Tapada das Necessidades

A Tapada das Necessidades, na Estrela, é um lugar esquecido.

Para o bem e para o mal. Se são muitos os seus edifícios ao abandono, a Tapada preserva ainda largas zonas verdes ideais para nos abstrairmos da realidade, fazer um piquenique ou tão só passear, atravessando-a de um lado ao outro na companhia de pavões e de patos e de vistas para a Ponte 25 de Abril e para os Prazeres, enquanto nos embrenhamos pelos seus caminhos carregados de vegetação exótica.

Foi D. João V quem, no século XVIII, mandou construir a Tapada das Necessidades, Convento e Palácio (hoje sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros) no lugar de uma antiga ermida. Um século depois, D. Fernando II, o Rei Artista, redesenhou o espaço e a zona de hortas e pomares foi transformada em jardim inglês, tendo ainda aí instalado um jardim zoológico com aves raras e macacos. Ao seu filho, D. Pedro V, deveu-se a construção da estufa circular, o apontamento edificado mais bonito da Tapada, embora a Casa do Regalo, de iniciativa do Rei D. Carlos I, tome uma designação que lhe faz forte concorrência. Ou seja, os 10 hectares da Tapada de gosto barroco foram sofrendo alterações e acrescentos ao longo da sua história até chegarem aos nossos dias. Neste que é considerado o primeiro jardim paisagista de Portugal e que foi lugar de lazer e experimentação botânica por parte da realeza, podemos hoje caminhar pelos seus vários jardins, lagos, estátuas e edifícios.

Entrando pela porta junto ao Palácio das Necessidades, iniciamos o passeio pelo jardim inglês e de buxo. Há um frondoso dragoeiro e lago e patos, sim, mas a grande atracção são os pavões que fazem questão de vir até nós, com as suas penas resplandecentes bem abertas, como se nos cumprimentassem.

Logo de seguida, estende-se diante nós um largo relvado verde com um edifício delicioso no cimo, a estufa circular em ferro e vidro.

É aqui que começa o desfile de edifícios abandonados e degradados. A Casa do Fresco, por exemplo, tem até na sua fachada uma das estatuetas decapitada. No topo tem ainda o tanque que lhe garantia um ambiente fresco, mas que servia também como elemento estético, devidamente acompanhado por uns vasos ornamentais. Por aqui segue a alameda que ladeia o que era o jardim zoológico com os seus edifícios rosas todos em muito mau estado. Mas temos uma boa opção: dirigir antes o olhar para o lado esquerdo, para umas boas vistas da Ponte 25 de Abril enquadrada na Tapada.

Mais adiante passamos pela Casa do Regalo, tão intensamente rodeada de vegetação que pode passar despercebida. De fachada amarela e com brasão, foi mandada construir por D. Carlos I para servir de estúdio de pintura para ele e para D. Amélia. Este edifício, sim, está bem conservado, uma vez que, afecto à Secretaria-Geral da Presidência da República, foi restaurado para nele ser instalado o gabinete de Jorge Sampaio, ex-Presidente da República.

Foi a tentar perceber um pouco melhor a fachada escondida da Casa do Regalo que escutei, surpreendida, o grasnar estridente de um papagaio (na verdade, um periquito-de-colar). Tão louro, tão louro que também ele se confundia com o arvoredo. Esta é uma zona de mata mediterrânea, talvez não muito domada, e é logo a seguir que encontramos o Jardim dos Cactos. É uma colecção bastante generosa, exótica e exuberante, imperdível na visita.

E aqui ficamos num dos pontos mais elevados da Tapada, ela que está já implantada numa encosta de Lisboa. As vistas para o Tejo são emolduradas pela vegetação, uma perspectiva bem diferente daquela a que estamos acostumados.

Quando ao futuro da Tapada, designadamente no que respeita à recuperação dos seus espaços degradados, espera-se que em breve possa arrancar um projecto que prevê a instalação de quiosques, esplanadas e equipamentos expositivos e para eventos. Mas que, ao mesmo tempo que a permita ser fruída por todos, possa continuar com o recato que a fez chegar até nós.

Corto Maltese, as aventuras

Na sequência do anterior post, onde se apresenta a personagem Corto Maltese, o herói sonhador criado pelo desenhador e roteirista Hugo Pratt, iremos agora percorrer os seus livros.

As aventuras de Corto Maltese foram situadas pelo seu autor no início do século XX. Porém, os livros de Hugo Pratt não têm uma ordem cronológica. No primeiro livro, “A Balada do Mar Salgado”, editado em 1967, era 1913-1915 e Corto andava feito pirata nas Caraíbas, estava a I Grande Guerra Mundial a começar. Antes disso, no entanto, já tinha andado pela Manchúria por altura da Guerra Russo-Japonesa de 1904-1905, onde conheceu o seu amigo-inimigo Rasputine e o seu amigo-escritor Jack London – assim nos é mostrado em “A Juventude”.

Voltando ao “A Balada do Mar Salgado”, aqui é apresentado Corto aos seus leitores pela primeira vez. A imagem do marinheiro pirata surge amarrado a uma jangada à deriva no mar, como se estivesse na cruz. Resgatado por Rasputine, há de lutar com um polvo, fugir de um tubarão e muito mais. A uma pergunta de Pandora, uma das mulheres de Corto, se acha que a sorte grande lhe vai sorrir a vida toda, responde altaneiro: “Claro, minha cara… quando era pequeno, apercebi-me de que não tinha linha da sorte. Então, peguei na navalha do meu pai e zás! Fiz uma como queria”. Pois é, a sorte é ele quem a faz.

