Quinta dos Azulejos

O Paço do Lumiar está ainda, neste primeiro vinténio do século XXI, cheio de quintas centenárias, daquelas que serviam de recreio às portas de Lisboa aos bem instalados no tempo da realeza, a maior parte delas desconhecidas dos lisboetas. Também conhecida por Quinta dos Embrechados, foi fundada na primeira metade do século XVIII por António Colaço Torres e frequentada pela família real e é um bom exemplo deste património.

Quando chegamos ao largo onde está instalada percebemos de imediato o palacete, hoje transformado em Colégio Manuel Bernardes, totalmente revestido a azulejos de um tom azul convidativo. O que não imaginamos é o que o seu jardim interior esconde.

O jardim da Quinta dos Azulejos é um espaço verde pequeno. Protegido por muros altos, tem a forma quadrangular, cortado a meio por um caminho, e podemos adentrar pelo jardim de buxo e nele encontrar dois bustos escultóricos em homenagem a vultos importantes na fundação e direcção do colégio. Mas não são nem estes nem as plantas que nos chamam a atenção, antes os seus inúmeros e deliciosos painéis azulejares que dominam por completo os nossos sentidos.

O interior dos muros do jardim está quase totalmente revestido a azulejos. Houve várias campanhas de decoração da Quinta ao longo dos tempos, mas a primeira delas datará de 1745 – 1755, o que coincide com a laboração da Real Fábrica de Faianças do Rato, pelo que se tem como assente que foi nesta que se produziram as mais antigas cerâmicas que ainda nos dias de hoje podemos observar. O Grande Terramoto de Lisboa veio logo depois e alguns desses azulejos conseguiram sobreviver-lhe.

Os azulejos policromo, mas com destaque para o azul e branco, da Quinta dos Azujelos mantém-se, em grande parte, bem conservados e revestem ora os muros, ora as colunas, os bancos, os canteiros e as fontes do jardim. São de uma beleza e variedade temática ímpar. É como se nos contassem histórias com recurso a cenas quotidianas, mitológicas ou religiosas. Admirando-os, vemos um desfile de cenas de festas, galanteio, passeios, caçadas e motivos bíblicos decorados ao gosto rococó. Pessoas, animais e seres mitológicos estão representados.

Como Ícaro a cair depois das suas asas terem disso derretidas pelo sol; ou as sete irmãs plêiades; ou Narciso que morreu apaixonado pela contemplação da sua própria beleza e assim se viu transformado numa flor; ou a sua amada mas desprezada ninfa Eco.

São várias as fontes no jardim da Quinta com falsas cascatas e interior revestido a embrechados, uma logo à entrada, outras duas em cada um dos flancos e uma outra junto ao caramanchão.

O caramanchão coberto de plantas que conferem maior protecção e recato ao banco corrido com colunas sob ele é o momento mais bonito do jardim. O lago diante de si está vazio mas isso não retira um pingo de encanto a este espaço.

Há que continuar a apreciar cada figura e cada detalhe, e deixar-nos esquecer do tempo num espaço tão curto.

Bairro Grandela

O Bairro Grandela fica situado na Estrada de Benfica, mesmo defronte do Palácio Beau-Séjour. Ao contrário deste, discreto e escondido para lá dos muros e jardim, dos dois edifícios vermelhos do Grandela em forma de templo grego todos dão notícia quando passam pela Estrada.

Este é um bairro operário mandado construir por Francisco Grandela, homem dinâmico que viveu entre 1853-1935 e foi o fundador dos Armazéns Grandela, hoje Armazéns do Chiado. Nessa época, Lisboa vivia um desenvolvimento industrial que fez com que à capital acorresse um grande número de trabalhadores sem que a cidade estivesse preparada para os receber, por escassez de habitações.

Nesta zona da cidade havia um curso de água, a Ribeira de Alcântara, elemento do qual Grandela necessitava para instalar as suas fábricas do ramo que hoje conhecemos por “pronto a vestir”. Homem visionário, em 1902 começou a construir a sua fábrica e decidiu que ela seria acompanhada por uma vila operária, de forma a que os seus trabalhadores pudessem não apenas ter uma habitação mas ficassem perto do trabalho, garantindo com isso a sua assiduidade e produtividade. Num espaço próximo estes teriam, assim, o trabalho, a residência e até a creche para os seus filhos. Este exemplo de construção de vila operária não é único em Lisboa, havendo muitos outros casos de iniciativa dos industriais em substituição ao Estado em matéria de habitação, em especial na zona da Graça e de Alcântara (ver anterior post aqui https://andessemparar.com/2015/03/13/vilas-operarias).

A vila operária do Bairro Grandela é uma vila exposta à rua, embora nunca tenha tido portas porque se considerava ser um espaço privado. À entrada, à beira da Estrada de Benfica, as tais duas casas vermelhas com escadaria e colunas em estilo neoclássico encimadas por frontão com a insígnia de Grandela e pela divisa “sempre por bom caminho e segue”. Uma delas servia originalmente de creche e é hoje a Casa da Cidadania, a outra o Fórum Grandela e serviços da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica. Para lá destes dois edifícios quase monumentais distribuem-se três ruas de casinhas mais pequenas, uma para os encarregados, as outras duas para os operários.

A rua das moradias dos encarregados da fábrica possui as casas mais distintas, com entradas cobertas sustentadas por duas colunas e com elementos decorativos na fachada.

