Cinco Voltas na Bahia e Um Beijo para Caetano Veloso, de Alexandra Lucas Coelho

O livro “Cinco Voltas na Bahia e Um Beijo para Caetano Veloso”, de Alexandra Lucas Coelho, editado em 2019, foi escrito em consequência de um comentário de Caetano Veloso a propósito de um seu outro livro, “Deus-dará”. Lucas havia editado “Deus-dará” em 2016 e “Vai, Brasil” em 2013 e com eles pensava ter fechado o ciclo de livros brasileiros, após ter vivido no Brasil durante uns anos no início da década passada.

Mas o tal comentário de Caetano, “falta Bahia no seu livro”, fê-la voltar à carga e criar uma trilogia brasileira na sua obra literária.

A Bahia é a protagonista deste novo livro, mas Caetano é central e a ele se volta sempre durante todo o texto. Dividido em 5 voltas, a última por fazer, a autora, “filha de Oxum”, discorre pelos imensos símbolos deste estado brasileiro sem nunca recorrer ao clichê, sempre com a inteligência de aí se partir para outros motivos, outras personagens, outras histórias, como se fosse tirando as baianas umas de dentro das outras. Palavras e imagem sua, claro.

“Assim do céu é que pela primeira vez vi o recorte daquela costa onde ao poente de 23 de Abril de 1500 um homem branco, de pé num batel, se achou diante de indígenas com água pelo peito. Ou vice-versa: indígenas com água pelo peito se acharam diante de um homem branco, de pé num batel. Porque se a novidade era mútua, para o branco não foi inesperada.”.

Através das suas frases vamos viajando pelas paisagens e povoações, com início em Porto Seguro, onde para nós, portugueses, tudo começou. Nomes como Belmonte e Trancoso, denunciadoras da vizinhança original de Pedro Álvares Cabral, o descobridor (ou achador) do Brasil. Os descobrimentos e a escravatura, temas caros à autora, não passam isentos de abordagem insatisfeita com a doutrina oficial.

“A Bahia é assim o único lugar do mundo onde desde criança convivo com toda a família de um artista só de o escutar, de cantar com ele seus ascendentes, descendentes, parentes, heróicos e genéticos, sua casa, sua porta, sua Ítaca: Santo Amaro da Purificação, de onde tudo irradia”.

Para além das paisagens e povoações, este “Cinco Voltas Pela Bahia e Um Beijo para Caetano Veloso” está cheio de referências culturais. Caetano e toda a sua família, com Maria Bethânia à cabeça acompanhada de Santo Amaro da Purificação e Recôncavo, sim. Mas também Dorival Caymmi, Gil, João Gilberto, Tropicalistas, terreiros de candomblé, mães de santo, orixás. Jorge Amado e seu iniciático “Capitães da Areia”, com Pedro Bala e seu lanho na cara, que a autora confessa ter sido “um dos meus primeiros amores de papel”. Não esquecendo Gabriela.

As inúmeras igrejas de Salvador, tantas igrejas que “uma vida não chega” para as conhecer todas. E o Pelourinho, lugar onde anteriormente se castigavam os escravizados, hoje simplesmente Pelô, o bairro mítico de Salvador e do Brasil. Não faltam referências ao Olodum e às fitinhas de Nossa Senhora do Bonfim. Nem à comida: acarajé não é um mero bolinho ou pastel; é “1) uma religião 2) uma cultura 3) uma economia”.

Ao longo deste livro damos por nós a cantarolar Caetano, ajudados pelos trechos de letras lá incluídos. Confirmamos a ideia do poderoso sincretismo da Bahia – “se há cidade misturada que mais se vista de branco do que São Salvador da Bahia de Todos-os-Santos (também conhecida apenas como Bahia), não conheço”. E somos levados a olhar o Atlântico de forma diferente quando nos sentamos, livro na mão, junto de Alexandra para os lados da praia Buracão, no Rio Vermelho: “Aí, ao longo das semanas seguintes, é que entrei na intimidade do mar de Salvador, e ele na minha, até às profundezas do último sono. O Atlântico explodia na minha frente sem metáfora, desfazia-se em espuma contra as rochas, dias e noites sempre juntos, lembrando a temeridade que é qualquer humano fazer-se a ele. Impossível não pensar que do outro lado estava Angola, e que dessa costa para cima tinha vindo gente viva, acorrentada entre ratos, em navios de nomes como Feliz Dia a Pobrezinhos, Brinquedo dos Meninos, Amável Donzela ou Caridade. Ancestrais de quem me acolhia ali, na cidade mais africana da América do Sul.”

A cidade mais africana da América do Sul, “reino de vários reinos”, lugar de todos os encontros.

Mas, Alexandra, falta Ubaldo no seu livro.

Jardim Botânico Tropical

O Jardim Botânico Tropical, também conhecido como Jardim do Ultramar, em Belém, é um dos mais bonitos de Lisboa. Já sei que digo isso de quase todos, mas este é mesmo um verdadeiro amor. E um daqueles amores que é para sempre, uma vez que depois de encerrado para restauro durante praticamente todo o ano de 2019 reabriu em Janeiro de 2020 mais bonito do que nunca, embora ainda com diversos trabalhos de reabilitação em curso e edifícios encerrados.

Paredes meias com o Palácio Nacional de Belém, em conjunto com quem se encontra classificado como Monumento Nacional, ao longo dos seus cerca de 6,7 ha encontramos uma colecção botânica notável, em muitos momentos exuberante e monumental, composta por mais de 600 espécies de origem tropical e subtropical.

Foi D. João V quem, em 1726, comprou as quintas dos Condes da Calheta e dos Condes de Aveiras para aí criar o Regis Hortus Suburbanus. Anos depois, a elas se juntou os jardins do Palácio dos Duques de Aveiro, formando todo o conjunto a Real Quinta e Palácio de Belém, este último hoje residência oficial do Presidente da República Portuguesa. E em 1912 o espaço passou a acolher o Museu e Jardim Colonial, que havia sido criado 6 anos antes pelo rei D. Carlos. Durante o século XX foram-lhe acrescentados diversos edifícios e estatutária que haviam sido construídos para a Exposição do Mundo Português em 1940, uma nova imagem na sua faceta científica de estudo, história e memória da flora das colónias portuguesas. Hoje é propriedade da Universidade de Lisboa, à semelhança dos outros dois jardins botânicos da cidade, o da Ajuda e o do Príncipe Real, e a sua função é não apenas científica mas também didática e de lazer.

Ao iniciar o passeio pelo Jardim Tropical é tentador seguir logo pela majestosa alameda das Washingtonias, rodeada de palmeiras altíssimas, mas resistimos e seguimos antes a direito em direcção ao Jardim Oriental.

O Jardim Oriental, com entrada pela porta de Macau – uma réplica da entrada no Pagode da Barra, em Macau, construída em 1940 para a Exposição do Mundo Português -, é um exemplo da fusão de influências chinesa e portuguesa na arte dos jardins. Com uma densa vegetação, cobrindo-nos quase na totalidade, e uma forte presença da água, vemos pontes com estrutura de madeira pintada a vermelho, a lembrar o Oriente, mas também com ferro, elemento mais português. O exotismo do edificado neste jardim vê-se ainda no Pavilhão de Jardim Chinês e na Porta da Lua.

O Palácio dos Condes da Calheta fica no final desta alameda que ladeia o Jardim Oriental. Construído no século XVII, como nota histórica diga-se que aqui decorreram alguns dos interrogatórios daquele que ficou conhecido como o Processo dos Távoras, na sequência da tentativa de assassinato (?) do rei D. José. À semelhança da Casa de Chá, da Casa dos Jardineiros e da Estufa Principal, o acesso ao Palácio dos Condes da Calheta encontra-se vedado, decorrendo ainda as obras de restauro nestes edifícios. Podemos, no entanto, apreciar a estrutura em ferro e vidro da Estufa Principal, datada de 1914, com destaque para o seu portão rodeado de vegetação.

Aqui chegados já reparámos em alguns dos bustos africanos espalhados nesta zona do jardim, parte da antiga “Galeria dos Povos do Império”, os quais pretendiam representar a diversidade de etnias presentes na Exposição de 1940, ou seja, este é mais um dos elementos adicionados nessa época. Penso conviver bem com o passado histórico português da Expansão, mas é estranho apreciar estas esculturas.

No Lago das Serpentes encontramos um painel de mesma temática, mas aqui a nossa atenção é desviada para os repuxos de água e os azulejos com cenas de animais, incluindo nos frisos do revestimento do chão. Este Lago fica junto à Casa da Direcção, antiga casa com pátio, alterada para constituir um exemplo de Casa Colonial que integrou a Exposição de 1940. Não a visitei (fechada) e pouco percebi do Pátio do Ourives (igualmente fechado na altura da minha visita).

Mas graças à renovação recente do Jardim Tropical, podemos agora aceder e conhecer o Jardim dos Cactos. Um espaço surpreendente com um ambiente incrível. Não tanto pelas espécies em si, mas antes pelo que a acção descontrolada da natureza é capaz de produzir. As copas das árvores foram crescendo e o número das espécies de cactos e outras suculentas foi reduzindo, apenas tendo sobrevivido as espécies tolerantes à sombra. O resultado é um cenário brutal na verdadeira acepção do termo, com as ruínas dos edifícios das antigas estufas tomadas pelos cactos expansionistas resistentes. Uma espécie de Angkor em ponto pequeno.

