Maramures

Localizada no noroeste da Roménia e na fronteira com a Ucrânia, Maramures é uma das regiões mais rurais e isoladas da Europa, um recanto onde o tempo parece parado algures numa era remota e onde as tradições perduram desde há séculos. Romanos, magiares, turcos e polacos passaram por aqui mas nunca se conseguiram impor e dominar a região e os habitantes de Maramures orgulham-se do seu espírito indómito que a tudo lhes tem permitido resistir.

Há anos havia assistido a um documentário na RTP2 sobre Maramures, um daqueles que parecem saídos da época em que este canal só abria a sua emissão no período da tarde. Não mais esqueci esse documentário e a região tinha, por isso, de ser incluída neste meu itinerário pela Roménia. Paisagens verdejantes e ondulantes, carroças puxadas por cavalos como meio de transporte (ainda) principal de pessoas e bens, mulheres vestidas em trajes típicos e igrejas de madeira, todos estes elementos eram já personagens principais do dito documentário e visitada Maramures neste ano de 2019 pude constatar que todas essas personagens não são ficcionais, são bem reais, parte do dia a dia.

Maramures é, pois, como que um museu a céu aberto. Para o descobrir, nada melhor do que alugar um carro e sair para conhecer este museu vivo.

Nesta região maioritariamente de aldeias, Baia Mare e Sighetu Marmatiei são as duas principais cidades. Começámos o nosso itinerário em Baia Mare, a maior delas, para onde se pode voar directamente desde Bucareste. O seu nome não tem nada a ver com mar ou lagoas, pelo contrário, é uma cidade do interior. Não sei o que significa “Baia”, mas “Mare” significa “grande”. E na verdade esta é como que duas cidades numa. Uma delas com longas avenidas e grandes blocos de apartamentos, com uma enorme catedral ortodoxa como destaque, tudo marcas de uma cidade industrial que se desenvolveu exponencialmente nos anos do comunismo. E uma outra com um centro histórico pequeno mas bem restaurado onde se destacam o Bastião Macelarilor (significa algo como talho ou matadouro), um conjunto de belas igrejas e a espaçosa e luminosa Praça da Liberdade com os seus edifícios medievais.

Mas porque não são as cidades que nos interessam em Maramures, de Baia Mare saímos rapidamente rumo a norte numa estrada fantástica de montanha para um périplo de dois dias pela região rumo à sua ruralidade. Sobe-se a bom subir, curva apertada contra curva apertada, sob um protector chapéu de abas imensas feito de arvoredo cerrado. Um lamento, porém, na falta de espaço para poder parar o carro na beira da estrada e admirar aquele cenário grandioso.

Os rios nunca andam muito longe de nós em Maramures e depois de serpentearmos com o carro pelo meio da floresta aparece-nos uma cascata à beira da estrada quase a chegar à povoação de Mara. Junto à dita cascata é um bom local para uma paragem para almoço, num daqueles restaurantes típicos do centro da Europa, instalado no meio da natureza e com mesas espalhadas por um jardim, onde as trutas são o prato forte.

Passada Mara, começa o desfile de aldeias ao longo de montes e vales e confirmamos toda a cativante ruralidade e autenticidade de Maramures. Foram as aldeias, e em especial as suas igrejas de madeira, que nos fizeram querer visitar a região. A estas igrejas de madeira, algumas datadas do século XIV e muitas classificadas pela Unesco como Património da Humanidade, dedicaremos o próximo post, mas assinalamos desde já a de Breb, a nossa primeira paragem.

Breb é uma das aldeias mais reputadas e procuradas de Maramures. Lugar remoto, para lá chegarmos temos de fazer um desvio numa estrada secundária. Após uma curva apertada começamos a descer e o cenário para lá do pórtico de recepção é majestoso. A aldeia está preenchida de casas de madeira e no seu final, quase que escondida no meio da vegetação, encontramos a igreja de madeira datada do século XVI. Para além de mim, apenas mais um visitante (romeno?). O ambiente é mágico, um pequeno e mimoso edifício totalmente em madeira rodeado de um verde intenso. E, afinal, não estamos sozinhos. Muitos corpos e almas repousam aqui, uma vez que é costume local sepultar os mortos ao redor das igrejas. Não me assusta nem incomoda deambular pelas campas, sempre em busca de um ponto de vista ainda mais fantástico e bucólico nesta paisagem ligeiramente alterada pelo Homem.

A Breb seguiu-se Budesti, Sarbi, Calinesti, Barsana, Ieud e Poienile Izei. No dia seguinte, viriam Cornesti, Giulesti, Manastirea, Sat-Sugatag e Desesti. Mais do que os nomes difíceis, o que ficará na memória é a delicadeza das pequenas igrejas com torres altas destas aldeias, repito, inteiramente construídas em madeira. Não é à toa que Maramures é também designada como a civilização da madeira. Quase todo o território é floresta e o aproveitamento dos recursos naturais como a madeira é omnipresente. Seja para a construção das casas, das igrejas, dos utensílios, o uso da madeira realça ainda a qualidade superior dos artesãos de Maramures.

Se as igrejas são o seu indisputado ex-libris, os portões de madeira das residências mesmo junto à beira da estrada merecem igualmente toda a nossa atenção e arrebatam-nos por igual. Característicos da região, possuem motivos decorativos que incluem desde cenas da vida quotidiana a cenas religiosas, e servem como pórtico de separação do espaço exterior e interior, constituindo também uma demonstração do poder das famílias, sendo em Barsana que melhor se pode apreciá-las.

