Cascata de Pincães

No povoado de Pincães, entre Fafião e Cabril, já concelho de Montalegre, a Cascata de Pincães é das cascatas relativamente menos conhecidas do Gerês a que tem o acesso mais fácil.

Estacionado o carro são 1,2 quilómetros para lá e outros tantos para cá, cerca de 20 minutos de caminhada fácil quase sempre ao lado de uma levada. O trilho está protegido pela sombra da vegetação e quando a paisagem se abre o cenário é (mais) uma maravilha. Apenas os últimos (poucos) metros é que subimos por um caminho de pedras.

Já tinha percebido uma enorme fraga à aproximação da povoação de Pincães e vinha percebendo que ela andava por aqui adiante na paisagem, mas só após esta subida vi que era de uma frecha nesta fraga que escorria a água da cascata. Melhor, só diante da belíssima cascata de Pincães é que percebi que naquela manhã da primeira segunda-feira de Julho estava sozinha num recanto que já era soberbo mas que de repente calou as palavras que o pudessem descrever. Sem hesitar, aproveitei a sorte e tirei a roupa sem a trocar por qualquer outra e mergulhei nas frescas águas da lagoa para onde cai a Cascata de Pincães. Só para mim e sem ninguém como testemunha desta fortuna. Só por isso esta será para sempre a mais fantástica e inesquecível das cascatas do Gerês.

Da Cascata do Arado ao Poço Azul

O Poço Azul fica para lá da Cascata do Arado, um dos pontos altos de uma visita ao Gerês. Antes, porém, impõe-se uma paragem no Miradouro das Rocas, por onde se sobre por entre rochas até ao topo de um monte de granito em que chegamos a suspeitar que lá possamos encontrar uma fortaleza. O sítio seria ideal para isso, mas não, é apenas um lugar privilegiado para se perceber a vista larga do vale do rio Arado e da ondulação da Serra do Gerês.

Uma estrada de terra batida leva-nos até à Ponte do Rio Arado, onde à nossa esquerda podemos encontrar a cascata de mesmo nome. Toda esta zona envolvente ao rio, seja para cima da ponte ou para baixo, esconde segredos como lagoas cristalinas que apenas os mais aventureiros descobrem, ainda que por vezes com custos para a sua integridade física.

O trilho que aqui propomos, da Cascata do Arado ao Poço Azul, apesar de não estar oficialmente marcado não é difícil nem perigoso, são cerca de 8 quilómetros (ida e volta) agradavelmente percorridos em 1h 30m para cada lado, com início no parque de estacionamento para lá da Cascata do Arado (mais 2 quilómetros se optarmos por deixar o carro no Miradouro das Rocas). Desde logo a vista é fantástica e antecipa o que iremos viver nas próximas horas.

O cheiro a borrego é intenso e de imediato percebemos o porquê. Por sorte, um rebanho de cabras-monteses vagueava por aqui. Eram mais de 200 exemplares desta raça típica do Gerês, pertencentes a vários proprietários, mais um indício do espírito de comunidade que é ainda uma marca da região.

O caminho segue aberto, custoso em dias de mais calor, mas depois fica mais protegido pela vegetação. A primeira paragem obrigatória é no Curral da Malhadoura. É um lugar recatado, com uma fonte (repare-se a folhinha estrategicamente colocada para a água cair de forma ainda mais idílica) e uma enorme pedra com uma abertura, ideal para um piquenique à sombra. E tem uma casinha, de pedra – pois claro -, abrigo de pastores. Estas casas aninhadas nos penedos, com eles se confundindo, são um mimo e mais uma imagem pitoresca do Gerês.

Seguimos adiante e agora com a companhia de lindas borboletas de diversas cores. A primeira parte do percurso é muito fácil, por um estradão recto com um ou outro cruzamento que pouco engana. Passamos por uma edificação com um prado de cultivo murado, depois por uma moradia escondida na floresta e pouco depois iremos começar a descer até uma ponte sobre o rio do Conho. Aqui já há espaço para uma banhoca, mas não paramos. Nem a descida nem a posterior subida que nos faz atravessar o rio são especialmente difíceis ou cansativas. E mesmo que as pernas tremam um pouco após a subida, é bom guardar uma boa porção de ar para suspirar pela enorme paisagem do alto do vale. São belíssimas vistas para os penedos e fragas da Serra do Gerês, umas infinitas e outras mais próximas.

Tomamos a esquerda no trilho ao aviso de umas mariolas e agora seguiremos sempre a direito num caminho ora de terra ora de pedras, que continua sem ser difícil quer técnica quer fisicamente, bastando atenção para não tropeçar. Continuamos protegidos pelo arvoredo e vamos em direcção a um penhasco imenso. Começam a aparecer umas rochas enormes, deixando-nos curiosos pelo que poderão esconder. E começam a aparecer umas poças pequenas.