Uns passos mais e esta “selvajaria” dá lugar a um recanto delicado, uma estátua clássica de uma dama diante de um pequeno plano de agua. É o Jardim da Ninfa, por cima do qual temos o Tanque dos Leões, o antigo tanque de rega das hortas reais. Nesta zona ficam ainda dois dos mais antigos edifícios do jardim, a Casa do Veado e a Casa de São João, ambas encerrados para requalificação.

Até aqui, tudo perfeito. Não faltam sequer uns pavões fêmea a passear com as suas crias e uns pavões macho com a plumagem colorida e esplendorosa aberta ao nosso deleite. Entre os residentes do jardim encontramos ainda patos, gansos e até galinhas.

Seguimos agora pelo Arboreto do Mundo, diversos caminhos que saem de uma rotunda central cobertos com diversas espécies das quais lamento não reconhecer nem saber o nome, embora a maioria esteja etiquetada. Só guardo, e não é pouco, a imagem da beleza exuberante e altaneira de algumas delas.

O Lago Pequeno e Gruta, com uma pérgula a encimá-los, é um dos elementos românticos introduzidos na segunda metade do século XIX. O que esta última renovação do Jardim Tropical fez foi aperfeiçoar o sistema de circulação de água no jardim. Um canal, espécie de riacho, liga este Lago Pequeno ao Lago Principal, bem mais adiante. É, então, o momento de percorrermos a soberba alameda das Washingtonias, onde até o Mosteiro dos Jerónimos faz questão de aparecer na cena ao fundo. Este é um pedaço de barroco no Jardim. A sua execução foi inspirada no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, obra de D. João VI, bisneto de D. João V, o criador deste nosso Jardim Botânico Tropical de Belém.

Muitos caminhos há ainda para percorrer e muito para admirar, estátuas da época de D. João V espalhadas pelo jardim, araucárias, um dragoeiro, raízes intemporais de árvores, mas chegamos, enfim, ao Lago Principal. Os patos nadam ao redor da Ilha das Fruteiras, plantada com árvores de fruto de origem tropical e subtropical, como anoneiras, abacateiros ou pitangueiras, permitindo-nos aqui descansar, literalmente, à sombra da bananeira. Mas o melhor deste lago é o cenário que o envolve, mais um daqueles que irá permanecer na nossa memória e acompanhar-nos durante muito tempo.

Tavira

Tavira é uma das mais bonitas cidades algarvias. Cortada ao meio pelo rio Gilão, que em breve desaguará na Ria Formosa para logo depois se espremer entre as ilhas de Tavira e de Cabanas até se perder no mar, é na sua margem direita que podemos passear pelo centro histórico.

Talvez em nenhuma urbe como Tavira as marcas islâmicas sejam tão presentes. Desde logo, no nome. Tabira derivará do verbo árabe “tabara”, de significado esconder. Ou seja, Tavira como “a escondida”, por não ser visível nem do mar (graças às ilhas barreira) nem da terra (graças à serra algarvia).

Não surpreende, pois, que aqui possamos visitar o Museu Islâmico, onde se expõe o espólio arqueológico da época islâmica encontrado na cidade. O “Vaso de Tavira” é a estrela do museu e uma belíssima e inesquecível peça cónica de argila datada da segunda metade do século XI, com bonecos moldados à mão representando guerreiros, cavaleiros, músicos e animais.

O castelo e as muralhas de Tavira são outro exemplo da ocupação islâmica. A cidade que há séculos havia estado sob domínio dos fenícios, que terão construído a sua muralha, viu os muçulmanos chegarem no século XI e aqui fixarem-se, tendo construído o castelo no topo da colina de Santa Maria. O objectivo seria a protecção da entrada no rio Gilão e mesmo com a posterior conquista cristã, no século XIII, o lugar manteve a sua importância, bem atestada pelas novas obras no castelo e pelo facto de o perímetro amuralhado ter chegado aos cinco hectares. Mais, com a conquista dos portugueses Tavira passou a ser uma das sedes da Reconquista. Hoje o castelo não possui já estruturas no seu interior, servindo antes como jardim e miradouro.

É a partir desta vista privilegiada – com destaque para três elementos que ela nos oferece: rio, igrejas e telhados – que desde o castelo partimos a descobrir o centro histórico de Tavira.

A primeira igreja que visitamos é a Igreja de Santa Maria do Castelo. À sua frente temos a Igreja de Santiago e ao lado o Convento da Graça. Não é à toa que Tavira é conhecida pela “cidade das igrejas”. Diz que são 37 as igrejas e 6 os conventos espalhados pela cidade, pelo que não ficamos muito tempo sem ver uma torre com uma cruz e um sino. A Igreja de Santa Maria do Castelo é a mais típica e reconhecível, com a torre do relógio de um lado e portal gótico do outro.

No Castelo caminhamos pelo seu belo jardim e do alto das suas muralhas apreciamos outro dos elementos que fazem de Tavira singular. Os telhados tesoura (ou de tesouro), que já tínhamos visto em Faro, parecem ser aqui a solução primeira e mais abundante no que respeita à cobertura dos edifícios. Em forma de pirâmide, com 4 águas muito inclinadas, foram trazidos para Tavira pelos comerciantes e navegadores que viajavam para paragens distantes na época dos descobrimentos, replicando na sua cidade o que viam lá fora. Mas foram usados sobretudo em edifícios pertencentes à nobreza e ao clero e, ao contrário do que se possa à partida pensar, não servem para melhor escoar a água da chuva, uma vez que no Algarve ela não é abundante, mas mais ao facto de esta estrutura permitir um melhor controlo da temperatura no interior das habitações, tornando-as mais frescas.

Descemos do castelo até ao centro da cidade. Espreitamos a Porta de D. Manuel I, voltamos a subir um pouco para descobrir o portal renascentista da Igreja da Misericórdia e ruinhas que a circundam, e descemos finalmente até à Praça da República, espaço amplo virado para o rio Gilão.

Atravessamos a sua ponte assente em sucessivos arcos, construída no século XVII e que se crê ter substituído uma outra mais antiga de origem romana. Da outra margem a vista sobre Tavira é belíssima, com a presença de todos os elementos que a tornam um lugar encantador: rio, igrejas e telhados tesoura.

Mas é o caminhar sem propósito pelas ruas que nos faz gostar ainda mais de Tavira. Paramos numa pastelaria para comprar uma mão cheia de doces típicos do Algarve, provamo-los no Jardim do Coreto e atravessamos o Mercado da Ribeira – que não é, de todo, o que esperávamos, antes uma espécie de centro comercial virado para os turistas.

E voltamos, uma vez mais, a debruçar-nos sobre o rio Gilão enquanto ele não se transforma em rio Séquia. Esta é uma das muitas curiosidades de Tavira. O Rio Séquia nasce na Serra do Caldeirão e desce até Tavira, mas quando chega à antiga ponte da cidade muda de nome, passando a correr sob a designação de Gilão nos seus últimos cerca de 3 kms até à foz. A que se deverá tão raro facto? Provavelmente só as lendas o explicarão e não é difícil de imaginar que esta lenda mete histórias de amor impossível entre princesas mouras e cavaleiros cristãos. Felizmente que a nossa história de amor com Tavira é bem real e está aí para acontecer.

Olhão e Culatra

Olhão está localizada entre Faro e Tavira, mas não é apenas mais uma cidade algarvia. Igualmente plantada à beira da Ria Formosa e igualmente com um passado romano e mouro (embora este último já não visível), tem um carisma genuíno e muito próprio. Como nos dizia um olhanense, pode não ser tão bonita como Tavira, mas depois de dois dias os turistas cansam-se da beleza da vizinha e fogem para Olhão em busca do castiço e autêntico.

Dizíamos que nos dias de hoje não se vêem vestígios deixados pelos mouros, mas curiosamente são as cidades do norte de África que nos vêm à lembrança quando percorrermos as ruas de Olhão – Raul Brandão escreveu que só lhe faltavam os “esguios minaretes”. O seu traçado confuso, feito de ruas que não se sabe muito bem para onde confluem, becos que surgem de surpresa e, sobretudo, edifícios cúbicos com açoteias (terraços-miradouro) fazem-nos crer que estamos numa cidade com influência moura. Na verdade, este desenho da urbe é muito posterior à ocupação muçulmana e foi projectado já por nós, portugueses-olhanenses, no século XIX, influenciados pelas muitas viagens comerciais a Marrocos.

