Madeira, um Passeio pela Costa Norte

Robert Machin, um aventureiro inglês que por acaso veio a dar à costa da Madeira lá para meados do século XIV terá tido o prazer de ser o primeiro habitante da ilha. Depois dele, foi apenas em 1419 que os primeiros navegadores portugueses chegaram à Madeira (e um ano antes a Porto Santo), assim a designando pelo muito arvoredo que logo viram diante si. Mas, desde esse primeiro momento, viram mais: a sua muita penedia e a abundância de ribeiras. A percepção da beleza e formosura da ilha foi imediata. E não mais tardaram a povoá-la, divindindo-a em duas capitanias: a do Funchal para Gonçalves Zarco e a do Machico para Tristão Vaz, esta última correspondendo à costa norte da ilha, da Ponta da Oliveira (a sul) à Ponta de Tristão (a norte).

Depois de muitas viagens à Madeira onde nunca deixámos de visitar o Funchal, desta vez resolvemos seguir exclusivamente por outras paragens, tomando como nossos os caminhos que outrora foram de Tristão, embora não exactamente com os mesmos limites. Com início na Ponta de São Lourenço (a sul) e final na Ponta do Pargo (a norte), esta é a Madeira mais parecida com a que originalmente testemunharam os seus primeiros ocupantes. Uma zona da ilha mais tropical, mais luxuriante e mais brutal na sua costa alta e acidentada. Plena de penhascos, ravinas e vales escarpados. E de um verde ainda mais profundo do que aquele que nos habituámos a (re)conhecer na Madeira. Mais intocada, enfim. Aliás, este é o reino da Laurissilva, a floresta declarada pela Unesco como património natural.

Claro que há por lá aglomerados urbanos. Aliás, uma das coisas que impressiona na ilha é como as suas casas surgem a qualquer momento, mesmo nos lugares mais improváveis e impossíveis. Mas na costa norte estes aglomerados de casas, quase sempre rodeados por hortas, parecem ter um ar mais espontâneo. E claro que a costa norte foi igualmente tocada pelo progresso materializado nos novos túneis – se o continente viu a sua paisagem transformada pelas muitas estradas à boleia dos fundos da CEE, à ilha da Madeira coube transformação ainda mais impactante. O maior túnel da ilha fica, precisamente, na costa norte: o Túnel do Cortado, que liga o Faial a Santana, é o segundo mais longo de Portugal, com 3170 metros, apenas menor do que o Túnel do Marão.

Feita esta introdução, iniciaremos então o nosso passeio pelo ponto mais oriental da ilha, a Ponta de São Lourenço – assim denominada pelo primeiro capitão que aqui chegou após apelar ao santo de mesmo nome para acalmar o vento. Este é um lugar como nenhum outro na Madeira e o vento é um dos motivos. Paisagem quase despida, coberta com uma vegetação rasteira, a aspereza e o cenário agreste são dominantes, acompanhada de mar azul e rocha ocre onde o verde teima em marcar presença. Em resumo, uma paisagem fenomenal, absolutamente única no nosso país. Fizemos o percurso pedestre da Ponta de São Lourenço, de que daremos conta em futuro post, mas basta admirarmos o lugar desde o Miradouro da Ponta do Rosto para sentirmos o seu poder.

O Caniçal e Machico haviam ficado para trás, povoações com enseadas, mas a partir da Ponta de São Lourenço para norte é mais difícil encontrar pontos na costa para os barcos aportarem. O recorte dos penedos que dão directamente para o mar impressiona e mesmo em terra esta parte da costa até ao Larano é apenas acessível a pé.

Porto da Cruz é uma das povoações mais simpáticas de toda a costa madeirense. O melhor spot para o surf nesta vertente da ilha, tem uma longa praia de pedra com uns penhascos enormes como vigia – a Maiata – e uma mais pequenina em forma de baía, igualmente de pedra, com uma queda de água enorme à espreita – a Alagoa. E o Porto da Cruz é especial ainda por ser aqui que resiste um dos três engenhos activos na ilha. Há registos desta actividade na povoação desde o século XVI e o Engenho do Norte, a laborar desde 1927, para além de se manter em funcionamento é o único engenho da Europa movido a vapor. A tradição do fabrico de açúcar, o “ouro branco”, moldou a personalidade da Madeira em diversos aspectos e neste engenho continua a produzir-se aguardente e mel para nos oferecer hoje os tão apreciados poncha e bolo de mel.

