Plaka e a Vénus de Milos

Plaka é a capital de Milos, uma charmosa vila interior donde não se chega a perder o mar de vista.

Chegámos a correr a Plaka mesmo a tempo de ver o pôr-do-sol. Este é um local privilegiado para assistir a este momento, uma vez que a vila está construída na subida de um monte. Ainda assim, nesse fim de tarde e noite pudemos comprovar que o seu casario é típico das Cíclades, casas brancas com portas, janelas e varandas coloridas e ruas estreitas e labirínticas ocupadas por belas lojas e saborosos restaurantes. Tudo está decorado de forma simples mas certeira, com flores um pouco por todo o lado, fazendo desta a vila mais mimosa de Milos.

Plaka, cujo significado é “pedra lisa”, foi-se desenvolvendo desde o princípio do século XIX em substituição de um outro povoado que se situava logo acima, entretanto destruído por falta de espaço para abrigar todos os habitantes. Ainda se vêem as ruínas do antigo castelo, o Kastro. Ver o pôr-do-sol desde esta zona é lindíssimo, seja na igreja que o antecede, seja nos muros da antiga fortificação ou no adro de uma outra igreja bem no topo do monte. Já não se esperam piratas no horizonte, antes um mar sereníssimo apenas rompido pelo intenso laranja do sol, mais um daqueles momentos para recordar deste Egeu grandioso.

Mas não é apenas o Golfo de Milos que se alcança do topo do Kastro de Plaka. É antes toda a ilha que está à disposição do abraço do nosso olhar.

Tripiti é uma aldeia a meio caminho de Klima e Plaka. Igualmente pitoresca, foi uma pena temo-la visto de fugida. Toda esta área é rica em história e é a ela que se deve o facto de Milos constar na história da arte. Existem aqui umas importantes catacumbas e um antigo anfiteatro com vista para o mar que chegou a acomodar 7000 pessoas. Mas foi uma descoberta em 1820 por parte de um arqueólogo amador que viria a trazer projecção à ilha: a Vénus de Milo. A escultura de mármore de torso nu da mulher sem braços que hoje faz sucesso no Museu do Louvre, em Paris, é um testemunho da arte clássica helénica e um símbolo desta surpreendente Milos.

Milos, a ilha das vilas piscatórias

Para além das suas belas praias, Milos é senhora de umas encantadoras vilas e aldeias piscatórias.

Pollonia, na costa nordeste da ilha, foi a nossa escolha para pernoita. Pequena baía com areia onde podemos passar um fim de tarde sossegado de praia, a vila tem alojamentos de muito bom gosto e excelentes restaurantes. Não faltam os barquinhos e as igrejas. Ou seja, tem infra-estruturas e cenário, tudo o que o visitante precisa para se sentir recompensado.

O centro desta vila piscatória é praticamente uma rua e já está. Mas se estendermos a nossa curiosidade para além desse centro encontraremos recantos onde impera a serenidade.

Adamas é a vila onde está instalado o principal porto de Milos. A baía é muito bonita e os barcos dão-lhe um ar vivido mas ao mesmo tempo tranquilo. Possui uma pequena praia resguardada, mas é o casario branco com breves apontamentos coloridos que lhe dá o encanto. E Adamas é, à semelhança de Pollonia, uma boa opção, e mais central, para servir de base.

Mas as mais inspiradoras localizações de Milos são as suas pequenas aldeias piscatórias que vivem, literalmente, dentro de água.

É forçado considerar Agios Konstantinos, perto de Pollonia, como uma aldeia. É antes um lugar com menos de uma dezena de casas com porta para a água numa enseada quase fechada. Tão fechada e tão recatada que as senhoras ali ficam à conversa, uma na água a fazer os seus exercícios de caminhada, a outra a descascar batatas à porta de casa quase que com os pés na água.

Também na costa norte fica Firopotamos. Esta aldeia é maior, tem praia, igreja, mais casas, mas o cenário de tranquilidade permanece. Aqui podemos continuar em casa com os pés na água.

Podíamos ter ainda visitado outras destas aldeiazinhas piscatórias, como Mandrakia, Areti e Fourkovouni, mas o tempo acaba por não chegar para tudo.

