Oliveira de Azeméis

A nobre e antiga povoação de Oliveira de Azeméis, cidade desde 1984, está há muito nas rotas de ligação entre o norte e o sul, litoral e interior. É hoje uma cidade moderna que soube manter o seu património histórico, resultado dos vários povos que por ela passaram, e acrescentar-lhe outro tanto. Parte da Área Metropolitana do Porto, mantém-se no caminho, mas obriga-nos a demorar, para melhor a conhecer.

Passadiços do Pindelo

A actual Oliveira de Azeméis (OAZ) era um dos ponto na via militar romana que ligava Lisboa a Braga, sendo lugar de paragem e descanso nas longas viagens – o Marco Miliário da Milha XII, hoje diante da igreja matriz, testemunha-o. Foram os mouros, porém, que marcaram o seu topónimo, por entre os séculos VII e X ter sido uma alcaria de moçárabes e berberes, remetendo para o facto de ter havido aqui uma colónia de almocreves (=azemel, aquele que conduzia azémolas). Na época da Reconquista Cristã, foram os vários mosteiros na região os responsáveis pelo seu povoamento, a que não foi alheia a fertilidade destas terras, com diversos cursos de água que irrigavam os campos e serviam de força motriz para a moagem dos cereais. No entanto, apenas em 1779 foi elevada a vila e só em 1855 ficou o concelho completo, passando a agregar as freguesias do entretanto extinto concelho da Bemposta.

OAZ – Casa dos Corte Real ou Reis Vasconcelos

O centro histórico de OAZ é pequeno e muito agradável de visitar. Com algumas casas nobres, diz a história que numa delas alojou-se D. Pedro V no seu caminho para o norte. A de maior destaque é a Casa dos Corte Real ou Reis Vasconcelos, do século XVII, em estilo tardo-maneirista e com capela adossada à fachada, marcada por uma equilibrada escadaria.

OAZ – Câmara Municipal
OAZ – Casa Bento Carqueja

Nascido na vizinha Ossela, esta é a terra de Ferreira de Castro, o autor de “A Selva” e do excelente, por tocante, “A Lã e a Neve”. No Largo da Câmara Municipal, os muros da antiga Casa Bento Carqueja, outro dos grandes nomes da terra, como que prestam homenagem ao melhor de OAZ.

OAZ – Rua Bento Carqueja
OAZ – Rua Bento Carqueja
OAZ – Rua Bento Carqueja
OAZ – Igreja Matriz de São Miguel

A curta rua pedonal que nos leva até à Igreja Matriz de São Miguel (maneirista, do século XVIII) mostra-nos uma cidade orgulhosa de si, com apontamentos decorativos que a valorizam ainda mais.

Parque de La Salette – miradouro
Parque de La Salette – Capela
Parque de La Salette
Parque de La Salette
Parque de La Salette
Parque de La Salette
Parque de La Salette
Parque de La Salette

Sobranceiro à cidade de Oliveira de Azeméis encontramos o Parque de La Salette. No cimo de um monte, antigamente conhecido por Monte do Castro ou do Calvário, por aí haver um cruzeiro, este é um miradouro natural, com grandes vistas para toda a região envolvente. Mas é também o lugar de um santuário e de um parque de lazer. Já centenária, a Capela de Nossa Senhora de La Salette foi construída na sequência de uma promessa feita à santa em caso de chuva. A chuva veio e a capela foi inaugurada em 1880, embora tenha sido mais tarde substituída pela actual, maior e em estilo gótico revivalista, com rosácea e vitrais. Em 1909, começaram os trabalhos para a criação do parque. Com 17 hectares, este parque arborizado e ajardinado ao estilo romântico tem um coreto, um chafariz, uma gruta artificial, um lago e uma série de caminhos para serem percorridos. É um lugar fresco e sereno e apontamentos como os bancos e os troncos retorcidos das árvores tornam o parque agradável para os sentidos.

Passadiços do Pindelo
Passadiços do Pindelo
Passadiços do Pindelo – ruína

Igualmente ideais para um momento de evasão, aí estão os Passadiços do Pindelo, inaugurados no Verão de 2025. Percorrem parte das margens do rio Antuã, num lugar tranquilo onde teremos a companhia do som da água a correr e a cair e do chilrear dos pássaros. Pelo caminho, totalmente envolvidos pela natureza feita de vegetação cerrada, passamos por pontes, açudes e cascatas, bem como pela ruína de uma antiga fábrica de papel instalada à beira do rio. Veem-se ainda alguns campos cultivados na outra margem, possível pela fertilidade que as águas deste rio dão à região, havendo por aqui uma antiga levada que servia de transporte dessa água para as terras.

Passadiços do Pindelo – cascata do Outeiro
Passadiços do Pindelo – Pedra Má

O percurso até à Cascata do Outeiro, a mais bonita e antecedida por uma espécie de lagoa natural, é curto e fácil, 1,5 kms para cada lado. Mais adiante está a Pedra Má, uma parede rochosa vertical que se presta à escalada com mais uma cascata na base. Que a palavra “passadiços” não afugente os mais puristas deste lugar: eles não nos pareceram intrusivos, antes ajudaram a descobrir e desfrutar de um espaço com respeito pelo seu ambiente natural.

