Uma viagem pelos caminhos do Eléctrico 28

O carro amarelo a rolar pelos carris e puxado por antenas coladas às linhas instaladas no céu é um postal de Lisboa. Já teve muitas cores, mas o amarelo será definitivo. Mais uma pitada de cor na cidade que não sofre de falta dela(s).

Os carros eram, então, puxados por animais quando em 1887 se tentou pela primeira vez substitui-los pela tracção eléctrica. Logo os lisboetas temeram que os cabos de alta tensão provocassem raios e coriscos e daí surgissem incêndios destruidores. Mas o projecto foi adiante e em 1900 instalaram-se os cabos aéreos eléctricos e no ano seguinte foi inaugurada a primeira carreira electromotorizada, ligando o Cais Sodré a Algés. Os anos 50 foram testemunhas do maior número de quilómetros da rede de eléctricos – totalizavam então 76 kms. Hoje são apenas 31 kms de rede, distribuídos por 6 carreiras activas e alguns deles por eléctricos modernos, longe do mimo típico que faz as delícias de toda a gente. Uma das minhas mais antigas memórias é, precisamente, a de no fim dos anos 70 subir a um eléctrico e ser por ele guiada lá para os lados do Alto de Santo Amaro, de mão dada ou ao colo da avó. Mas esta diminuição da rede de eléctricos a partir dos anos 50 tem uma óbvia explicação. Desde logo, pelo surgimento dos primeiros autocarros da Carris em 1944 e, depois, pela inauguração do Metro de Lisboa em 1959. De qualquer forma, a passagem dos eléctricos transportando passageiros à pendura pelas ruas de Lisboa está na memória de todos nós.

E o Eléctrico 28, em especial, é uma instituição da capital. Dizem que demasiado turístico e antro de carteiristas. Pois então, sigamos ao lado dos seus carris, numa caminhada desde o Martim Moniz aos Prazeres, pois que não há melhor forma de condensar uma visita a Lisboa. Inaugurada em 1914, no início a carreira do 28 era mais curta, ligando somente a Praça do Camões à Estrela. Felizmente que hoje temos mais para ver, pelo que ponhamo-nos a caminho pelas colinas de Lisboa, num sobe e desce constante num percurso que conta a história da cidade, passando por igrejas, conventos, palácios, jardins, largos e praças, tomando avenidas, ruas e calçadas que dão para becos e escadinhas e cruzando uma Lisboa velha com outra mais nova, misturando alfacinhas e turistas.

Do Martim Moniz, paragem inicial, avista-se ao alto o Castelo que já foi dos muçulmanos e hoje vigia os negócios dos chineses cá em baixo. Seguindo pela Rua da Palma, onde tanto podemos ver o eléctrico passar à frente de uma loja de kebabs ou outra com caracteres chineses na montra ou de um edifício preenchido de azulejos, a encosta da Mouraria reduto do fado espreita com os lisboetas mais típicos. Até subirmos à Graça, esta é a Lisboa mais cosmopolita que podemos encontrar, fazendo do alfacinha uma personagem tão abrangente que não há qualificação possível numa sua descrição.

Sapadores, Rua da Graça, Largo da Graça. E aqui fazemos uma paragem e desvio breve para uma panorâmica de Lisboa no miradouro junto ao Convento.

De volta aos carris, descemos a Rua Voz do Operário, passando pelo edifício do arquitecto Norte Júnior da sede da Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário e, quando a rua se torna Calçada de São Vicente, admiramos a mais antiga Igreja e Convento de São Vicente de Fora.

E logo adentramos Alfama. Tradição que é tradição não dispensa um moço à pendura do eléctrico e ele surge aqui, precisamente quando o carro corre as ruas estreitas de Alfama, rasando as janelas das suas casas, deixando ver becos, pátios e escadinhas. Enfim, a Lisboa castiça cuja intimidade entra sem pedir licença pela janela do eléctrico.

As curvas seguem apertadas pela Rua das Escolas Gerais e são as Portas do Sol que nos dão espaço e umas imensas vistas do rio Tejo acompanhado pelo casario antigo de Lisboa e, agora, por uma das mais recentes imagens da cidade dos barcos de cruzeiro.

Continuamos a descer, mais um miradouro, desta vez o de Santa Luzia e seus azulejos, passamos o Aljube e o Limoeiro e chegamos à Sé. A Sé é um dos ícones mais reconhecíveis da cidade e um exemplo do palimpsesto que é Lisboa: construída em 1147, logo após a tomada da cidade aos mouros, foi edificada sobre uma mesquita muçulmana que, por sua vez, havia sido erguida sobre um templo visigótico.

A partir da Sé temos uma sucessão de igrejas: a própria Sé, a Igreja de Santo António de Lisboa e a Igreja da Madalena, fora as muitas outras que desfilam nas ruas para lá dos carris.

O Eléctrico 28 atravessa, então, a Baixa Pombalina de um lado ao outro pela Rua da Conceição. E se na viagem por estas paragens admiramos a obra dos engenheiros comandados pelo Marquês de Pombal na reconstrução da Lisboa pós-terramoto de 1755, por outro lado nem imaginamos que sob nós está toda uma outra cidade, a das galerias romanas construídas no tempo da antiga Olisipo – duas vezes por ano podemos “furar” os carris da Rua da Conceição para conferirmos este pedaço da história de Lisboa.

Apesar de falharmos o enquadramento do eléctrico com o Arco da Rua Augusta – neste caso não porta aberta à cidade, mas antes porta aberta ao Terreiro do Paço e ao Tejo – não deixamos de gabar a sua formosura ao longe.

Chega a altura de subirmos ao Chiado. À direita fica o Largo da Academia das Belas Artes, mas o eléctrico não segue por aí, antes desce para logo subir a Rua Vítor Cordon antes de continuar a subida pela Rua dos Duques de Bragança e se ver espremido entre o Teatro Nacional de São Carlos e o Teatro São Luiz.

E estamos no coração do Chiado, o coração de Lisboa. O bairro leva o nome do poeta António Ribeiro Chiado, mas é a estátua de Fernado Pessoa à frente do Café A Brasileira que chama a atenção dos turistas e são as personagens de Eça de Queiroz que recordamos enquanto passeamos pelo Chiado. Uma mão cheia de igrejas depois, espreitamos o Tejo Rua do Alecrim abaixo e fazemos uma vénia a Camões no largo que leva o seu nome.

Contornamos meio Camões e, mesmo sabendo que para dentro fica o Bairro Alto, seguimos adiante pela Rua do Loreto, prometendo que numa próxima vez pararemos mais demoradamente para assistir a um filme no Cinema Ideal, mas não prescindindo de imediato de nos lambuzar de pastéis de nata da Manteigaria.

Espreitamos a Bica e o primo mais famoso do Eléctrico 28 e começamos a descer a Calçada do Combro. Mais palácios, com destaque para o de Olhão, igrejas, como a dos Paulistas, e travessas depois entramos pela Rua Poiais de São Bento (o sentido inverso faz-se pela Rua Poço dos Negros). Aqui, à semelhança do que acontece em Alfama, o eléctrico rasa o casario fazendo do seu percurso uma viagem alucinante e do mais típica que há na proximidade com os seus habitantes.

E, se antes descemos, agora temos que subir. O topo do bairro de São Bento traz-nos o Palácio de mesmo nome, um antigo mosteiro beneditino transformado no século XIX na casa da democracia portuguesa. É a Assembleia da República com a sua inconfundível fachada neoclássica com colunas ao cimo de uma longa escadaria. Dica imperdível: saborear um gelado da Nanarella nos jardins do largo da Assembleia.