O portão desta foto pertence, todavia, a um espaço de Dragomiresti onde está instalado um pequeno museu etnográfico que representa uma casa típica de Maramures.

Entramos e um pátio ajardinado recebe-nos, com algumas esculturas pelo caminho. Uma velhota em trajes típicos, camisa branca com motivos florais e lenço na cabeça, guia-nos e explica-nos os moldes da casa típica de Maramures. Eu não falo romeno, ela não fala senão romeno. Incrivelmente, entendemo-nos e não apenas pelos gestos mas também pela similitude das duas línguas faladas, romeno e português, e entabulamos uma conversa improvável. Mostra os bolos que se servem nos dias de festas, os vários utensílios do dia a dia, quase todos eles incrivelmente datados, trajes, fotos, um verdadeiro mini-museu etnográfico.

De volta à estrada, e fugindo das principais, a tranquilidade é absoluta e é aqui que somos mais felizes. Paramos, enfim, o carro num qualquer pedaço de estrada sem temer o incómodo de seja quem for e deixamo-nos estar a contemplar uma paisagem maior. Uma silhueta de montes de recorte delicado, verde sobre verde, montinhos de palha artisticamente empilhados aqui e ali, um rio sempre a correr por perto, discreto e sereno como a terra que o acolhe.

Não é preciso vir para estas estradas para se verem carroças puxadas por cavalos – elas estão por toda a parte e parecem em número superior aos tratores – mas é por aqui que vemos os trabalhadores agrícolas em acção e percebemos melhor como esta actividade é ainda maioritariamente um trabalho manual. Homens e mulheres, elas sempre de lenço na cabeça, como se vê cada vez menos no nosso país, trabalham a terra e esse é o seu principal sustento.

Mesmo a norte, na fronteira com a Ucrânia, fica Sighetu Marmatiei, a segunda cidade de Maramures em dimensão e a sua antiga capital. Cidade pequena, bem cuidada e agradável, aqui encontramos um número surpreendente de museus, entre os quais a Casa Museu de Elie Wiesel, escritor Prémio Nobel da Paz em 1986, e o Memorial das Vítimas do Comunismo e da Resistência. Neste edifício, entretanto transformado em museu, funcionava uma prisão para onde após a II Grande Guerra Mundial foram enviados os opositores do regime comunista romeno. Caminhando hoje pelos corredores, celas e jardim da antiga prisão aprendemos sobre a história do comunismo na Roménia e países vizinhos e tentamos imaginar o dia a dia dos presos políticos e as condições que aqui encontravam, incluindo tortura.

De Sighetu Marmatiei a Sapanta é um pulinho de meia hora. E Sapanta é talvez o lugar mais surpreendente de toda a região, embora não seja nenhum segredo. Pelo contrário, durante dois dias não vi turistas por Maramures, mas em compensação em Sapanta parecia ter acabado de chegar charters de chineses. E o que se visita em Sapanta? Apesar do Mosteiro Peri (um conjunto de edifícios religiosos de madeira, incluindo aquela que se diz ser a mais alta igreja de madeira da Europa, com 78 metros de altura), a Sapanta vimos sobretudo visitar o seu cemitério. Estranho? E se dissermos que o nome deste cemitério é “Merry”, cuja tradução é “alegre”? Mais estranho ainda, não é? Mas é verdade, Sapanta tem um cemitério digno de visita e este é um lugar alegre. E a alegria aqui tem cor, azul da cor da esperança e da liberdade e, já agora, do céu.

Já se disse que Maramures é terra de artesãos e um deles, certamente dos mais brilhantes e criativos, de nome Stan Ioan Pătraș, decidiu nos anos 30 do século passado começar a esculpir cruzes de madeira com figuras e poemas dedicados a cada um dos mortos a enterrar no cemitério Merry de Sapanta. Até 1977, ano da sua morte, terá criado quase 1000 destas verdadeiras obras de arte, arte esta continuada hoje por um seu discípulo, Dumitru Pop. Neste cemitério-museu caminhamos pelas sepulturas observando demorada e detalhadamente as cruzes azuis de cada uma delas com figuras – um pastor, um padre, uma tecedeira, um polícia -, lamentando não saber romeno para poder ler a história de cada um deles contada sob a forma de epitáfio. Esta forma descontraída, alegre e viva de encarar a morte vem dos Dacias, o povo ancestral donde os romenos descendem, os quais entendiam que a morte significava apenas uma passagem para uma vida melhor. E, saídos deste cemitério com um sorriso enorme, duas certezas tomam-nos, a de que a vida deve ser celebrada e a de que a nossa última morada pode ser colorida.

Bucareste

Em apenas dois dias não é fácil apaixonar-nos por Bucareste, a capital da Roménia, região da Wallachia. A cidade é algo contraditória na sua arquitectura, reflexo do decurso do tempo. O princípio do século XX foi a sua época dourada, tendo aí ficado conhecida como a “Pequena Paris” pela profusão de edifícios em estilo neoclássico. Mas os bombardeamentos durante a II Grande Guerra Mundial e o terramoto de 1977 destruíram muito.

