Assuntos de Família, de Rohinton Mistry

Assuntos de Família, de Rohinton Mistry, é um livro que gira à volta das relações entre os elementos de uma família da classe média de Mumbai. Não faltam situações cuja acção se desenrola na cidade, nem alusões a alguns dos seus marcos. O mar, a brisa, o calor, os elementos naturais estão igualmente presentes. Imagino que as histórias se passem no centro da cidade e esta é percorrida a maior parte das vezes de autocarro, de comboio ou a pé; raramente de táxi, quase nunca em veículo próprio – pois é, a classe média de Mumbai é frequentadora dos transportes públicos, mais uma idiossincrasia desta cidade.
Antes de citar frases de amor à cidade constantes neste livro, segue a transcrição de um parágrafo que traduz o uso caótico dos comboios, pelas palavras de Mr. Kapur, que não deixa de concluir ele próprio por uma das grandezas da cidade: o espírito de entreajuda.
“Um dia, na semana passada, arrumei o carro perto da estação de Grant Road e comprei um bilhete de cais, para ver passar os comboios e os passageiros. Apeteceu-me. Nunca ando de comboio, bem vejo como vão apinhados, quando passo de automóvel ao lado das linhas de caminho-de-ferro. Mas, da plataforma, nesse dia vi qualquer coisa de novo. Ia um comboio a partir, completamente cheio, e os homens que corriam ao seu lado desistiram de o apanhar. Todos, excepto um. Conservei os olhos nele porque o cais estava a chegar ao fim. De repente, o homem ergueu os braços e houve pessoas no comboio que estenderam os seus e o agarraram. “Mas que estão eles a fazer? Será que o desgraçando vai ser arrastado e morto?”, pensei eu. No momento seguinte levantaram-no do cais. As pernas dele balouçavam fora do compartimento e eu quase gritei para fazer parar o comboio. Os pés pedalavam no ar. Encontraram um ponto de apoio, escorregaram, encontraram-no de novo. Ali estava ele pendurado, com a vida literalmente pendente na mão de estranhos. E entregara-se a eles. Confiara nesses estranhos.”
Mr. Kapur é o chefe de um dos elementos da família, uma personagem bem optimista a quem o autor não se cansa de colocar na boca frases que expressam todo o seu amor por Bombaim (e insiste que a cidade é Bombaim e não Mumbai), feito delicadezas, mas também de excessos.
Alguns exemplos:
“O meu amor por Bombaim é demasiado grande, mas pouco sensato.”
“Não consigo fazê-lo perceber o que sinto por Bombaim. É como o amor puro por uma bela mulher, que envolve gratidão pela existência dela e devoção pela sua presença viva. Se Bombaim fosse uma criatura de carne e sangue, com o meu tipo sanguíneo, Rh negativo, e muitas vezes penso que o é, seria capaz de dar-lhe todo o meu sangue em transfusão, até à última gota, para lhe salvar a vida.”
“Shakespear é como Bombaim: em qualquer eles podemos encontrar tudo aquilo de que precisamos porque ambos contêm o universo.”
“De agora em diante aceito o que Bombaim me oferece: calor, humidade, brisa do mar, tufões…”
“Quero aproveitar tudo o que a minha cidade tem para me oferecer. Quero misturar-me com o seu povo, ser parte desses corpos esmagados nas ruas, nos comboios e nos autocarros. Amalgamar-me no todo orgânico que constitui Bombaim. É aí que reside a minha redenção.”

Maximum City, de Suketu Mehta


Mumbai, para muitos ainda Bombaim, é uma cidade carismática, digna de todos os adjectivos superlativos.
Não admira, pois, que seja palco de muitos livros (idem para filmes). Alguns exemplos entre os que tive oportunidade de ler são Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie, de 1981, A Morte de Vishnu, de Manil Suri, de 2001, Assuntos de Família, de Rohinton Mistry, de 2002, ou Maximum City, de Suketu Mehta, de 2004.
Este último, que possuiu como sub-titulo “Bombaim, a cidade dos contrastes e excessos”, escrito por um jornalista-escritor é um documento poderoso pelo retrato implacável que traça da cidade para onde todos parecem querer ir viver, enriquecer, sonhar.