Só então podemos aventurar subir a inclinada Calçada da Estrela, com o bairro da Lapa na encosta à esquerda. A Basílica da Estrela é outra que merece uma visita antes de continuarmos a subir para Campo de Ourique, o bairro do nosso destino. Na Rua Domingos Sequeira passamos pelo antigo Cinema Paris e tomamos a esquerda na Rua Saraiva de Carvalho sem deixar de observar a sua esquina com edifícios de azulejos e arte nova. A Igreja de Santo Condestável e as inúmeras lojas de tecidos não nos distraem do nosso fim: os Prazeres, nome do cemitério mais bonito de Lisboa.

Os Conventos e Palácios da Zona Ribeirinha do Beato e Xabregas

O Beato fica logo a seguir a Marvila (ou o contrário, se viermos do centro de Lisboa), tão juntos que as suas fronteiras passam despercebidas. O Vale de Chelas continua uma dominante, o carácter industrial mantém-se e o abandono, a degradação e a regeneração urbana são também uma evidência.

Se a Marvila arrabalde histórico de Lisboa era o lugar das quintas, agora no Beato e Xabregas são os conventos que marcaram e continuam a marcar a paisagem.

Desde logo, o Convento de Chelas. Mas, faz sentido, num texto dedicado à zona ribeirinha, falar de algo situado a 2 kms do Tejo? Sim, faz. O Convento de Chelas, também conhecido por Mosteiro de São Félix dos Mártires, fica na muito antiga Estrada de Chelas, em tempos um esteiro do mar que rompia pelo vale acima. Também muito antigo é este convento, embora o edifício actual nada tenha a ver com o primitivo. Crê-se que aqui existiu um templo dedicado a Vesta, a deusa do fogo dos romanos, e Aquiles teria por aqui passado. Aliás, alguns historiadores aventam a possibilidade de o topónimo “Chelas” derivar de “Achilles” e eu, claro, apesar das muitas dúvidas gosto de acreditar na ideia – já se vê que também adoro a hipótese de “Olissipo” derivar de “Ulisses”. Bom, as origens do Convento de Chelas podem não ser tão antigas assim, mas seguro é que no século III recebeu as relíquias de São Félix e outros mártires. No século VIII a igreja foi destruída pelos mouros, mas os monges continuaram a habitá-lo. Quanto em 1147 D. Afonso Henriques conquista Lisboa aos mouros, o Convento estava em ruínas, tendo sido então restaurado e povoado de novo de frades e freiras. Em 1834, ano da extinção das ordens religiosas, aqui habitavam as freiras Regrantes de Santo Agostinho e também por isso é que este é conhecido como Convento de Santo Agostinho. Muitas mudanças ao longo dos séculos, já se vê. O mar já não está à porta e agora é o Arquivo Geral do Exército que guarda os segredos do antigo espaço conventual. A arquitectura exterior do edifício é desengraçada, um imenso bloco amarelo, mas conseguimos espreitar e descobrir no seu interior um portal manuelino delicioso, deixando-nos a sonhar como serão os seus claustros.

O que não mudou com a passagem do tempo foi a ruralidade da zona, com muitas hortas e azinhagas pelo meio. Vimos por aí abaixo, pela Estrada de Chelas, e percebemos as muitas fábricas desactivadas, abandonadas e em ruínas. Aqui chegaram a existir fábricas de licores, malhas, estamparia, tinturaria, tecidos, tabaco, moagem, tanoaria, cortiça, até cocheiras. E muitas vilas e bairros operários, como a Vila Flamiano e a Vila Dias (recentemente comprada pela câmara). Não entramos no Bairro da Madre de Deus e passamos sem parar pelo antigo Mercado de Xabregas, que desde 2017 acolhe a ArCo – Centro de Arte e Comunicação Visual. Uma baralhação esta zona de Lisboa. “Cidades Jardim” que mantém a sua integridade lado a lado com vilas operárias degradadas. Residências artísticas e espaços de co-work lado a lado com a mais miserável vida de rua.

Chegamos, então, à zona ribeirinha do Beato e Xabregas. O fim das ordens militares e a Revolução Industrial levou à reconversão de antigos conventos em unidades fabris, e com as fábricas e o comboio a paisagem alterou-se – uma das imagens da Xabregas de hoje é, precisamente, a da ponte do comboio com as chaminés das fábricas atrás. No entanto, esta zona de Lisboa retém ainda diversos testemunhos do seu rico passado histórico. Os nossos dois primeiros exemplos são, não apenas testemunho de um passado, mas também uma projecção do futuro, o Convento do Beato e o Convento das Agostinhas.

O Convento do Beato, também conhecido por Convento de São Bento de Xabregas, foi mandado construir no século XV pelo Rei D. Afonso V como disposição testamentária da sua mulher, que pretendia que aí se edificasse um hospício. Mas acabou por ser Frei António da Conceição que levou a cabo a construção do convento – e com poucos recursos financeiros, o que aumentou a sua fama de milagreiro. Daí que o Convento de São Bento de Xabregas acabasse por ficar mais conhecido como o Convento do Beato António. Após a extinção das ordens militares, foi Real Hospital Militar, foi destruído por um incêndio, comprado pelo industrial da marca “Nacional” (que até hoje vemos anunciada) para aí instalar a sua fábrica de moagem de cereais, panificação, malte e armazém de vinhos. E, hoje, o Convento é usado para eventos diversos e segue curso o projecto de urbanização de parte do espaço.

Já o Convento das Agostinhas (ou das Grilas) é hoje mais (re)conhecido como o Hub Criativo do Beato. Ex-Convento, ex-Manutenção Militar, mais uma enorme transfiguração se aguarda, desta vez com a transformação do seu imenso espaço (35 mil metros quadrados e duas dezenas de edifícios degradados) num pólo de empreendedorismo, indústrias criativas e inovação. Aguardemos para ver se o projecto megalómano se concretizará.

Quase em frente encontramos o Palácio do Duque de Lafões (ou Palácio do Grilo). Construído após o Grande Terramoto de Lisboa de 1755, a pequena quinta de veraneio foi transformada em residência permanente dos duques. Lá se mantém, embora agora sem a alameda que ligava o palácio ao cais privativo da família no Tejo.

Mais uns passos adiante na Rua do Grilo trazem-nos o Convento e Igreja do Grilo (de outros nomes Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo ou Convento de Nossa Senhora da Conceição do Monte Olivete e Igreja de São Bartolomeu ou Igreja Paroquial do Beato). À semelhança do anterior Convento das Agostinhas, também este foi mandado construir por Dona Luísa de Gusmão, no século XVII, para os Irmãos Descalços de Santo Agostinho (este para os frades e o outro para as freiras). Com a extinção das ordens religiosas o antigo convento foi transformado no Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo ou do Grilo.

Entrando na Calçada de Dom Gastão, a antiga Quinta Leite de Sousa, também do século XVII, foi depois transformada na operária Vila Maria Luísa e, já neste século, o seu edifício principal passou a ser ocupado pelo Eka Palace, um centro de artes.

E, com mais um pulinho, estamos já na Rua de Xabregas. Mais uma vez, não se sabe com certeza a origem deste topónimo. Mas conta-se uma estória curiosa a ele associada: as lavadeiras que paravam numa das muitas fontes da zona eram muito dadas a guerrear entre si, o que levava a que lhes atirassem muitas vezes a expressão “leixa bregas!”, ou seja, “deixa brigas”. De “leixa bregas” a Enxobregas e, depois, a Xabregas não custa acreditar no caminho. Embora, diga-se, talvez possa fazer mais sentido buscar a origem do seu nome no rio ali mesmo ao pé, onde se praticava o modo de pescar da “arte xávega”, sendo a derivação do topónimo semelhante: Exabregas ou Enxobregas.