O Poço Azul está um pouco mais adiante.

Lindo. Bem encaixado na paisagem, a sua água é transparente e cristalina. Talvez mais para o verde, mas sem dúvida colorido.

Neste momento já só apetece mergulhar, e nem precisa de ser do alto da pedra onde por vezes (com mais água no rio) escorre uma pequena cascata. Mergulhamos, enfim. Mesmo sem estar à sombra, a água do Poço é gelada. Cai mesmo bem e é retemperadora. Deixamo-nos ficar, espraiados na natureza bruta. Só não se pense que o faremos sozinhos, afinal de contas é difícil guardar os bons segredos. Ainda assim, demoramo-nos e só depois empreendemos o mesmo delicioso caminho de volta.

Mata da Albergaria – Portela do Homem

Este é um percurso pedestre circular com início e fim no parque de estacionamento da Portela do Homem, junto à fronteira com Espanha. Para entrar de carro na Mata da Albergaria, um dos bosques mais fantásticos do Gerês, repositório da fauna e flora do Parque, há que pagar 1,5 euros, mas vale bem a pena. Melhor do que isso só mesmo embrenharmo-nos pela Mata a pé.

São cerca de 4,3 quilómetros desde o estacionamento, passando por frondosa vegetação ao longo do rio Homem, lagoas e cascatas, incluindo a célebre Portela do Homem, pontes e até uma antiga estrada romana, menos de duas horas de passeio, incluindo paragem e mergulho nas lagoas.

Apesar de não estar marcado, é fácil perceber o trilho. Um aviso, porém. Este é um dos lugares mais pressionados pelo excesso de visitantes, por isso há que respeitar as regras do Parque e em especial da Mata se queremos preservar o seu ecossistema e voltar a visitá-lo repetidas vezes.

Começámos por nos deixar envolver no bosque de carvalhal secular. Mesmo nos dias de sol e calor intenso não damos por eles, tal é a protecção das exuberantes copas das árvores. Este caminho coincide em parte com o que era a Geira, a antiga estrada romana que ligava Braga a Astorga. Diversos marcos miliários bem preservados testemunham-no. Imaginar que os exércitos romanos passaram por aqui há mais de 2 milénios e puderam ter esta beleza montanhosa cheia de piscinas naturais só para eles.

A verdade é que com sorte também nos pode tocar essa felicidade. Por exemplo, passei por um ribeiro com uma lagoa e perguntei-me porque estaria vazia. Mais adiante, após uma ponte robusta, um género de fenda com outra lagoa encostada a uma parede rochosa tinha apenas um par de indivíduos. E aqui com o bónus de um enquadramento paisagístico fabuloso feito dos penedos da montanhosa Gerês como pano de fundo.

Mais adiante ainda, após um breve desvio para outra ponte, o cenário aquático é ainda mais fantástico e uma concorrência à altura da protagonista Portela do Homem. É uma sucessão de lagoas cristalinas, conhecidas como Lagoas da Mata da Albergaria, cada uma mais bonita do que a outra. Aqui já tinha mais gente mas, imagine-se, dias depois, quando a mana aqui passou, apanhou-as completamente vazias durante largas dezenas de minutos, tal como imaginei que apenas os soldados romanos o pudessem ter feito.

Logo a seguir invertemos caminho e passamos a seguir pela estrada de asfalto. Não há que lamentar, porém, não apenas porque o trânsito não é muito, mas também porque a estrada é lindíssima e igualmente protegida pela mesmíssima vegetação frondosa.

A Cascata da Portela do Homem, avistada desde a ponte, está cheia de gente. O acesso à lagoa e base da cascata, exclusivamente pelo lado esquerdo (pelo direito estava vedado), não é fácil e ainda estou para saber como é que pessoas mais velhas e outras com filhos de colo chegam lá abaixo. Talvez sejam essas que vêm nas notícias do dia seguinte, relatando os costumeiros acidentes nas cascatas do Gerês. Também não é fácil, já com os pés na água, percorrer as pedras escorregadias que nos fazem mergulhar na lagoa para onde jorra aquela que é das cascatas mais cénicas do Parque. Está compreendido o porquê do risco.

