Trilho da Peneda

Às vezes é bom visitar os lugares em dias de chuva. Visitada a Peneda no Verão, perceber-se-á a cascata que jorra água pelo penedo abaixo que serve de encosto ao seu Santuário?

Foi precisamente essa a imagem que nos tocou ver no início desta caminhada de 11 quilómetros designada por Trilho da Peneda, já no concelho de Arcos de Valdevez. O que acontece é que a chuva miudinha não nos largou durante toda a manhã e, pior, a nebulosidade era muita. Mas mesmo com pouca visibilidade seguimos adiante no nosso propósito e subimos os últimos patamares da escadaria do Santuário de Nossa Senhora da Peneda.

O culto mariano neste lugar tem 800 anos, quando, diz a lenda da Peneda, Nossa Senhora aqui terá aparecido a uma criança que pastoreava cabras e, após curar uma mulher de um caso já dado como perdido, lhe terá dito para pedir aos habitantes da Gavieira (sede da actual freguesia da Peneda) para erigirem uma ermida. O Santuário é, todavia, mais recente, tendo sido construído nos séculos XVIII e XIX. A escadaria das virtudes é a grande atracção cénica e formal, com estatutária representando a Fé, a Esperança, a Caridade e a Glória.

Nas costas do Santuário fica a carismática Fraga da Meadinha. A parede da Meadinha tem vindo a ser escalada por portugueses e sobretudo galegos desde a década de 1940 e é hoje a única onde se pode escalar legalmente no Parque Nacional da Peneda-Gerês. São 59 as vias de escalada desta fraga. Mas nós, apesar de a termos subido também, não o fizemos através de uma ascensão vertical, antes pelo bosque que a atalha mais suavemente. Apesar da nebulosidade intensa, as cores do bosque fizeram questão de se exibir. O penedo, esse, como é cinzento como a cor daquele dia, é que foi mais difícil de perceber em toda a perfeição. Ainda assim, conseguimos ver a água a rolar por entre as frechas da rocha, a tal que se transforma em cascata quando a queda surge mais abrupta nas costas do Santuário.

A subida é algo cansativa, indo dos 665 metros aos 1095 metros em apenas 3,7 quilómetros. Mas a quase 1000 metros temos um lago com uns reflexos incríveis, uma espécie de resistência à desfeita do clima. Conhecido como “pântano”, no lugar de Chã do Monte havia uma represa que servia uma mini-hídrica que fornecia energia eléctrica à povoação da Peneda. Hoje resta a água, com um belo rochedo no meio, circundada pelo granito que permite que uma vegetação rasteira verdíssima dele se apodere nas margens do lago.

O caminho prossegue por um campo de pedras com formas diversas. É basicamente um trilho sobre pedras, em que podemos saltitar de umas para as outras. Os afloramentos rochosos são fantásticos.

E vemos árvores negras despidas, outras inclinadas. O clima não perdoa. Indiferentes a ele, as vacas barrosãs e os cavalos garranos seguem nas suas vidas. Surpreende ver uma vaca descobrindo alimento mesmo em cima de um penedo. Outras passeiam juntas e assustam-se à nossa passagem, talvez não esperando que uns malucos caminheiros ali aparecessem com um tempo destes.

Os últimos 4 quilómetros do trilho são sempre a descer e o último segue pela estrada. À aproximação da aldeia da Peneda vemos uns prados com um tapete de um verde intenso, apenas perturbado pelos muros de granito que dividem as pequenas propriedades.

A cor é garantida pela chuva, sim, mas também por se situar na margem do rio da Peneda. Neste ponto o rio não parece correr muito tranquilo, encontrando no seu caminho uma série de pedras que tem de ultrapassar por vezes com alguma fúria. Na terra da pedra, não podia faltar um imenso monólito que servirá de arrumos – é ver a porta de madeira que lhe foi adossada.

Neste trilho da Peneda estão praticamente todos os elementos característicos do Parque Nacional da Peneda-Gerês: cascata, lagoa, rio, penedos, bosques, fauna, aldeias, espigueiros e socalcos. Na vizinha freguesia do Sistelo podem estar os socalcos mais conhecidos do Parque, mas estes da Peneda possuem um encanto muito próprio. E, junto ao Santuário, são uma bela forma de terminar este passeio pela natureza e modos de vida da serra, com mais um grande exemplo de como o Homem soube aproveitar as dificuldades dos terrenos para os transformar, vencendo engenhosamente os desníveis de forma a obter para si a maior área de terra possível para a agricultura, garantindo a sua subsistência e sobrevivência.

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Pela Penedia de Lamas de Mouro

Lamas de Mouro é uma aldeia no concelho de Melgaço e uma das portas oficiais do Parque Nacional Peneda-Gerês. Do centro recepção, que é também um lugar de recreio com um bosque de uma qualidade cénica incrível, parte um trilho circular de cerca 14 kms de dificuldade moderada pelos penedos graníticos da serra.

Logo nos primeiros metros, ainda antes de iniciarmos a subida serra adentro, uma pequena cascata aguarda-nos, lembrando-nos que nestas paragens nunca estamos muito longe de um rio ou ribeiro. A água, em especial o seu correr tranquilo e o som que transporta, é uma presença reconfortante.

A subida, embora um pouco longa, não é difícil. Começámos por nos distrair apreciando Lamas de Mouro ao fundo na encosta. Por enquanto está à distância de um olhar distante, mas havemos de a atravessar no regresso à Porta mais a norte do nosso único parque nacional, distante dela quase 2 quilómetros.

A distracção prossegue tentando imaginar o que nos sugere a forma dos inúmeros blocos graníticos da serra. Podem ser uns dedos, uma cabeça ou qualquer outra coisa para onde guia o nosso pensamento já imerso em pura evasão.

Mas eis que, rompendo o cinzento granítico, surgem as cores do Outono. A vegetação rasteira em tons verdes, castanhos, amarelos e vermelhos antecipa a entrada num lindo bosque de vidoeiros. Se até aqui lamentávamos o facto de o dia estar nublado e chuvoso, no meio deste bosque – e de outros que se seguiriam nos dias seguintes – este clima agreste e mais inóspito faz todo o sentido. É ele que lhe dá esta paleta e todo o carisma.

O Pico da Fanqueira, a 1175 metros de altitude, surge em destaque diante de nós, uma série de pedras que parecem ter sido empilhadas propositadamente para o fazer mais alto e elegante. Nós, porém, caminhamos um pouco mais baixo, a apenas 1097 metros, ainda assim mais alto do que o planalto Castro Laboreiro que agora nos toca avistar. O cenário é fabuloso. Não apenas pelas imagens que nos são oferecidas, mas também pela sensação de estes serem caminhos pouco pisados por outros que não alguns dos seus habitantes que ainda mantém uma vida dura de trabalho da terra. Mas nós não, nós estamos aqui por prazer e à dureza da vida daqueles que são nossos anfitriões mostramos respeito.

Na área de lazer de Veigas, à entrada da povoação de Várzea Travessa, fazemos uma paragem para um lanche numa das mesas junto à antiga casa da Guarda Florestal.

As vacas barrosãs a pastar livremente e os cães Castro Laboreiro (alguns presos, mas muitos docilmente à solta) cruzam o nosso caminho.

Há algumas povoações rente ao nosso percurso, mas apenas atravessaremos Portelinha. E Espanha é logo ali, talvez a menos de 50 metros de determinado ponto do nosso trilho junto ao rio Trancoso, por um caminho medieval por onde seguimos acompanhados por mais umas deliciosas cores de Outono. Foi esta fronteira imperceptível de diferença em termos paisagísticos que levou o escritor minhoto José Augusto Vieira a escrever “De cá nós! De lá vós!”.

