A Lisboa que Teria Sido

A exposição sobre uma Lisboa passada, talvez imaginada, que dominou os media nos últimos meses foi aquela que esteve patente até há pouco tempo no Museu Nacional de Arte Antiga, “A Cidade Global, Lisboa no Renascimento”. Lisboa como o centro do comércio do mundo, a Rua dos Mercadores como coração dessa Lisboa, a 5.ª Avenida da época. Deixando esta reconstituição da Lisboa do renascimento para trás, bem como a muita polémica que a envolveu, à boleia da autenticidade ou não de duas pinturas, dedicarei as próximas linhas a uma outra exposição sobre uma outra Lisboa, esta seguramente imaginada.

Até 18 de Junho podemos visitar a exposição “A Lisboa que Teria Sido” no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa (também conhecido como Palácio Pimenta, no Campo Grande).


Para todos os que gostam de Lisboa ou tão somente apreciam exercícios de futurologia, esta é uma exposição a não perder. Poderia ter levado o epíteto de “A Lisboa Sonhada”, que também não ficaria mal atribuído.


Aqui estão cerca de 200 objectos referentes a projectos urbanísticos e arquitectónicos que apesar de pensados, por uma razão ou outra, nunca chegaram a ver a luz do dia. Estes objectos, como desenhos, maquetas, fotografias, artigos de jornais e projectos, pertencem aos arquivos da Câmara Municipal de Lisboa e vêm desde o século XVI, embora predominem os do século XX.

Lisboa teve, na sequência do terramoto de 1755 que a arrasou, oportunidade para ser uma cidade pensada e planeada. A “Lisboa pombalina” é até hoje reconhecida como possuidora de um valor urbanístico e arquitectónico superior, sendo candidatada a constar da lista do património mundial da Unesco. Todavia, a arquitectura pombalina era, no princípio do século XX, considerada por vários pensadores como “monótona e triste”, de uma “monotonia que desagrada a pessoas inteligentes”, tendo a Baixa sido designada como cidade “sonsa, pesada e pombalesca”.

A Lisboa cosmopolita do século XVI carecia no século XX de monumentalidade e modernidade.
As propostas agora em exposição, da autoria dos maiores urbanistas e arquitectos da época, tinham assim como objectivo conferir-lhe essas duas características. 


Um dos primeiros objectos com que nos deparamos é o de uma maqueta para um alpendre-reclame a construir nas zonas de estacionamento das Praças D. Pedro IV e Restauradores. Da autoria de Cassiano Branco, datada de 1937, este é um elemento que ainda hoje poderíamos considerar possuidor de modernidade, uma peça de mobiliário urbano como haveríamos de ver poucas.


Entre maquetas várias, foco absoluto para as relativas a projectos de ordenamento urbanístico na Praça do Martim Moniz, datadas de meados dos anos 60 do século passado. Lugar difícil, entre colinas e vales, é muito divertido tentar identificar naqueles projectos alguma correspondência com a realidade actual. São túneis, estradas sobre-elevadas, um sem fim de desvarios. Bem sei que o “homem sonha, a obra nasce” e que estes projectos perto daquele mais recente para a Margueira, na outra banda, são “peaners”. Melhor do que isso só mesmo conseguir citar Fernando Pessoa e Jorge Jesus numa mesma frase. A verdade é que também o projecto da Cidade Sonhada para o pós Expo 98 seria do foro da irrealidade, certo? António Mega Ferreira acreditou e a Expo / Parque das Nações não consta desta exposição “A Lisboa que Teria Sido”. 

Prosseguindo na tentativa de achar as diferenças entre o que teria sido e o que é, destaque ainda para imagens de projectos para a primeira ponte sobre o Tejo tão diferentes do que vemos hoje.

Olha se não são as portas de Brandenburgo.


Num eixo absolutamente central, a Avenida da Liberdade e suas imediações foi igualmente alvo de uma série de estudos. Mais uma vez, as críticas dirigiam-se à excessiva modéstia dos seus quarteirões. Já Eça de Queirós escrevia sobre ela em “Os Maias” “curto rompante de luxo barato”. Estes estudos estendiam-se ao seu prolongamento até ao Parque Eduardo VII, tentativa de lhe conferir a tão almejada monumentalidade, tão ao gosto de Estado Novo. 

E eis que aqui chegámos e estes projectos todos ficaram na gaveta décadas e décadas para hoje, curiosos, nos perguntarmos: como teria sido?

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