A megalomania de Ceausescu trouxe à cidade as largas e intermináveis avenidas, os monstruosos edifícios públicos e os monolíticos edifícios de habitação. Assim, na mesma cidade, em pleno convívio, temos hoje o Boulevard Unirii, pouco amigo dos pedestres, e a Calea Victoriei, irresistível para um passeio; o brutal Palácio do Parlamento e o delicado Ateneo Romano; um rio que atravessa a cidade mas não se chega a perceber e uma série de aprazíveis parques com lagos; bairros elegantes com edifícios modernistas e bairros cuja marca do tempo é avassaladora nos seus edifícios em estilo bizantino. O que mais me surpreendeu em Bucareste foi perceber na sua arquitectura esta marca otomana numa cidade que tomava como plenamente europeia. E, sobretudo, ver um centro histórico que leio e oiço restaurado feito ainda de muitos edifícios em ruína e abandonados.

Comecemos, ainda assim, pelo centro histórico de Bucareste. Aqui ficava o Velho Palácio do Principiado, datado do século XV e hoje sob restauro. O seu estado de ruína não deixa perceber muito do que terá sido. Este era o coração da cidade, que ficava nas rotas comerciais mais importantes da época. Ao seu lado, a igreja do Palácio, que dizem ser a mais antiga da cidade. E à sua frente, o Hanul Lui Manuc, ao estilo dos antigos caravançarai. Hoje não é mais estalagem, apenas restaurante, certamente um dos mais antigos da cidade, datado de 1806. Mas o restaurante que quase todos aconselham é o também centenário Caru’ cu Bere, não só pela experiência gastronómica, mas também pelo seu interior em madeira e vidro decorado. Em ambos os espaços somos transportados para uma outra era. E a viagem no tempo e pelas outras culturas continua com a visita à igreja Stavropoleos, datada de 1724. Mínima na dimensão mas grande em ambiente.

A rua principal do Centro Histórico é a Lipscani, onde ficam muitos bares e restaurantes e, sobretudo, aquela que vem sendo considerada como uma das mais bonitas livrarias do mundo, a Carturesti Carusel. Instalada num edifício renovado, o interior com 6 pisos é cheio de luz, o que realça ainda mais a sua escadaria branca. Uma outra filial desta livraria, a Carturesi Gradina Verona, não muito distante da primeira, também é de visita obrigatória, pelos livros espalhados nas diversas salas do que foi uma antiga residência e pelo seu café num pátio ajardinado.

Voltando ao Centro Histórico, outros dos atractivos são caminhos como Hanul cu Tei e passagens em forma de arcadas cobertas de vidro onde o sol dá à luz natural, como o Macca-Villacrosse, ambos repletos de esplanadas.

Saindo deste Centro Histórico, vale a pena caminhar ao longo da Calea Victoriei, com os edifícios mais majestosos da cidade, hoje quase todos eles edifícios públicos e hotéis. A Praça da Revolução foi tornada histórica por ter sido onde em 21 de Dezembro de 1989 Nicolae Ceausescu fez o seu último discurso da varanda do edifício do Comité Central do Partido Comunista à multidão inflamada e teve de fugir para pouco tempo depois acabar por ser executado.

Junto à Praça fica o Ateneo Romano, a sala de música por excelência da cidade, onde tocaram grandes nomes como Richard Strauss, Igor Strawinsky e George Eneuscu, o maior compositor romeno. Construído entre 1886 e 1889, a fachada exterior feita de colunas neoclássicas é imponente e bela, mas diz que é o seu interior que nos arrebata, experiência que não tive ocasião de confirmar, uma vez que o Ateneo estava fechado à minha passagem.

Do outro lado da rua fica o Palácio Real, hoje Museu Nacional de Arte, onde se expõe arte romena e arte europeia. Mas não serão tanto as pinturas que recordarei, antes a escadaria fantástica da ala da galeria de arte europeia deste palácio do princípio do século XIX.

Após um desvio até ao tranquilo Parque Cismigiu, as distâncias podem atemorizar, mas vale a pena voltar e continuar a caminhar mais uns dois quilómetros pela Calea Victoriei, a rua mais antiga da cidade, até à enorme e disfuncional Piata Victoriei. Daqui em diante o mais avisado será percorrer de autocarro a longa avenida que se segue, bordejada ora de um parque ora de edifícios em estilo otomano ou modernista que são hoje maioritariamente embaixadas ou estão abandonados. E eis que surge algo que já todos vimos, só não sabíamos é que era aqui que ficava: aquilo não é o Arco do Triunfo? Pois é, Bucareste, a “Pequena Paris”, também tem o seu Arco do Triunfo. Esta réplica do de Paris, é um símbolo da cidade e foi erguido em 1936 em celebração da participação da Roménia na I Grande Guerra Mundial.

O Arco do Triunfo abre-se para grandes avenidas, mas para lá de uma delas fica o Parque Herastrau, um grande espaço de jardim virado para um lago donde se avista ao fundo um daqueles edifícios cuja arquitectura é familiar a todos os países que viveram o comunismo. A curiosidade da situação é que este edifício em estilo estalinista é a Casa Presei Libere, ou seja, a “casa da imprensa livre”.

