Festa da Ilustração, Setúbal

Até dia 2 de Julho corre solta por Setúbal a 3.ª edição da Festa da Ilustração, sob o mote “É preciso fazer um desenho?” São diversas as mostras dos trabalhos de alguns dos melhores ilustradores portugueses, espalhadas por vários espaços da cidade.


Dois exemplos. 
Em primeiro lugar, o ilustrador convidado, António Jorge Gonçalves (talvez o meu preferido), presente na Casa da Cultura com a exposição “A Minha Casa Não Tem Dentro Desenhos Efémeros”. 

São três núcleos, um dos quais com os desenhos do seu projecto Subway Life. Em 1997, altura em que vivia em Londres, António Jorge Gonçalves decidiu desenhar as pessoas que por acaso se sentavam à sua frente no metro. Desde aí passou por inúmeras cidades (Atenas, Berlim, Lisboa, Cairo, São Paulo, Estocolmo, Moscovo e Tóquio) e o resultado é uma palete de figuras onde a diversidade impera. Podemos agora observar esses desenhos em formato grande ou espreitá-los nos cadernos do artista. Brilhante.

Outro dos núcleos é o seu mais recente projecto “A Minha Casa Não Tem Dentro”. É a consequência de um episódio da sua vida onde experimentou um estado de quase morte. Voltando da morte, expressa em desenhos o que passou.

Outro exemplo é a mostra patente na Casa d’ Avenida,  “É Preciso Contar uma História?”, com obras de João Catarino, Bernardo Carvalho, Andrés Sandoval, Melkio & Ana Feriàs e Plasticus Maritimus.



O interior deste edifício é surpreendente e presta-se bem ao duplo papel de servir de atelier e de espaço expositivo. Num trabalho integrado com as escolas locais, vemos aqui trabalhos de ilustração infantil e recorte em papel. E no segundo piso exploramos os trabalhos dos citados, em especial João Catarino e Bernardo Carvalho. Tudo guiado pela temática “mar”.

A Lisboa que Teria Sido

A exposição sobre uma Lisboa passada, talvez imaginada, que dominou os media nos últimos meses foi aquela que esteve patente até há pouco tempo no Museu Nacional de Arte Antiga, “A Cidade Global, Lisboa no Renascimento”. Lisboa como o centro do comércio do mundo, a Rua dos Mercadores como coração dessa Lisboa, a 5.ª Avenida da época. Deixando esta reconstituição da Lisboa do renascimento para trás, bem como a muita polémica que a envolveu, à boleia da autenticidade ou não de duas pinturas, dedicarei as próximas linhas a uma outra exposição sobre uma outra Lisboa, esta seguramente imaginada.

Até 18 de Junho podemos visitar a exposição “A Lisboa que Teria Sido” no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa (também conhecido como Palácio Pimenta, no Campo Grande).


Para todos os que gostam de Lisboa ou tão somente apreciam exercícios de futurologia, esta é uma exposição a não perder. Poderia ter levado o epíteto de “A Lisboa Sonhada”, que também não ficaria mal atribuído.


Aqui estão cerca de 200 objectos referentes a projectos urbanísticos e arquitectónicos que apesar de pensados, por uma razão ou outra, nunca chegaram a ver a luz do dia. Estes objectos, como desenhos, maquetas, fotografias, artigos de jornais e projectos, pertencem aos arquivos da Câmara Municipal de Lisboa e vêm desde o século XVI, embora predominem os do século XX.

Lisboa teve, na sequência do terramoto de 1755 que a arrasou, oportunidade para ser uma cidade pensada e planeada. A “Lisboa pombalina” é até hoje reconhecida como possuidora de um valor urbanístico e arquitectónico superior, sendo candidatada a constar da lista do património mundial da Unesco. Todavia, a arquitectura pombalina era, no princípio do século XX, considerada por vários pensadores como “monótona e triste”, de uma “monotonia que desagrada a pessoas inteligentes”, tendo a Baixa sido designada como cidade “sonsa, pesada e pombalesca”.

