Assuntos de Família, de Rohinton Mistry

Assuntos de Família, de Rohinton Mistry, é um livro que gira à volta das relações entre os elementos de uma família da classe média de Mumbai. Não faltam situações cuja acção se desenrola na cidade, nem alusões a alguns dos seus marcos. O mar, a brisa, o calor, os elementos naturais estão igualmente presentes. Imagino que as histórias se passem no centro da cidade e esta é percorrida a maior parte das vezes de autocarro, de comboio ou a pé; raramente de táxi, quase nunca em veículo próprio – pois é, a classe média de Mumbai é frequentadora dos transportes públicos, mais uma idiossincrasia desta cidade.
Antes de citar frases de amor à cidade constantes neste livro, segue a transcrição de um parágrafo que traduz o uso caótico dos comboios, pelas palavras de Mr. Kapur, que não deixa de concluir ele próprio por uma das grandezas da cidade: o espírito de entreajuda.
“Um dia, na semana passada, arrumei o carro perto da estação de Grant Road e comprei um bilhete de cais, para ver passar os comboios e os passageiros. Apeteceu-me. Nunca ando de comboio, bem vejo como vão apinhados, quando passo de automóvel ao lado das linhas de caminho-de-ferro. Mas, da plataforma, nesse dia vi qualquer coisa de novo. Ia um comboio a partir, completamente cheio, e os homens que corriam ao seu lado desistiram de o apanhar. Todos, excepto um. Conservei os olhos nele porque o cais estava a chegar ao fim. De repente, o homem ergueu os braços e houve pessoas no comboio que estenderam os seus e o agarraram. “Mas que estão eles a fazer? Será que o desgraçando vai ser arrastado e morto?”, pensei eu. No momento seguinte levantaram-no do cais. As pernas dele balouçavam fora do compartimento e eu quase gritei para fazer parar o comboio. Os pés pedalavam no ar. Encontraram um ponto de apoio, escorregaram, encontraram-no de novo. Ali estava ele pendurado, com a vida literalmente pendente na mão de estranhos. E entregara-se a eles. Confiara nesses estranhos.”
Mr. Kapur é o chefe de um dos elementos da família, uma personagem bem optimista a quem o autor não se cansa de colocar na boca frases que expressam todo o seu amor por Bombaim (e insiste que a cidade é Bombaim e não Mumbai), feito delicadezas, mas também de excessos.
Alguns exemplos:
“O meu amor por Bombaim é demasiado grande, mas pouco sensato.”
“Não consigo fazê-lo perceber o que sinto por Bombaim. É como o amor puro por uma bela mulher, que envolve gratidão pela existência dela e devoção pela sua presença viva. Se Bombaim fosse uma criatura de carne e sangue, com o meu tipo sanguíneo, Rh negativo, e muitas vezes penso que o é, seria capaz de dar-lhe todo o meu sangue em transfusão, até à última gota, para lhe salvar a vida.”
“Shakespear é como Bombaim: em qualquer eles podemos encontrar tudo aquilo de que precisamos porque ambos contêm o universo.”
“De agora em diante aceito o que Bombaim me oferece: calor, humidade, brisa do mar, tufões…”
“Quero aproveitar tudo o que a minha cidade tem para me oferecer. Quero misturar-me com o seu povo, ser parte desses corpos esmagados nas ruas, nos comboios e nos autocarros. Amalgamar-me no todo orgânico que constitui Bombaim. É aí que reside a minha redenção.”

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