Nos dois quarteirões destinados aos operários as casas estão pintadas de vermelho e perfazem o número de 70 habitações, divididas em edifícios de dois pisos, com o piso superior a possuir igualmente acesso directo à rua através de uma escada com alpendre. Hoje os carros inundam grande parte do espaço da rua em calçada portuguesa, mas vemos alguns bancos para se estar e as estruturas em ferro para estender a roupa, dois indícios de que a vida de bairro continuará a ser mantida, embora a fábrica tenha passado o seu tempo.

Palácio do Beau Séjour

A Estrada de Benfica é nos dias de hoje uma artéria que não hesitamos considerar parte integrante de Lisboa. Mas nem sempre foi assim. Em 1849, quando D. Ermelinda Allen Monteiro de Almeida, a 1ª Baronesa e 1ª Viscondessa da Regaleira adquiriu a Quinta das Loureiras na Estrada de Benfica o lugar estava implantado nos arrabaldes da capital. Não se sabe com certeza o porquê dessa escolha, mas provavelmente ter-se-á ficado a dever ao facto de esta quinta se situar a meio caminho do palacete da família no Largo de São Domingos, em Lisboa, e da quinta da família em Sintra, Palacete da Regaleira e Quinta da Regaleira, respectivamente.

A Estrada de Benfica era, então, uma via que ligava o centro de Lisboa à sua periferia. Com o passar dos anos e o desenvolvimento e crescimento da cidade no século XIX acabou por ser por ela aglutinada.

Benfica foi uma das últimas freguesias rurais de Lisboa e nos dias de hoje a Estrada de Benfica e seus arredores mantêm, ou mantiveram até há poucos anos, algumas das suas quintas e palacetes. Nos arredores, por exemplo, o Palácio Fronteira continua como um dos mais soberbos palacetes e jardins da cidade, só que agora separado do bairro pela via rápida Radial de Benfica, e o Estádio da Luz teve origem na Quinta Montalegre. No que respeita ao que resiste na Estrada de Benfica propriamente dita, esta tem início com parte dos jardins do Conde de Farrobo (onde está instalado o Jardim Zoológico), com o Convento de Santo António da Convalescença logo à espreita, segue com o Palácio Beau-Séjour (antiga Quinta das Loureiras), tem espaço ainda para o Palacete do número 382 (virado para a Avenida Barjona de Freitas), terminando definitivamente com as Portas de Benfica, as quais assinalaram até ao fim do século XIX o limite fiscal da cidade de Lisboa. Pelo meio, muitos outros elementos de interesse como chafarizes monumentais, pastelarias míticas (com a Califa à cabeça) e um bairro operário de fachada neoclássica (o Bairro Grandela).

Continuemos, então, com a história do Palácio Beau-Séjour, personagem principal deste texto. Já sabemos que estava situado no caminho Lisboa – Sintra, entre propriedades da nobreza da Regaleira, que adquiriu a então Quinta das Loureiras em 1849.

As quintas oitocentistas possuíam uma parte rural e outra urbana e a Viscondessa mudou o nome desta para “Beau Séjour”, tradução “boa estadia”, e mandou construir um edifício ao gosto inglês, de fachada simétrica e estreita com dois torreões, rés-do-chão e 1° piso, com um pequeno terraço a toda a volta. No jardim, ao gosto romântico, foram plantadas espécies exóticas como a figueira da Austrália, araucária e jacarandá, algumas destas ainda de pé, logo, centenárias.

Os azulejos que revestem a fachada já não são da época da Viscondessa. Com a morte desta, a sobrinha que herdou vendeu a Quinta em 1859 a António José Leite Guimarães, o Barão da Glória. Este havia emigrado para o Brasil, donde voltou rico com o negócio de tecidos e fazendas. Benemérito da comunidade emigrante, ele e seu irmão, o que ganharam quiseram dar em troca, investindo na Quinta do Beau-Séjour. Tirou o muro que dava para a Estrada de Benfica, de forma a que da rua se visse para o interior da quinta, aumentou o lago, espalhou estátuas pelo jardim, realçou as portas e janelas em arco com cor e, já se disse, forrou o edifício a azulejos. Ficou uma casa ao estilo daquelas que ainda hoje se veem no norte do país, a “Casa dos Brasileiros”. Terá sido por esta altura que a quinta ganhou o outro nome por que é também conhecida, a Quinta das Campainhas, alusão às campainhas de vidro colocadas na cobertura do coreto do lago que teimavam em tilintar ao vento.

Nenhum dos irmãos Barões teve filhos e foram os sobrinhos a herdar a Quinta. E estes, prosseguindo o espírito mecenático dos tios, mandaram proceder a alterações de monta no interior, trazendo os melhores artistas do reino para que, entre 1887-1892, executassem um programa decorativo. Os trabalhos foram coordenados pelo decorador Francisco Vilaça e este é o único lugar onde sob um mesmo tecto podemos observar obras dos três irmãos Bordalo Pinheiro (Columbano, Rafael e Maria Augusta). Admiramos os tectos das várias salas, mas também o chão.

No Salão Dourado, então a divisão mais nobre e hoje transformado em sala de leitura, Columbano pintou “O Carnaval de Veneza” no tecto – é uma tela e não pintura directa e aqui vê-se representada a sua irmã.

Na sala seguinte, a Sala da Música, hoje também sala de leitura, foi Vilaça quem executou a obra “A Pintura e a Escultura”, com estuques nas paredes e pinturas do tecto com motivos alusivos à música.

No vestíbulo à entrada para a Sala de Jantar podemos admirar o painel cerâmico da autoria de Rafael, executado na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, o qual integra um lavatório.