Algumas citações retiradas da edição portuguesa (Dom Quixote, 1.ª edição, 2011) acerca das questões sociais e urbanísticas, deixando de lado a longa temática do poder, corrupção e religião a que o autor se dedica:

“Porque continuam as pessoas a viver em Bombaim? Cada dia é uma agressão aos sentidos a partir do momento em que se acorda, começando pelo transporte que se apanha para chegar ao trabalho, os escritórios onde se trabalha e as formas de entretenimento a que se é submetido. Os gases dos tubos de escape são tão densos que o ar ferve como se fosse sopa. Está-se em constante contacto físico com as pessoas: nos comboios, nos elevadores, quando se volta para casa para dormir. Vive-se numa cidade costeira, mas a maioria das pessoas vive de costas para o mar e só se aproxima dele uma hora aos domingos à tarde, numa praia nojenta. Também não se acaba quando se adormece, porque com a noite chegam os mosquitos dos pântanos da malária, os bandidos do submundo e os altifalantes estrondosos das festas dos ricos e dos festivais dos pobres. Porque se há-de querer deixar a casa de tijolo na aldeia com as suas duas mangas e a sua vista de pequenas colinas a leste para ir viver para lá?” (página 483)

Sobre as casas de Mumbai: “Para a grande maioria das famílias de Bombaim – setenta e três por cento, de acordo com o censo de 1990 -, a casa consiste numa única assoalhada: ali dorme-se, cozinha-se, come-se. A média é de 4,7 pessoas por assoalhada. A função do mobiliário muda continuamente ao longo do dia; a cama converte-se em sofá de manhã; a mesa da sala é uma secretária entre as refeições. Os seus ocupantes também são rápidos, trocam de roupa embrulhados numa toalha atrás de uma cortina, tão depressa que achamos que são invisíveis. Mas a invisibilidade está, efectivamente, a ser concedida pelos outros ocupantes da sala ao desviarem o olhar durante a transformação, como conseguiram os seus pais conceber cinco crianças naquela sala? Deve ter havido muita coisa vista e não observada, ouvida e não escutada.” (página 464)

Sobre o seu apartamento em Mumbai: ” Está rodeado por edifícios altos, de modo que as pessoas que passam por baixo ou saem para as varandas dos prédios em frente podem ver todos os cantos do meu apartamento e observar-nos enquanto deambulamos pela cozinha, comemos, trabalhamos ou dormimos. Há vinte andares no prédio e dez apartamentos por andar. Cada apartamento terá uma média de seis pessoas e três criados; o seu contingente de pessoal de apoio adicional (guardas, pedreiros, varredores) será um por andar. Isso dá duas mil pessoas neste prédio. No prédio contíguo vivem duas mil pessoas e outras duas mil no que fica atrás. A escola no centro do recinto tem dois mil alunos, bem como professores e funcionários. Isso soma oito mil seres humanos a viverem em alguns hectares. É a população de uma cidade pequena.” (página 32)

E porquê tantos criados? “Todos os dias lavam-se e esfregam-se os apartamentos. Aprendemos o sistema de castas dos criados: a criada interna recusa-se a esfregar o chão; isso é para a criada de fora; nenhuma das duas está disposta a limpar as casas de banho, o domínio exclusivo de um bhangi, que não faz outra coisa. O motorista recusa-se a lavar o carro; isso é monopólio do vigilante do prédio. O andar acaba cheio de criados. Acordamos todos os dias às seis da manhã, quando a mulher do lixo vem buscar os sacos do dia anterior. A partir desse momento, a campainha não pára de tocar: o leiteiro, o jornaleiro, o amolador de facas, um comprador de papel e garrafas usados, o massagista, o homem da televisão por cabo. Todos os serviços do mundo, trazidos à minha casa”. (página 33)

O tema cocós não pode faltar: “Todas as manhãs, pela janela do meu escritório, vejo homens a fazerem as necessidade nas rochas junto ao mar. Duas vezes por dia, quando a maré baixa, eleva-se um cheiro horrível das rochas e estende-se aos andares de meio milhão de dólares a leste. […] Metade da população não tem uma retrete onde cagar, de modo que o faz ao ar livre. Estamos a falar de cinco milhões de pessoas. Se cada um caga meio quilo por dia, são dois milhões e meio de quilos de merca a cada dia”. Pior ainda para as mulheres, “têm de fazê-lo entre as duas e as cinco da manhã, porque é a única altura em que gozam de privacidade”. (página 140)

Na cidade de Mumbai, enfim, “o maior luxo de todos é a solidão”. (página 138)

Mumbai em movimento

Mumbai é uma metrópole intensa, sempre com gente de um lado para o outro, num movimento constante que facilmente roça o caos.
Caminhar pelas suas ruas é todo um programa e quase que somos levadas a crer que fazemos parte daquele filme. Mas não. É um mundo à parte e estamos apenas de passagem. 
Tendo passado por Mumbai em apenas um feriado e um fim de semana, não pudemos assistir à entrega das refeições como o filme Lunchbox retrata, mas pudemos testemunhar que aqui tudo se transporta e como se transporta.

