Hong Kong por 30 cêntimos

Dois dias em Hong Kong apenas serviram para relembrar os seus arranha-céus, os seus templos, os seus parques, as suas vistas e a sua intensa vida de rua. 
Mas, sobretudo, para relembrar que é em Hong Kong que estão dois dos meios de transporte mais fantásticos e estupidamente baratos do mundo. Por cerca de 30 cêntimos de euro o Star Ferry cruza o “porto perfumado” e é uma vista privilegiada do skyline de Hong Kong. 

E pelos mesmos cerca de 30 cêntimos de euro o tram fininho de duplo deck percorre lentamente algumas das ruas aceleradas do lugar que comemora neste 2017 os 20 anos da devolução britânica à China.
Algumas fotos como lembrança.


Avenue of Stars

Lembro-me desde há muito de Hong Kong despertar paixões por, pelo menos, dois factores: a loucura do seu anterior aeroporto nos simuladores de voo (jogos) e o seu cinema.

Em Tsim Sha Tsui, Kowloon, existe a Avenida das Estrelas, dedicada aos seus actores, realizadores e relacionados. Lá os maiores têm a sua estrela e a nós, fãs, resta-nos colocar a nossa mãozinha no espaço dos deuses.
 
 

Não esquecer que a indústria do cinema de Hong Kong chegou a ser a terceira maior do mundo, logo atrás de Hollywood e Bollywood, e é desde sempre objecto de culto. Seja pelos filmes de artes marciais, seja pelo melodrama de Wong Kar-wai (apesar de o cinema de Hong Kong ter começado a ser forte muito antes destes dois).

Bruce Lee e Jackie Chan tornaram-no extremamente popular.

No entanto, a mim agrada-me a acção de Johnnie To, com as tríades e as ruas menos centrais de Kowloon representadas no seu cinema, como em The Mission, ou o belíssimo Sparrow, sobre um grupo de carteiristas que mais parece bailar enquanto rouba.

E agrada-me um pouquinho mais Wong Kar-wai. São tantos os filmes superiores que fez que vou destacar apenas o Chungking Express porque será o que melhor representa Hong Kong e sua confusão, voltas e mais voltas em ambiente nocturno.

E, depois, há ainda Ann Hui, ainda muito desconhecida por mim, mas essa falha será colmatada em breve.

Templo Wong Tai Sin

O Templo de Sik Sik Yuen Wong Tai Sin pode ser considerado de tudo menos sereno. Pelo contrário, o ajuntamento de crentes ou meros curiosos, faz dele uma confusão de gente e sons. E, sobretudo, uma confusão visual. Como escreve o guia Lonely Planet, é uma explosão de cores nos seus pilares, telhados, flores e incenso.

A este templo taoista, mas com influências confucionistas e budistas, vem gente de todos os estratos da sociedade de Hong Kong, fazendo-se acompanhar de oferendas como frutas e outros alimentos para as suas divindades. Acendem os seus pauzinhos da sorte e rezam.

 

Convento de Freiras Chi Lin

O Convento de Freiras Chi Lin, em Diamond Hill, Kowloon, é um recanto de beleza e tranquilidade rodeado por prédios imensos.
 


 
É um complexo budista que foi reconstruído totalmente em 1998 no estilo da dinastia Tang que reinou na China entre os séculos VII e X. Mas mais do que um mero pastiche, é com um sentimento de profunda serenidade que percorremos os seus sucessivos pátios e os seus pavilhões de madeira e o seu lago, aqui e ali dando de frente com uns bonsais e umas buganvílias.  

Dentro dos pavilhões vemos estátuas reluzentes e enormes dos bodhisatvas e outras divindades budistas.

Kowloon

Kowloon é parte continental dos territórios de Hong Kong.

Nos últimos anos tem tido um crescimento enorme e já vai rivalizando com a ilha no que a  arranha céus diz respeito. De tal forma que o edifício mais alto de Hong Kong fica aqui. É o International Commerce Centre, tem 484 metros de altura e é o quinto edifício mais alto do mundo.
 
 
Mas há mais edifícios que se destacam na paisagem, como o One Peking Road, baixote para os padrões locais, ou a mega construção do Centro Cultural de Hong Kong, cujas escadarias são boas para tirar fotografias de noivos. Houve polémica com a sua entrada em cena, principalmente por ter vindo ocupar uma zona tão nobre como Tsim Cha Tsui e sua promenade com vista de luxo para o skyline de Hong Kong, ficando assim a ser vizinho da histórica Torre do Relógio.

Nem assim, conseguiram retirar as atenções do vizinho hotel The Peninsula, ainda hoje um dos mais glamourosos da Ásia. Esta zona tem uns quantos hotéis luxuosos, a condizer com a vista que proporcionam, só acessíveis a uns quantos.