Entre o Porto da Cruz e o Faial fica uma das paisagens mais emblemáticas e monumentais de toda a ilha: a Penha de Águia. É um promontório praticamente à beira mar cujo ponto mais alto tem 589 metros. A sua forma maciça é singular, parecendo achatada e plana no topo, mas diz quem lá subiu que tal não é assim, antes possui três vales e três lombos. Uma curiosidade: em Fevereiro de 1992 aconteceu uma derrocada na Penha de Águia que os habitantes julgaram ser um terramoto, tal o barulho que escutaram. As rochas caídas foram tamanhas que depositadas na base da arriba acabaram por criar uma espécie de plataforma ganha ao mar, ou seja, uma nova fajã.

Já no Faial, no miradouro do Guindaste junto ao mar, este pequeno pedaço de terra é perfeitamente perceptível. O desenho da costa até à Ponta de São Lourenço parece uma pintura. Imagem praticamente igual tivemo-la durante quase uma semana desde a varanda do quarto do nosso hotel, logo acima no Cortado. A vertente oriental da ilha é a ideal para admirar o nascer do sol e todas as manhãs, antes do momento do sol raiar, levantámo-nos ansiosas para o poder receber. Infelizmente em nenhum dos dias conseguiu o astro-rei romper as nuvens de forma a estender na plenitude os seus raios no mar. Ainda assim, fica uma bela recordação da despedida da madrugada.

Voltando ao Faial, para além da mais nova fajã madeirense, do Guindaste conseguimos perceber mais uma tranquila cascata a despenhar-se directamente no mar. E por aqui, na zona onde a Ribeira do Faial se encontra com o Atlântico, é muito interessante perceber como os poderes públicos decidiram ocupar esta área sujeita a inundações. Sensatamente, não há cá habitações, apenas equipamentos recreativos e de lazer como uma zona balnear de praia e piscinas, parque infantil, campo de jogos e até uma pista de kart.

O nome Faial vem do facto de aqui terem existido muitas faias e a povoação é antiga. Em 1531 já existia uma capela, diz-se que no sítio onde Nossa Senhora terá aparecido, tendo o Faial passado a ser lugar de romagem e de festa de gente vinda de toda a ilha. Foi também terra de engenhos e de um bom porto, resistindo até aos nossos dias num ponto mais elevado o seu Fortim do século XVIII. A implantação da vila é a imagem exacta do que esperamos do interior da Madeira: um terreno acidentado extremamente verdejante. A paisagem e seus elementos hão de repetir-se ao longo da viagem (penhascos, cascatas, vales, fajãs), mas não cansam nunca.

Na continuação do Faial, a costa traz-nos um lugar de nome Fajã do Mar. Pretendíamos caminhar adiante, em direcção a mais uma cascata, na expectativa de que a pudéssemos ter ali à mão e sermos por ela salpicadas. Mas, afinal, qual das várias cascatas nos iria servir? A decisão ficou facilitada pelo caminho vedado. Sem lamento, porém, a vista acabou por ser suficiente.

Uma ponta de rocha mais saliente no mar faz a divisão entre a Fajã do Mar e a Rocha do Navio, outra fajã. O seu miradouro é fabuloso e aqui, sim, lamentámos não ter descido no teleférico (ou pela vereda) até àquele pedaço de terra isolado que parece quase esquecido do mundo. De cima vê-se o esbelto Ilhéu da Viúva e mais uma queda de água. E em baixo fica a Reserva Natural do Sítio da Rocha do Navio, uma área protegida marinha para lá da pequena língua de terra onde se veem alguns campos agrícolas com plantações de bananas, uvas, semilhas e cebolas. E porquê o nome Rocha do Navio? Cortesia de um naufrágio holandês que aqui aconteceu no século XIX.