Os dois livros seguintes – “Sob o Signo de Capricórnio” e “Sempre um pouco mais longe” – possuem diversos episódios (em Portugal foram também editados os volumes “Sob a Bandeira dos Piratas”, “Longínquas Ilhas do Vento” e “Lagoa dos Mistérios” que estavam originalmente integrados naqueles outros dois livros). Corto vagueia pelo Suriname, Guiana Francesa, Bahia, Sertão, Caraíbas, Peru.

“Sob o Signo de Capricórnio” é um livro cheio cheio de magia. Magia em todos os sentidos, incluindo aquele que envolve feiticeiros, telepatia, civilizações perdidas e idas até ao Sertão brasileiro com descida pelo rio São Francisco, onde o marinheiro se encontra com cangaceiros. Em “Sempre um pouco mais longe” Corto permanece na América do Sul, iniciando em Maracaibo a sua expedição em busca das ruínas de uma cidade inca ou pré-inca na Amazónia Equatorial, um dos muitos El Dorados, em encontros na selva com tribos e espíritos “que cortam e encolhem cabeças”, numa história sob o efeito de cogumelos mágicos. Morgana, Boca Dourada, Madame Java, Esmeralda, Venexiana Stevenson e Soledad são os nomes das mulheres com quem troca olhares pelo caminho destes dois volumes.

As Célticas” está cheio de mitologia e fábulas celtas, a lembrar as raízes paternas de Corto, mas também referências ao Ira e ao Sinn Fein, não faltando sequer uma imagem de Stonehenge e mais uma citação reveladora da personalidade do nosso herói: “está a sonhar de olhos abertos, e quem sonha de olhos abertos é perigoso porque não sabe quando acaba o sonho”.

As Etiópicas” alargam ainda mais as referências culturais do mundo de Hugo Pratt. O jovem Hugo havia vivido na Abissínia, onde o seu pai militar estivera colocado. E é parte de África que estas páginas mostram. O Mar Vermelho, o deserto, o Corão, homens leopardos, a justiça africana. Corto mascarado de beduíno e a fazer de muezim a chamar para a oração. Um oficial do exército britânico a ler Rimbaud ao invés de Kipling, na irónica observação de Pratt através da boca de Corto. Curiosamente, neste volume não aparecem quase mulheres, apenas duas.

A partir de “Corto Maltese na Sibéria” as obras passam a longas novelas gráficas, ao invés de pequenas histórias agrupadas num mesmo livro. A aventura começa com um sonho em Veneza com Boca Dourada, com Corto a tentar ler (e a adormecer) “Utopia”, de Thomas More. Depois, somos transportados para Hong Kong, Mongólia, Rússia e China. Corto reencontra Rasputine neste tempo de bolcheviques na fronteira mongol e japoneses na Manchúria e aliados na Sibéria. Há sociedades secretas e tríades, uma busca a um comboio russo carregado de ouro que, no final, acaba por cair no fundo de um lago mongol. Mais aventura? O marinheiro Corto num avião abatido nos céus. Que escapa são e salvo para o próximo episódio.

A edição da Meribérica/Liber do “Fábula de Veneza”, também conhecido por “Sirat al Bunduqiyyah”, tem prefácio de Hugo Pratt. Aqui nos dá conta das suas raízes venezianas, designadamente dos passeios até ao Ghetto com a avó, onde mesmo depois fazia questão de voltar sempre. O início deste livro é delicioso, com Corto a cair de um telhado para interromper uma sessão de uma loja maçónica. “Como é que caiu?”, perguntam-lhe; “Caio muitas vezes das nuvens”, ah, ah, ah. Hugo Pratt era parte da maçonaria, mas Corto Maltese “não era pedreiro-livre, antes um marinheiro-livre”. Na sua busca por uma esmeralda cheia de mistério e enigmas, onde vai entrando e saindo das histórias como se fossem sonhos, Corto encontra mais uma mão cheia de mulheres, como Hipazia, Pezinho de Prata e Louise.

Em “A Casa Dourada de Samarcanda” encontramos Corto a fumar narguile e a pensar num monte de mulheres ao mesmo tempo. Quando uma personagem lhe pergunta se alguma vez esteve apaixonado, Rasputine responde que Corto está apaixonado pela ideia de estar apaixonado. Não é difícil perceber que Corto é um homem apaixonado; mais difícil é saber qual a sua maior paixão. Neste “A Casa Dourada de Samarcanda” Corto anda pela Ásia Ocidental e Central, Grécia e Turquia. O nacionalismo turco é aqui um tópico histórico e cultural. Corto busca o tesouro de Ciro e Alexandre, o Grande, ao mesmo tempo que tenta salvar o seu amigo Rasputine da Casa Dourada de Samarcanda, a prisão inexpugnável donde só é possível evadir-se através dos sonhos dourados do haxixe.

Em “A Juventude de Corto Maltese”, obra de que já falámos, o contexto é o da Guerra Russo-Japonesa de 1904. É um retrato de Corto enquanto jovem e suas amizades e suas ligações. É aqui que Corto e Rasputine se encontram pela primeira vez. E é aqui que nos é apresentado o seu amigo escritor Jack London. E aqui se mostra ser o jovem já possuidor de inúmeras ligações nos meios chineses e manchus. E um fantasioso, sempre em busca de algo, neste caso de minas de ouro.

Tango” mostra-nos Corto de volta a Buenos Aires. Ainda não o tínhamos visto na cidade porteña nos quadradinhos de Hugo Pratt, mas sabíamos que o italiano aqui tinha vivido durante uns tempos. É um mundo de bordéis, tango, bilhares, parrillada, mate e até um céu com duas luas.