Parque Nacional Peneda-Gerês

O Parque Nacional Peneda-Gerês, criado em 1971 – a fazer 50 anos neste ano -, foi a primeira área protegida de Portugal e ainda hoje é o nosso único Parque Nacional. É enorme, quer em área quer em diversidade. Em territórios das antigas províncias do Minho e de Trás-os-Montes, abrange as serras da Peneda e do Gerês, sim, mas também as serras Amarela e do Soajo. Por aqui fica o segundo ponto mais alto do nosso território continental, o Pico da Nevosa, instalado a 1546m de altitude.

O Gerês, como carinhosamente nos referimos a toda esta realidade, possui uma riqueza única ao nível do património natural e cultural. Dominam serras, mas também rios, vales e cascatas. Campos de cultivo e pastagens. Vacas barrosãs, cavalos garranos e cabras-monteses. Homens que há muitos milénios para aqui vieram, desafiando o isolamento e as condições hostis da montanha deixaram-nos vestígios de antas, de castros, da geira (estrada romana) e de castelos. Ainda hoje perduram aldeias comunitárias e ideias como a branda e a inverneira, resquícios da transumância. A terra foi moldada em socalcos e os espigueiros são apenas mais um elemento que testemunha a ruralidade do Gerês.

Podemos demorarmo-nos indefinidamente a percorrer toda esta realidade e a tentar descobrir os seus segredos. Para isso, carro próprio é essencial. No entanto, embora não tivéssemos resistido a espreitar o miradouro da Pedra Bela (por mais voltas que se dê continua rei do Gerês e a estrada que nos transporta até lá rainha), desta vez optámos por nos dedicar às caminhadas, modo de chegar a lugares que de outra forma não podem ser conhecidos. Não se pense, porém, que assim se evitam as pessoas. Afinal de contas, o Gerês já não é segredo para quase ninguém.

Em posts seguintes andaremos, assim, pela Mata da Albergaria, Poço Azul, Cascata de Pincães, Cascata de Cela Cavalos e 7 Lagoas do Xertelo. Todos estes lugares possuem em comum piscinas naturais, pelo que num dia mais quente a sua natureza luxuriante será melhor aproveitada. Uma dica: em pleno Verão o calor poderá ser demasiado e a quantidade de água menor, pelo que os meses de Maio e Junho, após a época das chuvas, serão os melhores para se visitar este Gerês.

Pelo Trilho Castrejo

Os Montes Laboreiro, hoje mais conhecidos pela Serra da Peneda, são um dos lugares de Portugal que mais encanto produzem em mim. Sobretudo pela paisagem, sim, mas também pela cultura secular da qual chegaram testemunhos até aos dias de hoje. Em tempos andei por Castro Laboreiro e disso dei conta aqui.

Com a pandemia novos horizontes se abriram e o que me habituei a circundar de carro hoje adentro a pé, alcançando lugares, paisagens e ambientes que de outra forma não seriam possíveis perceber. Foi assim que surgiu a ideia da caminhada pelo Trilho Castrejo, percurso oficial de Melgaço (MLG – PR3), com 17 quilómetros pelos caminhos de transumância que outrora ligavam as brandas às inverneiras, um sistema de povoamento usado pelos povos castrejos que vale muito a pena conhecer e descobrir.

Antes de iniciarmos o Trilho Castrejo tal como está definido fizemos um desvio e subimos ao Castelo de Castro Laboreiro. O caminho até lá é fácil, cerca de 15 a 20 minutos para cada lado, indo por uma vertente do penedo e voltando pela outra, entrando e saindo por cada uma das portas do Castelo. Implantado num monte a 1033 metros de altitude (a vila de Castro Laboreiro está a 945 metros), neste miradouro natural para todo o planalto de Castro Laboreiro e montes escarpados que o rodeiam a vista é, está bom de ver-se, soberba.

Construído no século XII ou XIII sobre uma estrutura pré-existente, a muralha envolve dois espaços bem definidos. Um deles correspondia à povoação intramuros, a qual ainda na Idade Média abandonou o castelo altaneiro para se estabelecer mais abaixo, na vila que hoje conhecemos como Castro Laboreiro e que espreita para lá da muralha. Com o tempo o Castelo foi perdendo a sua importância estratégica, embora ainda tenha desempenhado um papel importante na Guerra da Restauração e na Guerra Peninsular. Realce-se, no entanto, que a ocupação humana do lugar do monte do Castelo é muito antiga, remontando ao Paleolítico e ao período castrejo, eram então os seus povos nómadas. Aliás, veremos adiante que uma espécie de nomadismo continua a ser prática na região.

Descemos do Castelo rumo à vila e desviámos breve até à face da Cascata de Castro Laboreiro, alimentada pelas águas do rio de mesmo nome. Chovia bem, mas não o suficiente para que pudéssemos confundir a água caída do céu com a torrente que cai em diversos patamares nesta falha nas rochas e que proporciona (mais) um belo espectáculo da natureza.

