Quinta da Casa Branca

A Quinta da Casa Branca é um boutique hotel, membro dos Small Luxury Hotels of the World (pequenos hotéis de luxo do mundo), muito bem localizada no Funchal, perto quer da zona turística do Lido como do centro da cidade.

Mas é sobretudo uma quinta-jardim que pode ser visitada por qualquer um de nós mesmo que não esteja lá alojado. Se lá ficarmos alojados, tanto melhor, teremos acesso a todas as belezas, confortos e espaços do lugar. Por exemplo, quartos que se prolongam pelo jardim fora, piscinas plenas de ambiente e uma sala de pequeno almoço acolhedora que, juntamente com o menu disponibilizado, nos prepara para mais um grande dia nesta Ilha belíssima.





Vencedor em 1999 do “Prémio de Arquitectura da Cidade do Funchal”, o projecto de adaptação da Quinta a hotel está extremamente bem conseguido. De autoria do arquitecto local João Favila Menezes, inspirado em Frank Lloyd Wright, o que apreciamos desde 1998 é a parceria entre a arquitectura contemporânea e o ambiente natural do espaço. Os edifícios em pedra negra (ardósia) que remetem para o carácter vulcânico da Ilha, longos e de dois pisos onde predomina o vidro que se abre a toda a paisagem envolvente, estão perfeitamente integrados na natureza e deixam-se absorver por ela.


Este minimalismo feito de pedra e vidro permite que a luz natural seja uma presença constante quer nos espaços ao ar livre quer no interior dos quartos – e recepção, donde se obtém uma vista fantástica do seu terraço feito esplanada.


Destaque ainda para a Casa Mãe – o edifício branco do século XIX que dá nome à Quinta onde ainda hoje os proprietários habitam -, todo um mundo de requinte e elegância à parte. Há poucos anos foram aqui criadas umas suites, para além de acolher o mais luxuoso e formal restaurante da Quinta).

Seguimos directos para o jardim. 




Um pouco por toda a Madeira, incluindo num qualquer bairro residencial do Funchal, encontraremos plantações de bananeiras. Na Quinta da Casa Branca elas não poderiam, assim, faltar. Aliás, foi precisamente à plantação de bananeiras (e de vinha) que se começaram a dedicar os antepassados dos proprietários da Quinta, os ingleses da família Leacock, no século XIX. 

A sua Quinta é hoje um autêntico jardim botânico. Luxuriante, um imenso manto verde feito de cerca de 1,2 hectares recebe árvores e plantas tropicais vindas de todo o mundo. As buganvílias e estrelícias não faltam. Mas a seu lado encontramos a planta da seda, a árvore da canela, a mangueira, palmeiras e, depois, nomes como sumaúma, dombeia, marcamia, vigandia, canforeira, árvores de fogo, chamas da floresta, costelas de Adão, lágrimas de amor, tis, cássias, abélias, maçarocos, aloés, glicínias – ah, este último nome já o ouvi.





A exuberância não se revela apenas nos nomes das espécies, mas também nas suas formas, cheiros e, sobretudo, cores. 



Em resumo, a Quinta da Casa Branca é puro relaxamento, seja no seu spa, piscinas, quartos ou num dos restaurantes, donde se pode usufruir de toda a tranquilidade no meio do Funchal.

Jardim Botânico da Madeira


A Madeira é um jardim, já se sabe. Mas nada melhor do que uma visita ao seu Jardim Botânico para o confirmar em todo o seu esplendor.

Para lá chegar, agora que o teleférico desde o Monte se encontra encerrado como consequência dos terríveis incêndios deste Verão (que não pouparam o próprio Jardim Botânico), uma curta viagem desde o centro do Funchal faz-nos subir por ruas estreitas seguidas de curvas onde se abre sempre uma nova panorâmica da cidade até ao mar. Aqui qualquer casa empoleirada possui um terraço com vista para o aumento do IMI. Coitadinhos dos funchalenses.