As Helvéticas” é o penúltimo livro de Corto Maltese (anterior a Mú, a Cidade Perdida, o único que não li), tendo sido editado em 1987 (e Mú no ano seguinte). Hugo Pratt viveu os últimos 11 anos da sua vida na Suíça e com este livro talvez quisesse mostrar que esta também é capaz de inspirar e ser possuidora de um mundo imaginário. Alquimia, magia e astrologia são temas, Parsival, Herman Hesse e Tamara de Lempicka personagens. Este livro tem início em Lutry, na mesma vertente do Lago Léman onde está instalada a vizinha Grandvaux, onde Hugo Pratt passou os seus últimos anos. E aqui está igualmente imortalizado Corto Maltese em estátua, contemplando sonhador a água e a montanha majestosa ao seu redor.

(as aventuras de Corto Maltese foram, entretanto, retomadas em 2015 pela dupla espanhola Rubén Pellejero e Juan Díaz Canales, tendo sido editados desde então três novos títulos: Sob o Sol da Meia-Noite, Equatória e O dia de Tarowean)

Corto Maltese, o herói sonhador

Corto Maltese é o meu herói. Tem 53 anos e nasceu em 1887. Confuso?

O marinheiro mais bonito, estiloso, culto e corajoso de todo o sempre nasceu em 1967 da pena de Hugo Pratt, desenhador e roteirista. Filho de mãe cigana de Gibraltar e de pai marinheiro da Cornualha, Corto nasceu no final do século XIX em La Valletta, Malta, e aí cresceu. Era de Malta, mas andou por todos os cantos do mundo. Um viajante e um aventureiro inveterado.

Pode ser o herói de muitos, como eu, mas Corto é na verdade mais daquela espécie de anti-heróis. Sempre pautado pelos valores de justiça e liberdade, com uma visão romântica do mundo, Corto não é nada cínico, antes frontal, petulante às vezes, mas nunca arrogante. É um sedutor, elegantemente vestido com a sua jaqueta longa e chapéu de marinheiro, brinco na orelha esquerda e cigarro ao canto da boca. Um sonhador que é amiúde representado nas tiras de traço poético de Hugo Pratt estendido, relaxado à beira de uma bela paisagem ou sob a lua. “Não tem pátria e é um homem livre que sabe muitas coisas… mas não quer assumir responsabilidades”, diz a personagem Crânio em “A Balada do Mar Salgado”, o primeiro livro de Corto Maltese, o tal de 1967. E Monge, outra personagem deste mesmo livro inicial, diz-lhe “Ah, Corto, Corto, Corto… o que mais me agrada em ti é essa capacidade de nunca deixares escapar o lado divertido das coisas!”. Nem deixar escapar um momento para lançar a sua ironia. Este “pirata simpático”, sempre rodeado de mulheres, tem muitos amigos, alguns inimigos e imensos admiradores.

Na verdade, quem é merecedor da nossa admiração é Hugo Pratt, o italiano autor quer das tiras quer dos textos, ambos belíssimos, da personagem de Corto Maltese, seu alter ego. Com ela Hugo fez com que a Banda Desenhada passasse a ser coisa séria. Umberto Eco, por exemplo, afirmou que “Quando quero relaxar, leio um ensaio de Engels. Quando quero algo mais sério, leio Corto Maltese” e que “Pratt transforma em matéria de narrativa e de aventura a sua própria nostalgia da literatura, e a nossa”.

Os livros de Corto Maltese são, no fundo, livros de viagens. Dizia Hugo Pratt que as suas viagens eram “a ocasião de ir a um local que já existe na minha imaginação, no meu mundo interior”. E à boleia da enorme bagagem cultural de Hugo e da errância de Corto os leitores viajam pelo mundo todo, sendo parte das aventuras do seu herói.

Pela Serra de Sintra, com início e fim na Barragem da Mula

Outro lugar onde vamos querer voltar rapidamente em tempos de desconfinamento é a Sintra. Sintra é infinita. Não nos cansamos nunca de a correr porque ela é imensa no que há para descobrir (e já a registámos diversas vezes aqui no blog). Desta vez vamos pelos trilhos da Serra de Sintra desde a Barragem da Mula em direcção aos Capuchos, ainda a aguardar que o “novo” Convento reabra depois dos tempos de restauro, com volta larga até ao ponto inicial.

A Barragem da Mula, ponto de partida para muitos caminhos, retém por momentos a água do Rio da Mula, rio que nasce na Serra de Sintra e que após uns breves 10 kms de curso desagua no Atlântico. Esta barragem envolta pela natureza não está disponível para actividades aquáticas, mas as caminhadas junto a ela servem bem qualquer propósito de evasão.

Seguimos por uma curta subida por entre pinheiros e eucaliptos com a água desta espécie de lago ao nosso lado. E haveremos de a contornar até meio, de forma a melhor observarmos a barragem de outro ângulo.

O fio de água do Rio da Mula é bem estreito, a maior parte das vezes até nem damos por ele, mas as pequenas pontes de madeira sucedem-se. Algumas delas num estado tal que é um convite descarado a meter o pé na poça.

Só que muitas destas pontes até estarão aqui colocadas não para se atravessar algo, mas para tornar o trilho mais atraente e desafiante para o pessoal do BTT. Estes trilhos não são propriamente o lugar ideal para se caminhar confortavelmente apartado do mundo. Porque são difíceis de vencer a pé sem recurso à ajuda de bastões, por exemplo, e porque pode vir de lá lançada uma bicicleta a voar e aterrar mesmo em cima de nós. Mas enfim… fui lá parar não sei como, talvez por falta de sinalização ou por falta de atenção à sinalização, e por aí segui com sorte de não me cruzar assim com tantos radicais da bicla.