Atravessámos então a vila, conquistada por D. Afonso Henriques e logo integrada nos domínios do reino de Portugal, tendo recebido foral e sido elevada a sede de concelho em 1271, extinto em 1855 e hoje parte do concelho de Melgaço. O seu coração é a pequena praça onde encontramos a Igreja Matriz, o Pelourinho e o antigo edifício da Casa da Câmara. Instalada no planalto, o topónimo Castro Laboreiro deriva de “castrum” – povoação fortificada – e “lepporeiro” ou “lepus” (ou leporis, leporem, leporarium, lepporeiro, leboreiro) – palavra latina que significa lebre. Seria então a “fortificação das lebres”, talvez por existirem aqui muitos destes animais. Ou, palpitam ainda outros, derivará do “Castram Laborarum” dos romanos, de significado “acampamento de trabalhadores”. O que espanta na região é que desde sempre celtas, romanos, mouros e por fim os cristãos do reino de Portugal aqui tenham teimado em tomar assento, sobrevivendo às agruras do clima e da infertilidade do solo – daí a alusão aos trabalhadores. Ainda assim, têm demonstrado que é possível viver em comunhão com a natureza, adaptando-se e fazendo das previsíveis fraquezas a sua força.

Iniciámos oficialmente o Trilho Castrejo virando costas ao centro da vila de Castro Laboreiro e seguindo planalto afora. As fragas graníticas e os rochedos com formas cativantes marcam a paisagem típica da Peneda. A vegetação é rasteira, feita de tojo, carqueja, urze, com cores variadas que só o Outono sabe como fazer sobressair na perfeição. Este mato que aqui encontramos possui uma dupla função, servindo de alimento para o gado e mantendo alguma fertilidade do solo. Estamos no planalto, recordemos, e nas terras mais altas, as brandas, a fertilidade dos solos é ainda menor, pouco se produzindo, servindo as terras sobretudo para pastoreio e pastagens que aqui encontram alimento precisamente na vegetação rasteira referida.

À medida que abandonamos o planalto e descemos o vale do rio Laboreiro, com o monte do Castelo dominador à nossa esquerda, a paisagem e características do solo vão mudando. Somos transportados para um outro mundo, com um ambiente totalmente diferente. Primeiro aproximamo-nos de uma pequena lagoa com ponte (são às dezenas as pontes por estes caminhos), um lugar incrível, quase como se de um oásis na penedia se tratasse.

Depois continuamos a descer mas agora já não a céu aberto, antes totalmente imersos por um não menos incrível bosque. É o bosque de carvalhal do Barreiro e as palavras para o descrever nunca serão suficientes. Delicioso nas suas cores e tranquilo no seu recato, a dado passo os muros aparecem inteiramente cobertos de turfeira, de um verde tão intenso que parece irreal. É este musgo que faz reter a água e que juntamente com os rios e ribeiros que por aqui correm faz da zona baixa da região de Castro Laboreiro um mundo à parte em termos de fertilidade, num clima menos frio e numa terra menos pobre.

A piada e o interesse deste Trilho Castrejo está, precisamente nesta diversidade de paisagens que tem gerado ao longo dos séculos diferentes povoamentos. Ou melhor, um sistema de povoamento triplo: no planalto, nas brandas e nas inverneiras. Explique-se: este trilho segue pelos caminhos que ligavam as brandas às inverneiras, hoje ligadas por estradas asfaltadas mas há nem sequer um século apenas por caminhos medievais de calçada em pedra como este que percorremos agora (a estrada que liga Melgaço a Castro Laboreiro foi construída apenas na década de 1940). Os povos castrejos possuíam duas casas, uma nas brandas e outra nas inverneiras. Hoje, com as alterações climáticas e com o clima menos inclemente conseguem viver maioritariamente no planalto ou até nas brandas. Mas até há pouco tempo grande parte das famílias passavam os meses mais quentes nas encostas (brandas) e os meses mais frios nos vales (inverneiras). Nas brandas, situadas a maior altitude, faziam as sementeiras, como centeio e batata. Nas inverneiras, a mais baixa altitude e mais abrigadas, cultivavam-se os cereais e as frutas. Ou seja, o povoamento e exploração do solo varia conforme a época e o clima de modo a que o homem possa fazer o melhor uso da terra, trabalhando-a sempre que isso seja possível. Isto acontece um pouco por toda a Peneda, mas é aqui, em Castro Laboreiro, que assistimos a este sistema singular com maior evidência. Nos dias de hoje, porém, as pessoas têm vindo a fixar-se em permanência na vila de Castro Laboreiro, daí que, como alguém já se lhe referiu, esta seja a mais alta das inverneiras e a mais baixa das brandas.