E na Sala de Jantar, hoje sala de conferências e exposições, é onde podemos encontrar a obra conjunta dos três irmãos. Sobressai o candeeiro em cerâmica, obra de Rafael, bem como motivos vegetalistas no tecto – os de cerâmica obra do mesmo Rafael, as pinturas obra de Maria Augusta. A cargo de Columbano ficaram as telas da parede, entretanto dispersas por leilão.

De realçar ainda o facto de todas as divisões do palacete possuírem ligação para o exterior e jardins, uma criação da Viscondessa e mais uma manifestação do gosto inglês.

Até à década de 1970 a quinta mantinha a sua dimensão original, estendendo-se quase até ao Alto dos Moinhos. A urbanização levou esta zona de pomar, vinha e horta, restando hoje o antigo palacete e seu jardim. É este jardim que nos dá a primeira (grande) impressão do lugar, com árvores frondosas, caminhos sob as suas copas, um lago, duas deliciosas coberturas em ferro a lembrar um coreto e elementos decorativos como uma fonte em pedra. Em resumo, um espaço belo e intimista que uma passagem pela Estrada de Benfica não deixa perceber de imediato.

O Palácio do Beau-Séjour é hoje propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, funcionando aqui o Gabinete de Estudos Olisiponenses. Como serviço público que é, no horário de expediente podemos visitar não apenas os jardins e fachada do edifício como também algumas das suas salas interiores.

Briant Barrett – Relato da Minha Viagem aos Açores 1812-14

“As montanhas circundantes estavam arborizadas, até aos cumes. Tudo era silêncio, só se ouviam as canções dos pássaros ao entardecer, o vento a soprar com uma ligeira brisa através das árvores e o murmúrio das águas dos riachos que corriam, deitando pequenas gotas no imenso Atlântico.”

Não se sabe ao certo quem foi este Brian Barrett que andou pelo arquipélago dos Açores no princípio do século XIX. Mas sabe-se que deixou um manuscrito sobre o relato dessa viagem, manuscrito esse que esteve na posse de um coleccionador alemão proprietário de uma loja de antiguidades de Ponta Delgada antes de ser depositado na Biblioteca Pública da cidade. No ano de 2017 acabou por ser publicado em livro pela editora Letras Lavadas.

Brian Barrett seria um oficial britânico que terá procurado as ilhas para convalescer de alguma doença, o que não era raro na época. No manuscrito agora transformado em livro dá-nos uma impressão histórica, cénica, política e económica do arquipélago. Começa com uma elegia ao génio do Infante D. Henrique, O Navegador, pelo planeamento e invenção de meios para concluir a empreitada da descoberta de novas terras e pelo seu “temperamento forte e activo” o terem convencido de que as primeiras ilhas descobertas – Porto Santo e companhia, em 1419 – “não eram as únicas no vasto Oceano Ocidental e que a Atlântida de Platão poderia não ser considerada, apenas, fábula ou que o Oriente pudesse, talvez, ser alcançado por uma rota contrária”.

Ao escrever sobre a descoberta dos Açores – Formigas em 1431 e Santa Maria no ano seguinte, tendo um escravo negro avistado daqui São Miguel uns anos depois -, percebe-se que Barrett havia lido Gaspar Frutuoso, o pioneiro da historiografia dos Açores e ele próprio autor da obra a que dedicámos o post anterior, “Saudades da Terra”.

Barrett escreve sobre episódios curiosos, como aquele em que a natureza teria lançado a montanha para o mar e que os mouros que por ali andavam imploraram para ser retirados daquela boca do inferno. Refere os ataques espanhóis, “invejosos que eram pelas descobertas navais de Portugal”, bem como ingleses e franceses (não esquecer que à data em que Barrett passou pelo arquipélago vivia-se as Guerras Napoleónicas). Percorrendo a história, lembra que por morte de D. Sebastião a sucessão espanhola por parte dos Filipes não foi bem recebida nas ilhas, com lutas em especial na ilha Terceira. Escreve sobre ataques e saques e sobre o cerco de Angra após a proclamação de D. João IV como rei de Portugal em 1640. Também dos ataques dos mouros. No século XIX, aquele em que visitou as ilhas, finalmente a acalmia.

Das 9 ilhas do arquipélago apenas não passou pelas Flores e Corvo, por dificuldades e insegurança no transporte. Adverte que, “para se entender a narrativa descrita por um viajante, que tenha passado por estas ilhas, é extremamente útil ter-se alguns conhecimentos da própria língua portuguesa. Os nomes de quase todos os lugares, destas ilhas, derivam das suas características físicas ou de algum aspecto acidental que sensibilizou, fortemente, os seus primeiros povoadores”.

A ilha Terceira foi a que mais o seduziu, “metade composta por montanhas e a outra parte por boas planícies”, acreditaria que “não existisse uma ilha mais bela do que esta”. Apesar da Terceira ser para o autor “a rainha de todas as ilhas”, o Faial “tem mais beleza do que qualquer das outras ilhas dos Açores”. Parece confuso ou contraditório? Não faz mal, duzentos anos depois também ainda poucos de nós conseguimos produzir uma afirmação definitiva sobre qual a ilha mais bela. O que todos acabamos por concordar é que, sim, a “passagem do canal oferece paisagem mais encantadora que se possa imaginar”. As gentes do Faial eram para ele as mais sociáveis e o Pico “o pomar do Faial”, a ilha depois da Terceira com a melhor fruta. Ocupada pelos do Faial no Verão por o tempo ser aqui mais fresco e para prepararem as vindimas, no Pico Barrett aproveitou para subir à montanha mais alta de Portugal. E a descrição da jornada, curiosamente, possui semelhanças com a que Raul Brandão haveria de fazer à volta de um século depois, com pernoita numa gruta a que chamam Cabeço das Cabras. No Pico gaba ainda, para além da fruta, o gado de “superior qualidade” em relação às outras ilhas, assim como as pastagens. E o vinho, seu principal produto. Foi ver os vinhedos “só por curiosidade porque eu não conheço vista mais triste do que estes vinhedos”, “lava negra como carvão”. Mas, conclui, “com excepção da magnífica montanha, a ilha do Pico tem pouca atração turística.”

