Terceiro dia pelo Alentejo Central

“Ó minha terra na planície rasa
Branca de sol e cal e de luar
Minha terra que nunca viste o mar”

Minha Terra – Florbela Espanca


O amanhecer do terceiro dia pelo Alentejo Central deu-se no tranquilo e bem restaurado Solar dos Mascarenhas, em Vila Viçosa. 

Vila Viçosa deve o seu nome à fertilidade das suas terras, não apenas em termos agrícolas, mas também ao mármore que dai brota.



Terra de Florbela Espanca e Henrique Pousão, esta vila graciosa teima em recordar estes dois artistas superiores um pouco por cada canto, seja em placas anunciando “aqui viveu” seja em estátuas na praça central.








São muitas as igrejas e conventos de Vila Viçosa, mas ela é feita sobretudo de ruas estreitas com casario imaculadamente branco, onde as características listas alentejanas estão igualmente presentes. O amarelo domina, mas o azul também faz questão de aparecer.





Os pormenores pitorescos são inúmeros e alguns edifícios possuem fachadas mais ricas, recordando a nobreza que se estabeleceu ao redor do Paço Ducal.




As laranjas de Dezembro são, porém, as rainhas na decoração da vila. Estão por todo o lado, mas é na Praça da República e pela sua Avenida Bento de Jesus Caraça que realizamos que Vila Viçosa é um laranjal.




Esta sua praça principal é melhor compreendida desde as muralhas do castelo. 
Foi com a construção de um ermitério por parte dos monges Agostinhos e posterior construção do castelo, no século XIII, no reinado de D. Dinis, que Vila Viçosa deixou de ser um lugar dependente de Estremoz. 


O castelo, lugar intra-muralhas de umas poucas casas e da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (fundada por D. Nuno Álvares Pereira, outra das figuras maiores da vila – casou a sua filha com o rei D. João I -, e onde encontramos a imagem da padroeira de Portugal), foi residência dos Bragança, a família nobre mais importante do reino – “depois de vós, nós” -, que viria ela própria a reinar séculos mais tarde, até à inauguração do Palácio Ducal.

Este evento foi decisivo na vida da Vila.

Em 1501 foi dado início à construção do Paço Ducal, cuja obra continuou por mais de um século até ser concluída, e a fixação da Casa dos Duques de Bragança acabou por criar uma nova urbe, com a consequente construção de igrejas e conventos e muita animação e presença de figuras ilustres à volta da família ducal.
Foi D. Jaime, o quarto duque de Bragança, o grande impulsionador do Paço, mas viria a ser o oitavo duque desta casa aquele que ganharia maior projecção na história de Portugal quando a 3 de dezembro de 1649 daqui saiu para ser aclamado rei em Lisboa e fundar a quarta dinastia portuguesa. 

D. João IV e seu cavalo está hoje imortalizado em estátua no centro do imenso Terreiro do Paço de Vila Viçosa. Assim como imensa é a fachada tardo-renascentista do Palácio Ducal, a maior da arquitectura civil portuguesa. São 110 metros de comprimento de mármore preto e branco da região, uma frontaria em estilo italiano que respira elegância e delicadeza em cada centímetro. 



A visita ao Palácio é obrigatória. Por mais palácios que estejamos habituados a visitar, em Portugal ou no estrangeiro, este Palácio não deixa de nos surpreender pela beleza dos seus tectos, frescos, mobiliário, tapeçarias e pinturas. A escadaria que parece suspensa é encantadora. A capela é magnífica. E a cozinha, então, é um deslumbre de cor pelos mais de 600 utensílios em cobre da sua colecção.


Do Paço Ducal de Vila Viçosa saiu, em 1 de Fevereiro de 1908, o rei D. Carlos para morrer no Terreiro do Paço de Lisboa. O regicídio viria a trazer, dois anos mais tarde, o fim da monarquia e subsequente implantação da República. O Palácio Ducal de Vila Viçosa entraria então num período de ocaso até reabrir as suas portas nos anos 40, já propriedade da Fundação Casa de Bragança. 




Se entrarmos pela porta principal do Palácio no início da visita, esta terminará após uma delicada passagem pelo claustro e por alguns dos seus jardins que nos fará sair pela curiosa Porta dos Nós. Do outro lado da estrada fica a Tapada Real, a qual se estende para lá dos limites do concelho de Vila Viçosa. 

Voltando ao Terreiro do Paço, outros dois edifícios merecem aqui destaque. 


Um, o barroco Convento e Igreja dos Agostinhos, panteão dos duques de Bragança. 



Outro, o Convento e Igreja das Chagas, construído para ser panteão das duquesas de Bragança que acabou por ser ocupado pelas clarissas de Beja e hoje é a Pousada D. João IV. O claustro deste convento é imperdível e transmite uma tranquilidade imensa. 

Deixada Vila Viçosa seguimos para Redondo, com passagem pela bonita Bencatel, uma das freguesias da primeira destas terras conhecida pela extracção de mármore e agricultura. 

Redondo estende-se hoje no sopé de uma rocha onde se ergue a Torre de Menagem e restos da muralha. É aqui que podemos conhecer a Porta da Ravessa, nome que nos faz recordar ser esta uma das principais regiões vitivinícolas, e a curiosa entrada principal no castelo com relógio de sol, na chamada Porta do Postigo. 