Lamas de Mouro já não está distante e em breve a atravessaremos. O lugar é de povoamento muito antigo, como o atestam vestígios de dolmens e da cultura castreja. Diz-se que no século IX aconteceu aqui uma batalha contra os mouros, que estes perderam. Mas o nome, que é também nome do rio que por aqui passa, ficou: “Mouro”. Já “Lamas” virá das características do solo, cheio de lamas, pastagens de gado com água. Outros dizem que o nome “Lamas” derivará das lágrimas derramadas pelos mouros na dita batalha, que terá sido sangrenta. Seja como for, ficou Lamas de Mouro, aquela que no século XIV se terá tornado um couto da Ordem do Hospital e que durante muito séculos serviu de retaguarda à protecção do Castelo de Castro Laboreiro na defesa dos ataques inimigos na linha de fronteira.

Em Lamas de Mouro as vacas caminham ao nosso lado nas ruas pejadas de edifícios de granito onde muitos ainda reservam o primeiro piso para as guardar. As alminhas são outro dos seus elementos característicos.

Mas é a paisagem, sempre ela, que continua a surpreender-nos. Nesta foto se condensa muita da realidade da Serra da Peneda.

Prosseguindo caminho, à saída de Lamas de Mouro ainda somos brindados como a beleza sensível e pacata de um moinho muito bem conservado à beira do rio de Mouro, ao qual não falta sequer a companhia de uns esbeltos e distintos cogumelos.

Logo a seguir aparece a Ponte Romana de Porto Ribeiro. Atravessado o seu delicado arco seguimos os últimos metros da nossa caminhada sempre junto ao Rio de Mouro até ao centro de recepção das Portas de Lamas de Mouro. Já o havíamos antecipado logo no início deste texto, o seu bosque é belíssimo, a lembrar o Covão da Ametade, na Serra da Estrela. O curso de água rola tranquilo por entre um verde luxuriante, produzindo reflexos incríveis. Uma daquelas imagens que certamente nos acompanhará durante toda a nossa vida.

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Jardim Botânico da Ajuda

O Jardim Botânico da Ajuda está instalado numa encosta ao lado do Palácio Nacional da Ajuda, o palácio nunca concluído que agora, mais de dois séculos depois, parece que vai deixar de o ser. Embora não tão conhecido e visível, o Jardim Botânico da Ajuda é anterior à construção do Palácio. Na verdade, este é o mais antigo jardim de Lisboa, inaugurado em 1768.

O Alto da Ajuda era já nessa época uma zona de presença da realeza, a qual na sequência da destruição do medonho Terramoto de Lisboa de 1755 para aqui fugiu e construiu a sua Real Barraca neste ponto alto da cidade. E foi precisamente aqui, afastado do centro da cidade, então como agora, que o Marquês de Pombal mandou construir este Jardim Botânico numa encosta da Serra de Monsanto, com solos férteis e abundância de água.

Projectado pelo botânico italiano Domingos Vandelli, escolhido pelo Rei D. José para o ensino dos seus filhos, os lisboetas passaram a poder admirar espécies vegetais até então suas desconhecidas. A colecção dessas espécies que aqui eram mantidas para pesquisa e estudo chegou a acolher cerca de 5000, vindas de todo o lado do mundo, formando um conjunto de grande valor documental e científico. Hoje o espaço já não pertence à Casa Real – a administração está atribuída à Faculdade de Agronomia – e as espécies já não serão tantas – cerca de 1500 -, mas a integridade e beleza do lugar mantém-se.

São cerca de 3,5 ha distribuídos de forma rectangular por dois tabuleiros, o superior dedicado à colecção botânica e o inferior ao jardim de recreio e ornamental de buxo.

À entrada, imediatamente antes do chalet transformado em recepção, dois lagos barrocos, um de cada lado, dão-nos as boas-vindas.

A influência barroca há-de continuar e em dois passos torna-se monumental. O jardim de recreio, igualmente com toque renascentista, preenchido com caminhos moldados pelas formas do buxo, plantado sobre o Tejo é de uma enorme beleza, fazendo desta uma vista privilegiada em Lisboa.

A fonte central e a escadaria são elementos decorativos inesquecíveis. A Fonte das 40 Bicas, ou Fonte das Serpentes, não tem apenas serpentes a adorná-la. Estão também lá presentes rãs, patos, cavalos-marinhos, figuras mitológicas e plantas aquáticas, formando uma deliciosa exuberância directamente defronte da escadaria com estátua do infante D. José.

Este jardim possui diversas árvores e também delicioso, mas talvez não tão saboroso, é encontrar uma bananeira com um cacho de bananas verdinhas.

Prosseguimos pelo jardim de buxo em todo o seu comprimento e subimos para o tabuleiro superior. A Estufa Real, restaurante e lugar para eventos, fica num dos cantos. É por aqui que encontramos um enorme dragoeiro que se estima que tenha mais de 400 anos, ou seja, anterior ao Jardim Botânico. Tão velhinho que se mantém erguido, mas sempre belo, com ajuda.

Neste patamar superior mesmo de frente para o rio Tejo as vistas são ainda mais fabulosas.

Vistas essas apenas agradavelmente perturbadas pela descoberta de dois pavões, um azul e outro branco. Sempre exuberantes e majestosos, o seu colorido entre os azuis e verdes é um deleite, mas que dizer da fixação que também estes indivíduos inteiramente brancos produzem em nós? Símbolos de pureza e eternidade, ao contrário do que acreditam alguns, os pavões brancos não são albinos, antes o resultado de uma variação genética. E este duo da foto não será um macho e uma fêmea a contemplar pacatamente o Tejo em cima de um ramo de uma árvore, mas antes dois amigos machos – a ver pelo comprimento de cada cauda, aquela que pela sua dimensão se torna mais vistosa e atractiva no momento de chamar a fêmea para o acasalamento.

Muitos mais pavões se passeiam nesta zona diversa com jacarandás, árvores pé de elefante, canteiros com a colecção botânica de espécies de várias regiões do globo divididos por áreas geográficas, estufas e lagos.

No Jardim Botânico da Ajuda há mais para além de ver. Há que estar tranquilamente no meio da beleza. E há que sentir o Jardim de Aromas, tocando e cheirando as suas plantas aromáticas e medicinais, especialmente criado para os invisuais. Para que a visita ao mais antigo jardim de Lisboa possa ser plena em todos os sentidos.

Da Maceira a Santa Cruz

Em tempos falaram-me de uma prova de um trail pelas escarpas da Maceira e de como era bonita a região por onde o trail passava. Investiguei, segui caminho até Porto Novo, entrei vale do rio Alcabrichel adentro, para lá por uma margem e para cá pela outra, com viragem no Balneário dos Frades, e fiquei feliz com o curto passeio. Mas com a inauguração em 2019 do Passadiço das Escapas, um quilómetro que une Maceira a Porto Novo, no concelho de Torres Vedras, decidi voltar para percorrer a nova estrutura.

A ideia era que desta vez o passeio fosse mais alargado, com início na Gruta da Lapa da Rainha, na Maceira, e final na Praia Formosa, em Santa Cruz. Para isso, estacionei em Santa Cruz e apanhei um táxi até à Maceira. Só que, pela estrada que liga Porto Novo à Maceira percebi que o percurso do novo passadiço não seria nem um décimo tão bonito como o percurso que havia feito anteriormente junto à margem escarposa do rio Alcabrichel. Talvez deva dar razão àqueles que se irritam com a praga dos passadiços, sobretudo em lugares cuja beleza está em estado bruto e não é difícil de alcançar. É o caso das Escarpas da Maceira e por aqui iniciaremos o nosso passeio de hoje, 11 fáceis quilómetros a caminhar.

A Gruta da Lapa da Rainha fica no alto de um cabeço na povoação da Maceira, perto da entrada das Termas do Vimeiro. Subimos – a única subida do dia digna desse nome – e poucos metros depois espreitamos por esta Gruta classificada como Monumento Nacional. Crê-se que seja uma estação do Paleolítico Superior, testemunho de uma ocupação humana da zona bem antiga. Entramos por uma cavidade na rocha e saímos pelo lado contrário. Este é o Cabeço da Rainha e no cabeço em frente, o Cabeço do Castelo, há mais uma gruta gêmea desta, menos estudada mas igualmente classificada. As vistas do cimo do cabeço são bem bonitas, com a povoação da Maceira imediatamente abaixo.