A melhor alternativa, embora não tão bonita como o intenso mergulho na floresta de trilhos, é seguir pelo estradão de terra aberto propositadamente para os caminhantes e para os ciclistas menos afoitos.

Mas depois de uns quantos metros pelo estradão com arvoredo de ambos os lados, logo voltamos à imersão na floresta. Uma relativamente extenuante subida num ambiente incrível leva-nos na direcção do Monge. Aqui ficam os Tholos do Monge, um monumento megalítico a 490 metros de altitude. Não há vistas, porém, uma vez que estamos mais uma vez rodeados de vegetação.

As vistas aparecerão mais adiante. Depois de percorremos mais um estradão com os troncos das árvores cobertas de hera, uma nesga deixa-nos vislumbrar a Costa de Sintra, com a forte ondulação a tornar branco o azul da água.

Após uma boa estirada por tapadas, num percurso circular que nos levará de volta ao ponto inicial, subimos até à Pedra Amarela. Aqui sim, as vistas são desimpedidas e soberbas. Para o Atlântico, para a Peninha, para a Pena, para tudo. O ambiente é incrível e as próprias rochas deste alto a 408 metros ajudam ao cenário.

Do Monte da Pedra Amarela até à Barragem da Mula é sempre a descer. Aqui a floresta está neste momento tristonha. Muito terá ardido em incêndios recentes e muitas espécies invasoras ajudaram à desolação. Um exemplo: após o grande incêndio de 1966 na Serra, foram aqui introduzidas espécies exóticas que se expandiram de forma agressiva, sobretudo a acácia, rivalizando e destruindo a vegetação prévia. Nos últimos anos tem estado em andamento um projecto de reflorestação desta parte da Serra de Sintra, para que possamos usufruir da exuberância e equilíbrio pela qual é conhecida. Outro aspecto menos agradável é o barulho intenso e constante produzido pelos carros no autódromo. Não tem piada nenhuma este outro tipo de espécie invasora do ambiente, impossibilitando melodias mais condizentes.

O Parque da Pedra Amarela e seu Campo Base é um parque aventura com muitas actividades, como slide, pista de arborismo, escalada, rappel e orientação, entre outras. Não nos aventurámos em nenhuma delas e subimos antes até à elevação directamente acima da barragem. São as vistas, sempre elas, que nos movem. E aqui nós deixámos ficar a apreciar o esplendor natural da Serra de Sintra, até que, saciados de beleza, iniciámos então a descida dos últimos metros dos cerca de 11 kms deste passeio com início e fim na Barragem da Mula.

As Praias da Arrábida

Com a quarentena a dar as últimas, o desconfinamento em marcha e o Verão a chegar, a Arrábida é o sítio para se estar. Aquela natureza recôndita, serra parelha do mar, vegetação de um verde vivo só superado pelo irreal azul do Atlântico, é um bálsamo em qualquer época da vida, transformado agora em prémio pelas provações vividas em tempos de isolamento.

O Parque Natural da Arrábida, dividido entre os concelhos de Sesimbra, Setúbal e Palmela, é de uma diversidade incrível, não apenas no que diz respeito à fauna e flora. Falo de lugares como o promontório do Cabo Espichel, serras rochosas e escarpadas e serras interiores, baías inacessíveis e outras oferecidas, todas de água transparente, fortes, conventos, castelos e povoações de arquitectura rural onde a vinha e o queijo são delícias populares. E vistas de tirar o fôlego. Tudo para se ir descobrindo lentamente, voltando repetidas vezes, de preferência para se caminhar nos seus inúmeros trilhos.

A época de maior calor não é, contudo, a mais aconselhada para se caminhar a céu aberto, pelo que seguimos de carro à descoberta das praias mais facilmente acessíveis da Arrábida, entre Sesimbra e Setúbal, não dispensando, porém, largas caminhadas entre elas, sempre junto à costa.

Entrando por Azeitão, ziguezagueamos pela estrada numa descida até ao mar. Aldeias e casarões escondidos nos montes cobertos de uma carapinha verde, uma pedreira aqui e ali – o único elemento negativo do Parque Natural -, e logo o nosso olhar é roubado. Já falei daquele azul do mar?

A primeira paragem que propomos é na Praia de Alpertuche, imediatamente antes da descida para o Portinho da Arrábida. Para se alcançar esta pequena praia escondida no meio da vegetação e dos rochedos há que caminhar por uma estrada de terra batida só acessível aos veículos dos proprietários das casas aí situadas e, depois, descer um breve trilho completamente envolvidos pela natureza. Umas nesgas no arvoredo vão-nos preparando para o cenário lá em baixo junto ao mar. Esta praia mínima com uma espécie de chalet em plena areia tem uma série de pedras e a vista típica das arribas e cor do mar da Arrábida.

Logo a seguir fica um dos lugares mais surpreendentes do Parque, a Lapa de Santa Margarida. Descemos sucessivos degraus em pedra construídos por um ermitão, mais uma vez totalmente engolidos pela vegetação, passando por rochas e cactos curiosos, até chegarmos à beira mar e, deitando-lhe costas, nos aventurarmos a entrar por um buraco aberto na parede da rocha.

É então que deparamos com uma enorme gruta, com uma capela no seu interior, um cenário misterioso com as veias da rocha a tomarem formas incríveis. Esta gruta tem a tal abertura na rocha e tem, ainda, uma abertura directa para o mar que mais parece uma janela. Uma janela natural por onde em tempos idos os pescadores vinham nos seus barcos em peregrinação para orar neste lugar absolutamente recolhido.

