Uns castelos pela Beira

As regiões de Viseu e da Guarda possuem uma série de castelos que, em tempos, serviram de protecção da raia. Mas se de Espanha, hoje, já nem o dito “nem bom vento, nem bom casamento” assusta, muito menos o faz a defesa da fronteira. Ainda assim, os castelos ali seguem de pé, altivos e orgulhosos da sua história e prontos para fazer as delícias dos mais aventureiros.

Já se viu que sou fã de castelos. Muitos haveria a destacar, mas desta vez optarei por indicar apenas estes três, todos eles classificados como monumento nacional e todos eles doados por D. Flâmula ao Mosteiro de Guimarães no século X. Mas, mais decisivo para esta escolha, todos eles diferentes e verdadeiramente surpreendentes na sua forma.

Moreira de Rei, no concelho de Trancoso, é uma aldeia pequenina aberta a um vale a perder de vista com a silhueta de uns montes ao fundo. Diz que do alto do seu castelo, à noite, se distinguem as luzinhas de 52 povoados, um por cada semana do ano. O castelo de Moreira de Rei tem raízes longínquas, pelo menos desde o século X. Seria então uma estrutura defensiva rudimentar, mais de acompanhamento a uma povoação rural do que de salvaguarda militar. O actual castelo datará do tempo de D. Afonso Henriques e está hoje em ruína. Acontece que essa ruína é fantástica. São rochedos e mais rochedos, todos formosos, que se percebe ainda dar corpo a esta fortificação. É um aproveitamento certeiro dos recursos naturais em todos os aspectos, quer construtivos quer paisagísticos. A muralha resiste a espaços e não há torres, mas ainda assim é uma felicidade deambular pelo curto espaço interior deste castelo.

O castelo de Penedono é provavelmente o mais elegante e bonito castelo português. Na verdade, não se veem muitos castelos com esta forma no nosso território, quase a forma de um castelo de fadas. As suas origens remontarão igualmente ao século X, mas a sua actual configuração será uma reconstrução do século XIV, motivada por desejos de autonomia das gentes de Penedono em relação às rivais de Trancoso. De planta poligonal, este é um castelo-paço com cinco torres quadrangulares coroadas por ameias piramidais. O também conhecido como Castelo do Magriço (Álvaro Gonçalves Coutinho, guerreiro eternizado por Luís de Camões no “Os Lusíadas”) assenta sobre um afloramento granítico e é rodeado por uma baixa barbacã. Do seu pequeno interior obtém-se enormes vistas panorâmicas.

O Castelo de Numão é um castelo bem maior do que os anteriores. Uma constante, porém: as vistas magníficas que dele se alcançam, desta vez para a paisagem do Côa, para mim uma das mais épicas de Portugal. Localizado no concelho de Vila Nova de Foz Côa, a primeira referência a este castelo data igualmente do século X. Instalado no topo de um monte, o seu perímetro muralhado de forma ovalada irregular é extenso, cerca de 250 metros.

Andamos pelo mato rasteiro, damos de caras com uns cavalos a pastar e o seu dono a relaxar perante aquela paisagem imensa, ufano por nos informar ser Numão a terra de Dina Aguiar, vemos até as ruínas de uma igreja românica e uma cisterna e, por fim, arriscamos subir às muralhas e a uma das suas seis torres, dum total de 15 que em tempos existiram. Como se fôssemos um arqueólogo, não apenas em busca da história, mas também de mais um panorama. E que vista, esta.

Linhares da Beira

Da rede das 12 “Aldeias Históricas de Portugal”, Linhares da Beira era a única que ainda não tinha visitado (de todas as outras podem ser lidos posts escritos anteriormente neste blogue).

No vale do rio Mondego, perto da Serra da Estrela, Linhares é uma aldeia medieval do século XII. Antes disso, porém, terá tido origem num castro lusitano, foi visigoda e muçulmana, até que em 1169 D. Afonso Henriques lhe concedeu foral. Linhares foi crescendo com a época da Reconquista Cristã e manteve a sua importância para além dela, uma vez que a sua localização geográfica impunha que a Bacia do Mondego fosse protegida como retaguarda às fortificações da raia. O nome Linhares virá de “campo de linho”, cultura outrora forte na região.