Até as nossas malas: elas seguiram num ponto privilegiado sobre as ruas de Mumbai a caminho do aeroporto.

Mumbai – Parte 2


Férias são férias, logo, não há horários. Vai daí, levantámo-nos de madrugada de forma a que por volta das 6:00 já estávamos na Sassoon Dock, uma das mais antigas docas de Mumbai, construída em 1875, situada a sul de Colaba. À entrada a sua pitoresca torre do relógio recebe-nos. A melhor hora para visitar esta doca é ao nascer do sol, quando os barcos dos pescadores Koli vão chegando e descarregando o seu peixe. 





O peixe é então içado para cima de uma forma artesanal e até precária, para depois as mulheres o transportarem em alguidares ou cabazes, a maior parte das vezes acomodados sobre as suas cabeças. Nós ficámos por ali, fomos-nos deixando estar, a incomodar o trabalho das gentes da doca, numa azáfama intensa logo ao raiar do dia. O cheiro não é menos intenso e à chegada ao nosso país, ao tirar da mala os ténis então usados nessa manhã, ainda havia vestígios desse odor que se encrava nos objectos e no ambiente. O movimento segue solto e o peixe é comercializado logo ali. Com o nascer do dia observamos outros pormenores e vemos que não só o peixe fresco tem lugar nesta doca, também o peixe deixado a secar marca presença. E, ou não estivéssemos na Índia, a cor é uma constante.


Ainda nessa manhã fomos de passeio até às Ilhas Elefanta. O nome, está-se mesmo a ver, tem contributo português. Este é um passeio muito popular e os barcos para lá saem das traseiras da Gateway of India. Uma boa forma de apreciar este símbolo de um outro ângulo, magistralmente acompanhado pelo Taj. 


Na viagem de barco os passageiros entretiveram-se a oferecer biscoitos às gaivotas. Quando o Babu se cansou da actividade virou-se para nós e, depois de apresentar toda a sua família (mulher, um filho de 14 anos e uma filha de 8 anos) e amigos, não mais nos largou. Quis saber como se escrevia o seu nome em português e ficou algo desiludido por constatar que o nosso idioma é escrito sob o mesmo alfabeto que a língua inglesa. Não conseguiu acrescentar mais uma forma de escrever “Babu” às quatro que já sabia, mas em compensação pode ouvir cantar a Xana dos Rádio Macau e ficar a conhecer o som da nossa língua. Curioso o rapaz. 





A viagem de barco até às Elefanta dura cerca de uma hora. Aqui encontramos uma série de caves e templos hindus património da Unesco, construídas provavelmente no século V. Não se tendo ainda como certo, considera-se que esta é no entanto uma refinada obra de arte dos tempos Gupta ou Chalukya.
O lugar é dedicado ao deus Shiva e apesar de algumas das estátuas terem sido destruídas, diz-se que cortesia também dos portugueses, restam ainda exemplos fantásticos. Como a principal escultura esculpida na rocha, enorme nos seus seis metros de altura, representando as três faces de Shiva: a criadora, a protectora e a destruidora. A não perder igualmente as figuras que ladeiam aquela.
Outro dos pontos altos do lugar é algo mais terreno, os muitos macacos que nos acompanham em quase todo o lado e que insistem em nos imitar nas poses mais naturalmente humanas (ou será que somos nós que os imitamos?).


A jornada é agradável, mas estávamos apertadas pelo pouco tempo que nos sobrava – apenas uma tarde mais – e voltámos rápido, desta vez sem a companhia do nosso novo amigo Babu.