Sobre a caldeira do Faial escreve que “no fundo formou-se uma planície, parecendo um mundo em miniatura que é frequentado por lenhadores, pastores e o seu gado. Existe, também, ali, uma lagoa com vários acres, com uma grande planície revestida de camomila silvestre, pastagens, colinas, bosques e vulcões”.

De São Jorge e suas fajãs, “uma pessoa que não viva nestas ilhas acharia impossível que alguém pudesse chegar aos terrenos cultivados de inhames. Qual não seria o seu espanto ao vê-los trepar imensos precipícios perpendiculares, com grandes cestos cheios de inhames à cabeça! Se lhes faltar o pé ou a mão, por qualquer motivo, não tinham salvação possível. É impressionante vê-los trepar e chegar a lugares impossíveis de alcançar que nem mesmo um gato se seguraria com as suas garras. Porém, a necessidade, a coragem e a força de vontade é tanta que, onde quer que haja uma fenda para introduzirem um dedo do pé e um dedo da mão mais acima, não há obstáculo”.

Foi, no entanto, na ilha de São Miguel que passou a maior parte do seu tempo no arquipélago. Encantou-se pelo panorama do vale-cratera das Sete Cidades, “sítio mais romântico e isolado que eu jamais vi”, e pelo “belo e majestoso” Vale das Furnas. Na volta à ilha encontrou matas, laranjais, vinhedos, montanhas, colinas cónicas, crateras cobertas ora de verdura ora de terrenos cultivados, formosas baias, vistas encantadoras e amplas, singulares crateras vulcânicas, ravinas, enfim, tudo aquilo que ainda hoje nos deixa completamente extasiados e a bendizer a natureza deste recanto do nosso país. Mas, ao contrário de nós que vivemos agora, o principal meio de transporte de outrora era o burro (se bem que então como hoje a melhor forma de se conhecer as ilhas continue a ser “a la pata”).

De Ponta Delgada, uma desilusão (para ele e para mim enquanto o lia): “aquilo que achei mais desagradável à vista, no aspecto de Ponta Delgada, foi a cor negra da pedra lavrada que formava os cantos e alicerces das casas, os lintéis e os batentes das portas e janelas que contrastava com a cal branca que cobria as paredes, dando-lhe uma aparência muito pesada” – pelo contrário, acho belo este contraste. Da Igreja Matriz vem um elogio às suas portadas, mas a opinião de que os bustos estavam pobremente retratados e o interior pintado e dourado com pouco gosto.

Ainda de Ponta Delgada, descreve o ambiente das ruas, lojas que a compunham e indivíduos que a ocupavam “a praça é estreita e está cheia de barqueiros, pescadores, burros e burriqueiros; uma multidão colorida nas suas carapuças, chapéus cobrindo os rostos e ombros, fazendo-os parecer, à distância, gado com chifres. Não calçam sapatos nem meias, mas alguns por vezes usam um par de botas velhas. Outros só usam uma bota por não terem conseguido pedir ou roubar o par.”.

Este texto do inglês Brian Barrett é também muito interessante pela apreciação crítica que faz do povo açoriano, seus modos e maneiras, e do governo português. Enquanto lemos as descrições, a que não custa acreditar e aderir, não podemos esquecer que o viajante tornado escritor era inglês e que hoje, dois séculos depois, todos nós, povo português, muito evoluímos. Escreve sobre a falta de botas ou meias, barbas por fazer, cuspideiras para o chão, colarinho da camisa desabotoado, saguão das casas cheio de gente do campo acompanhada de seus burros, maus cheiros. “As cavalariças ficam situadas por debaixo da sala de estar e servem de aquecimento, no Inverno. Nunca pude encontrar outra explicação, nem mesmo ver a necessidade delas, no Verão. O seu forte cheiro é, na verdade, nauseabundo. Todos estes factores fazem com que a visita ao morgado não seja muito prolongada”. E é muito crítico da situação das mulheres na sociedade açoriana de então: “Se se for apresentado às damas da família, o que é muito raro, por serem rigorosamente vigiadas com todo o ciúme de um mouro, encontrá-las-emos sentadas no chão, em cima de uma esteira”. “Usam um xaile sujo sobre os ombros para ocultar o pescoço e o seio” e “ toda esta cena imunda, mais parece a tenda de um árabe do que um ambiente digno das filhas de Portugal”. Mais crítico ainda, tece considerandos sobre a liberdade muito condicionada das moças das famílias – irmãs ou filhas dos morgados -, que só saíam para ir à igreja, mas até capelas privativas havia nos próprios morgados. Pior ainda, o destino das filhas era o de serem enviadas para os conventos de forma forçada, “uma crueldade”, ou casadas com um homem que nunca conheceram, e às esposas designa-as como “escravas da família”.