Caminhando em direcção ao Atlântico, somos totalmente envolvidos pela intensa vegetação de um bosque e assim seguimos durante umas centenas de metros.

Umas abertas deixam-nos ver, encravadas em baixo no vale, algumas das instalações das Termas do Vimeiro, em especial a sua piscina – vazia, uma vez que dada a Pandemia da Covid-19 as Termas do Vimeiro não abriram neste ano de 2020. Não confundir com a povoação do Vimeiro, ali vizinha mas já no concelho da Lourinhã. Há duas nascentes nesta zona termal, a da Fonte dos Frades e a da Fonte da Rainha Santa Isabel. Diz-se que a Rainha Santa residiu no Vimeiro e terá sido ela a descobrir esta última nascente de água que lhe terá curado algum mal de pele. Verdade ou não, o certo é que está comprovado cientificamente possuírem estas águas uma riqueza mineral e medicinal que traz aqui muita gente em busca de terapias ou tão somente para relaxar.

Estamos a caminhar no topo de um maciço rochoso calcário e as vistas tornam-se cada vez mais bonitas. As escarpas que ladeiam o verdejante vale do rio Alcabrichel são muito cénicas e ao fundo já se vê o azul do mar. Uma composição perfeita.

Quando descemos ao Balneário dos Frades e continuamos a seguir pelo vale, mas agora cá em baixo, a visão das escarpas é ainda mais bonita. As Escarpas da Maceira, monumento natural classificado como geossítio, erguem-se apertadas deixando o rio Alcabrichel correr em direcção ao Atlântico, na Praia de Porto Novo. E nós aproveitamos à boleia no carreiro junto ao rio (o Passadiço, esse, segue do outro lado de uma das escarpas, junto à estrada).

Porto Novo, a foz do Alcabrichel, é um antigo porto piscatório onde em 1808 desembarcaram as tropas britânicas que viriam a combater na batalha do Vimeiro, aquando da primeira Invasão Francesa. Hoje é uma praia com hotéis, restaurantes, actividades náuticas e a possibilidade de estender a toalha na areia ora à beira mar ora à beira rio.

Ao seu lado, passando a falésia baixa que se estende até à água por umas rochas negras muito cénicas, fica a Praia de Santa Rita. Esta tem um longo areal, quase 2 quilómetros, e não fosse o costumeiro vento e neblina locais todos aqui gostariam de ficar a apanhar banhos de sol sem preocupações com distanciamentos sociais.

Não desviámos para as ruínas do Convento de Penafirme, para lá da estrada que passa junto à duna, e no final de Santa Rita subimos o monte arenoso para daí passarmos a caminhar pelo topo da falésia até Santa Cruz. São menos de 5 quilómetros com vistas de praia e mar fantásticas. Vamos vendo a Praia de Porto Novo, para trás, a afastar-se cada vez mais e os contornos da costa a ficarem cada vez mais bonitos. O mais interessante é constatar a diversidade da flora dunar – umas vezes abundante e colorida, outras escassa e lunar.

E um dos passatempos é espreitar e fotografar as pessoas que caminham à beira-mar; vistas de cima da falésia parecem meros pontinhos minúsculos na areia.

Para diante passamos pela Praia da Mexilhoeira (para o interior, escondido na duna, há de estar o Areias do Seixo, um hotel de charme multipremiado pelo seu bom gosto e integração com o meio-ambiente onde está inserido) e pela Praia da Vigia, antes de chegarmos a Santa Cruz e suas praias mais urbanas. Na Praia da Física fica o Noah Surf House, hotel, restaurante, loja de surf, irmão do Areias do Seixo, mas mais popular e acessível e visível da estrada na sua arquitectura moderna.

Mas a imagem de marca de Santa Cruz são os seus toldos de praia com listas verticais coloridas. Eles quase que enchem o areal da Praia da Física nos dias de Verão e são também parte do mobiliário urbano na promenade, servindo como lugares de descanso e sombra.

Santa Cruz, uma das “praias obscuras” de Ramalho Ortigão, é hoje um lugar concorrido, mas à entrada para o último quartel do século XIX tinha apenas uma meia-dúzia de casas. De porto piscatório transformou-se, entretanto, em lugar de veraneio da gente bem de Torres Vedras, atraindo igualmente escritores que se identificaram com o clima melancólico das praias do Oeste. O Passeio dos Poetas, marginal junto ao mar, é dedicado a três deles: Antero de Quental, João de Barros e Kazuo Dan.

O nosso passeio termina da melhor forma junto ao Penedo do Guincho, imediatamente antes da Praia Formosa. Este leixão é uma enorme e belíssima rocha, reclinada como a Torre de Pisa, pousada na água do mar. Já esteve ligada à arriba, e devido à erosão em algum momento dela se despegou. Não bastasse a sua formosura, tem ainda uma abertura no meio, espécie de túnel onde a água do mar bate quando está mais revolto ou rola tranquilamente em alturas de acalmia marítima. Não exagero se disser que este é um dos lugares mais bonitos de toda a nossa costa e mirando o Penedo do Guincho uma e mais uma vez nos despedimos desta jornada.

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Nas Escarpas da Mizarela

O Trilho PR7, nas Escarpas da Mizarela, é considerado o mais fantástico da Serra da Freita. Segue maioritariamente pelo vale encaixado da Frecha da Mizarela, uma queda de água que cai a mais de 60 metros de altura, contornando-a. O lugar é realmente grandioso, belo e selvagem, o coração da Freita. Mas este percurso pedestre de cerca de 10 quilómetros não é nada fácil.

Com início e chegada no Parque de Campismo do Merujal, este percurso oficial do Arouca Geopark vem marcado como tendo 8 quilómetros, mas acabámos por percorrer 10,5 quilómetros, tendo desviado até à base da cascata.

Saindo do Parque de Campismo, atravessamos a Estação da Biodiversidade do Merujal, um caminho plano com diversos painéis informativos acerca da fauna, flora e fungos presentes no lugar. Esta é uma zona de bosque, mato, pinhal e turfeiras onde são os cabeços rochosos que roubam por completo a nossa atenção.

Sem esforço, após 1,5 quilómetros chegamos ao miradouro da Frecha da Mizarela. À distância, parece que apenas um fiozinho de água se despenha da imensa escarpa. O Rio Caima nasce aqui perto, na freguesia de Albergaria da Serra, a mesma da vizinha aldeia da Mizarela, e quando aqui chega cai abrupto por mais de 60 metros por conta deste corte no penhasco. A partir do miradouro vamos descer, ao encontro do curso do Caima no fundo do vale, até à aldeia de Ribeira, onde passaremos para a outra margem do rio para voltar a subir o vale pela encosta contrária.

É precisamente nesta acentuada e interminável descida, sempre coberta pela vegetação, que está a dificuldade do trilho, por incrível que pareça bem pior do que a acentuada e interminável subida, nem sempre coberta pela vegetação. O trilho está bem marcado, com as risquinhas vermelha e amarela da praxe pintadas ora nos troncos da árvore ora nas rochas. O problema é que temos de dedicar tanta atenção à descida – muito perigosa em dias húmidos – que a cabeça baixa pode fazer-nos perder as marcas. Foi isso que aconteceu e descemos demais, ao invés de seguir pelo trilho à direita, e quando o percebemos entendemos que merecia a pena continuar no desvio até à base da cascata (entre ida e volta será cerca de 1 quilómetro a mais). Há enganos que vêm por bem e hoje agradecemos a distracção.

