Correr em Madrid

Para a primeira internacionalização juntámos seis corredores. 
A cidade eleita foi a vizinha Madrid e a distância os 21 km da Meia Maratona.
Objectivo confessado: correr; objectivo real: ver a capital espanhola a correr, sim, mas também tapear.
Depois de um inacreditável embarque – fomos tartarugas de manhã e quase ficávamos em casa – o segundo impacte foi uma não menos inacreditável fila de praticamente duas horas para levantar os nossos dorsais nos arredores de Madrid. A visita ao Mercado de São Miguel ficou para o lanche. Queijo e presunto para os três rapazes, mais conhecidos como os rústicos, tapas a atirar para o gourmet com sabores inovadores para as três raparigas, mais conhecidas como as cosmopolitas. À noite partilhamos todos, em verdadeira comunhão, as pequenas porções do Yakitoro da Gran Via. Pelo meio uma caminhada pelo Bairro das Letras e Praça Maior, sem faltar uma paragem na esplanada para uns churros com chocolate quente.
A manhã do decisivo domingo começou cedo. O pequeno-almoço aconteceu num daqueles bares-restaurantes perto da Atocha / Rainha Sofia, lado a lado com os retardatários da noite anterior que seguiam teimosamente na via das copas. Não se calaram a noite toda, num movimento de pessoas e carros completamente louco. Quem diz que os tempos da movida dos anos 80 já eram?
Caminhámos pelo Passeio do Prado até à zona da partida para a meia maratona – nossa prova – e maratona, um pouco antes da Praça Cibeles. Logo encontrámos um representante dos Cágados, o primeiro de muitos portugueses com quem haveríamos de partilhar as calles de Madrid a correr.
A chuva miudinha mal se notava na espera para a partida e nem sequer deu para arrefecer. O boletim meteorológico previa chuva forte e trovoada, por isso dávamo-nos por contentes. O tiro de partida logo veio e com isso as primeiras passadas soltas. Aos rapazes do grupo deixámos de os ver mesmo antes de poder encontrar à direita a Porta de Alcalá. Os Passeios sucediam-se, primeiro o de Recoletos, depois o da Castellana. À passagem pelo Estádio Santiago Bernabéu não se ouviu um pio – nem um singelo Cristiano, nem sequer um dale Madrid ou até dale Atlético. Fosse em Lisboa e os gritos pelos clubes da capital seriam incessantes. 
Mas como não era em Lisboa, e apesar da chuvinha se fazer sentir, as pessoas estavam nas ruas a gritar antes pelos atletas, em maior número sobretudo junto aos pontos de música – este evento faz parte das corridas Rock’n Roll Series.
Até aqui ia desfrutando do cenário, junto com as outras duas meninas, e deu até para observar em pormenor a inclinação das Torres KIO, ou Torres Puerta de Europa, quase que uma debruçada sobre a outra. Um pouco depois destas Torres retornamos. E um pouco depois, também, sem entender muito bem porquê, lá para o quilómetro 11 fiquei cheia de cãibras na barriga e perdi-me do meu grupo, agora acrescido por um dos rapazes. Até ao quilómetro 16 foi um bocado de sofrimento o que senti, tentando correr e sendo obrigada a parar por três vezes. 
Ainda assim, muitas mais sensações ocorreram. Ouvi o grupo alegre que ia cantando a correr, vi o rapaz com a t-shirt da Palestina e pés descalços a passar rapidamente por mim, qual Zola Budd, pude ouvir e ver correr os muitos estrangeiros que partilhavam as ruas comigo. 
O momento mais emocionante de toda a corrida deu-se nesta fase dorida: um pouco antes do quilómetro 14 foi impossível conter uma lágrima quando maratonistas se separaram dos meia-maratonistas sob o aplauso destes últimos, eu incluída. 
Ânimo!, gritava a muita assistência e assim passámos nós a gritar também.
Seguimos pela Calle Ortega Y Gasset, em pleno bairro de Salamanca, eu ainda meio dobrada mas com o cérebro a funcionar e pronto a lembrar as palavras do filósofo “Podemos pretender ser quanto queiramos, mas não é lícito fingir que somos o que não somos” e ” Eu sou eu e a minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim”.
Eis senão quando, redentoramente retornei à corrida, sem dor, passo largo e “rápido” e quando ao quilómetro 16 começamos a contornar o Parque Retiro não havia chuva nem subidas que me afectassem. Nem sequer me juntei ao coro de “Coño, que carajo de subida é esta?” a menos de dois quilómetros da meta.
Os últimos quilómetros foram, assim, os mais fáceis para mim, fisicamente bem e com o bónus de ver a meta cada vez mais ao alcance. A uns 800 metros do fim, já com um dos companheiros ao meu lado, fomos ultrapassados pelo primeiro maratonista, queniano, pois claro, Ezekiel Kiptoo Chebbi de seu nome. 
Foram 2h 13m a correr, para mim, um minuto menos para ele, mas com o dobro dos quilómetros percorridos.
A chuva e o frio – que parada finalmente notava – fizeram com que a ida para um duche quente no hotel fosse rápida. Até porque mais mercados e tapas nos esperavam pela tarde. O eleito para o almoço foi o Mercado San Ildefonso, na Fuencarral. Tudo óptimo, a pensar numa sesta no entanto. Mas ainda com ânimo para a exposição de Raoul Dufy no Thyseen-Bornemisza e um passeio até à Praça de Santa Ana, provavelmente uma das mais bonitas de Madrid.