Porém, não culpa os morgados por esta situação, antes o governo de Portugal, a “mãe-pátria”, como lhe chama, pela falta de um plano de educação e por os ter votado ao esquecimento, fazendo com que permanecessem com os mesmos costumes e modo de viver, vivendo fechados sobre si próprios. Mais especificamente, “os filhos dos morgados, como não vão estudar para o continente, adquirem uma cultura muito reduzida, nos Açores. Em São Miguel, a instrução não é moda e muitos morgados não sabem escrever. São criados juntamente com os serviçais da família, até mesmo, nas suas próprias diversões. É chocante a forma como os mancebos ocupam o seu tempo, reunidos nos cantos das ruas. São habituados na ociosidade e, também, inadaptados ao serviço militar. Mesmo o pouco trabalho da condição eclesiástica envolveria demasiado trabalho e sacrifício. Não fazem grandes esforços e tornam-se uns ignorantes orgulhosos, sem terem um objectivo na vida.”.

A ignorância das classes era para Barrett a verdadeira causa da sua degradação moral e vícios. No entanto, faz questão de rematar o seu texto afirmando-se grato ao povo açoriano pela sua civilidade e gentileza.

Gaspar Frutuoso, “Saudades da Terra”

“Costumam dizer os ignorantes, ouvindo alguma coisa dos segredos de filosofia e efeitos da poderosa natureza, que lhe não cabe em seu entendimento: – ó grande mentira de filósofos; ao que eu não sei dar outra mais certa resposta, senão dizendo: – ó grande parvoíce de néscios, pois não alcançam que há muitas coisas sobre seu baixo entendimento que lhe ficam tão altas, que nem com altíssimas escadas, de ordenados e compassados degraus de razões e claras demonstrações, podem lá subir, para descobrir do alto, empinados, o que do chão, rasteiros, ver não alcançam. […] Digo isto para refrear as línguas de alguns que em algum tempo ouvirem algumas coisas que agora contar quero, que terão por impossíveis porque as não viram. Aos quais responderei que quem as viu era de tão boa consciência e tão verdadeiro como eles, e se não houvéssemos de crer senão o que se vê com os olhos, muito tempo há que fora já destruída a república humana.”

Gaspar Frutuoso (1522 – 1591), nascido em São Miguel, foi o pioneiro da historiografia açoreana. Fez-se padre, mas foi a sua faceta de historiador e a sua obra “Saudades da Terra” que nos faz hoje lembrá-lo.

Saudades da Terra é um texto dividido em 6 Livros que comporta uma descrição aprofundada da história e geografia dos arquipélagos da Macaronésia: Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde. O Atlântico que nos é mais próximo, pois. O livro I é dedicado à história geral e do Atlântico, com ênfase nos arquipélagos das Canárias e de Cabo Verde e nas ilhas de Castela; o II à Madeira; o III à ilha de Santa Maria; o IV a São Miguel; o V, conhecido como a «História de Dois Amigos da Ilha de São Miguel», é um texto ficcional; e o VI às ilhas dos grupos central e ocidental.

O Livro IV, dedicado a São Miguel, é o mais pormenorizado na caracterização da ilha e suas gentes. E sobre esta ilha neste “tão comprido e largo mar oceano”, tem Frutuoso uma descrição fantástica em todos os sentidos:

“A cabeça deste gigante, que da parte do oriente está encostada, é o morro do Nordeste, e Água Retorta uma orelha que tem para cima, porque, como está como encostado, a outra não aparece; da freguesia de São Pedro, da parte do norte, e do Faial, da do sul, começa o pescoço que se vai estendendo até à Povoação, ficando da outra banda encolhido. A comprida e reverenda barba é Achada Grande estendida até Achada Pequena, que é o cabo dela, que se tornou cã e calva pouco tempo há, quando no segundo terramoto se cobriu de pedra pomes e cinzeiro; os Fenais da Maia, da parte do septentrião, e a Ponta da Garça, da banda do sul, são seus ombros. A Maia e Vila-Franca, os cotovelos de seus braços, e neste esquerdo tem o ilhéu de Vila-Franca, como seu escudo, embaraçado; além dos cotovelos, Porto Formoso e o lugar de S. Lázaro são suas ulnas ou seus braços, cujo fim, encolhido para dentro, são os portos de Santa Iria e de Vale de Cabaços, onde saem para fora suas forçosas mãos, a ponta do pico de Santa Iria com sua Ribeira Grande, da banda do norte, e Água do Pau com sua ponta da Galé, da outra parte do sul. Logo está a delicada cintura cingida com um rico cinto, de Rabo de Peixe até à Alagoa, por onde a ilha é mais estreita. A faldra de sua malha é os Fanais e o lugar de Rosto de Cão, ambos termos da cidade, onde o cinto, com que se cinge, acaba de chegar, dando um nó cego da forca, como artificial, com uma figura de rosto de cão, no cabo assentado, com o focinho para o mar e o rabo para a terra, na ponta de guarnição com que filha, prende, açoita e castiga os malfeitores. Do lugar de Santo António à Bretanha, coxa do pé direito, da banda do norte, e da outra parte do sul, a cidade da Ponta Delgada, Relva e Feteiras, polpa grossa e forte coxa do seu esquerdo. A Ponta da Bretanha e o lugar de Candelária seus giolhos, e a grota de João Bom e o lugar de São Sebastião, suas pernas; o esquerdo, dizem os antigos que era um sítio que agora chamam as Sete-Cidades, que antigamente tinha muito alevantado no ar, mas com o grande peso, dando um grande coice, sacudindo-o, se sumira e estendera pelo mar, tomando posse dele, fazendo a fajã do lugar que se chama Mosteiros, aparecendo-lhe ainda agora as pontas dos dedos daquele pé, feitas ilhéus e penedos, sobre as águas do mar que ali está pisando; o direito é o Pico das Camarinhas, que também tinha mui alevantado e depois abaixou e estendendo-o pelo mar e mostrando-o armado com armas de fortes penedos é duro ferro que ali forjou Vulcano, pelo que o povo, de então para cá, chama àquele lugar Pico das Ferrarias; e no meio destes feros e horrendos pés se estende o comprido rabo da opa roçagante que tem vestida sobre as armas, abotoada em algumas partes, do pescoço até aos pés, com botões de altos e grandes montes. Mas por haver andado longos caminhos d’antes e dado muitos passeios, está o rabo desta vestidura tão safado que não tem lustros, nem verdura, sendo ela toda verde, pelo que esta parte desta opa, que é o cabo ocidental desta ilha, de todos é chamada comummente, por ser safada e calva, os Escalvados.”