Cortesia da evolução da sua ocupação ao longo dos séculos, pelas ruas de Linhares podemos testemunhar a presença de estilos arquitectónicos não apenas medievais, mas também quinhentistas – são estes que ainda perduram em grande número.

Mas o maior símbolo de Linhares da Beira será o seu castelo e é por aqui que iniciaremos o nosso passeio. À medida que vamos serpenteando pela estrada que nos leva até à aldeia vamos vendo o castelo de Linhares aproximando-se cada vez mais. Instalado num cabeço a 820 metros de altitude, alguma fortificação existia já até o actual castelo ter sido reformado no reinado de D. Dinis no século XIII.

Bem preservado, ainda hoje serve como que de vigia da aldeia e do vale a perder de vista, oferecendo uma excelente panorâmica. Entramos pela sua porta virada para o largo da Igreja Matriz e um pátio recebe-nos como antecâmara para o enorme terreiro que se apresenta para lá da porta seguinte. Aqui ficamos face a face com as duas torres com ameias – a de Menagem e a do Relógio – que já se percebiam desde ao longe na estrada e percebemos como é grande o castelo. Os andorinhões fazem-nos companhia e salpicam o céu azul com uns pontinhos a preto.

Saindo do castelo, a aldeia desce por ali abaixo. As ruas de pedra correm umas para as outras e os edifícios de granito preenchem-nas. Há de todo o tipo de casas, desde as mais populares a solares, com um brasão aqui e outro ali. Veem-se diversas janelas singulares esculpidas nas fachadas de pedra ao gosto manuelino do século XVI, decorando-as.

As fontes são também um elemento decorativo de destaque na aldeia. E, no meio de mais pormenores curiosos, damos de caras com uma passagem por um arco, a Rua do Passadiço, que daria entrada para a judiaria medieval, uma vez que Linhares acolhia uma comunidade judaica.

Na aldeia encontramos ainda os vestígios da calçada romana que passava pela povoação, parte da Via da Estrela que ligava Mérida (Emerita Augusta) a Braga (Bracara Augusta).

Ucanha

Ucanha é uma povoação única na paisagem portuguesa. Afinal, que outra aldeia ou vila no nosso país possui uma ponte fortificada?

A meio caminho do Mosteiro de Salzedas, de cujo couto monástico fazia parte, e não muito longe do Convento de São João de Tarouca, esta aldeia do Douro Vinhateiro está situada na encosta do tranquilo e fértil vale do rio Varosa, afluente do Douro. Com muito verde ao seu redor, um rio a correr criando nas suas margens duas povoações, um património construído medieval interessante e bem conservado, é no entanto a singularidade da sua ponte com torre-fortaleza que a torna especial. Esta era a entrada monumental para o tal Couto de Salzedas e servia para protecção e controlo das pessoas e bens, para além de permitir atravessar o rio. Para esta passagem obrigatória era cobrada portagem – determinada por documento régio de 1315 -, constituindo assim uma fonte de rendimento dos monges cistercienses de Salzedas e factor de desenvolvimento da povoação. Construída por estes no século XII e classificada como monumento nacional, José Leite de Vasconcelos, filólogo e etnólogo, o maior vulto da terra, acreditava que a ponte tinha sido construída para servir três funções: a de defesa do couto, a de ostentação senhorial e a da cobrança fiscal -. Em 1504 a portagem foi extinta e a partir daí, apesar de a ponte ter continuado a servir como passagem para a outra margem do Varosa, a torre foi perdendo parte da sua importância. Após uma intervenção de restauro já no século XX, segue bem conservada.

A torre de Ucanha tem cerca de 20 metros, forma quadrangular e três pisos e balcões de matacães em cada uma das faces do último deles. Pode subir-se os seus vários andares, ocupados no interior por espaços expositivos, incluindo uma homenagem a Leite de Vasconcelos, e a vista desde cima proporciona um cenário bem bonito.

Já cá em baixo na Vila da Ponte, como também era conhecida a povoação de Ucanha, podemos caminhar pela Rua Direita (única rua), perpendicular ao rio e com cerca de 500 metros de extensão e uma inclinação acentuada em ambas as suas extremidades, passando sob a torre e atravessando a ponte com arco central bem maior do que os demais, formando um cavalete e trazendo mais um sobe e desce à curta caminhada. Do outro lado ergue-se um outro núcleo urbano, agora o de Gouviães.