O nome “olhão” vem de um grande olho de água que se encontrava algures no que é hoje território olhanense. Apesar da ocupação humana desde há muitos séculos, terá sido no século XVI que aqui se instalou uma comunidade de pescadores vindos da vizinha Faro, atraídos pela abundante pesca desta parte da Ria. Na origem da povoação esteve, desde o início, gente humilde e as suas habitações eram cabanas de madeira e palha. Os de Faro recusaram até quando puderam construções de alvenaria na vizinha Olhão, e a primeira construção destas apenas foi autorizada em 1715. Esta gente humilde do mar, apartada do poder político, nem por isso deixou de pugnar pelos seus e pela sua terra, e em 1771 ganhou a construção do Compromisso Marítimo, edifício onde puderam passar a tratar de diversos serviços sem necessidade de se deslocarem a Faro. Ainda hoje se lê na fachada do entretanto tornado Museu Municipal de Olhão: “Esta obra foi feita à custa dos mareantes da Nobre Casa do Corpo Santo deste lugar de Olhão, em tempo do Felicíssimo Reinado do Fidelíssimo Rei Senhor D. José, o Primeiro, que Deus guarde, sendo Juiz da mesma Casa, António de Gouveia, no ano de 1771″.

A fibra dos seus cidadãos viu-se ainda num outro episódio da história de Portugal. Aquando das Invasões Francesas fizeram frente aos invasores e conseguiram expulsá-los do Algarve. Um grupo de destemidos olhanenses resolveu, então, meter-se ao mar numa pequena embarcação atravessando o Atlântico com o objectivo de dar a boa nova ao rei D. João VI (que havia fugido para o Brasil). O rei, grato, elevou o lugar de aldeia a vila e atribuiu-lhe uma nova designação, a de Vila da Restauração de Olhão. Uma réplica do caíque Bom Sucesso aí está na frente ribeirinha da hoje cidade para atestar o feito.

É por aqui que encontramos um dos lugares obrigatórios de Olhão, o seu Mercado Municipal, na verdade dois inconfundíveis edifícios lado a lado que se acredita terem sido projectados por discípulo de Gustave Eiffel. No interior a azáfama dos vendedores é vibrante e as bancas de produtos um espectáculo à parte. O peixe, sempre ele, é a estrela da companhia. Bom para se olhar e bom para se saborear. São inúmeros os restaurantes e tascas – na avenida marginal ou num dos tais becos – onde se pode comer um peixe inesquecível, como aquele atum braseado que pude provar e aprovar. E Olhão é ainda conhecida pela sua indústria conserveira – em 1919 eram cerca de 80 as fábricas -, entrada em decadência no final do século XX. Não é, pois, de estranhar que existam tantos edifícios em ruína. No entanto, também aqui se vê a raça do olhanense. Muitos vêm sendo restaurados para dar lugar a alojamentos turísticos recuperados e decorados com bom gosto; outros foram tomados pelos artistas de rua, dando-lhes um novo rosto através da pintura irrequieta.

Ou seja, a popular Olhão a todos acolhe e talvez por isso seja um dos lugares do Algarve que mais atenção e procura têm tido por parte de turistas inconformados e esclarecidos. Não surpreende, pois, que um festival como o FICLO — Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão tenha lugar na cidade. E claro que aproveitámos para voltar ao cinema nesta era Covid-19, assistindo a uma das sessões ao ar livre no República 14, um dos espaços culturais de Olhão.

E porque estamos no Algarve, a praia não pode faltar. No Porto de Recreio várias opções de passeios de barco pela Ria Formosa nos tentam. Mas nenhuma é mais típica da alma olhanense do que apanhar o barco público até à ilha da Culatra ou da Armona. Escolhemos a Culatra, uma das 5 ilhas (mais duas penínsulas) barreira que separam o mar da ria. A viagem dura cerca de tranquila meia-hora onde nos dedicamos em exclusivo a apreciar Olhão a ficar para trás emoldurada pela Serra do Caldeirão e, depois, a assistir aos barquinhos a passarem por entre canais que contornam os bancos de areia e as áreas de sapal. Descobrimos até um olhanense aqui e ali a trabalhar numa destas pequeníssimas ilhas naturais.

A chegada à Culatra é movimentada, com muitos barcos estacionados no seu porto. Descemos e logo vemos as casas assentes na areia, até uma capelinha. Esta ilha é ainda hoje lugar de pescadores, embora muitos outros se lhes tenham entretanto juntado. São cerca de 1000 os seus habitantes com infra-estrutras à sua disposição como escola, centro social e correios. E muitos e afamados restaurantes onde se come o bom do peixe da Ria e arredores. O ambiente parece, no entanto, um de férias infinitas.

Os caminhos já não são exclusivamente de areia, muitos foram traçados com lajes de cimento, mas as casas simples com terraços e até pequenos jardins dão uma imagem de veraneio. Entramos pela ria e depois de atravessarmos a povoação seguimos por um passadiço de madeira por cerca de 500m totalmente envolvidos por um cordão dunar e, zás, estamos no mar. Esta é uma zona de Parque Natural e há que respeitar as regras para que a biodiversidade dos ecossistemas não seja colocada em causa nem perturbada. Por exemplo, não caminhar nas dunas e respeitar os sinais de não passagem, uma vez que muitos dos lugares podem ser de nidificação de aves e corremos o risco de pisar e destruir os ninhos mesmo sem o perceber.

Após o final do passadiço e com o Atlântico completamente aberto diante de nós, duas opções se colocam: tomar a esquerda em direcção à Praia da Culatra ou tomar a direita em direcção à Praia do Farol. Optámos por esta última e caminhámos pela areia por cerca de 3 kms completamente desertos de gente, apenas com a companhia de muitas aves que se divertiam entre a areia e a água do mar.

O Farol é o farol do Cabo de Santa Maria, mas é também uma (outra) povoação piscatória num dos extremos da ilha da Culatra. Igualmente castiça e popular, indisfarçavelmente Algarve, não lhe faltando sequer as típicas chaminés. Pelo meio da ilha há ainda outra povoação, Hangares, mas essa já só a percebemos ao longe, na volta da viagem de barco para Olhão, completamente saciados de tanta ria e mar.

Faro

Faro é a maior cidade do Algarve e não tem parado de crescer nos últimos anos. Ou seja, muito há para visitar. No entanto, esta nossa visita apenas passou rapidamente pelo Bairro Ribeirinho e demorou-se na Vila Adentro, deixando de fora instituições que mereciam certamente uma visita, como o Mercado Municipal, o Teatro Lethes e a Igreja do Carmo. Estes são dois dos três centros históricos da cidade, separados pela Marina e pelo Jardim Manuel Bívar – onde para trás do Banco de Portugal se estende o Bairro da Mouraria, o terceiro centro histórico de Faro.

O Bairro Ribeirinho é um centro com uma série de ruas estreitas, algumas delas pedonais, quase todas carregadas de graffitis. Tem habitação, restaurantes, comércio, mas deu para perceber que apesar de alguns edifícios reabilitados e outros com reabilitação em curso, muito mais há para fazer.

A Marina de Faro está voltada para a Ria Formosa, tal como o centro histórico de Faro. No século IV a.C. a então Ossonoba era um dos mais importantes centros urbanos do sul do que é hoje Portugal, com os fenícios a dominarem o comércio. Mais tarde vieram os romanos, os visigodos e os mouros. No século IX, era então Santa Maria, foi muralhada pelos mouros e ao seu nome foi acrescentado de Harune. Com a conquista da cidade aos mouros, em 1259, D. Afonso III muda o nome para Santa Maria de Faaron ou Santa Maria de Faaram, dando mais tarde origem ao topónimo Faro que hoje conhecemos.

A sua localização geográfica sempre foi estratégica, com a Ria Formosa como protectora natural de ataques de corsários, e durante séculos o comércio de sal e produtos agrícolas vindos do interior do Algarve fizeram com que Faro se desenvolvesse ainda mais. Elevada a cidade em 1540, foi no século seguinte que se construiu uma nova cintura de muralhas que envolvia a urbe e ia até junto à água da Ria Formosa. É por aqui que se percebe ainda esta antiga estrutura defensiva e do castelo subsistem torres e baluartes.

Pelo Arco da Vila entramos, então, pela Vila Adentro. É um belíssimo portal monumental inaugurado em 1812. Nas suas costas permanece a Porta Árabe, a entrada na cidade muçulmana de Santa Maria. Após um ligeiro cotovelo, subimos levemente pelo empedrado da calçada numa rua estreita rodeada de edifícios brancos.

É uma bela recepção, a qual uns metros depois nos deixa no Largo da Sé. Aqui fica a Câmara Municipal, o Paço Episcopal, o Seminário Episcopal e a Sé Catedral, um espaço amplo digno de uma capital regional. A Catedral, construída sobre as ruínas de um templo romano e tornada mesquita na era moura, é uma mescla de estilos, bem visível pelo corpo central constituído por torre quadrangular gótica do século XV, sendo o restante corpo construção posterior.

O interior da Sé é monumental, com abundante decoração barroca. E no pátio interior vemos um pequena capela decorada com ossos. Do alto da Torre da Catedral percebe-se de forma perfeita a implantação geográfica de Faro e toda a beleza e detalhes deste Largo. Destaque imediato para a tranquilidade da Ria Formosa e para a elegância dos telhados tesoura do Paço Episcopal. A vista é fantástica.