O historiador fala das famílias que vieram povoar a ilha, da vegetação original, das colheitas e até preços que atingiram (como a valia do trigo entre 1513 a 1589), do gado e do pescado. “Havia nesta ilha, logo no princípio do seu descobrimento, tão grandes malvas como árvores, nas quais se dependuravam também os bois e vacas que tomavam, e dali repartiam a carne dela pela maneira sobredita, o que queriam e a quem a queria, e assim se proviam de carne sem haver mais açougue, senão o que cada um tinha à sua porta; de modo que não tinha preço a carne de toda a sorte, e de graça a comiam, e pouco era isto, se aproveitaram o que sobejava, mas deixavam apodrecer e perder muita por razão da grande multidão do gado, cuidando que nunca faltaria, e também por haver pouco sal na terra.” “Depois, era o pescado tanto e tão barato, que ninguém o queria comer salgado, do qual mandavam deitar fora as gamelas cheias, quando vinha outro fresco”.

Dá conta da infinidade de aves e da abundância de tudo, até de vinho de fora e da terra. Tão fértil era a ilha que lhe parecia uma mina de ouro. Relata ainda da força, valentia, esforço, manhas e destrezas de algumas pessoas da ilha “porque de todas não pude saber”.

Conta da destruição de Vila Franca do Campo, então a mais populosa, pelo tremor de terra em 1522 (também conhecido por “subversão”), um castigo divino de que houve avisos mas, ainda assim, “em uma só triste noite foram acabadas muitas vidas e ficou tudo tão coberto, que nem nobres casas, nem altos edifícios, nem sumptuosos templos, nem nobres e vulgares pessoas pela manhã apareceram, ficando tudo tão raso e chão, sem sinal nem mostra onde vila estivesse, porque com o tremor caíram os mais dos edifícios primeiro e a casaria, que acolheu a mais da gente debaixo, depois, sobrevindo a terra correndo, arrasou tudo, como raio ligeiro que desbarata quando acha mais forte e duro”.

Não refere apenas este tremor, mas também outros terramotos acontecidos na ilha, falando da origem dos biscoitos, a terra tornada preta e com jeitos pela lava.

Dá, igualmente, conta da explicação de nomes de terras curiosos, como o de Fenais por ali haver muito feno ou como a descida Pé de Porco, junto à lagoa das Furnas, por aí, no início do descobrimento da ilha, terem os homens comido um pé de porco cozido. Ou como o de Rabo de Peixe, “chamado assim por estar situado em uma ponta de terra e penedia, que sai ao mar, parecendo rabo de peixe; ou, como outros, porque se achou ali no princípio, junto ao mar, um peixe muito grande, sem se poder saber que peixe fosse, se era baleia ou de outro nome, e pelos mouros, que naquele tempo ali guardavam gado, foi dependurado o rabo dele em um pau e dali a dias perguntando a um de donde vinha, respondeu que do rabo de peixe”.

E relata pormenores dos amores privados, como o daquele que “se afeiçoou nela um homem com uma mulher casada que lhe matou o marido, pelo que se pôs a monte com a mulher”.

Fala das cracas que ainda hoje existem para os lados de Mosteiros, a fajã que “é uma terra corrida do Pico das Sete Cidades que antigamente rebentou, descendo pela Rocha, fez abaixo dela (tomando posse do mar) esta grande fajã de até dez moios de terra boa, que dá o melhor trigo da ilha, e faz pão sem tufo, como o de Portugal, e bom pastel e melões”.

Nesta obra encontram-se descrições das Furnas, Ribeira Grande, Rabo de Peixe, Ponta Delgada de outrora, bem como da curiosa constituição da paisagem que hoje admiramos na Lagoa Sete Cidades, que não era a mesma que encontraram os primeiros descobridores da ilha.

A própria vegetação da ilha não era a mesma que hoje presenciamos aquando do momento da chegada dos primeiros descobridores, claro.

O primeiro desembarque foi no lugar de Povoação Velha, “antre duas frescas ribeiras de claras, doces e frias águas, antre rochas e terras altas, todas cobertas de alto e espesso arvoredo de cedros, louros, ginjas e faias, e outras diversas árvores”. Andavam mais pelo mar no barco de seu navio e “pouco pela terra, porque muito não podiam, por lho impedir o espesso mato. Uma solitária ilha acompanhada de uns altos montes e baixo os vales, povoados de arvoredo, com cuja verdura vestida estava toda a terra, dando grandes esperanças de ser mui fértil e proveitosa a seus moradores, que nela viessem a fazer sua colónias”.

Um engano, porém: “vendo muitos açores e bons, lhe puseram o nome ilhas dos Açores, mas outros têm por mais verdade que fossem milhafres que são parecidos”.