Fim de semana em Madrid

Um fim de semana em Madrid, bem planeado, dá para muita coisa.
O objectivo, num fim de semana de Fevereiro que se esperava frio e sem sol, não era passear pelas ruas nem ir de compras. Era, antes, um objectivo duplo: comer e ver exposições.
O sol até apareceu, mas não nos estendemos no Retiro nem caminhamos na Gran Via nem nos juntamos a nenhuma manifestação nas Puertas del Sol.
Atravessámos a Praza Mayor, finalmente vazia do ambiente de feira, para sentirmos o pulsar das gentes e darmos umas trincas nuns pintxos no vizinho Mercado San Miguel. Subimos ao último andar do El Corte Inglês da Callao para degustarmos os pratos de fusão do Street Xo. Demos uns passos na Chueca para confirmarmos o bom ar do Mercado San Antón. E em Salamanca cruzámos umas quantas calles para tapear no Álbora e lambuzar-nos no peruano A&G. Resumo da viagem gastronómica no blogue da mana, aqui http://cantinadossabores.blogspot.pt/2014/03/astrid-gaston-em-madrid.html
Quanto às exposições, um lado de sorte e um de azar. Começando por este último, não arranjámos bilhete para a exposição do Cézanne no Thyssen Bornemisza. Mas, em compensação, centenas de Picassos estavam expostos – gratuitamente – na Fundacion Mapfre. E a CaixaForum expunha fotografias de Sebastião Salgado, sob o título de Génesis. E havia ainda o Matadero. E… Madrid no para.

A Mapfre, no Paseo Recoletos, a poucos passos do eixo nobre da arte que é o Paseo del Prado, tem ainda patente (até 12 de Maio) a exposição “Picasso. En el taller”. São um conjunto de obras que inclui pinturas, desenhos, fotografias e cerâmicas de quase todas as fases da vida artística de Pablo Picasso. Algumas destas pinturas, na sua maioria provenientes de colecções particulares, mas também de museus espalhados um pouco por todo o mundo, haviam sido expostas poucas ou nenhumas vezes em Espanha. Taller, em espanhol, é atelier. Através das naturezas-mortas de Picasso ou das suas modelos, vamos conhecendo o atelier do artista não só como espaço de trabalho, mas também de experimentação. 
A exposição começa com a obra “Autorretrato con paleta”, de 1906, empréstimo do museu de Filadélfia, e o primeiro andar termina com a obra que mais me cativou, “Mujer en sillon rojo”, de 1939, proveniente de colecção privada. Só por esta exposição qualquer passo dado para fora de casa já teria valido a pena. Mais informação aqui http://www.exposicionesmapfrearte.com/picassotaller/es/