Indispensável, no entanto, uma visita mais demorada a Klima, o maior exemplo e a mais pitoresca e charmosa de todas estas aldeias piscatórias. Localizada no Golfo de Milos, com a vila altaneira de Tripiti como vigia, as casas coloridas à beira mar estendem-se por uma faixa longa, quase que se confundindo com as rochas onde parecem ter sido escavadas. É nesta aldeia que a concentração de syrmatas é maior.

Syrmata é a casa tradicional dos pescadores, construída praticamente em cima da água, com garagem no piso térreo para barco e casa de família no segundo piso. Em Klima estas casas têm vindo a ser transformadas em lojas e alojamento para turistas, mas nada disso lhe retirou o charme. É uma delícia apreciar os vários coloridos das portas e varandas das casas. Mais delicioso ainda foi assistirmos à velhinha de touca de natação a varrer o curto espaço entre a sua casa e o mar enquanto esperava pela sua companheira para entrar na água. Há vida neste postal.

Milos, a ilha das praias

Milos é uma das muitas ilhas das Cíclades.

Detentora do título de ilha grega com mais (e melhores) praias, cerca de 70, não é no entanto uma das primeiras opções para a generalidade daqueles que se propõem visitar as Cíclades. A verdade é que há quase uma ilha grega por habitante e para cada gosto e a escolha é quase infinita.

Tendo conhecido apenas Santorini e Milos, o balanço é o melhor possível, uma complementando a outra. Desde logo no que ao buzz e à quantidade de pessoas que as visita diz respeito. É uma felicidade constatar que mesmo em Agosto numa ilha como Milos podemos encontrar praias só para nós e em nenhum lugar se sente a pressão turística. É até possível alugar um carro de um dia para o outro em plena temporada alta (e o aluguer de carro é essencial para se percorrer Milos, uma vez que à semelhança de Santorini os táxis são caríssimos e os autocarros ainda menos convenientes).

Uma das razões para que Milos tenha estado até hoje relativamente afastada do radar do turismo de massas é o facto de ter sido considerado por muitas décadas um local industrial. Várias são as minas na ilha, de obsidiana, de perlite e de outros minerais. A obsidiana já era mesmo comercializada no tempo da civilização Minóica, que a transformava depois em armas e lâminas. Ainda hoje se vêem no meio da paisagem algumas dessas minas e parafernália industrial que lhe está associada, mas de forma discreta e sem a prejudicar.

Todavia, é essa riqueza mineral de Milos que faz da ilha um paraíso geológico com formas ricas, surpreendentes e curiosas.

A praia mais famosa de Milos é a de Saraniko. E é, precisamente, aquela que melhor se encaixa nos epítetos de surpreendente e curiosa. Um pequeno corte na terra forma um vale que nos transportará até ao mar. Mas esse mar parece ser aqui banhado por uma paisagem lunar branca. De formação calcária erodida pelo vento e pela água salgada, as rochas de Saraniko têm suaves relevos que, a juntar à sua cor alva, chegam a fazer lembrar lençóis brancos. A praia de areia é mínima e até chegar ao mar algo agitado forma uma espécie de lago muito concorrido.

Saraniko fica a norte, tal como Papafragas, também no top das mais fotografadas de Milos. As formações rochosas em vários estilos continuam a dominar a paisagem e aqui são formadas várias caves por onde a água corre mais ou menos rente. Numa delas duas paredes rochosas altas deixam ver uma piscina natural em baixo, com direito a um minúsculo areal. A descida é desaconselhada, daí que seja avisado contemplar o cenário desde cima. Havíamos visto fotos incríveis do sítio, onde a água de um azul intenso contrastava na perfeição com a paisagem rochosa com vegetação escura rasteira. Mas não tivemos a sorte de apanhar essas cores.

Pudemos, no entanto, confirmar o azul cristalino das águas de Milos na sua costa a sul.

Tirando a norte, nem toda a costa de Milos é facilmente acessível. Parte dela alcança-se com um veículo 4×4 ou então exclusivamente por barco. Aliás, nenhuma visita a Milos ficará completa sem que a sua costa muito particular seja avistada desde o mar.