Vamos espreitar a Ria Formosa mais de perto, passando pelo pequeno Arco da Porta Nova, e seguimos junto à muralha e à ria, com o carril do comboio de permeio. Logo se percebem algumas construções industriais ao fundo e, sobretudo, aquela com que, com pouca demora, ficamos face a face. Nas décadas de 1930-40 foi destruída parte da muralha para abrir a Rua Nova do Castelo e sobre o castelo cresceu a Fábrica da Cerveja Portugália, um dos primeiros edifícios em betão armado na cidade, mas que nunca chegou a funcionar como fábrica.

Contornamos a Vila Adentro por fora junto à muralha e ao espaço ajardinado a ela colado. E entramos novamente na Cidade Velha, mas agora pelo Arco do Repouso, assim chamado por D. Afonso III aí ter repousado. E é a estátua deste rei que vamos encontrar no largo defronte do Convento de Nossa Senhora da Assunção, hoje transformado em Museu Municipal de Faro, de que vale a pena apreciar os claustros.

E a partir daqui é caminhar livremente pelas curtas e escassas ruinhas da Vila Adentro, percebendo que os seus edifícios têm vindo a ser reabilitados e que uma nova vida lhes está a ser dada, com restaurantes e espaços culturais para entreter os visitantes do Algarve para além da praia.

O Barrocal Algarvio – 5° desvio à EN2

Esta proposta é uma curta incursão pelo extenso Barrocal Algarvio, a região que de forma natural faz a transição entre a serra e o mar. O mar do Algarve todos conhecem: de Sagres a Vila Real de Santo António é uma faixa de Atlântico com quase 200 kms. Quanto à serra, são na verdade duas as serras algarvias: Monchique e Caldeirão.

É uma longa faixa esta que se espreme entre estes dois elementos, com localidades como Silves, Paderne, Loulé e São Brás de Alportel como atracção. No entanto, neste desvio final da nossa jornada pela EN2 começámos por espreitar o ambiente do Barrocal desde o Miradouro do Alto da Arroteia, em São Brás de Alportel, e vagueamos depois pelo coração de Loulé.

A Fonte Benémola é uma Área de Paisagem Protegida entre Querença e Tôr, duas aldeias algarvias. Para lá chegar percorremos estradas completamente envolvidas na natureza e este lugar ainda o está mais. Por um percurso pedestre com 4 kms bem definidos, cerca de uma hora de caminhada, passeamos por trilhos de terra batida que aliam uma paisagem natural a alguns elementos rurais hoje abandonados ao longo de um vale atravessado por uma linha ribeirinha. A fertilidade dos terrenos agrícolas da várzea fez com que chegassem a ser 30 as pessoas a viverem neste lugar, abandonado na década de 70 e 80 do século passado. Plantava-se milho, batata, couve, melancia e melões e vinha gente de fora tratar das hortas. Hoje restam algumas casas de apoio, fornos de cal, lagar de azeite e infra-estruturas hidráulicas para aproveitamento da água (como levada, moinho de água e nora). A vegetação, agora que o vale deixou de ser cultivado, é abundante e típica do Barrocal, com sobreiros e azinheiras. Junto à ribeira o ambiente é também tipicamente ripícola, com salgueiros, freixos e loendros. Mas nesta paisagem é a água o elemento mais importante.

A Ribeira da Benémola é uma das poucas do Algarve que mantém água durante todo o ano, sendo abastecida por nascentes como O Olho e a Fonte Benémola. Caminhamos durante um bom bocado ao lado dela e vemos açudes que retêm a água e criam espelhos de água. É um lugar tranquilo. Pena que a sua água, que em tempos era reconhecida pelas suas propriedades medicinais, esteja hoje contaminada e imprópria para consumo humano.

Na zona da Fonte Benémola existe um parque de merendas e aqui regressamos ao ponto inicial mas agora pela outra margem. Por momentos o caminho segue numa espécie de túnel, com a vegetação ribeirinha a cobrir-nos, e deixa de se sentir o calor. Diz que este é um espaço privilegiado para observação de aves, mas infelizmente não as avistamos, apenas as ouvimos.

Após a caminhada pela Fonte Bénemola passámos por Querença, aldeia de casario alvo envolvido no verde da paisagem, e seguimos para Salir. Salir tem uma situação geográfica fantástica, instalada no alto de um monte por onde se espraia de forma alongada o seu casario branco. A toda a volta, tudo verde. Habitada desde há muitos séculos, os mouros construíram aqui um castelo que hoje se encontra em ruínas.

Esta é uma zona agrícola, conhecida pelas amendoeiras, figueiras, alfarrobeiras, oliveiras e medronheiros. Estes pomares mistos são possíveis graças às terras argilosas e férteis do Barrocal.

Aqui perto fica a Rocha da Pena, Área de Paisagem Protegida, à semelhança da Benémola. É um belíssimo afloramento rochoso que se avista desde longe, uma espécie de parede calcária. Da aldeia da Penina tem início um percurso pedestre circular de 6,7 kms. Embora a vontade fosse muita, o enorme calor que se fazia sentir aquando do nosso passeio tornou insensato que o percorrêssemos na sua totalidade. Assim, a conselho de um simpático local, invertemos a direcção sugerida pelo percurso pedestre oficial e subimos aldeia afora apenas até ao miradouro sul, a pouco mais de 1,2 kms de distância.

A aldeia é pitoresca, mais uma vez instalada na encosta. O caminho não é difícil se for percorrido com atenção – muita pedra solta – e com calma – sobe bem. A paisagem, pontuada por azinheiros e zimbro, vai ficando melhor e melhor.

O Talefe é o ponto mais alto da Rocha da Pena, a 479m. Daqui a nossa vista tudo alcança, Serra do Caldeirão nas costas, mar em frente, Salir à esquerda, Benafim abaixo, Serra de Monchique à direita. É quase todo o Barrocal de Loulé debaixo de olho. Cenário grandioso à parte, a própria Rocha da Pena é de uma singularidade estonteante, uma parede calcária verdadeiramente elegante. Ficámos com pena de não continuarmos o percurso.

Daqui seguimos para Alte, a aldeia que faz parte de qualquer lista de aldeias mais bonitas de Portugal. Aliás, já foi mesmo oficialmente considerada a mais típica do nosso país e é talvez a aldeia mais referida do Barrocal e uma das mais queridas de todo o Algarve. Entre a Serra e o Barrocal, apesar do relativo isolamento geográfico mantém a sua aura e tradições. As casas caiadas com as suas janelas e platibandas com cor e as chaminés típicas fazem com que um passeio pelas suas ruas seja um momento de beleza.

Já houve aqui água em abundância, nos dias de hoje menos mas ainda presente, e as fontes de Alte e a Queda do Vigário são imperdíveis. O acesso à última estava vedado em consequência da Covid-19, para evitar ajuntamentos, mas não deixamos de relembrar o seu ar de há dois anos (esperemos que ainda mantenha a água).

A Fonte Pequena continuava bonita com os seus arranjos decorativos em homenagem ao poeta altense Cândido Guerreiro, mas a Fonte Grande estava também com restrições pela maldita pandemia, tendo a Junta de Freguesia optado por não abrir as comportas que a enchem de água.

Ou seja, a ideia de um mergulho no interior algarvio ficou gorada. Salvou-se a visita ao castelo de Loulé, a sede de concelho deste Algarve diferente e uma cidade que merece visita antes ou após as férias na praia.

Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho: 6ª etapa – Castro Verde – Faro (638 km – 738 km)

“Passado o Caldeirão, é como se me tirassem uma carga dos ombros. Sinto-me livre, aliviado e contente, eu que sou a tristeza em pessoa! […] A terra não hostiliza os pés, o mar não cansa os ouvidos, o frio não entorpece os membros, e os frutos são doces e sempre à altura da mão.” – Miguel Torga, in O Algarve

Eis a última etapa da nossa viagem pela EN2, aquela que nos transporta do Alentejo até ao Algarve, atravessando a Serra do Caldeirão.

Em Castro Verde, vila alentejana, já se vêem as chaminés típicas tão omnipresentes no vizinho Algarve. Mas aqui o elemento arquitectónico de destaque é a sua enorme Basílica Real, tão imponente que se avista ao longe. A caminho do Miradouro de São Pedro das Cabeças vemos passar uma biblioteca itinerante e realizamos o quão afastados estamos do bulício das grandes urbes.

Lá de cima do monte essa realidade é ainda mais presente, uma enorme planície pontuada por uma elevação aqui e ali, como aquela onde Castro Verde está instalada. Diz-se que o Cerro de São Pedro das Cabeças foi o lugar da Batalha de Ourique, mas outros municípios reclamam para si o título. A nós não nos interessa muito essas disputas históricas, o poder real da paisagem chega-nos.

De Castro Verde a Almodôvar temos mais umas rectas generosas. Em Almodôvar, a última das vilas alentejanas, começámos por visitar a ponte medieval da Ribeira de Cobres e, depois, o Convento de Nossa Senhora da Conceição e o Mercado Municipal. Mas a surpresa está no Mesa, o Museu da Escrita do Sudoeste.