Junto ao Parque Herastrau fica um dos bairros mais elegantes da cidade, o Bairro Primavera. Zona residencial por excelência, calma e com ruas com divisórias ajardinadas e até com frutos caídos das árvores no chão, aqui fica o Palácio Primavera, mais conhecido por ter sido a residência de Nicolae e Elena Ceausescu nos seus últimos 20 anos de vida que coincidiram com os anos em que o casal governou o país. Enquanto se discute em Portugal a relevância e a sensatez da criação de uma casa-museu de Salazar, o nosso ditador, faz todo o sentido visitar esta casa em Bucareste. As visitas são exclusivamente guiadas e mesmo se o percurso pela casa não nos é contextualizado através de informação escrita, os comentários irónicos do guia deixam perceber a uma pessoa minimamente informada pela História a desproporcional extravagância da vida palaciana do casal em relação à vida de racionamento e penúria que impunha ao comum dos seus súbditos do povo. Aqui viveu o casal com os seus 3 filhos adolescentes, cada um com o seu quarto individual sempre com um espaço de antecâmara, closet e casa de banho. Mas nem aqui os ocupantes da casa eram tratados de forma igual. A casa de banho de Elena, por exemplo, era (é) banhada a ouro. Não se pense, no entanto, que nos esperam momentos kitsch. Pelo contrário, o bom gosto do estilo francês “maria antonieta” impera e não falta sequer um jardim interior e uma piscina também interior com o seu hall decorado com mosaicos.

Custa assumir que a casa é linda e que estes ditadores comunistas pudessem ter bom gosto. Na casa veem-se ainda muitas fotos de família, objectos pessoais e mobiliário do dia-a-dia, como o tabuleiro de xadrez montado numa mesa, segundo o qual o guia informou que Ceausescu ganhava todas as partidas porque ninguém se atrevia a ganhar-lhe com medo das consequências, ou a estante com livros à qual o guia se questionou se a formação de sapateiro do ditador lhe terá permitido ter lido algum deles. É com este tipo de comentários mecanicamente irónicos que percebemos que este Ceausescu já não mete medo, mas as marcas do seu desgoverno ainda cá andam.

E marca maior não há do que aquela que impõe a presença do Palácio do Parlamento. Ceausescu sonhou construir um cento cívico, uma “Casa do Povo”, e determinou a sua construção, comandando as obras e providenciando os melhores materiais. A obra começou a ser construída em 1984, mas o ditador não a chegou a ver concluída, porque foi apeado do poder e fuzilado antes. Na verdade, a obra inicialmente por si imaginada e projectada nunca chegou a ser completada por inteiro por falta de recursos financeiros, ou melhor, pela canalização destes recursos para outros projectos que a queda de Ceausescu e o fim do comunismo tornaram mais prementes. Ainda assim, o edifício do Palácio do Parlamento é o segundo maior edifício administrativo do mundo, apenas atrás do Pentágono, mas é o mais pesado e caro de sempre. Em termos de área apenas é superado pelo Cabo Canaveral e a pela Pirâmide do Sol de Teotihuacan. A visita a este símbolo de Bucareste é obrigatória e apenas pode ser efectuada através de visita guiada. Ao longo de quase uma hora passamos por diversas salas que representam apenas cerca de 5% das mais de 1000 salas existentes em todo o complexo.

Há até um teatro, passível de ser alugado para certos eventos, com um lustre majestoso, o maior de todos os existentes no edifícios. Abundam as colunas, o mármore, as carpetes. Passamos pelo salão onde num fórum histórico em 1994 Shimon Peres e Yasser Arafat se encontraram e por um outro salão onde Nadia Comaneci foi autorizada a casar. Tudo de uma opulência e majestosidade absolutamente desajustadas da restante cidade que a circunda. Usualmente, a visita termina do balcão donde se obtém uma panorâmica para o centro de Bucareste. Infelizmente, um meeting que decorria na altura da minha visita levou ao encerramento desse balcão.

De qualquer forma, se não tive direito a essa vista, pude ao menos conseguir a vista para ocidente desde o terraço do café do Museu de Arte Contemporânea, o qual ocupa uma ínfima parte do complexo do Palácio do Parlamento. Inaugurado em 2004, vale a pena conhecer este espaço único na cidade pelo invulgar acolhimento de obras contemporâneas num espaço que na sua génese não pode deixar de se considerar austero. Deste balcão, se não se vê a cidade construída, a histórica e a das grandes avenidas, vê-se ao invés um enorme vazio, correspondente àquilo que ficou por construir. Parece uma boa forma de nos despedirmos de Bucareste, uma cidade ainda em transformação.

Roménia

A Roménia deve ser, aos olhos do português comum, dos países mais mal afamados. Custa a crer que a comunidade romena em Portugal seja a terceira maior estrangeira, apenas atrás da brasileira e da cabo-verdiana, e nós, portugueses, tenhamos tantos preconceitos em relação ao país e aos seus habitantes. A reacção mais frequente quando se fala em Roménia e romenos é pensar-se em pobreza e em ciganos. O desconhecimento do outro leva a ideias (mal) feitas. Uma viagem à Roménia torna-nos conhecedores de uma realidade muito diferente e surpreendente.

São três as regiões que formam o que é hoje a Roménia: a Wallachia, a Moldávia e a Transilvânia, mais o pequeno território de Maramures. Mas nem sempre foi assim. Antes das tribos Dacias autóctones (é daqui que vem o nome da marca de carros Dacia) já havia ocupação do território desde o Neolítico e da Idade do Bronze. Sempre alvo de migrações, os romanos estiveram aqui por breves 2 séculos, seguindo-se os mais influentes magiares e saxões, na Transilvânia. As invasões tártaras e otomanas foram marcantes e perduraram após a fundação do primeiro principiado romeno, o da Wallachia, e do segundo, o da Moldávia, ambos no século XIV. A Transilvânia era então um principiado húngaro. Foi apenas em 1862 que surgiu o nome “Roménia” para designar a entidade que no ano anterior tinha sido criada como a União Romena dos Principiados da Wallachia e da Moldávia. E foi apenas após a I Grande Guerra Mundial, com a queda do Império Austro-Húngaro, que se deu a anexação da Transilvânia e a formação da Grande Roménia. As fronteiras não se mantiveram, porém, totalmente estáveis desde aí. Mais decisivo, após a II Grande Guerra Mundial a Roménia caiu na esfera do comunismo e Nicolae Ceausescu governou de forma ditatorial o país por 25 anos, entre 1964 e 1989, ano da Revolução Romena em que não só foi deitado abaixo do poder o ditador como este foi executado juntamente com a sua mulher.