E Kleftiko, acessível apenas por barco na costa sul, é um lugar imperdível. Seguimos, então, num passeio de barco de meio dia desde Kipos. Calmamente fomos apreciando esta costa feita de rochas brancas com relevos pintalgadas aqui e ali por alguma vegetação verde. Várias covinhas se formam nestas densas e altas rochas. E a piada deste passeio está não apenas na belíssima e rara paisagem, como também na possibilidade de nadarmos neste mar azul quente por entre as muitas caves naturais.

Algumas destas caves são verdadeiros túneis longos, outras apenas arcos breves. No arco que fica na base da rocha mais famosa de Kleftiko descobrimos ainda, como bónus, um fundo marinho lindíssimo e de um azul tão intenso que não vai ser fácil apagar da memória. Fica o aviso: não esquecer os óculos de natação (coisa que esquecemos e tivemos de ganhar coragem para interromper por momentos a diversão de outros para pedir emprestado o material essencial a este passeio). Aqui podemos passar horas na água, a nadar, a boiar, a explorar. Diz-se que piratas que por aqui passaram há séculos esconderam numa das caves o seu tesouro e esse é apenas mais um motivo para adoçar este passeio único.

A sul, e acessível de carro, ficam algumas praias onde vale a pena estender a toalha nos seus relativamente extensos areais e onde existem apoios de praia para uma refeição à beira-mar.

Provatas

Fyriplaka

Paliochori

Mas a praia mais bonita, mas com uma descida difícil e perigosa, é a de Tsigkrado. A vista desde o topo para aquelas águas transparentes é fabulosa e faz qualquer um apaixonar-se irremediavelmente pela costa de Milos.

Para terminar em beleza, não faltou sequer a despedida do sol na simpática vila de Pollonia.

Pôr-do-sol em Santorini

Um dos momentos altos de qualquer viagem a Santorini é, ou deve ser, o pôr-do-sol.

Oia é o lugar para se estar nessa ocasião. O problema é que estamos lá nós e quase toda a Santorini. Não quisemos ser diferentes e marcámos presença. É verdade que a falta de espaço é imensa e só conseguiremos estar sozinhos nesta vila para testemunhar a queda do sol se tivermos a sorte de ter um terraço privado. As pessoas acumulam-se sobretudo junto às ruínas de um antigo castelo, mas se procurarmos bem encontraremos outros locais igualmente fantásticos e ainda conseguiremos escapar com menos de uma dezena de empurrões. De qualquer forma, vale mesmo a pena todo o esforço para merecer este espectáculo.

Uma alternativa em grande estilo é assistir ao pôr-do-sol em Imerovigli. No pequeno adro da igreja por cima do rochedo Skaros também se junta muita gente, mas longe das multidões de Oia. E podemos com mais facilidade encontrar um qualquer lugar vazio nas estreitas ruas que deitam para o mar e para os terraços dos apartamentos. O branco do casario de Imerovigli com as cores do sol a despedir-se do dia sobre o mar faz deste um dos melhores pores-do-sol da Terra.

Um lugar diferente, sem casario e bem de frente para o imenso mar apenas interrompido pelas ilhas que há poucos séculos se formaram na caldeira, é a adega Santo Wines. Uma boa ideia é escolher a hora que coincide com o pôr-do-sol para vir aqui degustar uns vinhos locais na esplanada da adega enquanto se testemunha mais um grande momento em Santorini.

Um passeio pela outra Santorini

Fira é a capital de Thira-Santorini e onde se concentram os restaurantes e alojamentos mais caros. Oia é a mais procurada, em especial ao fim do dia para se assistir ao pôr-do-sol. Mas Imerovigli será a escolha acertada para se viver dos momentos mais belos na ilha, um misto de Fira e Oia mas sem a confusão das duas.

Mas porque Santorini não é só o eixo Fira – Firostani – Imerovigli e Oia, impõem-se algumas informações práticas acerca da ilha.

As deslocações não são totalmente convenientes. Pode-se sempre alugar um carro ou mota, mas fora isso resta-nos o táxi, caríssimo, e o autocarro. Este último não nos leva a todos os pontos da ilha e, pior, temos quase sempre de voltar a Fira para ligar os vários destinos.

Santorini não é a melhor ilha para se fazer praia. Tem praias, sim, mas apenas na costa leste e a sul.

Perissa e Perivolos são um contínuo de areia negra, duas praias coladas uma à outra e com uma grande concentração de restaurantes e bares de praia. Caso se queira passar uns dias de praia em Santorini estes (e Kamari, que não visitámos) são os lugares a escolher.