Já em pleno centro da cidade fica a Victoria Terminus, também designada Chhatrapati Shivaji Terminus, o novo nome em homenagem ao herói maratha.
Esta é a estação de comboios mais conhecida da Índia e provavelmente a única do mundo declarada património da humanidade pela Unesco. Construída durante dez anos e inaugurada em 1887, a Victoria Terminus é mais um símbolo de Mumbai impossível de perder. Por ela passam todos os dias cerca de três milhões de passageiros de todas as classes que pretendem ligação entre o centro administrativo e financeiro da cidade e os seus subúrbios. Não nos podemos esquecer que os comboios na Índia são parte da experiência, quer pela comodidade que representam quer pela vida e movimento que nos proporcionam testemunhar. Foi aqui na Victoria Terminus que aconteceu o primeiro serviço de comboio de passageiros da Índia e o seu edifício majestoso e grandioso foi talvez o primeiro edifício público da cidade. Em resumo, é um ícone. E como ícone que é não escapou aos atentados de Mumbai em 2008, à semelhança do Taj.
Por tudo isto, se é impossível perdemos uma visita a esta estação, é igualmente impossível deixarmos de nos deslumbrar com tanta exuberância arquitectónica. Aqui encontramos uma mescla de estilos: vitoriano, hindu, islâmico, tudo junto num extravagante convívio. Mais um delírio para o olhar. Neste encontro entre a arquitectura revivalista gótica vitoriana e a arquitectura tradicional indiana vamos vendo desfilar pela fachada espécies da fauna e flora locais, com o leão a dominar, imponente. Neste conjunto destacam-se ainda uma profusão de torres, pináculos, cúpulas, frontões, gárgulas, janelas em arco decoradas a rosa e branco e, enfim, uma imensidão de figuras que fazem deste revivalismo gótico uma excentricidade absoluta e um estilo único, o estilo Mumbai.





Este estilo, porém, não é unânime. Alberto Moravia, no seu livro “Uma Ideia da Índia”, por exemplo, escreve sobre o estilo gótico vitoriano que é “o estilo mais feio do mundo”. Já a arquitectura moderna do país, em geral, é “um pesadelo”, tendo os ingleses construído o país “contra todo o bom senso”. Sobre a profusão de ornamentos, esta é para o autor “delirante” e resultado da principal característica da arte indiana, “o ódio ao vazio”.


Ódio ou não, vazio é palavra rara em Mumbai. Vejam-se os bazares, por exemplo. Visita a Mumbai que se preze não fica completa sem uma passagem por um dos seus muitos bazares. 
Perto da Victoria Terminus fica o Crawford Bazaar. Também conhecido como Mahatma Jyotiba Phule Mandai, o edifício deste mercado, datado de 1869, tem uma arquitectura característica onde se destaca sobretudo a sua torre. Mas é o seu interior que nos provoca mais uma enorme explosão de sentidos. A cor oferecida pela variedade dos legumes e frutas que aqui são vendidos, ao lado de animais domésticos, em especial cães, gatos e passarinhos, é toda uma experiência para guardar. Os vendedores são simpáticos e oferecem-nos a provar algumas frutas. Infelizmente ainda não era a época da manga. Outros deixam-se estar por ali sentados, relaxados, ou deitados, indolentes.





A área envolvente ao Crawford Bazaar é uma zona habitada por muçulmanos. Veem-se mesquitas e muito verde das bandeirinhas do islão. As ruas por aqui não são largas e estão ocupadas por lojas e mais lojas. Um imenso bazar. E uma imensidão de gente nas ruas, de tal forma que é impossível caminhar a pé pelos exíguos passeios, obrigando-nos a dividir a estrada com os veículos que teimam em passar – podem ser carros ou carrinhos de madeira improvisados para transportar as mercadorias. O barulho compõe o caos.





Caos esse que nos acompanha até ao Chor Bazaar, a uma boa distância do Crawford.
Seguindo pela confusão fomos percebendo que os edifícios desta Mumbai central estão extremamente mal conservados, a desfazerem-se até. No entanto, apesar do seu mau estado preservam pormenores artísticos cativantes. 
O Chor Bazaar é um mercado de antiguidades. De forma literal, Chor significa ladrões. Mas a palavra “chor” terá derivado da palavra “shor”, cujo significado é barulhento. Os britânicos terão entendido mal a palavra e de mercado barulhento passou-se a mercado dos ladrões. Ambas não andarão muito longe da verdade. Nada adquirimos por aqui, mas fica a experiência de deambular pela velha e confusa Mumbai. 