Parque Molinológico de Ul
Parque Molinológico de Ul
Parque Molinológico de Ul
Parque Molinológico de Ul
Parque Molinológico de Ul

A sul da cidade de Oliveira de Azeméis está o Parque Molinológico de Ul, um projecto da autarquia onde foram recuperados moinhos de água, resultando num parque temático com vocação turística, mas sobretudo didática, por forma a passar o conhecimento de um saber-fazer tradicional. Está instalado à beira do rio Ul, que em breve se juntará ao rio Antuã, e ambos são os grandes responsáveis pela vocação agrícola da região, sendo o moinho de água o seu protagonista principal. Para o efeito, foram recuperados vários moinhos de água – só aqui existem 11 -, que se dedicavam à moagem de cereais e fabrico do pão, atividade com mais de 200 anos. Neste “museu vivo” existem diversos núcleos, um deles o Núcleo Museológico do Moinho e do Pão, e podemos assistir à moagem dos cereais e às padeiras a confeccionar o tradicional pão de Ul, que, claro, pode ser aqui adquirido. Não resistimos a provar este pão tradicional, um pão feito de farinha de trigo, apenas com fermento, água e sal, e obtido manualmente pela união de dois pequenos pedaços de massa arredondados. Decisivo é o facto de ser feito no forno a lenha, daí resultando um sabor único. A provar, ainda, a regueifa doce, outro símbolo de Ul.

Bemposta – Casa do Arco
Bemposta
Bemposta – Fonte

A curiosidade e o desejo de conhecer e escrever sobre todos os concelhos portugueses, leva-nos a preparar o que visitar previamente, ainda que sem muita profundidade, deixando que o lugar nos surpreenda. Ora, foi precisamente isso que aconteceu ao passarmos pela Bemposta, na freguesia mais a sul do concelho de Oliveira de Azeméis. E o património desta povoação, na verdade uma estrada, é precisamente o tipo de edifícios / testemunhos históricos – seculares, nobres e com brasão, em ruína ou a caminho disso – que mais gostamos de descobrir. A nossa passagem pela Bemposta foi, por isso, uma enorme surpresa e perguntamo-nos o porquê de o lugar não estar mais divulgado e bem preservado.

Bemposta
Bemposta
Bemposta – Casa de São Gonçalo

Quando ainda tomava o nome de Figueiredo, passava na Bemposta um troço da estrada que unia Talábriga (Aveiro) a Lancóbriga (Feira), parte da Via Militar Romana (milha XXIX). Implantada no vale do rio Vouga, o nome Bemposta deve-se à sua bonita e elevada posição, donde se obtém uma vista para a Ria de Aveiro e Atlântico, embora não a tenhamos percebido. O que percebemos, sim, é que a designada Estrada Real, que ligava as mais importantes cidades do reino, preserva ainda a aura e o ambiente dos tempos em que a Bemposta foi considerado um dos mais importantes municípios da comarca da Estremadura, conforme deixado escrito numa publicação de 1527. Sede de concelho entre 1514, ano em que D. Manuel lhe atribuiu foral, e 1855, quando foi extinto pelas reformas liberais, foi seu donatário Pedro António de Meneses Noronha de Albuquerque, o conde de Vila Verde e marquês de Angeja.

Bemposta – Casa da Câmara e Cadeia e Pelourinho
Bemposta
Bemposta

Na curta via numa posição elevada face ao centro da hoje sede de freguesia, Pinheiro da Bemposta, vemos desfilar uma série de edifícios construídos entre o século XVI e os finais do XVIII: Casa do Arco (ruína), a Fonte entre estradas, a Quinta de São Gonçalo (com capela e portão do pátio de honra) o edifício dos antigos paços do concelho e cadeia (sede do pode administrativo e judicial), o pelourinho (de 1514, data do foral) e mais alguns edifícios com brasão. É, em resumo, um pequeno núcleo cheio de casas históricas e senhoriais.

Pinheiro da Bemposta – Casa dos Melos
Pinheiro da Bemposta – Cruzeiro
Pinheiro da Bemposta – Casa de Brasileiro

Mais adiante, chegadas ao Pinheiro da Bemposta, mais uma casa brasonada, a Casa dos Melos ou Casa do Cruzeiro. Alusão, certamente, ao Cruzeiro do Pinheiro da Bemposta, aí perto, classificado como Monumento Nacional. Foi construído em 1604, alpendrado e em estilo maneirista e rococó, usual no distrito de Aveiro. Ao seu lado está uma típica Casa de Brasileiro, de um emigrante que retornado de além mar depois de aí ter feito fortuna decidiu construir um destes elementos arquitectónicos que também não são raros por estas paragens, que viram muitos dos seus procurarem o Brasil nos finais do século XIX em busca de uma vida melhor (lembre-se que Ferreira de Castro é também um excelente exemplo deste fenómeno migratório). A destacar, ainda, o igualmente secular edifício da Sociedade Musical Harmonia Pinheirense e o edifício da Estação de Malaposta do Curval, que foi uma das 32 estações que serviam de alimento e descanso das mulas que acompanhavam as diligências que seguiam do Porto a Lisboa. Tempos que já lá vão, mas que gostamos de recordar através dos testemunhos que ficaram.

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