Algumas notas soltas da ilha

Sendo São Miguel a maior ilha do arquipélago dos Açores, é natural a sua grande variedade não apenas de paisagens mas também de pontos de interesse.

De lagoas, cascatas, miradouros já aqui se falou. Falta falar do chá, dos ananases, do atum, dos ilhéus, da arquitectura e arte contemporânea, da ruína. Não necessariamente por esta ordem.

No restaurante da Caloura comi o melhor atum da minha vida. Dito isto já não é pouco, mas falta todo o ambiente à beira oceano que se desfruta enquanto se saboreia este naco de peixe. Infelizmente, a vista nublada não deixou ver a ilha de Santa Maria, a vizinha mais próxima que se pode avistar em dias limpos.

A plantação de Chá da Gorreana é a mais antiga da Europa e nos dias de hoje a única. Um negócio familiar iniciado em 1883, a sua fábrica instalada na costa norte, perto da Ribeira Grande, labora ininterruptamente até hoje graças às características ideais do clima da região. Quando nos aproximamos do lugar vamos vendo as riscas na paisagem verde, correspondentes à grande plantação – são 32 hectares. E junto da fábrica podemos embrenhar-nos na plantação, caminhando por entre as plantas enquanto avistamos ali perto o oceano azul. A Gorreana orgulha-se dos seus métodos de cultivo artesanais e de não usar químicos, apresentando assim um produto 100% orgânico. Na fábrica vemos a maquinaria secular ainda utilizada para a produção e podemos provar o chá preto e o chá verde da marca.

Um dos produtos pelos quais os Açores são conhecidos é o ananás, o qual já foi o principal produto de exportação do arquipélago, daí que faça todo o sentido visitar uma plantação de ananases em São Miguel. Também secular, a Plantação de Ananases Augusto Arruda, às portas de Ponta Delgada, permite-nos conhecer as várias fases da produção e crescimento do ananás. Até à II Grande Guerra Mundial, esta plantação chegou a ser uma das maiores exportadoras de ananases do mundo. A plantação instalada na propriedade familiar dos Arruda vai hoje na 3ª geração e dedica-se sobretudo a dar a conhecer os métodos de produção originais, únicos no mundo. O cultivo destes ananases é feito em estufas de vidro caiado, no sentido de recriar as características naturais próprias dos climas húmidos e quentes de onde este fruto é originário. Dentro das estufas, por onde podemos caminhar em algumas delas, vêem-se canteiros separados por caminhos de pedra e cada uma destas estufas apresenta um estágio diferente da produção dos ananases.

A um pulinho de Ponta Delgada pela via rápida fica a segunda cidade da ilha, a Ribeira Grande, lugar do Arquipélago – Centro de Artes. A surpresa é podermos encontrar neste sítio um centro destes, mais do que um museu, um espaço criativo que se pretende constante, com oficinas e residências artísticas multidisciplinares que se propõe a não estar de costas voltadas para a comunidade local. A possível estranheza e o desafio passam precisamente por aqui: o Arquipélago fica no meio do oceano, fora da capital Ponta Delgada, a poucos minutos de Rabo de Peixe, uma das povoações mais carenciadas e problemáticas de Portugal, e o projecto foi desenvolvido e inaugurado em tempo de crise. Aberto desde 2015, talvez mais do que as exposições que possa receber, o seu edifício é ele próprio uma obra de arte, obra dos arquitectos João Mendes Ribeiro, Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos. Construído no lugar de uma antiga fábrica de álcool e tabaco em ruína, foram aproveitadas algumas destas estruturas, incluindo a alta chaminé, e construídos novos edifícios. Podemos entrar quer pela avenida virada para o mar quer pela rua principal que vai dar ao centro da Ribeira Grande, mas em qualquer dos casos damos com caminhos labirínticos que fazem de átrio a céu aberto por entre os edifícios em betão enegrecido pela pedra vulcânica de basalto. O interior do edifício de exposições não é menos labiríntico, salas maiores lado a lado com espaços que parecem pequenas celas, a que se junta o negro e misterioso espaço da cave, espécie de catacumbas. Na sala mais ampla de exposições, muito bonita a solução de romper pequenas janelas que deixam ver para o exterior, em especial o mar.

O ilhéu mais conhecido de São Miguel pode ser o ilhéu de Vila Franca do Campo, mas os esbeltos e formosos ilhéus de Mosteiros são igualmente um regalo para a vista. Levam este nome por se assemelharem a igrejas.

A imaginação não chegou para manter vivo o sonho de um hotel com vista para a grandiosa Lagoa das Sete Cidades, pelo que hoje resta a ruína. Corria o ano de 1989 quando foi inaugurado o Hotel Monte Palace, bem junto à Vista do Rei, o miradouro mais famoso e concorrido da ilha. O hotel acabaria por fechar portas logo um ano e meio depois e até hoje segue encerrado, embora com a sua estrutura em pé. Mas a partir de 2010 ficou sem segurança, pelo que as suas portas, apesar de hoje inexistentes, ficaram escancaradas ao saque e à vandalização. O estado de abandono e ruína é profundo, mas com cuidado vale a pena entrar no edifício e deambular pelos seus espaços hoje abertos para descobrir os graffitis que o inundaram e as vistas para a Lagoa que os antigos quartos proporcionavam. O edifício do antigo hotel já esteve à venda até no Olx e existem projectos para o recuperar. Resta-nos pensar que nem sempre uma localização magnífica traz frutos à ambição.