De Redondo até Estremoz todo um novo mundo se nos apresenta. A monotonia da planície alentejana que nos habituámos a ter por companhia nestes três dias dá lugar de forma abrupta à ondulação da Serra de Ossa


Pela estrada vamos rodando com o carro por subidas e curvas, uma novidade. O seu ponto mais alto fica a 653 de altitude, mas toda a paisagem da Serra foi ideal para refúgio dos muitos monges eremitas que por aqui passaram ao longo de quase o último milénio. Construíram inúmeras grutas, antas e mosteiros, mas o Convento de São Paulo, do século XV, é destaque absoluto por estas paragens. D. Sebastião passou por aqui antes de morrer em Alcácer Quibir e Catarina de Bragança veio para aqui depois de enviuvar de Carlos II de Inglaterra. Hoje um hotel, abriga uma das maiores e melhores colecções de painéis de azulejo.


A Serra de Ossa é, pois, um lugar sagrado. Mas é o verde e as suas muitas espécies arbóreas (sobreiros, azinhos, pinheiros, oliveiras, laranjeiras e medronheiros) que fazem dela o pulmão da região.  

A majestática Torre de Menagem de Estremoz, no cimo de um outeiro, é o grande destaque na planície à medida que nos aproximamos da nossa última paragem. Iniciamos, porém, a visita a esta histórica vila branca e do mármore pela zona baixa por onde se estendeu esta urbe medieval. 


O Rossio de São João é monumental na sua dimensão. Pena que sirva de parque de estacionamento. À sua volta foram surgindo casas nobres e monásticas. 



Alguns exemplos, o Convento das Maltesas, antigo hospital, com a sua fachada com frontão manuelino, Escudo Real encimado pela Cruz de Malta e pela Cruz de Cristo e duas esferas armilares a ladearem-no. Tudo isto esculpido em mármore.


O Convento dos Congregados


E o antigo convento e Igreja de São Francisco


O Café Águias d’ Ouro, construção de 1909, é um elemento que rompe com o equilíbrio de todos estes edifícios anteriores. Com fachada com azulejos arroxeados, cinco varandins e duas janelas geminadas, esta é uma fantasiosa e imaginativa criação do seu original proprietário, com inspiração na Arte Nova.


Ainda no centro, um pequeno lago com a alcáçova lá em cima como protectora possui uma escultura no centro a simbolizar Saturno, o deus romano das colheitas. Mas este é popularmente conhecido como Gadanha devido à alfaia que traz na mão direita e que, diz-se, tanto simboliza o acto da colheita como a morte ceifando a vida. 

O restaurante e mercearia Gadanha é uma boa opção para almoçar, numa interpretação contemporânea da cozinha regional.



Subimos, então, até à cidade amuralhada de Estremoz. E apreciamos de perto, enfim, a elegância dos 27 metros da Torre de Menagem, toda em mármore. No seu terraço estão esculpidas as três coroas dos reinados que viram a sua construção: os de D. Afonso III, D. Dinis e D. Afonso IV. No entanto, devido ao mau tempo que se fazia sentir, foi impossível a subida ao seu topo, com entrada pela Pousada Rainha Santa Isabel. 




Mas do Terreiro onde está implantada a Torre, a vista para a vasta planície alentejana faz do local um miradouro fantástico, com a Rainha Santa Isabel como guardiã. D. Dinis passava por aqui amiúde e a Rainha Santa aqui acabou por falecer.




Dentro das muralhas desta fortaleza encontramos ainda a Casa da Câmara ou da Audiência e a Igreja de Santa Maria, bem como várias portas e janelas manuelinas. 

O Museu Municipal de Estremoz também fica no bairro do castelo. Aqui se apresenta a reconstituição de divisões das casas alentejanas, como quartos e cozinhas, com mobiliário e utensílios regionais, com destaque para um oratório que seduziu até José Saramago. 


Mas é a colecção dos tradicionais bonecos de barro de Estremoz o ex-libris deste espaço museológico. Recentemente distinguidos pela Unesco como Património Cultural Imaterial da Humanidade, esta colecção foi reunida por Júlio Reis Pereira, tendo sido adquirida pelo município. Estes bonecos, com mais de trezentos anos de história, sempre mantendo as mesmas técnicas artesanais, representam cenas do quotidiano, presépios, procissões, o que calhar. A oficina Ginja, na rua à frente da entrada do castelo, é uma das que ainda se dedica a esta arte popular


Para terminar este périplo pelo Alentejo Central, uma informação acerca do nome Estremoz: diz a lenda que no outeiro onde hoje encontramos a Torre de Menagem existiu em tempos um tremoceiro onde se abrigavam famílias expulsas de Castelo Branco por delitos graves. “Não tendo encontrado mais do que sol, lua, estrelas e a sombra de um tremoceiro” decidiram, então, que a terra se chamasse Estremoços. D. Afonso III aceitou e concedeu-lhe foral em 1258, tendo o brasão de Estremoz acolhido estes três elementos: o tremoceiro, o sol e a lua.

