Um dia pela Comporta

Comporta, o paraíso perdido às portas de Lisboa”, diz-se amiúde.

Na verdade, nem o paraíso está perdido nem está assim tão às portas de Lisboa.

Para chegar à Comporta vindos da capital temos duas opções: ou seguir para Setúbal e apanhar o ferry para Tróia ou seguir pela auto-estrada até Alcácer do Sal ou Grândola. Ambas distantes, ambas caras. Quer isso dizer que se deve abandonar a ideia de uma visita de um dia à Comporta? Nada disso. O paraíso pode não ser perdido, mas é real, ainda que escondido. E esta é mais uma razão para partimos à descoberta.

A viagem de ferry que atravessa o Sado é bonita e nem é preciso muita sorte para se dar com os golfinhos a brincar neste rio que em breve se tornará mar. Mas a opção recaiu na passagem por Alcácer do Sal, um bom pretexto para se admirar o seu castelo altaneiro ao mesmíssimo Sado.

De Alcácer do Sal seguimos por quase 30 melancólicos quilómetros de estrada até à Carrasqueira. Rectas enormes bordejadas por pinheiros convidam à evasão. Não o vemos, mas sentimos o Sado mesmo ao nosso lado. Irresistível desviar do asfalto e meter num dos poucos estradões de terra batida que surgem no caminho para o espreitar. Aqui estamos em plena Reserva Natural do Estuário do Sado. Natureza bruta e pura que todos têm sabido preservar.

O Estuário do Sado, o segundo maior do país, é uma extensa área protegida que vai desde os estaleiros navais de Mitrena e do Moinho da Maré da Mourisca (onde fica hoje o Ecomuseu – Centro de Educação Ambiental), ambos no concelho de Setúbal, até à outra margem do rio, já nos concelhos de Alcácer do Sal e Grândola. Este estuário inclui não apenas o rio, mas também zonas de sapal, salinas, arrozais, dunas e pinhal. Neste ecossistema desenvolvem-se espécies endémicas, como as mais de 200 espécies de aves que para aqui vêm invernar e nidificar, diversos peixes e o singular golfinho roaz.

Referi que são quase 30 os quilómetros de estrada sem curvas que ligam Alcácer do Sal à Carrasqueira, mas está visto que apesar da liberdade de se carregar no acelerador a viagem não é breve. Os convites para paragens são muitos, seja o simples cheirar o ambiente de pinhal ou apreciar os ninhos das cegonhas no cimo dos postes de electricidade, confirmar as cores do casario alentejano em lugares como Montevil ou espreitar uma das muitas herdades turísticas como Montalvo – até onde as cancelas das propriedades privadas o permitem. A região da Comporta não é um lugar que se deixa descobrir facilmente, há que insistir e não hesitar em ir mais além sempre que o podemos. Por vezes parece que as estradas de terra batida não vão dar a lado nenhum, mas a verdade é que levam sempre, pelo menos, ao recato, à tranquilidade e, com sorte, a um pedaço de Sado ou de Atlântico.

A primeira paragem “oficial” deste dia por terras da Comporta foi a aldeia da Carrasqueira.

As margens do Estuário do Sado foram sendo ocupadas desde há séculos pelos humanos que aí buscavam os seus recursos marinhos, a pesca e o sal. Há, aliás, registos de ocupação da Península de Tróia desde o Neolítico e da Idade do Bronze e os romanos no século II fizeram desta um centro de salga de peixe.

A Carrasqueira é uma das povoações que melhor testemunham essas tradições seculares. Os seus habitantes dedicam-se às actividades agrícolas (sobretudo à cultura do arroz, mas também da batata doce) ou à pesca e o património construído do povoado é feito das típicas casas alentejanas caiadas de branco com riscas azul e ainda de cabanas de colmo e portos palafitas.

O Cais Palafítico da Carrasqueira é um dos pontos mais emblemáticos de toda a região. Testemunho intemporal de uma das actividades económicas mais presentes na Comporta – a faina do mar -, este pequeno embarcadouro que vem já das décadas de 50 e 60 do século passado é feito de um conjunto de passadiços de madeira que se entrecruzam e estão assentes no lodo do sapal, os quais nos levam até aos barquinhos que ai são embalados pelo Sado. Na maré baixa deixam-se enterrar no lodo, enquanto que na maré alta baloiçam à tona da água. A imagem deste cais é humilde e frágil e caminhando pelas suas tábuas de madeira muitas das vezes duvidamos da sua segurança. Espreitamos as pequenas casinhas de apoio à pesca e vemos a confusão dos materiais empilhados por ali, enquanto arriscamos chegar bem pertinho do rio.

Entre a Carrasqueira e a Comporta ficam alguns daqueles segredos da Herdade da Comporta envolvidos pela areia que já não são segredo para ninguém. Pelo menos já todos os interessados no bom gosto da arquitectura na natureza viram as fotografias. Já para experimentar passar uma noite numa destas casinhas ainda vai uma distância enorme 💶💰. Falo, claro, das super premiadas Casas da Areia da dupla de arquitectos Aires Mateus, cujo projecto que eleva à estratosfera a rusticidade acompanhada de requinte com respeito pelo ambiente tem vindo a merecer destaque nas revistas de arquitectura e de viagem. A inspiração destes edifícios vem das cabanas dos pescadores que serviam de sua habitação e guardavam – e guardam ainda – as alfaias agrícolas.

Normalmente instaladas em locais arenosos, é possível ver uma recriação dessa tradição de arquitectura popular materializada num outro projecto, o Cabanas no Rio, dos mesmos arquitectos. Encaixado nas dunas e com acesso directo ao rio, a envolvente natural do lugar é belíssima e o recolhimento total.