Também na costa sul, mas a ocidente, fica a Praia Vermelha, perto da antiga Akrotiri. A praia tem um areal mínimo e há perigo de derrocada das suas rochas instáveis. Mas o cenário selvagem, e efectivamente vermelho, deste pedaço de Santorini, bem como a água quente, fazem deste um lugar de visita e mergulho obrigatórios.

Pyrgos é uma belíssima vila. Tem as características mais reconhecidas das suas vizinhas mais famosas, como as casas brancas, igrejas de cúpula azul e ruas labirínticas. Mas ao contrário das outras é uma vila interior instalada num monte. Logo, as vistas fabulosas continuam e Pyrgos é um lugar privilegiado para panoramas largos de todas a ilha.

Mas o seu encanto é caminhar pelas suas ruinhas e descobrir onde elas nos levam. E assim vemos que muitos dos seus edifícios, incluindo o seu antigo castelo veneziano, estão em mau estado de conservação. Concluindo, Santorini parece ter ainda capacidade para crescer ainda mais em termos turísticos, e Pyrgos estará na dianteira para se tornar ainda mais na nova sensação da ilha.

Fora de Thira, mas ainda no arquipélago de Santorini, impõe-se um passeio de barco pela caldeira até Nea Kameni, o ilhéu vulcão. Este pedaço de terra, o mais novo do Mediterrâneo Oriental, nasceu há cerca de 430 anos e foi sendo formado através das várias erupções vulcânicas que aconteceram desde essa data, a última das quais em 1956. Por isso, as mais recentes das suas incríveis formações rochosas de lava possuem pouco mais de 50 anos.

O barco atraca numa pequena enseada e descarrega os turistas que empreendem uma curta caminhada até ao centro da cratera por um cenário pouco comum, um deserto rochoso e poroso onde ainda se vêem fumegar umas fumarolas. Por ora o vulcão está adormecido. Mas mais marcas da sua actividade sentem-se ainda nas águas extremamente quentes a amareladas do enxofre próximas do ilhéu Palea Kameni.

O passeio de barco prossegue rumo à ilha de Thirassia e a beleza natural da paisagem é uma constante. No pequeno porto colocam-se duas hipóteses: ou ficar por ali num dos restaurantes e dar um mergulho ou subir a bom subir até à aldeia e ganhar a oportunidade de nos embrenharmos por mais um pedaço da vida e arquitectura cicládicas. Obviamente que escolhemos esta última e o prémio materializou-se em mais postais soberbos.

Oia

Oia fica situada a norte de Thira-Santorini e é o lugar onde (quase) todos querem estar para ver o pôr-do-sol. Várias excursões pela ilha fazem por coincidir o seu final com esse momento e os outros fazem por lá estar a horas de assistir ao sol a transformar as cores do céu, do mar e das casas.

Mas independentemente do pôr-do-sol e das multidões que o acompanham, Oia é uma vila graciosa. Típica das Ciclades, temos as casas brancas empoleiradas na rocha e umas nas outras, as cúpulas azuis das igrejas, os moinhos, as ruas labirínticas que fazem questão de nos surpreender a cada passo. E o mar sempre ali.

Já tínhamos percorrido um pouco das outras vilas da ilha e perguntávamos-nos como lidariam os hóspedes daqueles terraços abertos com a sua privacidade. Em Oia tivemos uma resposta: ignorando o facto e agindo como se estivessem sozinhos naquele mundo de sonho. Um casal despreocupado fazia amor num terraço ao ar livre, convidando-nos a todos a transformar-nos em voyeurs.

Mas voltando ao que Oia tem, agora em versão decente, Oia tem alojamentos, restaurantes, bares e lojas, tudo com um bom gosto incrível. E tem ainda uma livraria que em tudo acompanha aquele bom gosto. E impõe-se que a palavra “surpreendente” seja repetida. A Atlantis Books é mais um encanto nesta vila encantada. Uma livraria independente criada em 2004 onde mesmo quem não aprecia livros se vai sentir obrigado a procurar um dos títulos em várias línguas e deixar-se estar num dos seus sofás numa sessão de leitura inspirada por aquele ambiente magnífico.