Os edifícios de Ucanha são maioritariamente em granito e destacam-se o pelourinho, a igreja matriz e a casa da câmara e da cadeia. As casas de dois pisos têm por vezes escadas exteriores e varandas de madeira coloridas.

Junto ao rio, entre a ponte velha e a ponte nova, temos uma pequena praia fluvial. Perto da ponte velha de Ucanha, onde por entre salgueiros e amieiros apreciamos com mais detalhe os seus quatro arcos, ainda se veem algumas azenhas. E cobras. Único susto no meio do sossego desta pacata de povoação de cerca de 400 habitantes cuja principal ocupação é a agricultura, nomeadamente o cultivo do milho e da vinha.

Por curiosidade, diga-se que segundo Leite de Vasconcelos o algo estranho nome de Ucanha derivará de “Cucanha”, a forma antiga do nome da povoação, usada até ao século XVII. E que a palavra “cucanha” significaria, em português antigo, casebre ou lugar de diversão.

Pelas redondezas de Ucanha vale ainda a pena um passeio até ao Mosteiro de Santa Maria de Salzedas e ao Mosteiro de São João de Tarouca para conhecer estas construções cistercienses, ambas do século XII, e cuja comunidade de eremitas transformaram esta região do Vale do Douro quer paisagisticamente quer num espaço de cultura e saber. O Mosteiro de São João de Tarouca, em especial, foi a primeira construção cisterciense em Portugal, iniciada em 1154, e tal facto esteve intimamente ligado quer à fundação da Ordem em 1140 quer à nacionalidade portuguesa e à figura de D. Afonso Henriques. Apesar de se encontrar grande parte em ruínas, segue como um dos melhores exemplos do ideal de construção da Ordem de Cister.

Viseu

Viseu, distrito e cidade, fica bem no centro de Portugal. Da capital da Beira Alta chega-se num pulinho ao Porto e parte-se para com pouca demora visitar aldeias históricas, castelos, montanhas e rios. Dito isto, a cidade de Viseu tem de ser uma centralidade a ter em conta. Amiúde considerada a melhor cidade de Portugal para se viver, Viseu tem história e soube transportá-la para os nossos dias, mantendo-a viva lado a lado com a modernidade.

A chegada a Viseu mostra-nos a cidade erguida no alto de uma colina, a praticamente 500 metros de altitude. A melhor forma de a começar a explorar é, ainda cá em baixo no planalto, estacionar o carro no parque de estacionamento onde entre Agosto e Setembro se planta a Feira de São Mateus. Esta feira franca, que decorre ininterruptamente desde 1392, é o cartão de visita por excelência da cidade tradicional que soube atravessar os tempos, adaptando-se. A Feira de São Mateus do antigamente representava um ponto de paragem obrigatório na cidade que estrategicamente se encontrava no caminho das rotas comerciais, e hoje permanece como um lugar de encontro que continua a atrair gente de todo o país, quer pelas suas inúmeras bancas de venda de produtos regionais quer pelos espectáculos de grandes nomes da música portuguesa que acolhe.

Junto ao recinto da Feira de São Mateus encontramos a Cava de Viriato, um sítio arqueológico mas também um dos muitos espaços verdes da cidade. Viseu é o centro do país e no imaginário português é também a terra de Viriato, o guerreiro mítico que liderou as tribos lusitanas nas suas batalhas face aos romanos. Sobre um bloco de granito, uma estátua de Viriato na Cava de Viriato homenageia o nosso herói, mas, na verdade, não está provado que algo neste espaço arqueológico lhe esteja ligado. Pelo contrário, este octógono de 38 hectares rodado por muros de terra batida e um fosso das águas do rio Pavia terá correspondido a um antigo acampamento-fortaleza usado pelos romanos no século I a.C. e mais tarde aproveitado pelos muçulmanos, não se sabe ao certo, constituindo esta até hoje uma das mais enigmáticas questões da romanização da Península Ibérica.