A aldeia da Comporta é o epicentro de toda a região. Bons e afamados restaurantes (que vão buscar os seus recursos ali mesmo), lojas da moda, o hippie-chip versão comércio em todo o seu esplendor. A beautiful people de todo o mundo vem até aqui para desligar do dia a dia e encontrar refúgio num ambiente natural e protegido mas com todas as comodidades. O azul e branco voltam a ser as cores dominantes, sinónimos da elegância que abunda por estas paragens. E as cegonhas nos seus ninhos altaneiros não podiam faltar a este cenário de postal.

Nos últimos anos, com a queda do Grupo Espírito Santo, muito se tem falado da venda da Herdade da Comporta e dos negócios imobiliários e turísticos que tal poderá vir a proporcionar aos seus futuros donos e, logo, dos receios que eventuais impactes ao nível ambiental e paisagístico possam trazer à região. Enquanto percorremos as estradas, pinhais, dunas e arrozais da Comporta não conseguimos perceber os limites da Herdade. O que percebemos, sim, é que este é um lugar que só pode ser desejado, mas que dificilmente será para todos.

Um pouco de história: a Herdade da Comporta tem cerca de 12500 hectares encravados entre o Estuário do Sado e o mar e acolhe sete povoações – Carrasqueira, Comporta, Possanco, Torre, Brejos, Carvalhal e Pêgo. Criada no século XIX e integrada no património da Coroa Portuguesa, a Herdade foi sucessivamente vendida a britânicos, depois à família Espírito Santo, nacionalizada e novamente devolvida àquela família – e hoje, para além de decorrer a venda da Herdade, a propriedade de parte da região é alvo de discussão, sobretudo pela falta de delimitação do Domínio Público Marítimo. Antes, porém, no século XVI este território foi ocupado por africanos, crentes de que estes, mais resistentes ao paludismo, se adaptavam melhor às terras pantanosas e pejadas de mosquitos do Estuário do Sado. Foi no século XIX que a Comporta começou a receber migrantes de várias zonas do nosso país para trabalhar nos arrozais. Até aí esta era praticamente uma terra de ninguém. Hoje, já se sabe, é uma das mais procuradas e apetecíveis.

Assim como o sapal domina a zona do Estuário junto à Carrasqueira, é o arrozal que domina a paisagem à volta da aldeia da Comporta. Esta é a principal actividade agrícola da região.

Sapal, arrozal e, faltam agora, as dunas. A zona dunar está presente em muito deste território, muitas vezes envolvendo os pinheiros, mas é na costa ocidental, já virada para o Atlântico que ela se torna mais evidente.

As praias, enfim.

Apesar dos 65 quilómetros de areal que vão desde a Península de Tróia até Sines, não são muitas as praias com acesso público rasgado às dunas, daí que a maior parte deste areal permaneça deserto e virgem.

A Praia da Comporta é uma das praias oficiais. Com um restaurante de madeira de cada lado construído sobre as dunas, o que sobressai nesta praia é, no entanto, a casinha azul clara que os medeia. Azul mais bonito só o conseguimos buscar na cor irreal do mar, o qual contrasta na perfeição com a areia branquíssima.

De volta ao asfalto passamos pela povoação da Torre e pelos Brejos. Nos Brejos da Carregueira, assim como quem não quer a coisa, ficam uma série de propriedades embrenhadas nas dunas e escondidas do olhar forasteiro. Os acessos fazem-se por terra batida e o fim do caminho pode chegar abrupto ou pelo termo da estrada ou por um aviso de “propriedade privada”. Ainda assim, foi possível descobrir mais um belo conjunto de edifícios que se confunde com a paisagem.

A praia oficial que se segue é a do Carvalhal, a cerca de 11 quilómetros de distância da praia da Comporta. Entre estas, lá está, o extenso areal da costa ocidental é apenas acessível por alguma propriedade privada com acesso ao mar ou percorrendo o areal junto a esse mar de lés a lés, a pé ou até a cavalo. Mais, os arrozais servem também como que de barreira natural entre o pinhal (e a estrada) e o mar.

O Carvalhal é uma povoação mais crescida e cheia de habitações escancaradas à beira da estrada. Pequenas delícias entram-nos pela vista.

A Praia do Carvalhal é famosa por ser a praia dos surfistas e do restaurante Dinis. As cores do areal e da água desta praia, uma continuação das anteriores, continuam esplendorosas.

A última paragem aconteceu na Praia do Pêgo. Esta será a mais exclusiva das praias da Comporta. É por aqui que o clã Salgado tem a sua casa rodeada de dunas e da chatice dos mosquitos e das melgas. E é no Pêgo que fica outra das instituições da região, o restaurante Sal, encravado nas dunas.

Apos este breve mas tranquilo passeio pela Comporta, cujo nome deriva da comporta que impede a entrada de água do Estuário do Sado para os campos de arroz, confirmamos que o paraíso mantém a sua alma original e a sua natureza segue intocada.

Revistas de Viagem

Há aquelas revistas tradicionais de viagens, como a Volta ao Mundo, em Portugal, ou a Lonely Planet, Condé Nast Traveller, Wanderlust e muitas mais, lá fora.

E, depois, há aquelas revistas independentes que mais parecem livros, aquelas com capas que ficam sempre bem numa mesa da sala de estar mas, melhor ainda, aquelas cujos textos e fotografias nos fazem sonhar e nos inspiram a viajar. E, sobretudo, nos dão a conhecer destinos remotos, ou não tanto, na sua plenitude.

Revistas lindíssimas cujas edições, as mais das vezes, têm um tema que lhes servirá de guião para explorar paisagens, comunidades, modos de ser e fazer. Vidas que desconhecíamos que alguma vez tivessem existido ou que ainda possam existir, como aquela do “Último Fazedor de Sapatos de Neve”, no norte da América do Norte, ou da adolescente que, apesar dos modernos veículos de neve, ainda insiste ser transportada nas suas deslocações de centenas de quilómetros por um trenó puxado pelos cães da Groenlândia. Estas são apenas algumas das histórias que se podem conhecer no último número da revista Another Escape, “The Frozen Volume” (o seu décimo primeiro número), que diz ao que vem: “O volume congelado sai à rua e abraça o frio. Descobre como as condições extremas podem promover a comunidade, unidade e união, e como a nossa paixão pelas actividades ao ar livre podem nos empoderar a enfrentar os elementos.”