Por aqui fica o Palácio de Xabregas ou dos Marqueses de Olhão (ou dos Melo e Cunha), longo na sua fachada simples de 14 janelas, onde encimando uma delas se veem as armas dos Cunhas. Foi construído no século XVI para residência do fidalgo navegador Tristão da Cunha, o primeiro vice-rei da Índia e quem deu o nome ao arquipélago do Oceano Atlântico sul. Propriedade da mesma família desde a sua origem, aqui se conspirou para levar Portugal à Restauração, em 1640. O edifício resistiu ao terramoto, segue conservado, foi classificado como Monumento Nacional e hoje está disponível para acolher eventos.

A cem metros fica o Convento de São Francisco de Xabregas (ou Convento de Santa Maria de Jesus). Construído no século XV, antes terá aqui existido um paço real. Na época tínhamos o Tejo à sua porta. Era a praia de Xabregas, conhecida como a Praia da Marabana, a qual manteve o seu extenso areal até 1939, data das obras do porto de Lisboa e abertura da Avenida Infante Dom Henrique, junto ao rio, que levou ao adeus à praia. Totalmente destruído pelo Terramoto, o Convento foi reconstruído e, depois da extinção das ordens religiosas, foi o primeiro a ser reconvertido em fábrica, logo em 1838. Foi, então, o lugar da Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, depois fábrica de Tabacos Lisbonense e hoje Teatro Ibérico e IEFP.

Do outro lado da rua, praticamente à sua frente, um apontamento dos nossos dias, materializado no pátio do atelier do artista Bordalo II.

Atravessando o largo onde fica a Ponte Ferroviária de Xabregas com os seus característicos arcos em pedra, entramos na Rua da Madre de Deus. Aqui temos, desde logo, o Palácio dos Marqueses de Nisa. Fundado em 1543 pelo segundo conde da Vidigueira, filho de Vasco da Gama, mais tarde a família receberia o título de Marqueses de Nisa. A sua estrutura já não tem nada a ver com a original e hoje o edifício é propriedade da Misericórdia de Lisboa, onde funciona uma dependência da Casa Pia.

Paredes meias encontramos aquele que é o mais visitado dos conventos da zona: o Convento da Madre de Deus, hoje Museu Nacional do Azulejo. Foi D. Leonor de Lencastre, mulher do rei D. João II, quem fundou as Misericórdias e este Convento em 1509. Já viúva, após a morte do filho retirou-se para aqui e viveu entre as freiras clarissas (o conjunto do Convento da Madre Deus, do hoje Asilo D. Maria Pia e do Palácio Marqueses de Nisa formava, então, o Paço de Enxobregas). Na fachada do edifício, destaque imediato para o seu portal manuelino encimado pelas armas de D. João II e D. Leonor, à esquerda com a figura do pelicano, alimentando os filhotes, e à direita a divisa da rainha com uma rede de camaroeiro, em memória do trágico acidente que vitimou seu filho. O Convento foi sendo objecto de ampliações e restauros vários e em 1965 surge o projecto de criação de um museu do azulejo, concretizado em 1980. E é por isso que este é o Convento que mais facilmente podemos visitar.

A sua colecção de azulejos é deliciosa, com exemplares desde a sua origem até aos dias de hoje, mas com esta visita ficamos a conhecer também os seus claustros e a igreja, uma conjugação belíssima de painéis de azulejo azul com o dourado da talha. Riquíssimo. No último piso, uma vista panorâmica de Lisboa muito especial: um mega painel de azulejo da cidade pré-terramoto, abarcando desde o Convento da Madre de Deus até à Cruz Quebrada.

E, por fim, mas já não em Xabregas ou Beato, eis o Convento de Santos-o-Novo, na Calçada da Cruz de Pedra, em direcção a Santa Apolónia. À semelhança do edifício do primeiro convento deste nosso texto, o Convento de Chelas, também por ele passamos e senti-mo-lo pouco apelativo na sua arquitectura monolítica. Construído no século XVII, o antigo convento das Comendadoras da Ordem de Santiago passa, pois, despercebido, ali junto à linha do comboio. Acontece que estes edifícios escondem muitas histórias e muitos segredos no seu interior. No caso do Convento de Santos-o-Novo, um dos mais fantásticos claustros, diz-se que o maior em área coberta da Península Ibérica.

Foi à boleia da 1ª edição do Open Conventos, no ano passado, que pude visitar este edifício que hoje acolhe quer um lar dos Recolhimentos da Capital quer uma residência estudantil do Iscte. Esta iniciativa tinha como objectivo não apenas dar a conhecer vários conventos espalhados um pouco por toda a Lisboa, mas também fazer pensar e confrontar-nos com o futuro destes espaços. Como mantê-los, como dignificá-los, como legá-los às gerações que hão de vir? Já vimos que após a extinção das ordens religiosas, em 1834, muitos e diferentes usos lhes foram dados: hospitais, fábricas, lares. Hoje temos pudor em transformá-los em hotéis, urbanizações, espaços de empreendedorismo. Se está certo ou errado, daqui a umas décadas veremos, mas que a face de Lisboa continuará a mudar, aí isso continuará.

Marvila

Marvila é uma freguesia de Lisboa situada na zona oriental. A 4ª maior em área e a 2ª em número habitantes, não basta dizer que Marvila é uma freguesia muito diversa. É quase missão impossível tentar referir tudo o que cabe neste pedaço de território que abriga lado a lado terrenos agrícolas, industriais e habitacionais. Que tem um rio como uma das suas fronteiras naturais e que é recortada por um longo vale. O vale de Chelas e o rio Tejo definiram desde sempre a sua personalidade, dando-lhe, um, o carácter rural que nunca perdeu e, outro, os bons ares que aqui fizeram estabelecer uma série de fidalgos.

A Marvila que até meados do século XIX era apenas um arrabalde da capital Lisboa, da qual restam alguns exemplos de quintas e palácios, transformou-se desde aí num dos pólos industriais da cidade, com consequências na paisagem urbana visíveis até hoje. Os gasómetros da Matinha são uma das suas imagens mais fortes e, também, exemplo paradigmático do que as estruturas agora desactivadas e / ou abandonadas podem representar num determinado território: uma memória ou um novo uso? Marvila e sua vizinha Beato são talvez as zonas de Lisboa onde estas perguntas mais se colocam. Mas a transformação de Marvila não terminou com a chegada das fábricas. A decadência deste sector acabou por coincidir com a chegada dos novos núcleos habitacionais que se foram criando no âmbito do Plano de Urbanização de Chelas e que, embora à partida não tivessem esse sentido, nos anos 70 acabaram por se tornar praticamente por inteiro em bairros de habitação social. Casos de estudo como o Pantera Cor-de-Rosa e o Cinco Dedos, no Bairro dos Loios (da autoria dos arquitectos Gonçalo Byrne e António Reis Cabrita e Vítor Figueiredo, respectivamente) ou a Zona J, no Bairro do Condado (do arquitecto Tomás Taveira). Mas se parte da antiga Quinta do Palácio dos Marqueses de Abrantes foi transformada em mais um bairro de habitação social, já a sua vizinha Quinta dos Alfinetes foi reconvertida em biblioteca municipal, numa propositada intenção de dotar um lugar socialmente desqualificado e carente de equipamentos culturais de infra-estruturas que sirvam como um suporte educativo que contribua para um futuro de novas e melhores oportunidades aos seus habitantes.

A piada de Marvila está, precisamente, em poder observar uma série de realidades inesperadas a conviver lado a lado. Uma biblioteca num bairro de habitação social carregado de empenas pintadas pelos maiores artistas de arte urbana, enquanto as ovelhas se arrastam pela rua devidamente guiadas pelo seu pastor.