O que é certo é que a ocupação da cidade vêm da época castreja, no ano de 569 já Viseu era sede episcopal e, nos alvores da nacionalidade, D. Afonso Henriques fez questão de conferir importância a esta cidade nobre. Há até historiadores que não descartam a hipótese de o nosso primeiro rei ter nascido em Viseu, precisamente nos paços condais da sua família que existiam no lugar onde está hoje a Catedral.

Subamos, então, até o centro histórico de Viseu, a Cidade Velha, em tempos muralhada e com sete portas de entrada, de que restam hoje a Porta de Soar e a Porta dos Cavaleiros. Desde o recinto da Feira de São Mateus podemos subir à parte alta da cidade por teleférico ou a pé pela Calçada Viriato, uma rua efectivamente muito declivosa, ignorando o shopping que fica no sopé da colina, mas apreciando o espaço verde e o canal que o circunda.

No final da Calçada Viriato logo adentramos no coração de Viseu pelo Adro que recebe a alva Igreja da Misericórdia e a escura Sé Catedral de Viseu, com o pelourinho pelo meio. O granito da região faz-se representar num dos maiores símbolos da cidade, a Sé. Objecto de diversas alterações arquitectónicas ao longo dos tempos, a fachada actual é a terceira versão e data de 1635. O interior é monumental, com altar em talha dourada, e podemos ainda visitar o seu tranquilo claustro renascentista.

Mas uma das maiores atracções deste Adro e de toda a cidade é o Museu Nacional Grão Vasco. Instalado no antigo Paço Episcopal que está adossado à Sé, aqui fica uma das melhores colecções de pintura portuguesa desde o século XVI até ao presente, com destaque, claro está, para as obras do pintor Vasco Fernandes, o Grão Vasco, o maior expoente da Escola de Viseu. A sua obra maior é o retábulo criado para a Sé e que aí esteve durante séculos até ter sido transferido para o já centenário Museu. São 14 tábuas, incluindo a obra prima “Adoração dos Magos”.

Contornada a Sé, nas suas traseiras percebemos com surpresa a forma como este edifício assenta num maciço granítico.

A Praça Dom Duarte, que se abre num dos flancos da Sé, é um dos pontos mais pitorescos de Viseu. Ao redor da estátua do rei que aqui nasceu em 1391 veem-se prédios antigos com varandas em ferro forjado formando uma malha arquitectónica desalinhada mas atractiva. Nos pisos térreos destes edifícios, lojas de restauração moderna lado a lado com outras mais tradicionais. Na Praça Dom Duarte desembocam sete ruas, ou seja, daqui irradia a vida da cidade de traça medieval feita de ruas estreitas e sinuosas e de palacetes junto a edifícios de cariz mais popular. Não podemos, porém, deixar de observar a quantidade enorme de edifícios em muito mau estado de conservação neste centro histórico.

A Rua Direita e a Rua Formosa são as artérias comerciais por excelência. Mais uma vez, uma de comércio mais histórico e popular e outra mais moderna e elegante. A contemporaneidade expressa-se ainda pela edição do primeiro festival Vegan que ocupava o Mercado 2 de Maio por ocasião da minha passagem pela cidade.

E assim, caminhando ao longo da Rua Formosa, chegamos ao Rossio, a actual Praça da República onde ficam os Paços do Concelho. Esta é uma praça verde com esplanada coberta de tílias, o coração da cidade moderna. Impossível deixar de notar o muro de suporte do Jardim das Mães com um painel de azulejos a azul e branco com cenas do quotidiano das gentes da região que frequentavam a praça.

Já se disse, Viseu é uma cidade com muitas zonas verdes. Para lá da Igreja dos Terceiros de São Francisco, elevada sobre uma escadaria que lhe dá um ar atraentemente tropical, fica o Parque Aquilino Ribeiro. É um dos mais bonitos, com uma grande variedade de plantas e árvores muito antigas, como o exemplar de carvalho do século XVII que lá podemos admirar.