Segundo dia pelo Alentejo Central


O segundo dia deste passeio pelo Alentejo Central começou com uma curta visita por Reguengos. A sua igreja de Santo António destaca-se, imediatamente, pelo seu estilo neo-gótico, mas sobretudo por ser um estilo pouco comum de se encontrar no nosso país. O edifício da Câmara Municipal, branco com frisos em azul, e uma arcaria mimosa, já é mais fácil de identificar com a paisagem urbana alentejana.



De Reguengos saímos com destino à Amieira, ainda em terras do Alqueva. Nesta época do ano não nos cruzamos com praticamente ninguém nas estradas. A chegada ao Miradouro do Monte, uns poucos quilómetros antes da entrada na povoação da Amieira, mostra-nos algum descuido, ou até descaso, na conservação das infraestruturas – as madeiras das plataformas de observação estavam partidas. No resto, a vista para o lago é fantástica. 



A uns minutos da povoação da Amieira fica a Marina da Amieira, donde saem os cruzeiros turísticos pelo Alqueva. A paisagem continua em alta, mas aqui o cuidado é outro, mais em conformidade com ela.



De volta a Reguengos, esta é uma zona com algumas quintas – os montes alentejanos – e com cenas rurais.




As povoações de São Marcos do Campo e Campinho valem uma visita. Curioso observar que para além das obrigatórias igreja e jardim público de qualquer povoação portuguesa, por aqui há que lhes juntar a praça de touros. Seja singela ou mais imponente, ela não pode faltar numa terra alentejana. E curioso, também, recordar costumes que julgava pertencerem apenas a memórias distantes de aldeia, como observar em Campinho aquelas carrinhas tipo Hiace cuja porta traseira deixa ver para dentro uma autêntica loja, cheia de roupa e tecidos que chegam às populações mais remotas em venda directa.



A próxima passagem foi num dos principais centros oleiros do país, em São Pedro do Corval. São 32 olarias oficialmente reconhecidas, uma delícia para quem gosta desta arte. 


Aqui perto fica a Rocha dos Namorados, um menir no meio de campos de oliveiras que, diz-se, é capaz de medir o número de anos que cada um terá de casamento.




Do Corval a Terena é uma bonita jornada por uma estrada que faz jus ao dito “é sempre em frente, não tem nada que enganar”. A paisagem continua pontuada com campos cultivados de oliveiras, com as cores do Outono majestosas.


Terena é uma das mais bonitas povoações da região. Com castelo que se destaca na paisagem desde longe, o burgo que se foi desenvolvendo à sua porta é extremamente pitoresco. 





Lá estão as casas brancas com listas azuis e amarelas à vez. Para compor o cenário multimedia, de uma delas saiam de um rádio (gosto de pensar que talvez de um gira-discos) os versos de Florbela Espanca cantados na voz de Luís Represas, “E é amar-te, assim, perdidamente… É seres alma, e sangue, e vida em mim. E dizê-lo cantando a toda a gente!”. Que exactidão e que emoção poder ouvir e ser tomada por este sentimento precisamente aqui.





Do castelo, para além da vista privilegiada para o casario temos igualmente uma vista soberba, livre e imensa para a planície pejada de oliveiras.


Terena é ainda conhecida e reconhecida por ser o lugar da Ermida da Boa Nova, já fora da povoação. O seu exterior parece uma fortaleza apalaçada. Possui ameias, escudo de Portugal e uma torre sineira. O interior é igualmente surpreendente, quase todo preenchido com frescos ainda bem conservados.  Elemento peculiar e singular desta Ermida é a sua cobertura em forma de cruz grega – aspecto só visível através de fotografias aéreas -, único no nosso país. 

A história da construção desta Ermida vale a pena ser contada. Em 1340 o imperador de Marrocos invadiu a Península Ibérica para a reconquistar. D. Maria, filha de D. Afonso IV, era casada com Afonso XI, rei de Castela, e tinha vindo a Portugal pedir por socorro ao rei seu pai. Quando chegou perto de Terena, de regresso a Castela, recebeu a notícia por parte de um cavaleiro de que seu pai iria preparar um exército em auxílio às suas preces. O marroquino acabou por ser derrotado, naquela que ficou conhecida como a Batalha do Salado, e D. Maria resolveu mandar construir esta igreja, dando-lhe o nome “Boa Nova” como homenagem à notícia que lhe foi trazida precisamente naquele lugar.
Junto a esta ermida fica o Vale Sagrado de Lucefecit (do deus pré-romano Endovélico) e, no sentido contrário, a Albufeira de mesmo nome.

A hora de almoço coincidiu com à chegada ao Alandroal. O restaurante típico A Maria é uma escolha óbvia. Não se espere simpatia em demasia, insista-se na auto escolha dos pratos e invista-se nas entradas.




Alandroal possui… adivinhe-se? um castelo. E umas muralhas. E uma torre de menagem que hoje está transformada em torre sineira. E uma fonte (das Bicas): “Linda cidade de Elvas, Tem Badajoz defronte, Mais bonito é Landroal, Que tem seis bicas na fonte”. Tem ainda umas casas distintas com adornos em azulejo que faz pensar o Alandroal como uma povoação com alguma importância.