Mais abaixo, do outro lado da linha do comboio, surge a Marvila mais típica, protegida do rio por uma longa linha de armazéns. É nesta faixa que tudo parece estar a acontecer, mudando não apenas o rosto da freguesia, mas também o de Lisboa, fazendo com que Marvila esteja em alta como a zona mais trendy da capital.

A enorme escultura de José de Guimarães, inaugurada a 25 e Abril de 1999, exactos 25 anos após a Revolução dos Cravos, uma homenagem aos construtores de Lisboa, recebe-nos de braços abertos à entrada desta nova cidade. Aqui na Matinha segue em construção um dos maiores projectos residenciais de Lisboa, o empreendimento de luxo Jardins de Braço de Prata, da autoria do arquitecto Renzo Piano, nos terrenos da antiga Fábrica de Material de Guerra. Ao lado, permanecendo ao abandono e ruína, o edifício ocre da antiga fábrica A Tabaqueira. Atrás, muitos armazéns, um dos quais serve de casa à Galeria Underdogs, de Vhils. À frente, o mais recente jardim de Lisboa, o Parque Ribeirinho Oriental, a devolução aos lisboetas de um espaço de Tejo desimpedido.

A Doca do Poço de Bispo segue vigilante. Não apenas do Tejo, mas de toda a transformação da zona. No entanto, as memórias dos tempos áureos de Marvila estão mesmo ali do outro lado da rua, protegidas no interior. A Praça David Leandro da Silva é o centro histórico e acomoda dois dos seus edifícios mais emblemáticos, a Casa José Domingos Barreiro e os Armazéns Abel Pereira da Fonseca (projecto do arquitecto Norte Júnior). As suas fachadas art deco têm elementos decorativos suficientes para nos deixar especados a olhar para cima, em especial os dois enormes olhos de vidro do Abel Pereira da Fonseca. Ambos antigos armazéns onde se produzia, comercializava e distribuía produtos vinícolas, um construído em 1896 e o outro em 1917, aproveitando a verdadeira auto-estrada que são as águas do Tejo à sua porta para transportar as mercadorias. Observe-se o barquinho assente no rio no emblema do Abel Pereira da Fonseca nas duas fachadas. Este empreendimento era tão grande e importante que chegou mesmo a ter nas suas instalações uma vila para habitação dos funcionários. Aliás, para além das fábricas, a memória histórica de Marvila é também feita de vilas e de pátios operários. A Vila Pereira, com a sua fachada encimada por inúmeras chaminés, e o Pátio Beirão são dois exemplos, ali mesmo na Rua do Açúcar. Rua do Açúcar, não deve haver nome de rua mais doce em Lisboa e, pelos vistos, no lugar onde houve em tempos indústrias de material de guerra, sabão, curtumes, cortiça, fósforos, entre muitos outros, havia também uma refinaria de açúcar.

E a Marvila não falta, é claro, um convento. Construído no século XVII, o Convento de Nossa Senhora da Conceição foi entregue à Ordem das Brígida. Muito destruído com o terramoto de 1775, com a extinção das ordens religiosas no século seguinte o espaço conventual acabou por ser transformado em asilo, mantendo-se a sua igreja – Igreja de Santo Agostinho de Marvila – aberta ao culto até hoje. Não conheço o seu interior, mas a ver pelos azulejos na fachada, o espectáculo deve prolongar-se lá para dentro.

Marvila tem, ainda, mais quintas e palácios para além dos já referidos anteriormente. O Palácio da Mitra, bem conservado, apesar das várias vidas que teve desde a sua construção no século XVII (residência de prelados, fábrica de metalurgia e fundição, fábrica de licores, asilo, Museu da Cidade e, hoje, serviços da Câmara Municipal de Lisboa onde, entre outros, é usado para recepções oficiais. O Palácio dos Marqueses de Abrantes, igualmente propriedade municipal, hoje lugar popular ocupado por diversas colectividades – é aqui que se ensaia a marcha de Marvila – e pelo Pátio do Colégio. E a Quinta do Marquês de Marialva, de que resta apenas a sua formosa torre, conhecida como mirante. Conta-se que foi deste mirante, colado à linha férrea, que em 1856 D. Pedro V assistiu à passagem do primeiro comboio. Mas a partir de 1919 parte dos seus enormes terrenos passaram a ser ocupados pela Fábrica Nacional de Sabões e o restante da Quinta foi votado ao abandono. Parece que em Marvila nada é perene, tudo se transforma e tudo se reconverte e, está visto, nos anos 90 já a Sociedade Nacional dos Sabões tinha deixado de ser uma das maiores empresas do país, falindo e deixando consigo um rasto de abandono e terrenos expectantes.

A questão é mesmo essa, o dos terrenos e edifícios abandonados e, logo, à espera de novos negócios e oportunidades. E, nisso, Marvila é rainha. O quarteirão da Casa José Domingos Barreiro, na praça principal de Marvila – Poço Bispo, foi vendido recentemente e não se conhece ainda o projecto para a sua reconversão urbanística. Já o edifício dos Armazéns Abel Pereira da Fonseca foi reconvertido no Lisbon WorkHub e dispõe de vários espaços criativos, de coworking e restaurante.

A ideia de espaços multifacetados chegou à zona em 2007, com a abertura da nova vida (de parte) da antiga Fábrica de Material de Guerra como Fábrica de Braço de Prata, uns 200 metros mais adiante. Um centro cultural com livrarias, cafés, galerias, ateliers e escritórios que teria, à partida, uma vida breve, até ao loteamento e urbanização dos terrenos onde está instalada. Desde aí, não pararam de chegar novidades. Armazéns reconvertidos em galerias de arte, ateliers, cafés, restaurantes, lojas com ideias fora da caixa, ginásios, escalada indoor, salas de música ao vivo, empresas tecnológicas e teatro (o Teatro Meriodinal, um dos meus preferidos). Até fábricas de cerveja artesanal, logo três de seguida, a Dois Corvos, a Lince e a Musa, tendo sido muito a propósito criado o Lisbon Beer District. Quanto a restaurantes, só a Rua do Açúcar tem duas mãos cheias deles. Fica aqui a indicação de alguns: Dinastia Chang, o meu preferido, El Bulo Social Club, o mais mediático, Aquele Lugar que Não Existe, o mais excêntrico, e Entra, o mais surpreendente.

Mas este era o cenário até à entrada do ano 2020. Nada a ver com Covid-19, portanto. O que acontece é que tudo o que mexe dá nas vistas e atrai a voragem de outros. A maioria dos barracões das antigas fábricas de Marvila há décadas que ali estavam esquecidos, alguns deles alugados há poucos anos por uns trocos a uns então visionários. Mas, agora, tudo parece ter mudado novamente. De repente os terrenos e imóveis tornaram-se apetecíveis e valorizaram exponencialmente, pedindo-se rendas insuportáveis a quem havia vindo para aqui precisamente em busca de preços mais acessíveis. Ou seja, o Dinastia Tang já encerrou definitivamente e outros se seguirão e dirão adeus a Marvila.

Ao mesmo tempo que aguardo com expectativa e apreensão o futuro da Marvila minha vizinha, não posso deixá-la sem acrescentar mais duas das suas instituições: o Clube Oriental de Lisboa, um dos históricos de Lisboa, do qual até já fui atleta, e o Parque da Belavista, um reduto verde numa encosta que nos permite, precisamente, belas vistas de uma outra Lisboa.

Tapada das Necessidades

A Tapada das Necessidades, na Estrela, é um lugar esquecido.

