, edifício do século XVI coberto de azulejos azuis que, conta-se, vieram directamente da China.

Nas traseiras a pequena mas esplendorosa Praça Tolsá, coberta de palácios imponentes em estilo renascentista.

Aliás, o Centro Histórico do México é mais feito de edifícios monumentais e imperiais do que edifícios coloridos com janelas, portadas e balcões que costumamos identificar nas cidades coloniais espanholas. Na verdade, o México foi construído para ser a capital da Nova Espanha e não apenas uma cidade colonial.

E eis que chegamos à ultra-movimentada Alameda Central, onde domina o Palácio das Belas Artes, talvez o mais icónico edifício da cidade. É um enorme palácio em mármore, com uma cúpula com umas deliciosas cores, construído em 1905 para servir de espaço de concertos e exposições. Se o seu exterior é neo-clássico, o interior é art-deco e tem mais uma série de murais de todos os grandes mexicanos.

No início da Alameda podemos subir ao 44° andar da Torre Latino-americana, construída em 1956 e então o mais alto edifício de toda a América Latina, para confirmar a largueza e infinitude da cidade.

A Alameda Central, um enorme parque com árvores e fontes que se propõe a ser a delícia dos domingueiros, foi ainda tornada famosa pelo mural pintado por Rivera e que hoje podemos ver exposto no Museu Mural Diego Rivera. Aqui só está patente esta obra, “Sonho de uma tarde dominical na Alameda Central”, mas que obra. Com ela, Rivera conseguiu absorver e condensar num só capítulo grande parte da identidade e cultura do México e aí representar as suas personagens principais. Mais um momento alto da arte a representar a vida.

E por falar em identidade e cultura, o Museu de Arte Popular é mais um dos lugares imperdíveis da cidade. Sendo a arte popular um reflexo da sociedade e da cultura dos povos e uma forma de estes se auto-retratarem, este é um bom lugar para se conhecerem tradições ancestrais através de elementos artísticos. Vemos aqui diversos objectos, uns com funções utilitárias e outros meramente decorativos, mas todos eles carregados de um simbolismo tocante, quer no que respeita aos domínios da vida como da morte, sendo que esta última é encarada pelos mexicanos como parte complementar da primeira, uma evolução para o eterno. Por isso que no México o Dia dos Mortos assume um carácter festivo e a figura das caveiras está por todo o lado.

No post introdutório à Cidade do México, tínhamos referido que esta se expandiu tanto que foi aglutinando as povoações cercanas que lhe apareceram no caminho. Ligadas por grandes auto-estradas urbanas e anéis periféricos que nos fazem quase sobrevoar de carro a cidade, hoje estas povoações são bairros ou colónias que fazem parte da cidade. Embora o ambiente que aqui se viva não tenha nada a ver com o do Centro Histórico e, à partida, possamos pensar que este é um outro México. Ou talvez não, talvez o nosso pré-conceito é que nos leve a pensar tal. O que é certo é que um europeu se sentirá facilmente em casa nos elegantes bairros de Condessa, Roma ou Polanco. Bairros feitos de edifícios baixos, alguns deles de arquitectura art déco e com fachadas trabalhadas de forma artística, com passeios e alamedas centrais que convidam a caminhar por entre as árvores, cheios de restaurantes e esplanadas. Amiúde surge um parque.

Novos e velhos passeiam tranquilamente, empurrando os carrinhos de bebé ou levando pela trela os seus cães, atestando que esta é uma cidade segura. Condessa é já um bairro centenário e uma boa paragem para se saborear um gelado na sua Nieveria Roxy, aberta desde 1946, na Rua Mazatlan, cujo significado é “o lugar onde abundam os veados”. Roma, para além de ser a colónia que Alfonso Cuarón representou no seu filme oscarizado, foi por onde Jack Kerouac andou quando visitou a cidade nos anos 50. Estes bairros têm diversas livrarias e cada um deles possui uma filial da Cafebrería Pendulo, misto de café e livraria cuja arquitectura interior é levada a extremos de bom gosto em Polanco.

Polanco Novo, pedaço que prova a infindável expansão da cidade, permite-se à construção massiva em altura e é dono de dois edifícios para os amantes de arquitectura e museus. O Museu Jumex, de linhas pacíficas do inglês David Chipperfield, e o Museu Soumaya, de forma irreal. O Jumex acolhe exposições de arte contemporânea, enquanto que o Soumaya, oferta de Carlos Slim, o homem mais rico do mundo, mexicano, aos seus compatriotas, alberga tudo e mais alguma coisa. É uma confusão de obras de arte de todos os tempos num só espaço que, concluímos, o homem pode saber fazer dinheiro em grande, mas não consegue escolher apresentar poucas obras à vez.