O Portinho da Arrábida é exíguo no seu estacionamento, por isso é boa ideia deixar o carro perto da Lapa e seguir a pé até à baía mais famosa da Arrábida. Passamos o Forte de Santa Maria da Arrábida, hoje Museu Oceanográfico, construído no século XVII para defesa do pequeno porto e do convento mais acima, e logo temos aos nossos braços aquela paisagem imensa. A encosta verde da serra a cair delicadamente no azul do mar. E a água tão transparente. A diversidade marinha é grande e o Portinho é um bom lugar para mergulho. E é também o local ideal para uma paragem para almoço num dos seus restaurantes antes ou após uma caminhada pela longa Praia do Creiro, à qual não falta sequer uma estação arqueológica, uma antiga fábrica romana de salgas de peixe.

A areia do Creiro é branquinha, branquinha, mais um tom para a palete perfeita. Vale a pena percorrê-la de uma ponta à outra, avistando a ilhota da Anicha, querendo sempre chegar um pouco mais adiante, embrenhando-nos nas rochas em busca de um refúgio ainda mais isolado. Não se pode, em situação alguma, subir às falésias, apesar da vontade de tentar chegar à próxima praia. Solução? Ir a nado.

Ou voltar para o carro e seguir pela estrada com pontos de vista lindíssimos até ao início do trilho que nos leva à Praia dos Coelhos.

Uma delícia caminhar por estes sítios, rumo a praias abrigadas com águas azuis-esverdeadas de uma transparência e tranquilidade sem limites.

Da Praia dos Coelhos, diversos trilhos totalmente protegidos pela vegetação transportam-nos até às Praias dos Galapinhos e dos Galapos. Mais do mesmo. Sendo que este mesmo é o máximo.

Depois dos Galapos fica a Praia da Figueirinha, a mais popular e acessível das praias da Arrábida, já à porta de Setúbal. Mas optámos, antes, por entrar em Setúbal seguindo pela estrada mais acima na serra, aquela que dá acesso ao Convento da Arrábida.

É aqui que a Arrábida nos é oferecida em todo o seu esplendor. Não apenas nos sucessivos miradouros que se abrem no horizonte nesta estrada espectacular, mas também no misticismo da Serra, que desde o século XVI se habituou a ser lugar de conventos. Hoje resta o Convento da Arrábida, antigo convento franciscano escondido na vegetação com vista para o Atlântico, mas chegaram a ser nove, testemunho de uma vida espiritual intensa, onde os ermitas se recolhiam em meditação e oração. E restam as inúmeras cruzes cravadas nas encostas. Há quem defenda que o topónimo Arrábida provém da palavra árabe “arrábita”, cujo significado é “local de oração”. José Tolentino Mendonça escrevia em artigo relativamente recente no Expresso que “O mais difícil não é ir à Arrábida. Difícil, difícil, é entendê-la: porque boas praias, boas sombras e boas vistas há-as em toda a parte… O que não há em toda a parte é a religiosidade que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido”.

Certa de que não a entendi por inteiro, talvez desculpa para lá voltar, termino com as fáceis paisagens. Depois de uma piscadela de olho a Lisboa para além do largo Tejo, um abraço ao Sado como despedida breve da Arrábida.

Açores – Mal-Amanhados, os Novos Corsários das Ilhas

Começou a meio de Abril uma série de 10 episódios que nos apresenta os Açores de uma forma diferente. Estão lá todas as suas paisagens do outro mundo, que nos fazem querer correr para qualquer uma das ilhas do arquipélago em busca de lagoas, vulcões e curiosidades. E é precisamente neste último aspecto que Mal-Amanhados, os Novos Corsários das Ilhas é mestre.

Luís Filipe Borges e Nuno Costa Santos, dois açorianos, um terceirense e o outro micaelense, um comediante e o outro escritor, ambos a viver há décadas no continente, tinham um sonho que finalmente se transformou numa declaração de amor à sua terra. E nós, que perdemos o papel de alcoviteiros, não perderemos agora a chance de manter esta relação de amor debaixo de olho, seguindo com emoção cada um dos seus episódios.

O primeiro episódio começou pelo Pico, a ilha mais jovem, a ilha de povoação impossível, a ilha da montanha plantada no meio do Atlântico. Pois bem, no negrume ainda vivo de poucos séculos o Homem contornou os impossíveis e estabeleceu-se, criando vinhas na lava enquanto olha melancólico para o Canal e para a maior elevação de Portugal. História, cultura de ontem e de hoje, aventura, tudo nos é contado pelos Mal-Amanhados, sempre com beleza, alegria e imaginação. Pudera. Com todo aquele cenário natural isolado e até desolado não é difícil homenagear as suas gentes, aquelas que insistem em manter a alma açoriana – por necessidade levada às lonjuras deste mundo -, ao mesmo tempo que nos recebem em sua casa.

Cada um dos 10 episódios é dedicado a uma das 9 ilhas do arquipélago e o último a todas elas. Uma viagem a não perder às 5ªs feiras, às 21:45, na RTP Açores ou a qualquer momento na RTP Play.

Évora Monte

Habituamo-nos a passar na A6 a caminho de Elvas e, um pouco depois de Évora e antes de Estremoz, ali está à esquerda um castelo num monte sobranceiro à via rápida com uma torre diferente daquelas que costumamos observar na paisagem portuguesa. Sempre dizíamos, um dia desviamos e vamos até lá cima. Mas não foi preciso chegar o dia do desvio. Antes disso, veio o dia em que de forma intencional lá fomos de propósito só para explorar a colina que em tantas viagens nos compôs o cenário na paisagem alentejana.

Évora Monte é mais do que um simples castelo instalado num lugar estratégico e privilegiado. É também uma povoação pitoresca, certamente despovoada como muitas no nosso país, mas que conserva ainda as marcas de um passado de orgulho e, sobretudo, as marcas identitárias das aldeias alentejanas.