Para o bem e para o mal. Se são muitos os seus edifícios ao abandono, a Tapada preserva ainda largas zonas verdes ideais para nos abstrairmos da realidade, fazer um piquenique ou tão só passear, atravessando-a de um lado ao outro na companhia de pavões e de patos e de vistas para a Ponte 25 de Abril e para os Prazeres, enquanto nos embrenhamos pelos seus caminhos carregados de vegetação exótica.

Foi D. João V quem, no século XVIII, mandou construir a Tapada das Necessidades, Convento e Palácio (hoje sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros) no lugar de uma antiga ermida. Um século depois, D. Fernando II, o Rei Artista, redesenhou o espaço e a zona de hortas e pomares foi transformada em jardim inglês, tendo ainda aí instalado um jardim zoológico com aves raras e macacos. Ao seu filho, D. Pedro V, deveu-se a construção da estufa circular, o apontamento edificado mais bonito da Tapada, embora a Casa do Regalo, de iniciativa do Rei D. Carlos I, tome uma designação que lhe faz forte concorrência. Ou seja, os 10 hectares da Tapada de gosto barroco foram sofrendo alterações e acrescentos ao longo da sua história até chegarem aos nossos dias. Neste que é considerado o primeiro jardim paisagista de Portugal e que foi lugar de lazer e experimentação botânica por parte da realeza, podemos hoje caminhar pelos seus vários jardins, lagos, estátuas e edifícios.

Entrando pela porta junto ao Palácio das Necessidades, iniciamos o passeio pelo jardim inglês e de buxo. Há um frondoso dragoeiro e lago e patos, sim, mas a grande atracção são os pavões que fazem questão de vir até nós, com as suas penas resplandecentes bem abertas, como se nos cumprimentassem.

Logo de seguida, estende-se diante nós um largo relvado verde com um edifício delicioso no cimo, a estufa circular em ferro e vidro.

É aqui que começa o desfile de edifícios abandonados e degradados. A Casa do Fresco, por exemplo, tem até na sua fachada uma das estatuetas decapitada. No topo tem ainda o tanque que lhe garantia um ambiente fresco, mas que servia também como elemento estético, devidamente acompanhado por uns vasos ornamentais. Por aqui segue a alameda que ladeia o que era o jardim zoológico com os seus edifícios rosas todos em muito mau estado. Mas temos uma boa opção: dirigir antes o olhar para o lado esquerdo, para umas boas vistas da Ponte 25 de Abril enquadrada na Tapada.

Mais adiante passamos pela Casa do Regalo, tão intensamente rodeada de vegetação que pode passar despercebida. De fachada amarela e com brasão, foi mandada construir por D. Carlos I para servir de estúdio de pintura para ele e para D. Amélia. Este edifício, sim, está bem conservado, uma vez que, afecto à Secretaria-Geral da Presidência da República, foi restaurado para nele ser instalado o gabinete de Jorge Sampaio, ex-Presidente da República.

Foi a tentar perceber um pouco melhor a fachada escondida da Casa do Regalo que escutei, surpreendida, o grasnar estridente de um papagaio (na verdade, um periquito-de-colar). Tão louro, tão louro que também ele se confundia com o arvoredo. Esta é uma zona de mata mediterrânea, talvez não muito domada, e é logo a seguir que encontramos o Jardim dos Cactos. É uma colecção bastante generosa, exótica e exuberante, imperdível na visita.

E aqui ficamos num dos pontos mais elevados da Tapada, ela que está já implantada numa encosta de Lisboa. As vistas para o Tejo são emolduradas pela vegetação, uma perspectiva bem diferente daquela a que estamos acostumados.

Quando ao futuro da Tapada, designadamente no que respeita à recuperação dos seus espaços degradados, espera-se que em breve possa arrancar um projecto que prevê a instalação de quiosques, esplanadas e equipamentos expositivos e para eventos. Mas que, ao mesmo tempo que a permita ser fruída por todos, possa continuar com o recato que a fez chegar até nós.

Corto Maltese, as aventuras

Na sequência do anterior post, onde se apresenta a personagem Corto Maltese, o herói sonhador criado pelo desenhador e roteirista Hugo Pratt, iremos agora percorrer os seus livros.

As aventuras de Corto Maltese foram situadas pelo seu autor no início do século XX. Porém, os livros de Hugo Pratt não têm uma ordem cronológica. No primeiro livro, “A Balada do Mar Salgado”, editado em 1967, era 1913-1915 e Corto andava feito pirata nas Caraíbas, estava a I Grande Guerra Mundial a começar. Antes disso, no entanto, já tinha andado pela Manchúria por altura da Guerra Russo-Japonesa de 1904-1905, onde conheceu o seu amigo-inimigo Rasputine e o seu amigo-escritor Jack London – assim nos é mostrado em “A Juventude”.

Voltando ao “A Balada do Mar Salgado”, aqui é apresentado Corto aos seus leitores pela primeira vez. A imagem do marinheiro pirata surge amarrado a uma jangada à deriva no mar, como se estivesse na cruz. Resgatado por Rasputine, há de lutar com um polvo, fugir de um tubarão e muito mais. A uma pergunta de Pandora, uma das mulheres de Corto, se acha que a sorte grande lhe vai sorrir a vida toda, responde altaneiro: “Claro, minha cara… quando era pequeno, apercebi-me de que não tinha linha da sorte. Então, peguei na navalha do meu pai e zás! Fiz uma como queria”. Pois é, a sorte é ele quem a faz.

Os dois livros seguintes – “Sob o Signo de Capricórnio” e “Sempre um pouco mais longe” – possuem diversos episódios (em Portugal foram também editados os volumes “Sob a Bandeira dos Piratas”, “Longínquas Ilhas do Vento” e “Lagoa dos Mistérios” que estavam originalmente integrados naqueles outros dois livros). Corto vagueia pelo Suriname, Guiana Francesa, Bahia, Sertão, Caraíbas, Peru.

“Sob o Signo de Capricórnio” é um livro cheio cheio de magia. Magia em todos os sentidos, incluindo aquele que envolve feiticeiros, telepatia, civilizações perdidas e idas até ao Sertão brasileiro com descida pelo rio São Francisco, onde o marinheiro se encontra com cangaceiros. Em “Sempre um pouco mais longe” Corto permanece na América do Sul, iniciando em Maracaibo a sua expedição em busca das ruínas de uma cidade inca ou pré-inca na Amazónia Equatorial, um dos muitos El Dorados, em encontros na selva com tribos e espíritos “que cortam e encolhem cabeças”, numa história sob o efeito de cogumelos mágicos. Morgana, Boca Dourada, Madame Java, Esmeralda, Venexiana Stevenson e Soledad são os nomes das mulheres com quem troca olhares pelo caminho destes dois volumes.

As Célticas” está cheio de mitologia e fábulas celtas, a lembrar as raízes paternas de Corto, mas também referências ao Ira e ao Sinn Fein, não faltando sequer uma imagem de Stonehenge e mais uma citação reveladora da personalidade do nosso herói: “está a sonhar de olhos abertos, e quem sonha de olhos abertos é perigoso porque não sabe quando acaba o sonho”.

As Etiópicas” alargam ainda mais as referências culturais do mundo de Hugo Pratt. O jovem Hugo havia vivido na Abissínia, onde o seu pai militar estivera colocado. E é parte de África que estas páginas mostram. O Mar Vermelho, o deserto, o Corão, homens leopardos, a justiça africana. Corto mascarado de beduíno e a fazer de muezim a chamar para a oração. Um oficial do exército britânico a ler Rimbaud ao invés de Kipling, na irónica observação de Pratt através da boca de Corto. Curiosamente, neste volume não aparecem quase mulheres, apenas duas.