Para além deste parque temos ainda o Parque do Fontelo, o maior espaço verde de Viseu, com o Solar do Dão, campos desportivos e uma mata. E não podemos esquecer a Ecopista do Dão, uma ciclovia criada em 2011 que segue por quase 50 kms ao longo da antiga linha férrea do Dão que ligava Viseu a Santa Comba Dão. Pode-se pedalar ou tão somente caminhar pela totalidade ou parte deste(s) percurso(s) que nos transporta para cenários mais rurais da Beira, lembrando ainda que o Dão é região vitivinícola demarcada de Portugal.

Uma nota final para a cena cultural de Viseu, muito gabada pelas iniciativas artísticas que acontecem na cidade, com destaque para o já falado Museu Nacional Grão Vasco, mas também pela programação do Teatro Viriato, pela sua arte urbana espalhada pelas ruas e, sobretudo, pelo festival Jardins Efémeros. Este festival acontece desde 2011 e é um momento alto da cena cultural não apenas de Viseu mas do país pelas iniciativas culturais de carácter multidisciplinar, como música, arte e intervenções no espaço público, que preenchem a cidade, envolvendo a população. Infelizmente a edição deste ano foi cancelada por falta de verbas, mas espera-se que volte em 2020 e com ela mais uma demonstração da vitalidade de Viseu.

Mas, então, encerra-se um texto sobre Viseu sem passar por uma rotunda? Dizer, apenas, que impressiona sair da cidade em direcção a Nelas: quantos dedos das mãos serão precisos para as contar? Apesar de tudo, Viseu não escapa da fama (merecida) de ser a terra das rotundas.

Golfinhos e bioluminiscência

Para além do surf, em Puerto Escondido há pelo menos mais duas actividades imperdíveis: sair para o mar para ver golfinhos e tartarugas e sair para assistir ao fenómeno natural da bioluminiscência. Cada um destes tours é realizado por diversas companhias, mas foi-nos aconselhado o de Omar para os golfinhos e o de Lalo para a bioluminiscência e não só não nos arrependemos como os recomendamos.

Para ver os golfinhos saímos bem cedo, 7:30, da praia de Puerto Angelito. Primeiro, o barquinho com 8 pessoas a bordo sai contornando as praias junto ao centro de Puerto Escondido, com uma passagem especial por trás da bela e poderosa onda de Zicatela. Depois segue mar alto afora em busca das tartarugas e dos golfinhos.

Tivemos a sorte de ver logo duas tartarugas em pleno momento de acasalamento. Depois, mais uma tartaruga aqui e outra ali. Talvez um golfinho ao fundo. E mais nada. Andámos assim por muito tempo no barco, de um lado para o outro. Mas depois percebemos a diferença entre se escolher um ou outro tour. Em contacto via rádio com os seus informantes, o nosso “marinheiro” foi incansável e não parou enquanto não nos descobriu uma série de golfinhos. Entusiasmado, ao fim de um tempo largo passou a anunciar-nos que o que veríamos em breve iria “bloquear a nossa mente”.

Pode não ter bloqueado, mas que a nossa mente ficou mais leve e alegre com o contágio das brincadeiras e da felicidade que as dezenas de golfinhos mostravam naquela imensidão de mar, ai isso ficou. Eram saltos e mais saltos, alguns com piruetas no ar, uma maravilha. Este é um turismo responsável, pelo que não há aqui aquela coisa de tocar e fazer festas nos golfinhos. Limitámo-nos a mergulhar no mar quente e, debaixo de água, a escutar a chiadeira que os golfinhos soltam quando dialogam uns com os outros.

O anúncio do tour da bioluminiscência parecia uma treta daquelas “venha ver luzinhas dentro de água”. Ainda assim, sem grandes expectativas, juntámo-nos a ele. Lá pelas 18:00 seguimos de carro até à Laguna Manialtepec, onde passámos para um barco.

O guia era um conhecedor do lugar e estudioso da avifauna. Começámos por descobrir as diversas aves, cada uma mais bonita do que a outra, umas a sobrevoar a laguna, outras poisadas nos ramos da flora do manguezal, tudo isto num ambiente de fim de tarde de uma tranquilidade ímpar.

O barco lá ia seguindo molengão pela laguna e, depois, pelo canal que a liga até ao mar. Aqui chegados, saímos para a areia, acendendo uma fogueira e assando uns marshmallows, o docinho favorito do Snoopy, aguardando que a noite chegasse.