Expressões e ideias como nostalgia, resiliência, ingenuidade, comunidade, remoto, isolamento, ambiente e alterações climáticas estão muito presentes. Mas sem proselitismos. Um artigo sobre a Groenlândia na edição acima citada, em especial no que respeita à questão das alterações climáticas, por exemplo, faz nos pensar que o que é mau para o resto do mundo pode não ser, ironicamente, um mal absoluto para esta região, pela maior proximidade e novas oportunidades que, eventualmente, o degelo pode trazer.

A Another Escape diz-se inspirada pela natureza de forma a ser criativa e levar a um estilo de vida considerado. Fá-lo, desde logo procurando ser uma publicação sustentável, com preocupações ao nível do uso e impressão do seu papel.

O mesmo com a Rucksack Magazine. Também uma revista bianual que se debruça sobre um estilo de vida ao ar livre, tem vindo a apresentar-se-nos sob um tema: The Winter Issue, The Journey Issue e The Island Issue, ou seja, edições dedicadas ao Inverno, à jornada e às ilhas. A sua paixão é a aventura e o contar histórias. Com ela descobri que as fotografias de dias sem sol, aqueles onde do céu só se vê uma enorme massa branca ou cinzenta, também podem ser deslumbrantes. E que lugares inóspitos e desolados, seja pelo clima que sobre eles se abate o ano quase inteiro ou pelo seu isolamento, podem produzir em nós um desejo imenso de viajar até eles. Com esta revista passei a desejar visitar a Islândia, as Ilhas Faroe ou a Ilha de Skye mesmo em meses de Inverno. Porque apesar de os seus artigos nos contarem o desconforto que pode ser pisar estas lonjuras, ainda assim as suas fotografias e textos têm o poder imenso de nos atrair até lá e aventurarmo-nos.

Mais luminosa, seguindo por caminhos mais batidos mas ainda longe das massas e sempre com artigos sobre territórios e ambientes e actividades surpreendentes, a Lodestars Anthology é provavelmente a revista mais bonita. Pega num país por edição e vai esmiuçando-o de lés a lés, com textos, fotografias e ilustrações. A curiosidade é o que a move e que no caminho a leva a conhecer personagens que resultam em textos intimistas sobre as paisagens e a cultura de cada um desses países.

A sua última edição, a décima primeira, por exemplo, é dedicada a Portugal (antes viajou pela Índia, França, Canadá, Nova Zelândia, Japão, Escócia e Inglaterra) e nela podemos viajar pelo granito da Peneda-Gerês, descer pelo Centro do país, saborear doces conventuais, explorar Peniche e a Comporta, deixarmo-nos seduzir pela arte dos azulejos, procurar a felicidade em São Lourenço do Barrocal, percorrer a Costa Algarvia e descobrir o verde dos Açores e o charme da Madeira.

A Fare Magazine tem um conceito um pouco diferente, mas o seu sentido passa igualmente por nos dar a conhecer a cultura de um local. Partindo de um foco na comida, cada edição bianual guiada por locais parte de uma cidade para explorar as suas particularidades culturais. A sua quarta e última edição é dedicada a Seoul (depois de edições sobre Istambul, Helsínquia e Charleston) e à boleia da comida desenvolvem-se artigos pela história da Coreia, pelo milagre do super desenvolvimento tecnológico da sua capital, a tradição de partilha à mesa, a cidade com mais mulheres solteiras no mundo desenvolvido. A comida (e cultura) coreana está na moda e depois de percorrer esta revista dedicada a Seoul fico ainda com mais dificuldade em perceber porque não existem restaurantes coreanos em Lisboa (excepção de um banca no Mercado Oriental e um restaurante achinesado em Odivelas).

A Suitcase Magazine autodenomina-se como “a cultura da viagem” e propõe-se, nada mais nada menos, a mudar a forma como viajamos – “esqueça os clichês turísticos e aproveite o apetite aventureiro da próxima geração”. Com 4 edições por ano, a Suitcase é mestre no escapismo moderno e as suas edições são inundadas por artigos de inúmeros lugares bonitos, com dicas de locais a visitar, dormir e comer, sem deixar de piscar o olho à moda e às novas tendências de viagem.

De todas as aqui referidas, a Suitcase é provavelmente a revista mais popular e mais lida e, consequentemente, aquela que mais vai ao encontro de um viajante independente mas que não prescinde de paragens acolhedoras e confortáveis.

Uma última menção para a extinta Boat Magazine. Nada a ver com barcos, atenção. Criada em 2014, esta muito elogiada revista independente propunha-se a não ser apenas uma revista de viagens, daquelas com dicas de restaurantes e hotéis. Pelo contrário, pretendia ir mais a fundo e, através da escolha de uma cidade, a sua edição deslocalizava o seu estúdio para lá e deixava-se imergir pelas suas dinâmicas, colaborando com fotógrafos, escritores e criativos locais para daí extrair histórias únicas, sob diversas perspectivas, dessas cidades e seus habitantes. Há cinco anos, numa entrevista, perguntava-se ao seu editor onde se veria daí a cinco anos, precisamente agora, em 2019. Ele respondia que talvez Islamabad. Não sei dele. A Boat parou no número 12, sem chegar ao Paquistão, mas passando por, entre outras, Sarajevo, Detroit, Lima, Banguecoque, Havana e Telavive. Entre quase todas as edições esgotadas fui ainda a tempo de ter direito a esta última e confirmar que a Boat mereceu mesmo todos os elogios que lhe foram feitos e que deixa saudades.

Em resumo de jornada, estas revistas de viagem são elas próprias lugares de escape. Revistas para se deixar soltas e à vista nas diversas divisões da casa e às quais é sempre um prazer voltar.