Desde logo, a planície a perder de vista. Esta é uma aldeia miradouro. Do alto dos 481 metros da garbosa colina tudo se avista, clima o permita. Mas mesmo em dia fechado, como nos tocou, o “pouco” que se vê é tanto que chega bem para nos convencer do privilégio.

Depois, o castelo. São 4 as portas da antiga povoação, ligadas por uma muralha que se percorre fácil e prazerosamente, com vista ora para a planície extra-muralha ora para o casario intra-muralha. Não se sabe ao certo as origens da povoação de Évora Monte. Pensa-se que tenha sido conquistada aos mouros por D. Afonso Henriques em 1166. Certo é que em 1248 D. Afonso III lhe concedeu foral e em 1306 D. Dinis mandou construir as muralhas, fortificando o povoado. Em 1531 um forte terramoto destruiu grande parte das construções da povoação que era então propriedade da Casa de Bragança. E foram estes que a reconstruíram e mandaram levantar a torre que ainda hoje distinguimos mesmo ao longe e consideramos única na sua arquitectura no panorama nacional. Esta torre era então o paço ducal da família, servindo como residência de caça dos duques de Bragança. Como se não bastasse a sua implantação geográfica, no alto de uma colina na planície alentejana, também na fachada desta torre podemos perceber a influência e poderio da Casa de Bragança. Na época (século XVI), era a segunda mais importante do reino, tendo como divisa “Depois de Vós [rei], Nós [Casa de Bragança]”. Esses “nós” eram parte da heráldica bragantina e vêem-se materializados na fachada da torre / paço ducal de Évora Monte.

E, por fim mas não menos importante, o casario. Povoação feita de praticamente uma só rua estreita, casas com os típicos frisos de uma cor a contrastar com o branco alentejano, igreja matriz acompanhada de cemitério, roupa estendida ao vento junto à muralha e mais uma dose de pormenores surpreendentes, tão pequena que é a povoação muralhada. Numa das suas casas, a de Joaquim António Sarmago, foi assinada em 28 de Maio de 1834 a Convenção de Évora Monte que restabeleceu a paz em Portugal após anos de guerra civil entre liberais e absolutistas. Um pouco mais acima, em duas casas, uma de cada lado, aprecia-se as suas portadas em ogiva.

E um pouco por todos os cantos, a calçada oferece-nos umas casas pintadas. A arte na rua, surgindo assim de supetão sem pedir licença, faz com que este breve passeio por Évora Monte seja ainda mais memorável. Como se o Alentejo coubesse todo aqui.

Alentejo road trip

Vamos mudando. Até há uns anos não gostava de andar de carro, ser conduzida ou conduzir. Hoje tudo é diferente.

O carro permite-nos ir acrescentando sempre algo mais à nossa viagem, parando quando se quer, seguindo a direito quando assim o desejamos. Uma liberdade. Numa road trip é a jornada que conta, não o destino.

E poucas regiões haverá melhores do que o Alentejo para seguir de carro, mão de fora na janela aberta, como se quiséssemos agarrar o vento. Pouco trânsito, boas estradas, paisagens diversas. Sem tédio, mas com melancolia quanto baste, com a ajuda da banda sonora escolhida.

Algumas das estradas mais bonitas do nosso país estão aqui. Como aquela quase recta que liga Nisa ao Crato e depois Alter, amiúde protegida pelas árvores. Ou a sempre recta de Mourão a Monsaraz, com a imagem dos seus castelos e as águas do Alqueva como companhia. Ou as costumeiras rectas da Amareleja a Barrancos que, de repente, se transformam em curvas e mais curvas. Ou ainda qualquer estrada pela Serra de São Mamede, as mais altas a sul do Tejo.

Prego não muito a fundo por estas estradas, para melhor se apreciar o cenário, vamos vendo desfilar a fauna local – gado, cavalos, porcos, cabras, cegonhas e tudo o mais que resolver aparecer -, um charco aqui e outro ali com ares de lago, arvoredo que parece ter sido ali depositado de propósito para embelezar as margens do asfalto. Até um pôr-do-sol memorável.

Um passeio pelas vilas à volta da Albufeira do Alvito

A Albufeira do Alvito está aqui como pretexto para juntar num mesmo texto várias paragens de distritos diferentes, Évora e Beja. Iniciámos o passeio em Portel e terminámo-lo em Viana do Alentejo, mas pelo meio não resistimos nem a molhar os pés na Albufeira nem a admirá-la como os pássaros.

Portel está instalada numa encosta e é o seu castelo com torre e cerca urbana que domina a vila e a paisagem que a rodeia. Com foral concedido no século XIII, ainda hoje o castelo da vila é propriedade da Casa de Bragança. Foi daqui do alto que a “Vila Velha” se desenvolveu, preservando não apenas o castelo como também o edifício dos Paços do Concelho e umas casinhas brancas bem junto às muralhas.

De Portel seguimos para a Vidigueira, transição do Alto para o Baixo Alentejo, mas dela apenas trazemos na memória a Torre do Relógio e o que resta da sua antiga Torre de Menagem. Esta é uma zona de planície, pontuada aqui e ali por alguns alguns relevos, sem perturbar a tranquilidade característica do Alentejo.

Vila Alva pode ser vila de nome, mas é pequenina como uma aldeia. A designação alva, porém, não engana. É um aglomerado de casinhas brancas, onde apenas o azul da torre do relógio e o verde dos campos à sua volta contrariam a sua brancura. Depois de apreciar a sua alegre praça principal, vale a pena seguir pela sua longa rua até ao miradouro que nos apresenta uma imagem de pura ruralidade, com olival e pastagens a perder de vista e também algumas vinhas.