Ou seja, apenas há 30 anos a Roménia começou a abrir-se ao mundo e foi-se vendo livre de uma época política e económica que a fez estagnar e atirou muitos dos seus cidadãos para a pobreza, para além da falta de liberdade e do terror das perseguições do estado comunista, sendo que estes apenas em 2004 deixaram de fazer parte do governo. E isso explica muito acerca das ideias instaladas de pobreza e emigração da Roménia: cerca de um em cada cinco romenos é emigrante.

A Roménia entrou para a União Europeia em 2007 (embora não seja membro nem da zona Schengen nem do Euro) e talvez isso possa vir a mudar a situação. Viajando pela Roménia vêem-se indivíduos cuja identidade romena, húngara e alemã surge mesclada. Não se vêem muitos romas e, quanto a estes, os próprios romenos terão preconceitos. O parque automóvel é moderno e o uso de telemóveis massificado – delicioso ver a senhora do campo a conduzir a carroça puxada por cavalos enquanto falava ao telemóvel. Indesmentível, sim, é o facto de a Roménia ser um país rural: 60% da sua terra é agrícola. E 1/3 do seu território é montanhoso. Aliás, a grande cordilheira dos Cárpatos, que corre parte da Europa Central, tem 50% da sua área na Roménia. A paisagem é, pois, bela nos seus acidentes geográficos e pacata nos vales que cortam essa rebeldia.

E culturalmente a Roménia é uma terra poderosa, mantendo as suas tradições vincadas em regiões ainda algo remotas, como Maramures e Bucovina (Moldávia). Isso vê-se nos trajes das suas gentes, nas suas tradições artesanais e na sua arquitectura – as igrejas de madeira de Maramures e os mosteiros pintados de Bucovina são algo único e inesquecível (rodeada de países eslavos, a Roménia é o único país latino da região, mas curiosamente a sua religião não é a católica, antes a cristã ortodoxa). A Transilvânia, essa, não precisa das histórias de Vlad, o Empalador, ou Vlad, o Conde Drácula, para nos seduzir. Não. Basta a sua paisagem natural, as suas cidades e aldeias saxãs, com igrejas fortificadas, e a sua gente simples e alegre para nos fazer perder de amores pela Transilvânia.

Este itinerário pela Roménia merecia ter sido mais demorado e ter ainda incluído mais paragens, em especial no Delta do Danúbio, na costa do Mar Negro. As escolhas, sempre as escolhas. Mas com voos directos desde Lisboa para a capital Bucareste, a primeira paragem deste itinerário, e com voos frequentes para diversos pontos do país (os restantes transportes públicos nem sempre são convenientes para deslocações rápidas entre as regiões), temos tudo a nosso favor para ir conhecer pelo menos parte do país donde são provenientes tantos dos nossos companheiros de dia-a-dia em Portugal.

Da aldeia de xisto de Água Formosa até aos passadiços do Penedo Furado

Água Formosa é a única povoação do concelho de Vila de Rei integrante da rede das Aldeias de Xisto. E é a mais central, a 10kms quilómetros do centro geodésico de Portugal, ou seja, equidistante norte-sul e este-oeste dos limites da fronteira do nosso rectângulo.

Antes de tentarmos perceber o nome “Água Formosa”, e mais uma vez com a ajuda de uma olhada para o mapa, vemos que a aldeia fica perto do Rio Zêzere transformado em alfubeira de Castelo de Bode e não fica muito longe do Rio Tejo. No entanto, o seu nome vem de uma fonte de água pura alimentada pelas águas das ribeiras de Corga e da Galega, encaixadas num pequeno vale protegido por umas encostas de floresta. A água é um elemento sempre presente e foi ela que aqui fez fixar os primeiros habitantes.

A estrada que nos transporta até Água Formosa pára aqui, quer venhamos de um lado da aldeia quer do outro. Uma espécie de fim do mundo mas em versão boa. Natureza, tranquilidade e tradição é o que nos espera. E estas características andam todas de mão dada. A natureza – paisagem verde, som da água, rochas de quartzito e xisto – é a grande responsável pelo sossego e harmonia que aqui se vive. E ambos levam a que grande parte do edificado da aldeia esteja preservado e de pé, incluindo fornos a lenha, eiras, hortas e até água içada da ribeira desde o alto através de uma corda.

A qualquer passo pelas poucas e breves ruas da aldeia em sobe e desce se percebem os veios de quartzito e xisto a sair da rocha, os grandes alimentadores das pitorescas casinhas, muitas delas assentes directamente na rocha.

São menos de 10 os habitantes permanentes de Água Formosa, um pouco mais os sazonais e muito mais os visitantes. Há até algumas casas de alojamento local para aqui se desfrutar de uma noite bem dormida e uns dias bem passados.