Já cá em baixo, furámos por entre as pedras e percebemos uma lagoa, com uma cascata e tudo. Subindo (não é fácil) pela parede desta piscina acedemos ao patamar seguinte e eis que surge mais uma lagoa, com a devida cascata. Já não arriscámos subir mais, mas o cenário vai-se repetindo. É um sítio poderoso com a natureza em estado bruto.

Depois deste deleite impõe-se a subida, realizada facilmente e em muito menos tempo do que a descida. Com mais atenção, desta vez não perdemos a indicação do desvio e seguimos, então, pelo trilho correcto. O trilho continua sem ser fácil, num carreiro apertado que ora sobe ora desce, quase sempre com vistas soberbas para a Frecha por entre as ramagens dos carvalhos e dos pinheiros. Mas quando cruzamos com a estrada de asfalto e metemos novamente pelo trilho é sempre a descer até à Ribeira.

As vistas continuam impressionantes, com o domínio absoluto das enormes encostas que se levantam do vale quase a direito, cobertas com uma vegetação luxuriante de um verde intenso. Mas devo confessar que nesta altura estava aborrecida com a dificuldade do percurso. Foi, pois, um alívio com comemoração à medida a chegada à Ribeira: um mergulho e um piquenique.

A Ribeira é uma pequeníssima povoação no fundo do vale com casas empoleiradas na encosta em visível mau estado e que parecem todas abandonadas. Percebem-se ainda, no entanto, os socalcos do que foram em tempos terrenos cultivados. E vê-se, também em ruína, um moinho de água que, em conjunto com outros que aqui existiam, trabalhavam para alimentar os habitantes do planalto, carecidos da água abundante na Ribeira.

Depois da pausa para refrescar corpo e mente, atravessamos a ponte da Ribeira e já pela outra margem subimos ao longo do Caima. Esta subida não é tecnicamente nem fisicamente dura, apesar de longa. As vistas continuam de alto nível e por este caminho na outra vertente do vale percebemos que as lagoas e cascatas não cessam no que julgávamos ter sido a base da Frecha da Mizarela, antes continuam ao longo do vale que segue até à bela Ribeira.

Continuando a subida, a dado momento escutamos o som da água e logo depois ela apresenta-se na forma de mais uma ribeira. Mais adiante, nova apresentação, desta vez sob a forma de mais uma cascata, a Cascata da Castanheira. Atravessamos a sua pequena e pitoresca ponte e… continuamos a subir, pois claro.

No topo ganhamos uma vista ao longe para as Pedras Parideiras e para a aldeia da Castanheira e, sobretudo, mais ao longe ainda para uma infinidade de horizonte que em dias de visibilidade máxima chega a permitir avistar o Atlântico para lá de Aveiro.

Durante diversos pontos do percurso já tínhamos percebido os afloramentos quartzíticos nas rochas graníticas, mas agora um enorme bloco branquíssimo surge diante nós. Face a ele qualquer pessoa compreende definitivamente o que é isso de “afloramento quartzítico”.

Parece que já estamos perto da aldeia da Mizarela e do seu miradouro, vê-mo-la quase à distância de um esticar de braço, telhados ocres debruçados na varanda granítica, mas ainda há que seguir pelo trilho que volta a ora descer ora subir, embora já não tão acentuado. Tempo e espaço ainda para passar por altas e inclinadas ravinas, onde até umas cordas estão cravadas na parede da rocha para nos ajudar a ultrapassar um último desafio, mas na verdade este ponto não é tão perigoso nem difícil como parece.

A parte pior há muito havia ficado para trás e de volta à aldeia da Mizarela, e à distância fácil do final do percurso, já só retinha a beleza extraordinária deste vale encaixadíssimo e suas estrondosas escarpas, as quais através de uma solidária abertura permitem que o raio Caima, que até então corria tranquilo, tenha um momento de aventura e se jogue por ali abaixo e no caminho vá nadando em diversas lagoas, fazendo dela a nossa felicidade.

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Drave, a Escondida

Tinha prometido a mim própria que voltaria à Serra da Freita para conhecer a Drave, aquela a que chamam a “Aldeia Mágica”. Os caminhos por vales e montanhas da Freita, em Arouca, são cenários impressionantes, mas também o secretismo e misticismo da povoação da Drave me impressionou. Em tempos tinha tentado percorrer de carro as estradas de asfalto pelas montanhas que lhe são próximas, mas nada de a conseguir vislumbrar.

Parte da atracção da Drave é precisamente esta, a de não se deixar ver nem pisar a não ser caminhando directamente até ela. Encaixada num vale e protegida por montanhas, a este lugar encantado apenas se chega depois de percorrer a pé os 4 quilómetros que a separaram da aldeia de Regoufe (bem marcados pelo PR14 – “Aldeia Mágica”).

Regoufe, a visigótica “rei dos lobos”, é também um lugar que merece ser visitado e explorado. Ao descer de carro até à aldeia percebemos logo a ocupação do vale com terras de cultivo. Um desvio à direita (onde estacionámos) sinaliza as Minas de Regoufe, hoje uma impressionante ruína cheia de ambiente desta antiga indústria de extracção de volfrâmio explorada pelos alemães durante a época da II Grande Guerra Mundial.

Descemos mais um pouco, agora a pé, e a entrada na aldeia permite-nos conhecer um exemplo singular de autêntica ruralidade bem no centro do nosso país. Casas de granito onde o piso térreo ainda é efectivamente usado para guardar os animais são uma realidade. Assim como o é a partilha das suas ruinhas entre os homens e as vacas, cabras e galinhas.

O percurso pedestre que nos leva até à Drave tem início à entrada do casario de Regoufe. São 4 quilómetros para cada lado, cerca de 1h 15m de caminho em cada sentido. É um percurso relativamente fácil, onde na ida a única parte cansativa é precisamente a primeira, aquela que após atravessar a ribeira da aldeia de Regoufe nos leva a enfrentar uma subida inclinada com muita pedra no terreno. Acontece que, na subida somos tentados a olhar para trás, para espreitar a implantação geográfica de Regoufe no vale, e de tão bela que é temos a desculpa perfeita para não apenas caminharmos lentamente como também forçarmos as paragens para descanso ver as vistas.

A chegada ao cimo desta subida dá-nos ainda um cenário maior, a junção das Serras da Freita e da Arada, e mais à frente ainda de São Macário, aquilo que há séculos era designado como o Monte Fuste. E a partir daqui o caminho é quase sempre relativamente plano e em bom piso, com excepção da aproximação a Drave, em que teremos que descer um empedrado.

A vista é fabulosa. As montanhas verdes com rasgões fazem lembrar as do Cáucaso. É impossível deixar de contemplar as enormes paredes montanhosas que se erguem desde abaixo no vale até tocarem no céu. E elas, camaradas, vão nos acompanhando pela nossa caminhada afora.

Começamos a avistar a Drave ao longe quase ao mesmo tempo que percebemos uma ribeira no fundo do vale em curva. Iniciamos a descida e em breve chegamos à Aldeia Mágica.

As casinhas escuras construídas em xisto e lousa confundem-se com as paredes rochosas. Esta é uma zona de transição de granito e xisto, mas o casario de Drave é todo em xisto, à excepção de um ponto branco correspondente à capela caiada. Impressiona como uma povoação implantada a 600 metros de altitude pode estar numa cova, rodeada de montanhas mais altas do que ela.

Esta primeira visão frontal e mais próxima de Drave impressiona ainda porque aqui percebemos de forma esmagadora o seu isolamento. A povoação da Drave tem como referência mais antiga uma dos tempos de D. Dinis, no século XIV, e em 1527 aparecia registada no Cadastro da População do Reino como contando com dois vizinhos e oito pessoas (por comparação, Regoufe tinha oito vizinhos e trinta e duas pessoas). Foi no ano 2000, depois de a linha telefónica ter chegado apenas 7 anos antes e de a electricidade não ter chegado nunca, que o último habitante deixou a aldeia. Era um Martins, descendente da família mais antiga e representativa do lugar, dona do Solar dos Martins, o maior edifício de Drave. Os habitantes de Drave dedicavam-se em exclusivo à agricultura, em especial à cultura do milho e batata, e possuíam algum gado e cabras. Foi a fertilidade do vale, pela confluência de algumas linhas de água, que aqui fez estabelecer as pessoas, mas nas últimas décadas o tempo, “esse grande escultor”, foi afastando os habitantes mais novos, em busca de melhores condições de vida ou tão somente de escolaridade – nunca houve escola na aldeia.