Para folhear algumas destas revistas, bem como muitas outras que em comum têm a sua estética belíssima, é possível fazê-lo sem a intermediação de um écran na livraria Under the Cover, em Lisboa.

Sirvozelo, o elogio da pedra

Nem me lembro mais porque achei que Sirvozelo devia ser uma paragem a visitar depois de deixar Pitões das Júnias a caminho de Vilarinho de Negrões. Há que fazer um desvio, mas no meu plano inicial achei que tinha de o fazer. E em boa hora o fiz.

Sirvozelo fica a sudoeste da Albufeira da Paradela, na bacia hidrográfica do rio Cávado, no concelho de Montalegre, limites do Parque Nacional Peneda Gerês. Estas são as Terras do Barroso, fortes em tradição e zelosas da sua identidade.

Sirvozelo é uma aldeia típica de Portugal. Para o bem, mas também para o mal. Está deserta. Os Censos de 2011 contabilizaram apenas 3 habitantes no povoado. Mas apesar da ausência de humanos, não sendo difícil arriscar que os animais estarão aqui em maior número, o interesse e a beleza deste povoado está na parceria Natureza-Homem que aqui deixou a sua marca.

O topónimo Sirvozelo derivará de “terra silvosa”, mas são as pedras que aqui fazem toda a diferença na paisagem. Terra de penedos e de poderosos e gigantescos monólitos de granito, as suas casas foram construídas de forma a aproveitar estes abrigos naturais. É vê-las encostadinhas aos pedregulhos. Parece até que os estão a sustentar. Alguns destes blocos têm formas magníficas e é incrível constatar como se equilibram. O Largo principal da povoação, onde fica a Capela, toma o nome de “Largo do Arrebatadouro”, e é isso mesmo que Sirvozelo faz em nós: arrebata-nos.

A volta à povoação faz-se num pulinho. As casas, de construção tradicional, são todas em pedra, excepção para os telhados em telha ocre, substitutos do já pouco usado colmo. Vemos os clássicos canastros. E vemos uns pedaços de terra verde, divididos e talvez prontos para o cultivo. Tudo isto guardado por formosos penedos.

Pitões das Júnias

Pitões das Júnias é dos lugares mais incríveis que já conheci. Por sorte, fica no meu país.

Um lugar que cabe numa road trip, um lugar para se caminhar por cenários dramáticos ímpares, um lugar de montanhas afiadas, um lugar com uma cascata com uma altura de 30 metros e um mosteiro com quase 1000 anos, um lugar com história e tradição, um lugar longínquo, isolado e desolado. Pitões das Júnias reúne tudo isto, um lugar de natureza e cultura, mas é sobretudo um lugar vivo.

Já havia estado nas Júnias anteriormente, mas essa visita entranhou-se de tal forma no meu imaginário que sempre pretendi repetí-la.

Desta vez entrei por Espanha e à aproximação dos seus inconfundíveis cumes afiados comecei de imediato a ficar ansiosa. Uma ansiedade saborosa, como a que sente a criança que sabe que está prestes a receber um doce.

Pitões das Júnias fica situada no concelho de Montalegre, literalmente para Trás-os-Montes. Este território é habitado desde o megalítico, daí as mamoas, antas e dolmens que se vêem na região.

A paisagem deste pedaço da Terra Fria transmontana, a tal que o dito sentencia “9 meses de inverno e 3 de inferno”, é fabulosa. Entre barragens – a Albufeira do Rio Salas, em Espanha, e a Albufeira da Paradela, em Portugal -, também à conta dos diversos ribeiros que descem da montanha nunca se está muito longe da água. Mas são os seus penedos que trazem o carisma à região e, em particular, a Pitões das Júnias.

A povoação ergue-se abaixo de umas montanhas escarpadas, como a Fraga da Espinheira, a 1337 metros de altitude na Serra do Gerês. Inconfundível e inesquecível na sua forma. E sob a sua protecção foi, então, instalada a aldeia de Pitões das Júnias, a 1100 metros de altitude. Embora agreste, este lugar está protegido dos ventos frios do norte e os tais cursos de água fazem com que as terras de cultivo sejam boas. O rei na terra é, no entanto, o gado, em especial o boi barrosão. Ele caminha livre por esta terra selvagem.

O gado é o centro da vida e da economia de Pitões – o presunto e o fumeiro local são de qualidade superior – e a ele está ligada uma das figuras mais emblemáticas do espírito comunitário da povoação, a vezeira. O pastoreio é aqui efectuado sob regras democráticas próprias, juntando-se todo o gado sob a vigilância de um ou dois pastores e, com isso, possibilitando a disponibilidade de mais braços para os restantes trabalhos colectivos como as segadas (ceifa) e as malhadas (debulha). O boi do povo é, assim, representativo da coesão social de Pitões das Júnias (mas não exclusivo dela, uma vez que Trás-os-Montes, na generalidade, é ainda hoje conhecida por esta sua faceta comunitária).

Não estranha, pois, que os edifícios da aldeia tenham quase todos eles lugares para guardar o gado.

Vale a pena percorrer as suas ruas sem demoras. As casas são representativas da arquitectura barrosã, em granito local e com cobertura de telha e já não tanto de colmo, e com rés-do-chão e primeiro andar. No rés-do-chão são guardados os animais e por vezes aí fica a cozinha, lugar não só de refeição mas também de convívio. O primeiro andar é reservado aos sobrados e à sala.

São muitas as casas desta aldeia que não é pequena, mas a maioria não está inteira. A sua população, segundo os últimos Censos de 2011, é de apenas 161 habitantes, tendo vindo a diminuir drasticamente desde há 70 anos. Claro que nas férias este número multiplica-se pela visita dos muitos emigrantes que daqui, em tempos, partiram para outras zonas do país e, sobretudo, para França e Brasil.