Saindo de Água Formosa, em menos de 15 minutos chegamos à Praia Fluvial de Penedo Furado, depois de termos observado a paisagem do miradouro instalado no cimo do dito. O nome “furado” deve-se à abertura de forma afunilada no rochedo. A praia fluvial é uma das mais procuradas da região, de tal forma que no Verão fica difícil arranjar espaço para sentar na areia ou mergulhar na água transparente e impossível conseguir uma mesa para um piquenique.

Aqui começam uns dos mais recentes passadiços no nosso país. Por enquanto são apenas 532 metros lineares, mas a Câmara Municipal de Vila de Rei pretende alargar o percurso de forma a torná-lo circular. Podem ser poucos metros mas cada um deles merece a pena ser pisado com leveza de forma a melhor se apreciar a paisagem que os rodeia. Rochas selvagens envolvem-nos ao mesmo tempo que um fio de água da Ribeira de Codes corre sem pressa até ao encontro da alfubeira de Castelo de Bode, logo ali ao fundo.

O fim dos passadiços é acompanhado de um pequeno trilho que nos deixa face a face com uma cascata que cai para uma piscina natural. Subimos em sua direcção e no caminho vemos uns santuários erguidos no cimo dos montes-miradouros e mais ao fundo uma série de outras piscinas naturais e quedas de água. Dizem que aqui é o paraíso e pelo menos um casal lá em baixo, quase que escondido na vegetação, fazia por o tomar à letra.

Aldeias de Xisto de Góis

As aldeias pertencentes à rede das Aldeias de Xisto no concelho de Góis estão localizadas em plena Serra da Lousã. Pena, Aigra Velha, Aigra Nova e Comareira são remotas e isoladas, talvez até mais do que as aldeias do concelho da Lousã. No entanto, ao contrário destas, ainda há nelas habitantes permanentes. Poucos, mas há. Só a Pena, por exemplo, segundo o Censo de 2011 tem 14. Pela estrada de asfalto que liga estas aldeias a Góis, sede de concelho, encontramos até velhinhos amparados nas suas bengalas a caminho ou de volta do trabalho. Porque a vida não pará e enquanto se cá está há que cuidar do que é nosso, mesmo que os descendentes só cá queiram vir passar um fim de semana ou outro.

A paisagem deste pedaço da Serra da Lousã também não difere muito da da outra vertente. Para além dos cada vez mais frequentes pinheiros e eucaliptos, ainda se encontram bosques de castanheiros e carvalhos e nas zonas ribeirinhas azereiros e azevinhos. Mas nesta zona dominam de forma arrebatadora os Penedos de Góis, dos pontos mais altos da serra, com 1043 metros. Esta é uma paisagem mais agreste e também o clima junto a eles é menos certo. A mim tocou-me um dia a bater à porta da época do Verão onde o céu não se chegou a ver.

É possível fazer-se um percurso pedestre circular a iniciar em qualquer uma das 4 aldeias de xisto de Góis, através do qual ao longo de 9 kms de trilho se passa por zonas de montanha com tradições e história muito próprias e uma fauna feita de veados, aves de rapina e cegonhas pretas que costumam nidificar nos Penedos.

Não seguimos a penantes, antes de carro, e começámos o nosso itinerário pela Pena, a aldeia de xisto mais desenvolvida de Góis, protegida no alto pelas escarpas quartzíticas dos Penedos de Góis e em baixo pelas águas da Ribeira da Pena.

A sua implantação geográfica é desafiante, ao longo de um promontório, sempre a subir, e quase que as casas se equilibram umas nas outras. Ainda ao longe vemos que estas casas não são todas de xisto, mas quando entramos na aldeia, pouco após passar a ponte sobre a Ribeira e o castanheiro secular que nos dá as boas-vindas, vemos que é o xisto que nos rodeia. Caminhando pelas ruas estreitas apreciamos as casinhas de xisto com portas, paredes e parapeitos de madeira e observamos uns pormenores deliciosos nas fachadas. A maior parte das casas tem dois andares e tradicionalmente no rés-do-chão guardava-se o gado. Ao segundo piso acede-se por uma escada exterior também em xisto.

Crê-se que a povoação da Pena já existisse no século XVI. A origem do seu nome estará em “penna” ou “pinna”, palavra latina para penha – penhasco ou rochedo.

Da Pena até Aigra Velha é um passinho agradável por campos verdes ondulados onde as cabras pastam em sossego. Aigra Velha é pequeníssima, um ponto no mapa envolto numa bela paisagem agrícola e de pastoreio, a mais alta das aldeias de xisto, a 770 metros de altitude. Não se vê aqui ninguém, apenas animais guardados nas casas de xisto que parecem em ruína e abandonadas. O curioso desta aldeia é que possui um sistema defensivo apenas visto nas aldeias medievais mais antigas do nosso país, com uma única rua que atravessa a aldeia e pode ser fechada nas duas extremidades, ficando todas as casas com ligação interna directa entre si. Esta estrutura construtiva permitia uma melhor protecção contra o clima adverso e contra os animais selvagens, como os lobos.

O nome “aigra” significa campo ou quinta e esta Aigra Velha dirá respeito a uma quinta instalada numa posição geográfica cimeira em termos de altitude em relação a uma outra, a Aigra Nova. E assim nos conduzimos mais para baixo, pela serra que vai vendo um vale cravar-se na paisagem, deixando a silhueta dos Penedos de Góis para trás. Entre as Aigras existem bosques de urzes que servirão para produzir o típico mel da Serra da Lousã.