Mas de todos os bairros do México, Coyoacán será aquele que todos os visitantes não querem perder. Berço de intelectuais de esquerda, situado não muito distante da Cidade Universitária, onde fica a Universidade Nacional Autónoma do México, a maior da América Latina, foi em Coyoacán que Hernán Cortés escolheu viver no princípio da sua conquista. A sua praça-jardim larga com igreja igualmente larga é o ponto central deste bairro feito, uma vez mais, de casas baixas e discretas que da rua não deixam ver o recolhimento que se viverá no seu interior. Mas os turistas e mexicanos vêm a Coyoacán sobretudo porque é aqui que fica a Casa Azul de Frida Khalo. É uma autêntica romaria e formam-se filas infindáveis ao longo dos muros azul índigo para entrar na casa tornada museu. Uma advertência: é obrigatório comprar bilhete antecipadamente na internet se não se quiser esperar à volta de 2 horas na fila.

Frida (1907-1954) tornou-se uma artista popular apenas nos anos 80 e essa sua popularidade disparou universalmente após o filme de 2002 protagonizado pela também mexicana Salma Hayek. É comovente ver os magotes de brasileiros falarem com os seus filhos pequenos acerca de Frida como se esta fosse uma amiguinha da escola. Mas, no fundo, é isso que Frida hoje representa, uma personagem próxima cuja imagem está em toda a parte. Transcendeu em muito a sua obra.

A Casa Azul foi onde Frida nasceu, viveu e morreu. Mulher indomável, foi capaz de viver com a adversidade, primeiro a poliomielite e depois um acidente de autocarro, com a dor que mais de 20 cirurgias não atenuaram e com as traições do seu grande amor, Diego Rivera, incluindo com a sua irmã. Na Casa Azul conhecemos mais do seu percurso de vida através de diversos objectos e da sua obra. A fotografia e os vestidos típicos de tehuana eram duas das suas paixões e imagem de marca, a que não são alheios os factos de o seu pai ter sido fotógrafo e a sua mãe oaxaquenha. O jardim da Casa Azul é outro momento alto da visita, com muito verde e muitos objectos artísticos da época pré-hispânica.

Não saímos de Coyoacán sem passarmos da Calle Londres para a Calle Viena e visitarmos a sua outra Casa Museu famosa, uma casa fortaleza, nem de propósito, a de um dos amantes de Frida. Frida é tão grande que a maior parte das pessoas que vem ao bairro ou não sabe quem é Trotsky ou o conhece apenas como o amante de Frida. Talvez antes assim (falo com a propriedade de quem na juventude lhe deu na cabeça de votar PSR).

Para finalizar este passeio pelo México, juntemo-nos a grande parte dos 20 milhões de habitantes da cidade e, sem receio, rumemos ao Parque / Bosque de Chapultepec num domingo. O grande pulmão verde da cidade é conhecido como o Central Park mexicano. São 4 km2 de área. Na impossibilidade de o percorrer todo, ficámo-nos pela sua zona mais popular, junto aos lagos, castelo e museus. No Museu de Arte Moderno podemos ver obras dos grandes pintores mexicanos, como Frida Kahlo (incluindo a sua obra maior, Duas Fridas), Diego Rivera, David Alfaro Siqueiros, Orozco, Rufino Tamayo e mais uma série de artistas contemporâneos.

E no Museu de Antropologia tomamos uma decisão: há que voltar ao México – à cidade, para descobrir repetidas vezes e por inteiro este que é, sem dúvida, um dos grandes museus do mundo; e ao país, para descobrir todas as suas muitas e variadas culturas pré-hispânicas.

A Cidade do México

A primeira impressão da Cidade do México, doravante apenas México, como todos os mexicanos se lhe referem, é nos dada logo das nuvens, à chegada do avião. Esta vista de pássaro mostra-nos um contínuo de estradas e construções apenas interrompidas por uns quantos vulcões hoje extintos que salpicam a paisagem. Muitas das vezes, vamos percebendo com o tempo e as viagens já cá em baixo, nem os montes impedem o impulso construtivo. Todo o pedaço de terra serve e é necessário nesta cidade de mais de 20 milhões de habitantes.

À saída do aeroporto em direcção ao centro da cidade percebemos uma típica cidade latino-americana. Trânsito, estradas com arredores pouco qualificados, vendedores ambulantes em cada esquina ou mesmo no meio do asfalto – porque o trânsito lhes permite. Mas esta percepção, vamos percebendo também com o tempo, é algo precipitada. Esta não é uma cidade como as outras capitais latino-americanas. O México, apesar do seu crescimento descontrolado no século passado que foi agregando diversas povoações ao redor, fazendo delas seus bairros (e, por isso, na cidade encontramos ruas com o mesmo nome), é uma cidade organizada, monumental e bem conservada. Possui um centro histórico único, bairros residenciais com um ambiente de fazer inveja a qualquer europeu (como Condessa, Roma, Polanco e Coyoacán) e diversos museus de topo, um dos quais, o Museu Nacional de Antropologia, tão ou mais impressionante do que o Museu Britânico, o de Antropologia de Atenas ou os primos da Ilha dos Museus de Berlim. E tudo isto com uma colecção feita de objectos exclusivamente encontrados no seu país.

