À semelhança do Convento de São Pedro de Alcântara, o Convento dos Cardais está situado no Bairro Alto. Originalmente da Ordem das Carmelitas Descalças, fundada por Santa Teresa de Ávila, este convento teve origem numa doação de terrenos por parte de Dona Luísa de Távora, então a mulher mais rica do país, cerca de 1671. Ela própria habitou o convento e está aqui enterrada – e o brasão dos Távora segue intacto, um dos poucos a escapar à fúria que se abateu sobre a família. A igreja deste Convento é uma jóia escondida.


A Ordem das Carmelitas é uma de clausura total. De linha arquitectónica simples e austera, o edifício conventual na Rua do Século passa discreto. Tudo é escondido do exterior, mas em contrapartida o interior é rico e cheio de decoração. Começamos a visita pela sua esplêndida igreja. Nela está representada toda a arte: pintura, talha e azulejos.

Os painéis de azulejo representam a vida de Santa Teresa de Ávila, mostrando desde a sua vida em criança (há até um painel com o seu irmão, fugindo ambos) a cenas com vários milagres que lhe estão associados. Os azulejos da igreja são holandeses, assinados e feitos em Amesterdão, os últimos que obtiveram permissão de entrada no nosso país, por forma a salvaguardar a arte produzida pelos portugueses. O Convento dos Cardais é um óptimo lugar para observar a diferença entre ambas as escolas: os portugueses não costumam ser assinados, têm amiúde algumas pequenas imperfeições e demostram um horror ao vazio – no coro alto há outros painéis de azulejo com a representação da vida de Santa Teresa de Ávila, desta vez portugueses, e as diferenças são evidentes.

Já as pinturas da igreja são de temática mariana, com momentos em que a virgem está sempre presente. Veem-se pinturas de Bento Coelho da Silveira, Vieira Lusitano e André Gonçalves, este último com obras também no coro alto. Uma espécie de museu, com grandes obras de arte nacionais.

O altar da igreja enche a vista, tão preenchido de ouro que está. Possui um retábulo barroco, de estilo nacional e não joanino. As diferenças entre estes estilos manifestam-se nos detalhes das colunas, que continuam, enquanto no estilo joanino a parte superior do retábulo é mais trabalhada. Por outro lado, as típicas colunas torsos, torcidas, dão a impressão de movimento, elemento caro ao barroco.


Logo atrás do altar está a sacristia, agora com azulejos portugueses.


Segue-se a sala onde está o túmulo de D. Luísa Távora, com o tal raro sobrevivente brasão dos Távora. As paredes estão, novamente, decoradas com mais painéis de azulejo.

Esta sala antecede o claustro do Convento, quadrangular e pacato, com jardim. Ao seu redor desenvolvem-se os espaços conventuais.





Uma escadaria pontuada por algumas esculturas de santos transporta-nos até ao andar superior, feito de salas e corredores com uma colecção de diversas pinturas e objectos. São quase todas elas peças cativantes e de uma beleza ímpar, a maior parte doações, muitas das vezes das famílias das irmãs. Destaque para um oratório dedicado a Nossa Senhora da Conceição, a quem o convento é dedicado. Em talha dourada, este oratório está escondido num móvel que, fechado, parece um comum armário. Uma bela surpresa.


Por aqui fica o coro alto. Já se disse, a Ordem das Carmelitas era de total clausura e, talvez por isso, no coro alto vê-se a janela, donde as carmelitas espreitavam a igreja, com espigões virados para fora, como os cardos. Os cardos protegiam, assim, as religiosas deste convento, daí o seu nome, Convento dos Cardais. O coro alto tem, à semelhança da sacristia, azulejos portugueses. E, à semelhança do que acontece com os azulejos holandeses da igreja, também estes representam cenas da vida da fundadora da Ordem das Carmelitas, mas nestes percebe-se na perfeição a diferença entre ambos, sendo os portugueses muito mais preenchidos. Para além do que, não se focam tanto na cena como os holandeses e não necessitam da já referida perfeição.


O Convento dos Cardais é ainda hoje ocupado por (poucas) irmãs. Surpreendentemente, o seu interior está muito bem preservado e íntegro, praticamente como na data da sua fundação, há cerca de 350 anos. Tal deve-se ao facto de, mesmo após a extinção das ordens religiosas, em 1834, ter permanecido sempre habitado por irmãs, primeiro Carmelitas e, depois, por Dominicanas. Com efeito, após a extinção das ordens religiosas, o convento acolheu mulheres cegas e foram as irmãs da Associação Nossa Senhora Consoladora dos Aflitos quem se dedicaram ao seu cuidado. Hoje continuam a viver aqui diversas mulheres com necessidades especiais e, ao mesmo tempo, o Convento dos Cardais está aberto a visitas. À saída, numa pequena loja, temos a oportunidade de comprar diversos produtos conventuais e, assim, ajudar quem nos abriu as portas de tamanha maravilha.