As vistas não dão descanso nem no Jardim Botânico, implantado numa localização fantástica, todo ele debruçado sobre a cidade. A vista mais famosa é provavelmente esta, esplanada com desenho das letras que nos anuncia ser este o “Jardim Botânico da Madeira Eng. Rui Vieira 1960-2016”.
Em conjugação com a vista aberta à baía do Funchal, este jardim coreografado é certamente o postal mais emblemático do espaço.

Na senda de outras instituições do género espalhadas pelo mundo, este Jardim preocupa-se não apenas a constituir um espaço de exposição e de lazer, mas também um espaço científico e de estudo que se dedica a preservar, proteger e dar a conhecer uma grande diversidade de flora. Aqui se reúnem uma série de árvores, plantas e flores, endêmicas ou não, num regalo para a vista.
Como a região possui um clima ideal, tanto com características das regiões tropicais como das regiões frias, é possível acolher aqui uma variedade incrível de espécies. 







Algumas exóticas. Outras agrestes e duras, como os cactos (aqui designados plantas Suculentas). Outras elegantes e altivas, como as palmeiras. Outras delicadas como as orquídeas e as estrelicias. Exemplos da indígena Laurissilva também não faltam. São milhares de espécies vindas de todos os cantos do mundo, fazendo companhia a espécies locais comuns, raras ou em vias de extinção. 


Uma última palavra para a deliciosa casa do edifício principal, a qual acolhe espaços administrativos e museológicos. A sua varanda é um mimo e as suas cadeiras ideais para relaxar nesta Quinta rodeada de natureza e apartada do mundo.

A reinvenção da Zona Velha do Funchal

O que hoje conhecemos como Zona Velha do Funchal foi onde a cidade Atlântica começou a nascer e daí se expandiu para oeste, nomeadamente para a zona da Sé e São Pedro. A sua Rua de Santa Maria é, pois, uma das mais antigas do Funchal e, também, uma das mais carismáticas. Saindo praticamente das traseiras do Mercado dos Lavradores e correndo paralela (mas interior) ao mar até à Fortaleza de São Tiago, será um pouco menos de um quilómetro pela história do Funchal. 


Este primeiro núcleo territorial conserva ainda o seu traçado medieval urbano. Sobrevive ainda a Capela do Corpo Santo, do século XV, de arquitectura gótica e maneirista (embora com muitas alterações ao longo dos séculos), levantada pelo povo numa mostra da sua devoção pelo orago das gentes do mar. Os primeiros habitantes foram pescadores. Mercadores também, mas esses foram daqueles que primeiro se lançaram na expansão da cidade para oeste. 


As casas na Rua de Santa Maria são baixas, não passam dos três pisos e existem mesmo uma série delas de um piso apenas. O teleférico que sai para o Monte, sinal dos tempos, passa por cima das casas e das nossas cabeças que palmilham a zona.


Lembro-me, desde sempre, de visitar a Rua de Santa Maria para jantar, e apenas isso, num dos seus típicos restaurantes. No entanto, ainda que permanecesse um dos lugares para se sair, encontrava-se desde há tempos numa certa letargia e até decadência. 

Até que… 



… uma pequena ideia surgida em 2011 veio produzir uma autêntica revolução na Rua de Santa Maria e ruinhas envolventes. Um espanhol lembrou-se de lançar um projecto, conhecido hoje como artE de pORtas abERtas, e desde aí não têm cessado de aparecer mais e mais portas, janelas, fachadas e empenas a juntarem-se à nova vida deste pedaço do Funchal. Mais restaurantes, bares, galerias e lojas abriam; novo sentido e novas cores foram dadas à cidade, materializados nos poemas inscritos nas casas que se podem ler em vibrante voz alta ou em emocionada voz interior e nas pinturas que se sucedem, num grito urbano de mostra de arte colectiva. 


Em resumo, aqui temos um novo Funchal, imaginativo e revitalizado, pronto a ser fruído por todos.

Igreja do Colégio

O Largo do Município é um pedaço do Funchal recolhido do mar que não se deve perder. A sua praça, com uma fonte no meio, é toda em chão de calçada portuguesa, num desenho muito característico a branco e preto, extremamente cativante até pelo conjunto coerente que forma com os edifícios envolventes. 