Prosseguindo a nossa caminhada, aproveitámos para um lanche no inspirador bosque do Barreiro e atravessámos as inverneiras do Barreiro, Podre e Assureira. É à saída desta última aldeia que encontramos um belo postal que resulta do conjunto de um moinho junto à ponte. Até nos esquecemos que também a Capela de São Brás está ali. Em uso até há pouco tempo, alguns dos moinhos de água estão ainda bem conservados na sua fachada em granito e são uma expressão da arquitectura tradicional local.

Estamos já no ponto mais baixo do nosso trilho, a cerca de 750 metros de altitude. É nele que fica uma das pontes mais importantes e pitorescas da região e até de todo o Parque Nacional Peneda-Gerês. Classificada como Monumento Nacional, a Ponte da Cava Velha foi construída na época romana, embora tenha sido restaurada na época medieval. O facto de ser também designada por Ponte Nova faz crer que por aqui tenha existido uma outra ainda mais antiga. À semelhança de outras, o seu tabuleiro é em arco, mas maior. Na verdade, são dois os arcos que nos transportam até à outra margem do rio Castro Laboreiro.

E depois disso, atravessada a Ponte da Cava Velha o caminho brinda-nos com uma longa subida. A beleza agreste do lugar, mesmo com chuva e tempo nublado, reconforta no esforço. Os penedos e rochas não param de surpreender mas a forma de uma delas, em especial, supera tudo. O Bico do Patelo é irreal, como se um pássaro tivesse pousado à beira de um penedo e ali se tivesse quedado petrificado.

Vamos vendo o Bico ao longe, atravessamos a inverneira de Curveira já a preparar a lenha para os dias frios que aí virão, continuamos a subir por entre as pedras e ficamos mesmo debaixo da magistral formação rochosa. Aqui não podemos deixar de soltar um lamento pelo céu nublado não nos permitir registar na perfeição o fantástico enquadramento da aldeia com o Bico. Como pode um cenário ser tão grandioso mesmo com uma visibilidade tão má? E como pode a natureza moldar uma pedra de forma tão formosa?

Depois desta subida encontramos um terreno fácil e relativamente plano em terra batida. Um pouco para lá do ponto mais alto da nossa jornada (1090 metros de altitude) ficam algumas das brandas, como Padrosouro, junto à qual passámos sem entrar (e ainda mais escondidas nas montanhas ficam Seara, Eiras, Portos e Curral do Gonçalo).

Daqui iniciámos uma descida por mais um caminho de calçada de pedra, no que podia muito bem ser um rio com um fio de água. Avistam-se alguns pequenos prados verdejantes. Mas a melhor vista é para a inverneira de Cainheiras, um pequeno conjunto de casinhas de granito rodeadas de um manto verde entrecortado por uma fina e ondulante risca de asfalto, enquanto os penedos assistem a este espectáculo na fila de trás.

Antes de chegar a Castro Laboreiro ainda passámos pela ponte e povoação de Cainheiras e pela povoação e ponte de Varziela. Nesta última, junto ao ribeiro Corga das Lapas uma minúscula cabine está instalada num terraço verde com uma frente ribeirinha privativa. Um luxo. Mas voltam a ser as cores a ganhar protagonismo, fazendo questão de se sobrepor ao cinzento da paisagem.

À chegada a Castro Laboreiro temos a vista que nos faltava da sua cascata, agora no lugar cimeiro dos seus vários patamares e igualmente impressionante.

E podemos, finalmente, repousar desta enorme caminhada pela paisagem e cultura das aldeias de montanha dos Montes Laboreiro.

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Trilho da Peneda

Às vezes é bom visitar os lugares em dias de chuva. Visitada a Peneda no Verão, perceber-se-á a cascata que jorra água pelo penedo abaixo que serve de encosto ao seu Santuário?

Foi precisamente essa a imagem que nos tocou ver no início desta caminhada de 11 quilómetros designada por Trilho da Peneda, já no concelho de Arcos de Valdevez. O que acontece é que a chuva miudinha não nos largou durante toda a manhã e, pior, a nebulosidade era muita. Mas mesmo com pouca visibilidade seguimos adiante no nosso propósito e subimos os últimos patamares da escadaria do Santuário de Nossa Senhora da Peneda.