A Lisboa cosmopolita do século XVI carecia no século XX de monumentalidade e modernidade.
As propostas agora em exposição, da autoria dos maiores urbanistas e arquitectos da época, tinham assim como objectivo conferir-lhe essas duas características. 


Um dos primeiros objectos com que nos deparamos é o de uma maqueta para um alpendre-reclame a construir nas zonas de estacionamento das Praças D. Pedro IV e Restauradores. Da autoria de Cassiano Branco, datada de 1937, este é um elemento que ainda hoje poderíamos considerar possuidor de modernidade, uma peça de mobiliário urbano como haveríamos de ver poucas.


Entre maquetas várias, foco absoluto para as relativas a projectos de ordenamento urbanístico na Praça do Martim Moniz, datadas de meados dos anos 60 do século passado. Lugar difícil, entre colinas e vales, é muito divertido tentar identificar naqueles projectos alguma correspondência com a realidade actual. São túneis, estradas sobre-elevadas, um sem fim de desvarios. Bem sei que o “homem sonha, a obra nasce” e que estes projectos perto daquele mais recente para a Margueira, na outra banda, são “peaners”. Melhor do que isso só mesmo conseguir citar Fernando Pessoa e Jorge Jesus numa mesma frase. A verdade é que também o projecto da Cidade Sonhada para o pós Expo 98 seria do foro da irrealidade, certo? António Mega Ferreira acreditou e a Expo / Parque das Nações não consta desta exposição “A Lisboa que Teria Sido”. 

Prosseguindo na tentativa de achar as diferenças entre o que teria sido e o que é, destaque ainda para imagens de projectos para a primeira ponte sobre o Tejo tão diferentes do que vemos hoje.

Olha se não são as portas de Brandenburgo.


Num eixo absolutamente central, a Avenida da Liberdade e suas imediações foi igualmente alvo de uma série de estudos. Mais uma vez, as críticas dirigiam-se à excessiva modéstia dos seus quarteirões. Já Eça de Queirós escrevia sobre ela em “Os Maias” “curto rompante de luxo barato”. Estes estudos estendiam-se ao seu prolongamento até ao Parque Eduardo VII, tentativa de lhe conferir a tão almejada monumentalidade, tão ao gosto de Estado Novo. 

E eis que aqui chegámos e estes projectos todos ficaram na gaveta décadas e décadas para hoje, curiosos, nos perguntarmos: como teria sido?

Lisbon Impact

No Museu do Oriente está patente a exposição Lisbon Impact – até 25 de Janeiro. 
Abarca uma série de obras de pintura, desenhos, fotos e vídeo do indiano Deviprasad Rao, ou Devi. Interessado por cidades e sua dinâmica, nomeadamente nos domínios da arquitectura, design e planeamento, deixou-se impressionar por Lisboa e aqui desenvolveu parte do seu trabalho agora em mostra. 
Deixou a sua intuição e inspiração fluírem e o resultado é uma série de obras, em especial as pinturas, que surpreendem. Encontramos aqui algo de naif na construção dos pontos e linhas que nos dão uma paisagem de Lisboa quase sempre encavalitada. Na verdade, as colinas estão em toda a parte e os edifícios lisboetas vão surgindo de uma forma tipicamente desordenada, realidade que é muito bem absorvida e expressa na obra de Devi. Assim, para além das cores fortes da cidade – quer de dia quer de noite – não faltam o eléctrico, as ruas estreitas onde se vê ao fundo uma igreja (o Panteão é uma constante), os pátios, o rio, os telhados, as portas e as janelas. 
Uma Lisboa feita de detalhes nos quais nos revemos e descobrimos a nossa identidade.