As casas estão dispostas à volta da igreja e os terrenos agrícolas rodeiam a povoação. A horta, essa, fica ali mais próxima das habitações.

Outro dos encantos de Pitões das Júnias é o seu Mosteiro de Santa Maria das Júnias. A princípio poderá causar surpresa o facto de este mosteiro estar afastado da povoação e situado num pequeno vale encaixado onde corre um ribeiro, quase como se pretendesse passar despercebido. Mas quando ficamos a conhecer que a sua função original era a de eremitério tudo tem mais lógica. Se bem que num lugar destes, de paisagem selvagem e bruta, a lógica não tem de ser chamada à razão.

Construído no século XII no lugar de um eremitério do século IX, este antigo mosteiro cisterciense (que começou por ser beneditino), com igreja românica, está praticamente todo ele em ruínas. Mantém-se erguida, precisamente, a igreja, e o seu campanário (mais tardio) e portal em arco com a cruz de malta são excelentes testemunhos do que foi a sua grandeza até ao século XVIII e à sua extinção definitiva por volta de 1834. Apesar da ruína, podemos perceber como era o mosteiro pelo que sobeja dos seus corpos.

O espaço tomado hoje pela relva, por exemplo, correspondia aos claustros e destes resta a parte da sua arcada gótica, três arcos de volta perfeita. Crê-se que a comunidade monástica de Pitões das Júnias tenha sido relativamente modesta, quer em número de monges quer em poder económico. Os monges dedicavam-se à pastorícia e ao apoio dos peregrinos em direcção a Santiago de Compostela.

Deste Mosteiro, subindo um pouco a encosta, saí um trilho que nos leva à Cascata de Pitões das Júnias. Mato rasteiro e blocos de granito é o que pisamos no caminho. Diz que por aqui, entre fauna diversa, podemos encontrar cobras de dois metros, mas inofensivas. Felizmente não o pude confirmar. A silhueta das fragas ao fundo tomou toda a minha atenção.

Seguimos junto a uma levada de água e a determinado passo temos de optar por desviar à esquerda e dar uma espreitada na Cascata desde cima – o barulho da água é ensurdecedor – ou tomar a direita para a ver desde frente. Podemos tomar as duas opções, esquerda primeiro, voltar, direita depois.

Poucas centenas de metros mais à frente chegamos aos infindáveis degraus da escadaria de madeira (atenção à descida, que os degraus confundem-se) que nos deixarão no miradouro face a face com a Cascata.

Graças a um desnível granítico, a água jorra desde uma altura de mais de 30 metros. Em baixo, no vale que se abre diante nós fica o Carvalhal do Beredo, guardado pelo recorte da Serra do Gerês. Um cenário imenso.

Por Castro Laboreiro

Castro Laboreiro, situado bem a norte, no concelho de Melgaço, é longe, longe de tudo.

Até há menos de um século, nem uma estrada a ligava à civilização. Apenas caminhos de cabras. Isolamento, é do que se trata. Hoje tudo é diferente, mas para alguém da cidade esta continua a ser uma região perdida no meio da montanha. E a montanha aqui não é qualquer uma, é a Serra da Peneda. Os montes e pedregulhos típicos da Peneda só fazem com que o ambiente de desolação, rigor e mistério se adense. Aqui não vamos encontrar formas e recantos verdejantes como nos lugares mais frequentados do Gerês. Aqui só existem penedos rugosos e pedregosos. O caos de pedra da Peneda.

Ainda assim, tudo na região me atraí.

Cheguei noite caída a Castro Laboreiro, 5 estranhos graus. No dia seguinte, para aproveitar o dia, ainda antes do pequeno almoço tardiamente servido pelas 8:30, saí manhã cedo rumo ao Castelo.

Uns cães uivavam – eram cães mas soavam como lobos -, num contraste perfeito com o som encantatório de embalo que saia das colunas municipais como música de fundo na vila. É um retrato exacto do sentimento perante a região: receio e fascínio em doses iguais.

Iniciei, assim, a subida até ao Castelo hesitante, a medo até, pensando na imagem intimidante do cão raça Castro Laboreiro – porque os lobos há muito desapareceram. Se me aparece um pela frente aqui neste meio do nada não chego ao Castelo, pensei. É o fim, pura e simplesmente, conclui. Continuo caminho, olho adiante, para o lado direito, para o lado esquerdo, para trás. A paisagem fantástica tudo faz esquecer e o facto de estar sozinha nela só faz crescer a adrenalina. O tal caos de pedra faz com que queiramos conhecer a forma da pedra seguinte, do que está para além dela, os contornos dos vales e dos montes que nos enchem a alma. A Peneda é linda.

O Castelo está implantado num castro, o Castram Laborarum dos romanos, com o significado de “acampamento de trabalhadores”, numa colina escarpada a 1033 metros de altitude. Foram, no entanto, os mouros os que ergueram o primeiro castelo no lugar, o qual viria a ser conquistado por D. Afonso Henriques e reconstruído pelo seu sucessor, D. Sancho I. Se ainda hoje o acesso até lá cima é difícil, não consigo imaginar como fariam os nossos antepassados para lá chegar. Fácil de imaginar é, sim, a inexpugnabilidade do castelo face aos inimigos invasores.

No topo do Castro, depois de ultrapassada uma das suas duas portas de madeira, encontramos as ruínas dos dois antigos recintos, o castelo e a cerca da antiga povoação. Esta povoação intramuros terá sido abandonada logo na Idade Média, tendo os seus habitantes mudado para a vila cá em baixo, a actual Castro Laboreiro. Com o avançar dos séculos o Castelo foi perdendo a sua importância e provavelmente já na época das Guerras da Restauração apresentaria estruturas apenas rudimentares e não terá desempenhado um papel decisivo. Para piorar, no século XIX foram utilizadas pedras do Castelo para a construção de edifícios na mais recente vila.