Aqui fica a Câmara Municipal (antigo Palácio do Conde de Carvalhal), o antigo Paço Episcopal e sua arcaria (hoje Museu de Arte Sacra) e a Igreja do Colégio. Tudo edifícios brancos salpicados aqui e ali com remates pretos que circundam as janelas e as portas. Uma enorme e aborrecida monocromia, poderia pensar-se, não fosse o facto de ter utilizado a palavra “cativante” umas linhas acima. Denunciei-me e denuncio-me novamente: este Largo é lindo.

E ainda não entrámos na Igreja do Colégio, que se nos apresenta com as suas linhas rectas da fachada com três corpos e topo triangular. Nem as esculturas dos santos na fachada nos preparam para o seu interior. Aqui é fácil até para um não católico ter uma epifania. De interior todo ele decorado com azulejos e pinturas, a cor irradia e toma todos os nossos sentidos. Que ambiente. E que riqueza. São oito capelas laterais que nos vão surpreendendo até chegarmos à obra maior do altar-mor e seu retábulo em talha dourada, encimado pelas armas reais. A decoração desta igreja marca a transição do estilo maneirista europeu para o barroco português.
A igreja dedicada a São João Evangelista começou a ser construída em 1629 (o retábulo é de 1646) e é um exemplo típico de templo jesuíta. Toma o nome “do Colégio” porque está colada ao lugar onde os frades leccionavam no século XVI, sendo hoje este espaço da Universidade da Madeira. O Colégio é anterior à igreja e a sua fundação em 1569 faz dele o primeiro colégio jesuíta fundado fora do espaço continental europeu.

Para algo mais terreno, há que não deixar escapar a subida à torre da igreja. Está bem que o Funchal é acidentado, uma verdadeira cidade anfiteatro e o que não faltam são pontos de vista elevados. Mas vista privilegiada como esta é um perfeito bónus. Lá no alto (que não é assim tão alto) percebe-se nas nossas costas a mais altaneira Fortaleza do Pico, à nossa esquerda a Câmara Municipal e sua torre recuada de avistar navios e à nossa frente, num exclusivo para quem teve a feliz ideia de subir à Torre da Igreja do Colégio, a calçada ondulada da Praça, a Torre da Sé e aquele mar. Aquele mar azul cintilante que nos faz balançar entre deixarmos-nos por ali a contemplá-lo ou seguir imediatamente em sua direcção para nele mergulharmos.