Hoje praticamente tudo está em ruína e não fossem os escuteiros esta seria uma aldeia fantasma. São eles que têm vindo a reabilitar alguma das casas, tendo feito da Drave a Base Nacional da IV Secção do Corpo Nacional de Escutas e é por sua responsabilidade que a Drave ainda não morreu, preservando não apenas o edificado mas também as memórias do lugar com as suas iniciativas.

Um dos prazeres desta caminhada é deambular pelo casario de Drave. Assim o fizemos, primeiro do lado de cá da Ribeira de Palhais e, atravessada a pequena ponte, depois do lado de lá. É uma atmosfera incrível, espreitar pelas portas ou janelas já idas, ou até pelos pedaços de pedra que faltam nas fachadas, e ver a montanha diante nós.

Não se pense que são meia dúzia de casas. Não, a Drave era uma povoação grande e com muitas habitações. Implantadas em pequenas plataformas adaptadas ao terreno, quase como se de socalcos se tratassem, estão construídas em xisto e com telhados em lousa e possuem anexos de apoio à agricultura, como palheiros, currais, azenhas e espigueiros. Podemos ver um espigueiro maior abaixo da Capela, um espigueiro que servia toda a comunidade, exemplo do espírito comunitário destas povoações isoladas.

Um lamento, porém. Ao deixarmo-nos perder por entre as ruinhas e casinhas, percebemos que nem toda a gente que se propõe vir até Drave compreende este legado que mais uma parceria brilhante entre Homem e Natureza nos deixou. Inúmeras casinhas escancaradas pela falta da cobertura e partes da fachada estão repletas de lixo e, sobretudo, de papel higiénico. Está bem que temos de fazer as nossas necessidades fisiológicas, mas como se explica que haja gente que se abale a caminhar esforçadamente durante algum tempo para não respeitar o lugar de destino, por sinal incrível e único? Não desejo que optem pelo depósito deste tipo de resíduos na ribeira – há alternativas – até porque depois do passeio pelo casario de Drave ainda há que mergulhar na Ribeira de Palhais.

Este é outro dos pontos altos desta caminhada. As inúmeras poças e cascatas que se vão formando ao longo do vale. O Verão não é o melhor momento para as ver na sua máxima ou média força, daí que Maio ou Junho sejam os meses mais aconselhados para quem quer caminhar e mergulhar. Não nos tocou essa pujança ribeirinha, pelo contrário, a ribeira estava bem vazia e até dava para caminhar por ela.

Ainda assim, arranjámos um poço sem ninguém e com uma água transparente bem apelativa, para além de um recanto para um piquenique.

Depois de um merecido momento de descanso e reflexão por esta dádiva, iniciámos o caminho de volta. Mais custoso, uma vez que se na vinda havíamos descido, agora haveria que subir. Nada que os momentos relaxantes e de felicidade vividos anteriormente não nos tenham preparado para encarar.

Esta caminhada foi, em conclusão, uma das mais fantásticas que tive oportunidade de percorrer. Trilho com cenas grandiosas de montanha, povoação de construção vernácula em ruína, curso de água com poços cristalinos para tomar banho, tudo reunido, faz deste o passeio perfeito.

Se quiser saber mais sobre Drave pode assistir ao filme “Uma Montanha do Tamanho do Homem”, de João Nuno Brochado, lançado em 2014 e disponível em RTP Play aqui.

Trilho no Wikiloc

Jardim Gulbenkian

O Jardim Gulbenkian é uma obra-prima do paisagismo moderno. Não é segredo para nenhum lisboeta, mas os seus cantos e recantos continuam a surpreender pela diversidade de ambientes que permitem vivenciar.

As suas origens remontam ao século XVIII, à quinta conhecida como Quinta do Provedor dos Armazéns, propriedade de Fernando Larre, no lugar de Palhavã, então uma das portas da cidade de Lisboa. Era uma quinta de recreio típica da época, com edifício senhorial, jardim, pomar, horta, vinhas e campos de cereal. Na segunda metade do século XIX, o palácio e a quinta foram adquiridos pelo conselheiro de Estado José Maria Eugénio de Almeida e aí começaram as transformações da quinta, com a criação do Parque de Santa Gertrudes, sob a influência do desenho de jardins da escola francesa, com lago e vegetação autóctone e exótica. Em 1883, com a morte do conselheiro, o parque foi cedido para a instalação do Jardim Zoológico de Lisboa que por aí ficou por uma década. Depois disso, foi lugar de velódromo, hipódromo e feira popular, parte da vida social lisboeta.

Até que chegamos a 1957, ano em que a Fundação Calouste Gulbenkian decide adquirir parte do Parque de Santa Gertrudes para aí instalar a sua sede, conforme desejo do seu fundador. Os arquitectos Alberto Pessoa, Pedro Cid e Ruy d’Athouguia ficaram responsáveis pelo projecto dos edifícios da sede e museu e os arquitectos paisagistas Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto pelo projecto de concepção dos jardins, todos trabalhando de forma interdisciplinar para que o resultado fosse o que se vê hoje, o de uma brilhante integração e fruição de todos os elementos do conjunto. Em 1969 as obras ficaram concluídas e a Fundação e respectivo Jardim abriram as suas portas. Desde aí o espaço foi objecto de algumas transformações, umas radicais, como a construção do edifício do Centro de Arte Moderna (1983, arquitecto John Leslie Martin), outras de continuidade, como a remodelação do jardim (2003, arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles). O melhor que se pode dizer é que a Gulbenkian pode ir mudando, mas não perde o seu carácter, o que, acredita-se, possa continuar a acontecer com a ampliação do jardim – e edifício da colecção moderna – prevista para 2021, sob projecto do arquiteto Kengo Kuma e do paisagista Vladimir Djurovic, vencedores do concurso internacional para a remodelação dos jardins da Gulbenkian.

“Gostaria que se tornasse um grande amigo da natureza porque a criação de uma relação íntima com a natureza é motivo de profunda satisfação na vida”, Calouste Gulbenkian

A Fundação Calouste Gulbenkian decidiu, por vontade do seu fundador, ter a sede em Lisboa e todos nós só o podemos agradecer ao magnata do petróleo. Com fins caritativos, artísticos, educacionais e científicos é, igualmente, senhora deste espaço que temos vindo a apresentar historicamente e que hoje é não apenas central geograficamente na cidade como também na vivência dos seus habitantes. Para aqui vimos admirar arte, escutar música, pesquisar documentos e participar em actividades educativas várias. Em todas estas viagens não prescindimos, nem por uma única vez, de um passeio pelo seu Jardim.

Jardim modernista, os elementos vegetais jogam de forma magistral ao redor dos edifícios e, mesmo sem lhes virar as costas, é possível sermos tomados apenas pela natureza.

O espaço de jardim não é um mero complemento, antes um companheiro inseparável, sendo prova maior disso a forma soberba como quando dentro do museu nos distraímos das obras de arte para admirar o jardim que é delas uma extensão. Já tínhamos avisado, o Jardim Gulbenkian é ele próprio uma obra-prima.

São caminhos, uns em clareira e outros em túnel, que se vão cruzando, criando espaços intimistas e micropaisagens, reproduzindo os momentos de descoberta e de felicidade. O contraste da luz e da sombra é perfeito, com muitos lugares onde o sol parece pedir licença para filtrar entre as folhas.