Ponta Delgada

Aberta ao mar, a maior cidade do arquipélago dos Açores retém ainda a orografia e a marca arquitectónica da época em que as frotas da América e da Índia e do comércio com a Europa aqui faziam escala.

Situada na costa sul de São Miguel, não foi no entanto esta ponta delgada a primeira a ser povoada após o descobrimento da ilha, nem começou por ser o burgo mais importante – esse título pertencia a Vila Franca do Campo. Mas foi ela que logo no século XV começou a ganhar protagonismo e viria a crescer e desenvolver-se até se tornar o principal polo urbano. De tal forma que no fim do século XVI já o historiador Gaspar Frutuoso sobre ela escrevia em “Saudades da Ilha”:

“A nobre e populosa cidade de Ponta Delgada, tão célebre com generosos e poderosos moradores; tão rica, provida e abastada com diversos comércios e grossos tratos de mercadores riquíssimos; tão fortificada com fortaleza, baluartes e cubelos; tão acrescentada com custosos edifícios e casaria; tão religiosa com sumptuosos templos e mosteiros; tão visitadas e acompanhada dos naturais da terra; quase sempre tão frequentada de navios e infinita gente forasteira, em todo o tempo – primeiro foi solitário ermo, saudoso lugar e pobre aldeia, e depois pequena vila, a que agora é grande, rica, forte e tão afamada cidade”.

Nos nossos dias, Ponta Delgada é um contínuo de habitações estendidas pela costa e um pouco pelo interior que percebemos desde os vários miradouros altaneiros.

A marca distintiva de Ponta Delgada é o basalto negro dos vãos das janelas, portas e laterais dos seus edifícios a contrastar com a cor branca das fachadas das suas paredes. E não há maior imagem de marca da cidade do que as Portas da Cidade. De nome oficial Praça Gonçalo Velho (o descobridor da ilha no ano de 1444), a tripla arcada foi aqui colocada nos anos 50, altura em que a praça foi restaurada ao estilo “português suave”. Era aqui que ficava o antigo cais da urbe.

Junto a ela encontramos a Torre da Câmara, com a possibilidade de subirmos até ao seu terraço para grandes vistas da cidade e parte da ilha, e a Igreja Matriz com a sua torre do relógio.

A Igreja Matriz de São Sebastião rouba a nossa atenção pelos portais na sua fachada, um manuelino, outro barroco.

Desde a praça das Portas da Cidade muitas opções se abrem ao visitante.

Ou seguimos pela Avenida Marginal que percorre a cidade de uma ponta à outra, passando pela Marina ou, do lado contrário, pelo Forte de São Brás, único indício bélico nesta pacatez (e, mais para lá ainda na Doca, já junto à pista do aeroporto, pela obra de Vhils).

Ou adentramos pelo interior da cidade. Percorremos uma série de ruas pedonais, cheias de cafés, restaurantes e lojas e uns espaços que são tudo isso ao mesmo tempo, como o obrigatório Louvre Micaelense. E subimos levemente por ruas tão estreitas e de passeios mínimos que temos de nos encolher à passagem dos carros. Este é o centro histórico de Ponta Delgada, recuperado e revitalizado. Em especial, as ruas Carvalho Araújo, Pedro Homem e D’Água tomaram uma nova vida à boleia do projecto Quarteirão. Mais cafés e restaurantes, agora lado a lado com galerias e ateliês onde a cultura e a criatividade são rainhas.

Voltando às Portas da Cidade e ao centro histórico da parte baixa de Ponta Delgada, mais uma rua pedonal transporta-nos até ao Campo de São Francisco. Lá em cima já tínhamos apreciado a fachada super decorada da Igreja do Colégio da Companhia de Jesus e cá em baixo os esplêndidos portais da Igreja Matriz, mas é nesta praça / campo aberto que mais percebemos ser esta uma cidade de igrejas e conventos, sobretudo datados dos séculos XVI e XVII. Com um coreto e uma árvore de enorme porte no centro, aqui ficam a Igreja de São José, parte do antigo convento franciscano, hoje transformado em hospital, e a Igreja e Convento da Esperança. A sua capela é conhecida e local de veneração por conter a imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Cá fora, no muro do Convento, diz que está inscrita palavra “esperança”, a lembrar o local onde Antero de Quental se suicidou (mas perdi a inscrição).

Mais igrejas vão aparecendo no nosso caminho, mas uma delas fica fora dele. No Alto da Mãe de Deus não é a sua ermida que nos faz alargar caminho, antes a sua localização cimeira que nos permite contemplar em sossego parte da cidade e ilha por entre as copas das árvores.

Em Ponta Delgada encontramos ainda alguns pequenos jardins e parques verdes que lhe dão um charme adicional. E até uma ou outra casa solarenga a atestar a riqueza da sua gente abastada de outrora, como é exemplo o Solar Casa de Carlos Bicudo ou Solar das Sereias, com portal e capela na sua fachada do século XVIII.

O antigo e o moderno vão convivendo lado a lado, umas vezes de forma melhor conseguida do que outras.

Não podemos deixar a cidade sem uma passagem pelo Mercado da Graça, nem que seja para apreciar o colorido dos ananases, nem pelos seus dois icónicos espaços culturais, o Coliseu Micaelense e o Teatro Micaelense, pelo menos para conhecer as suas fachadas.

Impossível, ainda, deixar de entrar na Livraria Letras Lavadas, bem em frente à Igreja Matriz, e deixarmo-nos levar por uma ou mais edições dedicadas ao arquipélago, numa descoberta constante e que se quer sem fim.