Raul Brandão – As Ilhas Desconhecidas

Esta obra de Raúl Brandão (1867-1939), autor de Húmus, é um excelente livro de viagens.
“As Ilhas Desconhecidas – Notas e Paisagens” são o relato da viagem que o autor fez aos arquipélagos dos Açores e da Madeira no Verão de 1924, tendo sido publicado originalmente em 1926 e republicado em 2011 pela editora Quetzal.
Após a leitura do livro, que Raul Brandão diz serem notas de viagem, é evidente o maior gosto e simpatia do autor pelas paisagens e gentes dos Açores em relação às da Madeira, que considerava já então excessivamente turística.
Em ano de abertura dos voos para os Açores às companhias low cost, e prevendo-se o crescimento das visitas por parte dos continentais, não será nada má ideia a leitura prévia desta obra maior da nossa literatura de viagens. 
O livro é belíssimo, todo ele um panegírico às nossas ilhas. As palavras, essas, tocam fundo no nosso coração, ainda para mais o daqueles que amam as ilhas e o mar: “mar desmaiado, que não foi feito para se ver mas para respirar”. A paisagem, que aliás consta no nome completo deste livro, desperta no autor uma profusão de sentimentos tal que o leva a escrever que “à noite não posso dormir; estou encharcado de azul. Vou a pé pela estrada fora sob o luar derretido. Diante de mim abre-se o abismo do mar cheio de estrelas”. De lembrar que Raul Brandão nasceu na Foz e era descendente de pescadores e antes desta havia escrito a obra “Os Pescadores”.
Depois de passar rapidamente pela Madeira, Raul Brandão seguiu para os Açores. Por aí foi viajando, de barco, de ilha em ilha. Com a experiência da paisagem que se sucedia à paisagem diz a certo ponto ter percebido que “o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente”.
Sobre o Pico, ponto mais alto de Portugal, aponta que “isto que de longe era roxo e diáfano, violeta e rubro, conforme a luz e o tempo, aparece agora, à medida que o barco se aproxima, negro e disforme, requeimado e negro, devorado por todo o fogo do Inferno. É um torresmo. Nunca labareda mais forte derreteu a pedra até cair em pingos e desfazer-se em cisco. É uma imagem a negro e cinzento que me mete medo.”. Ainda assim, não deixou de tentar a “exaltação da vida livre” de subir até ao Pico: “Dorme-se numa furna para ver amanhã o nascer do sol no alto do Pico. Quem quer, dorme às estrelas. Vamos… O que eu procuro, pela última vez na minha vida, não é o panorama – é a exaltação da vida livre.”.
São Miguel, a ilha ainda hoje mais acessível, é lugar das Sete Cidades e face a esta paisagem Raul Brandão não podia ser menos contido na grandiloquência que o sentimento conferiu às palavras: “irrealidade, algo fora da vida, regiões inesperadas de sonho”.
Da Madeira, como já referido, Raul Brandão não parece ter levado o mesmo encantamento que levou dos Açores, não deixando de as comparar e ter da primeira uma visão crítica. “Agora conheço melhor a Madeira. Passado o primeiro entusiasmo, vejo tudo a frio. Esta ilha é um cenário e pouco mais – cenário deslumbrante com pretensões a vida sem realidade e desprezo absoluto por tudo que lhe não cheira a inglês.”. Ainda assim, realça a sua cor a as suas frutas.
Embora Raul Brandão tenha uma atenção a todos os sentidos – visões, sons, sabores – a exaltação da cor e da paisagem é uma constante ao longo de toda esta obra. A cambiante da cor produziu em Raul Brandão tais sentimentos que parece que não são apenas os Açores que poderão ser comparados ao Japão, como algures se diz. Também o espírito do autor, disponível para se deixar tocar pelo evoluir do dia, parece ter semelhanças com os autores japoneses, tão sensíveis à mudança das estações. Um naturalista, também.
Presentes de forma amiúde estão, igualmente, a solidão e uma certa melancolia que provoca toda a beleza visitada. Nas gentes açorianas o autor sentiu um isolamento extremo (no Corvo) e uma coragem destemida (caça à baleia no Pico), mas sobretudo uma partilha e espírito de comunidade admiráveis.
As Ilhas Desconhecidas é uma das obras maiores de toda a nossa literatura, em especial para quem aprecia que coloquem em palavras sublimadas as nossas gentes e o nosso território.