A partir de “Corto Maltese na Sibéria” as obras passam a longas novelas gráficas, ao invés de pequenas histórias agrupadas num mesmo livro. A aventura começa com um sonho em Veneza com Boca Dourada, com Corto a tentar ler (e a adormecer) “Utopia”, de Thomas More. Depois, somos transportados para Hong Kong, Mongólia, Rússia e China. Corto reencontra Rasputine neste tempo de bolcheviques na fronteira mongol e japoneses na Manchúria e aliados na Sibéria. Há sociedades secretas e tríades, uma busca a um comboio russo carregado de ouro que, no final, acaba por cair no fundo de um lago mongol. Mais aventura? O marinheiro Corto num avião abatido nos céus. Que escapa são e salvo para o próximo episódio.

A edição da Meribérica/Liber do “Fábula de Veneza”, também conhecido por “Sirat al Bunduqiyyah”, tem prefácio de Hugo Pratt. Aqui nos dá conta das suas raízes venezianas, designadamente dos passeios até ao Ghetto com a avó, onde mesmo depois fazia questão de voltar sempre. O início deste livro é delicioso, com Corto a cair de um telhado para interromper uma sessão de uma loja maçónica. “Como é que caiu?”, perguntam-lhe; “Caio muitas vezes das nuvens”, ah, ah, ah. Hugo Pratt era parte da maçonaria, mas Corto Maltese “não era pedreiro-livre, antes um marinheiro-livre”. Na sua busca por uma esmeralda cheia de mistério e enigmas, onde vai entrando e saindo das histórias como se fossem sonhos, Corto encontra mais uma mão cheia de mulheres, como Hipazia, Pezinho de Prata e Louise.

Em “A Casa Dourada de Samarcanda” encontramos Corto a fumar narguile e a pensar num monte de mulheres ao mesmo tempo. Quando uma personagem lhe pergunta se alguma vez esteve apaixonado, Rasputine responde que Corto está apaixonado pela ideia de estar apaixonado. Não é difícil perceber que Corto é um homem apaixonado; mais difícil é saber qual a sua maior paixão. Neste “A Casa Dourada de Samarcanda” Corto anda pela Ásia Ocidental e Central, Grécia e Turquia. O nacionalismo turco é aqui um tópico histórico e cultural. Corto busca o tesouro de Ciro e Alexandre, o Grande, ao mesmo tempo que tenta salvar o seu amigo Rasputine da Casa Dourada de Samarcanda, a prisão inexpugnável donde só é possível evadir-se através dos sonhos dourados do haxixe.

Em “A Juventude de Corto Maltese”, obra de que já falámos, o contexto é o da Guerra Russo-Japonesa de 1904. É um retrato de Corto enquanto jovem e suas amizades e suas ligações. É aqui que Corto e Rasputine se encontram pela primeira vez. E é aqui que nos é apresentado o seu amigo escritor Jack London. E aqui se mostra ser o jovem já possuidor de inúmeras ligações nos meios chineses e manchus. E um fantasioso, sempre em busca de algo, neste caso de minas de ouro.

Tango” mostra-nos Corto de volta a Buenos Aires. Ainda não o tínhamos visto na cidade porteña nos quadradinhos de Hugo Pratt, mas sabíamos que o italiano aqui tinha vivido durante uns tempos. É um mundo de bordéis, tango, bilhares, parrillada, mate e até um céu com duas luas.

As Helvéticas” é o penúltimo livro de Corto Maltese (anterior a Mú, a Cidade Perdida, o único que não li), tendo sido editado em 1987 (e Mú no ano seguinte). Hugo Pratt viveu os últimos 11 anos da sua vida na Suíça e com este livro talvez quisesse mostrar que esta também é capaz de inspirar e ser possuidora de um mundo imaginário. Alquimia, magia e astrologia são temas, Parsival, Herman Hesse e Tamara de Lempicka personagens. Este livro tem início em Lutry, na mesma vertente do Lago Léman onde está instalada a vizinha Grandvaux, onde Hugo Pratt passou os seus últimos anos. E aqui está igualmente imortalizado Corto Maltese em estátua, contemplando sonhador a água e a montanha majestosa ao seu redor.

(as aventuras de Corto Maltese foram, entretanto, retomadas em 2015 pela dupla espanhola Rubén Pellejero e Juan Díaz Canales, tendo sido editados desde então três novos títulos: Sob o Sol da Meia-Noite, Equatória e O dia de Tarowean)

Corto Maltese, o herói sonhador

Corto Maltese é o meu herói. Tem 53 anos e nasceu em 1887. Confuso?

O marinheiro mais bonito, estiloso, culto e corajoso de todo o sempre nasceu em 1967 da pena de Hugo Pratt, desenhador e roteirista. Filho de mãe cigana de Gibraltar e de pai marinheiro da Cornualha, Corto nasceu no final do século XIX em La Valletta, Malta, e aí cresceu. Era de Malta, mas andou por todos os cantos do mundo. Um viajante e um aventureiro inveterado.

Pode ser o herói de muitos, como eu, mas Corto é na verdade mais daquela espécie de anti-heróis. Sempre pautado pelos valores de justiça e liberdade, com uma visão romântica do mundo, Corto não é nada cínico, antes frontal, petulante às vezes, mas nunca arrogante. É um sedutor, elegantemente vestido com a sua jaqueta longa e chapéu de marinheiro, brinco na orelha esquerda e cigarro ao canto da boca. Um sonhador que é amiúde representado nas tiras de traço poético de Hugo Pratt estendido, relaxado à beira de uma bela paisagem ou sob a lua. “Não tem pátria e é um homem livre que sabe muitas coisas… mas não quer assumir responsabilidades”, diz a personagem Crânio em “A Balada do Mar Salgado”, o primeiro livro de Corto Maltese, o tal de 1967. E Monge, outra personagem deste mesmo livro inicial, diz-lhe “Ah, Corto, Corto, Corto… o que mais me agrada em ti é essa capacidade de nunca deixares escapar o lado divertido das coisas!”. Nem deixar escapar um momento para lançar a sua ironia. Este “pirata simpático”, sempre rodeado de mulheres, tem muitos amigos, alguns inimigos e imensos admiradores.

Na verdade, quem é merecedor da nossa admiração é Hugo Pratt, o italiano autor quer das tiras quer dos textos, ambos belíssimos, da personagem de Corto Maltese, seu alter ego. Com ela Hugo fez com que a Banda Desenhada passasse a ser coisa séria. Umberto Eco, por exemplo, afirmou que “Quando quero relaxar, leio um ensaio de Engels. Quando quero algo mais sério, leio Corto Maltese” e que “Pratt transforma em matéria de narrativa e de aventura a sua própria nostalgia da literatura, e a nossa”.

Os livros de Corto Maltese são, no fundo, livros de viagens. Dizia Hugo Pratt que as suas viagens eram “a ocasião de ir a um local que já existe na minha imaginação, no meu mundo interior”. E à boleia da enorme bagagem cultural de Hugo e da errância de Corto os leitores viajam pelo mundo todo, sendo parte das aventuras do seu herói.

Pela Serra de Sintra, com início e fim na Barragem da Mula

Outro lugar onde vamos querer voltar rapidamente em tempos de desconfinamento é a Sintra. Sintra é infinita. Não nos cansamos nunca de a correr porque ela é imensa no que há para descobrir (e já a registámos diversas vezes aqui no blog). Desta vez vamos pelos trilhos da Serra de Sintra desde a Barragem da Mula em direcção aos Capuchos, ainda a aguardar que o “novo” Convento reabra depois dos tempos de restauro, com volta larga até ao ponto inicial.