O fim do dia, o fim da viagem, não podia deixar de ser passado na praia de Chowppaty. Como os locais. O final da Marine Drive, já perto de Malabar Hill, é mais um lugar cheio de cor, seja ela trazida pela natureza ou pelas muitas pessoas que a ocupam. Esta praia não é um lugar para se tomar banho, apesar de haver quem não se importe de partilhar a água com os cocós. É, antes, o lugar para se deixar estar na areia sozinho, em família ou entre amigos; sossegado, a confraternizar ou a brincar; a pousar os pés na areia, a despedir-se do sol ou a provar a comida de rua. A comida de rua está presente em quase toda a Mumbai, mas Chowppaty é o lugar dela, seja o kulfi, o vada pav ou o bhelpuri.
Parte inevitável da experiência de Mumbai é a sua comida. A cidade máxima é o também no capítulo gastronomia da Índia. Seja em restaurantes ou na rua as expectativas, diziam-nos à partida, eram elevadas. A final, podemos afirmá-lo com certeza, foram mais do que cumpridas. Reportagem gastronómica na Cantina dos Sabores da mana aqui (praia de Chowpatty), aqui (restaurante Ziya), aqui (restaurante Khyber) e aqui (restaurante Colaba Social).

Mumbai – Parte 1

No primeiro dia em Mumbai, de manhã cedo tomámos um comboio urbano para chegar ao Mahalakshmi Dhobi Ghat. Com carruagem exclusiva para mulheres, lá fomos vendo o movimento pela janela, enquanto as locais se sentavam no chão junto às portas abertas das carruagens – e nisto as mulheres dos comboios são iguais aos homens.


Dhobi Ghat é uma lavandaria a céu aberto. Correcção. É a maior lavandaria a céu aberto do mundo e na saída da estação de comboio de Mahalakshmi, lá do alto, percebe-se bem porquê. A princípio parece mais uma favela, mas observando melhor há uma característica que a distingue dos outros amontoados de construções precárias: as filas e filas de roupas estendidas.
Este Dhobi Ghat pode ser visitado. Mas o mais provável é que à entrada do bairro seja pedido dinheiro aos incautos turistas. E, depois, só há uma de duas soluções. Ou voltar para trás sem apreciar a vida dos dhobis ou engolir um grande sapo e assumir a espoliação e deixar-se ser guiada por um “guia” cuja pronúncia inglesa é digna de figurar em qualquer programa de humor. Está visto que a solução por nós tomada foi esta última.





Aqui são lavadas cerca de meio milhão de roupas todos os dias, roupas essas que podem ser para aqui enviadas quer por instituições quer por particulares. O mais incrível é verificar que um bairro tão informal e precário é capaz de prestar um serviço altamente funcional e organizado onde as falhas são poucas. As roupas são etiquetadas, lavadas e passadas a ferro para que depois possam ser devolvidas aos seus donos. São colocados papelinhos em cada uma e ficam por ali empilhadas. Em seguida os dhobis – profissão de homem – enchem-nas de água nos tanques e em movimentos rápidos e ritmados rodam as roupas encharcadas no ar e batem-nas contra o cimento do tanque uma série de vezes. Há máquinas modernas por aqui, mas a maior parte do trabalho é manual. E é um espectáculo. Um espectáculo de cor, também, proporcionado pelas peças de roupa. Para além do que, enquanto caminhamos pelas ruas estreitas do bairro, contornando os tanques, é-nos permitido observar e perceber alguma da vivência diária das suas gentes, que não apenas trabalham aqui como aqui vivem.


A uma caminhada não muito longa do Mahalakshmi Dhobi Ghat fica o santuário (Dargah) Haji Ali, dedicado a este santo muçulmano. O lugar é especial, um pequeno istmo que parece flutuar no mar, alcançável através de um corredor longo só possível de percorrer na maré baixa. A arquitectura indo-islâmica do santuário é delicada, branco puro a destacar-se na paisagem, bem como os seus pormenores, sobretudo as suas cúpulas e minaretes. 








Este é um lugar popular e, por isso, confuso. Um microcosmos de Mumbai. Pelo dito corredor passamos por um monte de tendas onde tudo se vende, de um lado, e diversos pedintes, do outro. Em ambos os lados o Mar da Arábia destaca-se e a sua sujidade – se tudo se vende nas tendas, tudo parece boiar na água – não impede que as crianças lá se banhem. 