Refeição Completa

Que mais pedir de um pedaço de terra banhado pelo mais belo que o Atlântico tem para nos oferecer, pleno de paisagens de beleza asfixiante, falésias escarpadas, declives verdejantes, casas pitorescamente empoleiradas; natureza – sobretudo – mas também cultura; um turismo para todos os gostos, seja de passeios de barco, automóvel, carros de cesto ou, muito simplesmente, a pé; caminhadas na cidade, junto ao mar ou na montanha?
Será pedir muito que a sua oferta gastronómica esteja à altura? Poderíamos até abusar da sorte se o pedíssemos, mas não é necessário – ela é real.
Alguns exemplos:
Iniciemos o pequeno-almoço acompanhando os costumeiros chá, café ou leite com fruta em abundância, com a banana da madeira à cabeça.
Ao almoço, se nos encontrarmos na zona velha do Funchal, perto do Mercado dos Lavradores, será uma perda inestimável não parar no Jaquet. O casal de irmãos que nos recebe só cozinha e serve peixe, mas isso não quer dizer que seja restrito aos apreciadores do dito. Nas paredes vêem-se inúmeras mensagens e recados deixados pelos anteriores comensais e num deles pode ler-se qualquer coisa do género “não gostava de peixe mas depois desta refeição mudei de ideias”. Simpáticas balelas, pensou esta escriba que se recusa a comer qualquer peixe quando a tal não é obrigada pela sua mãe. Mas como não existia mesmo outra saída para aguentar o resto da tarde sem ser de barriga vazia, um mito caiu: o da impossibilidade de apreciar peixe, ainda por cima espada e logo frito. Uma inesquecível delícia a que não é alheio o esmerado tempero.
A meio da tarde, e para adoçar a boca, não calha nada mal um rebuçado de funcho. Para o lanche, esse, uma boa opção será o típico bolo de mel (digo será porque, infelizmente, a minha esquisitice não se fica pelo peixe).
Ao jantar é difícil escapar à carne, designadamente, às famosas espetadas em pau de louro no tão elogiado “As Vides” no Estreito de Câmara de Lobos. No entanto, antes de nos lançarmos numas centenas de gramas da melhor e mais saborosa carne do país, uns pedaços de bolo do caco ajudam a entreter a (curta) espera.
E já que estamos para estes lados, nada melhor do que acabar a noite num dos bares de Câmara de Lobos, como fazem os funchalenses, tomando um copo de poncho (pequenino, uma vez que há que voltar a conduzir para o Funchal).
E com este pequeno enunciado de um dia gastronomicamente perfeito cometo um sem número de injustiças: deixar de fora diversos pontos onde uma refeição será igualmente especial e inesquecível. Abro, no entanto, espaço para mais dois deles – o Jango, também na cidade velha do Funchal, e o restaurante da Fajã dos Padres.

Ponta São Lourenço

A tão desejada e há muitos anos ansiada volta à Madeira estava envolta em muita expectativa para descobrir uma Madeira quase totalmente desconhecida, plena de paisagens fantásticas e exuberantes.
Essas expectativas não saíram frustradas.
No entanto, o tempo nublado e a chuva frustraram-nos a maior parte das fotografias. Dá para imaginar o que é que isso significa para mim, que quase não consigo conceber uma viagem sem um constante disparar da máquina fotográfica?

Mas como não há bem que sempre dure, também não há mal que nunca acabe.
Vai daí, chegadas à Ponta de São Lourenço obtivemos, enfim, um cenário quase em grande que pôde ser deixado em foto para mais tarde recordar.

Para estes lados da Ponta de São Lourenço pensámos fazer uma das nossas sonhadas caminhadas mas no turismo desaconselharam-nos por alguma perigosidade em parte do troço. Não tivemos, assim, oportunidade de o verificar in loco.
Situada no concelho do Caniçal, esta é uma península onde se encontra o ponto mais oriental da ilha da Madeira, 9 km de comprimento e 2 km de largura, já incluídos os seus dois ilhéus, o Ilhéu da Cevada e o Ilhéu da Ponta de São Lourenço. Daqui se avistam nitidamente quer as ilhas Desertas quer a ilha do Porto Santo e se realiza o quão perto ficam da principal ilha do arquipélago.
Ao contrário da paisagem mais comum no resto da ilha, por aqui não existe a mesma vegetação luxuriante e a cor escura e algo avermelhada da terra não nos deixa dúvidas de que estamos numa ilha efectivamente de origem vulcânica.
Ainda que do lado da belíssima enseada de Baia de Abra a terra não esteja exageradamente distante em altura do mar, as falésias do outro lado, essas, e à semelhança dos outros cantos da ilha, continuam enormes e assustadoramente belas.

Um Cantinho Especial

Apesar de a Ilha da Madeira não ser muito extensa, existirão certamente recantos em número considerável onde nos possamos sentir únicos. Únicos no sentido literal e únicos pela sorte de existirem locais onde o tempo parece não ter passado.
A Fajã dos Padres será um deles.
Perto do Cabo Girão, seguimos em direcção à freguesia da Quinta Grande e, mais pergunta menos pergunta, havemos de dar com o local. O acesso à Fajã dos Padres, colocado de lado o barco e o helicóptero, é efectuado através de um elevador instalado no topo da falésia a cerca de 250 metros de altitude. Coisa pouca, se compararmos com os 580 metros do Cabo Girão. A este propósito, não confundir o teleférico para as Fajãs do Cabo Girão (o do Rancho, aberto desde 2003) com o elevador para a Fajã dos Padres (mais antigo).