O coberto vegetal é variado e vemos até bambus. A água é uma presença constante, com o riacho a correr em grande parte dos caminhos, criando pequenas cascatas em diversos pontos. E a avi-fauna do jardim uma companhia prazerosa, fazendo-se sentir quer pela sua melodia quer pela sua figura. O mobiliário – bancos, caixas de luz ou caixotes de lixo – é todo em betão, mas nem por um momento endurece a paisagem. Sentar-mo-nos num dos bancos cinzentos de desenho simples num dos recantos do jardim, sem quase perceber se faz sol ou chuva, apenas escutando o chilrear de um pássaro ou a água a correr, é uma experiência comum no Jardim da Gulbenkian. Um convite à evasão ou à meditação, não sendo por isso de estranhar ver um praticante de ioga num qualquer ponto do jardim. Porque todo e cada espaço do jardim é ideal para alguma actividade: meditar, ler, namorar, trabalhar, piquenicar, apanhar sol. O extenso relvado junto ao lago e ao edifício sede é o mais concorrido para banhos de sol com toalha estendida e biquini vestido e tudo.

O jardim tem ainda espaço para um belo anfiteatro ao ar-livre e, depois, espalhados de forma precisa ao longo do jardim vamos tendo vários elementos escultóricos contemporâneos, mais um testemunho da ligação entre paisagismo e cultura, as duas marcas da sede da Fundação.

Talvez a mais famosa das esculturas do jardim seja aquela que todos podemos ver quando passamos na Praça de Espanha, Calouste Gulbenkian sentado de forma majestática, da autoria de Leopoldo de Almeida – a imagem foi reproduzida a partir de uma fotografia tirada durante a sua visita ao Egipto, com Gulbenkian junto à estátua do deus Hórus, no templo de Edfu.

A outra escultura, igualmente icónica, é o Monumento a Azeredo Perdigão, primeiro presidente da Fundação, obra de Pedro Cabrita Reis. Uma construção em betão com três patamares com ligação por escadas. Não há portas nem janelas, a construção prossegue e a Fundação quer-se como o betão: sólida e perene.

O Castelo de Lisboa

Numa colina sobre o Tejo ergue-se o Castelo. Lisboa é cidade antiga. Antes de sermos lisboetas, habituámo-nos a receber a visita dos fenícios, dos romanos, dos visigodos e dos muçulmanos, até que chegou D. Afonso Henriques e os seus amigos cruzados e a Alis Ubba (dos fenícios), a Olissipo (dos romanos), a Ulixbuna (dos visigodos) e a Al-Ushbuna (dos muçulmanos) tornou-se a Lisboa que hoje nomeamos.

As colinas, e em especial esta a que agora dedicamos a nossa atenção, já lá estavam todas no século VII a.C., quando o lugar começou a ser povoado. Foram, no entanto, os romanos quem no século I a.C. primeiro começaram a construir uma cidade estado murada, com uma construção primitiva no topo do que hoje conhecemos como colina do Castelo, muralhas essas que acabariam por ser aproveitadas pelos muçulmanos para, a partir do século X ou XI, erguerem a sua Cerca Moura. Da Cerca Moura, ou Cerca Velha, pouco resta hoje de visível para além do troço junto ao terraço das Portas do Sol (escadaria da Rua Norberto Araújo), donde se avista o que era então o arrabalde de Alfama encosta abaixo até desaguar no Tejo. Eram, então, cerca de 1250 metros de muralha e mais de 20 torres (são visíveis, ainda, troços de muralha dentro de vários edifícios como os da Fundação Ricardo Espírito Santo e da Casa dos Bicos) e, hoje, um circuito pedonal circular entre a Rua Chão da Feira e a Rua Milagres de Santo António, com 16 totens informativos espalhados pelo caminho, permite-nos conhecer este sistema defensivo medieval que perdurou até à construção da Muralha Fernandina, ou Cerca Nova, no século XIV, sete vezes maior do que a anterior.

Se destas muralhas que acabaram por ser aglutinadas pelos espaços urbanos pouco vemos, a muralha da Alcáçova, essa, ainda lá está para recriarmos uma imagem do nosso passado medieval. Da actual Rua Chão da Feira entramos para a parte mais alta da medina de outrora, a qual era protegida, precisamente, pela Alcáçova. Era aqui, no topo da colina, que ficavam os bairros residenciais da elite administrativa, religiosa e militar e o castelo. E para sul desenvolvia-se o núcleo urbano da cidade – a medina -, com comerciantes, artesãos, banhos públicos, mercados e mesquita, tudo isso ainda no interior da cerca urbana. Só depois vinham os arrabaldes.

Em 1147 D. Afonso Henriques e o seu exército de cruzados levaram 17 semanas de cerco a Al-Ushbuna até a tomarem. A construção muçulmana não era fácil de penetrar. Para além de estar localizada no alto de uma escarpa, a cada porta seguiam-se estreitos corredores em cotovelo, o que tornava difícil a entrada mesmo depois da porta derrubada, encurralando o invasor. Aliás, quando entramos pela Rua do Chão da Feira percebemos isso mesmo, uma entrada logo seguida de uma curva apertada.

A partir daqui estende-se o castelo e o bairro do Castelo.

São 4 ruas e 1 beco, mais coisa menos coisa. Ruas sempre estreitas, como já o eram aquelas que rodeiam o bairro e a Alcáçova (é obrigatório iniciar este périplo pelo Castelo por um passeio pela Rua da Costa do Castelo e/ou pela Calçada do Menino de Deus, onde os bairros da Mouraria e de Alfama se confundem com o bairro do Castelo).

E 2 praças separadas por um pano de muralhas e 11 torres.

Na primeira praça, a Esplanada, apesar da estátua de D. Afonso Henriques marcar o momento histórico da conquista da cidade, a história é completamente ultrapassada pelo miradouro em que se transforma o Castelo. A paisagem que daqui se avista é épica, tudo se registando aos nossos pés, 360° graus de ícones lisboetas.

A segunda praça é vivida já no interior do castelo, ultrapassado o fosso e a barbacã. Subimos à muralha, por ela caminhamos, subimos a uma torre, descemos, caminhamos mais um pouco pela muralha, subimos a outra torre, e assim vamos continuando. Por cada torre que passamos acrescentamos mais uma vista fantástica para um ponto cardeal da nossa Lisboa. É o Tejo, é a Baixa, é a Graça, é São Vicente, tudo, tudinho. Como curiosidade, destaque para duas destas torres. Uma, a Torre do Tombo, foi o lugar do inicial arquivo documental do reino. Outra, a Torre de São Lourenço, a única construída num lugar baixo, ao fim de uma longa escada que nos leva quase até à actual Praça do Martim Moniz – era lá abaixo que os antigos habitantes iam buscar água em segurança, com a Torre a servir de garantia de acesso seguro a um poço situado fora do castelo.

O Castelo de São Jorge, nome pelo qual o conhecemos desde o reinado de D. João I, no século XIV, não terá sido usualmente residência de reis. Talvez D. Sebastião tenha usado o lugar como paço, mas terá sido o último a fazê-lo e com a dinastia Filipina o paço real passou definitivamente para o Paço da Ribeira, no Terreiro do Paço, tendo o Castelo a partir daí tido sobretudo uma função militar, de defesa de quem vivia na Alcáçova e suas imediações.