O culto mariano neste lugar tem 800 anos, quando, diz a lenda da Peneda, Nossa Senhora aqui terá aparecido a uma criança que pastoreava cabras e, após curar uma mulher de um caso já dado como perdido, lhe terá dito para pedir aos habitantes da Gavieira (sede da actual freguesia da Peneda) para erigirem uma ermida. O Santuário é, todavia, mais recente, tendo sido construído nos séculos XVIII e XIX. A escadaria das virtudes é a grande atracção cénica e formal, com estatutária representando a Fé, a Esperança, a Caridade e a Glória.

Nas costas do Santuário fica a carismática Fraga da Meadinha. A parede da Meadinha tem vindo a ser escalada por portugueses e sobretudo galegos desde a década de 1940 e é hoje a única onde se pode escalar legalmente no Parque Nacional da Peneda-Gerês. São 59 as vias de escalada desta fraga. Mas nós, apesar de a termos subido também, não o fizemos através de uma ascensão vertical, antes pelo bosque que a atalha mais suavemente. Apesar da nebulosidade intensa, as cores do bosque fizeram questão de se exibir. O penedo, esse, como é cinzento como a cor daquele dia, é que foi mais difícil de perceber em toda a perfeição. Ainda assim, conseguimos ver a água a rolar por entre as frechas da rocha, a tal que se transforma em cascata quando a queda surge mais abrupta nas costas do Santuário.

A subida é algo cansativa, indo dos 665 metros aos 1095 metros em apenas 3,7 quilómetros. Mas a quase 1000 metros temos um lago com uns reflexos incríveis, uma espécie de resistência à desfeita do clima. Conhecido como “pântano”, no lugar de Chã do Monte havia uma represa que servia uma mini-hídrica que fornecia energia eléctrica à povoação da Peneda. Hoje resta a água, com um belo rochedo no meio, circundada pelo granito que permite que uma vegetação rasteira verdíssima dele se apodere nas margens do lago.

O caminho prossegue por um campo de pedras com formas diversas. É basicamente um trilho sobre pedras, em que podemos saltitar de umas para as outras. Os afloramentos rochosos são fantásticos.

E vemos árvores negras despidas, outras inclinadas. O clima não perdoa. Indiferentes a ele, as vacas barrosãs e os cavalos garranos seguem nas suas vidas. Surpreende ver uma vaca descobrindo alimento mesmo em cima de um penedo. Outras passeiam juntas e assustam-se à nossa passagem, talvez não esperando que uns malucos caminheiros ali aparecessem com um tempo destes.

Os últimos 4 quilómetros do trilho são sempre a descer e o último segue pela estrada. À aproximação da aldeia da Peneda vemos uns prados com um tapete de um verde intenso, apenas perturbado pelos muros de granito que dividem as pequenas propriedades.

A cor é garantida pela chuva, sim, mas também por se situar na margem do rio da Peneda. Neste ponto o rio não parece correr muito tranquilo, encontrando no seu caminho uma série de pedras que tem de ultrapassar por vezes com alguma fúria. Na terra da pedra, não podia faltar um imenso monólito que servirá de arrumos – é ver a porta de madeira que lhe foi adossada.

Neste trilho da Peneda estão praticamente todos os elementos característicos do Parque Nacional da Peneda-Gerês: cascata, lagoa, rio, penedos, bosques, fauna, aldeias, espigueiros e socalcos. Na vizinha freguesia do Sistelo podem estar os socalcos mais conhecidos do Parque, mas estes da Peneda possuem um encanto muito próprio. E, junto ao Santuário, são uma bela forma de terminar este passeio pela natureza e modos de vida da serra, com mais um grande exemplo de como o Homem soube aproveitar as dificuldades dos terrenos para os transformar, vencendo engenhosamente os desníveis de forma a obter para si a maior área de terra possível para a agricultura, garantindo a sua subsistência e sobrevivência.

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Pela Penedia de Lamas de Mouro

Lamas de Mouro é uma aldeia no concelho de Melgaço e uma das portas oficiais do Parque Nacional Peneda-Gerês. Do centro recepção, que é também um lugar de recreio com um bosque de uma qualidade cénica incrível, parte um trilho circular de cerca 14 kms de dificuldade moderada pelos penedos graníticos da serra.

Logo nos primeiros metros, ainda antes de iniciarmos a subida serra adentro, uma pequena cascata aguarda-nos, lembrando-nos que nestas paragens nunca estamos muito longe de um rio ou ribeiro. A água, em especial o seu correr tranquilo e o som que transporta, é uma presença reconfortante.

A subida, embora um pouco longa, não é difícil. Começámos por nos distrair apreciando Lamas de Mouro ao fundo na encosta. Por enquanto está à distância de um olhar distante, mas havemos de a atravessar no regresso à Porta mais a norte do nosso único parque nacional, distante dela quase 2 quilómetros.