Tão imensa é a cidade que não se pode ter a pretensão de tudo ver. As escolhas impediram, por exemplo, de conhecer o campus da Cidade Universitária, lugar classificado pela Unesco e lugar onde numa das suas casas de banho se passa a inesquecível cena em que a Auxílio dos Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño, presencia os tumultos entre a polícia e os estudantes acontecidos em 1968.

Sorte que para nos deslocarmos entre as grandes distâncias temos os táxis, baratos e seguros, mas com muita possibilidade de se apanhar trânsito na hora de ponta. Quer isso dizer que devemos recorrer ao metro em hora de ponta? Sim, por uma vez sim, para se ter uma daquelas experiências de vida. O metro do México, aquele que tem carruagens especiais para mulheres onde elas vão tranquilamente a maquiar-se durante a viagem, o metro do México, aquele onde apesar dos avisos de “proibida a presença de vendedores ambulantes nas carruagens” se aproveita para comprar e vender chicletes e brinquedos, o metro do México, esse, em hora de ponta não cabe lá sequer a figura icónica do senhor do metro de Tóquio que empurra os passageiros para dentro das carruagens. Porque na hora de ponta no metro do México os passageiros começam a amontoar-se antes de chegarem à carruagem, antes mesmo de chegarem à plataforma, digamos que aí por alturas do início dos corredores que hão-de fazer-nos chegar aí perto.

Mas foi muito antes de alguém sonhar com transportes como o metro que a actual Cidade do México se começou a desenhar.

À chegada dos espanhóis à cidade, em 1521, Hernan Cortes, depois de enganar Moctezuma (ou de este se ter deixado enganar, a história não é certa), decidiu construir a sua nova cidade no Novo Mundo precisamente em cima da cidade que tomou, a Tenochtitlan, a cidade dos Aztecas. Detalhe: os Aztecas, cuja designação rigorosa é Mexicas, tinham a sua cidade construída numa zona preenchida por vários lagos e os espanhóis, sem querer saber, construíram a sua cidade por cima dela e foram aterrando tudo à volta. Resultado: ainda hoje os chilangos tem água por baixo de si e sofrem com frequência as inundações de um péssimo planeamento urbano. Não é de admirar, pois, que muitos edifícios, qual Torre de Pisa, se vejam tortos a olho nu, para o que também terão contribuído os diversos sismos que assolaram a cidade.

Assim, o Zócalo, designação utilizada por todo o México (país) para a praça central da cidade, é, ao mesmo tempo, o centro da actual cidade e o centro da cidade pré-hispânica de Tenochtitlan. É por aqui que iniciaremos o nosso périplo pelo México.

A Bailar pelo México

Os próximos tempos aqui no Andes Sem Parar serão dedicados ao México.

https://open.spotify.com/user/susanatsantos/playlist/2vyoWADqOWu9uOYGNqX5bz?si=3poafWijREW51aByLy0qRw

Para embalar, eis uma selecção musical.

Antes da viagem, que sabíamos do México? Para além do “Bamos lá Cambada” que nos guiou até ao México 86 antes da greve dos nossos jogadores e do golaço de Negrete que lhe deu o bilhete para jogar um episodicamente em Alvalade, temos o La Bamba que no seu tempo ouvimos até à exaustão, as pirâmides Maias como interlúdio entre mergulhos no mar das Caraíbas, a Frida tornada pop-star, Roma como nome de bairro da Cidade do México dada a conhecer-nos pelo vencedor do Óscar de melhor Realizador deste ano e uns quantos restaurantes que se tornaram obrigatórios na cena gastronómica lisboeta.

Com a banda sonora agora proposta vemos que o México é muito mais do que o La Bamba e umas músicas de mariachis. Na verdade, umas quantas músicas intemporais surgiram aqui e foram cantadas por nomes universais.

País imenso e variado, uma língua de terra virada tanto para o Atlântico, através do Mar das Caraíbas, como para o Pacífico que ocupa quase toda a América Central, no México fala-se espanhol, mas com esta viagem ficámos a saber que ainda se falam outras línguas e que, sobretudo na região de Oaxaca, muitas são as etnias que ainda resistem na preservação da sua identidade cultural. E ficámos ainda a saber que não apenas os Maias construíram pirâmides. Uma viagem ao México é, pois, também muito mais do que praia. Mas se insistimos em iniciar a banda sonora pelo La Bamba, também não resistimos a uns dias junto à infinita costa mexicana.