A uma agradável caminhada da Fundacion Mapfre fica a CaixaForum, edifício já deste milénio da dupla de arquitectos suíça Herzog & de Meuron. Ao seu lado encontramos uma parede vertical (empena) feita jardim, obra do botânico francês Patrick Blanc. Aqui encontrava-se patente a exposição de fotografias “Génesis”, do brasileiro Sebastião Salgado. São duzentas e tal fotografias a preto e branco de grande formato, resultado de um projecto de 8 anos, iniciado em 2004 nas ilhas Galápagos, e que levou o fotógrafo a todos os cantos do planeta onde existe natureza em estado bruto. Ou, tão somente, povos em estado puro, onde o “homem ocidental” ainda não colocou o seu dedo destruidor. 

A mostra é simplesmente belíssima (o mesmo é concluir, o nosso planeta é belíssimo). Nas palavras de Salgado, “Génesis é um tributo visual à grandiosidade e fragilidade do planeta Terra; uma chamada de atenção a tudo o que nos arriscamos perder”. Preservar o futuro é a palavra de ordem, portanto. Ainda segundo Salgado, “em Génesis, a minha câmera permitiu que a natureza falasse por mim. E foi um privilégio meu escutá-la”. O privilégio também é nosso.

E, por fim, que um fim de semana dá para muita coisa, mas não dá para muito mais, o Matadero. Espaço surpreendente em Arganzuela, arredores do centro de Madrid. O Matadero http://www.mataderomadrid.org é um complexo de edifícios datado de 1911 e que originalmente destinava-se a matadouro e mercado de gado. A sua arquitectura incluía elementos neo-mudejares e após o seu fecho em 1996 acabou por ser convertido no centro de artes que vemos hoje. E que centro de artes! Aqui encontramos uma Casa do Leitor, um Centro de Desenho, uma Cineteca e uma Nave de Música, para além de espaços que recebem diversas exposições. Uma arquitectura deliciosa, bem respeitada, num espaço amplo.

Quando visitámos o Matadero tivemos direito a uma encantadora instalação de um jardim japonês, “Un Jardin Japonés: Topografías del Vacío”, de Esther Pizarro. O chão está preenchido de sal, como se fosse o mar que cerca as várias ilhas do território japonês, sendo o jardim a terra firme, aqui colorida em tons que traçam um contraste certeiro entre os diversos elementos.

E, depois, a exposição “We-Traders, Cambiamos crisis por ciudad”. Verdadeiramente interessante, ainda para mais apresentava exemplos da nossa Lisboa. Mostra-nos exemplos de iniciativas de cidadãos, sejam arquitectos, artistas, desenhadores ou quaisquer outros, que, preocupados com o espaço urbano, metem mãos à obra para dar algo de novo à cidade e sociedade. A Cozinha Popular da Mouraria é uma destas iniciativas, partindo dos cidadãos para os cidadãos, agindo de forma local, mas respondendo a problemas que são também supra locais.
Curiosamente, perto do hotel em que ficámos em Madrid confrontámos-nos com um destes projectos em Madrid, o Campo de Cebada. Apropriando-se de um espaço que estaria devoluto, alguns indivíduos fizeram dele um local informal onde se pode estar a jogar ou a conversar. Discutimos entre nós se este espaço era bonito ou teria dignidade suficiente para existir numa cidade como Madrid. Dividimos-nos nas nossas opiniões. Mas parece-me que numa cidade, que ainda para mais é capital, deve haver espaço para todos os cidadãos e, sobretudo, há que se ser criativo e dar novos usos a espaços vazios. O melhor desta exposição é que ela nos faz pensar e, mais, nos apresenta constantes desafios. Por exemplo, a dado passo confrontámos-nos com duas perguntas simples: dá mais à sua cidade do que ela lhe dá a si? aceitaria receber menos salário para que outros tivessem emprego? Como esta exposição virá dentro de meses para Lisboa, irei ter tempo para reflectir nas respostas.