O que temos hoje é, pois, a ruína de um castelo. Mas uma ruína perceptível e, sobretudo, uma ruína num espaço fabuloso. Para lá das pequenas muralhas altaneiras o cenário de montanha é de cortar a respiração. Avistamos até uma cascata a despenhar-se pelas fragas rochosas antes de cair no rio Laboreiro.

O percurso até ao topo do Castro e Castelo é circular. Na descida, mais uma vista especial, a da vila cá em baixo no planalto encaixada nos montes. Castro Laboreiro é pequena, e o seu centro histórico resume-se a uma reduzida praça com pelourinho e igreja matriz e umas casas típicas de granito por companhia.

Mas Castro Laboreiro fascina ainda pela sua cultura castreja. São três os tipos de ocupação na região: os povoados de ocupação permanente situados nas zonas mais abrigadas do vale abaixo do planalto, as brandas e as inverneiras. Estes dois últimos não são de ocupação permanente. Tudo depende do clima que a natureza oferece numa determinada época do ano. As brandas são a opção para as épocas do ano mais quentes, situando-se a maior altitude e em zonas mais frescas e de pastagens mais verdes e mais propícias às sementeiras, enquanto que as inverneiras ficam para o Inverno, protegidas que estão do vento a mais baixa altitude e nas encostas mais abrigadas da Peneda. O que acontece de especial em Castro Laboreiro é que esta situação, que seria típica das zonas de alta montanha, acaba por não se verificar bem assim. Na verdade, nos dias de hoje muitos dos habitantes da região acabam por fazer das brandas a sua primeira habitação, muito graças ao cada vez menor rigor dos Invernos.

O Trilho Castrejo, com cerca de 17 kms, transporta-nos por muitas destas penedias recônditas, pelos antigos caminhos que ligam as brandas às inverneiras. Segui, ao invés, de carro e, embora sem a mesma proximidade e sem chegar às brandas de outrora, pude perceber um pouco mais da ocupação da região nas duas margens do rio Laboreiro.

Para sul do castelo segue uma estrada estreita que corta o vale e apresenta paisagens mais convidativas, com algum verde e arvoredo. As paredes rugosas das montanhas estão, no entanto, logo ali perto. Pela estrada fora vão surgindo alguns desvios para povoações. Para se atestar do quão apartadas e perdidas estão, as caixas do correio dos seus habitantes ficam à entrada, precisamente no lugar do desvio da estrada que já é ela própria uma estrada secundaríssima.

Esta estrada é ainda encantadora pelas pontes que aparecem à sua beira.

A primeira, a Ponte da Assureira fica à entrada da povoação inverneira de mesmo nome. Construída na época medieval, veio substituir uma outra da época romana, e é uma pequena ponte de pedra sobre um ribeiro afluente do rio Laboreiro. Tem um único arco e o seu tabuleiro é em cavalete suave. A vegetação é aqui intensa e junto à ponte encontramos um moinho. Um pouco mais afastada fica a Capela de São Brás, nome pelo qual é também conhecida esta ponte.

A Ponte Nova ou da Cava Velha fica uns 200 metros mais à frente na estrada. Porém, para darmos com ela temos de desviar e seguir por um pequeno trilho. Provavelmente construída no século I, na época romana, terá sido reformada na época medieval. O nome “Ponte Nova” faz presumir que não seria a única nas redondezas, talvez acompanhada da Ponte da Assureira ou de uma outra. Com dois arcos de volta perfeita mas não de mesmo tamanho, julga-se que esta ponte poderá ter tido em tempos mais um arco. O tabuleiro em cavalete e inclinado é feito de laje.

Sobre o rio Laboreiro, esta é a mais imponente e surpreendente das pontes da Peneda. A pedra domina toda a sua envolvente, marcando presença na ponte, nas paredes da serra e até no caminho da água. O lugar é lindo e selvagem, como todos na Peneda, e aqui não se vê vivalma, só natureza bruta.

A última ponte desta jornada volta a estar escancarada na estrada, sendo fácil, por isso, dar com ela. É a mais recente Ponte de Dorna, construída no século XIX. Também em arco e tabuleiro em cavalete, a sua forma e materiais não diferem das anteriores. O lugar é aqui o mais bucólico possível, com direito a arvoredo com folhagem de vários tons e belos reflexos na água do ribeiro.

Todas estas pontes estavam integradas na rede de comunicações vicinais de Castro Laboreiro, ligando até a via romana que seguia para Espanha.

Na volta o percurso segue pela outra margem do rio Laboreiro, com muitas mais inverneiras no caminho e os maciços da serra a conferirem ao cenário um típico ambiente de montanha. A branda do Curral do Gonçalo fica para lá do sol posto, não sei se se avista daqui nem sei como lá chegar. Sei é que é o lugar de mais altitude da freguesia, a 1166 metros, o que faz dele o segundo lugar habitado em Portugal com mais elevada altitude. Tudo em grande por Castro Laboreiro, está visto.

Melgaço

Melgaço é o concelho mais a norte do nosso país, situado na raia com Espanha, onde o rio Minho faz de fronteira natural entre os dois países.

Já tinha estado em Caminha, Vila Nova de Cerveira, Valença e Monção, mas faltava-me Melgaço.

Esta é uma vila medieval com um castelo ao redor do qual se desenvolveu um pequeno núcleo urbano histórico. A vila entretanto cresceu e estendeu-se e hoje até acolhe a Escola Superior de Desporto e Lazer do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Famosa pelas suas termas e pelo Alvarinho, na região é de visitar ainda Castro Laboreiro (o que fiz) e a Branda da Aveleira (o que ficará para uma próxima).

A minha visita à vila ficou bastante comprometida por ter sido feita a uma segunda-feira. Explique-se: o Castelo encerra às 2ªs feiras, o Museu de Cinema Jean Loup Passek encerra às 2ªs feiras e o Espaço de Memória e Fronteira encerra às 2ªs feiras. Mas como as ruas da vila nunca encerram, lá entrei pela Porta da Vila onde à entrada nos recebe Inês Negra e caminhei pela Rua Direita e pelo seu casario.