A distracção prossegue tentando imaginar o que nos sugere a forma dos inúmeros blocos graníticos da serra. Podem ser uns dedos, uma cabeça ou qualquer outra coisa para onde guia o nosso pensamento já imerso em pura evasão.

Mas eis que, rompendo o cinzento granítico, surgem as cores do Outono. A vegetação rasteira em tons verdes, castanhos, amarelos e vermelhos antecipa a entrada num lindo bosque de vidoeiros. Se até aqui lamentávamos o facto de o dia estar nublado e chuvoso, no meio deste bosque – e de outros que se seguiriam nos dias seguintes – este clima agreste e mais inóspito faz todo o sentido. É ele que lhe dá esta paleta e todo o carisma.

O Pico da Fanqueira, a 1175 metros de altitude, surge em destaque diante de nós, uma série de pedras que parecem ter sido empilhadas propositadamente para o fazer mais alto e elegante. Nós, porém, caminhamos um pouco mais baixo, a apenas 1097 metros, ainda assim mais alto do que o planalto Castro Laboreiro que agora nos toca avistar. O cenário é fabuloso. Não apenas pelas imagens que nos são oferecidas, mas também pela sensação de estes serem caminhos pouco pisados por outros que não alguns dos seus habitantes que ainda mantém uma vida dura de trabalho da terra. Mas nós não, nós estamos aqui por prazer e à dureza da vida daqueles que são nossos anfitriões mostramos respeito.

Na área de lazer de Veigas, à entrada da povoação de Várzea Travessa, fazemos uma paragem para um lanche numa das mesas junto à antiga casa da Guarda Florestal.

As vacas barrosãs a pastar livremente e os cães Castro Laboreiro (alguns presos, mas muitos docilmente à solta) cruzam o nosso caminho.

Há algumas povoações rente ao nosso percurso, mas apenas atravessaremos Portelinha. E Espanha é logo ali, talvez a menos de 50 metros de determinado ponto do nosso trilho junto ao rio Trancoso, por um caminho medieval por onde seguimos acompanhados por mais umas deliciosas cores de Outono. Foi esta fronteira imperceptível de diferença em termos paisagísticos que levou o escritor minhoto José Augusto Vieira a escrever “De cá nós! De lá vós!”.

Lamas de Mouro já não está distante e em breve a atravessaremos. O lugar é de povoamento muito antigo, como o atestam vestígios de dolmens e da cultura castreja. Diz-se que no século IX aconteceu aqui uma batalha contra os mouros, que estes perderam. Mas o nome, que é também nome do rio que por aqui passa, ficou: “Mouro”. Já “Lamas” virá das características do solo, cheio de lamas, pastagens de gado com água. Outros dizem que o nome “Lamas” derivará das lágrimas derramadas pelos mouros na dita batalha, que terá sido sangrenta. Seja como for, ficou Lamas de Mouro, aquela que no século XIV se terá tornado um couto da Ordem do Hospital e que durante muito séculos serviu de retaguarda à protecção do Castelo de Castro Laboreiro na defesa dos ataques inimigos na linha de fronteira.

Em Lamas de Mouro as vacas caminham ao nosso lado nas ruas pejadas de edifícios de granito onde muitos ainda reservam o primeiro piso para as guardar. As alminhas são outro dos seus elementos característicos.

Mas é a paisagem, sempre ela, que continua a surpreender-nos. Nesta foto se condensa muita da realidade da Serra da Peneda.

Prosseguindo caminho, à saída de Lamas de Mouro ainda somos brindados como a beleza sensível e pacata de um moinho muito bem conservado à beira do rio de Mouro, ao qual não falta sequer a companhia de uns esbeltos e distintos cogumelos.

Logo a seguir aparece a Ponte Romana de Porto Ribeiro. Atravessado o seu delicado arco seguimos os últimos metros da nossa caminhada sempre junto ao Rio de Mouro até ao centro de recepção das Portas de Lamas de Mouro. Já o havíamos antecipado logo no início deste texto, o seu bosque é belíssimo, a lembrar o Covão da Ametade, na Serra da Estrela. O curso de água rola tranquilo por entre um verde luxuriante, produzindo reflexos incríveis. Uma daquelas imagens que certamente nos acompanhará durante toda a nossa vida.

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Aquafalls

O Hotel Aquafalls é o primeiro hotel rural de 5 estrelas. Aberto em 2008, localiza-se em pleno Minho, às portas do Parque Nacional Peneda-Gerês, no lugar de S. Miguel da Caniçada.
O seu enquadramento paisagístico é fantástico. Todos os quartos são virados para norte, de forma a ser possível usufruir da vista lindíssima e desafogada para o rio Cávado, que tem a montante a albufeira da Caniçada.