Andamos pelo concelho de Santana, região geograficamente acidentada, do mais belo que a ilha tem para oferecer, e lugar da única cidade da costa norte madeirense. A Santana era o mais longe que os turistas chegavam nas suas visitas à ilha até a construção dos túneis ter encurtado a viagem para 30 minutos desde o Funchal (e metade disso desde o aeroporto). Vínhamos sobretudo para ver as casinhas típicas triangulares de madeira com telhados cobertos de colmo. Parecem casas de brincar, mas tradicionalmente eram as habitações de humildes agricultores a quem não restava mais do que usar os materiais à mão de semear: madeira das muitas árvores e colmo da palha restante do cultivo de cereais. Na sede de concelho há um Núcleo das Casas Típicas de Santana, um género de espaço museológico que nos mostra as tradições a elas associadas, mas o mais giro e autêntico é constatar que andando pela região, predominantemente agrária, damos de caras com vários exemplares destes, uns melhor conservados do que outros e hoje sobretudo destinados a palheiros (embora nesta casinha da foto o telhado de colmo tenha sido substituído por um de zinco).

É na área do concelho de Santana que saem das melhores caminhadas da ilha. Pico Areeiro – Pico Ruivo, Balcões e Caldeirão Verde são apenas algumas das que devem constar de qualquer plano dos amantes dos percursos pedestres. Mas não é necessário dar muito à sola para se visitar o Parque das Queimadas e se perceber a natureza da Madeira em todo o seu esplendor.

Prosseguindo o nosso passeio pela costa, o Calhau de São Jorge é outro dos pontos a não perder. Tem uma praia de calhau rolado que dá directamente para o Atlântico e uma espécie de lagoa colada a ela para banhos mais protegidos. Mas a poucos passos desta zona balnear, caminhado sempre entre a falésia e o mar, naquele que foi o núcleo primitivo de São Jorge, podemos testemunhar as ruínas de antigos engenhos de cana-de-açúcar junto a um bananal com vista para o Atlântico. Em tempos idos foi um mais importantes entrepostos comerciais da costa norte. Hoje o ambiente que aqui se vive é incrível, mais um daqueles apartados do mundo onde nos sentimos em paz apenas com a companhia da natureza bruta.

E lugares destes não faltam à ilha. É só espreitá-los. Foi o que fizemos depois de passarmos por uns vinhedos, indo até ao miradouro da Vigia, ali perto. A visibilidade para a costa noroeste não era das melhores, mas conseguimos vislumbrar umas casinhas abaixo numa fajã, mais um daqueles lugares que levam o selo de vida inóspita e de não serem muito tocados pelo Homem. O caminho de estrada até à Rocha de Baixo é horrível em pendente e estreiteza e hoje, já em casa, não conseguimos deixar de imaginar como teria sido se ao invés de ficarmos sem a caixa das mudanças do nosso bólide do rent-a-car no Paul da Serra tal tivesse acontecido aqui.

Em São Jorge, no sítio da Achadinha, fica um dos últimos moinhos de água em funcionamento, não só exemplo de vida e arte de outros tempos, mas ainda utilizado pela população para moer o milho. Infelizmente não tivemos tempo para o visitar, assim como não conhecemos o Roseiral em Arco de São Jorge. Antes, porém, é obrigatória uma paragem no Miradouro da Beira da Quinta, com uma panorâmica incrível de quase toda a costa até ao Porto Moniz, com destaque para a mais próxima Ponta Delgada e sua formosa plataforma estendida no mar.

As estradas por onde vamos passando dão-nos paisagens exuberantes, quer no carregado de verde que estão quer no terreno declivoso e paredes rochosas que insistem em vencer. A este ponto já não nos surpreendia mais uma cascata no caminho (mentirinha, estas nunca são em excesso e trazem sempre emoção), a atestar as muitas ribeiras que correm por esta parte da ilha. E é por altura da Boaventura que percebemos a falta que os túneis fazem. A partir da terceira passagem a beleza estrondosa pelo serpenteante vale da Boaventura passa a ser uma demorada viagem e sentimo-nos como locais, perguntando-nos porque é que estas curvas ainda aqui estão e quando chegará o túnel que escavará fundo estes impossíveis penhascos? E, quando ele chegar, havemos de nos arrepender e sentir falta de contornar à exaustão este vale fantástico onde os rochedos passam facilmente dos 700 metros a dois passos do mar.