A viagem de cerca de 4 minutos neste elevador, uma estrutura que parece algo arcaica e monstruosa, tem tudo para ser uma experiência apelativa e inesquecível. Funciona como um miradouro com uma considerável altura, com vista para a imensidão do Atlântico, as falésias que nos rodeiam e a pequena fajã bem lá em baixo. No nosso caso, para além destes factores, tornou-se igualmente marcante por termos ficado presas dentro da dita caixa monstruosa, uma vez que a sua porta teimava em não abrir. Como o manobrador da geringonça já nos tinha avisado que os cabos precisavam de descansar cerca de 5 minutos entre cada viagem, logo começamos a especular sobre o que de mal teríamos feito para não conseguirmos sair dali para fora. Benditos telemóveis que nos põem em contacto imediato com quem sabe das coisas e nos recomenda calma até que o elevador assente convenientemente seguindo os seus tempos.
No entanto, este inconveniente levemente assustador foi francamente ultrapassado logo à saída do elevador que nos trancou. Iniciando mais uma descida, agora pelos nossos próprios pés, vimo-nos imediatamente rodeadas de plantações de vinha, banana, manga, abacate (do qual trouxemos um delicioso exemplar esquecido no chão) e também, ainda que sem a mesma abundância, papaia, figo, maracujá e outros frutos tropicais.

Bem sei que estava a chuviscar um pouco, mas dá para imaginar o que é encontrarmo-nos numa língua de terra, espremida entre o mar e a enorme falésia, com plantações que quase nos cobrem o corpo, caminhando sob as videiras em direcção aos 3 ou 4 casebres que compõem o povoado, retornar e dirigir-nos ao calhau para sentir o mar ainda mais de perto e apenas nos cruzarmos com o Sr. Eng.º, o dono da Quinta que havia ido ao encontro do elevador para tomar conta da ocorrência levemente assustadora?
Descrevo o paraíso? Não, mas a existir não deve ficar muito longe daqui.
Este pedaço de terra, para além da exploração da agricultura e da vinha, funciona como estância turística (alojamento num dos casebres referidos) e possui um restaurante que é presença nos roteiros gastronómicos do nosso país. Parece algo estranho que uma cozinha instalada no fim do mundo possa ser referência, precisamente pelas dificuldades que terá no acesso aos melhores produtos. Ok! Como dizia o reclame “prova e verás”. Só para me ficar na batata, direi que há muito que não comia batatas tão saborosas.
Concluindo a descrição do local que mais lamentaria não conhecer na Madeira, falta referir que a Fajã dos Padres deve o seu nome aos padres da Companhia de Jesus que aqui se instalaram durante mais de um século, tendo sido eles os responsáveis pela introdução do vinho Malvasia. Este vinho típico da Madeira (os outros famosos são o Bual, Verdelho e Sercial) tem aqui na Fajã as suas melhores uvas.
Uma nota mais: durante o Inverno, a Fajã recebe ondas de qualidade, daí que mereça vir até aqui acompanhada de prancha de surf.
Até por isso, e com ou sem elevador, a mana diz que era capaz de viver num sítio destes. Pudera!

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Pico do Areeiro – Pico Ruivo

O tempo na ilha é mesmo estranho. Muda de repente, mesmo que após olharmos para o céu fiquemos com a certeza de que não, desta vez não existe qualquer possibilidade do tempo nos pregar uma partida.
Vem isto a propósito do nosso desafio de “escalarmos” até ao Pico Ruivo (1862m) desde o Pico do Areeiro (1818m), em pleno maciço montanhoso central da ilha da Madeira.

Assim, no dia de Páscoa preparamos o equipamento (botas, camisola de polar, impermeável, lanterna e farnel), deixámos a mãe no Pico do Areeiro juntamente com umas revistas e despedimo-nos para até daí umas 3 – 4 horas.
O tempo que se fazia sentir e o sol pareciam estar a nosso favor e saímos do Pico do Areeiro com uma simples t-shirt.