Aigra Nova, então. Aqui recebem-nos uns cães enormes, daqueles que metem respeito. Depois de hesitar em sair do carro constata-se que estes pachorrentos animais não estão ali para guardar o Núcleo de Interpretação Ambiental e a Loja de Xisto da aldeia, antes optam por se deixar estar na modorra a que a natureza local convida. Esta Aigra tem três ruas estreitas onde se duvida que o carro passe. Mas passa, depois de por elas termos caminhado um pouco.

As casas estão aqui bem recuperadas nas suas fachadas em xisto e portas e janelas em madeira e a aldeia é como se fosse um pequeno museu a céu aberto. Para além disso, esta é a única povoação no nosso país onde existe uma Maternidade de Árvores. À sua volta, hortas e lugares de pastagem. O nome “Aigra Nova”, já se sabe, será uma contraposição à outra aigra – quinta – mais cimeira. Ou, então, a palavra aigra estará ligada à palavra “acrum”, com o significado de áspero, amargo ou duro, tudo caracterizações certeiras da vida no lugar.

Saindo de Aigra Nova, a estrada continua a oferecer-nos belas panorâmicas. À entrada de Comareira, a última aldeia deste nosso itinerário, um miradouro só reforça a beleza dessas panorâmicas, obrigando-nos a parar para contemplar o vale. Novamente, uns cães aguardam a nossa visita e a sua modorra continua, mas desta vez estão um bocado pulguentos.

Uma mosquitagem incrível rodeia-nos e um cheiro a animal e bosta há-de nos acompanhar pela rua única da aldeia. Comareira, no cume de um monte, é a mais pequena destas aldeias do xisto e à semelhança de Aigra Velha também parece ao abandono – com excepção dos muitos bichos, cães, gatos, vacas, para além dos mosquitos.

Castelo da Lousã

A Lousã é a serra e as aldeias de xisto, mas é também o seu castelo, segundo José Saramago “paisagisticamente, das mais belas coisas que em Portugal se encontram”. A sua implantação no meio da floresta é preciosa e torna-o ainda mais apelativo. Diz-se ser o “castelo perdido nas árvores” e qualquer vista panorâmica mais afastada confirma-o.

Também conhecido como Castelo de Arouce, fazia parte da linha defensiva do Mondego, rio que até à conquista de Lisboa aos mouros no século XII fazia de fronteira entre o mundo cristão e muçulmano. Terá sido erguido no século anterior, mas uma lenda antiga conta-nos ainda da possibilidade de ter sido construído por um emir para servir de proteção da sua filha e dos seus tesouros após derrotado e expulso de Conimbriga.

Fortaleza pequena, com uma torre de menagem e um curto pátio, à entrada percebemos um alambor, uma base rampeada que tinha como função reforçar a muralha e impedir a escalada dos seus muros. A partir deste ano de 2019 passou a ser possível a visita ao interior do castelo e do alto da sua torre as vistas para a densa vegetação são incríveis. Em baixo vemos o alvo Santuário de Nossa Senhora da Piedade a contrastar com o verde da floresta e o xisto – claro – do castelo.

Descemos do castelo e bem lá em baixo fica a praia fluvial com vista para ele. A beleza natural do lugar é comovente. No entanto, há que não ficar pela vista. A Ribeira de São João corre ponte afora e acompanhando-a enquanto podemos descobrimos mais um recanto de tranquilidade na Serra da Lousã.

As Aldeias de Xisto da Lousã

Junto à vila da Lousã ficam algumas das mais pitorescas aldeias de xisto da serra de mesmo nome. Percorremos as estradas que serpenteiam a serra rodeados de uma vegetação frondosa feita de sobreiros, castanheiros, carvalhos e pinheiros. Pelo caminho, aqui e ali, surge um aglomerado de casas, sempre aninhadas numa encosta em declive, parecendo quase empoleiradas umas nas outras.

Das 5 aldeias de xisto do concelho da Lousã, Casal Novo foi a primeira paragem. Uma entrada mesmo à beira da estrada de asfalto deixa-nos face a face com uma rua sempre a (bom) descer. São edifícios de xisto de um lado e do outro desta rua única empedrada e muito declivosa, uns mais bem conservados do que outros e todos eles rodeados pelo arvoredo. Lá em baixo fica uma eira donde com tempo aberto se descobrem o Castelo da Lousã e o Santuário de Nossa Senhora da Piedade no meio da floresta.

As aldeias da Lousã terão começado a ser ocupadas por volta do século XVII ou XVIII de forma sazonal, na Primavera e no Verão, e as suas gentes dedicavam-se sobretudo à pastorícia. Nos dias de hoje estas aldeias têm muito pouca população com residência habitual, mas a de Casal Novo, que chegou a ter 65 habitantes em 1885, não tem sequer um, sendo as suas habitações todas de residência secundária.

O nome “casal”, já se sabe, significava em português arcaico um aglomerado de duas ou três casas. Já o “novo” do nome desta aldeia indicará que esta era uma povoação mais recente do que as vizinhas Chiqueiro e Talasnal.

Falhei a visita a Chiqueiro, sem que me tenha apercebido muito bem porquê.

Mas a visita a Talasnal é impossível de se falhar, não fosse esta a aldeia mais famosa da Lousã. Da estrada temos logo uma excelente panorâmica que nos mostra com exactidão a forma como a aldeia se espraia na encosta e na serra.