Implantada numa colina, Melgaço é feita de ruas estreitas que se vão cruzando, tipicamente medievais. Logo passamos pelo Solar do Alvarinho. Este edifício era a antiga Casa da Câmara, Tribunal e Cadeia. Distinto, na sua fachada destacam-se os arcos e o alpendre. O seu interior é reservado para as provas do vinho Alvarinho.

Pouco mais adiante surge a Igreja Matriz ou de Santa Maria da Porta, construção do século XIII. Já fora da cerca de muralhas (de que pouco resta nos nossos dias), a Praça da República tem a sua graça. Uma fonte hiper-decorada rouba a atenção, enquanto que as portas ogivais de um dos seus edifícios desviam da serenidade da Praça.

Mas é o Castelo, com a sua Torre de Menagem que se destaca na paisagem desde ao longe à aproximação de Melgaço, o ex-libris da vila. Curiosamente, quando caminhamos pelo centro histórico, do qual a Torre é parte integrante, esta não se percebe assim tanto, não porque os edifícios que a rodeiam sejam também eles altos, pelo contrário, mas porque tudo é tão compacto que não chegamos a perceber a sua forma na plenitude. Ainda para mais, como já referi, o Castelo estava encerrado.

O Castelo de Melgaço é uma construção do século XII, data também da primeira carta de foral concedida por D. Afonso Henriques. De forma oval, esta fortificação era parte da linha estratégica de defesa do rio Minho. O seu papel era, no entanto, curioso: enquanto na posse dos portugueses, desempenhava um papel de castelo de detenção contra Leão durante a Reconquista, enquanto que para os castelhanos servia de lugar de penetração em conjunto com as outras conquistas na mesma linha.

Fora do núcleo urbano, mas a ele contíguo, destaque para os vários pontos de vista que se abrem aos vales recortados e verdejantes do Minho. E destaque, igualmente, para a Igreja e Convento das Carvalhiças. A igreja deste convento franciscano estava fechada (seria por ser 2ª feira?), mas vale a pena admirar o equilíbrio da sua fachada branca em estilo maneirista e barroco.

Mais afastado do centro, o Parque Termal do Peso e a zona do Centro de Estágios com diversas infra-estruturas desportivas, uma Pousada da Juventude e o Hotel e Spa Monte Prado, representam zonas verdes de luxo. Ambas estão ligadas por um percurso pedestre de pouco mais de 3 kms que segue em grande parte marginal do rio Minho.

Depois de ter visitado as 5 principais povoações do Minho fronteiriças à Galiza, tenho assente que o que mais me encanta por aqui é, precisamente, o rio Minho. A possibilidade de vê-lo, acompanhá-lo, tocá-lo ou, tão só, senti-lo. E se em Melgaço esta presença é menos próxima do que nas outras povoações e, assim, menos evidente, nem por isso deixa de lá estar. Sentimo-lo, sempre.

Soajo e Lindoso, espigueiros e muito mais

Os espigueiros fazem parte da paisagem do norte do nosso país. Andamos por montes e vales e nem precisamos de entrar numa povoação para encontrarmos um exemplar à beira da estrada. Eles vão-se sucedendo, uns maiores do que outros, mas quase sempre elegantes.

Chamemos-lhes espigueiros ou canastros, estes elementos de arquitectura popular são na sua maioria de forma rectangular (mas também os há quadrados ou redondos), elevados no solo, de madeira ou de pedra, com cobertura de telha ou de palha e de ornamentação variada. Só a sua função parece não variar: pequenos celeiros para guardar o milho e protegê-lo das intempéries e dos roedores.

Em lugar nenhum do nosso país podemos vê-los em tão grande número e tão concentrados como no Soajo e no Lindoso, em pleno Parque Natural Peneda-Gerês.

Comecemos por uma paragem no Soajo.

Já foi vila, passou a aldeia e desde 2009 voltou a ter a distinção de vila. Instalada na Serra do Soajo, cujo cume mede 1416 metros de altitude, esta povoação feita ainda de muitos edifícios de granito, ruas estreitas e inclinadas, abre-se altaneira para o recorte dos montes que a rodeiam, onde não faltam os terrenos dispostos em socalcos. À entrada um monumento erguido ao Cão Sabujo da Serra do Soajo faz-nos saber que “daqui partiram, todos os anos, para os reis de Portugal cinco grandes e valentes cães do Soajo. Por tal, nos séculos da monarquia, os soajeiros beneficiaram da isenção de impostos e de outros admiráveis privilégios”. Igualmente, abaixo de um brasão numa das casas da vila, com elementos como o dito cão e outros animais e uma árvore, está inscrito “Serra do Soajo, Parque Natural d’ el Rei”. A vila ganhou foral em 1514 e o orgulho dos seus habitantes pelo seu papel na história do país é manifesto.

Ainda que não restem já edifícios dessa remota era, alguns dos seus edifícios mais típicos seguem de pé e são bons testemunhos de arquitectura tradicional.

A praça principal é disso exemplo. Aqui ficam a oitocentista Casa da Câmara, os antigos paços municipais, a quinhentista Casa do Largo de Eiró (o nome da dita praça principal), o seiscentista Pelourinho e a Igreja Paroquial com o seu estreito campanário a que se acede por uma escadaria.

Quase sempre em granito, as casas são normalmente de um ou dois pisos, e o superior pode conter um alpendre em madeira ou balcão em pedra a que se acede por uma escadaria. A Casa do Largo é distinta pela sua arcaria e gárgulas de canhão.

O Pelourinho é muito curioso. Não é certa nem a sua origem nem o seu significado, mas o rosto sorridente e solar lá está, a encimar a coluna.

Vale a pena passar para lá da Igreja e caminhar pelas ruelas irregulares da vila antes de seguir para a Eira Comunitária do Soajo, o lugar que lhe dá a fama e que chama a maior parte dos seus visitantes.