Alvito é a vila que se segue. O seu nome deriva de “olivetto”, por influência dos tais olivais que continuam a marcar presença na paisagem. Alvito foi a primeira baronia instituída em Portugal, corria o ano de 1475. Eram então tempos de crescimento e desenvolvimento que, apesar da decadência dos últimos dois séculos, deixaram marcas no património monumental do lugar até hoje, como a Igreja Matriz, a Igreja da Misericórdia e o Castelo. A vila não têm nada a ver com traçados medievais, daí que se encontrem amplos terreiros, como o Rossio de São Sebastião ou o Jardim da Praça da República.

O Castelo do Alvito, hoje Pousada de Portugal, tem uma arquitectura diferente daquela a que estamos acostumados no nosso território. Construído entre o fim do século XV e princípio do século XVI, esta estrutura originalmente de carácter militar e residencial apresenta uma mescla dos estilos gótico, manuelino e mudéjar. Era, no fundo, um paço senhorial fortificado do qual podemos ainda hoje apreciar o seu belo pátio central quadrado.

Ao deparar com este lugar, o “Canto do Cante”, não podemos deixar o Alvito sem recordar que o Cante Alentejano, elevado a Património da Humanidade, é a música tradicional do Baixo Alentejo.

Subimos (no mapa) em direcção a Viana do Alentejo, mas desviamos primeiro até Oriola por uma estrada não muito bem conservada mas muito bonita. Oriola, aldeia típica de casas brancas cá em baixo junto à Alfubeira de Alvito, e São Bartolomeu do Outeiro, aldeia miradouro lá em cima na Serra de Portel, autodenominam-se ambas como “aldeias de Abril”. Há que recordar outra das tradições arreigadas neste Alentejo, a do orgulho abrilista. Mas aqui para este passeio contam mais as vistas. E a curiosidade de saber de onde virá o topónimo “Oriola”: diz que deriva de auréola ou aurea ora, ou seja, zona de minas de ouro.

Esta jornada termina em Viana do Alentejo. Esta Viana do sul tem, enquanto concelho, diversos pontos de interesse, como a vila de Alcáçovas – onde em 1479 foi assinado o Tratado de mesmo nome – e o Santuário de Nossa Senhora de Aires – lugar onde foram encontrados vestígios de ocupação antiga por parte dos celtas ou dos romanos. Centremo-nos, porém, no centro da vila a quem foi concedida primeiro foral em 1180 e que, mais tarde, em 1313 D. Dinis mandou construir cerca urbana. Mas nem cerca nem castelo se fizeram então. Embora sem total certeza, acredita-se que o castelo que hoje podemos admirar seja uma construção do final do século XV ou princípio do século XVI. Tardio, portanto, e isso talvez explique a sua arquitectura pouco familiar no contexto português.

De forma pentagonal, são cinco torres cilíndricas encimadas por cones ao longo das muralhas que guardam no interior aquele que é considerado um dos mais belos exemplos do manuelino no sul de Portugal, a Igreja Matriz com o seu fabuloso portal. Há ainda espaço para uma outra igreja no interior do castelo e destaque para o cruzeiro manuelino no centro do pátio. Mas, à semelhança do Castelo de Alvito, de quem é contemporâneo (aliás, a este respeito diga-se que antes de ser Viana do Alentejo a povoação tinha o nome de “Viana a par d’Alvito”), são também evidentes as influências mudéjares nos merlões e pináculos no castelo de Viana, o qual é ainda “estranho” pelos materiais utilizados na sua construção, em alvenaria de tijolo.

Junto ao castelo foram entretanto construídas as casas típicas alentejanas, de um ou dois pisos, brancas e quase sempre com riscas amarelas. Mas Viana têm ainda outra curiosidade e motivo de interesse, as suas (muitas) fontes e chafarizes. Foram as fontes e as águas naturais que escorrem da serra próxima que ajudaram o Homem a instalar-se na região e hoje algumas delas são parte do património monumental da vila, como é exemplo esta Fonte dos Escudeiros.

De Elvas a Olivença com passagem pela Ponte da Ajuda

Elvas é das cidades alentejanas mais interessantes e magnificentes. É sempre um prazer rever as imagens dos seus Aqueduto da Amoreira e Forte de Nossa Senhora da Graça.

Há muito tempo já tínhamos escrito sobre esta cidade da raia aqui, mas merece novas palavras.

A sua implantação geográfica, na fronteira com Espanha, fez com que a vila medieval que conserva ainda a topografia característica dessa época, bem como o castelo, se tornasse numa praça de guerra. O crescimento e desenvolvimento da cidade fez com que à cerca do núcleo urbano primitivo fossem acrescentadas mais duas cinturas de muralhas, tendo cada uma delas produzido uma malha urbana diferente. É, pois, impossível não dar com um troço de muralha, um muro de fortaleza, um baluarte, uma porta. Aliás, várias portas e todas elas únicas.

Um bom exemplo deste “palimpsesto” é o Arco do Dr. Santa Clara, construído no século XIX sobre uma antiga porta muçulmana. Em estilo romântico, este é um dos símbolos de Elvas que mais aprecio. Daqui até ao castelo, a Elvas do século XII é feita de ruas estreitas e labirínticas, bem ao estilo mouro, com casas caiadas com riscas amarelas e decorações com plantas e flores à porta.