Não é preciso ser apaixonado de castelos e fortalezas para compensar um desvio até à Juromenha. Mesmo na fronteira com Espanha, com o Guadiana a separar os dois países, Juromenha é também conhecida como Nossa Senhora do Loreto. A sentinela do Guadiana foi uma antiga vila e praça-forte dos árabes. Era a então Chelmena. Foi conquistada aos mouros por D. Afonso Henriques e posteriormente doada à Ordem de Avis. A sua localização é privilegiada quer em termos estratégicos quer paisagísticos. Aqui se viveram episódios históricos na época das guerras da Restauração e Peninsular e aqui se celebraram casamentos reais. No princípio do século XX a sua população abandonou definitivamente o interior das muralhas, estabelecendo-se no arrabalde que constitui hoje a povoação. 






A Fortaleza da Juromenha é, pois, nos nosso dias um lugar abandonado. Desolado, até. Mas, depois, temos aquelas ruínas e aquela paisagem fenomenal que, em conjunto, fazem do espaço um pedaço encantado e misterioso, soberbo, enfim. 
Lugar de contrastes, no meio da imponência militar de outrora, mas ainda sentida, com o rio a correr sereno por debaixo dos seus baluartes, um rebanho passeia-se junto às muralhas, fazendo ecoar os seus “mé, mé” naquela imensa paisagem.


Depois da Juromenha queria passar por Vila Boim, mas evitar Elvas. Segui por Ciladas de São Romão e foi mais ou menos isso, uma cilada por estradas que se transformaram em caminhos rurais. Nada a apontar à paisagem, mas o resultado de caminhos que afinal pareceram não ter saída foi a obrigatoriedade de passar por Elvas. Oportunidade óptima para rever o seu sempre majestoso aqueduto.
Vila Boim é uma típica povoação alentejana, casario branco pontuado com cores várias, jardim público, igreja e praça de touros.

Para o final do dia ficou a visita a Borba.






Terra de mármore, vinhas e olivais, o burgo é interessante. Com alguns solares e palacetes, um pequeno núcleo muralhado com castelo, merecem uma visita mais atenta a Igreja das Servas e o Chafariz de Três Bicas (em mármore, diz a lenda que as três bicas correspondem cada uma a um dos estados civis: casados, solteiros e viúvos). 


A pernoita foi na vizinha Vila Viçosa, a uma curta distância por uma estrada que deixa ver a céu aberto as pedreiras donde se extrai o mármore que dá fama à região. Ainda farta do almoço, a escolha do breve jantar não pôde senão recair no Núcleo Sportinguista de Vila Viçosa, engalanado pela nossa vitória no Bessa. Final de dia perfeito.

Primeiro dia pelo Alentejo Central

3 dias de Inverno pelos caminhos mais a leste do Alentejo Central significam dias mais curtos de luz, mas não necessariamente de frio. 

Saindo de Lisboa em direcção a Monsaraz, primeira paragem, são pouco mais de 90 minutos de viagem de carro sempre por autoestrada ou estradas rectas, uma constante por esta região.


Contraindo, no entanto, a ideia de planície alentejana, à aproximação de Monsaraz vamos avistando esta aldeia histórica desde longe, num destaque absoluto instalada no alto de um outeiro, como se fosse a campeã que ocupa o lugar cimeiro de um pódio. E é como se o fosse, ou não estivesse Monsaraz sempre nas listas das aldeias mais bonitas do nosso país.


Antes de entrarmos por uma das quatro portas das muralhas que irão oferecer-nos este burgo medieval feito de casas brancas e xisto, um presente à sua altura é a vista fabulosa para a Barragem do Alqueva e planície alentejana que a rodeia. Pura serenidade. 


E porque o Alentejo não é só paisagem, à entrada da aldeia encontramos uma bonita escultura a celebrar o Cante Alentejano.


Já estamos convencidos da grandeza do lugar e ainda nem entrámos em Monsaraz.

Este era o lugar de um primitivo castro. Ocupado por visigodos e mouros, em 1252 D. Sancho II conquista-a para Portugal, com a ajuda dos Templários, tendo-lhe sido concedido foral poucos anos depois. As guerras com Castela, porém, seguiram-se, com frequentes cercos e pilhagens, nesta que é uma terra de fronteira. 

Sabendo, então, que este foi um lugar de muitos povos, e até de ocupação que remonta a tempos pré-históricos (como o testemunham os diversos monumentos megalíticos presentes nas redondezas), adentramos a aldeia pela Porta de Alcoba, em arco, e após uma breve subida logo se nos abre um grande largo, onde encontramos a igreja matriz, o pelourinho, o edifício do antigo Hospital da Misericórdia e os Paços da Audiência. 


As ruas em pedra, duas mais longas e inúmeras outras que lhe são perpendiculares, todas elas estreitas, são em xisto. 


O casario, branco. 


A pedra teima em subir pelas casas acima. 


Os pormenores são deliciosos, como portas, janelas, bancos, chaminés ou uma árvore que parece concorrer com o telhado. 


Pela altura do Natal a aldeia transforma-se num presépio, com figuras em tamanho real espalhadas um pouco por todo o lado.



A Porta da Vila, virada para o Arrabalde (onde se situa a Igreja de São João Baptista, o mais antigo monumento de Monsaraz), é a principal entrada, com a sua torre sineira alva. 


Daqui saímos para logo entrarmos novamente e percorrermos a outra rua longa que irá dar à outra ponta da aldeia, onde fica o Castelo. A caminho, mais vistas fantásticas e inspiradoras se nos abrem, o Guadiana ao fundo e a planície lá em baixo pingada de oliveiras.