Mas Kowloon é muito mais do que edifícios.

É, sobretudo, o lugar da vista. Seja percorrendo a Avenida das Estrelas, com Bruce Lee como guardião do skyline de Hong Kong, seja atravessando o Porto Victoria a bordo do Star Ferry. Todas as noites, às 20:00, na promenade de Tsim Sha Tsui, há um espectáculo a que chamam “Sinfonia das Luzes”, misto de show pirotécnico com música. Não se pode perdê-lo, mas é bom não criar grandes expectativas, pois tirando a vista nocturna, este “espectáculo” tem pelo menos 15 dos seus 20 minutos a mais.

Este é também o local para se comprar de tudo. Sejam grandes marcas sejam os produtos aldrabados. Mas é lugar também para compras de meio termo.

Caminhando Nathan Road acima encontramos as lojas de marca acessíveis ao bolso médio. Entrando pelo bairro de Yau Ma Tei, as suas ruas laterais são tomadas pelos inúmeros mercados, sendo o mais conhecido o Temple Street Night. Dizem que aqui se encontra de tudo, mas, seguindo uma tradição longa que inclui o Grande Bazar de Istambul, não consegui uma vez mais comprar nada. Para os meus sentidos, as imitações pareceram pindéricas. Os próprios vendedores sabem que estão a vender objectos falsos e fazem questão de o demonstrar na confecção dos objectos.

Achei mais piada à zona de Mong Kok, mais para norte. Aqui temos quarteirões inteiros dedicados ao comércio de uma só actividade. Seja de computadores (ou mais modernamente tablets), aquários e comida para peixinhos, comida e utensílios para cãezinhos, flores. Até um jardim dos pássaros, onde os seus donos os vão passear dentro das suas gaiolas e depois ficam ali ouvindo-os cantar e, por vezes, soltando-os um pouco.

Mais afastado do centro de Kowloon ficam duas atracções que só por si merecem que Hong Kong seja incluída nos nossos itinerários: o Templo de Sik Sik Yuen Wong Tai Sin e o Convento de Freiras Chi Lin (ver postes seguintes)

Parques de Hong Kong

Neste pedaço de ilha que outrora estava por inteiro coberto de vegetação e cuja parte norte está hoje tomada de betão, encontramos, ainda assim, uns parques que são um verdadeiro escape citadino.

O Hong Kong Park fica nas traseiras da Torre do Banco da China. É rodeado numa vertente por arranha céus e na outra por uma encosta cheia de vegetação. Ou seja, ficamos como que esmagados – no bom sentido – por duas paisagens contraditórias. Este parque é muito belo, cheio de construções artificiais, com uma cascata que cai num lago onde ao lado de umas tartaruguinhas podemos ver os edifícios altos espelhados na água. Aqui encontramos alguns edifícios históricos coloniais, como a Flagstaff House, que hoje acolhe o Museu dos Utensílios do Chá, o qual vale bem uma visita.

Na Causeway Bay fica o Victoria Park, o maior parque da ilha. É aqui que temos as maiores possibilidades de encontrarmos os habitantes da ilha a praticarem o seu tai chi diário. Tem um manto verde imenso ao seu centro, com uns quantos caminhos a serem percorridos a ladearem-no. Para além disso, existem aqui diversas instalações desportivas para que o pessoal se ponha em forma.

Instalações desportivas é o que também não falta ao Kowloon Park, na outra margem do Porto Victoria, já no continente. Para além da piscina e campos de ténis da ordem, tem ainda um aviário e uma Mesquita, a qual chegou antes do parque. Tem ainda um jardim chinês com um lago com flor de lótus rodeado de arcadas. Naquele domingo estavam ocupadas com a reunião de uma série de mulheres jovens, creio que filipinas e / ou indonésias, que trabalham nas casas de Hong Kong. Aos domingos e feriados – como foi o caso do 1o dia de Janeiro – elas tomam de assalto qualquer lugar público da cidade, seja um parque ou o passeio, a escadaria ou hall de um edifício. Vêm acompanhadas de pedaços grandes de cartões para colocarem no chão e se sentarem e para dividirem o espaço de cada um dos grupos. E ficam ali o dia todo a comer, conviver, cantar. Uma folga na vida de trabalhadora estrangeira.

Uma Volta à Ilha – Stanley, Aberdeen e Repulse Bay

Os territórios conhecidos como Hong Kong são todos bem servidos de transportes. O autocarro é a forma de se chegar ao sul da ilha, onde ficam as melhores praias. Não visitámos tudo, ficou a faltar Shek O, a sudeste.

A primeira paragem do agradável percurso de autocarro foi em Stanley, conhecida sobretudo pelo seu mercado e praias. Tem uma avenida marginal pedonal com restaurantes e pubs que se encontram em qualquer grande cidade do mundo. O sol brilhava no primeiro dia do ano de 2013 fazendo com que o reflexo na água, juntamente com o pier adentrando a baia, fizesse um postal bonito.