A Barragem da Mula, ponto de partida para muitos caminhos, retém por momentos a água do Rio da Mula, rio que nasce na Serra de Sintra e que após uns breves 10 kms de curso desagua no Atlântico. Esta barragem envolta pela natureza não está disponível para actividades aquáticas, mas as caminhadas junto a ela servem bem qualquer propósito de evasão.

Seguimos por uma curta subida por entre pinheiros e eucaliptos com a água desta espécie de lago ao nosso lado. E haveremos de a contornar até meio, de forma a melhor observarmos a barragem de outro ângulo.

O fio de água do Rio da Mula é bem estreito, a maior parte das vezes até nem damos por ele, mas as pequenas pontes de madeira sucedem-se. Algumas delas num estado tal que é um convite descarado a meter o pé na poça.

Só que muitas destas pontes até estarão aqui colocadas não para se atravessar algo, mas para tornar o trilho mais atraente e desafiante para o pessoal do BTT. Estes trilhos não são propriamente o lugar ideal para se caminhar confortavelmente apartado do mundo. Porque são difíceis de vencer a pé sem recurso à ajuda de bastões, por exemplo, e porque pode vir de lá lançada uma bicicleta a voar e aterrar mesmo em cima de nós. Mas enfim… fui lá parar não sei como, talvez por falta de sinalização ou por falta de atenção à sinalização, e por aí segui com sorte de não me cruzar assim com tantos radicais da bicla.

A melhor alternativa, embora não tão bonita como o intenso mergulho na floresta de trilhos, é seguir pelo estradão de terra aberto propositadamente para os caminhantes e para os ciclistas menos afoitos.

Mas depois de uns quantos metros pelo estradão com arvoredo de ambos os lados, logo voltamos à imersão na floresta. Uma relativamente extenuante subida num ambiente incrível leva-nos na direcção do Monge. Aqui ficam os Tholos do Monge, um monumento megalítico a 490 metros de altitude. Não há vistas, porém, uma vez que estamos mais uma vez rodeados de vegetação.

As vistas aparecerão mais adiante. Depois de percorremos mais um estradão com os troncos das árvores cobertas de hera, uma nesga deixa-nos vislumbrar a Costa de Sintra, com a forte ondulação a tornar branco o azul da água.

Após uma boa estirada por tapadas, num percurso circular que nos levará de volta ao ponto inicial, subimos até à Pedra Amarela. Aqui sim, as vistas são desimpedidas e soberbas. Para o Atlântico, para a Peninha, para a Pena, para tudo. O ambiente é incrível e as próprias rochas deste alto a 408 metros ajudam ao cenário.

Do Monte da Pedra Amarela até à Barragem da Mula é sempre a descer. Aqui a floresta está neste momento tristonha. Muito terá ardido em incêndios recentes e muitas espécies invasoras ajudaram à desolação. Um exemplo: após o grande incêndio de 1966 na Serra, foram aqui introduzidas espécies exóticas que se expandiram de forma agressiva, sobretudo a acácia, rivalizando e destruindo a vegetação prévia. Nos últimos anos tem estado em andamento um projecto de reflorestação desta parte da Serra de Sintra, para que possamos usufruir da exuberância e equilíbrio pela qual é conhecida. Outro aspecto menos agradável é o barulho intenso e constante produzido pelos carros no autódromo. Não tem piada nenhuma este outro tipo de espécie invasora do ambiente, impossibilitando melodias mais condizentes.

O Parque da Pedra Amarela e seu Campo Base é um parque aventura com muitas actividades, como slide, pista de arborismo, escalada, rappel e orientação, entre outras. Não nos aventurámos em nenhuma delas e subimos antes até à elevação directamente acima da barragem. São as vistas, sempre elas, que nos movem. E aqui nós deixámos ficar a apreciar o esplendor natural da Serra de Sintra, até que, saciados de beleza, iniciámos então a descida dos últimos metros dos cerca de 11 kms deste passeio com início e fim na Barragem da Mula.

As Praias da Arrábida

Com a quarentena a dar as últimas, o desconfinamento em marcha e o Verão a chegar, a Arrábida é o sítio para se estar. Aquela natureza recôndita, serra parelha do mar, vegetação de um verde vivo só superado pelo irreal azul do Atlântico, é um bálsamo em qualquer época da vida, transformado agora em prémio pelas provações vividas em tempos de isolamento.

O Parque Natural da Arrábida, dividido entre os concelhos de Sesimbra, Setúbal e Palmela, é de uma diversidade incrível, não apenas no que diz respeito à fauna e flora. Falo de lugares como o promontório do Cabo Espichel, serras rochosas e escarpadas e serras interiores, baías inacessíveis e outras oferecidas, todas de água transparente, fortes, conventos, castelos e povoações de arquitectura rural onde a vinha e o queijo são delícias populares. E vistas de tirar o fôlego. Tudo para se ir descobrindo lentamente, voltando repetidas vezes, de preferência para se caminhar nos seus inúmeros trilhos.

A época de maior calor não é, contudo, a mais aconselhada para se caminhar a céu aberto, pelo que seguimos de carro à descoberta das praias mais facilmente acessíveis da Arrábida, entre Sesimbra e Setúbal, não dispensando, porém, largas caminhadas entre elas, sempre junto à costa.

Entrando por Azeitão, ziguezagueamos pela estrada numa descida até ao mar. Aldeias e casarões escondidos nos montes cobertos de uma carapinha verde, uma pedreira aqui e ali – o único elemento negativo do Parque Natural -, e logo o nosso olhar é roubado. Já falei daquele azul do mar?

A primeira paragem que propomos é na Praia de Alpertuche, imediatamente antes da descida para o Portinho da Arrábida. Para se alcançar esta pequena praia escondida no meio da vegetação e dos rochedos há que caminhar por uma estrada de terra batida só acessível aos veículos dos proprietários das casas aí situadas e, depois, descer um breve trilho completamente envolvidos pela natureza. Umas nesgas no arvoredo vão-nos preparando para o cenário lá em baixo junto ao mar. Esta praia mínima com uma espécie de chalet em plena areia tem uma série de pedras e a vista típica das arribas e cor do mar da Arrábida.

Logo a seguir fica um dos lugares mais surpreendentes do Parque, a Lapa de Santa Margarida. Descemos sucessivos degraus em pedra construídos por um ermitão, mais uma vez totalmente engolidos pela vegetação, passando por rochas e cactos curiosos, até chegarmos à beira mar e, deitando-lhe costas, nos aventurarmos a entrar por um buraco aberto na parede da rocha.

É então que deparamos com uma enorme gruta, com uma capela no seu interior, um cenário misterioso com as veias da rocha a tomarem formas incríveis. Esta gruta tem a tal abertura na rocha e tem, ainda, uma abertura directa para o mar que mais parece uma janela. Uma janela natural por onde em tempos idos os pescadores vinham nos seus barcos em peregrinação para orar neste lugar absolutamente recolhido.

O Portinho da Arrábida é exíguo no seu estacionamento, por isso é boa ideia deixar o carro perto da Lapa e seguir a pé até à baía mais famosa da Arrábida. Passamos o Forte de Santa Maria da Arrábida, hoje Museu Oceanográfico, construído no século XVII para defesa do pequeno porto e do convento mais acima, e logo temos aos nossos braços aquela paisagem imensa. A encosta verde da serra a cair delicadamente no azul do mar. E a água tão transparente. A diversidade marinha é grande e o Portinho é um bom lugar para mergulho. E é também o local ideal para uma paragem para almoço num dos seus restaurantes antes ou após uma caminhada pela longa Praia do Creiro, à qual não falta sequer uma estação arqueológica, uma antiga fábrica romana de salgas de peixe.