Do Castelo alcançam-se vistas ainda maiores, Guadiana e Barragem do Alqueva de um lado, aldeia de Monsaraz a nossos pés do outro. Daqui conseguimos perceber definitivamente a forma da aldeia e o lugar estratégico e encantado que é.
No século XVIII a população começou a abandonar Monsaraz, sobretudo pela escassez de água. As guerras da Restauração estavam terminadas e a gente de intra-muralhas e do Arrabalde optou por se instalar em Reguengos, na planície, a cerca de 16 km de distância, atraídos pelas vinhas e pelas colheitas de trigo, a par da água. 

Monsaraz viu-se abandonada e decaiu. Hoje está totalmente recuperada e bem viva, fazendo parecer distante a sentença de Vergílio Ferreira, na Aparição,  “Monsaraz-terra, esqueleto de velhice e de ruína, com crianças solitárias que riem como sobre uma sepultura”.

Já fora de Monsaraz, um bom local para almoçar é a Herdade de São Lourenço do Barrocal.

Para a tarde, um passeio pelas margens do Alqueva, com paragem obrigatória na nova Aldeia da Luz

O Alqueva é hoje o maior lago artificial da Europa. Possui 250 km2, 1200 km de margem, e entre 226 a 427 ilhas (este número varia consoante a cota da água, entre 130 e 152 metros). O projecto de construção da Barragem implicou a submersão da antiga aldeia da Luz em 2002 e sua correspondente relocalização, dando origem à referida nova aldeia da Luz, a cerca de 3 km da anterior. 


Reerguida de raíz, observamos a suas casas de planta baixa, corridas, de cores variadas, obedecendo à arquitectura típica das povoações alentejanas. Embora não seja uma réplica original da anterior aldeia, foram respeitadas a posição relativa aos arruamentos e as relações de vizinhança. Foram construídas 212 habitações, edifícios públicos, equipamentos colectivos vários, espaços verdes. 


Mais delicado, até a construção do novo cemitério implicou a manutenção da memória da antiga aldeia, transladando-se todos corpos do cemitério da velha Luz.
A nova Igreja de Nossa Senhora da Luz é, essa sim, uma réplica fiel da que encontrávamos na antiga aldeia. Hoje fica no fundo da povoação, quase à beira das águas do Alqueva e junto ao Museu da Luz, ambos com vista imaginária para a entretanto submersa velha aldeia.


O Museu da Luz é etnograficamente e arquitectonicamente imperdível. Na sua visita ficamos a compreender todo o processo de transferência da aldeia, interpretando a paisagem quer na sua vertente natural quer cultural, sempre com referências à vida na região e na antiga aldeia.


A sua arquitectura é belíssima e perfeitamente integrada no ambiente tranquilo onde se insere. O edifício está parcialmente enterrado, deixando para lá dele a planície e a água, elementos aqui recorrentes. Em xisto no seu exterior, do interior do museu são rasgadas janelas que deixam observar o grande lago mesmo ali à beira e o lugar exacto da antiga aldeia.

Da Luz partimos rumo à Estrela, também situada junto às águas do Alqueva. O Alqueva estende-se por 20 concelhos e o seu projecto, que já vinha desde os anos 50, pretendeu trazer novas áreas de agricultura de regadio, garantir o abastecimento público e industrial, a produção de energia eléctrica e a criação de novas valências turísticas. 

Este é um habitat natural e rodando pelas estradas ao redor do Lago vemos desfilar rebanhos de ovelhas e cabras, porcos, vacas, para além de aves que infelizmente não sei identificar, como a águia pesqueira, a águia real e o abutre preto.


A aldeia da Estrela, em si, não tem grandes argumentos. São antes as margens do Alqueva que por aqui que nos preenchem os sentimentos, cheias tranquilidade exacerbada pelos reflexos que a paisagem natural e umas pequenas casinhas vão deixando na água. 

Retornando a Monsaraz, impõe-se uma paragem em Mourão
Situado na fronteira com Espanha, esta povoação é conhecida pelas suas características chaminés. 


E também por ser a terra de Marco Paulo. Mas, para mim, aqui não houve dois amores em disputa. O seu castelo, ou melhor, a localização do seu castelo rouba o coração de qualquer um, não deixando espaço para mais nada. 


Erguido num lugar mais elevado em relação ao casario, o Castelo da Lousa, por referência à antiga Villa da Lousa, é um excelente exemplo de arquitectura militar. A igreja matriz de Mourão fica por aqui e está conservada. As muralhas do castelo e algumas torres e ameias também restam de pé, mas muito não se tem, dando as ruínas um ambiente de mistério ao sítio. 




Caminhar sobre a sua muralha é um ponto altíssimo da visita ao castelo e, uma vez mais, o Guadiana transformado em Alqueva oferece-nos paisagens soberbas, bem como a planície alentejana.



Com a noite já a cair prematuramente sobre a tarde neste dia de Dezembro, restou tempo apenas para uma visita ao Cromeleque do Xerez, junto ao Convento da Orada, no sopé de Monsaraz. 