Os quartos são distribuídos por bungalows (cada com 2 quartos), com uma arquitectura harmoniosamente inserida na paisagem.

O interior é espaçoso, com design e muito confortável. Destaca-se a cama king size e a banheira, óptima para um relaxante banho de imersão com vista para a paisagem.

A vista pode ser desfrutada também da simpática varanda.
No restaurante do hotel, Splendid, que tem assessoria do chef Chakall, pode-se degustar uma óptima refeição, onde os pratos tradicionais têm uma nova recriação.

Ainda que não tenha dado para aproveitar ao máximo, por contingências climáticas, destaca-se a piscina exterior e o seu deck, com um enquadramento excepcional.

Dá a ilusão que o plano de água da piscina tem ligação com o rio. Talvez por ser tão fantástica é a imagem de marca do hotel.

Se estivermos na piscina interior, inserida no spa, outra das valências do hotel, essa continuidade entre planos de água é triplicada.

Por tudo o referido, este hotel constitui uma óptima escolha, ainda mais se se obtiver uma das promoções que hotel costuma fazer, para descansar, relaxar e namorar.

Pelo Gerês – Espigueiros

Já na Serra do Soajo ficam as povoações com o mesmo nome – Soajo (concelho de Arcos de Valdevez) – e Lindoso (concelho de Ponte da Barca), esta última na fronteira com a Serra Amarela.
Ainda que Soajo tenha diversas casas de pedra recuperadas e uma agradável praça principal onde se situa o seu Pelorinho (para além do seu passado histórico de sempre haver reconhecido o rei de Portugal como seu líder, ao contrário de outras localidades que preferiam a liderança espanhola), e Lindoso possua igualmente como ponto alto o seu Castelo, ambas as povoações ganham grande relevo pela sua “colecção” de espigueiros.

Os espigueiros predominam sobretudo no norte de Portugal e servem para secar o milho, protegendo-o de um duplo perigo: intempéries e roedores. Daí o seu desenho rectangular alongado com fendas laterais, para arejar o milho (que é colhido no Outono e secado no Inverno), numa estrutura de pedra elevada para evitar os ratinhos. No topo possuem, normalmente, uma cruz para que o divino possa proteger os cereais. Por tudo isso, a mim fazem-me lembrar os túmulos que os romanos utilizavam para proteger os seus mortos.
Independentemente de algumas moradias disporem dos seus próprios espigueiros, a maioria destes exemplares estão instalados nas eiras comunitárias, reforçando o intenso espírito de comunidade muito presente nesta zona do país (atente-se, a este propósito, o forno comunitário de Tourém, na parte trasmontana do Gerês).

No caso do Lindoso são cerca de 50, bem junto ao Castelo, datados dos séculos XVII e XVIII, muitos deles ainda utilizados pelos seus habitantes.

No Soajo a eira comunitária tem 24 espigueiros, o mais antigo datado de 1782.

O certo é que, tanto no Soajo como no Lindoso, os espigueiros encontram-se pitorescamente dispostos, daqui resultando um autêntico museu destas formas.

Pelo Gerês – Júnias

A povoação de Pitões das Júnias pertence, tal como a Ponte da Misarela, ao concelho de Montalegre. Aqui e ali possui alguns edifícios bem conservados mas o destaque vai para a sua localização isolada. Olha-se por todo os lados e a rodeá-la só encontramos a paisagem monotonamente encantadora da Serra do Gerês, mais concretamente das terras do Barroso.

Mais isolado ainda e quase que escondido fica o Mosteiro de Santa Maria das Júnias. Este é um local bem improvável para darmos de caras com tal monumento, mas é isso que acontece se seguirmos (de carro) uns 2 km além do cemitério da povoação. Este mosteiro beneditino, talvez pelo local distante e ermo em que foi implantado, conserva ainda a sua configuração e ainda que possamos desejar que estivesse melhor cuidado e recuperado, não deixa de ser uma verdadeira surpresa que tenha chegado até aos nossos dias com as paredes e telhado da igreja intactos e que as ruínas adjacentes nos dêem uma leitura do que terão sido os seus claustros e serviços de apoio. Estima-se que 1147 tenha sido a data da fundação deste mosteiro, bem juntinho ao Ribeiro do Campesinho.

Aliado à vertente histórico-cultural, vale igualmente a pena caminhar pelas imediações do Mosteiro, num percurso fácil mas a espaços cansativo, até ao miradouro da Cascata de Pitões. A água que jorra em abundância pelas paredes da montanha compensa os inúmeros degraus de um recente passadiço em madeira que nos guia até ao local.