Sobre um afloramento de granito ergue-se um conjunto de 24 espigueiros, todos eles em pedra. Alguns destes espigueiros são ainda hoje utilizados pela população e o mais antigo deles data de 1782.

Estas estruturas seculares de arquitectura agrícola, dispostas desordenadamente no cimo deste penedo cheio de desníveis e com uma vista fabulosa para os montes e vales que formam a Serra do Soajo, representam ainda assim um conjunto harmonioso. Possuem uma forma rectangular, são estreitos e inteiramente de granito, incluindo a sua cobertura, e apenas a sua porta é de madeira. São elevados para permitir uma melhor secagem dos cereais e assentes numa espécie de pés também eles feitos de lajes de granito. As suas paredes têm umas fendas verticais. Estas frestas pequenas servem para arejar o cereal no interior do espigueiro, ao mesmo tempo que o poupam dos estragos quer do clima quer dos animais. As suas portas estavam fechadas e não dava para perceber o que estes espigueiros guardavam por esta altura do ano, mas o vento que soprava forte e entrava por ali adentro fazia o seu interior ganhar vida, remexido pelo ar e pelas portas a ranger. Este ambiente levemente agreste condiz com a rudeza destas construções vernáculas.

A sua ornamentação basta-se com as cruzes dispostas na frente ou na traseira, ou em ambas, do telhado do espigueiro. A cruz é o símbolo de proteção contra a maldição e, ao mesmo tempo, abençoa o milho. Ou seja, ao contrário do que um olhar menos atento poderia julgar, não se tratam de estruturas funerárias, pelo contrário, representam a vida, o sustento das famílias.

Antes de deixarmos a vila do Soajo não o podemos fazer sem uma visita – ou, se o clima o permitir, um mergulho – ao Poço das Mantas e, especialmente, ao Poço Negro, um recanto travestido de piscina natural no caminho do rio Adrão, o qual há-de desaguar no rio Lima um pouco mais adiante.

Do Soajo para Lindoso são cerca de 15 kms. Há um caminho mais directo, mas optámos por seguir pelo lugar de Ermelo, pequeno ponto no mapa mas ainda assim terra de um Monumento Nacional na figura do seu Mosteiro do tempo do Românico, à beira do rio Lima. E é também à beira deste rio que a dado passo na estrada vemos despenhar-se com surpresa uma queda de água do alto de um monte.

Porque as surpresas nesta região não param de acontecer, vale a pena estarmos atentos ao caminho para que antes da entrada em Parada do Lindoso possamos desviar à direita para o Poço da Gola. Estacionamos o carro e vemos cá de cima o rio a vencer os desníveis e a romper as pedras pelo meio da vegetação. Continuamos mais um pouco a pé, procurando acompanhar o seu curso, e aí a surpresa é total. A uma antiga casinha de pedra em ruínas segue-se uma ponte de madeira e, cereja no topo do bolo, mais uma piscina natural de água claríssima, num conjunto verde perfeito.

O Lindoso, por fim.

Diz a lenda que D. Dinis, ao ver o castelo, “tão alegre e primoroso o achou, que logo lindoso o chamou”. O Castelo do Lindoso foi, no entanto, construído pelo seu antecessor, D. Afonso III, no século XIII. A sua implantação é primorosa, no alto de um pequeno penedo rochoso sobranceiro ao rio Lima, a 468 metros de altitude, em plena Serra Amarela. Espanha está a apenas 4 kms, daí que o objectivo primeiro da sua construção tenha sido o de defesa e vigia da fronteira. Mais tarde, o Castelo do Lindoso viria a desempenhar também um papel importante nas Guerras da Restauração, mais uma vez como linha de defesa contra o vizinho espanhol. O seu uso foi sempre estritamente militar, nunca tendo servido de residência.

No século XVII, curiosamente, foi construído um forte a envolver o castelo, que ocupa a praça interior. Hoje restam a torre de menagem, baluartes e canhoneiras. Mas o ambiente é já totalmente tranquilo no que a guerras, invasões e disputas diz respeito. A rudeza queda-se pelo isolamento da região e pelo cinzento do granito que nos cerca. O granito do terreno, o granito do castelo e o granito dos espigueiros.

Mesmo junto ao castelo fica a eira comunitária com cerca de 64 espigueiros (no total da freguesia serão mais de 120, o que faz dela a possuidora do maior aglomerado de espigueiros da Península Ibérica). É também esta a beleza deste Castelo do Lindoso, o facto da sua localização ser estratégica e paisagísticamente imaculada e ter como vizinhos imediatos um dos maiores expoentes da arquitectura rural do Minho: os espigueiros.

À semelhança do que acontece no Soajo, e em muitas das povoações do distante e montanhoso norte de Portugal, o espírito comunitário tem aqui uma forte presença. E também à semelhança dos espigueiros do Soajo, os do Lindoso são estreitos e rectangulares, em pedra, com acabamentos nas cantarias muito perfeitos e, mais uma vez, ornamentados apenas com um cruz no seu telhado. Alguns deles têm inscrita a data da sua criação e o mais antigo data, tal como o do Soajo, do século XVIII.

Vale a pena circular pelo espaço da eira, com os espigueiros distribuídos ao acaso, mas quase sempre com o topo traseiro virado a sudoeste, pensando na orientação do sentido da chuva, rodeando-os e apreciando-os de perto. Eles são aqui largos e de pouca altura, quase sempre de mesmas dimensões, e estas características comuns indiciam um equilíbrio na distribuição da propriedade agrícola na região.

A atestar a importância dos espigueiros enquanto símbolo etnográfico, a Imprensa Nacional Casa da Moeda lançou em 2018 uma moeda comemorativa (Espigueiros do Noroeste) com a imagem dos espigueiros do Soajo e do Lindoso, enaltecendo o património e a cultura identitária dos seus povos.