Madrid Arrasa

O que mais surpreende quando se vai de Lisboa a Madrid é a intensa vida na rua que esta última cidade possui. Seja dia de semana, seja fim-de-semana, vê-se gente nas ruas. Ou, para ser mais correcta, vê-se muita gente nas ruas. Tantos são os corpos e cabeças que ocupam as calles do centro da capital espanhola que não se chega a ver o chão que vamos pisando e, muitas das vezes, sobre ele levitando, tentando fugir a um empurrão daqui e a um empurrão dali.
O pretexto da deslocação do fim-de-semana passado a Madrid era o de ver a exposição de Paula Rego no Rainha Sofia, aproveitando ainda para caminhar pelas suas ruas e jantar em alguns restaurantes da moda.
Apenas desculpas para se passear.
A correr, claro está.
Mas valeu a pena.

Chegadas a Madrid de avião deparamo-nos logo com um must da arquitectura contemporânea. O fantástico Terminal 4 do aeroporto de Barajas, obra do arquitecto Richard Rogers, inaugurado em 2006. As formas ondulantes do seu desenho, os corredores espaçosos e luminosos pelo sol que por lá vai irrompendo, possibilita-nos encarar as longas secas de aeroporto com outro espírito.
Depois, temos o metro ali mesmo em baixo. São 45-50 minutos até à bem central Portas do Sol.

Para o primeiro dia, que graças ao nevoeiro matinal de Madrid naquele dia e/ou aos tradicionais atrasos da Portela se transformou apenas em tarde, optámos por simplesmente caminhar.

É quase sempre um bom programa urbano, andar despreocupadamente pelas ruas fora, envolvendo-nos na multidão, observando os jeitos peculiares dos “nuestros hermanos”, deitando uma olhadela às montras fechadas do dia feriado, entrando sem compromisso nas outras muitas lojas que mesmo assim se encontravam abertas.
E, principalmente, mesmo sabendo que o tempo escasseava, entrar no metro para fazer meia dúzia de estações apenas para ir comer um gelado à Bajo Cero http://www.bajocero.es/ , na Glorieta Quevedo, bem lá no fim da Calle Fuencarral, a qual percorremos por inteiro de volta ao Centro, desembocando na Gran Via.
Depois do saboroso gelado (e dos bolos e chocolates que comemos com os olhos) naquela pastelaria com um ambiente bonito e agradável, a volta à confusão. Entrámos no Museo Chicote http://www.museo-chicote.com/, lendário café-bar da Gran Via, antigo poiso da nata da cultura espanhola e internacional que fazia questão de por lá dar uma saltada, como documentam as fotos espalhadas pelas suas paredes. A estadia foi rápida – o fumo do tabaco era tanto e tão inclemente que nos fez dar meia volta (e nenhuma de nós anda perto de ser fundamentalista ou sequer esquisitinha com esta questão). Mas deu para pelo menos 2 conclusões: uma primeira, em vésperas de entrada em vigor da nova lei do tabaco no nosso país, é curioso verificar que muitos estabelecimentos de restauração em Madrid fazem questão de ter bem visível à entrada a inscrição “aqui pode fumar-se”; uma segunda, embora fossem mais do que muitas as pessoas nas ruas, fosse a caminhar para lá e para cá, a entrar nas lojas, na fila para o teatro ou o cinema ou para comprar o “El Gordo”, eram também mais do que muitas aquelas que optavam por estar nos cafés.
Ah! O dolce fare niente citadino!