Foi o único monumento megalítico a ser relocalizado por força da construção da barragem do Alqueva, mas também já teria sido artificialmente composto no século XX. Supõe-se que um grande menir de 4 metros tivesse existido, sendo que o que hoje vemos é um menir ao centro de configuração fálica, de 5,60 de altura, rodeado por fragmentos menores. A paisagem em redor é, uma vez mais superior, e o fim do dia, com a luz natural a fugir e as luzes artificiais a surgir em sua substituição, dá ao sítio um encanto singular.

Para pernoitar, a escolha recaiu em Reguengos de Monsaraz, na Casa Monsaraz, e o jantar no restaurante Barril. Ambas escolhas a repetir, com a maciez daquelas bochechas de porco preto ainda na memória.

Pelo Baixo Alentejo

Fomos para sul, rumo ao Baixo Alentejo. 
Beja, capital de distrito, foi a primeira paragem. 
Após um piquenique no seu Parque das Merendas, saímos para passear pela cidade, a antiga Pax Julia dos romanos.

Mas antes dos romanos o lugar já era povoado, graças ao seu solo rico, sempre factor de atracção das gentes. Os lusitanos andaram por cá, depois os romanos promoveram Beja a sede da região sul da Lusitânia e pacificaram as suas várias tribos. A designação Pax Julia vem dos tempos de Julio César, imperador de Roma no século I. Beja entrou então no mapa da história e tornou-se na época uma cidade importante. Após o domínio dos romanos foi tomada pelos bárbaros – os visigodos – e mais tarde pelos mouros. Dizem alguns que a actual designação “Beja” deve-se a eles, numa forma elaboradíssima e não facilmente entendível de evolução do topónimo “Pax”, mas esta é questão controversa. Até que o “nosso” D. Sancho II, em 1232, revolveu tomar a cidade e fazer com que esta entrasse na órbita cristã – até hoje.

Beja está situada numa imensa planície e isso é bem visível do seu castelo, do qual restam partes das muralhas e a Torre de Menagem (actualmente em restauro, construção do tempo de D. Dinis, que concedeu foral a Beja). Até aos nossos dias chegaram também algumas portas da cidade, as quais levam o nome das terras para as quais abrem caminho, como Porta de Mértola ou Porta de Avis.

A história de Beja é uma de evoluções e apagamentos. Apesar de ter sido local de moradia real (os pais de D. Manuel I, por exemplo, eram Duques de Beja), nem por isso chegou a ser importante em termos urbanísticos a nível nacional, sendo sempre relativamente despovoada. O que foi sempre, sim, foi lugar de convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos. Até hoje podemos caminhar pelo Bairro da Judiaria, com as suas casas seguindo a altura da muralha, e o Bairro da Mouraria, com as ruas ruas estreitas e intrincadas. O labirinto das ruas de Beja corresponde ainda a um traçado urbano medieval e só por isso vale bem a pena a visita a esta cidade. Não pode ser acusada de monumental, mas como conjunto é francamente agradável, uma cidade pequena-média portuguesa em que a sua unidade estética e arquitectónica é equilibrada.
Ao lado do seu passado mouro e medieval, não faltam os edifícios da época do Estado Novo como o dos correios e o do liceu (este último do arquitecto Pardal Monteiro). Já depois do 25 de Abril a cidade viu nasceu a Casa da Cultura, do arquitecto Raul Hestnes Ferreira. Tudo obras que não rompem nem polemizam, antes se enquadram no edificado. 

Para além de uma caminhada pelas ruas, há espaços em Beja que não podem deixar de ser visitados. Pela Rua dos Mercadores, atentos a pormenores como símbolos de antigos lojistas e janelas manuelino-mudejares que persistem, chegamos à Praça da República com as suas arcadas manuelinas. Do outro lado do centro da cidade, o Jardim Público, contíguo ao antigo Convento de São Francisco, belamente restaurado para a sua reconversão em Pousada de Portugal, é um lugar para se deixar estar. Destaque para o painel de azulejo alusivo à morte do Lidador, segundo lenda de Alexandre Herculano. Aliás, a arte azulejar em Beja é coisa séria. Vemos azulejos nas ruas, casas e edifícios, mas também nas igrejas. 

Incontornável e obrigatória é a visita ao Convento de Nossa Senhora da Conceição. Um dos primeiros onde foi aplicado o azulejo na decoração de interiores (que era comum na cultura islâmica), o Convento foi fundado em 1458 pelos Duques de Beja, pais do rei D. Manuel I. Gozou de protecção real e a sua riqueza é evidente ainda nos nossos dias. Naquele onde está hoje instalado o Museu Regional podemos encontrar uma igreja barroca do século XVII em talha dourada. Exuberância é a palavra certa para a descrever. Para além da igreja é nos dada a conhecer uma colecção de azulejos, pintura e artefactos arqueológicos. Os claustros deste antigo Convento que foi ainda lugar da Ordem de Santa Clara, pertencente aos franciscanos, não deslumbram tanto como o que está para além deles: a Sala do Capítulo cuja entrada é feita por um portal gótico brasonado que nos deixa face a face com uma decoração rica em painéis de azulejos hispano-mouriscos e pinturas murais, bem como uma abóbada belíssima. A fachada do Convento não entusiasma menos, sobretudo as gárgulas que adornam o seu topo.