Foi então que, noite cerrada, apenas percebendo o som da rica fauna local, voltámos pelo canal e laguna e nos foi sendo explicado o fenómeno da bioluminiscência, melhor apreciado sem lua e após grandes chuvadas – condições óptimas que tivemos a sorte de ter. Este fenómeno natural ocorre pela presença de microrganismos que provém do mar e se reproduzem em águas tranquilas como as desta laguna. É o designado plancton marinho, que só acontece sob algumas condições naturais. O efeito? Umas cores luminosas e fosforescentes entre o azul e o branco quando colocamos a mão na água escurecida pela noite. Parece magia, mas é pura natureza. Lá mergulhámos na escuridão e os gestos do nosso corpo em contacto com a água foram recebendo essas cores sob a forma de uns feixes e umas bolinhas assaltaram a nossa pele e escorreram por ela.

Este é um espectáculo grandioso que nos é oferecido pela natureza e faz de Puerto Escondido um lugar ainda mais inesquecível.

As praias para lá de Puerto Escondido

Alugar um carro e partir para uma jornada de um dia para conhecer algumas das praias mais afastadas de Puerto Escondido é uma boa ideia. A estrada em direcção a Huatulco, onde ficam alguns dos maiores resorts da região, é fácil de dirigir, sempre recta, e acompanhada de uma bela paisagem feita de rios que correm para o mar e vegetação tropical.

Mas não chegámos a Huatulco e ficámo-nos apenas por Puerto Ángel, a uns 75kms de Puerto Escondido.

Eis algumas das praias deste passeio:

Puerto Ángel, a melhor para se ver a dinâmica de pesca

Zipolite, com a belíssima Playa del Amor escondida no seu final

San Agustinillo, a melhor para banhos

Mazunte, a melhor para uma paragem ao almoço e assistir aos banhistas a serem enrolados nas ondas – só aqui a mana fez dois salvamentos 💪😂

Puerto Escondido

O desvio até Puerto Escondido, na costa de Oaxaca, tinha uma justificação oficial, a de descansarmos uns dias antes de retornarmos ao país e ao trabalho. Mas a verdade esteve mais na justificação oficiosa da escolha, a da mana poder surfar naquela que é uma das ondas mais famosas do México e do mundo. Há que ser honesta, no entanto, e assumir que ver os surfistas a descer a onda de Zicatela e a entrar nos seus constantes tubos foi um espectáculo que só por si mereceu atravessar o Atlântico e mais além, parando neste ponto da costa já virado para o Pacífico. Foi um passatempo muito prazeroso deixarmo-nos estar na areia e vê-los ali bem junto a nós a aparecer e a desaparecer nas ondas enormes.

Puerto Escondido é uma povoação pacata onde não se faz mais do que surfar de manhã, dar um mergulho na praia, apanhar sol, comer ceviche, apanhar sol, dar um mergulho na praia, surfar de tarde, sair para bailar.

A povoação em si é famosa pela praia de Zicatela, onde fica a tal onda tubular famosa. Por curiosidade diga-se que esta onda funciona grande parte do ano e sobretudo pela manhã e ao final da tarde. Pelo meio, não são fáceis os banhos em Zicatela, porque as ondas rebentam muito fortes mesmo à beira da areia.

Se não se vai surfar, ou se se vai surfar ondas mais pequenas e para principiantes, a escolha é a Ponta, no final dos 4kms de Zicatela.

Mas há mais praias em Puerto Escondido.

Como a Playa Principal e a Playa Marinero, no centro da povoação, onde se partilha a areia e a água com os barquinhos de pescadores e o prémio do dia.

O Andador Turístico, que liga este centro a outras praias, estava interdito aquando da nossa visita, destruído em muitos pontos pela força do mar, daí que não tivéssemos percorrido mais do que uma centena de metros.

Mas utilizando os táxis sempre baratos chegamos até uma pequena enseada protegida pelas rochas que acolhe a Playa Manzanillo e Puerto Angelito.

Mais adiante fica a Playa Carrizalillio, talvez a mais bonita, acessível depois de se descer uns quantos degraus.

A costa é longa, pelo que opções de praias não faltam e em post seguinte veremos que vale a pena sair de Puerto Escondido e explorar os seus arredores.