A areia do Creiro é branquinha, branquinha, mais um tom para a palete perfeita. Vale a pena percorrê-la de uma ponta à outra, avistando a ilhota da Anicha, querendo sempre chegar um pouco mais adiante, embrenhando-nos nas rochas em busca de um refúgio ainda mais isolado. Não se pode, em situação alguma, subir às falésias, apesar da vontade de tentar chegar à próxima praia. Solução? Ir a nado.

Ou voltar para o carro e seguir pela estrada com pontos de vista lindíssimos até ao início do trilho que nos leva à Praia dos Coelhos.

Uma delícia caminhar por estes sítios, rumo a praias abrigadas com águas azuis-esverdeadas de uma transparência e tranquilidade sem limites.

Da Praia dos Coelhos, diversos trilhos totalmente protegidos pela vegetação transportam-nos até às Praias dos Galapinhos e dos Galapos. Mais do mesmo. Sendo que este mesmo é o máximo.

Depois dos Galapos fica a Praia da Figueirinha, a mais popular e acessível das praias da Arrábida, já à porta de Setúbal. Mas optámos, antes, por entrar em Setúbal seguindo pela estrada mais acima na serra, aquela que dá acesso ao Convento da Arrábida.

É aqui que a Arrábida nos é oferecida em todo o seu esplendor. Não apenas nos sucessivos miradouros que se abrem no horizonte nesta estrada espectacular, mas também no misticismo da Serra, que desde o século XVI se habituou a ser lugar de conventos. Hoje resta o Convento da Arrábida, antigo convento franciscano escondido na vegetação com vista para o Atlântico, mas chegaram a ser nove, testemunho de uma vida espiritual intensa, onde os ermitas se recolhiam em meditação e oração. E restam as inúmeras cruzes cravadas nas encostas. Há quem defenda que o topónimo Arrábida provém da palavra árabe “arrábita”, cujo significado é “local de oração”. José Tolentino Mendonça escrevia em artigo relativamente recente no Expresso que “O mais difícil não é ir à Arrábida. Difícil, difícil, é entendê-la: porque boas praias, boas sombras e boas vistas há-as em toda a parte… O que não há em toda a parte é a religiosidade que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido”.

Certa de que não a entendi por inteiro, talvez desculpa para lá voltar, termino com as fáceis paisagens. Depois de uma piscadela de olho a Lisboa para além do largo Tejo, um abraço ao Sado como despedida breve da Arrábida.

Açores – Mal-Amanhados, os Novos Corsários das Ilhas

Começou a meio de Abril uma série de 10 episódios que nos apresenta os Açores de uma forma diferente. Estão lá todas as suas paisagens do outro mundo, que nos fazem querer correr para qualquer uma das ilhas do arquipélago em busca de lagoas, vulcões e curiosidades. E é precisamente neste último aspecto que Mal-Amanhados, os Novos Corsários das Ilhas é mestre.

Luís Filipe Borges e Nuno Costa Santos, dois açorianos, um terceirense e o outro micaelense, um comediante e o outro escritor, ambos a viver há décadas no continente, tinham um sonho que finalmente se transformou numa declaração de amor à sua terra. E nós, que perdemos o papel de alcoviteiros, não perderemos agora a chance de manter esta relação de amor debaixo de olho, seguindo com emoção cada um dos seus episódios.

O primeiro episódio começou pelo Pico, a ilha mais jovem, a ilha de povoação impossível, a ilha da montanha plantada no meio do Atlântico. Pois bem, no negrume ainda vivo de poucos séculos o Homem contornou os impossíveis e estabeleceu-se, criando vinhas na lava enquanto olha melancólico para o Canal e para a maior elevação de Portugal. História, cultura de ontem e de hoje, aventura, tudo nos é contado pelos Mal-Amanhados, sempre com beleza, alegria e imaginação. Pudera. Com todo aquele cenário natural isolado e até desolado não é difícil homenagear as suas gentes, aquelas que insistem em manter a alma açoriana – por necessidade levada às lonjuras deste mundo -, ao mesmo tempo que nos recebem em sua casa.

Cada um dos 10 episódios é dedicado a uma das 9 ilhas do arquipélago e o último a todas elas. Uma viagem a não perder às 5ªs feiras, às 21:45, na RTP Açores ou a qualquer momento na RTP Play.

Évora Monte

Habituamo-nos a passar na A6 a caminho de Elvas e, um pouco depois de Évora e antes de Estremoz, ali está à esquerda um castelo num monte sobranceiro à via rápida com uma torre diferente daquelas que costumamos observar na paisagem portuguesa. Sempre dizíamos, um dia desviamos e vamos até lá cima. Mas não foi preciso chegar o dia do desvio. Antes disso, veio o dia em que de forma intencional lá fomos de propósito só para explorar a colina que em tantas viagens nos compôs o cenário na paisagem alentejana.

Évora Monte é mais do que um simples castelo instalado num lugar estratégico e privilegiado. É também uma povoação pitoresca, certamente despovoada como muitas no nosso país, mas que conserva ainda as marcas de um passado de orgulho e, sobretudo, as marcas identitárias das aldeias alentejanas.

Desde logo, a planície a perder de vista. Esta é uma aldeia miradouro. Do alto dos 481 metros da garbosa colina tudo se avista, clima o permita. Mas mesmo em dia fechado, como nos tocou, o “pouco” que se vê é tanto que chega bem para nos convencer do privilégio.

Depois, o castelo. São 4 as portas da antiga povoação, ligadas por uma muralha que se percorre fácil e prazerosamente, com vista ora para a planície extra-muralha ora para o casario intra-muralha. Não se sabe ao certo as origens da povoação de Évora Monte. Pensa-se que tenha sido conquistada aos mouros por D. Afonso Henriques em 1166. Certo é que em 1248 D. Afonso III lhe concedeu foral e em 1306 D. Dinis mandou construir as muralhas, fortificando o povoado. Em 1531 um forte terramoto destruiu grande parte das construções da povoação que era então propriedade da Casa de Bragança. E foram estes que a reconstruíram e mandaram levantar a torre que ainda hoje distinguimos mesmo ao longe e consideramos única na sua arquitectura no panorama nacional. Esta torre era então o paço ducal da família, servindo como residência de caça dos duques de Bragança. Como se não bastasse a sua implantação geográfica, no alto de uma colina na planície alentejana, também na fachada desta torre podemos perceber a influência e poderio da Casa de Bragança. Na época (século XVI), era a segunda mais importante do reino, tendo como divisa “Depois de Vós [rei], Nós [Casa de Bragança]”. Esses “nós” eram parte da heráldica bragantina e vêem-se materializados na fachada da torre / paço ducal de Évora Monte.

E, por fim mas não menos importante, o casario. Povoação feita de praticamente uma só rua estreita, casas com os típicos frisos de uma cor a contrastar com o branco alentejano, igreja matriz acompanhada de cemitério, roupa estendida ao vento junto à muralha e mais uma dose de pormenores surpreendentes, tão pequena que é a povoação muralhada. Numa das suas casas, a de Joaquim António Sarmago, foi assinada em 28 de Maio de 1834 a Convenção de Évora Monte que restabeleceu a paz em Portugal após anos de guerra civil entre liberais e absolutistas. Um pouco mais acima, em duas casas, uma de cada lado, aprecia-se as suas portadas em ogiva.

E um pouco por todos os cantos, a calçada oferece-nos umas casas pintadas. A arte na rua, surgindo assim de supetão sem pedir licença, faz com que este breve passeio por Évora Monte seja ainda mais memorável. Como se o Alentejo coubesse todo aqui.