É na Boaventura que entendemos melhor o que quis dizer Gaspar Frutuoso, o historiador do século XVI, na sua obra “Saudades da Terra”, dedicada às ilhas da Macaronésia, quando escrevia ter a Madeira “grandes serranias e altos montes, terras dependuradas e não há terra chã senão a bocados”, de tal forma que “das dez partes da ilha não aproveitam duas “. Os socalcos, mais conhecidos localmente por “poios”, são uma forma de contrariar a topografia e possibilitar a agricultura, marcando belamente a paisagem.

Da Boaventura ao Porto Moniz é um tirinho proporcionado por um sem número de túneis. Não há bela sem senão e a desventura da demora leva-nos a passar por Ponta Delgada e São Vicente sem nos determos. É entre São Vicente e Seixal que fica uma das quedas de água mais emblemáticas da ilha: o Véu da Noiva. Entre túneis, uma folga deixa-nos perante mais um cenário fabuloso. Na costa escarpada uma torrente de água jorra pelo rochedo abaixo. Apesar do magnetismo desta imagem, ainda temos espaço para perceber como era a estrada antiga por onde ainda passámos nos anos 80 e 90. A estrada passava rente ao mar, aninhada no rochedo, e por vezes existiam pequenos túneis algo rudimentares. Foi tanto a erosão, com o perigo real da queda de pedras, como os novos e mais robustos túneis que levaram ao total abandono e mesmo destruição em diversos pontos desta antiga estrada que era, sem favor, das mais bonitas do mundo. Impressiona, sobretudo, os altos penhascos que se erguem directamente do mar.

No Seixal fica uma das praias mais especiais da ilha. A sua areia negra contrasta na perfeição com o azul do mar e o verde dos penhascos que a envolve. Mas há na vila forte concorrência no quesito banhos de mar: a Poça das Lesmas e as Piscinas Naturais do Seixal, de origem vulcânica, mais um belo contraste de cores proporcionado pelos diversos elementos naturais.

Um dos postais mais repetidos da Madeira são os ilhéus na foz da Ribeira da Janela. É uma composição curiosa de um conjunto de ilhéus, imagem que vai variando conforme o ponto de vista donde se observa. O nome, é claro, tem explicação: um destes ilhéus possui uma saliência natural na sua parte superior, dando ares de uma janela.

E assim chegamos ao Porto Moniz, em cuja Ponta do Tristão fica o ponto mais a norte da ilha da Madeira. A vila é mais conhecida pelas suas piscinas naturais de origem vulcânica, mas a sua implantação geográfica, bem observada do miradouro que desce para a povoação, é bem bonita. Ao negro das rochas formadas pelo basalto da lava que cercam as piscinas junta-se a igualmente negra muralha do forte que em tempos protegia o Porto Moniz.

Já na costa ocidental da ilha, seguimos até à Achadas da Cruz onde um desvio nos leva até ao topo do Calhau das Achadas, a fajã mais fabulosa da Madeira, mesmo para quem já teve a oportunidade de ter estado na Fajã dos Padres. Em post a publicar brevemente daremos conta da descida e passeio no Calhau, ficando-nos por agora por abrir o apetite com esta imagem da miradouro junto ao teleférico.

Estamos já na Área Protegida da Ponta do Pargo. Antes de chegar ao ponto mais ocidental da ilha, uma paragem para admirarmos plenas de emoção uma última queda de água, a da Garganta Funda. Os adjectivos já estavam esgotados, pelo que restou abrir a boca de espanto mais uma vez diante dos cerca de 140 metros de altura desta queda, uma das maiores da Madeira.

Ponta do Pargo, “a derradeira ponta sobre o mar, donde parece que não há mais terra”, como escreveu Gaspar Frutuoso, é o lugar onde os primeiros povoadores avistaram o maior peixe que jamais haviam visto, um enorme peixe que parecia um pargo. E assim ficou o nome. A vista da Ponta do Pargo, destino final deste nosso passeio pela costa norte da ilha da Madeira, é perfeita para a despedida. Quer no miradouro junto ao Farol quer no miradouro do Fio, pouco mais adiante, temos a Fajã Grande sob mirada. Uma última mirada bárbara.

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  1. Sempre um lugar bonito para….andar sem parar!

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