Foi já no decorrer do século XX que se redescobriu o Castelo de São Jorge. Nos anos 1938-40 foi objecto de obras de restauro, à semelhança de muitos castelos país fora, numa recriação nacionalista do Estado Novo (daí que se afirme que o Castelo de São Jorge é uma criação do Estado Novo). A essa época já o Castelo tinha chegado em muito mau estado, ruína mesmo, em consequência dos terramotos de 1530 e de 1755 e do descaso dos Homens que o tinham maltratado com o uso de um conjunto de quartéis. Se foram essas obras de há apenas escassos 80 anos lhe deram a imagem de fortificação com torres e ameias que vemos hoje, foi também desde aí que se tem vindo a perceber os vestígios do antigo paço real e da alcáçova islâmica e as vivências de outrora. Trabalhos arqueológicos que continuam o seu curso permitem-nos traçar 3 épocas de presença humana na colina do castelo: idade do ferro (com vestígios de estruturas habitacionais que remontam ao século VII a.C.), bairro islâmico (século XI – XII, ligado à fundação do castelo e área residencial das elites do governo da cidade) e época cristã (século XV a XVIII, com antigo paço episcopal e palácio dos Condes de Santiago, o último dos palácios da antiga alcáçova medieval que se manteve habitado até ter ruído com o terramoto). Marcas do conjunto destes vestígios podemos encontrá-los no “sítio arqueológico” que testemunham estes três períodos significativos da história de Lisboa. E na exposição permanente instalada no espaço daquele que se acredita ter sido o antigo paço real podemos ainda ver uma colecção de objectos encontrados na área arqueológica, os quais permitem traçar a evolução do povoamento desta colina que permaneceu o centro da cidade de Lisboa até ao século XVI.

No sítio arqueológico vemos a igreja da Alcáçova, a igreja Santa Cruz do Castelo, a qual já existiria quando os muçulmanos chegaram à cidade.

Invenção do Estado Novo ou não, o que é certo é que o Castelo de São Jorge é o monumento mais visitado do país e o miradouro número um da cidade de Lisboa. Assim como já o tinha sido na cidade de Alis Ubba, de Olissipo, de Ulixbuna e de Al-Ushbuna.

Quinta da Regaleira

A um vírus oportunista, uma resposta cheia de oportunidade. Não há turistas estrangeiros no nosso país e a maioria dos locais ainda se coíbe de passear? Então, toca de rumar a Sintra para aproveitar para ver a vila sem enchentes e, com sorte, ter um dos seus belos monumentos só para nós.

Foi isso que aconteceu na minha mais recente visita à Quinta da Regaleira, em Junho. Chegada logo à hora de abertura num dia de semana, andei pelos seus 4 hectares durante quase três horas cruzando-me apenas com meia dúzia de pessoas bem contadas. A beleza, o encanto e o misticismo da Regaleira só para mim foi um sonho tornado realidade.

A uma distância facilmente percorrida a pé desde o centro histórico de Sintra, é mesmo de sonho que se trata quando se menciona a palavra Regaleira. Quando em 1840 D. Ermelinda Allen Monteiro de Almeida, primeira Viscondessa da Regaleira, comprou os terrenos da quinta que existia já desde os finais do século XVII esta era conhecida como Quinta da Torre (pela torre hoje adossada à actual Casa da Renascença). Foi apenas no princípio do século XX que o lugar se transformou no Palácio e Quinta da Regaleira que hoje conhecemos. Tudo graças ao sonho do seu novo proprietário, António Augusto Carvalho Monteiro, o Monteiro Milhões, nascido no Brasil e com estudos em Coimbra, que com Luigi Manini, cenógrafo do Teatro São Carlos e arquitecto do Palácio do Buçaco, deram a Sintra uma obra-prima. A Regaleira conjuga natureza e arquitectura e condensa em si tudo o que Sintra é: romântica e artística, misteriosa e requintada. E daqui, imersos na vegetação intensa e luxuriante da Serra de Sintra, não faltam pontos de vista de excelência para os outros ex-libris de Sintra, o Castelo dos Mouros, o Palácio da Pena e o Palácio da Vila.

A entrada na Quinta da Regaleira é efectuada mais acima na estrada que nos há-de deixar no Palácio de Seteais. Até lá passamos por pormenores deliciosos no caminho, como uma fonte, uma estatueta em cima do muro e os contornos da Regaleira cheia de pináculos e merlões ao nosso lado esquerdo, claro.

Entramos pelo edifício que outrora serviu de Cocheiras e sem demora subimos em direcção ao Portal dos Guardiães, a primeira paragem numa viagem por jardins, grutas, lagos e edifícios majestosos. No amplo Terraço dos Mundos Celestes, as torres do Zigurate ganham destaque, apenas um dos muitos miradouros da Quinta. Ao elegante semi-circular Portal dos Guardiões não faltam igualmente as torres, mas nele há ainda os elementos decorativos da fonte na sua base central a chamar a atenção.

Ao lado fica o Poço Imperfeito, mas a nossa mente só tem espaço para pensar em chegar ao Poço Iniciático. Sem pressas, porém, adentrando pela floresta que nos cobre totalmente com a sua vegetação, um ambiente escuro e fresco, uma espécie de preparação para o que nos aguarda no Poço. A Regaleira está cheia de simbologia, diz-se que mitológica, alquímica, maçónica, esotérica, templária, enfim, tudo o que seja dado ao oculto encontrará aqui uma explicação. O Monteiro Milhões, para além de milionário, era um homem curioso e de vasta cultura e sensibilidade, atreito às questões científicas e filosóficas. No entanto, a simbologia que pretendeu expressar com a ajuda de Manini (relembremos, para além de arquitecto também cenógrafo) não é acessível a todos – a mim, por exemplo -, não sendo fácil perceber aqui uma visão cosmológica, referências ao binómio paraíso / inferno ou viagens iniciáticas. O que é fácil perceber, sim, é a aura de magia e mistério ao nosso redor.

E talvez em nenhum lugar da Regaleira como no Poço Iniciático se sinta esse poder. As rochas dispostas de forma quase artística não fazem prever o cenário que está para lá delas. Ou, melhor, abaixo delas. É um poço fundo, em espiral, com diversos patamares cénicamente preenchidos com janelas em arco. Este mundo é verde, estamos nas entranhas da terra, apenas uma nesga de luz natural acima de nós que se vai tornando cada vez mais ténue à medida que descemos. O silêncio apenas é perturbado pelas gotículas que teimam em cair num ritmo lento e cadenciado. Embora as muitas interpretações (ou até nenhuma), é aqui que melhor percebemos a presença de três mundos que se complementam: o céu, a terra e o mundo subterrâneo. Do Poço sai um percurso subterrâneo (encerrado) que o liga quer ao Portal dos Guardiões quer à Cascata (antes de deixarmos o Poço Iniciático há que referir que não existe qualquer prova de que este ou qualquer outro espaço da Regaleira tenha sido utilizado para práticas rituais).

Saindo desta viagem subterrânea quase transcendente, continuamos a subir, agora já na superfície a céu aberto, mas com a vegetação como protectora. Passamos pela Gruta da Virgem, uma de muitas, mas todas especiais. Seguimos junto ao muro, com o Castelo dos Mouros a deixar-se ver, sem mistério, no cimo da Serra.

O Lago da Cascata, o tal com ligação subterrânea ao Poço Iniciático, bem como ao Poço Imperfeito e a diversas grutas, é um dos momentos altos da decoração natural da Regaleira. Desenvolve-se por vários níveis ligados por escadas, permitindo-nos uma vez mais uma imersão na abundante vegetação. E faz-nos recordar como a água sempre foi importante deste os primórdios da Quinta, ainda ela não levava o nome actual. A água entrava aqui a partir dos aquedutos dos Anjos e da Serra e o actual sistema hidráulico é distribuído por uma série de minas, depósitos e diferentes espaços de água, como lagos, cascatas, fontes e charcas, para além de uma cisterna.

A água é, sabe-mo-lo, um elemento que confere romantismo ao cenário. E as fontes adensam-no. A Fonte da Abundância, por exemplo, está decorada com embrechados e figuras escultóricas. Igualmente, no espaço de recato que a envolve, com um banco e mesa, vêem-se elementos decorativos como uns vasos com a figura de veados. Mais uma vez, deste espaço pode retirar-se uma série de interpretações da simbologia que apresenta, como as letras inscritas, o altar e a figura da concha e do peixe. Não o querendo interpretar, aprecie-mo-lo, que já enche bem as medidas.