Stanley foi um dos maiores povoamentos da ilha quando os britânicos aqui se estabeleceram. Hoje, apesar de albergar uma prisão de segurança máxima, é lugar para uma boa escapada da confusão da grande cidade, seja para os locais, seja para os turistas.

Seguimos para Aberdeen, com as suas casas flutuantes e, sobretudo, restaurantes flutuantes mega hiper turísticos como o Jumbo. O kitsch em todo o seu esplendor.

O porto de Aberdeen, é um emaranhado de barcos ali estacionados, testemunho de uma época que já lá vai onde muitos encontravam uma profissão na pesca e outras actividades relacionadas com o mar. Hoje muitos abandonaram os barcos e instalaram-se do outro lado do porto em Ap Lei Chau, diz-se que um dos lugares mais densamente populados do mundo. Olhando para aquelas fileiras de edifícios onde é difícil contar os seus andares ou sequer saber onde termina um edifício e começa o outro, não é difícil acreditar que metade da população de Lisboa caiba aqui. Se calhar estou a ser ingénua e na verdade a população inteira de Lisboa viveria aqui à larga.

Mas voltando ao porto de Aberdeen, onde é quase impossível escapar à pressão dos locais para fazermos um passeio de Sampan, o mais pitoresco é observarmos como muitos dos barcos hoje servem de casa. Uma distraída olhada e vemos roupa estendida; um olhar mais atento deixa-nos ver canteiros de flores a decorar a entrada destas casas improvisadas. Ou seja, sem darmos por isso estamos a ser testemunhas do dia a dia de uma família que teve de se adaptar a uma nova realidade. Não esquecendo, no entanto, que os rios sempre foram lugar de vida, onde se acorda, trabalha, descansa e dorme.

 

A próxima e última paragem desta jornada foi Repulse Bay, mais elegante do que Stanley e onde os ricos possuem a sua casa. Também, pudera. O visual desta zona é fantástico e ao virar de uma curva ainda plena de vegetação aparece-nos uma baia com uma praia de cortar a respiração, como Deep Water Bay, perto de Repulse Bay.

Nesta, ao fim daquela tarde, com o sol já a querer fugir, apesar de sentir tudo menos calor pareceu-me que este seria o local ideal para o primeiro mergulho do ano. Não se proporcionou, porém. Daí a umas poucas horas iria enfrentar o quase dia inteiro de viagem de volta para casa. Não sem antes assistir a mais uma explosão de cor e fantasia com o Santuário Kwun Yam, bem ao fundo da praia.

Este é uma colecção de divindades, com um sem número de estátuas, algumas delas enormes, representando diferentes figuras na mitologia chinesa. Mesmo não acreditando naquelas crenças de que se fizeres isto vais ter aquilo, vale bem a pena andar por ali observando todas estas imagens.

Excelente forma de acabar a viagem.

Sheung Wan


O nosso hotel ficava em Sheung Wang, diz-se que um bairro com um cheirinho da Xangai antiga. Da janela do nosso quarto minúsculo tínhamos a vista do Porto Victoria e mesmo em frente, em Kowloon, o edifício do International Commerce Centre, com 484 metros, o que faz dele o mais alto de Hong Kong e o quinto mais alto do mundo. Foi ele que nos deu as boas vindas a 2013, pois passámos a meia-noite no Parque Sun Yat Sen, bem em frente ao hotel. Pensava fugir à confusão vendo daqui o fogo-de-artifício a sair do Two IFC, como nos anos anteriores, mas desta vez mudaram a festa para o Hong Kong Convention & Exhibition Centre em Wan Chai e não vi mais do que uns vislumbres do fogo-de-artifício. Sem problema, pelo menos fugi mesmo da confusão.

Sheung Wan, apesar de junto ao porto, tem umas quantas ruas inclinadas e é lugar de lojas e negócios tradicionais, como herbanários, antiguidades e, principalmente, toda a sorte de espécies do mar que são deixadas a secar. E também cogumelos e mais um sem número de elementos não identificados. Tudo seco.

Nada que ver com a sofisticação do centro de Hong Kong, pois.

Mas o que mais importa para mim é ficar num local que ainda seja autêntico, ainda que não bonito. E o tipo de lojas / negócios por aqui, eles sim são novidade para os nossos sentidos, olfacto e visão, sobretudo, que não me atirei a degustar esta sequidão. Mas é também interessante ver o bulício das ruas, sem engravatados por perto, antes troncos nus a trabalharem duro. Ou a descansarem, provavelmente vindos da sessão matinal de tai chi.