Mas este Convento de Nossa Senhora da Conceição é famoso ainda por questões mais terrenas, nomeadamente pelas cartas apaixonadas que a freira Soror Mariana Alcoforado de lá escreveu ao seu amado conde soldado, o qual via passar da janela da sua cela e muito provavelmente não apenas isso. Beja tem, pois, o seu mito; um mito feito de paixão.

E tem praças, muitas, tal como igrejas, também muitas. Praças sem gente, igrejas fechadas.
Um velhote hoje reformado e viúvo, nascido no Minho e cedo imigrado em Lisboa, foi parar a Beja no início da sua idade adulta e por lá ficou. Diz que lá não há nada, não há vida, não há trabalho. Resta a mulher, sepultada no cemitério próximo de casa. Que Moura é muito melhor, gente sempre a encher os cafés. 
Fomos verificar.
E é verdade. As ruas estão mais preenchidas e os cafés também, mesmo à hora da sesta.

De Moura ficam as lendas da Moura Encantada e as suas chaminés características. É ainda terra de fontes monumentais a fazer-nos lembrar que esta é zona rica em água. 
Não falta um castelo e um centro histórico pequeno e compacto com ruas estreitas pedonais delicadamente enfeitadas com flores e diversos edifícios antigos que conservam os ricos pormenores nas suas fachadas. 

Rapidamente rumo a Serpa.
A paisagem alentejana, do Alentejo profundo, vasta e imensamente plácida, nunca monótona, é feita de oliveiras e moinhos aqui e ali.
À entrada de Serpa, numa daquelas rotundas de pretenso ordenamento do trânsito que pululam pelo nosso Portugal, uma escultura de tributo aos alentejanos que nos embalam com o Cante Alentejano, desde 2014 Património da Humanidade.

Serpa é para mim a mais bonita das cidades do Baixo Alentejo. Vista das muralhas do seu castelo, então, a vista é esmagadora. As casas brancas e a sua cobertura de telha ocre formam uma combinação perfeita, daí que o epíteto de cidade branca seja certeiro.
Serpa era uma vila muçulmana antes de D. Dinis lhe ter concedido foral em 1295 e a refundar. Antes de se tornar rei, D. Manuel I havia sido senhor de Serpa e a cidade era então uma das mais importantes do reino.

Aqui voltamos a poder ver nos dias de hoje um castelo, sua torre e muralha, mas desta vez acompanhado de um aqueduto monumental. O castelo virá desde o tempo da ocupação árabe, mas o aqueduto foi construído no final do século XVII com a finalidade de abastecimento do solar dos Condes de Ficalho. Este solar tem arquitectura discreta mas é marcante na cidade.

O símbolo de Serpa será, porém, a Torre do Relógio. Uma Torre bem alta, construída no século XIV, parte da muralha, em estilo gótico e manuelino, encimada por uns pináculos e um campanário. Bem bonita.

Para além desta sobrevivem ainda as grandiosas Portas de Moura e de Beja. E as oliveiras milenares. 
As ruas do povoado intra muralhas são esteiras e as casas pitorescas, com faixas cinzentas sobre o branco como pormenor distintivo.
Dois apartes apenas.

Um primeiro: como é que esta rocha se equilibra entre estes telhados e as muralhas?
Um segundo: agora que o nosso Aníbal se prepara para deixar as nossas vidas: a sul do concelho de Serpa fica o Pulo do Lobo, a maior queda de água do sul do nosso país, em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana. Não o visitei agora, fi-lo em tempos, seduzida pela descrição sentida do senhor; quem sabe se lá volto em breve e o encontro para lá retirado.
Precisamente em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana fica a vila de Mértola, a última paragem neste périplo pelo Baixo Alentejo. A antiga Myrtilis é hoje considerada uma vila museu.
Não haverá povoado em Portugal onde a presença islâmica seja tão forte como a que se sente em Mértola. Para isso contribui certamente o Festival Islâmico que aqui costuma ter lugar e, sobretudo, a incansável acção do arqueólogo Cláudio Torres que insiste em nos dar a conhecer o passado histórico da vila e região através dos trabalhos do seu Campo Arqueológico. Este voltou a colocar Mértola no mapa e para além de nos revelar a nossa herança patrimonial islâmica funciona como um polo agregador das gentes da cidade e dos forasteiros, sendo igualmente um lugar onde se preservam as artes tradicionais e o artesanato e se lhes dá novas vidas.

No Campo Arqueológico, junto ao Castelo, das ruínas colocadas a descoberto podemos ficar com uma ideia de como estavam dispostas as casas de antanho. Aí perto fica a antiga Mesquita, hoje Igreja Matriz de Mértola, onde ainda hoje são identificáveis elementos islâmicos como as portas.
Do Castelo obtém-se uma vista fantástica para o casario que foi crescendo junto ao Guadiana. O branco domina sobre as águas do rio, onde se veem lá em baixo alguns a desafiar o caminho aquático nos seus caiaques. Há muitos séculos, a presença do rio era outra e foi a razão porque romanos e árabes para cá vieram. O rio era navegável e o minério de que a região era pródiga foi factor bastante para atrair esses povos, bem como diversos mercadores que para aqui vinham negociar, uma vez que a vila estava ligada a Cartago e outras cidades do Oriente. A Reconquista pelo reino de Portugal e consequente entrada para o mundo cristão veio no século XIII e três séculos mais tarde Mértola iria entrar em decadência, muito por força do desvio das rotas comerciais do Guadiana para o Sado e Tejo.