De volta ao sul de Mumbai, é obrigatório deixar-nos ficar pelo Oval Maidan a assistir aos rapazes equipados rigorosamente de branco enquanto jogam cricket, com o edifício da Universidade e a Torre do Relógio Rajabai a comporem o cenário. Estes são alguns dos edifícios coloniais que distinguem Mumbai, num estilo gótico revivalista que é um gáudio para o olhar. 



Para lá do Oval Maidan, Fort a chegar a Colaba, fica o distrito da arte Kala Ghoda. Com várias galerias por aqui, seríamos tentados a escrever que esta é uma outra Mumbai. Mas não. O bom gosto e a arte imperam dentro de portas – a Delhi Art Gallery, a Jehangir Art Gallery e o Museu Prince of Wales ficam por aqui -, mas por fora os edifícios estão muito mal conservados. Parte boa da experiência por esta área, onde fica também a azulíssima Sinagoga, é que a arte indiana contemporânea fica lado a lado com a vida de rua mais pura que a cidade tem para oferecer, como é o caso dos carrinhos de venda de comida de rua e das lojinhas improvisadas.




Para um banho de multidão, não há como perder a Gateway of India. Este é um dos maiores símbolos de Mumbai e, ao mesmo tempo, um símbolo colonial. 


Construído pelos britânicos para comemorar a visita do Rei George V à Índia em 1911, este arco triunfal em pedra basalto com alguns pormenores bem bonitos acabou por ser concluído apenas em 1924 e, naquela que é constantemente apontada como uma ironia, foi por aqui que saíram os britânicos quando abandonaram o sub-continente. Virado para o Mar da Arábia, como se abraçasse os visitantes à entrada da cidade, serve também como adeus à porta da saída. Sobre ele escreveu Octávio Paz, no seu “Vislumbres da Índia”, que lhe pareceu “uma versão fantasista dos arcos romanos”. Faltam-lhe os romanos, mas sobram-lhe os indianos (não são muitos os turistas não indianos). É um mar de gente que parece não ter fim, um daqueles lugares para se ir uma vez na vida e tirar as fotos da praxe, daquelas em que se posa para agarrar o monumento ou selfies ou o que a imaginação mandar. 




E a imaginação por aqui manda muito. Afinal de contas, o mítico hotel Taj Mahal Palace é vizinho do Gateway of India. O mesmo Octávio Paz, na obra citada, escrevia sobre o Taj que este era um “delírio de um oriente fim de século”. Construído em 1903 em estilo mourisco, oriental, florentino, o que calhar, é provavelmente o lugar mais democrático de Mumbai. Diz-se que o parse que o mandou construir fê-lo depois de haver sido barrado na entrada de hotéis de topo naquela época. A decisão foi então a de construir um hotel onde todos tivessem lugar e que fosse ao mesmo tempo tão luxuoso como os mais luxuosos. Conseguiu superar todos os outros e este é hoje um lugar histórico e cheio de histórias para contar. Uma delas triste, muito triste, como foi a dos atentados que o lugar sofreu em 2008. Mas a melhor história do Taj é a de ter recuperado e hoje ser novamente possível a qualquer um de nós, visitante e não hóspede, percorrer algumas das suas alas e salões. A arquitectura do Taj é alegre e esfuziante, mais um delírio nesta Mumbai. Há que circundar todo o edifício e perceber, então, que é mesmo verdade, o Taj foi construído ao contrário e o erro levou a que a fachada estivesse aberta à cidade e de costas viradas para o mar.


Mas nada disso importa.
Importa que é fim do dia e o lugar para se estar é na Marine Drive, seja no skybar do Hotel Intercontinental, o Dome, apartado da confusão, ou no meio da gente que todos os dias enche a promenade que vai desde Nariman Point até Malabar Hill. Do topo do Dome, no entanto, conseguimos apercebermo-nos melhor do porquê do apodo de “queen’s necklace” (colar da rainha): a curva da Marine Drive, cidade de um lado, mar da Arábia do outro, luzinhas do cair do dia como adereço, não deixa dúvidas: Mumbai tem charme e é bonita.