Dito isto, com a bagagem ocupada pela dureza agreste de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e a loucura citadina dos Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño, o nosso itinerário no país de Carlos Fuentes e Octávio Paz passou, em primeiro lugar, pela sua capital, Cidade do México (ou apenas México, para os locais), pelas cidades coloniais de San Miguel de Allende e de Guanajuato (que levaram Hernán Cortés e seus seguidores ao centro do México na busca incessante do ouro e da prata), pela festiva Oaxaca (Julho é o mês da Guelaguetza) e pelas praias de Puerto Escondido (a onda de Zicatela é das mais tubulares do mundo).

Mais importante do que tudo, no fim desta viagem sabemos e podemos afirmá-lo com toda a segurança: o México por onde andámos – com a sua capital à cabeça – é hoje um país seguríssimo (não extrapolar a afirmação para o norte fronteiriço com os EUA). Apanhar um táxi na rua, por exemplo, não requer mais do que um esticar de braço, sentar no banco, aguardar a viagem e abrir a porta na chegada ao destino. E confiar que o preço apresentado é o justo e seguir a bailar, que para além de simpáticos e bons anfitriões, os mexicanos gostam é de uma boa música que nos alegre a vida, que a morte, essa, é certa e não se receia, como nos ensinou Coco.

Os Amigos do Alva

E porque um grande rio não se torna grande sem os seus amigos, de seguida apresentam-se alguns dos companheiros do Alva que a determinado ponto a ele se juntam no seu caminho até à foz no Mondego. Aos seus amigos Rio Alvôco, Ribeira de Loriga e Ribeira do Piodão dedicarei, então, algumas linhas.

O Rio Alvôco nasce na Serra da Estrela, em Alvôco da Serra (e desagua no Rio Alva, na Ponte das Três Entradas). Um pouco mais a norte, Loriga vê passar por si a Ribeira de Loriga, afluente do Rio Alvôco. São muitos nomes, mas há que fixar estes dois: Alvôco da Serra e Loriga, duas povoações de montanha com uma daquelas implantações geográficas de tirar o fôlego.

Mas porque de rios se trata este texto, eis a praia fluvial de Loriga. No vale glaciar de Loriga, o enquadramento é grandioso e perfeito, com a montanha acidentada nas costas. Várias piscinas de água cristalina se formam ao redor de rochas esbeltas. Não é preciso um dia de frio para que as águas sejam gélidas, mas o cenário vale qualquer tiritar.

Antes da Vide (onde pouco antes a Ribeira de Loriga se encontra com o Rio Alvôco), no lugar da Barriosa fica um dos pedaços mais épicos do Rio Alvôco: o Poço da Broca. É uma sucessão incrível de cascatas que caem de uma falha na terra. Acima das cascatas o rio corre sereno e abaixo delas forma-se um largo lago onde se pode nadar tranquilamente, apenas com a perturbação do som da água a jorrar. Vale a pena uma curta caminhada até ao topo da cascata, em ambiente serrano e agrícola, e uma refeição no restaurante rústico Guarda-Rios.

Em Alvôco das Várzeas fica à praia fluvial de mesmo nome. Aqui o cenário vem acompanhado da mesma enorme natureza mas acrescentado por uma formosa ponte romana. Como não gostar de rios quando se tem estes lugares à disposição.

Para agravar, de volta à estrada aparecem-nos estas paisagens majestáticas.

Um aparte: a infelicidade pode trazer postais felizes. Os fogos de Outubro de 2010 mudaram em muito a paisagem por aqui. Montes e vales despidos, a cada dia o novo cenário foi sendo transformado pela força regeneradora da natureza. Mas isso deixou também à vista lugares antes escondidos pela intensa vegetação.

Por exemplo, Parente e a Moenda ficaram visíveis da estrada, acessíveis ao olhar de qualquer viajante. Como curiosidade, diga-se que lugares de nome Moenda abundam na região, remetendo para os tempos em que os lagares e os moinhos ainda laboravam à beira rio.

Por fim, Foz de Égua, o lugar onde a Ribeira do Piodão se encontra com a Ribeira de Chãs para, juntas, seguirem até à Vide e abraçarem o Rio Alvôco. Foz de Égua é hoje uma das praias fluviais mais desejadas do país. O cenário perfeito repete-se, mas agora à paisagem natural misturam-se as casas de xisto e telhados de lousa feitas pelo Homem. Não será o lugar mais ideal para uns mergulhos na maior parte do ano, uma vez que o caudal do rio não é muito forte e quase sempre a água não passa dos joelhos, mas este é provavelmente um dos lugares com rio mais magníficos para se ver e estar.