Jardins do Palácio Pimenta

O Palácio Pimenta fica no Campo Grande e é um dos poucos exemplos de palacetes e quintas senhoriais do século XVIII que chegaram aos nossos dias nessa zona da cidade que era então um arrabalde de Lisboa.

Crê-se que o palácio tenha sido construído no primeiro quartel do século XVIII a mando de D. João V para aí instalar Madre Paula, uma freira do Mosteiro de Odivelas que seria sua amante. Ou, talvez mais certo, que tenha sido a família Sousa Mexia, frequentadora da corte e próxima de D. João V, quem por volta de 1740 tomou a iniciativa de aqui construir um palacete fora do centro da cidade para receber a nobreza e a alta sociedade lisboeta. E para isso teriam de ter um bom jardim, tendo lançado as bases da sua construção. A propriedade foi mudando de mãos ao longo do tempo, no início do século XIX chegou ao capitalista Manuel Joaquim Pimenta Carvalho – de quem tomou até hoje o nome – e em 1902 acabou por ser vendida em hasta pública. Tamanha era a propriedade e tantas quintas abrangia que acabou retalhada. Até que no início do século XX entra nesta história o terceiro indivíduo fundamental, o engenheiro Jorge Graça. Foi ele o responsável não apenas pela manutenção, mas também pela nova vida do jardim de buxo e da mata adjacente ao palácio.

O Palácio Pimenta acabou por ser adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa em 1962 e hoje é o núcleo-sede do Museu de Lisboa (também conhecido por Museu da Cidade). Com projecto de Raul Lino, muitas alterações, trasladações e aquisições foram sendo feitas desde aí. Não é o museu nem as áreas de exposições temporárias – os Pavilhões Preto e Branco – que nos ocuparão desta vez. Antes o que os rodeia e lhes dá igualmente vida.

São três os espaços verdes aqui existentes: o largo relvado, a mata-bosque e o jardim de buxo. Comecemos por este último. De uma das salas da palácio acedia-se directamente ao jardim de cerimónia, mas hoje fazê-mo-lo após entrarmos no pátio do palácio e à esquerda cruzarmos o portão rasgado num muro alto.

O jardim de buxo é um emaranhado de recortes vegetais ao redor de umas fontes, criado propositadamente por Jorge Graça sem as preocupações de ordenamento que se vêem noutros jardins com origens no século XVIII. Na época o jardim estava carregado de flores com diversas cores e cheiros, entendendo o seu proprietário que os jardins de buxo eram para ser sentidos. Mas talvez se preocupasse que fossem igualmente vistos, daí a janela aberta no muro ao exterior, que tanto deixa ver para fora como para dentro.

Persistem as trepadeiras no muro, mas em 2010 este jardim foi objecto de uma enorme transformação. Num projecto de Joana Vasconcelos, pegou-se em inúmeros moldes antigos de peças de Bordalo Pinheiro e a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha fez o resto.

São centenas as peças de cerâmica que hoje decoram o agora denominado Jardim Bordalo Pinheiro, bichos como caranguejos, lagartixas, macacos, caracóis, e vegetais como cogumelos, couves e muito mais. É provavelmente o jardim mais alegre de Lisboa.

Saídos do jardim de buxo entramos no que era a mata-bosque e que se pretendia que fosse um espaço de continuidade relativamente ao anterior. No entanto, é visível a diferença de ambientes entre estes dois mundos. Neste bosque com árvores de grande porte de diversas formas e espécies (ciprestes, sobreiros e zambujeiros) encontramos a um canto um painel de azulejos e no centro um lago com estatutária exuberante.

O lago foi construído em 1833, mas as esculturas dos tritões que o embelezam só foram trazidas para aqui em 1982, guardadas que estavam nos armazéns da Câmara depois de retiradas ao antigo Passeio Público que deu origem à Avenida da Liberdade. Também o obelisco no centro do lago veio para aqui depois de ter estado defronte da Igreja do Loreto, no Chiado. Não importa a sua pouca história, o lago e seus elementos decorativos formam um conjunto bonito, acrescentado pelo quase escondido Pavilhão Branco e pelo quiosque verde típico com esplanada onde o sossego apenas é perturbado pelo grasnar dos pavões – este é um dos espaços de Lisboa onde podemos admirar estas belas espécies.

Caminhando por este pequeno bosque chegamos a pensar que está algo desmazelado e até comporta um descampado. Mas também essa imagem é propositada, correspondendo o dito descampado a uma clareira que fazia as vezes de campo da bola e o pretenso desmazelo a uma liberdade e melancolia que se entendiam próprias da natureza.

Contíguo ao bosque temos uma alameda de tílias com figuras da antiguidade e da mitologia. Ao seu lado estende-se o enorme relvado destes jardins, com o Pavilhão Preto ao fundo. No espaço do que é hoje o relvado existia um terreno de semeadura que a construção da 2ª Circular veio cortar parte e destruir o tanque que o alimentava da necessária água. Vê-se uma estufa – vazia -, proposta de Raul Lino para abrigar orquídeas que não chegou a materializar-se. E vê-se a estátua de Eça de Queirós que nos habituámos a ver no Largo Barão Quintela. E então ficamos a saber que a que está neste relvado dos Jardins Pimenta é a original, transladada do Largo onde foi deixada uma réplica para conter o vandalismo. No final, percebemos, não foi preciso entrar no Museu de Lisboa para viajarmos pela história da cidade, conhecendo diversas curiosidades pelo caminho.

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