Escrita do Sudoeste? O que é isso? No Mesa aprendemos que há uma escrita misteriosa, a primeira forma de escrita da Península Ibérica. Criada há cerca de 2500 anos, este sistema assente em signos desenvolveu-se no Algarve, Alentejo e Andaluzia muito por força da continuada presença dos comerciantes fenícios que para aqui vinham. Daí as suas origens no alfabeto fenício, tendo as populações locais desenvolvido uma escrita própria que resultou da adaptação daquele alfabeto à sua língua. As inscrições desta escrita foram descobertas em estelas (a maior parte delas no concelho de Loulé), elementos funerários onde se crê que eram inscritos epitáfios, breves textos de homenagem à vida de certos indivíduos. Não se sabe ainda muito sobre esta escrita, e talvez não se venha a saber nunca, mas a cerca de uma centena de estelas descobertas permite perceber que era efectuada de baixo para cima e da direita para a esquerda.

Felizes por esta descoberta linguística – que desconhecíamos em absoluto -, começámos por nem perceber que à saída de Almodôvar as rectas iam ficando mais curtas e que as primeiras curvas apareciam. Embora estas curvas, para os padrões da Beira, não sejam nada. Digamos que deixámos de as poder fazer em 5ª mas ainda dá para virar ligeiramente o volante em 4ª. Mas à medida que a Ribeira do Vascão se aproxima – a fronteira entre o Alentejo e o Algarve – as curvas tornam-se, então, uma companhia cerrada. Diz que são 365 as curvas da Serra do Caldeirão, mas contámos pelo menos 366, uma por cada ano bissexto.

A Serra do Caldeirão traz uma diferença abissal relativamente à paisagem de planície alentejana que nos vinha acompanhando ao longo das centenas de quilómetros anteriores. Um relevo agora muito acidentado, com cumes que ondulam a toda a vista, apesar de o mais alto atingir apenas 589m de altitude. Este relevo acidentado deve-se à densa rede hidrográfica, constituída por pequenos ribeiros que ao longo dos séculos foram esculpindo a rocha. A paisagem é avermelhada e carregada sobretudo de sobreiros. Desviámos cerca de 2 kms no Ameixial até ao Azinhal dos Mouros só para sentir um pouco o ambiente do Caldeirão fora da EN2. E é mais ou menos isso, parece que estamos dentro de um caldeirão, em pura ebulição serrana.

O Miradouro do Caldeirão é uma paragem oficial, mas não é o ponto mais bonito da Estrada. A Serra do Caldeirão faz a transição entre o Baixo Alentejo e o Barrocal e o Litoral algarvios. A Fonte Benémola, junto a Querença, está precisamente nesta zona de transição. É uma boa hipótese de desvio da EN2 desde Barranco Velho, mas preferimos deixá-la para o dia seguinte para, sem pressas, podermos caminhar pelo seu percurso pedestre de pouco mais de uma hora.

Para chegar a São Brás de Alportel começamos a descer em direcção ao mar. O Miradouro do Alto da Arroteia prova a sua exacta localização, “entre a serra e o mar”.

Já as suas ruas e o seu casario dá-nos a certeza: estas chaminés não enganam, estamos definitivamente no Algarve. E é curioso constatar como esta primeira povoação algarvia onde nos tocou parar é labiríntica e feita de ruas estreitas e já não geométrica e feita de ruas paralelas umas às outras, como as alentejanas.

O nosso último curtíssimo desvio fez-se para relembrar Estoi e o seu Palácio e Jardim, um dos maiores exemplos do romantismo no Algarve, hoje integrado na rede das Pousadas de Portugal. Construído entre 1840 e 1850, o que vemos aqui é uma mistura de estilos, entre o Neoclássico, o Neorococó e a Arte Nova, e uns belos jardins com lagos, fontes e esculturas. O interior do palácio, adaptado a unidade hoteleira, como se referiu, mostra igual nobreza nos seus salões, não faltando sequer a capela no interior da torre sineira. Ainda em Estoi, vale a pena visitar as Ruínas Romanas de Milreu, a Vila Romana antigamente conhecida como Ossonoba, a qual visitámos há uns bons anos aqui.

A chegada a Faro faz-se sem graça. Os últimos quilómetros da Estrada são ladeados por edifícios industriais e de lojas típicas dos arredores das grandes cidades. Pior, o marco do quilómetro 738, o derradeiro, está instalado numa rotunda sem graça. Merecíamos uma melhor recepção e uma forma cómoda de alcançar o tabuleiro central da rotunda, para os devidos festejos de final desta longa jornada. Mas não, não deu sequer para chegar junto ao marco e tirar a foto da praxe, tal era o intenso tráfego que não cessava de rodar a rotunda.

Mas se a chegada a Faro não tem muita graça, o centro histórico da capital do Algarve tem-na de sobra (e disso daremos conta em futuro post exclusivamente dedicado à cidade). Incluindo umas muralhas junto à Ria Formosa que se crê ser anteriores à chegada dos romanos à região, as quais vieram mais tarde a proteger os mouros, tendo no século XIII acabado por ser reconstruídas pelo rei de Portugal vigente. São o nosso castelo do dia.

E para terminar esta epopeia pela EN2, iniciada em Chaves a longínquos 739 kms do mar, nada melhor do que um mergulho nas águas do Atlântico.

A Praia da Ilha de Faro, mar de um lado e ria do outro, foi a escolhida para o momento. Um lamento apenas. Depois de tantos dias sozinhos pela Estrada tão desertificada como o interior que percorre, imaginámos imergir no oceano com poucas testemunhas. Tal não aconteceu. Sabendo o que sabemos hoje, desta novela apenas mudaríamos o seu final: consultaríamos previamente os horários do barco e trocaríamos o mergulho na Ilha de Faro pela vizinha Ilha Deserta (Barreta). Um mero adorno que não altera o encanto da história.

Pela EN2, na companhia de um castelo e um mergulho: 5ª etapa – Sardoal – Castro Verde (386 km – 638 km)

“Há quem se canse de percorrer as estradas intermináveis e lisas desse latifúndio sem relevos. Há quem adormeça de tédio a olhar a uniformidade da sua paisagem […] Amedronta-os a solidão de uma natureza que não se esconde por detrás de nenhum acidente, corajosa da sua nudez limpa e total. Eu, porém, não navego nas águas desses desiludidos.” – Miguel Torga, in O Alentejo

Esta é a etapa mais longa da nossa jornada pela EN2, aproveitando as várias rectas que as planícies do Alentejo nos oferecem, algumas delas intermináveis.

A saída do Sardoal em direcção a Abrantes é feita na companhia de intensa vegetação. E parece que os pinheiros e eucaliptos que vinham a dominar a paisagem da Beira desapareceram. A EN2 passa em baixo da cidade de Abrantes, instalada numa colina, vendo-se o castelo ao alto e o Tejo no lado esquerdo. E passamos a ponte rumo a além Tejo. Várias povoações de beira de estrada desfilam, umas atrás das outras, mas logo dão lugar a uma zona industrial e a alguns campos cultivados, onde se vêem os pivots de rega, aquelas estrutura mecânicas típicas da paisagem ribatejana e alentejana. Acabaram as subidas e as descidas, as serras já não nos fazem companhia e Ponte de Sor é sempre a direito, não tem nada que enganar. No entanto, não temos a certeza se a cidade é ribatejana ou alentejana. Talvez se veja a si mesma como as duas.

Ponte de Sor é simpática e aqui a arte urbana convive lado a lado com o casario branco e amarelo e a zona ribeirinha ao longo da Ribeira de Sor presta-se a um passeio demorado. A visitar também sem pressas o Centro de Artes e Cultura, instalado na antiga Fábrica de Moagem de Cereais e Descasque de Arroz, hoje com a fachada azulíssima. É isso, Ponte de Sor, cor por todo o lado.

Deixamos a cidade e, novamente sempre a direito, só resta pisar um pouco mais no acelerador e ir apreciando os túneis formados pelas copas das árvores que aparecem amiúde e ver desfilar os marcos, alguns instalado à sombra dos sobreiros. Daqui a pouco, Alentejo profundo adentro, talvez possam descansar à sombra de um chaparro.

Antes, porém, vem a barragem de Montargil e a EN2 faz-nos seguir com as suas águas mesmo ao nosso lado esquerdo. Há por aqui várias vilas e resorts e oferta de actividades náuticas em abundância. Mas há também uma pequena praia fluvial imediatamente antes da povoação de mesmo nome, estando a vila, curiosamente, instalada num monte. A paisagem não engana, chegámos ao Alentejo.

Antes de chegarmos a Mora vale a pena um desvio até ao Fluviário e Parque Ecológico do Gameiro. O Parque possui uma praia fluvial onde demos o nosso mergulho do dia após a bela caminhada nos seus passadiços ao longo da ribeira de Raia. São apenas 1,3 kms lineares, cerca de 20 minutos para cada lado a fazer ranger a madeira. A vegetação é abundante e diversos painéis informativos dão-nos conta da diversidade da flora e fauna locais. Este é um lugar a voltar, uma vez que é possível continuar a caminhar no final dos passadiços por uma zona de montado alentejano, num percurso circular de 5,5 kms que, por falta de tempo, não fizemos neste dia.

Assim como não explorámos Mora nem Brotas a pé, como merecem. Apenas deu para perceber que Mora veste de amarelo e Brotas de azul e amarelo. O verde fica para as oliveiras que compõem a vizinhança destas povoações.