A descida, de cerca de 15 minutos, até ao miradouro do Ninho da Manta está ao alcance da maioria das pessoas que vêm até ao Pico do Areeiro (o pior é a subida mas como a distância não é muita…). Neste poiso, onde se crê que a ave de rapina de mesmo nome nidificava, a vista para a Fajã da Nogueira (direcção Balcões) deve ser fabulosa. Digo deve porque no momento em que lá estivemos só se avistaram nuvens, ou melhor, um nublado tão cerrado que transformou a paisagem num intenso e impenetrável manto branco. Em contrapartida, para o lado esquerdo, direcção Curral das Freiras, conseguimos ter certeza de que a vista desafogada de nuvens é esmagadora, um cenário de verde luxuriante. Digamos que tivemos 50% de sorte, mais ainda se pensarmos que a possibilidade de encontrarmos um nevoeiro cerrado por estas bandas é enorme.

Continuando a caminhada, e dedicando-nos exclusivamente a olhar o visual do nosso lado esquerdo, por entre a monotonia (atenção que nem sempre a monotonia é negativa!) basáltica e inundada de urzal, e após sairmos do túnel do Pico Gato, chegamos à conclusão de que seremos forçadas a contornar o Pico das Torres (1851m) e não a atalhar pelo túnel deste Pico que nos permitiria uma passagem rápida e mais directa da montanha rumo ao nosso objectivo final, uma vez que aquela área se encontrava em manutenção. Uma estafa e uns km a mais. Esta intensa subida pela escadaria escavada na rocha do Pico das Torres só é comparável (dizem) à parte final da chegada ao Pico Ruivo. Só dá vontade é de recolher para uma pausa retemperadora numa das grutas escavadas nos tufos vulcânicos que vamos encontrando pelo caminho. Mas o pior é que não estiveram muito longe de serem por nós utilizadas como abrigo, não do cansaço, mas antes da chuva. Pois é, o tempo havia mudado por completo e neste momento já nem o lado esquerdo tinha visibilidade. Para ser mais concreta, nem o esquerdo, nem o direito, nem um palmo à frente. O nevoeiro cerrado era tanto que apenas a chuva inclemente lhe fazia frente.
Alcançado o Pico das Torres dêmos com uma excursão de caminhantes alemães, com guia, e foi aqui que realizámos, enfim, que as nossas previsões de 3 – 4 horas para chegar ao Pico Ruivo e retornar ao Pico do Areeiro estavam completamente furadas. Culpa do túnel fechado para manutenção? Não só, ainda que isso nos pudesse ter poupado mais de meia hora por trajecto. A questão é que havíamos caído no erro de basear as nossas contas dos 6km em 3 – 4 horas como se este fosse um percurso circular, à semelhança do Rabaçal e dos Balcões. Esquecêramo-nos, porém, que nestes dois não há forma (ou é rara e arriscada) de retornar sem ser voltando pelo mesmo caminho, daí que as indicações de km e tempo sejam para a ida e a volta. Já no que respeita ao percurso entre os picos mais altos da ilha não acontece assim. Do Pico Ruivo pode seguir-se para a Achada do Teixeira e depois tomar a estrada.
Sabemos agora que o mais inteligente é fazer uma só direcção do percurso e ter um carro que nos transporte de novo para o Funchal (ou onde estivermos alojados). Com ou sem viagem organizada. Aí, sim, as nossas contas iniciais bateriam certo.
Erro primário, portanto; resultado óbvio, como consequência: meia volta no Pico das Torres, após cerca de 1h 20m, a pouco menos de meio caminho para o objectivo final do Pico Ruivo.
Ainda assim, um sabor a troféu, afinal de contas o Pico das Torres é o 2.º mais alto da ilha. E, servindo de consolo, o temporal que se abateu sobre as nossas cabeças e corpo, deixando-nos absolutamente encharcadas, pouco nos permitiria usufruir da paisagem e da própria caminhada.
Moral da história? O retorno à Madeira é mesmo um imperativo. A todas as caminhadas que julgávamos nos iriam ficar a faltar juntou-se a mais emblemática de todas elas.