Bertiandos – Lagoas e Solar

A um pequeno desvio da estrada nacional que liga Viana do Castelo a Ponte de Lima, já a chegar a esta última, encontramos um dos segredos mais bem guardados do Minho. Claro que explorar o Minho é, a cada passo, confirmar o óbvio, que esta é a região mais bonita e diversa do nosso país, deixando-nos surpreender por cada detalhe e envergonhar por não nos termos apercebido desse detalhe antes.

A Paisagem Protegida das Lagoas de Bertiandos e São Pedro de Arcos é um desses casos. Este pequeno parque inaugurado em 2005 ocupa um espaço partilhado entre as freguesias de Bertiandos, São Pedro de Arcos, Estorãos, Moreira do Lima, Sá e Fontão. Bertiandos e São Pedro de Arcos vão no nome da Paisagem, Estorãos é o nome do afluente do Rio Lima que por aqui corre. 


Após uma curta passagem pelo edifício do seu Centro de Interpretação Ambiental, encerrado naquele domingo, confirmamos o que vínhamos suspeitando desde o desvio da Estrada Nacional: este é um recanto apartado do mundo. 





A densa vegetação rodeia-nos, um manto intenso de verde por todos os lados, incluindo as nossas cabeças – a ramagem das árvores fecha a toda a volta formando túneis irreais. Pôde chover à vontade que nada se sentiu. Disse cabeças? Corrijo: cabeça. Não havia mais ninguém pelo parque para além de mim e vozes apenas se ouviam as das aves e, aqui e ali, o rio a correr. 



A sensação de isolamento é real e é bonita e o sossego absoluto. O cheiro misturado dos pinheiros, eucaliptos e carvalhos preenche-nos. Pura natureza.




São vários os percursos que se podem fazer por aqui. O mais fácil e curto é o Percurso da Lagoa, menos de 2 km à volta da Lagoa de São Pedro de Arcos. Não se pode dizer que a lagoa seja lindíssima. É na verdade um pedaço de água de tonalidade escura, mas a sua implantação é fantástica. Para além da bela vegetação que a envolve vemos não muito ao longe os contornos dos montes das Serras de Arga e da Cabração, formando um passe-partout perfeito neste quadro. Os passadiços de madeira sobrelevados na lagoa ou no lodo estão muito bem conservados e fazem da caminhada um momento feliz. 


Pelo caminho vamos encontrando alguns postos de observação que nos explicam a flora e a fauna existente por aqui, com destaque para a avifauna aquática. Um destes postos de observação é uma torre de madeira escondida no meio da vegetação. Escalamos os apertados degraus desta torre e do alto tudo se avista.



Esta é uma zona húmida não muito comum mas propícia à diversidade. À vista desarmada não foi possível confirmar esta biodiversidade, mas tal não retirou um pingo de alegria à jornada. 
Para além deste percurso juntinho à Lagoa, outros percursos maiores se podem fazer, quer pelas pastagens de gado quer pelas tapadas. Nesta reserva existem casas de abrigo e de hóspedes. 



Na aldeia de Bertiandos é imperdível uma espreitada ao Solar de Bertiandos.


Este é um exemplo superior dos solares minhotos, quer em termos históricos quer arquitectónicos, e uma das primeiras casas eruditas da região. De tal forma é a sua importância histórica que o Pelourinho de Bertiandos encontra-se dentro da propriedade, demonstrativo da estreita evolução da terra junto com o solar. 




Construção datada do século XV, em 1566 foi erigida a torre medieval ameada que ainda hoje admiramos e nos faz confundir o edifício com um castelo. Mas não. Esta torre distinta é antes um símbolo desta residência de famílias nobres. Encontramos aqui três elementos (torre e dois edifícios) que tinham tudo para causar uma ruptura no equilíbrio do conjunto edificado. Mas tal não acontece. A história conta-se de uma penada. Ainda no século XVI o solar foi doado em duas partes aos filhos do então proprietário. Os seus descendentes tornaram-se desavindos durante décadas e décadas e só em 1792 se voltaram a unir por casamento de dois primos. Ao longo desse tempo foram efectuando alterações e acrescentos ao edifício em cada uma das alas da torre, as quais funcionavam como unidades independentes. Assim, ainda hoje podemos observar de forma clara os dois corpos principais, o do lado esquerdo de dois pisos com o térreo em arcadas, o do lado direito de três pisos com uma torre de cada lado. Ambos com varandas e com a torre a separá-los. Ao centro uma escadaria nobre que junta os dois edifícios. O ar monumental é evidente e as influências do barroco e do maneirismo, de diferentes fases, bem como o facto de um dos corpos ser mais baixo e recuado, não quebram a unidade e a harmonia desta casa-torre. 



O ambiente de graciosidade é ainda composto pela paisagem, nomeadamente o relevo e as videiras imediatamente do lado oposto da Estrada Nacional. Sim, este Solar de Bertiandos é impossível de perder até porque está mesmo à beira da dita estrada. Atravessando o seu portão principal (fechado, uma vez que este Solar é propriedade privada ) e a estrada fica a Ecovia que liga Viana do Castelo a Arcos de Valdevez, de um lado, e Viana do Castelo e Ponte da Barca por outro, mais um sinal demonstrativo das muitas opções de caminhadas pela região.

Termino, reforçando, ajudada pelas palavras de Ramalho Ortigão:
“Quem não foi e não veio pela direita e pela esquerda da ribeira, de Viana a Ponte de Lima e de Ponte de Lima a Viana; quem durante alguns dias não viveu e não passeou nesta ridente e amorável região privilegiada das éclogas e das pastorais, não conhece de Portugal a porção de céu e solo mais vibrantemente alegre, mais luminosa e mais cantante.”

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