Aqui não há apenas uma rua. São vários os caminhos que nos convidam a descobrir todos os recantos do Talasnal e nos atiram para ruinhas estreitas e sem saída, umas a subir e outras a descer, perdendo-nos no meio daquela natureza construída. Não nos admiremos se dermos de caras com um javali – como me aconteceu – ou um veado ou corço.

Em 1911 o Talasnal tinha 129 habitantes, dois lagares de azeite e até uma escola. Hoje, neste mundo de encantar restam casas de residência secundária (mais uma vez, aqui não há já residentes habituais) feitas de xisto e belamente decoradas com flores e ramos de videira. Umas empoleiram-se nas vizinhas, mas outras conseguem reinar livres de amarras abrindo-se às vistas fabulosas da serra, obrigando ao desfrute relaxado do cenário.

À semelhança do que acontece no Casal Novo, na zona mais baixa do Talasnal consegue ver-se o Castelo da Lousã e um percurso pedestre liga-os, conduzindo-nos até à praia fluvial.

Estas aldeias não foram instaladas muito longe de ribeiras, mas em nenhuma delas o elemento água se faz sentir tão presente como no Candal. À sua entrada, junto à Estrada Nacional (EN) espera-nos a Ribeira do Candal rodeada de casinhas alcandoradas na encosta.

E quando atravessamos a pequena ponte e começamos a subir a aldeia vemos fontes e o som da água vai nos acompanhando. De todas as aldeias de xisto da Lousã, o Candal é a mais acessível, precisamente porque fica à beira de uma EN, daí que seja a mais desenvolvida. Ainda assim, em 1940 eram 201 os seus habitantes permanentes e nos Censos de 2011 0 (zero). As décadas de 50 e 60 viram a sua população emigrar em massa e apenas na década de 70 chegou a electricidade à aldeia. À semelhança do Talasnal, também tinha lagares de azeite e uma escola e o Candal era uma aldeia onde a pastorícia era a actividade principal, com as cabras e as ovelhas a serem guardadas no piso térreo das casas, e os seus habitantes dedicavam-se ainda a uma agricultura de subsistência e ao fabrico de carvão. Mas, tradicionalmente, aqui se trabalharia a pedra. Nesse sentido, o nome “Candal” derivará de “candar” que, por sua vez, derivará de “cantar a pedra”, porque enquanto trabalhavam a pedra os canteiros e os pedreiros iam cantando.

A encosta onde está situada são na verdade uma espécie de duas vertentes cortadas pela Ribeira. Olhando da estrada, a do lado esquerdo é onde fica a maioria do casario. Subimos a bom subir as ruas inclinadas, deambulando pelos caminhos sem saída que vão dar a mais uma casinha de xisto sem reboco ou a um ponto que nos oferece mais uma vista privilegiada. Há aqui, porém, muitos edifícios abandonados e em ruína, o que é ao mesmo tempo uma pena e uma consequência inevitável do avançar do tempo. Ainda assim, o prazer de apreciar as decorações das casas com flores e descobrir umas chaminés singulares, esse, está sempre presente.

Apesar de mais acessível, o Candal acaba por receber menos visitantes – e menos confusão – do que o Talasnal. Foi por isso que no Candal, na sua Loja de Aldeia do Xisto, pude saborear com mais tranquilidade um talasnico, um doce típico de mel e castanha.

A Cerdeira é a aldeia que se segue, onde se chega após um desvio mais adiante na EN. Digamos que a subida de carro pela estrada de asfalto até lá faz suar tanto como se optássemos por seguir a pé. São curvas e mais curvas, tão apertadas e sem visibilidade que nos fazem duvidar que o caminho vá ter a alguma espécie de civilização. Mas vai. E uma daquelas onde a criatividade tem feito por imperar e, com ela, dar nova vida e transformar a aldeia. Cerdeira é a mais criativa e artística das aldeias de xisto.

Mais uma vez, a sua implantação geográfica é soberba, uma daquelas cuja beleza, isolamento e tranquilidade só podem resultar em pura inspiração. Aqui o Homem teve de se esmerar para moldar os elementos naturais a seu belo prazer. Uma longa rua a descer (ou a subir, conforme a perspectiva) até ao vale onde corre uma pequena ribeira, mais uma rua traseira mais curta, escadaria com chão de xisto a condizer com os edifícios e esplanadas perfeitas fazem da Cerdeira o lugar ideal para se montar ateliers e residências artísticas que acolhem gente de todo o mundo e donde a arte há-de brotar. Até um espaço de botânica que usa a planta do xisto como planta aromática.

O nome Cerdeira virá do antigo “sardeira”, a árvore hoje commumente conhecida por cerejeira e que por aqui terá em tempos medrado. Em 1940 os censos registaram o maior número de habitantes que a aldeia já teve, 79. Hoje, mais uma vez, ninguém aqui reside de forma habitual. A este respeito, há até uma história triste que o cinema de João Mário Grilo, no filme de 1992 “O Fim do Mundo”, connosco partilhou: na década de 1970, tinha a aldeia três habitantes, uma discussão pela partilha da água acabou por deixar a aldeia deserta. Constantino matou os outros dois e em 1983 voltou à Cerdeira, após o cumprimento da sua pena, onde, homem bom e respeitado apesar do seu crime, viveu os seus últimos anos de vida partilhando as tradições da aldeia com quem entretanto para aqui viera.