E chegamos a uma mítica marca ou, neste caso, marco: o km 500 à passagem da aldeia do Ciborro. Ao longo do último século a povoação viu a estrada passar de terra batida a empedrada e, depois, a asfaltada e orgulha-se de ter crescido à medida que a Estrada se ia desenvolvendo.

Em Montemor-o-Novo é obrigatória uma paragem. Aqui está o nosso castelo do dia. Foi lá no alto do monte, com vista da EN2, que a antiga vila conquistada por D. Afonso Henriques aos mouros começou por se instalar e desenvolver. Hoje o recinto já não está todo muralhado, mas o que resta proporciona um ambiente fantástico. Entramos pela Porta da Vila com a Torre do Relógio ao seu lado e caminhamos por entre o mato passando pelas ruínas de antigas igrejas, do Paço dos Alcaides e do Convento da Saudação, num espaço largo que nos faz imaginar como seria grande a arquitetura e intenso o dia-a-dia da urbe há séculos.

Foi a partir do século XVI que se deu o abandono do castelo e a passagem dos habitantes para o arrabalde. Cá em baixo, a actual Montemor-o-Novo é igualmente digna de um passeio. As ruas estreitas do centro histórico deixam espreitar o castelo, sinal da sua dependência ainda, mas muitos outros elementos há para apreciar. Desde logo, as suas fontes monumentais, como a Fonte de Nossa Senhora da Conceição e a Fonte Nova (Chafariz do Besugo), ambas junto aos Paços dos Concelho. Mas também algumas casas senhoriais, igrejas e conventos e o jardim público com coreto.

Saímos de Montemor-o-Novo rumo ainda mais a sul. As rectas tornam-se mais frequentes e são cada vez mais longas. Por vezes aparece uma “curva” e sem arriscar muito podemos até atravessá-la em 5ª. Subidas? São mais ou menos isto.

Há quem ache a paisagem do Alentejo monótona e dificilmente alguém elegerá uma das suas estradas como uma das melhores para se conduzir. Não há curvas, não há desafios, não há surpresas. Precisamente por isso é que amo conduzir sobre elas. Porque posso dedicar-me em exclusivo à sua paisagem, descobrir uma fonte à beira da estrada, confirmar que há água nos charcos, rever umas vacas a pastar, perceber que há mais árvores para além dos chaparros, avistar ao longe um monte, ver desfilar os marcos – os mais bonitos de toda a EN2 estão no Alentejo. E nunca me canso das estradas, incluindo a N2, transformadas em túneis de árvores por centenas de metros.

Logo a seguir a Santiago do Escoural, onde se pode visitar a sua Gruta (agora exclusivamente por marcação prévia), um desvio de menos de 5 kms por uma estrada onde mal cabe um carro leva-nos até à Anta-Capela de Nossa Senhora do Livramento, um exemplar de arquitectura popular edificada no meio de uma paisagem pura.

De volta à EN2, da Casa Branca às Alcáçovas surge a terceira mais longa recta da Estrada: 5,5 kms em que nos prepararmos para uma das paragens mais históricas de toda a viagem. Alcáçovas é a vila onde em 1479 foi assinado o Tratado das Alcáçovas. Com a Paz de Alcáçovas, para além de se pôr termo a disputas sobre a sucessão dos reinos de Castela e de Portugal, os dois reinos acordaram na divisão dos territórios do Atlântico entre si.

Crê-se que o Paço dos Henriques tenha sido o local exacto da assinatura deste decisivo documento. A visita ao edifício restaurado recentemente permite-nos ainda conhecer sobre a arte dos chocalhos, importante e antiquíssima tradição da vila. Mas o ponto alto da visita é o horto e capela do solar, construção do século XVII conhecida como Jardim e Capela das Conchas. O interior da capela está totalmente decorado com embrechados e no jardim vêem-se igualmente diversas estruturas, como a fonte, com a mesma execução técnica decorativa, uma surpresa e uma raridade na região. E Alcáçovas é ainda uma vila de fortes tradições e tipicamente alentejana nas suas ruas e edifícios, sempre agradáveis de percorrer.

Prosseguimos na condução recta, mas à chegada ao Torrão tudo muda: há curvas (verdadeiras) até se atravessar o rio Xarrama e depois subimos até chegar à vila. É aqui que pela primeira vez vemos um dos típicos postais da EN2, o da publicidade ao Nitrato de Chile nas paredes alvas do Alentejo. Mas, passado o Torrão, logo voltam as rectas. As albufeiras são várias por aqui, não espreitámos a de Vale do Gaio, junto ao Torrão, mas fizemo-lo na de Odivelas, lugar onde há uma zona de lazer com parque de merendas e possibilidade de um mergulho.

Segue-se Ferreira do Alentejo, recebendo-nos com os seus silos industriais à entrada. A Capela do Calvário é o emblema desta vila, bem diferente do que estamos habituados a conhecer, com umas pedrinhas como decoração na sua fachada. Mas Ferreira é bem bonita, com as ruas brancas e amarelas, desertas à hora da sesta. É numa delas que encontramos a Casa do Vinho e do Cante, na antiga Taberna Zé Lélito, um espaço museológico que pretende preservar e divulgar as tradições locais.

De Ferreira a Ervidel apanhamos a segunda recta mais comprida, 8 kms de pura evasão, amendoeiras de um lado e girassóis do outro, qualquer uma delas plantações até acabar a vista.

A entrada em Aljustrel faz-se, à semelhança de Ferreira, com a companhia de silos industriais. Mas nesta vila, encaixada entre dois montes, ambos miradouros naturais de onde se percebe a sua topografia traçada a regra e esquadro com uma série de ruas paralelas umas às outras, a grande atracção é o seu histórico passado mineiro. O Parque Mineiro de Aljustrel proporciona-nos diversos percursos turísticos, através dos quais conhecemos a maquinaria e estruturas associadas a esta industria, bem como os bairros dos operários.

E, por fim, de Carregueiro a Castro Verde cai-nos nas rodas a mais comprida recta da EN2: 12 kms bem medidos. Se tivéssemos tentado percorrê-la no dia anterior não o teríamos conseguido, uma vez que um fogo havia cortado o trânsito na Estrada. Neste dia fizemo-lo com a paisagem à beira da Estrada negra e com os bombeiros ainda em acções de rescaldo. O Centro de Educação Ambiental do Vale Gonçalinho, uma opção de visita aqui perto, esse, viu pelo menos as suas aves mais novas em perigo de vida. Triste.

Desfrutámos do fim de tarde na piscina, a recuperar dos 40° do dia, e deixámos o passeio pelas ruas de Castro Verde para o dia seguinte, não sem antes enchermos a barriga de carne de porto preto num dos seus óptimos restaurantes.

Pelo Rio Ceira, da foz à nascente na Serra do Açor – 4° desvio à EN2

O Rio Ceira é afluente do Mondego, em cujas águas desagua poucos metros após as povoações de Ceira e Conraria. Antes, porém, percorre à volta de 100 kms por entre vales tranquilos ou abruptos, à vez, desde a sua nascente na Serra do Açor. Sob o Cabeço do Gondufo nasce o Ceira, a cerca de 1250m de altitude. Ou seja, é de um rio de montanha de que se trata. E um dos belos, com água fria para nos despertar todos os sentidos.

Começamos esta viagem pelo Ceira pela sua foz, subindo-o depois em busca de paisagens mais recolhidas e selvagens. A ponte metálica verde que une Conraria e Ceira (ambas concelho de Coimbra) parece menos sólida quando atravessada a pé do que de carro, mas em baixo o Ceira corre sereno, como que regalado com o caminho que o levou até aqui.

Seguimos pela Estrada da Beira com o rio sempre ao seu lado, até que uma curva mais pronunciada – de ambos, rio e estrada – nos deixa em Segade (Miranda do Corvo). Segade de Cá e Segade de Lá. A praia fluvial parece votada ao abandono e não tem grande piada, valendo no entanto pelas hortas que a rodeiam e a implantação da povoação em cova.

Mais adiante surge Foz de Arouce (Lousã) e a sua ponte. Em 1811 travou-se aqui aquele que ficou conhecido como o Combate de Foz de Arouce, tendo tido como consequência a retirada do exército francês comandado pelo General Massena a caminho de Espanha. Um obelisco comemorativo instalado junto à ponte marca o evento. Descemos até à beira do rio e aqui encontramos um pequeno mas agradável parque de merendas. Talvez este não seja o melhor lugar para nadar por ser raso e ter muitas pedrinhas, mas é seguramente suficiente para nos banharmos e permanecermos demoradamente com os pés na água a relaxar.

Com pouca demora atravessamos Casal de Ermio – e notamos que na região muitas povoações levam o nome “casal” – e estacionamos na Praia Fluvial da Bogueira. É bem bonita, florida e com todas as comodidades. Com espaço largo para nadar e até uma piscina para os mais pequeninos, possui ainda um bar e parque de merendas. Como se não fosse pouco, podemos ainda caminhar ao longo do rio por entre o sossego da paisagem fluvial feita de salgueiros, amieiros e fetos-reais.