Mas do Arco do Dr. Santa Clara para baixo o espaço é maior, com a ampla Praça da República, rasgada no século XVI, a acomodar, entre muitos outros edifícios, a Igreja Matriz e os antigos Paços do Concelho (hoje Casa da Cultura), pitoresco na sua varanda quinhentista com arcos. Para lá da Rua da Cadeia, uma outra Elvas, agora com ruas um pouco mais direitas, numa busca imperfeita da ortogonalidade ou numa intencional quebra da melancolia. Mas sempre com o branco e amarelo presentes nos seus edifícios.

E, a rodear tudo isto, um sistema fortificado de 10 kms, incluindo os Fortes da Graça e de Santa Luzia, fazendo de Elvas uma autêntica cidade fortaleza abaluartada.

Saímos de Elvas em direcção a Olivença, 25 kms praticamente em linha recta atravessando a nova Ponte da Ajuda sobre o Rio Guadiana. No entanto, é obrigatória uma paragem no lugar onde jaz a velha Ponte de Nossa Senhora da Ajuda.

A ruína desta ponte é incrível. E ter as águas tranquilas do Guadiana como cenário ajuda. Esta era uma ponte fortificada – ainda lá está a antiga torre em ruína – de que restam 8 arcadas na margem direita e 5 na esquerda. Construída no século XVI, foi logo nesse século que começou a desabar em consequência de ventos e cheias. Foi reconstruída, mas no século XVIII acabou novamente destruída, desta vez pelo exército espanhol. Há que contextualizar historicamente. A construção da velha Ponte da Ajuda aconteceu numa época em que Elvas e Olivença pertenciam a um mesmo país. [já oiço alguns a questionar, então mas ainda não são ambas Portugal?] E foi no contexto da fortificação e defesa de Olivença que a ponte foi construída, também no sentido de ligar as duas margens do Guadiana, permitindo um intercâmbio de pessoas e bens. A verdade é que o rio é uma fronteira natural e durante séculos a Ponte da Ajuda ali esteve, interrompida no seu tabuleiro original de 453 metros de comprimento. Assim como há dois séculos dura a disputa de território entre Portugal e Espanha. No ano de 2000 foi inaugurada a nova Ponte da Ajuda, a 400 metros da antiga, obra totalmente financiada pelo governo português, não fosse a aceitação de contribuição dos usurpadores espanhóis significar algo mais do que isso, a construção de uma ligação entre as margens portuguesas do Guadiana.

Mas, dizia, o lugar natural onde foi construída a original Ponte da Ajuda é de uma inspiração sem limites. Descemos pela Capela instalada num ponto alto relativamente ao rio e caminhamos até onde podemos pelo que resta do tabuleiro da ponte. Na outra margem, desligada, percebemos que alguém faz o mesmo que nós, cá deste lado. Meia volta e, ainda que com atenção para evitar os buracos, espreitamos e percebemos que uma criança brinca lá em baixo na água do Guadiana. Também queremos explorar o lugar por inteiro e descemos até à beira do rio. As pedras irregulares em ambas as margens são perfeitas para compor este postal de fim do mundo, onde não há dúvida de que é a natureza e o correr dos tempos quem mais ordena.

Olivença, então. Não recordo alguma vez aqui ter estado. A relação que a maioria dos portugueses terá com a “Questão de Olivença” será não a da disputa territorial, mas antes a curiosidade de aqui encontrar, ou não, elementos portugueses. Quanto à língua, basta caminhar uns segundos pelas ruas para que se torne evidente de que aqui não se fala português.

Uma montra da Caixa Geral, na Av. de Portugal, suscita a atenção, mas logo ela é desviada para os estores debruçados para lá dos varandins das janelas. Assim como para as janelas e portadas ao nível do chão protegidas de alto a baixo pelas grades verticais em ferro forjado.

A Plaza de España tem calçada portuguesa e uns bancos de jardim com decoração em azulejos que contam em imagens e palavras a história da cidade e região. As ruas com edifícios brancos e árvores com laranjas em flor também nos confundem, de tão familiares.

A Plaza de Santa Maria é o coração do centro histórico de Olivença. Passada umas das suas portas, aqui fica o Alcázar del Castillo, a Torre del Homenaje e a Parroquia de Santa María del Castillo. Alcázar é fortaleza, torre de homenaje é torre de menagem e parroquia é igreja matriz. Os nomes das ruas, anunciados em placas em azulejo azul e branco também comportam duas versões: a espanhola actual e a correspondente portuguesa original. Simpática a lembrança. Nas ruas de Olivenza só quase se veem turistas portugueses a passear, assim como nas de Elvas são os espanhóis a maioria. Mas pelo menos Elvas é Elvas, em português ou espanhol.

Continuemos na busca de elementos “nossos” na povoação portuguesa anexada pelos espanhóis em 1801. Foram os Templários quem, no século XIII, começaram por erguer castelo e igreja no novo burgo que se queria povoar. Pouco mais tarde, à semelhança do que fizera com muitas outras vilas do reino, D. Dinis mandou ampliar as primitivas linhas defensivas dos Templários e o seu sucessor, D. Afonso IV, construiu a alcáçova. Depois, no século XV D. João II mandou levantar a Torre de Menagem. A tal que hoje é conhecida como Torre del Homenaje, mas que continua a carregar as armas nacionais na fachada. Diz que esta torre com 36 metros de altura era das mais altas de todo o reino.

Não podemos, ainda, deixar de reparar na familiar exuberância decorativa com Esfera Armilar e Cruz de Cristo do portal manuelino do antigo Palácio dos Duques do Cadaval, hoje edifício do Ayuntamiento. Mais um superior exemplo do manuelino é a Igreja de Santa Maria da Madalena, única em Espanha. Ops. Baralhei-me novamente. De qualquer forma, espanhola ou portuguesa, Olivença merece repetidas visitas.