Também a Gruta da Leda, abaixo da Torre da Regaleira e sua varanda-galeria miradouro, tem um ambiente único. Este espaço interior com uma acústica e ambiente incríveis (parece que ainda estou a ouvir e sentir a água a cair) não é bem uma fonte, antes um tanque para onde cai uma cascata adornada pela figura de uma dama com cisne ao lado e pomba na mão – mais uma dose de simbologia para ser interpretada.

Aproximamo-nos cada vez mais do coração da Regaleira. Passamos a estufa com o painel de azulejos azul e branco na sua fachada e eis-nos logo acima da Capela da Santíssima Trindade e do Palácio da Regaleira.

É aqui, com estes dois edifícios, que o estilos manuelino e romântico revivalista atingem o seu apogeu, mas também os estilos gótico e renascentista. Ambos foram construídos com o recurso a materiais nobres, como o calcário, ao contrário dos demais edifícios da Quinta que empregam o granito local, incluindo a vizinha Casa da Renascença, sede da Fundação CulturSintra (a Câmara Municipal de Sintra é a proprietária da Quinta da Regaleira, que após obras de restauro abriu as portas aos visitantes em 1997).

A Capela da Santíssima Trindade é exuberante na sua fachada. As portas e janelas são super decoradas e os merlões e pináculos inundam a cobertura, incluindo a torre alta e esguia. Mas o espaço do seu “adro” é tão exíguo que não cabe na minha foto. Segue este banco como exemplo da sua hiper-decoração.

Estes elementos decoram igualmente a cobertura do Palácio. E aqui vemos a profusão dos estilos arquitectónicos referidos anteriormente – neo-românico, neo-manuelino, neo-renascentista e neo-gótico – em alegre comunhão, num equilíbrio perfeito. O que António Augusto Carvalho Monteiro pretendeu e Luigi Manini e sua equipa executaram foi uma mescla dos mais representativos estilos em território nacional, uma homenagem à história e à epopeia vivida pelos portugueses, daí o revivalismo arquitectónico. No interior do palácio visitamos diversas das suas salas. Bem decoradas, o que mais impressiona, todavia, são os estratégicos pontos de vista para desde o interior se contemplar as panorâmicas majestáticas da Serra de Sintra no exterior, incluindo o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena.

Ao redor da Capela e do Palácio apreciamos um jardim formal carregado de deliciosas espécies arbóreas, sendo que na altura da minha visita eram as hortênsias que tomavam todo o protagonismo.

Não deixamos a Regaleira sem conhecer mais umas grutas e lago, sendo que a Gruta do Labirinto é os dois na mesma medida. Tempo ainda para visitar a Loggia dos Pisões, a qual se vê da estrada que passa junto aos muros da Regaleira. Mas agora, cá dentro, podemos apreciar em detalhe os seus painéis de azulejo ao longo e ao fundo da escada que dá para o pequeno portão lateral da Quinta.

Em direcção à saída da Quinta percorremos, então, o Patamar dos Deuses, uma longa alameda ladeada por espécies exóticas e nove estátuas representando deuses mitológicos que desembocam no jardim e Palácio da Regaleira.

Nesta visita não houve nevoeiro que adensasse o ambiente de mistério da Regaleira e de Sintra. Não foi necessário para que o percebêssemos, e o céu azul e os jardins floridos realçaram ainda mais o esplendor de todos os elementos da Quinta.

Cinco Voltas na Bahia e Um Beijo para Caetano Veloso, de Alexandra Lucas Coelho

O livro “Cinco Voltas na Bahia e Um Beijo para Caetano Veloso”, de Alexandra Lucas Coelho, editado em 2019, foi escrito em consequência de um comentário de Caetano Veloso a propósito de um seu outro livro, “Deus-dará”. Lucas havia editado “Deus-dará” em 2016 e “Vai, Brasil” em 2013 e com eles pensava ter fechado o ciclo de livros brasileiros, após ter vivido no Brasil durante uns anos no início da década passada.

Mas o tal comentário de Caetano, “falta Bahia no seu livro”, fê-la voltar à carga e criar uma trilogia brasileira na sua obra literária.

A Bahia é a protagonista deste novo livro, mas Caetano é central e a ele se volta sempre durante todo o texto. Dividido em 5 voltas, a última por fazer, a autora, “filha de Oxum”, discorre pelos imensos símbolos deste estado brasileiro sem nunca recorrer ao clichê, sempre com a inteligência de aí se partir para outros motivos, outras personagens, outras histórias, como se fosse tirando as baianas umas de dentro das outras. Palavras e imagem sua, claro.

“Assim do céu é que pela primeira vez vi o recorte daquela costa onde ao poente de 23 de Abril de 1500 um homem branco, de pé num batel, se achou diante de indígenas com água pelo peito. Ou vice-versa: indígenas com água pelo peito se acharam diante de um homem branco, de pé num batel. Porque se a novidade era mútua, para o branco não foi inesperada.”.

Através das suas frases vamos viajando pelas paisagens e povoações, com início em Porto Seguro, onde para nós, portugueses, tudo começou. Nomes como Belmonte e Trancoso, denunciadoras da vizinhança original de Pedro Álvares Cabral, o descobridor (ou achador) do Brasil. Os descobrimentos e a escravatura, temas caros à autora, não passam isentos de abordagem insatisfeita com a doutrina oficial.

“A Bahia é assim o único lugar do mundo onde desde criança convivo com toda a família de um artista só de o escutar, de cantar com ele seus ascendentes, descendentes, parentes, heróicos e genéticos, sua casa, sua porta, sua Ítaca: Santo Amaro da Purificação, de onde tudo irradia”.

Para além das paisagens e povoações, este “Cinco Voltas Pela Bahia e Um Beijo para Caetano Veloso” está cheio de referências culturais. Caetano e toda a sua família, com Maria Bethânia à cabeça acompanhada de Santo Amaro da Purificação e Recôncavo, sim. Mas também Dorival Caymmi, Gil, João Gilberto, Tropicalistas, terreiros de candomblé, mães de santo, orixás. Jorge Amado e seu iniciático “Capitães da Areia”, com Pedro Bala e seu lanho na cara, que a autora confessa ter sido “um dos meus primeiros amores de papel”. Não esquecendo Gabriela.

As inúmeras igrejas de Salvador, tantas igrejas que “uma vida não chega” para as conhecer todas. E o Pelourinho, lugar onde anteriormente se castigavam os escravizados, hoje simplesmente Pelô, o bairro mítico de Salvador e do Brasil. Não faltam referências ao Olodum e às fitinhas de Nossa Senhora do Bonfim. Nem à comida: acarajé não é um mero bolinho ou pastel; é “1) uma religião 2) uma cultura 3) uma economia”.

Ao longo deste livro damos por nós a cantarolar Caetano, ajudados pelos trechos de letras lá incluídos. Confirmamos a ideia do poderoso sincretismo da Bahia – “se há cidade misturada que mais se vista de branco do que São Salvador da Bahia de Todos-os-Santos (também conhecida apenas como Bahia), não conheço”. E somos levados a olhar o Atlântico de forma diferente quando nos sentamos, livro na mão, junto de Alexandra para os lados da praia Buracão, no Rio Vermelho: “Aí, ao longo das semanas seguintes, é que entrei na intimidade do mar de Salvador, e ele na minha, até às profundezas do último sono. O Atlântico explodia na minha frente sem metáfora, desfazia-se em espuma contra as rochas, dias e noites sempre juntos, lembrando a temeridade que é qualquer humano fazer-se a ele. Impossível não pensar que do outro lado estava Angola, e que dessa costa para cima tinha vindo gente viva, acorrentada entre ratos, em navios de nomes como Feliz Dia a Pobrezinhos, Brinquedo dos Meninos, Amável Donzela ou Caridade. Ancestrais de quem me acolhia ali, na cidade mais africana da América do Sul.”

A cidade mais africana da América do Sul, “reino de vários reinos”, lugar de todos os encontros.

Mas, Alexandra, falta Ubaldo no seu livro.