Outra constatação: cada bairro parece ser frequentado por uma fauna diferente. Enquanto que a Gran Via será o local onde todos se encontram, em Malasaña ficam as lojas e as pessoas mais alternativas, na Chueca a liberdade acima de tudo, com parezinhos de mãos dadas sem atender a qualquer distinção de sexo, em Lavapiés os símbolos chineses predominam nas ruas preenchidas com muçulmanos, africanos e sul-americanos, em La Latina junta-se a gente bonita, em Recoletos, no Passeio del Prado, a gente culta ou, pelo menos, com algum gosto pela arte, e, por fim, no Centro, mais propriamente Puerta del Sol e Plaza Mayor fica o resto. Qual resto? Aquele que tem a infelicidade de, ao contrário dos lisboetas, não ter shopping centers para onde ir refugiar-se (apesar de ter múltiplos e megas Corte Inglês).

Não consigo descrever a minha irritação por, mais uma vez, não ver a Plaza Mayor livre de bancas pindéricas de feira popular, com uma multidão propositadamente feiamente enfeitada com cabeleiras e cílios postiços, com adereços sonoros tristemente inesquecíveis. Provavelmente, o problema será meu – o de não gostar de feiras e o de escolher visitar Madrid em altura de festa. Ou será que haverá alguma altura do ano em que esta cidade não estará em festa?

Os jantares ficaram reservados para o Wagaboo num dia e o Olsen no outro. Com alguma pena, opções não dão para tudo, desta vez nada de tapas (mas a título de informação, houve bocadillos de presunto).
No Wagaboo http://www.wagaboo.com/, local do primeiro jantar, na Chueca (mas há em mais direcções), a comida é algo exótica, dominada pelos gostos orientais mas com alguns pratos com influência de outras latitudes. Vemos directamente os cozinheiros a esticar a massa que há de vir para o nosso prato, a decoração é simples, de bom gosto e extremamente agradável, e, para completar o ramalhete, os preços da refeição não são nada caros. O que é que isto quer dizer? Que os pratos andam na ordem dos 8-11 Euros.
No outro jantar fomos ao Olsen http://www.olsenmadrid.com/, bem perto da Plaza Santa Ana, onde ficava o nosso barulhento Hotel Miau. Aqui já não se pode afirmar que os preços sejam baratos. Os pratos vão dos 16 Euros em diante, com sobremesas a 7 Euros, mas a comida de influência nórdica é bem confeccionada e vale igualmente a pena pelo ambiente despojado mas muito fashion do restaurante. Ainda que a luz seja escassa (é mesmo escassa), o que não vem a calhar para fulanas míopes como eu.

O dia seguinte, domingo, foi dedicado aos museus.
Primeiro o Rainha Sofia, depois a Casa Encendida e, por fim, o Prado. Tivesse o dia mais do que 24 horas e os seres humanos pernas e disponibilidade mental para tanta oferta cultural e teríamos ainda ido ao Thyssen-Bornemisza. E isto sem precisarmos de percorrer mais do que 1 km entre cada um deles.