A Praia Fluvial da Senhora da Graça é a praia fluvial de Serpins, igualmente com todas as comodidades para receber os visitantes e óptima para umas braçadas. Neste caso tem até um parque de campismo como vizinho. E a Igreja Matriz de Serpins como vigia, instalada numa elevação sobre o Ceira.

Continuando caminho, a próxima paragem requer atenção para não se perder a ponte de Maria Mendes, onde atravessamos para a outra margem do nosso rio e depois seguimos por uma estrada de terra batida por uns 2 kms. A estrada serve perfeitamente para qualquer carro e o único problema é ser estreita e obrigar a manobras caso se apanhe um veículo a circular no sentido contrário. Mas tal não pode e não deve demover ninguém de tentar chegar ao mais incrível pedaço do Ceira.

É o Cabril do Ceira, também conhecido como Garganta do Ceira. Até aqui o rio vem correndo normal, mais ou menos fundo, muitas vezes sobre pequenas pedras, com margens de terra. Mas neste exacto lugar duas íngremes paredes verticais se erguem, como uma garganta aberta para deixar o rio passar. E o Ceira aproveita o convite e forma nela uma piscina natural. Este é um fenómeno natural decorrente de um corte na rocha que levou ao afundamento do vale provocado pela erosão do rio. Tudo isto sucedeu no Ordovícico, um período anterior ao aparecimento dos dinossauros. Não creio, porém, que muitos dos nossos antepassados tenham aproveitado esta maravilha quartzítica. Nadar por entre estas paredes com dezenas de metros de altura é uma experiência incrível. Começamos com pé e a visualizar o fundo e à medida que nadamos até à garganta tudo se torna assustadoramente mais escuro. Ganhamos coragem para prosseguir, olhamos para cima para os penedos irmãos separados pelo Ceira e com mais umas boas braçadas percebemos que podemos nadar ainda mais adiante até nos libertarmos destas paredes e chegarmos a um espaço de margens mais habituais. Mas a sensação mais brutal que se pode ter é mesmo permanecer a flutuar na garganta formada pelos dois penedos.

Diz que os miúdos gostam de subir as rochas e desafiar as alturas só para saltarem e caírem nas águas frescas do Ceira. Observando bem, de facto encontramos uma escada de corda pendurada numa das paredes. No entanto, há quem prefira outras aventuras, embora igualmente engenhosas, como aquele casalinho que cortou uns ramos de uma árvore para construir uma cabana que assentou à beira da água. Ficámos a saber que apesar de pouco frequentado, este é um lugar de campismo selvagem.

Na parede esquerda percebemos ainda um túnel inacabado, consequência de uma antiga tentativa de abrir passagem para se instalar a linha férrea que ligaria Góis a Arganil, o que nunca aconteceu.

Isto é o que se passa cá em baixo. Lá em cima, no Miradouro do Santuário da Senhora da Candosa, o cenário não é menos brutal. Aqui estamos mesmo por cima da garganta do Cabril do Ceira, fenómeno geológico também conhecido como canhão fluvial. Cá do alto, por entre as cristas quartzíticas percebemos uma nesga de Ceira a furar para se libertar e encaminhar para o vale que passado o esforço se abre largo. O rio está tão fundo e tão encaixado nestas paredes que quase nem se percebe.

E porque todos os lugares incríveis têm a sua lenda, o Cabril do Ceira e a Senhora da Candosa não é excepção. Conta-se que um mouro convertido à fé cristã vinha para aqui alegremente pescar e que os invejosos dos seus companheiros não convertidos decidiram um dia expulsá-lo. Construíram, para tal, um muro que fechasse o rio e provocasse o seu afogamento. Mas, pese embora as insistências na sua reconstrução, este muro sempre aparecia desfeito ao dia seguinte. Foi então que um dos mouros não convertidos viu uma Nossa Senhora montada num jumento com um capuz e uma candeia na mão que ia destruindo as paredes muralhadas. Resultado: desistiu de muralhar o Ceira e converteu-se também ele e os seus companheiros ao cristianismo.

Ainda cá de cima no miradouro, dirigimos por fim o nosso olhar para a direita e damos com uma vista enorme de um vale verdejante, e já não o selvagem conjunto quartzítico das paredes do Ceira.

É por aí que encontramos a Praia Fluvial das Canaveias, em Vila Nova do Ceira (já concelho de Góis). Espaçosa e bonita, com areia e relva, é só escolher onde estender a toalha depois de mais um mergulho no Ceira.

Daqui seguimos por uns quilómetros pela EN2 junto às paisagens verdejantes que envolvem o rio Ceira até chegar à sua capital.

Góis é a povoação à beira Ceira mais conhecida. A sua Praia Fluvial da Peneda é uma imagem repetida, mas merece ser vista e revista. A Ponte Real adorna o Ceira, acolhendo-o no seu curto braço, da água avistamos o casario branco da vila, donde se distingue a igreja matriz, mas é a intensa vegetação a toda a volta que nos distraí.

Até aqui o Ceira andou sempre a caminhar por altitudes entre os 19m da foz e os 191m de Góis. Mas a partir de agora vai começar a subir. Ou melhor, a descer, uma vez que os rios correm para o mar e nós é que estamos a viajar ao contrário, a caminho da serra.

Continuamos a nossa jornada e entramos pelo Vale do Ceira na Serra do Açor, num sobe e desce constante, por entre povoações em cova ou meia encosta. Apesar de habituada a esta paisagem, surpreendo-me sempre que encontro estas aldeias, às vezes apenas lugares, empoleiradas na serra, tão isoladas.

O vale tem grandes quedas de nível e as linhas de água correm encaixadas. A maior parte das vezes é difícil de perceber o rio, sobretudo quando andamos lá bem em cima.

A Praia Fluvial da Ponte de Velha, logo a seguir à Cabreira, é linda, linda, linda. Com uma meia dúzia de casas de xisto como recepção, esta é a mais cénica de todas as praias fluviais do Ceira. Não é vigiada, não tem bar, mas é boa para nadar e ficar a contemplar a paisagem, incluindo a possibilidade de fazer estas duas actividades ao mesmo tempo.

Vamos continuar a subir pela estrada, rolando a uns 400m, enquanto o rio navega a uns 300m, e cerca de 10 kms depois da Cabreira aparece-nos ao virar da curva (uma de muitas) a praia Fluvial da Ponte, no Colmeal. Aqui vemos só uma a casinha de xisto (ou lousa?), suficiente para dar ainda mais graça ao lugar já de si bonito e sereno.

Daqui seguimos em direcção a Fajão e afastamo-nos um pouco do Ceira que contorna a Mata pelas suas traseiras. Esta vertente da Serra do Açor pertence já ao concelho da Pampilhosa da Serra e eram caminhos para mim totalmente desconhecidos. Até Fajão começamos por subir a bom subir. É uma paisagem impressionante e poderosa, com vales encravados nos montes que sobem a pique. Totalmente assustador para quem sofre de vertigens. E também para quem não sofre. Até que, lá em cima, encaramos finalmente os pedregosos Penedos de Fajão (ou Cabeço da Mata, a 902m) bem de frente. É uma bela e alongada crista quartzítica e por detrás dela esconde-se a aldeia da Mata e a Mata de Fajão.

Descemos aos 720m de Fajão, aldeia instalada a meia encosta que é parte integrante da rede das Aldeias de Xisto, e descemos ainda mais até aos 500m de Ponte de Fajão, o nome do lugar onde até este ponto da jornada apanhamos o Ceira a maior altitude.

Ponte de Fajão está belamente instalado no sopé das montanhas, no vale banhado pelo Ceira. A povoação tem poucas casas, onde se distingue uma ou outra de xisto no meio da maioria branca.

Aqui o Ceira faz uma espécie de curva, talvez procurando aninhar-se às encostas da sua preferência, e começa a subir cada vez mais e mais (ou, na verdade, a descer se nos lembrarmos uma vez mais do sentido para onde os rios correm). Chegado ao Porto da Balsa já passou dos 600m, na Alfubeira do Alto Ceira – onde o rio é mais largo – chega aos 650m, em Covanca passa dos 760m e em Malhada Chã dos 820m. Mas neste momento quase que nos esquecemos do rio Ceira, o nosso objectivo. A paisagem majestosa do Açor consome todas as atenções.

Sabemos que rolamos – nós a conduzir e o Ceira a nadar – junto aos picos mais altos da Serra do Açor. O Picoto da Cebola, o mais alto de todos, a 1418m, fica mesmo do lado direito acima de Covanca. E por cima de Malhada Chã fica o Pico de São Pedro do Açor, a 1342m, exactamente os mesmos a que está o Pico do Gondufo, a uns 5 kms em linha recta mais para lá de Malhada. Ou seja, Malhada Chã está rodeada dos mais altos picos do Açor.

A estrada de asfalto fica-se por aqui. O Ceira corre meia centena de metros abaixo da povoação e a sua nascente no Gondufo já vai perto, num território de fronteira entre três distritos: Coimbra, Guarda e Castelo Branco. Mas não a fomos espreitar. De carro não deve ser possível e a pé talvez seja mais acessível desde a vertente oposta, aquela onde o Piodão ocupa lugar mágico. Estes são já territórios de Arganil, a piscar o olho ao modesto Monte do Colcurinho, a meros 1244m (apenas o quarto mais alto do Açor), o pico da nossa infância e o mais mítico de Oliveira do Hospital. Um mundo, este Açor. Havemos de lá voltar. Voltamos sempre.

Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho: 4ª etapa – Vila Nova de Poiares – Sardoal (248 km – 386 km)

“Também lhe não acena uma paisagem límpida e aberta. A não ser nos boqueirões e nos píncaros da Estrela, onde se desce ao inferno e se toca o céu, enrugada e morena, a natureza beirã só de quando em quando se espraia e alegra.” – Miguel Torga, in A Beira

Começamos a etapa de hoje com esta citação de Torga sobre a paisagem da Beira, a qual parece antecipar a ausência de grandes momentos. Nada disso. A paisagem e o património construído podem ser por vezes desengraçados, mas como Torga logo de seguida acrescenta aparecem-nos inesperadamente certos recantos, como “trechos do Alva, pedaços do Vale do Zêzere, curvas do Mondego”.

Assim é. A etapa de hoje da EN2 é fortíssima nas opções para um mergulho. Garganta do Ceira, Góis, Alvares, Albufeira do Cabril, Mosteiro, Zaboeira, Fernandaires, Penedo Furado, Aldeia do Mato. Ufa. Umas mesmo junto à Estrada, outras pouco dela desviadas, todas excelentes para combater o calor extremo do interior da Beira. Nesta etapa quase que podemos não sair da água dos seus rios, ribeiras e albufeiras, não fosse o caso de termos um caminho a seguir rumo ao mar.

Saindo de Vila Nova de Poiares pela EN2 em direcção a Góis, um desvio de apenas 6 kms antes do meio do caminho leva-nos até ao mais incrível pedaço do Ceira. Se não conhece, vá conhecer e mergulhar numa piscina natural por entre dois penedos enormes conhecidos pela designação Garganta do Ceira (ou Cabril do Ceira). Desde os tempos de nadadora que fiquei perita em vestir e despir o fato de banho num instante, pelo que pouco tempo perco neste ritual. Ou seja, mergulho na Garganta do Ceira? Feito.

De volta à EN2, as curvas sucedem-se, o típico na região. Continuam a não existir muitas povoações à beira da estrada, o desordenamento florestal é enorme, com a paisagem dominada pelos eucaliptos novos a rebentar depois dos recentes fogos. É aqui que finalmente percebo como esta árvore que me é totalmente familiar é feia, com um tom verde completamente desgarrado da restante paisagem. Mas, curiosamente, à aproximação de Góis tudo muda e a vegetação torna-se até luxuriante. Os fogos não terão andado por aqui recentemente, felizmente.

Descemos a Góis, a capital do Ceira, espreitamos o rio e atravessamos a Ponte Real que nos guia até ao pequeno centro histórico. Tem alguma nobreza, com destaque para a Igreja da Misericórdia e para a Fonte do Pombal, para além de uma ou outra casa nobre. Aliás, a vila foi pioneira na iluminação eléctrica pública, nisso precedendo até Coimbra, capital de distrito.

Saímos de Góis e, se dúvidas houvesse, Portugal é mesmo um país de serras. E de penedos. Obrigatório o desvio até à bela aldeia de xisto da Pena, protegida pelos Penedos de Góis. E com um pouco mais de tempo podemos até percorrer a estrada que liga a Pena às demais aldeias de xisto do concelho – Aigra Velha, Aigra Nova e Comareira – até se voltar de novo à EN2. Em tempos fizemo-lo, é confirmar aqui.

Seguimos novamente pela EN2, montanhosa e com a companhia do pinhal, percebendo-se agora que o fogo terá andado há pouco por aqui e que a vegetação seria mais frondosa. Mas logo depois a paisagem abre-se e torna-se grande, onde um pequeno conjunto de casas se aninha sob um fileira de penedos.

Alvares, junto à Estrada é uma povoação, mas é sobretudo uma praia fluvial. Uma daquelas inspiradoras, num cenário a que não falta sequer uma pequena ponte de xisto.

De volta à realidade, eis umas placas de estrada a anunciar o nome de povoações como Picha ou Venda da Gaita. Confesso que acho este último melhorzinho do que Venda da Rapariga, nome de outra terra beirã afastada da EN2.

Pedrogão Grande é sede de concelho, mas possui ambiente de aldeia. Pequena, com cafés à beira da rua, destaca-se a cúpula em azulejo da igreja matriz, diferente até mesmo na arquitetura da sua fachada.

Para os loucos por praias fluviais e coleccionadores de aldeias do xisto, vale a pena o desvio de apenas 5 kms até à aldeia de Mosteiro. De qualquer forma, a praia fluvial da Albufeira do Cabril, com piscina flutuante demarcada nas águas do Zêzere e tudo, fica mesmo à beira da EN2.

Mais, também Pedrógão Pequeno, outra aldeia de xisto, tem aqui a sua porta. A paisagem aqui é poderosa, com o estreito e alto vale do Zêzere a impressionar. A ponte Filipina, edificada no século XVII, que se avista do alto da Estrada (embora haja um percurso pedestre que nos conduz a ela), já não cumpre a sua antiga função de ligar as duas margens do Zêzere, substituída pelo empreendimento da construção da barragem. Mas continua lá, bem pequenina no fundo do vale.

Cruzado o Zêzere na Albufeira do Cabril entramos na Beira Baixa. E logo conhecemos a simpática Pedrogão Pequeno, percorrendo as suas poucas ruas.

Até à Sertã surge a dúvida: isto é o pinhal interior ou eucaliptal interior?

A Sertã tem tudo para uma visita agradável. Castelo, ribeira, ponte filipina, parque verde, convento transformado em hotel e uma bela localização geográfica. É nela que visitamos o nosso castelo do dia. As suas origens remontam ao século I a.C., na época romana, e faria parte de um rede de fortificações em volta da Serra da Estrela. Diz a lenda de Celinda que esta corajosa mulher expulsou os romanos atirando sobre eles uma sertage, uma frigideira larga com azeite a ferver. E daqui derivará o nome Sertã. No século XII a vila e o castelo terão sido reedificados e hoje, quando subimos ao outeiro onde foi instalado, vemos o largo terreiro com a Capela de São João Baptista e uma das antigas torres. Caso raro, possui cinco quinas. As vistas para lá da muralha são amplas.

Já cá em baixo, passeamos pelo tranquilo Parque da Carvalha, ao redor da ribeira da Sertã. Aqui encontramos a ponte antiga, também da época filipina, a embelezar ainda mais o lugar.

A EN2 da Sertã até Vila de Rei é um género de via rápida ladeada por uma vegetação intensa de pinheiros. Um pouco antes de Vila de Rei fica o Picoto da Melriça, o centro geodésico de Portugal, conforme marca a Pirâmide aqui instalada em 1802. A 592m de altitude estamos exactamente no centro do nosso país, equidistante em relação aos quatro pontos cardeais. É um miradouro com vistas de 360º para uma série de serras, incluindo a Estrela lá bem ao fundo, sendo que a direcção de Mação é a mais bonita.

E em Vila de Rei várias opções de curtos desvios se nos colocam. Para as praias fluviais da Zaboeira ou de Fernandaires, ambas na Albufeira de Castelo de Bode, para o Penedo Furado – praia fluvial e caminhada para cascatas em passadiços – ou para a aldeia de xisto de Água Formosa (estas duas últimas com post escrito aqui).

Mas ainda não foi numa destas que voltámos a mergulhar. Continuámos, antes, a caminho do Sardoal e subimos a Entrevinhas, com uns cénicos moinhos e vinhas a caminho, claro. Num ponto alto, este é um parque de merendas com miradouro e uma área de pinhal. Recentemente foi aqui instalado um mega-baloiço, decoração da moda.

E depois desviámos, enfim, para a Aldeia do Mato para o mergulho de fim de tarde. Impressionou o fogo que rondava por perto, a pouca distância. E mais impressionou ver os sucessivos aviões canadair a ir buscar água à barragem de Castelo de Bode em voos rasantes aos veraneantes. Ou seja, a ideia de relaxar dentro de água ao final de mais uma quente jornada saiu furada, sem piada pela triste companhia.

O Sardoal é o início do Ribatejo, a transição da Beira Baixa para o Alentejo. É uma vila onde já se percebem muitas características desta última região, com as casas brancas com listas amarelas. E é bem bonita. As ruas e as casas estão decoradas com flores, ambas bem conservadas. Na praça principal, cuja requalificação esteve a cargo do arquitecto Raul Lino, em 1934, encontramos um painel em azulejo com a figura de Gil Vicente, em homenagem à sua ligação ao Sardoal por citar a vila em três das suas obras. E o final do dia, com as cores a condizer, chegou no largo do Convento da Caridade, simpático na sua arquitectura simples, mais uma vez em cor branca e amarelo.

No Sardoal, terminamos o dia com mais uma leitura de Torga: “Na sua planura fofa e ubérrima, na melodia dos seus chocalhos e na harmonia da sua cor, o Ribatejo é um grito de felicidade incontida no corpo da nação. É uma faixa escarlate e briosa à cinta de Portugal.” – Miguel Torga, in O Ribatejo