Quanto à sempre louvada gastronomia desta região do nosso país, obviamente que o piquenique de restos do Natal não foi a única reserva alimentar da viagem. Em Beja a Adega 25 de Abril é uma excelente escolha para se saborear as migas e os secretos de porco preto, bem como a simpatia do pessoal. Mas um pouco por qualquer recanto desta região pode experimentar-se ainda os tradicionais gaspacho e ensopado de borrego, acompanhados dos conceituados vinhos. 
As distâncias:
De Beja a Serpa são 29 km, de Serpa a Moura 32 km e de Beja a Mértola 52 km.
Beja fica a 177 km de Lisboa, cerca de 2h 30m de caminho.

Pousada Flor da Rosa – Crato

Já estamos em 2011 e esta já se passou há quase 6 meses, mas ainda vai (sempre) a tempo de ser incluída no nosso blogue.
Fim de Agosto, mais de 40 graus em qualquer sombra do país, porque não uma escapada de 4 dias até ao interior do Alentejo, longe da praia?
Loucura, claro. Mas se o objectivo era descanso, porque não escolher um convento para relaxar, com vista para a planície alentejana?

A Pousada Flor da Rosa, no Crato, com intervenção moderna de Manuel Graça Dias, fica num castelo / mosteiro cheio de história que já vem do século XIV.
Já pertenceu à Ordem do Hospital e à Ordem de Malta, por aqui passaram cavaleiros e o seu fundador foi ninguém menos do que D. Álvaro Gonçalves Pereira (que tem o seu túmulo na igreja), primeiro prior do Crato e pai de D. Nuno Álvares Pereira.

Encontram-se aqui elementos góticos, o seu claustro é lindíssimo, a torre do Castelo dá-nos uma visão da pacatez da aldeia de Flor da Rosa, com as suas casas alvas com friso amarelo torrado. O mosteiro, que é monumento nacional, foi sofrendo alterações ao longo da sua história até que em nos anos 1990 se iniciaram os trabalhos para a sua reconversão em Pousada de Portugal. Muitíssimo bem conseguida, há que referi-lo.
Temos, assim, os quartos que se situam numa das alas originais do mosteiro, com mais charme, com as paredes em pedra e as camas com dossel, e os quartos mais modernos, numa ala especificamente criada para o efeito.

Os espaços comuns são monumentais, mas confortáveis. A sala do bar e do restaurante são francamente bonitas, mas os seus pratos desta última não a acompanham. A piscina, bom, em Agosto nem a piscina nos salva; mas salva-nos a sua imagem, quer de dia, rectângulo azul junto à imponência do castelo, quer de noite, com os focos de luz a iluminarem o castelo no profundo Alentejo.
Falta referir que este sitio não é só para quem pode. A igreja, os claustros e o castelo estão abertos ao público.

Vinhos do Alentejo em Lisboa

Ontem e hoje (24 e 25 de Setembro) decorre na Lx Factory, Lisboa, um evento que reúne diversos produtores de vinhos alentejanos.
Esta iniciativa pretende dar a conhecer um dos produtos de maior valia desta região do país.
Para além das provas dos vinhos, há conversas, comentadas por conceituados produtores, enólogos e especialistas, sobre os mesmos.

Dos vinhos que provámos destacamos, dos correntes, o Tapada do Barão (Granadeiro), um Tinto de 2008, muito agradável, frutado e fácil e o Monte Maior Tinto, da Adega Mayor, um vinho macio.
De um nível superior destaca-se o Quinta do Carmo Reserva Tinto, do grupo Bacalhôa Vinhos de Portugal, e o Paço do Conde Reserva Tinto.

Pousada Nossa Senhora da Assunção – Arraiolos

A estreia em Pousadas de Portugal.
Arraiolos, a pouco mais de uma hora de Lisboa, foi a escolha para uma pequena escapada de fim-de-semana com dia da mãe. Escolha acertada para um descanso longe do mundo. Escolha errada para quem não suporta ficar longe do mundo. Não é o caso. Escolha acertada, pois.

A Pousada de Nossa Senhora da Assunção fica instalada num antigo Convento (dos Lóios) do século XVI que nos anos 90 para a nossa geração foi adaptado à sua função actual.
Foi aproveitado o antigo espaço do Convento e adicionada uma nova ala. Tudo muito bem conseguido. Assim como o é o vale que lhe serve de poiso e paisagem, mas isso graças à Natureza. Não obstante a decoração da Pousada ser de bom gosto e equilibrada com a história, os quartos confortáveis e as refeições do restaurante merecerem a nossa degustação, é sem dúvida a localização e o cenário onde está implantada que lhe confere todo o ambiente retemperador. Com a vila dos tapetes ali mesmo como testemunha, e o curioso Castelo com muralha circular a dominar altaneiro, nós ficamos cá em baixo, na espreguiçadeira junto à piscina ou numa cadeira com os jornais em cima da mesinha na esplanada a assistir na plateia a toda esta vista, a que não faltam as ovelhas a passear por entre o verde do campo e as pequenas árvores.
Numa só palavra? Talvez duas: bons momentos.