Joana na Ajuda

Joana Vasconcelos no Palácio Nacional da Ajuda, acabadinha de estrear e que vai até Agosto, tem tido uma publicidade nunca vista. Foi anunciada como a maior exposição da artista em Portugal e na sequência de uma outra, diz-se que muito bem sucedida, no Palácio de Versalhes.
Os números da primeira semana da exposição da Joaninha na Ajuda pareciam-me um exagero.
Entrei à vontade, logo a seguir ao almoço, consegui ver o seu Jardim do Éden, às escuras e com plantas florescentes, sem esperas. Alguma gente amontoava-se em alguns cómodos da rainha, do rei ou dos príncipes para ver as suas peças de cerâmica de Bordalo Pinheiro vestidas de croché. Uns cães altivos em cima de umas mesas, uns lagartos a espreguiçarem-se na parede, um gatinho chamado Casanova junto aos brinquedos dos príncipes, mais uns lagostins e uns sapos aqui e ali. Todas as obras a dialogarem correctamente com o mobiliário e a decoração do Palácio.
E depois vieram algumas das obras mais conhecidas, a dupla de sapatos Marilyn feitas de panelas, o candeeiro A Noiva feito de tampões, o helicóptero Lilicoptere feito sei lá do quê.
À saída, sorriso estampado no rosto com tanto kitsch e falta e gosto à mistura por esta arte diferente, uma fila interminável para entrar. Pior, uma fila ainda mais interminável para comprar bilhete, 10 euros preço normal.
Fiquei sem dúvidas de que vai ser não só a maior exposição de Joana, mas a maior exposição de sempre no país. Também, pudera, com este bónus de um dois em um Palácio da Ajuda + Artista da Moda.

Museu do Oriente

E já que ando toda virada para o Ásia, não podia faltar uma saltada ao Museu do Oriente.
Sorte. 4 (quatro!) exposições de uma vez, todas elas de interesse superlativo. Excelente forma de ocupar uma tarde.
“Macau. Memórias a Tinta-da-China” é belíssima, com pinceladas do pintor Charles Chauderlot que lembram os tempos antigos de uma outra Macau e fazem recordar tempos recentes para quem teve oportunidade de passar por alguns dos seus recantos.
Depois, uma exposição sobre o Chá, do Oriente para Ocidente, com os seus utensílios e algumas pinturas. Não menos bela.
Já a dos “Cartazes de Propaganda Chinesa – A Arte ao Serviço da Política” não será bela, mas tem pinceladas fortes e é deveras interessante. Mao rodeado de criancinhas, Mao rodeado de operários, Mao rodeado de agricultores, Mao pop.
Por fim, a nossa bela Lisboa vista de um ângulo raro. “Do Vasto e Belo Porto de Lisboa” são uma série de fotos da colecção da APL – Administração do Porto de Lisboa, com a vida dura dos trabalhadores e obras no porto no princípio do século passado.

Júlio

Outra exposição bem interessante está ainda no CAM da Gulbenkian.
“A Imagem que de ti Compus – Homenagem a Júlio”
E quem é este Júlio? É Júlio dos Reis Pereira, nosso contemporâneo, estando em mostra pinturas suas dos anos 1930 a 1960. Não conhecia nada dele, mas ao ver toda a cor dos seus bonecos não podia deixar de ir conhecê-lo ao vivo. Um banho de surrealismo e expressionismo para lavar os nossos olhos.

Via Crucis

Com esta temporada de chuva que parece interminável, está bom é para visitar museus.
Por exemplo, em Janeiro foi obrigatório ir à Galeria do Rei D. Luís, no Palácio da Ajuda, ver Fernando Botero desta vez em pinturas e não em esculturas. Foi o caso da exposição “Via Crucis – A Paixão de Cristo”, polémica, q.b., mas pelo menos não calhou em altura de Quaresma. Gostei especialmente de duas pinturas: Cristo crucificado com o Central Park de N.Y. atrás e, para algo totalmente diferente, Cristo crucificado com uma favela atrás, talvez de Medellin.