Mumbai

Mumbai será muito provavelmente em poucos anos a maior cidade indiana em número de habitantes. Por enquanto possui “apenas” cerca de 14 milhões, mas continua a atrair muitos mais, quase todos eles com o sonho comum de alcançarem uma vida melhor, fazerem dinheiro, quem sabe até tornarem-se estrelas de Bollywood. 
Acontece que Mumbai é a cidade da Índia por excelência, com tudo o que de bom e de mau à ideia está associado. Lado a lado convivem as melhores moradias com as maiores favelas. A entrada na cidade pelo seu aeroporto não deixa dúvidas: as favelas estão coladas à pista e seguirão até ao centro da cidade, num mar de precariedade sem fim. Mas ao mesmo tempo vemos irromper pela linha do horizonte rumo aos céus uma série de edifícios, uns já construídos, outros em construção, que nos mostram que há lugar para outro tipo de habitações. O lixo e o luxo dizem presente em iguais proporções. 
A história de Mumbai é tão interessante como as personagens que a habitam. E nós, portugueses,  temos muito a ver com ela. A escassez de água em Mumbai (e em toda a Índia) é hoje uma realidade, mas a sua abundância já foi um problema que a ambição e engenho do Homem tornou contornável. 
A antiga Bombaim (mudou de nome para Mumbai, em 1995, em homenagem à deusa local Mumba), talvez corruptela de “bom baia”, foi dada como dote aos ingleses pelo casamento de Isabel de Bragança e Charles II, em 1661. Parece que na época os ingleses nem sabiam muito bem onde ficava Bombaim – talvez lá para os lados do Brasil; afinal, surpresa, não, é na Índia. Maior surpresa ainda foi constatarem que a terra disponível não era muita – esta parte do dote era um monte de ilhas difíceis de comunicar entre si. Em todo o caso, os ingleses pretendiam uma nova base na costa ocidental da Índia e lançaram mãos à obra para transformar este porto de pescadores através da construção de línguas de terra, vulgo passeios, de forma a ligar as sete ilhas (Colaba, Old Woman’s Island, Bombay, Mazgaon, Parel, Mahim e Worli) que estavam separadas pelo mar e por pântanos. Ou, mais correcto, de forma a ligar as quatro ilhas que restavam, depois de os portugueses terem já passado pela empreitada de as ligar.
A cidade foi crescendo e de porto de pescadores foi tornando-se um centro de comércio que conquistava cada vez mais terra à água do Mar da Arábia. Os subúrbios juntaram-se às outrora ilhas e a indústria também ganhou destaque. Comércio, indústria, centro financeiro, terra dos sonhos. Mumbai é tudo isso e muito mais.
A “cidade máxima” como se lhe referiu Suketu Mehta num dos livros mais celebrados sobre a cidade. Nele o autor reproduz as palavras de um amigo: “Bombaim não tem a ver com monumentos; tem a ver com experiências” (já Alberto Moravia escrevia “a experiência da Índia”).
Mumbai é uma metrópole enorme, confusa, difícil de compreender pelos estranhos, ainda mais se estes se propõem lá passar apenas dois dias. Dai que a nós não nos tenha restado se não viver umas poucas experiências. Chegámos à noite, vindas de Goa, e do trajecto do aeroporto para o hotel foram cerca de 45 minutos a tentar captar o movimento da cidade feita de prédios altos em Bandra. Não fomos a Bandra, não fomos a Juhu Beach, ficámo-nos apenas pelo sul de Mumbai. Prédios altos, sim, mas a primeira e mais forte ideia de Mumbai é a das suas favelas intermináveis, parecendo que se ocupam da área contígua à linha do comboio, sendo maior o aglomerado junto às estações.
Deixámos as coisas no hotel e saímos rapidamente para jantar ali mesmo na zona do Fort. Logo na primeira noite vimos uma ratazana com uma poça de sangue fresquinho à volta; na segunda noite uma ratazana em fuga rápida bem à frente dos nossos pés; na terceira noite nem vestígios de ratazanas, apenas uma noite calma em que os indivíduos – todos homens – se procuram acomodar para dormir na rua, em qualquer espaço da rua, não precisa de ser um canto, pode ser até em cima do seu carrinho de vender sumos ou frutas, num perfeito equilíbrio. De manhã é vê-los a derramar canecas de água sobre os seus corpos, que a higiene não pode faltar.
Não sei se é pobreza, não sei se é miséria. É todo um mundo à parte, para os europeus. Para quê visitá-lo?, perguntam muitos. Para vivê-lo, respondo.
Vamos, então, a algumas experiências por nós vividas.