No Rainha Sofia http://www.museoreinasofia.es/ encontra-se até ao fim do ano uma exposição retrospectiva dedicada a Paula Rego. Ao nosso lado, vendo as pinturas da nossa compatriota, estava, entre alguns outros portugueses, uma que chamava a atenção pelo cargo ministerial que ocupa. Nada menos do que Isabel Pires de Lima, a nossa actual ministra da cultura, tantas vezes acusada de não dedicar a devida atenção aos artistas portugueses, ou porque não foi à inauguração de não sei o quê do Saramago, ou porque não foi à inauguração de não sei o quê do Miguel Torga, ou por só se preocupar com os pechisbeques russos. Parece que não será bem assim, se calhar não gosta é de inaugurações e depois, com mais calma, lá acaba por comparecer. Ou será que Paula Rego é inglesa?
Voltando à exposição, gostei de ver as suas obras, abarcando vários períodos da sua pintura, desde a década de 50 até hoje. Estão lá alguns quadros mais representativos, como a série do Aborto ou aquele da Mulher-Cão, e deu para ver que as figuras que retrata se foram tornando mais e mais agressivas ao longo dos tempos.
E depois, claro, o Rainha Sofia é a casa do Guernica de Pablo Picasso, provavelmente o quadro mais tocante de todos, e não só pela sua enorme dimensão. Para além de umas quantas obras de Picasso, encontramos também Dali, Miró, isso para não citar mais uma mão cheia de excelentes artistas espanhóis (ao lado de mais uns poucos estrangeiros) que ocupam os 2 pisos dedicados à colecção permanente deste museu. Para além disso, existe ainda mais 1 piso no edifício antigo para exposições temporárias e ainda a ampliação do museu inaugurada em 2005.

A nova estrutura, projectada pelo arquitecto Jean Nouvel, tem uma praça com uma escultura de Roy Lichtenstein que se abre à cidade, com a estação da Atocha em frente. Acolhe mais exposições temporárias (é lá que está a Paula Rego), uma livraria, biblioteca e um bar / restaurante – Arola (nome do reputado chefe espanhol) – com um design futurista mas altamente confortável onde os tons vermelhos abundam.

Seguiu-se o La Casa Encendida http://www.lacasaencendida.com/, a umas poucas centenas de metros do Rainha Sofia. Este espaço é um centro social e cultural da Caja de Madrid que tem como preocupação expor e oferecer cursos nas áreas não só da cultura como também do meio ambiente e da solidariedade. Por esta altura e até meados de Janeiro é possível ver-se lá a exposição “Warhol sobre Warhol”. São-nos apresentadas pinturas, fotos e vídeos do americano que obteve muito mais do que 15 minutos de fama, com a intenção de nos oferecer um Andy Warhol não tão conhecido (impressionante a sua foto de tronco nu com as sequelas da tentativa de assassinato de que foi vitima). Ao lado de uma série de auto-retratos (o americano adorava tirar fotos a si próprio nas mais variadas situações), entre os quais Warhol travestido de drag, encontramos aqui também algumas imagens bastante populares da Elizabeth Taylor, da Marilyn Monroe e do Mick Jagger.

E, por fim, veio o Prado http://museoprado.mcu.es/.
A partir das 17:00 de domingo a entrada é gratuita daí que o tamanho da fila e o tempo de espera fossem inacreditáveis – uns 200 metros e quase 1 hora de espera.
O mais famoso museu espanhol acolhe pinturas e esculturas de artistas europeus desde o século XII até ao século XIX, mais concretamente até 1881, data do nascimento de Pablo Picasso, sendo que a partir daqui as obras espanholas estão expostas no vizinho Museu Rainha Sofia, dedicado à arte contemporânea.
O museu é imenso e 1 dia inteiro a ele dedicado não será demais. É fácil perdermo-nos pelas suas inúmeras salas, para o que ainda mais veio contribuir a sua ampliação. Efectivamente, foi o que me aconteceu na ânsia de observar um fantástico Bosch (a quem os espanhóis tratam por El Bosco) que por lá mora, enquanto a mana e a mamã descansavam numa outra ala do edifício. Eu estava igualmente de rastos daí que tenha passado a correr pela esmagadora maioria das obras, apenas dedicando algum tempo às “Meninas” de Velásquez. A verdade é que, à parte o cansaço, a arte desta época não é o meu forte; todavia, não podia deixar passar novamente Madrid sem uma ida ao Prado e uma olhadela aos seus infinitos Velásquez, Goya, El Greco, De Ribera e outras obras de arte da escola italiana e holandesa.

Cá fora, o frio e as iluminações faziam questão de nos lembrar a época do ano em que estamos.
E vivam os feriados e as festas. E vivam os passeios.