O eléctrico típico da região, o Hong Kong Tramways, um dos primeiros transportes da cidade, atravessa quase toda a zona norte da ilha, sendo Sheung Wan uma das contempladas, daí que esta seja uma das melhores opções de transporte para este bairro, que fica ainda perto do terminal de ferries para Macau.

Entre vários templos, por aqui fica também o Templo Man Mo, como não podia deixar de ser encravado entre prédios imensos e com um cheiro de incenso forte. Este é um dos mais antigos e famosos templos de Hong Kong e bem especial para mim, pois uma das duas divindades a quem está consagrado é a Man, o deus da literatura.

Hong Kong – Centro da Ilha

Apesar de hoje se verem cada vez mais arranha-céus em Kowloon, como se fosse uma competição face a face com os da ilha, a maioria e os mais conhecidos ficam na ilha de Hong Kong, concentrados sobretudo na Central e Wan Chai.

No entanto, um pouco por todo o lado eles estão lá. Um dos mais impressionantes é o Highcliff, um edifício residencial de 252 metros de altura, construído já de si numa cota alta, tão estreito que custa a crer que se aguente nas canetas. Mas ele lá esta, parece que a desempenhar o papel de guardião do Happy Valley, o hipódromo onde são disputadas as corridas de cavalos onde as apostas são também elas uma atracção. Este hipódromo, tal como tudo nesta cidade, sejam templos, igrejas, edifícios coloniais ou parques e jardins, fica esmagado entre uma série de prédios. Não é de lamentar, não é feio, é bastante pitoresco.

Estes edifícios que se destacam na paisagem tanto podem ser de escritórios ou residenciais. Ou centros comerciais. Em alguns dos seus pisos podemos encontrar hotéis ou restaurantes, nunca saberemos à partida se não tivermos o trabalho de casa feito.

Os arranha-céus podem ser a imagem de marca de Hong Kong, mas, mais do que isso, eles são uma necessidade, quer face à escassez do território e pressão demográfica, quer face ao terreno declivoso.

Há obviamente edifícios mais elegantes do que outros.

A minha preferência recai no Two IFC (International Finance Centre) que invadiu a paisagem em 2003 tornando-se o mais alto da ilha, título que ainda hoje possui do alto dos seus 416 metros.

Mas também gostei das bolinhas do Jardine House, mais velho três décadas, à data da sua construção o mais alto da vizinhança, considerado o primeiro arranha-céus de Hong Kong.

Outro a registar é o edifício da Torre do Banco da China, o qual parece desafiar as leis da geometria, tornando-se mais estreito quando está mais perto do céu. Apesar dos chineses considerarem que ele vai contra os princípios do feng shui, só temos de lhe agradecer por nos deixar ir no seu elevador supersónico até ao 43º andar e ganharmos uma outra perspectiva da cidade.

A especificidade do Central Plaza é o seu relógio. O seu topo é triangular com uma espécie de antena a apontar o céu e quando foi construído em 1995 os seus 374 metros deram-lhe à época o prazer de ser o mais alto da Ásia.

Isto parece que quando se constrói um edifício por estas paragens o objectivo principal é ser o mais alto, nem que seja da sua rua.

E, depois, mais modestos na sua baixeza, há outros edifícios icónicos em Hong Kong, como é o caso do HSBC, obra de Norman Foster de 1985, aquele que tem os leões a guardá-lo e, diz-se, se se acariciar as suas patinhas tal gesto trar-nos-á sorte.

Uma palavrinha para o Hong Kong Convention & Exhibition Centre, em Wan Chai. Todo em vidro, do seu interior temos acesso a toda a vizinhança, o que inclui a outra margem do Porto Victoria. E vemos que as obras não param nunca em Hong Kong, e parece haver sempre mais terreno para ganhar às águas.

Outra palavrinha para a Catedral de St John’s, edifício colonial do século XIX a destoar da paisagem futurista. Mas o mais interessante é constatar como apesar de tão diferentes estes edifícios conviverem tão bem.

As Vistas de Hong Kong

Hong Kong tem também cenários naturais belíssimos, mas as vistas que se procuram são as dos seus edifícios enormes, a disputarem o céu. Uns mais elegantes do que outros, quase todos eles bem juntinhos.

Duas vistas, pois, imperdíveis:

– desde Tsim Sha Tsui, em Kowloon, género de Cais do Gingal, em Almada, a ver Lisboa, mas sem direito a viagem de barco Star Ferry em menos de 10 minutos.

– desde o The Peak, o ponto mais alto da ilha, a cerca de 370 metros de altitude. Há duas opções para se alcançar o pico donde teremos uma das vistas mais espectaculares do mundo. Ou através do Peak Tram, numa curta subida. Ou através do autocarro, numa longa volta com direito a todos os cenários que não se devem perder, incluindo, digamos, as traseiras da ilha, com as suas enseadas mais do que cénicas.